31 de dezembro de 2011

O TESOURO DAS MINHAS RIQUEZAS

– Sossega, minha pomba bela, a minha paz é contigo.


— O amor divino em ti é superabundante, são cadeias do mais fino oiro para prenderes os pecadores. Minha filha, esposa querida, que mereceste ser por Jesus elevada à maior altura, dei-te os mais honrosos títulos, dei-te toda a riqueza do meu divino coração. És rainha, eu sou rei. Dei-te o reinado, dei-te a humanidade, filha do meu sangue. Dei-te o meu amor: possui-lo no mais alto grau e perfeição.
– Basta, basta, meu Jesus. Eu sei que falais de Vós, de mim não podeis falar assim. Eu humilho-me e envergonho-me ao ver a minha miséria, gostava mais que mostrásseis que a conheceis e que dissésseis o muito que Vos ofendi.
– Sossega, minha pomba bela, a minha paz é contigo. Com a consolação e alegria que me dás esqueço as tuas faltas, faltas que permito para esconder as minhas maravilhas, o tesouro das minhas riquezas, o meu amor infinito. Coragem, estou contigo! O rei está sempre ao lado da sua rainha, não abandona o seu trono. Diz, minha filha, ao teu paizinho que o inferno nada pode contra o céu nem os homens contra o seu criador. Dá-lhe o meu amor com toda a abundância. Diz-lhe que é grande a consolação que me dá pela sua obediência e grande humildade. A sua libertação chega, a minha divina palavra não falta. Ele vem junto de ti antes da tua morte. Tenho-vos mais unidos do que se ele sempre estivesse ao teu lado a guiar-te e a dar luz à tua alma. A vossa união é do céu e não da terra. Que esteja firme, sempre firme. Esta recomendação de firmeza para ele e para quem a tenho dado não quer dizer que não estão firmes, é uma prova de que estão na verdade e que neles nada deve haver de medo nem temor. Diz ao teu médico que os combates do demónio concorrem para o agravamento dos teus males. Haja, pois, da parte dele toda a vigilância. Temos de conservar-te a vida até que raie o dia para nunca mais se escurecer. Diz-lhe que a ele e a todos os que com ele coloquei a teu lado para te ampararem e defenderem a minha causa dou o nome de vassalos. São eles que defendem a guerra contra o rei divino e contra a sua rainha e esposa.

(Sentimentos da alma, 6 de Janeiro de 1945).

O QUE É DE DEUS NÃO MORRE

– Minha filha – dizia a Mãezinha – dá ao mundo a vida que de mim recebes.

— Coragem a todos, o que é de Deus não morre; é certo o triunfo. Vou dar-te o sangue do meu divino coração, a minha vida divina da qual só vives e dás às almas. Dou a tua irmã como prémio da sua dor junto à tua cruz a promessa do céu sem o purgatório. Ainda darás essa alegria a mais alguém. Não te digo tudo hoje pelo muito que te custa.
Dito isto, do Coração divino de Jesus saíram muitos raios doirados que vieram ligar-se ao meu coração. O sangue de Jesus principiou a passar para mim, senti-me viver. Jesus cobriu-me de carícias e chamou pela Mãezinha.
– Dá, minha mãe, à tua filhinha a vida da graça, da pureza e amor. Levanta-a, que está caída. Dá-lhe tudo o que é teu para ela dar às almas. Guarda-a, que é tua e minha.
A Mãezinha tomou-me em seus braços. Ao tempo que me acariciava, juntou os lábios delas aos meus. Foi um sinal de alimento celeste; encheu-me, fiquei forte.
– Minha filha – dizia ela – dá ao mundo a vida que de mim recebes. A ti o confiei, eu e Jesus, em ti o guardamos, está fechado em teu coração. Não temas, não te é roubado por satanás. Dás às almas que te rodeiam e a quem amas a graça, a pureza e o amor que de mim recebes. Diz-lhes que tudo lhes manda a Mãe de Jesus. Assim como passa dos meus lábios para os teus, tudo passará dos teus para os deles. Com um beijo teu tudo receberão. Quando, com este pensamento de dares o que te dou, beijares alguém, é o Espírito Santo que te inspira, é para essa alma receber o que agora te dou.
Neste momento veio Jesus, fiquei entre Ele e a Mãezinha como numa fornalha de fogo vivo. E dizia-me:
– Vive, vive, filha amada, vive com esta vida do céu. Recebe e ama. Sofre e dá amor. A dor e o amor são o triunfo de todo o combate. Coragem, o teu calvário é o de maior salvação. Nenhuma gota do teu sangue se perderá; é por meu amor, é para as almas.
Deixei Jesus e a Mãezinha. Passados uns momentos, voltei para Eles e fiquei por algum tempo como que a dormir naquela fornalha de amor. Com as horas que passaram já tudo fugiu. Sinto-me no cimo do meu calvário a bradar ao céu:
– Estou sozinha, estou sozinha. Sustentai-me, Jesus, amparai-me, Mãezinha, não me deixeis cair.

(Sentimentos da alma, 6 de Janeiro de 1945).

28 de dezembro de 2011

“SANTA OBEDIÊNCIA”

Minha filha, rico tesouro daquilo que é divino.


Sinto necessidade de escrever e não queria dizer nada do que me vai na alma. Faço-o por obediência. Que tristes horas correm para mim, que grande agonia se apoderou da minha alma. Sinto que tantas ruas são banhadas com o meu sangue. Vejo tanta revolta e indignação. Estou tão humilhada! O meu corpo está como uma só chaga. O sangue da cabeça causado pelos espinhos banha-me todo o corpo. Eu de braços abertos entrego-me à cruz, deixo-me crucificar. Estou num brado contínuo:
– Pai, meu Pai, também tu me abandonaste! Sou a tua vítima, dou-me a ti pelas almas. Ó meu Deus, se eu tivesse querer, preferia o inferno a este sofrimento e ao tempo dos meus colóquios conVosco. Sim, meu Jesus, se eu estivesse no inferno, em vez de Vos falar e Vós a mim, não temia enganar-me nem enganar ninguém e não seria tão perseguida do mundo. Perdoai-me, Jesus, o meu desabafo! É o horror que tenho ao engano, à mentira; é o temor que tenho de mim mesma, é o medo das sextas-feiras. Se elas desaparecessem e eu desaparecesse também no Vosso amor infinito! Venha todo o sofrimento, venha a cruz, venha a morte, tudo abraço, sou a Vossa vítima, Jesus.
Destes sofrimentos passei para um inundamento de luz, paz e doçura. Jesus demorou a falar-me, deixou-me por bastante tempo gozar daquilo que era d’Ele. Falou-me depois.
– Minha filha, cheia de graça, pureza e amor. Minha filha, rico tesouro daquilo que é divino. És cheia de graça, pureza e amor, és rica do que é divino, porque guardaste em ti com todo o cuidado, esmero e amor, o que do céu te foi dado. Correspondeste à graça, és cheia de graça. Minha filha, fonte divina, fonte de toda a humanidade. És fonte divina, porque em ti existe tudo o que é divino. És fonte da humanidade, porque a ti vem ela beber e purificar-se; és água pura, és fonte salvação. Minha filha, hino de louvor, de amor e reparação. Se pudesses ver o louvor que recebi, a vassalagem e homenagens angélicas que me foram dadas no céu pela reparação que me deste, pelas almas que salvaste com a dor com que te deixaste imolar! Foi um ano cheio de amor, foi um ano cheio de salvação. Minha filha, flor angélica, mimo da Trindade divina, mimo de Maria, mimo de toda a corte celeste.

(Sentimentos da alma, 5 de Janeiro de 1945)

ESPELHO CRISTALÍSSIMO

É vida que dá a vida, é dor que dá amor.

Espelho cristalíssimo onde toda a humanidade...
— A dor que sofreste embelezou o céu, está adornado com ela, está escrita a letras de oiro e pedras preciosas. Está escrita também a ingratidão e a maldade dos homens contra ti e contra a minha divina causa. Espera-te um ano cheio de amarguras e também cheio de alegrias, por ti só experimentadas como sol brilhante que aparece para rapidamente se esconder entre as nuvens. Nada temas, é esta a tua vida. É vida que dá a vida, é dor que dá amor. Não te preocupes por nada veres do que fizeste, do que sofreste, do que amaste. Não sofreste, não deste, não amaste por ti, tudo me deste a mim. Nada poderás ver no mundo, tudo passou para a pátria celeste; tudo está de posse do teu Rei, do teu Esposo. Tudo verás, quando tiveres comigo o teu encontro eterno. Sofre tudo, aceita tudo com alegria. As tuas asinhas brancas, as tuas asas de alvura como a pombinha canseirosa voa ao longe à procura de alimento que dá a vida aos seus filhinhos. Tu és a vida das almas, a mãe dos pecadores, a rainha do mundo, a rainha do amor. Minha filha, espelho cristalíssimo onde toda a humanidade há-de ver-se e à tua imitação transformar-se. Anseio, anseio por te ver na minha Pátria, para que todo o mundo conheça e aprenda na tua vida, minha filha, escola sagrada das ciências divinas. Coragem, vida que dás a vida, dor que dás amor. Recebe o meu amor divino para levantar-te do teu desfalecimento e para receberes a vida de que vives.
O meu coração recebeu uma infusão de amor, senti as ânsias que Ele tinha de me ver no céu e senti as homenagens que os anjos davam a Jesus ao entoar-Lhe um prolongado hino de grande louvor e agradecimento. Ó quanto me custou separar-me de Jesus para viver aqui. Que diferença o céu da terra, o amor de Jesus do das criaturas.

(Sentimentos da alma, 5 de Janeiro de 1945)

NASCER AGORA PARA A GRAÇA

Queria que comigo nascesse o mundo inteiro


– Jesus, quais são os miminhos que de Vós vou receber neste novo ano? Estou cheia de medo, ou mais ainda, cheia de pavor. Venha o que vier, pelo muito que eu seja ferida, humilhada e abatida, com a Vossa graça divina a tudo direi: “Seja bem-vindo, faça-se a vontade de Jesus; sou vítima do meu amor, vítima das almas”. Confesso, meu Jesus, que o meu maior receio é a minha fraqueza, temo ofender-Vos. Confio em Vós; seja firme o meu amor e subirei alegre o meu calvário. Reparai e vede, Jesus, as ânsias que tenho; se não fôsseis Vós, tiravam-me a vida. Queria nascer agora, mas já Vos conhecer para nunca manchar o meu corpo. Queria que comigo nascesse o mundo inteiro e que todo ele já Vos conhecesse também para não se deixar manchar. Queria um coração novo, mas que sempre Vos tivesse amado para nunca deixar de Vos amar. O mesmo querer tenho para todas as criaturas, para assim Vos amarem com o mesmo amor que para mim desejo. Onde hei-de esconder-me e comigo esconder o mundo? Onde hei-de purificar-me e purificar o mundo a não ser em Vós? Escondei-me, purificai-me. Fazei-me nascer agora para a graça e para o amor e comigo nascer o mundo, mas de tal forma como se eu nem ele Vos tivesse ofendido. Não sei onde estou; não vivo neste exílio nem vivo no Céu. Parece-me viver entre ele e a terra. Fui para esta morada, comigo levei o mundo, morada sem luz, sem vida e sem nada. A minha alma rasga-se de dor, é indizível o que sinto em mim. Meu Deus, que derrota! Não tenho luz, e roubaram-me os guias de tão tremendos caminhos. Morro na escuridão, Jesus, morro desfalecida. Vinde, vinde com a Mãezinha, dai-me força, dai-me vida.

(Sentimentos da alma, 4 de Janeiro de 1945)

FOI UM TERRÍVEL COMBATE…

– Tu és o manjar mais delicioso para todos os demónios do inferno.

Não posso pensar nos combates do demónio, tremo de horror. Ele arma tantas ciladas para prender-me! Forma tantos assaltos à minha alma! Parece-me morrer de dor. Ouço a sua voz maldita desafiadora. E quando fica só assim! O que mais me aflige é quando ele faz o que há de pior. Na manhãzinha de ontem, preparava-me para comungar e logo a alma principiou a sentir os seus assaltos. A minha preparação foi um terrível combate. Que vergonha a minha à chegada de Jesus ao meu coração! À voz de chamada do demónio vieram muitos demónios. E o maldito dizia-me:
– Tu és o manjar mais delicioso para todos os demónios do inferno. Olha como te preparas para comungar. É assim que és uma esposa de Jesus! Não és, não és, Ele não te quer, és minha, dá-me o teu coração. Se mo deres por vontade, dou-te o mundo com todos os encantos, grandezas e prazeres.
Nesta altura, consegui renovar a Jesus a minha oferta de vítima e escrava.
– Não quero o mundo nem nada que lhe pertença, meu Jesus, o que eu quero é não pecar. Amar-Vos só e não magoar o Vosso coração divino.
O demónio redobrou de raiva. Sentia que o que ele queria era que eu lhe desse de boa vontade o meu coração e com ele o mundo. O meu corpo estava desfeito com o cansaço. O momento era grave. Ao parecer-me estar tudo perdido, não haver remédio para mim, bradei ao céu de alma e coração:
– Pecar não! Valei-me, Jesus!
Cessou a luta, mas ficaram-se na alma uns tristes efeitos. Uma tristeza tão grande por não ter pecado, parecia-me que gostava ter ofendido a Jesus. Que aflição a minha! O demónio, mais retirado, continuava raivoso; queria voltar a arrancar-me a alma e a despedaçar-me o corpo. A pouco e pouco, uma suavidade e paz apoderaram-se de mim, invadiram-me toda. Jesus fez-me sentir que tudo o que se passava na minha alma eram efeitos do demónio. Era ele que tinha pena de eu não ter pecado e estava raivoso por não o ter conseguido. Chegou logo Jesus para eu O receber; gozava uma grande paz, mas muito triste, tímida e envergonhada. Logo que O recebi, esqueci por algum tempo tão tremenda e feia luta.
Hoje, voltou o maldito com outro ataque infernal. Só Jesus vê a dor que me vai na alma. Disse-me que eram as pessoas cúmplices do meu crime, ensinou-me a pecar.
– Meu Deus, como sair disto sem Vos ofender? Só com a Vossa graça. Por misericórdia Vossa, só nos momentos da luta eu sei e compreendo as lições do mafarrico. É mais uma prova do Vosso infinito amor. Só Vós sabeis quanto eu quero amar-Vos e reparar as ofensas feitas contra o Vosso divino coração e nunca manchar o meu corpo nem a minha alma. Triste quinta-feira que me dás a sexta!
A minha alma está cansada de tantos sofrimentos, de tanta dor que a espera. Temo as horas que se aproximam, temo a morte. O céu está revoltado com tanta ingratidão da terra. Temo tudo, mas por tudo quero passar; quero morrer para dar a vida!

(Sentimentos da alma, 4 de Janeiro de 1945)

24 de dezembro de 2011

NOITE FELIZ, NOITE DE LUZ...


Noite feliz,
Noite de luz…
Noite de puro amor:
Jesus vem nascer para nós…
Para nos salvar…
Bendito seja o Amor
Que o fez vir até nós…
Bendita seja a Mãe
Que o abrigou en seu seio!
Noite de Natal,
Noite de luz,
Noite do Puro amor!
Vem, Senhor Jesus!

11 de dezembro de 2011

MÃEZINHA, AMAI JESUS POR MIM

A morte não fala, a dor vive, mas é muda

Quero amar e falar do amor de Jesus e não amo, nem tão pouco sei falar do Seu divino amor. Que ânsias insuportáveis de O amar e insuportáveis desejos de uma vida mais pura e perfeita! Que grande dor não poder nem saber amar Aquele, que tanto me ama e morreu por mim, e não ter nem saber viver aquela vida de perfeição, de que Jesus é digno que eu viva. Que horror!
Constantemente cai sobre mim como que uma chuva de maldades e de crimes. Sinto-me queimada e carbonizada dum fogo indizível de paixões. Eu sofro, ó meu Deus, e sofro tanto, sei que sofro e em quase nada se resumem os meus sofrimentos. Não sei exprimir-me, não sei falar, não sei dizer nada desta dor, que me consome; tudo se apaga, tudo morre. Ai meu Deus, que trevas tão doridas! A morte não fala, a dor vive, mas é muda, é por isso que eu não sei dizer o que sofro. Sem saber sofrer, sem saber orar e falar com o meu Jesus, esmagada com este peso, que me causa a dor, de que não sei falar, levanto muita vez os olhos para Jesus crucificado, e digo: meu Jesus, eu sofro sem saber falar da minha dor, mas Vós a compreendeis e mais ainda sabeis que é só por Vosso divino amor e por amor às almas. Que me importa a mim que ela se oculte e esconda aos olhos do mundo, se é vista por Vós, por quem é suportada e ao vê-la, a aceitais para a salvação das almas. Ó Jesus, ó Jesus, eu sou Vossa e para Vós é todo o meu viver! Mãezinha querida, querida Mãezinha, ensinai-me a amar a Jesus, amai-O por mim, mostrai que sois minha Mãe.
Tudo quanto eu digo se perde num abismo infindo. Não sei orar, não sei sofrer, não sei amar. Que pobreza sem igual! A tudo isto se juntam os sofrimentos, de que já, por vezes, tenho falado. Os meus caminhos são espinhos, os meus caminhos são do dor. E quanta maior festa no Céu, maior tormento para mim, maior dor muda e que não se fez compreender. Veio a noite de Natal; sem saber, tudo ofereci a Jesus e tudo Lhe pedi para mim e para os que me eram mais queridos e por fim para o mundo inteiro pelo qual tenho uma fome insuportável de o salvar. Para mim o que mais pedi foi amor, humildade, pureza e desprendimento de tudo. A minha prece ao Céu, mais me mergulhou no meu nada, mais vazia me deixou.
Tive uns momentos de sono; ao despertar, senti logo no meu coração o presépio; ou melhor, era eu a cabana onde tinha nascido Jesus. Tive uma visão de alma, visão bem clara; dentro de mim, Jesus nas palhinhas e ao lado S. José e a Mãezinha. Sobre Jesus Menino poisava uma luz brilhantíssima que O iluminava a Ele e a todo o presépio. Essa luz vinha duma pomba mais branca que a neve que se sustentava no ar, de asas abertas, pouco mais ou menos à altura de um metro; era um sol de fogo que saía dessa pomba; era um silêncio profundo que reinava nesta habitação. O que fazia eu? Nada. O meu amor eram umas secas palhas onde Jesus poisava, as minhas palavras nada mais representavam do que as pedras da cabana. Que dureza e ingratidão a minha para com Jesus!

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 26 de Dezembro de 1947 – Sexta-feira)

A VISÃO DO PRESÉPIO...

Descansa, dorme, recebe de Mim toda a abundância de amor

Passei algumas horas neste sentimento e visão. Pouco depois da Sagrada Comunhão, uni-me de tal forma a Jesus Menino neste presépio que com Ele compartilhei, logo desde a manhã, de todo o sofrimento do Horto e do Calvário.
Vieram de encontro ao presépio todos os preparativos para a ceia, a entrega de Judas, o suor de sangue, o romper das veias, o Horto completo cheio de amargura e por fim o Calvário com a cruz. Eu sentia tudo, mas todo este sofrimento caía sobre Jesus pequenino. Foi este o meu Horto de ontem, Horto que durou todo o dia e parte ainda da noite.
Na madrugada de hoje, fui assaltada pelo demónio; foram quatro os ataques. Com aflição e bater do coração tive a impressão que por algum tempo perdi, ou quase os sentidos. Que maldade infernal! Vi-me tão entregue ao demónio! Pedi tanto a Jesus para O não ofender, mas que era sempre a Sua vítima! No último combate, quando o maldito me afirmava levar-me ao prazer veio Jesus e disse:
― Aparta-te, maldito; já tirei da vítima a reparação desejada.
Ele com uma tromba como de elefante, lambia-se de contentamento, como se tivesse conseguido de mim o que desejava. Depois, já longe, uivava desesperado. Jesus uniu ao meu o Seu Santíssimo peito, e, cheio de doçura, disse-me:
― Minha filha, alma com alma, coração com coração, amor com amor. Passo para o teu coração o bálsamo do Meu divino amor para suavizar a tua dor. Coragem! Tirei destes combates muita reparação para os grandes crimes que nesta noite se praticaram.
Esteve por algum tempo à minha frente o Sagrado Coração de Jesus, em tamanho natural; era formoso, todo Ele era doçura e amor. Quando assim me apareceu nada me disse. A Sua divina presença encheu-me, deu paz e tranquilidade à minha alma. Quando O recebi sacramentado, esqueci por muito tempo toda a luta do demónio.
A visão do presépio, a pouco e pouco, tem-se ido apagando, mas alguma coisa ainda seguiu hoje comigo os caminhos do Calvário. Senti como se me viessem abrir o peito e a ele unir a cruz, toda a tragédia dos caminhos da amargura e do Calvário. O peito fechou-se, e lá dentro ficou, unido ao presépio, todo este sofrimento que sinto ter que me acompanhar na vida e até ao momento da morte: Aqui fui crucificada, aqui agonizei com Jesus. Não sei como O pude sentir pequenino no presépio e na cruz crucificado. Neste estado de alma e união, entreguei ao Pai o meu espírito. Esperei por alguns minutos a nova vida e união com Jesus. Ele veio, pôs-me a nadar num mar de fogo, e disse-me:
― Minha filha, vem descansar, vem dormir em Mim o sono do amor, é conforto para a tua alma, é vida para a tua dor, é vida, é amor que podes e Eu quero comuniques às almas; vive, fá-las viver. Descansa, dorme, recebe de Mim toda a abundância de amor, enquanto que Eu de ti também o recebo. O Meu divino amor é para ti o bálsamo, a força do teu inigualável martírio, assim como o teu é para Mim o bálsamo para as Minhas feridas e esquecimento para tantos crimes com que sou ofendido. Tu amas-Me, tu amas-Me, confia que Me amas; tu sofres e sabes sofrer, confia em Mim. O não saberes dizer quando sofres não te entristeça, pois já disso estavas prevenida, e, de dia para dia, menos saberás dizer. Tu sofres, sabes sofrer, Eu to afirmo; ai do mundo sem o teu indizível sofrer. Se não fosse a tua dor e a reparação que nesta noite te pedi, repara em que estado vias o teu Jesus.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 26 de Dezembro de 1947 – Sexta-feira)

ASSEMELHA-TE TANTO A MIM !

Coragem, nada temas, porque estou contigo.
Tudo isto que fica dito, Jesus mo dizia com intervalo de profundo silêncio, enquanto que eu ia nadando no mesmo mar de fogo e parecia-me dormir muito unidinha a Ele. Quando Jesus assim me falava, vi-O todo retalhado, o Seu Santíssimo corpo numa só ferida, coroado de agudos espinhos, que O faziam derramar uma chuva de sangue! Compreendi que assim estaria se eu por Seu divino amor não tivesse sofrido.
― Querias, filha querida, ver neste estado, sofrendo assim o teu Jesus?
― Não, não, meu dulcíssimo amor. Quero sofrer e com alegria levar a cruz que me dais. Ensinai-me, meu divino Mestre, ensinai-me a sofrer e a esconder a minha dor para maior consolação Vossa e grande proveito para as almas. Não sofro com perfeição, tende dó de mim.
― Permito, Minha filha, que alguma coisa deixes transparecer porque disso tiro glória e assim convém para a Minha divina causa. Sabes sofrer e oh! como é grandiosíssimo o teu martírio. Assemelha-te tanto a Mim! Acabo de dar mais uma prova e uma lição de quanto a Mim te assemelhei, unindo ao presépio o Horto, o Calvário, a morte; a vida de Cristo, do nascimento à cruz. Toda a Minha vida foi cruz, toda a Minha vida trouxe em Meu divino Coração todos os sofrimentos, por que tinha de passar. Coragem, Minha filhinha, é grande e doloroso o teu martírio, mas é grande e doloroso ver o perigo em que está o mundo. Acode-lhe, brada-lhe que Me tenha a Mim. Já ouço os seus gemidos; o que será para bem breve. Ele não quer ouvir o Meu chamamento, a Minha divina voz. Sofre por ele, sofre com alegria, acode-lhe, acode às almas. Recebe a gota do Meu divino Sangue, a grande maravilha das Minhas maravilhas.
Jesus com o tubo unido ao Seu divino Coração introduziu-mo no meu, passou a gotinha do Sangue e eu senti como se um pincel molhado nele pincelasse por dentro todo o meu coração. Jesus tirou o tubo, cicatrizou a abertura com as Suas mãos divinas e disse-me:
― Vai agora com nova vida para a tua cruz, vai salvá-las. Coragem, nada temas, porque estou contigo.
Obrigada, meu Jesus. Vinde e não Vos separeis.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 26 de Dezembro de 1947 – Sexta-feira)

5 de dezembro de 2011

TUDO É DOR, TUDO SÃO ESPINHOS...

Tive três combates com o demónio.

Como o meu coração sangra: ó meu Deus, como eu o sinto ferido; já não parece coração, mas sim uma massa de sangue toda desfeita! E se a alma tivesse algum bocado de carne, eu podia dela dizer o mesmo. Parece que a sinto toda golpeada. Que dor quase insuportável! Vivo porque Jesus o quer; resisto, porque Ele resiste em mim. Ai de mim, se assim não fosse; o que teria sido e seria o meu viver. Tudo é dor, tudo são espinhos e espadas a cortarem-me, tudo é abandono, trevas e morte.
Vou saindo, de vez em quando, fora do meu sepulcro; respiro, vejo todo o sofrimento que me rodeia e sem ter nada que dar a Jesus, sem nada fazer em benefício das almas, logo caio na mesma sepultura. Fica-me a dor e as ânsias de fazer bem e imitar Jesus, de valer a todos e a todos socorrer. Que novo martírio Jesus inventou para mim com estes sentimentos de praticar o bem, de não viver nem pensar em mim, mas sim viver e pensar em toda a humanidade. Só por amor a Nosso senhor e às almas eu recebo as visitas. Que podridão elas vêm ver e observar! Meu Deus, que vergonha a minha, que doloroso tormento!
Tive três combates com o demónio. Como ele vinha desesperado! Eu sentia tal raiva contra mim, que a mim mesma me parecia morder toda. Ouvia uivos e ranger de dentes. Que inferno desesperador e malicioso! Eu era toda demónio. Não queria ter ouvidos para ouvir as suas malditas e feias coisas; mas tinha que ouvi-las e tive que lutar. Sentia o meu coração preso ao demónio por fortes cadeias e parecia-me que não podia deixar o pecado, queria até viver nele, sentia gosto em praticá-lo. Queria tomar para os meus braços o crucifixo e A Mãezinha, mas não podia; era eu mesma que O queria escarrar, escarnecer e calcar aos pés. Não deixei contudo de dizer a Jesus que era a Sua vítima e do íntimo do coração Lhe dizia que não queria pecar e só queria a Sua divina vontade. Confesso que não podia mais. Eram tão fortes as palpitações do meu coração; parecia-me que ele rebentava. Nesta altura, ouvi a voz de Jesus que disse:
― Aparta-te, maldito, tenho domínio sobre ti, deixa a Minha vítima.
Os demónios fugiram espavoridos, uivando e rangendo os dentes. E um Anjo formoso, em tamanho natural, de asas brancas, no meio de uma luz luminosa, parou por uns momentos à minha frente, a apontar-me para o Céu. Desapareceu a visão. Fiquei dorida com o receio de ter pecado, mas com a alma forte, depressa fiquei em paz.
Não tenho a certeza, mas parece-me que, ao menos três vezes, vi passar Jesus, no meio de uma grande multidão de vultos pretos, com a cruz aos ombros a ser maltratado. Ele fitava-me e caminhava sempre, mas oh! como Ele ia desfigurado e triste! Triste e em grande dor me deixava a mim também. Eu podia poder consolá-Lo, tirar dos Seus Santíssimos ombros a cruz e passá-la para os meus. Lá O via caminhar e desaparecer sem o poder conseguir. Queria desviar Dele a multidão que O seguia para O maltratar, e não foi para mim, não tive força para me aproximar de Jesus, para O libertar e suavizar a Sua dor.


(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 19 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira).

CAMINHAVA ÀS CEGAS...

Abria os braços para abraçar a imensidade daquela dor

― Que estou eu, Jesus, aqui a fazer, se não evito os Vossos sofrimentos. Entrego-me em Vossas divinas mãos, sou a Vossa vítima.
Tudo isto aumenta em mim a sede ardente de amar a Jesus, de me dar a Ele, de viver para Ele. Aumenta-me esta sede, estas indizíveis ânsias, para mais e mais rápido tudo ver desaparecer e morrer. Bendito seja o que dá o Senhor. Se eu o soubesse corresponder ao Seu amor infinito para comigo!
Ontem, logo de manhã, vi Jesus, preso à coluna, e, no decorrer das horas, tudo era dor, tormento imenso à minha volta. Tudo o que era sofrimento me rodeava; sei que era dor, mas não sei exprimir-me. Montanhas negras e duras batiam contra o meu peito, feriam-mo, abriam-mo, deixavam-mo a sangrar. O Céu parecia repelir-me, não me querer fitar, mas dentro em mim ia uma força que não olhava ter que sofrer. Abria os braços para abraçar a imensidade daquela dor, e, mergulhada nela; queria dar vida à terra, queria dar luz, cuidava das coisas do Céu.Com os desejos de delas cuidar, sempre fui para o Horto, não com as minhas forças, mas com outras superiores a elas.
Lá, com a visão de tudo o mais que me esperava, que era a prisão, a cruz e o Calvário, abriu-se-me o coração e reguei de sangue a terra. Com os vestidos e cabelos nele ensopados fui para a prisão com Jesus e com Ele lá fiquei por muito tempo.
Hoje de manhã, voltei ao Seu encontro; comoveu-me o estado em que O encontrei; estava desfiguradíssimo, desfalecido, tiritava de frio. Mesmo na prisão estava de mãos atadas. Foi o meu corpo a prisão e os caminhos que o conduziram aos tribunais, foi o meu coração o pescoço, a cintura onde foram atadas as cordas para arrastarem Jesus. Assim segui com Ele o Calvário; viagem dolorosíssima e triste. Mesmo o sol parecia envergonhar-se; de vez em quando, escurecia-se. Repetidas vezes no Coração senti os puxões das cordas e Jesus cair por terra; quando caía os espinhos da coroa penetravam ainda mais fundo, as feridas abriam-se, rompia o sangue. Sem uma força sobre-humana não conseguia chegar ao fim da montanha. O sangue colava os divinos olhos de Jesus, caminhava às cegas. Contudo os Seus olhares divinos viam tudo e todos os sofrimentos, que ainda faltavam.
Fiquei com Ele pregada na cruz, tão presas à Sua dor e agonia, que nada havia que nos separasse. Era ainda no meu coração que Jesus, no Seu abandono, fitava o Céu, num brado profundo a Seu eterno Pai. Causava dó o Seu brado dorido que devia ser ouvido pelo mundo inteiro. Veio o momento de expirar; expirei com Ele. E desta vez a nossa separação e morte prolongou-se. Depois desta demora, veio Jesus ressuscitar-me e deu-me vida também, deu-me uma vida doentia. Eu falava com Jesus, e sofria ao mesmo tempo.
― Minha filha, tabernáculo do divino Espírito Santo, companheira inseparável de Meu Eterno Pai, sacrário da Minha habitação, paraíso das Minhas delícias, em ti habitamos sem nos separarmos; o divino Espírito Santo para te iluminar e instruir, o Eterno Pai para te acompanhar e admirar a obra da criação, Eu para te guiar, fortificar e dar a vida. É de Mim e para Mim que tu vives, é por Mim que és enriquecida, é com as Minhas riquezas que salvas as almas. Enchi-te, enriqueci-te como a nenhuma outra alma, porque por nenhuma sou assim amado; a todas ultrapassas na dor e no amor, a ti como a nenhuma outra Eu dei todas as Minhas graças e tesouros, a ti como a nenhuma outra Eu entreguei e confiei tão completa missão, a maior, a mais sublime missão e operei tantas e tão grandes maravilhas. Por nenhuma fui tão amado, não te igualou outra na generosidade, nem assim correspondeu às Minhas graças. Amas-Me muito, Minha filha, amas-Me a mais não poderes amar-Me, confia em Mim, confirma na afirmação do teu Jesus. Mas não é o bastante, quero mais, tenho sede de amor, sede devoradora.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 19 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira).

NÃO VOS POSSO VER SOFRER !

Repete-Me os teus actos de amor...

— Quero mais não de ti, porque não podes, mas por ti. É por ti que as almas se salvam, é por ti que Eu quero que elas Me amem. Pede-lhes, pede-lhes amor, pede-lhes reparação; é urgente, venha depressa esse amor, essa reparação; é preciso aplacar a justiça de Meu Eterno Pai, é preciso fazer-Me esquecer os crimes com que sou ofendido. Ai do mundo, o pobre mundo, o que o espera, o que ele vai bem depressa sofrer e gemer! Não quer ouvir-Me, não atende aos Meus pedidos. Quanto sofre com isso o Meu divino Coração!
― Ó meu querido Jesus, estou triste, humilhada e confundida. Queria prostrar-me aos Vossos Santíssimos pés para com lágrimas e verdadeiro arrependimento dos meus pecados Vos bendizer e agradecer pelos dons e graças que me tendes dispensado, sem atenderdes à minha indignidade e extrema miséria. Muito obrigada, meu Jesus. Eu queria na mesma posição receber de Vós todos os sofrimentos e de Vós implorar e obter o perdão e a misericórdia para o mundo. Não Vos posso ver sofrer nem ver as almas perderem-se. O que quereis que eu faça Jesus? Vejo que sofro tanto e tento Vos vejo sofrer! Quero sofrer eu sozinha e evitar os Vossos sofrimentos.
― Minha filha, Minha pomba branca, quando Me vires caminhar com a cruz, renova a tua oferta de vítima, repete-Me os teus actos de amor. Eu é em ti e não sozinho que caminho, sofro e levo a cruz. Estas visões que te dou é porque assim mais te levo à compaixão e posso melhor pedir-te a reparação. Leva a tua cruz, dá-Me a tua dor, o teu amor, dá-Me os combates do demónio, só eles podem reparar a gravidade de tão grandes crimes.
― Ai, meu Jesus, que medo eu tenho, aceito-os por vosso amor, velai Vós, velai sempre para eu não Vos ofender.
― Confia, confia, filhinha amada: nunca permitirei que Me ofendas. Vem receber agora a gota do Meu divino Sangue, a grande e única maravilha do Meu divino amor. Recebe, é vida; recebe, é força; recebe é amor, amor, amor!
Jesus introduziu o tubo no meu coração e sobre ele colocou o Dele; a gotinha do Sangue passou vagarosamente, foi um bálsamo para todo o sofrer do meu pobre coração. Senti-o tanto no íntimo! Aquela fortaleza e suavidade do sangue divino de Jesus fez-mo crescer tanto, não cabia no peito, respirava profundamente. Jesus passou sobre a abertura a Sua divina mão, bafejou-me repetidas vezes e disse:
― Vai para as trevas, vai para a cruz, repara, repara o coração do teu divino Esposo. Leva este conforto, leva a vida que te dou, a vida do que vives. Tem coragem! O teu Céu está perto. Eu espero os homens descuidados das coisas de Deus. Venho falar-te para confortar-te e até que eles venham. Vai, esposa Minha, vai, jardim de encantadoras flores, espalha o bem, espalha o aroma, o perfume de tão heróicas virtudes. És Minha, leva o que é Meu, vai levá-lo às almas, vai acudir ao mundo. Conto contigo. Conta com o teu Jesus.
― Obrigada, obrigada, meu doce amor. Já fugiu a luz que neste colóquio de Vós recebi. Mergulha-me na dor, mergulho-me nas trevas por Vós e pelas almas.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 19 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira).

AS VISITAS EM CAUSA

Não sei como poder resistir ao horror, ao nojo que me causam as visitas

Dia de muitas visitas à Beata Alexandrina
Parece-me sentir e ouvir que uma voz me chama para a eternidade; sinto que é o fim que se aproxima e que essa voz é a voz de Jesus. Eu não O vejo, mas sinto que Ele me espera, de braços abertos, para me receber e pedir contas. Eu não sei como Lhas hei-de dar. Eu anseio por esse momento de ir para Ele, e sinto que não posso demorar-me mais tempo aqui, mas tenho medo de comparecer na presença de Deus, de mãos vazias, só cheia de misérias; é só o que tenho, é só o que vejo. É tremendo o meu sofrimento, é horrorosa a minha dor.
No dia 8, no dia da querida Mãezinha, apesar de me lembrar muito Dela, de querer amá-La, honrá-La, dar-Lhe todo o louvor, passei todo o dia morta, sepultada numa sepultura, na maior profundidade das minhas trevas. Só à noite ressuscitei, e saí dessa sepultura, para ver que nada tinha feito e só a minha miséria e nojenta podridão me apareceram. Depois de contemplar bem o meu horroroso estado, voltei a morrer e a sepultar-me na mesma sepultura. E, todos os dias, mais de uma vez, ressuscito e saio dela só para ver e contemplar o que me causa horror. Não passo daqui, da morte à vida horrorosa e da vida horrorosa à morte. Vejo-me sozinha, inútil para mim, inútil para todos, sem o mais pequenino amor a Jesus e o menor bem para as almas e para a humanidade.
Não sei como poder resistir ao horror, ao nojo que me causam as visitas, quero fazer-me compreender; este horror, este nojo não são as visitas que mo causam, sou eu que sinto nojo de mim mesma e causa-me horror ver a podridão vergonhosa e nojenta que as visitas vêm contemplar. Não sei dizer o que sou e o que sofro com o que sou. Meu bom Jesus, minha querida Mãezinha, amparai-me, tende dó de mim, sou a Vossa vítima. Eu aceito e quero todo este sofrimento, mas quero amar-Vos e ver salvas as almas. O meu viver é entre espinhos, é um martírio contínuo de alma e corpo, os espinhos atravessam-me a alma e não deixam o mais pequeno bocado do meu corpo sem ser ferido; sinto-me sempre a derramar o meu sangue.
No meio de tudo isto, sem querer nem querer libertar-me do sofrimento, nada faço daquilo que o meu pobre coração anseia; fazer o bem; praticar só o bem, acudir a todos, remediar todos os males, assemelhar-me a Cristo, seguir em tudo os passos de Jesus. Nada sinto que se realiza e é de utilidade para a humanidade porque apesar de tanto sofrer, nada é meu, nenhum bem eu faço. Sou tão nada, como hei-de levar a minha cruz! Neste mar de sofrimento, envolvida nas ondas mais furiosas, vi por vezes o Menino Jesus caminhar à minha frente com um grande madeiro aos ombros. Ele era tão pequenino, não sei como o podia levar; só a força de um Deus. Causava-me dó e grande impressão vê-Lo tão pequenino com tão grande cruz. Ele olhava para mim, fitava-me docemente e caminhava sorridente, como se nada levasse. A vista de Jesus dava conforto à minha alma, dava-me amor à cruz.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 12 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira).

SUBIU O AMOR, SUBIU O QUE ERA DIVINO

― Confio, meu Jesus, e temo e sofro por confiar.

A Beata Alexandrina na Trofa, em casa do Sr Sampaio.
Ontem, era já quase noite e eu sem saber compreender o que a minha alma sofria. Veio do alto, um raio do sol foi cercar toda a humanidade, ficou como que uma muralha luminosa à sua volta: depois parecia que mexia e remexia toda a terra e envolvia-se nela. Nesta altura senti que o Céu irado e revoltado contra mim caía sobre o meu pobre corpo a esmagá-lo. Com este peso abriu-se-me o coração, sentia nele grande ferida a sangrar.
Fui com Jesus, até junto do aposento onde ia ser a ceia; não pude subir, fiquei ali esmagada pelo mesmo Céu, e, ali quase morreram as minhas pobres forças. Subiu Jesus, subiu o amor, subiu o que era divino. Não fui ao Horto, quase sem vida dali o contemplei; vi a sua solidão e escuridão, vi o solo tremer com a folhagem que continha; vi todos os sofrimentos, que lá esperavam Jesus; não fui lá, mas deste lugar com Ele sofria.
Na manhã de hoje, senti que eu mesma O fui buscar à prisão, vinha algemado, desfiguradíssimo, sem nenhuma beleza. O meu coração foi o lugar onde Ele foi açoitado, e dentro dele caía a chuva, de gotas de sangue, que produziu a coroa de espinhos. Os mesmos espinhos atingiam-me também o coração e foi sempre ele o caminho que percorreu Jesus para o Calvário; eu caminhava com Jesus e dentro do que era meu caminhava. Jesus desfalecia e caía e eu também; Ele recebia os maus-tratos e eu compartilhava deles. Passou pelo meu coração a Mãezinha e nele foi seguindo a Jesus; a Ele veio a Verónica limpar o rosto de Jesus e limpou o meu também que era com o de Jesus um só.
No Calvário, pregado na cruz, foi ainda o meu coração escada por onde desceram Jesus, o lugar e o lençol com que Ele foi amortalhado. E ainda nele a Mãezinha teve lugar para cuidar do corpo divino do seu Jesus. Tudo senti e vi antes de expirar. Que grande aumento de agonia! Tudo me estava presente. Como Jesus em mim, bradava o Seu Eterno Pai A vida de Jesus deixou-me e então é que eu me senti morta. Esta morte foi por pouco tempo; Jesus não demorou a dar-me de novo a Sua vida.
― Minha filha, Minha querida filha, a tua vida é Minha, o teu sofrimento é Meu. Tu estás no mundo e não és dele; tu vives, e a vida não é tua, sou Eu que vivo. A Minha vida está introduzida no teu corpo; é como que um sopro divino, e a tua alma, ó maravilha, é só a vida do Céu. Tu não sofres, sofro Eu, tu não sofres e Eu não posso sofrer sem ti. Nada em ti podia ter feito nem continuar a fazer sem a tua fidelidade e correspondência às Minhas divinas graças. É Cristo na Sua vítima e a vítima em Cristo. Confia em Mim, confia no que te digo.
― Confio, meu Jesus, e temo e sofro por confiar. Eu estou tão cheio de pecados, caio em tantas e tão grandes faltas; sou tão pequenina, tão nada, como podeis falar-me e viver em mim? Não tendes nojo, meu Jesus?
― Não, não, Minha filha. O teu nojo é para que Eu não tenha nojo das almas; o teu nada, é para encobrir as Minhas grandezas e maravilhas em ti. Quero-te assim pequenina, quero-te assim tão nada para dares tudo. Não viste como Eu tão pequenino levo tão grande cruz? Foi tara te mostrar que a graça tudo pode e que tu assim pequenina, com a Minha vida e força divina tudo vences; com o sorriso e amor à cruz tudo suportas e és vitoriosa no teu Calvário. Confia, Minha filha, querida, confia que te amo e tu Me amas muito, a mais não poderes amar-Me. Tu não és do mundo, e o mundo é teu; entreguei-to, dei-te o título de mãe da humanidade, dei-te todos os tesouros e graças do Meu divino Coração para a salvares. À semelhança do que disse aos Meus Apóstolos, quero dizer-te, não como lhes disse a eles: aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados, mas sim aqueles a quem prometeres a salvação, serão salvos, é deles o Céu. É em nome de Jesus que lho prometes, é Jesus a falar em teus lábios, no teu coração. Dou-te tudo, tudo faço para acudir às almas. Que grande prova de amor!
― Ó meu divino Jesus, se prometeis a salvação a todos quantos eu a prometer, eu prometo-a a todo o mundo, pois todas as almas eu quero salvar, todas são filhas do Vosso divino Sangue.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 12 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira).

3 de dezembro de 2011

É FOGO, É FOGO, É AMOR, É AMOR DIVINO !

Jesus tomou nas mãos o Seu divino Coração

Jesus com um sorriso na Sua infinita bondade disse:
― Não pode ser, filha querida; assim como para serem perdoados os pecados são necessárias as disposições da alma, igualmente as exijo para a promessa que te faço, para a graça dispensada. É por isso que o Meu divino desejo é que venham junto de ti muitas almas, todas as almas, se isso fosse possível. De ti Eu deixo transparecer a Minha doçura, o Meu sorriso, tudo o que é Meu. Por ti e junto de ti, receberão o toque da Minha divina graça; por ti Eu serei por muitos amado, muito amado. Fiz e vou fazer de ti uma vida maravilhosa, uma vida de prodígios. Coragem, muita coragem! És mãe da humanidade; a mãe dá vida e dá à luz os seus filhos. Recebe agora a gota do Meu Sangue divino; sem ela não vives, sem ela não resistes ao teu sofrer.
Jesus tomou nas mãos o Seu divino Coração, uniu o centro do Dele ao centro do meu, e pelo pequenino tubo passou Dele para mim, muito lentamente o Seu Sangue divino. Foi como que um fogo que me abrasou toda; senti-me queimada, até o rosto me ardia. Jesus levantou o Seu divino Coração e com o centro para cima deixou-o por algum tempo, ligado ao meu. Nesta estreita união, depois de um pouco de silêncio, enquanto que as labaredas continuavam a abrasarem-me, Ele disse-me:
― É fogo, é fogo, é amor, é amor divino, Minha filha. Dois Corações num só Coração, duas vidas numa só vida. É Jesus pela Sua crucificada a salvar o mundo. Acode-lhe, acode-lhe, esposa querida; acode-lhe que é teu, entreguei-to, salva-o, ou salva as almas, que aos corpos já não acodes, têm que ser castigados. Já não demora sobre ele a justiça de Meu Pai. O mundo, o mundo, o pobre mundo, que não atendeu à voz de Jesus, ao convite de oração, penitência, emenda de vida! Coragem, coragem, Minha filha! Brada-lhe bem alto, convida-o para Mim. Dá-me dor, vai para a tua cruz, acode às almas, é essas que Eu quero ver salvas. Vai alegre para a cruz, vai espalhar o bem, vai infundir amor. Não temas as trevas, não temas a tua ignorância. Sentes nada saberes dizer? É quando mais dizes, mais luz dás aos que te estudam, já disso te preveni. Tem coragem! O tempo é breve; bem depressa cantarás as glórias do teu Senhor. O Meu divino Coração anseia por dar-te a tua Pátria, ver-te junto de Mim! Vai alegre, vai em paz, vai cheia de amor, da vida divina.
― Obrigada, obrigada, meu Jesus. Aceitai-me o meu sacrifício e todo o meu sofrer, e poupai o mundo ao castigo.
Tenho tanta pena de Jesus e tanta da pobre humanidade. Tanto a queria salvar! Custou-me tanto ditar tudo isto. Sinto como se tudo fosse escrito com o sangue do meu coração. Que Nosso Senhor me aceite as faltas das minhas forças, para que as almas tenham força para não pecarem.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 12 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira).

EU NÃO VIVIA, EU NÃO ERA EU...

Ânsias insaciáveis de fazer o bem, espalhar o bem.

Passei horas da noite sempre em união com O meu Jesus, na ânsia de O receber com perfeição e amor e em ânsias insaciáveis de fazer o bem, espalhar o bem. O meu coração era como um rio, que não cessa de dar água para o mar, noite e dia, sem parar. Sentia-me e sinto-me cansada, porque ele não pára, não deixa de ansiar, quer dar-me, quer entregar-se para conforto, alívio e amparo de todos; quer desfazer-se no bem, só no bem. Este ansiar não pode estar à frente da minha miséria. Quem sou eu? Que bem posso fazer?
― Ó Jesus, fazei-o Vós por mim e deixai-me esconder em Vós.
Nesta ansiedade, martírio de alma e corpo, preparei-me, o melhor que pude, para a vinda do meu Jesus. Eu não vivia, eu não era eu, nenhum bem fazia, tudo era morte. Chegou Jesus, entrou no meu coração, e, momentos depois, na mais íntima união, disse-me:
― Minha filha, venho a ti com o Meu conforto, com a minha força, com a luz do divino Espírito Santo, para que nos momentos de maior angústia, imolação e trevas, possas recordar os felizes momentos de íntima união Comigo e desta luz, que tudo ilumina, possas dizer: a luz, que recebi; era a luz divina, a união e a paz era a de Jesus; paz, que o mundo não tem, e só do Céu pode vir. Nestes pensamentos vencerás a rua dor; com estes pensamentos confiarás sempre em Mim sem vacilar. Só assim romperás por entre os espinhos, só assim sairás vitoriosa do teu martírio, sem o qual as almas não se salvariam. E elas estão em tanto perigo, perigo eminente de se perderem. Coragem, coragem! Criei-te para elas, para elas criei este milagroso Calvário. É Calvário que lava, Calvário que purifica, Calvário que perfuma, Calvário que abrasa, Calvário que atrai; é Calvário das maravilhas do Senhor.
Minha filha, Minha esposa querida, vou dar-te o prémio do aniversário que hoje passas. Há 9 anos que, pelo Meu divino amor e pela missão das almas, deixaste por alguns dias a tua casa; foste como peregrina, com os olhos fitos em Mim, obedecendo e a cumprir a Minha divina vontade. Foi o primeiro golpe a seguir ao da primeira crucifixão. Aceita como prémio toda a riqueza do Meu divino Coração.
O coração de Jesus era como um vaso  formosíssimo, o qual Ele despejou dentro do meu coração.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 6 de Dezembro de 1947 - Primeiro sábado.)

MINHA FILHA, NÃO RECEIES A CRUZ

Foi grande a consolação que Me deu...

O coração de Jesus era como um vaso  formosíssimo, o qual Ele despejou dentro do meu coração.
― Dou-te tudo e com tudo fico, Minha filha; dou-te toda a Minha riqueza, e em Meu nome que o dês ao teu Paizinho também como prémio do seu sofrer. Diz-lhe que o associei ao princípio do teu Calvário e que ele foi o teu cireneu e contigo vítima. Diz-lhe que fui Eu que vos uni e que, nesta união, passais a vida da terra e a eternidade. No dia da primeira crucifixão, vós formaste uma escada para o Paraíso, pela qual não têm cessado de subir as almas. Diz-lhe que Eu sou sempre o seu Jesus, cheio de bondade e amor para com ele. Diz-lhe que Jesus lhe manda todas as graças deste Calvário, deste viveiro das almas. Diz, Minha filha, ao Meu e teu queridíssimo médico que lhe dou o Meu profundo agradecimento pelo seu acto de fortaleza, sem respeito humano para a Minha divina causa. Foi grande a consolação que Me deu pela luz que levou a muitos corações. Como prémio desse acto heróico dou-lhe todas as Minhas bênçãos e graças para ele e para os seus; e prometo-lhe a fidelidade à graça e guiá-lo em todos os seus passos; prometo-lhe a perseverança final e toda a luz do Espírito Santo. Quero fazer compartilhar destas promessas aos que mais de perto te rodeiam e trabalham em defesa do que é Meu. Vi Jesus a abençoar, por um bom espaço de tempo. Vem, Minha Bendita Mãe, à Nossa filhinha, que te espera e necessita do teu conforto para amparo da sua dor.
Veio a Mãezinha; cobria manto de Rainha; tomou-me para o Seu regaço, envolveu-me no Seu Santíssima manto, abraçou-me e cobriu-me de carícias.
― Minha filha, Minha filha, sofre o Coração do Meu divino Filho e sofre o Meu também. Tira-Lhe do Dele os espinhos, tira-Me do Meu as setas. Passa para os que amas as minhas carícias, diz-lhes que também são para elas, que Eu lhas mando. Pede-lhes, em Meu nome, para fazerem o mesmo que a ti peço. Quero que Jesus seja amado, quero ser amada também; quero que o Coração divino de Jesus seja reparado, e não quero que nele fique nem um só espinho. Peço reparação para o Meu santíssimo Coração e para dele lhe serem tiradas todas as setas e espadas que tem. Pede aos que amas para Nos amarem e por Nós sofrerem, dizendo e repetindo sempre: quero que o meu amor, o meu sofrimento vão tirar aos Corações de Jesus e Maria todo o ferimento quer têm; e que o mesmo amor e sofrimento Jesus por Maria o aceite pela salvação das almas, pela conversão dos grandes pecadores. Diz, Minha filha, que quero que o Meu desejo seja propagado.
Aproximou-se Jesus e com a Mãezinha, de novo, me acariciaram e com os Seus lábios docemente bafejaram-me.
― Vai, Minha filha; o Céu não demora, não receies a cruz. O bafejar do teu Jesus e da tua Mãezinha será para ti a vida da tua dor e o maná celeste que quero que espalhes pelas almas que amas, por toda a humanidade. Tem coragem! Quando mais ansiares a tua Pátria, recorda as almas do Purgatório, a quem tanto amas, que tanto anseiam por Me gozarem e contemplarem face a face, e oferece-Me para seu alívio as tuas ânsias, saudades de voares para o Céu para junto de Mim. Coragem! Leva a Nossa paz, leva o Nosso amor.
― Obrigada, Jesus; obrigada, Mãezinha. Já me sinto na cruz; toda ela é de espinhos.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 6 de Dezembro de 1947 - Primeiro sábado.)

28 de novembro de 2011

PODRIDÃO E LAMA

Tenho dentro de mim um rochedo mundial...

Meu Deus, como se pode aguentar tanto abandono. Tenho medo de estar tão só. Fugir-me, tudo, tudo e todos! Ó meu Jesus, faça-se a Vossa vontade divina. Eu vou à Vossa procura, ao Vosso encontro mesmo com sentir que quanto mais Vos busco mais me fugis. Só Deus me basta, só Jesus quero; confio que não sou por Ele abandonada. Sofro tanto por não poder fazer bem todas a todos, mesmo aos meus inimigos, se é que eu os tenho. É tal a dor que sinto por não fazer bem a toda a humanidade, até mesmo àqueles que mais me têm ferido, que por vezes não posso resistir. Consolar a todos, remediar todos os males, dar a todos a graça do Senhor, são os meus desejos.
Ó meu Jesus, que ânsias insaciáveis! Eu não sei que sinto em meu coração, sinto-o cheio, mesmo a transbordar, não sei com quê, que é o remédio de todos os males. Este remédio, isto que me enche o coração, não é meu, é uma coisa muito sublime, muito superior a mim. Parece que tenho o coração aberto e nele umas mãos a apontar para ele a indicar o caminho, a entrada, para ir buscar tudo aquilo de que o coração está a transbordar. Sinto bem que tudo isto é desprezado; poucos se querem aproveitar deste remédio, desta riqueza. E por isso sofro, sofro uma dor quase insuportável. Não posso fazer o bem; fazei-o Vós em mim e por mim, meu Jesus.
Tenho dentro de mim um rochedo mundial, é mesmo o mundo, sinto que o é. À volta deste rochedo, anda um mar infinitamente maior a bater mansamente com suas ondas meigas e doces, ondas de convite, ondas de quem quer entrar. Mas este rochedo, não é só rochedo inquebrável, cobriu-se também de podridão, de lodo e lama. As ondas batem com tanta doçura como que a afagar; querem lavar toda aquela imundície para depois abrandar toda a dureza; mas em vão. Dentro deste rochedo, está o veneno, de que eu sou portadora, está encoberto, mas apesar disso, opõe-se como víbora, como leão furioso, para que não possa este rochedo ser lavado nem amolecido! Ai como Jesus sofre! Que ingrata é a humanidade!

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 5 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira)

TANTO VOS QUERIA AMAR...

Contra este sol vinham nuvens negras...

Não posso ver sofrer Jesus, não posso sentir a Sua dor nem a ingratidão. E eu sou do número que O ofende gravemente, sou do número dos ingratos, muitos ingratos. Como posso proceder assim, ó meu Jesus? Parece que não tenho coração para Vos amar; se eu Vos amasse não Vos ofendia. Ai de mim, pobre de mim, que tanto Vos queria amar. Dar o meu sangue, a minha vida pelo Vosso divino amor é pouco; queria todo o sangue, todas as vidas e depois de tudo isso eu ainda dizia que não vos amava e nada tinha para Vos dar. Remediai este mal, Jesus, saciai os meus desejos. A vida foge, o fim aproxima-se, e eu morro de pavor, sozinha, em trevas, de mãos vazias. Existiu porventura algum dia, por algum tempo, em mim a luz? Sei o que é a luz, compreendo os efeitos, que a luz produz? Não, meu Jesus, tudo morreu para mim sem me deixar sinal algum da sua existência, dos seus efeitos. Bendito sejais.
Na tarde de ontem, parecia-me aparecer do Céu uns raios de sol, que davam vida à terra e a iluminavam de tantas trevas, que a submergiam. Contra este sol vinham nuvens negras, assustadas a encobri-lo. Parecia que tinha Jesus dentro de mim a contemplar, a fitar este sol e as nuvens formadas de todas as maldades, que tentavam encobri-lo. Jesus lançava-se às nuvens para as abraçar, embora que apavorado com elas; o Seu divino Corpo cobria-se de suor e sofria sozinho. De longe a longe fitava o Céu e bendizia a Seu eterno Pai.
Durante a ceia, eu queria poder mostrar o rosto de Jesus, tal qual O vi, inflamado de amor. Queria poder fazer sentir a todos os corações o que é o amor de Jesus para com a alma que verdadeiramente O ama. Como se uniram tão docemente o Coração divino de Jesus ao coração do discípulo amado! Jesus consolava-se no Seu discípulo e este no seu Mestre. Esta união suavizou a dor angustiosa de Jesus. Vi-O depois tomar em Suas divinas mãos uma bacia grande, redonda, cingir o Seu pescoço com uma toalha e seguir o lava-pés. Depois de sair da sala e se despedir da Mãezinha, um pouco já retirado, fitou-a novamente, como que a dar-Lhe um novo adeus. Ela fitava o Seu Jesus, no cimo da escadaria. Ele desapareceu, mas ficaram sempre unidos. À saída da cidade, ao principiar a subir, Jesus viu todo o sofrimento que O esperava; banhou-se novamente em suor, e á a cair desfalecido. A Sua vida divina fez que não caísse, e forçou-O a caminhar.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 5 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira)