segunda-feira, novembro 28, 2011

PODRIDÃO E LAMA

Tenho dentro de mim um rochedo mundial...

Meu Deus, como se pode aguentar tanto abandono. Tenho medo de estar tão só. Fugir-me, tudo, tudo e todos! Ó meu Jesus, faça-se a Vossa vontade divina. Eu vou à Vossa procura, ao Vosso encontro mesmo com sentir que quanto mais Vos busco mais me fugis. Só Deus me basta, só Jesus quero; confio que não sou por Ele abandonada. Sofro tanto por não poder fazer bem todas a todos, mesmo aos meus inimigos, se é que eu os tenho. É tal a dor que sinto por não fazer bem a toda a humanidade, até mesmo àqueles que mais me têm ferido, que por vezes não posso resistir. Consolar a todos, remediar todos os males, dar a todos a graça do Senhor, são os meus desejos.
Ó meu Jesus, que ânsias insaciáveis! Eu não sei que sinto em meu coração, sinto-o cheio, mesmo a transbordar, não sei com quê, que é o remédio de todos os males. Este remédio, isto que me enche o coração, não é meu, é uma coisa muito sublime, muito superior a mim. Parece que tenho o coração aberto e nele umas mãos a apontar para ele a indicar o caminho, a entrada, para ir buscar tudo aquilo de que o coração está a transbordar. Sinto bem que tudo isto é desprezado; poucos se querem aproveitar deste remédio, desta riqueza. E por isso sofro, sofro uma dor quase insuportável. Não posso fazer o bem; fazei-o Vós em mim e por mim, meu Jesus.
Tenho dentro de mim um rochedo mundial, é mesmo o mundo, sinto que o é. À volta deste rochedo, anda um mar infinitamente maior a bater mansamente com suas ondas meigas e doces, ondas de convite, ondas de quem quer entrar. Mas este rochedo, não é só rochedo inquebrável, cobriu-se também de podridão, de lodo e lama. As ondas batem com tanta doçura como que a afagar; querem lavar toda aquela imundície para depois abrandar toda a dureza; mas em vão. Dentro deste rochedo, está o veneno, de que eu sou portadora, está encoberto, mas apesar disso, opõe-se como víbora, como leão furioso, para que não possa este rochedo ser lavado nem amolecido! Ai como Jesus sofre! Que ingrata é a humanidade!

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 5 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira)

TANTO VOS QUERIA AMAR...

Contra este sol vinham nuvens negras...

Não posso ver sofrer Jesus, não posso sentir a Sua dor nem a ingratidão. E eu sou do número que O ofende gravemente, sou do número dos ingratos, muitos ingratos. Como posso proceder assim, ó meu Jesus? Parece que não tenho coração para Vos amar; se eu Vos amasse não Vos ofendia. Ai de mim, pobre de mim, que tanto Vos queria amar. Dar o meu sangue, a minha vida pelo Vosso divino amor é pouco; queria todo o sangue, todas as vidas e depois de tudo isso eu ainda dizia que não vos amava e nada tinha para Vos dar. Remediai este mal, Jesus, saciai os meus desejos. A vida foge, o fim aproxima-se, e eu morro de pavor, sozinha, em trevas, de mãos vazias. Existiu porventura algum dia, por algum tempo, em mim a luz? Sei o que é a luz, compreendo os efeitos, que a luz produz? Não, meu Jesus, tudo morreu para mim sem me deixar sinal algum da sua existência, dos seus efeitos. Bendito sejais.
Na tarde de ontem, parecia-me aparecer do Céu uns raios de sol, que davam vida à terra e a iluminavam de tantas trevas, que a submergiam. Contra este sol vinham nuvens negras, assustadas a encobri-lo. Parecia que tinha Jesus dentro de mim a contemplar, a fitar este sol e as nuvens formadas de todas as maldades, que tentavam encobri-lo. Jesus lançava-se às nuvens para as abraçar, embora que apavorado com elas; o Seu divino Corpo cobria-se de suor e sofria sozinho. De longe a longe fitava o Céu e bendizia a Seu eterno Pai.
Durante a ceia, eu queria poder mostrar o rosto de Jesus, tal qual O vi, inflamado de amor. Queria poder fazer sentir a todos os corações o que é o amor de Jesus para com a alma que verdadeiramente O ama. Como se uniram tão docemente o Coração divino de Jesus ao coração do discípulo amado! Jesus consolava-se no Seu discípulo e este no seu Mestre. Esta união suavizou a dor angustiosa de Jesus. Vi-O depois tomar em Suas divinas mãos uma bacia grande, redonda, cingir o Seu pescoço com uma toalha e seguir o lava-pés. Depois de sair da sala e se despedir da Mãezinha, um pouco já retirado, fitou-a novamente, como que a dar-Lhe um novo adeus. Ela fitava o Seu Jesus, no cimo da escadaria. Ele desapareceu, mas ficaram sempre unidos. À saída da cidade, ao principiar a subir, Jesus viu todo o sofrimento que O esperava; banhou-se novamente em suor, e á a cair desfalecido. A Sua vida divina fez que não caísse, e forçou-O a caminhar.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 5 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira)

SEI QUE SOU NADA...

O sol escureceu-se, a terra tremeu...

No Horto, senti bem, como se fosse o meu rosto, pousado na terra, todo ensopado em sangue. Pareceu-me que todos os meus vestidos nele se ensoparam também. Sofri tudo, tudo ali com Jesus; ainda que eu quisesse, não podia deixá-Lo; com Ele fui para a prisão.
Na madrugada, muito cedo ainda, em vão procurei consolá-Lo. Como o meu Jesus estava desfalecido! Que pena eu tive! Por mais que Lhe quisesse dizer, quase nada disse, não pude consolá-Lo, não soube amá-Lo. Mais tarde, ainda sem a sentença estar dada, vi os cravos que O haviam de pregar à cruz, o martelo que os havia de bater. O Coração de Jesus desfazia-se pela dor, o peito abria-se com o peso que o sobrecarregava. Eu queria acariciá-Lo, mas sentia no meu corpo que não podia tocar no Corpo divino de Jesus, por todo estar em ferida e em sangue; era tal o sentimento e dor, que eu tinha, que não parecia ser o Sagrado Corpo de Jesus ferido, mas sim o meu. Neste sentimento passei todo o caminho do Calvário e no mesmo sentimento O acompanhei na agonia da cruz. Parecia ser o meu sangue que sobre ela corria, pareciam ser as minhas carnes despedaçadas que caíam junto dela. Pobre de mim, sei que sou nada e nada sofro; era Jesus que em mim sofria. Se ao menos eu soubesse acompanhá-Lo!
O sol escureceu-se, a terra tremeu, aproximava-se o fim de tão grande tragédia. Jesus ia morrer, mas a ingratidão ficava. Que aumento de agonia! Senti perder a vida com tal ingratidão que, até ao último momento foi como que uma lança aguda a ferir-me o coração. Fiquei por algum tempo, como se expirasse Jesus também. Como Ele não tinha morrido, veio, fez-me viver e disse-me:
― Minha filha, Minha filha, desceu o Céu, desci Eu ao teu coração. Desci, Minha filha, ou melhor fiz que desci para Me comunicar a ti, para ouvires a Minha voz divina. Estou aqui e estou também no palácio riquíssimo do teu coração. Tu és, esposa amada, o espelho das virgens, o anjo dos jovens e das donzelas. Tu vieste ao mundo para escola de toda a humanidade. Em ti aprendem as donzelas a guardarem para Mim o lírio cândido da sua pureza; em ti aprendem velhos e novos, ricos e pobres, sábios e ignorantes; em ti aprendem todos a amarem-Me no sofrimento, a levarem a sua cruz.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 5 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira)

A MAIS ALTA MISSÃO...

Jesus ficou em silêncio e eu a nadar em paz e gozo

— Em ti estou bem, Minha pomba amada, ao abrigo do teu coração não pode o mundo ferir-Me.
― Meu Jesus, meu terno amor, que confusão e vergonha a minha! Quero cair humilhada e contrita aos Vossos  divinos pés e aí chorar as minhas culpas. Como podeis Vós que tudo vedes, falar assim da maior de todas as pecadoras, da mais indigna das Vossos filhas!
― Assim teria sido, Minha querida, se Eu não velasse por ti e não correspondesses às Minha divinas graças. O fazer-te conhecer o mal não tirou à tua alma o brilho e a graça; conhecê-lo não é praticá-lo. E só assim podias dar ao Meu divino Coração a reparação para tantos pecados e tantos crimes! És a Minha vítima, a quem confiei a mais alta missão. E como prova disso atende bem ao que te digo para bem o saberes dizer. Quase um século era passado que Eu mandei a esta privilegiada Freguesia a cruz para sinal da tua crucifixão. Não a mandei de rosas, porque as não tinha, eram só espinhos; nem de oiro, porque esse com pedras preciosas serias tu com as tuas virtudes, com o teu heroísmo a adorná-la. A cruz foi de terra, porque a mesma terra a preparou. Estava preparada a cruz; faltava a vítima, mas já nos planos divinos estava escolhida; foste tu. O mal aumentou, a onda dos crimes atingiu o seu auge, tinha que ser a vítima imolada; vieste, foi o mundo a crucificar-te. Agora partes para o Céu e a cruz fica até ao fim do mundo como ficou também a Minha. Foi a maldade humana a preparar-Me a Minha, e a mesma maldade preparou a tua. Oh! como são grandes os desígnios do Senhor! Como são grandes e admiráveis, que encantos eles têm! Poderia Eu na Minha sabedoria infinita assemelhar-te mais a Mim? Desta cruz, desta imolação tirei dois proveitos: o amor à cruz, o amor à minha imagem crucificada e a grande reparação. Não é só a Minha Alexandrina a ser na cruz crucificada, mas Cristo nela e com ela. É necessário maior prova? Estudem os sábios, estudem aqueles, não a quem dei a luz, mas a quem a vou dar. Alguns a quem a dei e a não aceitaram, não voltam a recebê-la. Partes para o Céu, Minha filha, mas por ti continua a obra da salvação. Acode às almas, acode às almas. Fica por um pouco a gozar a Minha paz para dela tomares conforto para a luta. No meio das tuas trevas, recorda estes momentos, lembra-te que sou Eu, confia em Mim.
Jesus ficou em silêncio e eu a nadar em paz e gozo; não tinha dúvidas que era Jesus. Uns momentos depois Jesus interrompeu o silêncio, e com o tubo doirado, ligado ao Seu divino Coração, introduziu-o no meu.
― Vais receber a gotinha do Meu Sangue divino e juntamente o meu divino amor com toda a abundância.
Pelo centro do Coração divino de Jesus saíam labaredas altíssimas; senti-me a arder e a queimar nelas; tudo em mim era fogo. Jesus com carícias e o bafejar dos Seus lábios divinos, desligou o tubo, retirou o Coração, apagou as chamas.
― Vai, filhinha, vai esposa Minha, não temas a cruz; comigo vences. Dá-Me dor, dá-Me dor, dá-Me amor, dá-Me amor. Vai para a cruz, vai salvar as almas, condu-las a Mim. Vai semear, leva o Meu divino amor. Vai, diz tudo, oferece-Me o sacrifício. Coragem, coragem.
― Obrigada, meu Jesus. Por não ter querer, tudo faço pelo Vosso divino amor; dai-me força, dai-me luz.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 5 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira)

sexta-feira, novembro 25, 2011

COMO É DOLOROSO O MEU SOFRER

O meu corpo continua a ser o depositário do vestido espinhoso de Jesus

Não só sinto que se apagou para mim a luz do dia, mas também a da eternidade; toda a luz se apagou para mim para sempre. Estou como se perdesse tudo, a felicidade e a luz e o gozo do Paraíso. Ai, como é doloroso o meu sofrer. Quantas vezes invoco os nomes de Jesus, da Mãezinha e dos Santos, na esperança de encontrar alívio e conforto e nada consigo; tudo morre sem em mim ter vida. Não acabem os meus lábios de se moverem a pronunciar qualquer acto de louvor ou amor a Jesus sem que tudo morra e desapareça para sempre.
Ó meu Deus, que pobrezinha eu sou! Ó Jesus que cegueira a minha! Que horror, que horror! Só vejo maldades, só vejo misérias em mim e à volta de mim. Que lama tão nojenta! Que mundo sem habitantes! Tudo é podridão vergonhosa e nojenta podridão. Estou agarrada e presa a ela; quero levantar-me, caminhar, e não posso, não tenho quem me deite a mão. Fugiu-me tudo, fugiram-me todos, não tenho ninguém por mim, nem um só amigo me ficou. Só eu existo no mundo, só eu sou crimes, só eu sou veneno. Tenho medo de mim; tenho medo de estar sozinha. Jesus, valei-me; a eternidade aproxima-se. Que tremenda escuridão, e eu de mãos vazias. Que me aproveitou a mim vir ao mundo? Como me utilizei eu da vida, que me foi dada? Ó Jesus, ó Jesus, sou a Vossa vítima; amparai-me com a Vossa divina mão; não resisto sem o Vosso amparo, sem a Vossa graça.
O meu corpo continua a ser o depositário do vestido espinhoso de Jesus; sinto-o todo numa ferida e em sangue. Sinto também que continuo a ser o veneno das almas, o veneno de toda a humanidade, veneno que tenta, contra o Céu, a envenenar se possível fosse o próprio Deus. Que peçonha tão perigosa e que ódio contra Jesus!

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 28 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

JESUS QUERIA ABRAÇAR O MUNDO

Sentia mesmo no meu rosto o Rosto de Jesus, bem gravado

Na terça-feira, dia 25, quando estávamos a fazer o mês das almas, sem nada pensar nem se tratar do Senhor dos Passos, eu vi-O, por três vezes, a caminhar, aparecendo aqui e além, desfiguradíssimo, coroado de espinhos, com um grande madeiro aos ombros. Não posso dizer o que senti; comoveu-me tanto em assim ver Jesus! Não soube falar-Lhe, quase nada Lhe disse. Pedi-Lhe para que não sofresse e passasse para mim todo o Seu sofrimento e a cruz.
Esta visão causou-me tal sentimento e foi tal a pena de não saber oferecer e falar a Jesus, que parece-me, ou melhor, sinto que se me abriu no coração uma ferida tão profunda que o vazou, dum lado ao outro. Esta ferida sangra sempre, desde esse dia, todos os dias, em algumas horas, não são horas certas; eu sinto sobre os meus ombros aquele pesado madeiro, que Jesus levava, e na cabeça a coroa de espinhos que cingia a Sua sacrossanta Cabeça. Quantas vezes me parece ter os cabelos ensopados em sangue e este mesmo sangue saído das feridas, a correr-me pelas faces.
Ontem de tarde, sentia mesmo no meu rosto o Rosto de Jesus, bem gravado. A princípio, depois de fitar o mundo, cobriu-se de suores; depois derramava copiosas lágrimas de sangue e este saía-Lhe também pelos ouvidos. Jesus queria abraçar o mundo, mas a maior parte dele não queria aceitar o Seu abraço. Passei pela sala espaçosa da ceia, pela sala do grande amor. Jesus dava do Seu divino Coração para cada um dos Seus discípulos o Seu divino amor, em raios luminosos, como sol aparecer no horizonte; todos os discípulos o receberam e deixara-se por ele iluminar, apenas Judas se fechou e recusou o Seu brilho e luz.
Passei para o Horto para todas as cenas dolorosas e comovedoras; nele vi todo o martírio que me esperava, ou que esperava a Jesus. Entre grandes e muitos espinhos, que se enleavam em meu coração, enchi o cálice da amargura. Fui presa e levada aos tribunais, e destes para a prisão.
Durante a noite, depois de grandes ameaças do demónio, combati com ele, por três vezes. Causa-me grande horror a forma como ele pinta e consegue as coisas. Parece-me que sou eu só a causa de tanto mal. De um combate ao outro, fiquei presa sempre ao demónio e sobre a boca do inferno. Ouvia uivos raivosos e grandes leões tentavam engolir-me. Dizia-me o maldito que por mim se ia povoar o mundo de demónios. O que eu sofri! Eu queria e não queria pecar. Chamei por Jesus; Ele veio em meu auxílio; dum demónio que eu era transformei-me em serenidade e paz.
― Aparta-te, maldito; não exijo mais da Minha vítima. Minha filha, Minha filha, não pecaste; deste-Me nestes combates, maior reparação do que com um ano de sofrimento, jejum e penitência. É um cordeirinho a imolar-se sem perder a vida, no fogo sem se queimar.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 28 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

VENHO A TI COMO PAI, MINHA FILHA...

O ódio dos algozes, junto à cruz, aumentava...

Fui pouco depois à prisão, ao encontro de Jesus. Vi-O tão desfigurado e cheio de frio. O meu pobre coração queria lançar-se aos Seus pés para ser por Jesus calcada e humilhada. Queria aquecê-lO com o meu amor, e não o tinha. Senti-me como se tomasse Jesus pela mão e O ajudasse a caminhar. Segui com Ele o Calvário e sentia que a escuridão, em que estava mergulhada, era a escuridão da nossa cegueira, da nossa ingratidão para com Jesus. No meio do ódio e maus-tratos, parecia-me que Jesus me ajudava a mim no meu desfalecimento, e eu, pobre criatura Sua, a Ele O auxiliava.
No Calvário do meu peito, por quantas vezes senti Jesus desfalecer e quase expirar! O ódio dos algozes, junto à cruz, aumentava. Faltavam corações amorosos, só o da Mãezinha e poucos mais choravam os martírios do Senhor. Ó agonia, ó agonia! A Mãezinha parecia formar voo na Sua agonia para o cimo da cruz para suavizar e acariciar o Seu divino Filho. Os sentimentos dolorosos do Seu Santíssimo Coração mais dolorosa fazia a agonia de Jesus. O Seu divino Coração ardia de amor, e, no momento Dele expirar, pareceu despejar-se por toda a humanidade como vaso de delicioso perfume. Expirou Jesus, e com Ele para, pouco depois, vivermos. Ele veio e disse-me:
― Estou em ti como esposo para contigo desabafar as Minhas mágoas para te condores de Mim. Venho a ti como Pai, Minha filha, para que Me obedeças e atendas aos meus pedidos. Habito em ti como Rei, no palácio do teu coração, para contigo reinar e mais uma vez provar ao mundo que és a Minha rainha. Repara como Eu venho, olha para o Meu divino lado.
Vi o sagrado peito de Jesus aberto e, dentro, o Seu divino Coração ferido, a sangrar. Quis logo arrancar a ferida de Jesus, passá-la para mim; não podia vê-Lo sofrer. Senti que Jesus, por ver a minha ansiedade e pena do Seu sofrer, logo cerrou a ferida do Seu divino Coração, e disse-me:
― Para não estar Eu sempre assim, por saber que não queres a Minha dor, fiz que o teu coração sangrasse e a Minha ferida passasse para ti. O mesmo fiz com a cruz e a coroa dos Meus espinhos. Quando te apareci a caminhar com ela foi para que te condoesses e na tua grande generosidade a aceitasses. É a razão porque assim te sentes sobrecarregada com o seu peso. Minha filha, Minha amada filha, quanto mais ferida te sentires pelos espinhos, arrastada e esmagada pelo peso da cruz, maior quero que seja o teu esforço em a receberes e suportares com alegria, mais frequentes e fervorosos os teus actos de amor. É nessas horas que Eu sou mais ofendido. Sabes quem assim Me fere tão barbaramente? São as almas consagradas a Mim, aquelas que dizem amarem-Me e serem Minhas amigas; mas não o são. Custa-Me mais, muito mais, as ofensas destas do que o crimes dos pecadores, porque esses, muitos não crêem em Mim nem se dizem amigos Meus.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 28 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

quinta-feira, novembro 24, 2011

SEGUE-ME ALEGREMENTE

Sou Eu a confortar-te, a comunicar-Me a ti...

— Dá-Me a tua dor, aceita a tua cruz, segue-Me alegremente, Minha filha querida. Dá às almas o Meu divino amor e infunde-o em todas aquelas que Me querem amar, pede-lhes para que Me amem. Quero amor, quero amor para esquecer tanta ofensa ao Meu divino Coração. Quero amor, quero amor para com ele aplacar a justiça do Meu Pai. Minha filha olha o mundo, olha as almas que se perdem. Dei-te o Meu amor, dei-te todo o fogo do Meu divino Coração, incendeia-o nos corações; foi para isso que te fiz dele depositária; é por ti que Eu lho dou, é por ti que Eu sou amado. E, como prova disso e de que tu Me amas, Eu te apareço muitas vezes na realidade, mostrando-te o Meu divino Coração. E tu não tens falado disto, nada disto escreveste?
― Meu Jesus, só Vós sabeis o porquê. Com as minhas ânsias de amor e desejo de me enlouquecer por Vós, temia que fossem ilusões da minha parte, apesar de me sentir confortada, ao ver o Vosso divino Coração e Rosto, tão cheios de amor.
― Não é ilusão, não, filha amada; sou Eu a confortar-te, a comunicar-Me a ti, a dar-te amor para dares por Mim. Tu serás para o mundo. Tu serás para o mundo farol luzente, estrela brilhante sempre, sempre a cintilar. A tua vida será uma aragem celeste, perfumada e deliciosa, a correr sempre através dos tempos, a suavizar e atrair para Mim as almas. Recebe a gota do Meu divino Sangue; dou-ta vagarosamente; é a carne, é o pão, é o vinho que te alimenta, é a vida do que vives e a que quero que dês às almas.
Jesus, ao dizer isto, introduziu o tubo, uniu os nossos corações. Ao tirar o tubo, uniu ao coração os Seus divinos lábios, bafejou-mo e passou a Sua Santíssima mão sobre o lugar da abertura, como quem acaricia.
― Vai para a cruz, Minha filha, vai salvar as almas, e sempre que por elas te vejas rodeada, murmura baixinho: dou-vos a vida e o amor de Jesus, quero que todas sejais de salvação. Coragem, coragem! Leva conforto, leva amor, vai para a cruz.
― Obrigada, obrigada, meu Jesus.
Vim bem para a cruz; que grande é o tormento da minha alma. Bendito e louvado seja em tudo o meu Senhor.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 28 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

A ALMA ABRAÇADA À CRUZ

Sofrer por Jesus é a minha única alegria !

Sinto-me humilhada pela minha vida enganadora, cheia de tanta ilusão. E sinto a humilhação que, por minha causa, têm e terão que sofrer os que me são queridos. Por vezes não sei como aguentar com este sofrimento. Por mais doloroso que seja o meu sofrer, pela garça do Senhor não posso deixar de Lhe agradecer e receber com toda a alegria e amor; alegria sem gozo, amor sem sentir que amo.
Mas é tal a ânsia e sede que tenho de sofrimento que sinto, como se a alma estivesse abraçada à cruz, noite e dia, sem dela se separar; é nela nessa cruz bendita, que a alma goza e se satisfaz: Sofrer por Jesus, sofrer pelas almas é a minha única alegria, é toda a doçura que na terra posso saborear. Parece-me que, de dia para dia, aumenta em mim o veneno de todos os vícios, o veneno de todos os meus sentidos. Sou esmagada, e quanto mais esmagada mais este veneno espirra ao longe.
Toda a humanidade está no perigo de morrer neste veneno. Sinto nada haver na terra que não esteja infeccionado. O mundo, ai o mundo, fui eu que o envenenei com o veneno infernal, com o veneno de Satanás que sinto estar em e mim e sou eu que por ele tenho de responder ao Senhor. Ó meu Deus, e que contas Vos hei-de eu dar? Ó Jesus, ajudai-me a levantar; eu não posso com a justiça do Vosso Eterno Pai, que descarregou sobre mim; esmaga-me. Ajudai-me, ajudai-me, Jesus. O meu corpo está quase transformado em chamas; rasgam-se com a violência da dor; vão-se abrindo e ligando umas às outras; não podem unir-se estas chagas ao veneno, que de mim passa para a humanidade. Pobre do meu corpo, que com tudo tem que aguentar. Meu Deus, que horror?
O vestido de espinhos que cingia o corpo de Jesus, na sexta-feira passada, ficou a cingir-me o meu todos estes dias. Custa tanto aguentar com este vestido tão espinhoso! Cobre-me da cabeça aos pés, penetra no mais íntimo de todo o meu ser. Sinto-me como se em mim não houvesse pele nem osso; tudo é sangue. E houve um espinho disperso que veio como uma lança atravessar-me o coração. Ele não foi dirigido a mim, mas foi por mim que ele foi dirigido; e é por isso que eu sofro. Se ele fosse só para mim, se fosse eu só por ele atingida beijava-o, abraçava-o. Contudo amo-o e quero conservá-lo em meu coração como relíquia preciosa, para que assim Jesus possa guardar no Seu divino Coração para sempre aquele que na sua cegueira o pode tirar. Em nome de Jesus e da Mãezinha, quero amar a todos por todos quero sofrer.
Tive três combates com o demónio; nem quero lembrar-me deles. Parece-me e sinto que deles sou eu só a autora. Como se ofende ao senhor! Várias vezes o demónio veio com as suas maldades e malditas lições. Nestes momentos, eu queria poder encerrar num cofre de ferro todos os meus sentidos para nada poder ver nem ouvir. Se houvesse um lugar, onde pudesse esconder-me nele, fazia-o só como receio de ofender o meu Jesus. Algumas vezes a luta era só de espírito.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 21 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

MUITOS FUGIAM DA LUZ...

A minha alma viu o Céu descer sobre a terra

Nos três ataques ao espírito, teve que lutar também o corpo; o maldito tratou comigo como se fosse um mudo. Eram só gestos e pinturas maldosas. Isto foi motivo de maior tormento; mais me parecia que não era influência dele, mas sim minha, só minha. Pareceu-me que o coração, no auge da dor, veio palpitar para fora do peito; não cabia em mim. Ensopada em suor, chamei por Jesus e pela a Mãezinha, e fiquei libertada.
Chamaria a tempo? Não chegaria a pecar? Que medo eu tenho! Ai a minha vida tão cheia de misérias e tão falha de virtudes e merecimentos. Que cegueira, que mortandade! Vivo sem viver, ou vivo sem sentir que vivo. Ó Jesus, sou a Vossa vítima, imolai-me ao Vosso gosto.
Ontem, ao cair da tarde, a minha alma viu o Céu descer sobre a terra; vinha dar-lhe luz, porque estava em trevas, vinha dar-lhe vida, porque estava morta. Era Jesus que vinha dar esta luz e esta vida, mas oh! como foi rejeitada. Eu via uma massa grandiosíssima fugir à luz e à vida de Jesus. Que dor dolorosíssima me causou na minha alma; conduziu-me logo ao Horto esta dor. Jesus foi dentro em mim e dentro em mim Ele orou com o Seu Santíssimo peito sobre uma pedra dura, e cercado de grandes varas de espinhos, que se enleavam umas nas outras, estava o cálice, que recebia o sangue e toda a amargura de Jesus.
Eu sentia que só ele sofria; era tal a Sua dor, que causava espanto e admiração aos Anjos, que do sofrimento, como se fossem estrelas, O contemplavam. Só o Céu compreendia a dor de Jesus. Depois do Céu, era a Mãezinha a compreendê-la e a vivê-la. Como Jesus e a Mãezinha se amavam e viam, um através do outro. Toda a terra ignorava, mesmo os discípulos de Jesus, a dor de tão amantes corações. Faz enlouquecer tanta dor, tanto amor. Ó meu Deus, que mal Vos tenho correspondido!
Hoje, segui o Calvário. A minha cabeça esteve com a de Jesus, por algum tempo, pousada na terra nua com o desfalecimento do corpo que, nesta ocasião, mais barbaramente recebia os maus-tratos. O sangue corria pelos olhos e ouvidos. Toda chagada, fiquei na cruz crucificada. Estava no alto para escárnio de quase todos que ocupavam o Calvário. Vi a Mãezinha subir a montanha; foi o meu pobre coração que sentiu e a alma que viu a Sua dor e olhares angustiosos, que mal A deixavam arrastar-se. Quanto isto custou a Jesus! Foi a união dos Seus divinos corações e o amor que A conduziram ao Calvário. Não sei dizer o que senti que Eles sofreram e amaram. Se fosse possível eu falar desta dor e amor por toda a eternidade, podia dizer que nada dizia. Sofro por só isto saber dizer. Formou-se um Calvário de espinhos; subiram tanto que encobriram a cruz. Entre eles como num só coração, num só amor e numa só alma estava Jesus, a Mãezinha e eu a darmos a vida, esmagados pela justiça divina. Eu sentia e via a mãezinha por Jesus; não era em mim que Ela estava, era Jesus em mim e Ela em Jesus. Foi para os três o mesmo Calvário, a mesma agonia. Senti-me morrer e morta ficar, por um espaço de tempo.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 21 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

COMO EU SOU OFENDIDO !

Acode às almas !

Veio Jesus, tomou lugar em meu coração, passeava nele como numa grande sala, passeava aflito o doce Jesus, parecia não caber em Si.
― Minha filha, Minha filha, Minha filha...
E calava-se, continuando a andar no mesmo aposento, na mesma aflição. Voltou novamente:
― Minha filha, Minha filha, Minha filha.
E continuava a andar silencioso, a soluçar e a derramar lágrimas. Pela terceira vez chamou:
― Minha filha, Minha filha, Minha filha, quero abafar e encobrir em Mim a dor do Meu divino Coração, e não posso, tenho que desabafar contigo não com gosto de te fazer sofrer, mas sim para Me acudires às almas. Como Eu sou ofendido! Elas correm para o pecado, elas lançam-se para as labaredas dos crimes, loucas, loucas, pelas paixões. Sofre, acode-lhes, não as deixes morrer eternamente. Continua a Minha obra salvadora, a obra da redenção. Faz tu agora o que Eu sozinho já não posso fazer; só posso continuar a salvar o mundo em ti, através de ti.
― Ó meu Jesus, ó meu doce Amor, se os meus pobres sofrimentos por Vós forem enriquecidos, algum valor têm. Por que é que chorais? Não sabeis que eu quero sofrer, que aceito tudo para Vos consolar e salvar as almas?
― Minha filha, coração puro, coração generoso, coração de amor, choro para te mover à compaixão do Meu divino Coração. Aceitas a ficar novamente com o vestido dos Meus espinhos? Aceitas a viver assim ferida? Só assim Eu não sofro, só assim não necessito de chorar.
― Sim, meu Jesus, aceito por vosso amor, mas sozinha não posso, quero a Vossa força e divina graça.
― Tudo possuis, tudo é contigo, esposa das esposas, vítima das vítimas, encanto dos Meus encantos. Escuta-me agora atentamente. Escreve: Santo Padre, santo Padre, Meu querido Representante na terra, escuta a voz de Jesus, fala ao mundo, fala ao mundo; fala aos bispos em segredo, para que estes falem aos seus padres. São tão poucos os que são a luz do mundo e o sol da terra! Padres seculares, que cumpram o seu dever, são pétalas, que o vento levou, deixando-as espalhadas; uma aqui, outra muito mais além. Que escândalo, que veneno, para as almas, são os sacerdotes destes dias, deste século! Santo Padre, santo Padre, Meu querido Representante, fala ao mundo, faz ouvir a tua voz, dum pólo ao outro. Faça-se oração, faça-se penitência. Vida nova, vida pura. Depressa, depressa cai sobre a terra a justiça de Meu Pai. Mãos à obra. Principie por quem deve principiar, venha o exemplo do alto. Minha filha, vai dizer tudo, nada escape do que te disse. Vai acender-se a luz do Espírito Santo, para dissipar todas as tuas trevas, para que conheças que em ti é tudo obra divina.
Principiei a gozar duma luz brilhante e a gozar do amor de Jesus e a nadar na Sua paz.
― Se assim fosse sempre, meu Jesus, nada podia temer, nada podia duvidar.
― Coragem, Minha filha. Recebe agora toda a luz para dela viveres, logo que caias nas trevas. Fora de Mim é cegueira, fora de Mim sentirás nada saberes dizer, mas é o teu Calvário doloroso, são as Minhas divinas palavras a cumprirem-se. Vou dar-te lentamente a gota do Meu divino Sangue, uno os nossos corações para descansar Eu no teu e tu no Meu, enquanto que do Meu recebes a luz e o amor; a vida que é a tua vida, o amor que Eu quero que espalhes, que incendeies, que infundas nos corações e nas almas. Vai, pede aos meus amigos para que Me amem e reparem o Meu divino Coração. Vai espalhar o bem, vai com as tuas trevas da luz; vai dar ao mundo, espalhar nele o perfume celeste, o perfume das grandes virtudes. Coragem, não temas a cegueira, não temas a ignorância, não temas a cruz. O divino Espírito Santo ilumina-te, Eu falo em teus lábios e em ti venço e levo a cruz.
― Obrigada, obrigada, meu Jesus.
Depois de umas horas do meu colóquio com Jesus, ao acabar de ditar tudo isto, caí no mundo da maior cegueira. Que ignorante eu sou! Bendita seja a cruz do meu Senhor. Quero a todo o custo, amá-Lo, e, a todo o custo, salvar-Lhe almas.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 21 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

segunda-feira, novembro 21, 2011

QUERO DAR-VOS ALMAS...

Não Vos esqueçais dos meus pedidos

Vou cumprir o meu dever de obediência, meu Jesus, mas oh! com que sacrifício! Sabeis, meu doce Amor, que diga a verdade, só a verdade. Só vós conheceis quanto me custa.
Juntou-se à repugnância que a alma tem em abrir-se a dizer o que sofre, a falta de forças do meu corpo. O que eu tenho sofrido! Que pobre farrapo, desfeito pela dor! Tudo aceitei, tudo sofri, bendizendo alegremente ao Senhor. Bendita seja a minha cruz, bendito seja tudo o que me dais, bendito seja o Vosso amor, ó Jesus sou a Vossa vítima. Aceitai tudo para reparar a justiça do Vosso Eterno Pai, para desagravar o Vosso divino Coração, tirar-lhe todos os espinhos e ao da querida Mãezinha. Não Vos esqueçais dos meus pedidos: e nomeava-lhes vários. Assim falava ao meu querido Jesus, quando o abatimento e a prostração assim mo permitiam. Quando a sede, os ardores da febre me abrasavam mais, e, por vezes, nem sequer ao menos podia refrescar a boca nem os lábios com um bocadinho de água, pela qual eu parecia morrer de saúde, eu fitava a imagem do Sagrado Coração de Jesus, e dizia-lhe: o que há-de ser, meu Amor, a Vossa sede das almas; quero dar-Vo-las todas, todas; por todas morrestes, abrasado em amor, e por todas continua a vossa sede ardentíssima. Seja por Vós e pelas almas a minha sede, ó Jesus.
Parecia-me que, nestes momentos, era por um pouco a minha sede refrigerada. Sofri tanto, tanto, meu Jesus, e quanto mais sofri, menos encontrei, menos vi, mais vazia fiquei. Sinto-me num mundo de escuridão, de isolamento, sem nada, sem ninguém. E este mundo, em que eu tão só me encontro, o qual é só cinza, podridão nojenta, é regado pelo meu sangue; sinto-o a sair do meu corpo como chuva torrencial; não fica nem um só bocadinho desta cinza sem ser no sangue ensopada. Vejo esta massa de ensope e eu sozinha, mesmo sozinha sobre ela a sentir morrer em mim esta vida que por mim, ou em mim, tanto sangue deu. Que desfalecimento! Tenho medo de mim mesma, tenho medo de tanto sangue ver morrer e sem vantagem para toda a humanidade. Tudo está morto, tudo desapareceu. Para que é tanto sangue, Jesus? Sou em tudo a Vossa vítima; tudo é por Vós.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 14 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

SENTIA JESUS A FITAR O MUNDO

A visão das lágrimas da Mãezinha

Ontem de tarde, no mar do meu sofrimento, parecia-me ter vindo ao mundo, mas não ser do mundo, vivia nele não para cuidar de mim, mas sim das coisas de Deus. De vez em quando, o meu coração ia para o Horto, mas logo fugia, ou fingia fugir para tratar das mesmas coisas.
Logo à noitinha, para concluir esses trabalhos, passei à ceia. Mas oh! que amargura tão cheia de amor e disfarçada! Senti a consolação, que Jesus sentiu, quando tão carinhosamente ao Seu lado se encostou o discípulo amado. Logo a seguir, foi grande a dor do Seu divino Coração com a visão das lágrimas da Mãezinha, lágrimas que para Jesus foram antecipadas, assim como a lança que, num rápido momento, Lhe abriu o peito e o divino Coração, deixando-o a sangrar. Depois, segui, passo por passo, as cenas dolorosas e tristíssimas do Horto e da agonia de Jesus. Eu em mim sentia ter que morrer e queria morrer; sem a morte não poderia terminar os trabalhos, a que tinha vindo à terra. E, nesta altura, sentia Jesus a fitar o mundo e com profunda tristeza dizia o seu divino Coração: tanta ingratidão para tanto amor. Não eram bem aceites os Seus padecimentos, o Seu divino Sangue, a Sua morte.
Hoje, longe de aparecer o dia, muito desfalecida, no mesmo desfalecimento, fui encontrar Jesus na prisão; estava sozinho sem ter quem O confortasse e fizesse um carinho e Lhe provasse amor. Quase não era Jesus; era um moribundo. Compadecia-me Dele, disse-Lhe muitas coisas, mal, porque melhor não sabia, para O consolar. Disse-Lhe muito, e muito Lhe pedi. Entre esses pedidos, o principal foi que não me deixava iludir nem enganar os outros. A verdade, a verdade, só a verdade, meu Jesus. O que dizia e pedia na minha dor, nas minhas ânsias ardentes de consolar Jesus e Lhe provar amor sem por sombra pensar numa resposta; mas logo do íntimo do coração uma vez muito terna e doce me disse:
― É esta a verdade pura, minha filha, pura, mais pura que a água cristalina! Confia, confia, em Mim.
Senti e vi que Jesus se sentia e via Ele mesmo preso à coluna e depois na cruz, mas isto ainda na prisão. Não pude saborear nada as palavras doces de Jesus; tive que sofrer com Ele.
Mais tarde, vi-O então meio despido, já solto da coluna, mas todo banhado em sangue, e, depois, tomar a cruz, seguir o Calvário. No meio dos espinhos do meu viver, no Calvário das minhas dores, segui com Ele. Na viagem não me foram poupados os maus-tratos e na cruz fui com Ele crucificada, sempre a sentir que estava a cuidar as coisas de Deus, muito unidinha a Ele com Ele compartilhava da mesma agonia. Como Ele eu queria enxugar as lágrimas da Mãezinha, consolá-La na Sua dor, tirar as setas do Seu Santíssimo Coração, tomá-La para o regaço, abraçá-La, fazer-Lhe o que Ela bem depressa ia fazer a Jesus, mas com Ele já morto. O coração ia morrendo lentamente e aquela vida que me tinha trazido à terra ia-se avizinhando novamente do Céu. Jesus expirou. Toda a vida me fugiu, e expirei com Ele.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 14 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

É CRISTO EM TODO O TEU VIVER

Eu quisera, filha querida, que viesse o mundo inteiro, junto de ti

Passou-se algum tempo neste estado mortal; veio como que uma nuvem de fogo, envolveu-me nela, o coração principiou com total fogo, envolveu-me nela, o coração começou a arder com tal fogo que se comunicava ao  corpo; este fogo queimava-me, mas sem me dar luz. Senti-me adormecer naquelas trevas mais claras e suaves. Não sei o tempo que passei neste sono com Jesus. Ao terminar do sono, ouvi que Ele me dizia:
― Minha filha, minha amada filha, a tua noite com o teu prolongado e inigualável Calvário são para as almas astros cintilantes, com vão com o Seu brilho penetrar nos corações e nas almas mais escurecidas pelas trevas do pecado. Confia, confia em Mim. Se soubesses a luz, que elas por ti recebem! Se soubesses os milagres, as grandes ressurreições que nelas são operadas neste teu quartinho, Calvário escolhido por Mim! O teu quarto é o templo das maravilhas prodigiosas do senhor. Eu quisera, filha querida, que viesse o mundo inteiro, o mundo que te confiei, junto de ti. São muitas as almas que vêm, mas em comparação das que precisam vir e eram Meus divinos desejos que elas viessem, é como uma gotinha de água caída do oceano.
Ao ouvir estas palavras de Jesus, não pude conter-me, e exclamei:
― Então, meu Jesus, ofendi-Vos, ficaste triste comigo por eu pensar: se eu pudesse ir com os meus para uma ordem e esconder-me a isto tudo. Dizei-me, dizei-me, Jesus.
― Sossega, sossega, Minha pomba amada; não Me ofendeste, antes recebi de ti consolação. Quando assim pensares, não acrescentaste logo: meu Jesus, não quero fugir à cruz, que me dais, quero só a Vossa divina vontade? Compreendi-te; está tudo visto. Que encantadora lição; viver escondida por Mim! Olha, Minha filha; é o mundo, são os pecadores o fim principal da tua vida aqui; é a tua missão, a mais alta e sublime missão. Quando mandas abrir a porta às almas, é Cristo em ti a abrir-lhes o coração: é Cristo que lhes fala com bondade e doçura, é Cristo que lhes sorri e as fita com olhares atraentes e encantadores e as convida para o Céu. É Cristo em todo o teu viver. Que loucura a minha pelas almas! E elas, ai delas! E elas, ai delas, tão mal Me tratam, tanto Me ferem! Olha para Mim.
Apenas vi o rosto de Jesus com semblante tristíssimo; todo o Seu Santíssimo corpo, da cabeça aos pés, tinha um vestido de espinhos, tudo era sangue. Acudi logo:
― Não posso ver-Vos, Jesus, nesse sofrimento; passai-o para mim, aliviai-Vos a Vós; não me poupeis, sou criatura Vossa e Vós o meu Senhor. Para assim sofrerdes, de nada valem os meus sofrimentos.
― Ai do mundo sem eles, Minha filha, ai do mundo sem vítimas, ai dele sem o teu Calvário contínuo; já a bomba divina tinha rebentado! Que incêndio de justiça sobre o incêndio dos crimes! O mundo é teu, é teu o mundo, confiei-to; sofre pelas almas; pensa só a elas salvares. Ó mundo, ó pobre mundo, que não acordas, ai o que te espera para breve, para breve.
Quando Jesus assim me falava, todos os espinhos Dele tinham desaparecido, mas ai que dor a minha! Pobre de mim, nada soube dizer a Jesus; fitei-O e fiquei calada.
― Coragem, Minha filha! Eu vou dar-te a gota do Meu divino Sangue; vai passar para o teu coração vagarosamente; vai ser como uma esponja com água; vai passar por todo o teu coração e correr em todas as veias. É o sangue que gera as virgens, é o sangue que te dá a vida, o sangue que te levanta as forças perdidas e consumidas pela dor, é o sangue que te anima a continuares no te martírio.
Jesus, enquanto falou, introduziu o tubo e deixou passar a gotinha vagarosamente; quando acabou de falar, já o tinha desligado.
― Coragem, coragem ,filha querida; vai para a dor, vai para a cruz. Vou pedir-te grande luta com o demónio. Repara-Me pelos sacerdotes, que é tão grande o número a ofender-Me. Repara-Me pelos casados, que praticam graves crimes. Repara-Me pela juventude desonesta, pela juventude corrompida. Vai sofrer, vai para a cruz, vai com alegria, vai ditar tudo; eu serei contigo e contigo levas a luz do Espírito Santo. Goza da minha paz, goza uns momentos da minha luz.
Fiquei sem dor, fiquei sem trevas, por um pequenino espaço de tempo. Abracei Jesus no meu coração, e disse-Lhe por despedida:
― Obrigada, obrigada, meu Jesus.


(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 14 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

domingo, novembro 20, 2011

VONTADE DO MEU SENHOR !

Ó alegria, santa alegria, alegria do Céu


Jesus e a querida Mãezinha me ajudem a ditar o que vai na alma, se é que com isso Os posso alegrar e consolar, fazendo a Sua divina vontade. Sinto-me sem forças e sem vida para nada. Só do Céu posso receber a força que necessito, para cumprir o meu dever de obediência. Vontade do meu Deus, santa obediência! Oh! se não fosse isso, este dever que me obriga a não ter querer nem vontade, punha uma pedra, encima do meu passado, e um travão firme para nada mais poder dizer da minha vida; abafava tudo, tudo fazia morrer. Se vejo a minha vida só com os olhos no mundo, é a vida mais triste que imaginar se pode. E para maior tristeza e tormento é ver que o faço tristíssima para alguém que mais de perto me rodeia. Para me levantar desta dor aniquiladora, fito os meus olhos em Jesus crucificado e na Mãezinha das Dores, recordo por um pouco o que por mim sofreram, e, depois, tirando da cruz os olhares, fito-os no Céu, na Pátria que me espera, na Pátria que Jesus criou para mim, onde eu posso louvar e amar eternamente, sem ao menos poder recordar o que é a dor, e então aí a minha vida é alegre e alegre a posso fazer para todos que me rodeiam. É a vontade do Senhor, sou a Sua vítima, são as almas a salvar.
Ó alegria, santa alegria, alegria do Céu. Vontade do meu Senhor, tesouro do paraíso, não te deixarei jamais. Eu não sei falar da minha dor; as trevas que tanto amo e tanto me fazem sofrer não me deixam dizer as razões e consequências da dor. Sofro, sei que sofro, mas sinto que a dor me foge, que a dor morre, que não sou eu que sofro.
As trevas são para mim o que as nuvens são para o sol. As trevas nada me deixam ver nem compreender. As nuvens não deixam ver o sol nem aparecer. Eu quero sofrer sem alívio, não quero ter uma palavra de desabafo com pessoa alguma, quero desabafar só com Jesus e com a querida Mãezinha. Isto no que diz respeito à minha vida; quero sofrer em silêncio, sempre em silêncio, apesar de ter grande horror ao sofrimento. Quero-o, mas tremo de alma e corpo como ramo verde a baloiçar com os ventos. Não sei como enfrentá-lo; não sei como resistir a tudo que me espera; não sei o que é, mas sinto-me apavorada.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 7 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

TRISTES E DOLOROSAS HORAS...

Eu gostava de ser cega e surda...

Continuo a sentir no meu corpo todos os sofrimentos de Jesus, todos os instrumentos da Sua divina Paixão. Tudo me martiriza e faz sangrar o coração e alma. A fome e sede de Jesus é insuportável, assim como insuportável é a fome e sede das almas. Quero o mundo, quero o mundo, quero dá-lo ao meu Jesus.
Foram quatro os combates que tive com o demónio, foram combates do inferno. Tinha mão para tudo, menos para me benzer e afastar de mim o maldito. O corpo foi um banho de suor, o coração uma máquina estrondosa. Sim, eu consegui chamar por Jesus e pela bendita Mãezinha, mas o que eu não consegui, ou me pareceu não conseguir foi chamá-Los a tempo. Eu gostava de ser cega e surda, para não ver nem ouvir os ensinamentos do maldito e para me não aterrorizar com o que ele diz contra Jesus. Mas, se assim fosse, não podia combater nem sofrer, não poderia ser vítima do meu Senhor.
A tarde de ontem para mim pareceu-me não ter sol, ou melhor nunca o ter conhecido. Em tão grande cegueira abafada pelo peso da dor, os meus olhos quase não paravam, fitavam-se ora em Jesus, ora na Mãezinha, únicas forças do meu martírio. Comecei a ver e a sentir uma luz brilhante, a vida do Céu a manchar-se, a envolver-se com a terra. Era Jesus que vinha a sofrer. Principiei a senti-Lo a meter-se, a curvar-se debaixo do peso esmagador da humanidade. Ele chorava, gemia, eram profundos os Seus suspiros, mas eram só para Ele, encobria-os aos Seus apóstolos, sofria sozinho. Pensava para mim: como Jesus me ensina a sofrer; quero sofrer à Sua semelhança. Sim, agora mais que nunca, só com Ele quero desabafar. Uni, meu Jesus, aos Vossos os meus sofrimentos e fazei que eu aguente com tudo.
Avizinhavam-se os sofrimentos do Horto e toda a montanha do Calvário pesava, cada vez mais, sobre Jesus e sobre mim, pobre e indigna companheira Sua. Um painel grandiosíssimo, ou à semelhança dele mostrava claramente quanto Jesus ia passar. Os Seus suspiros eram cada vez mais profundos e abafadiços e assim eram para mim também. Triste quinta-feira! Triste e doloroso Horto! Tristes e dolorosas horas as de agonia de Jesus! Parecia-me que os meus vestidos eram de espinhos que me feriam e atingiam todo o corpo e alma. Com Jesus tudo sofri; com Ele suei sangue, com Ele por Judas fui beijada, com Ele vi todos os soldados caírem por terra e com Ele fui presa e segui para a prisão.
Na madrugada de hoje, de noite ainda, cansada, desfalecida por muito sofrer, à prisão O fui encontrar desfalecido também. De cabeça inclinada sobre a Dele, ali fiquei naquele escuro cárcere, até com Ele aos tribunais ser levada. Esperava o povo ver Jesus, em grande multidão, como para um festejo; queria ouvir a sentença e regozijarem-se, ao ouvir condená-Lo. Tomei a cruz, e com ela segui o Calvário, e com Ele me senti nela crucificada. Em todo o tempo da agonia, fiquei como se o sol se escurecesse; fez-se noite, tremenda noite na montanha. De longe a longe, senti no meu coração moverem-se os lábios de Jesus, quando os Seus olhos divinos se entreabriam a fitar o Céu. E constantemente ondas pretas furiosas, batiam contra a cruz e contra o corpo de Jesus e o meu que estavam nela. Essas ondas desfaziam-me as carnes que ficavam numa massa se sangue. E assim me senti morrer no maior abandono, na maior escuridão.


(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 7 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

A FERIDA DO AMOR

Eu tenho sede dos corações

Passou-se algum tempo, desapareceu toda a treva, o sol dissipou para longe as nuvens, iluminou-se brilhante e claramente a minha alma, um fogo abrasador me incendiou o coração, fazendo passar o calor das labaredas a todo o corpo; gozava duma grande paz, mas sem ouvir ainda Jesus. Um pouco mais, e Ele disse-me:
― Minha filha, até aqui bateram sobre ti as ondas do mundo, as ondas horrorosas do pecado, de grandes maldades e crimes e cobriam-te as suas trevas, porque és vítima. Agora veio a ti a paz e o amor do Meu divino Coração e toda a luz do divino Espírito Santo. Coragem! Eu quero ser amado; faz que as almas me amem. Eu tenho sede dos corações; repara-Me, conduze-os a Mim. Coragem, minha filha, nada temas. A dor e o amor são as moedas mais caras, são os selos com as quais selo as almas roubadas a Satanás. Coragem, filha querida! Tu és o prado mimoso, onde produzem as virtudes e desabrocham as flores plantadas por Mim. Levanta-te, anima-te, não temas a cruz. No alto da montanha, no cimo dela, Eu farei cair pelo teu coração todas as bênçãos e graças de salvação para as almas. A tua vida será para elas o perfume das flores, o gorjeio das avezinhas duma manhã primaveril. Custa-te subir? Custa-te chegar ao cimo do teu Calvário? Não estranhes. O remate das obras, o seu enfeite são sempre o mais difícil. Mas, ó minha filha, a obra não cai, confia em Mim. Principiei com alicerces tão firmes, que nada há que a faça estremecer, a pontos de vir a terra. É a obra das obras, é a obra mais sublime, é a missão das almas.
― Meu Jesus, ó amor meu, quero e não posso, desfaleço e caio; amparai-me Vós. Não me importo de caminhar de rastos e sempre de rastos ser humilhada, o que eu quero é estar na verdade e em tudo fazer a Vossa divina vontade. Dai-me graça, dai-me graça, meu Jesus, e fazei-me confiar cegamente. Quero sofrer tudo pelo Vosso divino amor, mas custa-me, a mais não poder, ser causa de grande sofrimento, de grande dor para os outros.
― Confia em Mim, alegra-te, Minha louquinha; estás na verdade, és minha, vives de Mim. Que felizes e ditosos são aqueles que Eu escolhi e associei ao teu martírio, ao teu grande, mas vitorioso Calvário. Coragem, coragem! A tua dor dá vidas, as tuas trevas são luz, que alumia as almas e vão brilhar aos confins do mundo. Recebe agora a gota do Meu divino Sangue. Hoje não cairá duma só vez; vai recebê-la, saboreá-la, como a abelhinha que sofregamente saboreia nas florzinhas o néctar.
Jesus tomou em Suas mãos o Seu divino Coração; pelo centro saíam labaredas que formavam uma só labareda; uniu ao meu coração e fez que nele se introduzisse o pequenino tubo; senti-me como que adormecer docemente. Assim demoramos, por um pouco. Depois, Jesus retirou o Seu Coração divino, bafejou-me o peito e passou-me sobre ele a Sua bendita mão como quem acaricia.
― Vai, Minha filha, a ferida que te fez o amor já está cicatrizada. Vai, leva para as almas estas chamas, abrasa os corações que têm fome de Mim; por ti Me dou a eles. Leva estas chamas, arrasta com elas a Mim as almas presas pelos laços infernais. Vai para a tua cruz, para a tua dor, não deixes correr mais pelos rastilhos o fogo, que faz rebentar a bomba divina, a justiça do Meu Pai. Coragem, coragem; nada temas, sorri a tudo!
― Obrigada, meu Jesus. Sede comigo; tudo espero do Vosso divino coração.
Passaram-se umas horas, o fogo de Jesus ainda me queima o coração; custa-me, por vezes, a aguentá-lo sem saber ele deitar panos frescos. Sinto-me mais forte; estou no fogo, mas em trevas, e o corpo num mar de dores. Ó minha cruz, ó meu Amor, ó meu Jesus!


(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 7 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

sábado, novembro 19, 2011

BUSCAR-ME É QUERER-ME

― Meu Jesus, quero e não posso, não sei viver, não sei sofrer, não sei reparar-Vos.

Vejo-me sempre coberta de misérias; causa-me confusão e horror. Em tudo vejo maldade, em tudo vejo pecado. Só ao fazer o meu exame de consciência, para purificar a alma pela santa absolvição, não encontro pecados. Vejo em todos os meus actos, em todas as minhas coisas, imperfeições, mas, não aquelas maldades e crimes de que estou sempre sobrecarregada. Causa-me profunda dor, encho-me de medo, não conheço os meus erros e grandes defeitos, não sei fazer o meu exame de consciência. Será assim? Ó meu Deus, tende piedade de mim.
Na minha grande dor esperei a vinda de Jesus à minha alma com grande ansiedade. Não fazia nada, e tudo queria fazer para bem O hospedar em mim. Ele veio, baixou ao meu coração e ficou silencioso, ficou como se não entrasse. A dor aguda continuava e toda a noite me envolvia. Eu não me importava de deixar de ouvir Jesus, o que eu não queria é que fosse por eu O ter desgostado, obrigando-O a Ele não viver. De repente, acendeu-se como que uma luz brilhante em minha alma, inundou-me a Sua paz divina e ouvi dizer-me:
― Minha filha, minha filha, buscar-Me é querer-Me, querer-Me é já possuir-Me. Ansiar amar-Me com sinceras ânsias é amar-Me louca e apaixonadamente. Confia que Me amas e Eu te amo. A tua alma é um jardim celeste entre o qual à sombra de mimosas flores Eu Me escondo para não ser atingido pelos pecadores; e deliciado pelo teu perfume aromático vou esquecendo a gravidade com que sou ofendido. Minha filha, flor angélica, dá-Me a tua dor, dá-Me o teu amor, repara-Me, repara-Me. Falo-te de amor, de dor e de almas, por ser esta a tua missão. Sem a dor, sem o amor elas não podem ser salvas. O mundo está em grave perigo, é necessário, é urgente almas vítimas, almas justas, mas elas fogem-Me, poucas são as que Me amam com amor verdadeiro, mas muitas menos as que aceitam a imolação do sacrifício. Os sacerdotes, os sacerdotes que mal Me fazem, que grande número tão gravemente Me ofendem. Repara-Me, minha filha, não só pelos combates do demónio, mas com muita penitência, muitos e muitos sacrifícios. Eu não quero que façam penitências graves, porque não podes, mas daquelas que com tão belas artes costumas inventar e fazer-Me. Repara-Me, minha filha, repara-Me, tem dó de Mim.
― Meu Jesus, quero e não posso, não sei viver, não sei sofrer, não sei reparar-Vos. Tenho medo de mim mesma, de tudo e de todos.
― Nada temas. Diz tudo o que te digo, dita tudo, mesmo quando te parecer que nada sabes ditar. Faz assim, para cumprires a Minha divina vontade; faz assim, porque assim Me amas e fazes amado. Diz ao teu Paizinho que o Meu divino amor, as Minhas divinas graças são para ele superabundantes. O mestre de almas precisa de graças divinas, precisa de amor para as conduzir a Mim. Quantas mais almas Me entregar, mais enriquecido será por Mim. Diz-lhe que o confiar e esperar sinceramente em Meu divino Coração é já ter em suas mãos a realização de todas as Minhas promessas. Confiança, confiança. Dá-lhe todo o Meu amor divino. Diz ao teu médico que estou sempre ao lado e dos seus. As minhas bênçãos e protecção estão sempre sobre ele. Diz-lhe que em tudo Me deve ter sentido e bem representado o Meu poder divino. Para todas as coisas já tem tido e terá doravante a luz do Divino Espírito Santo. Diz-lhe que, em Meu nome diga ao Meu queridíssimo Cardeal Patriarca que o Meu divino Coração ferve de amor por ele como panela de água em vivas chamas. Que lhe diga que confio e espero tanto dele para as Minhas coisas, como ele confiou e esperou em Mim até ao fim. Eu não atendi aos seus desejos, porque na Minha sabedoria infinita vi tudo. Quis premiar aquele que tanto fez por Mim, e se avizinham laços infernais para o fazerem cair. Há no mundo veneno mais perigoso para as almas do que a víbora para os corpos. Satanás trabalha tanto com os seus obreiros!

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 1º de Novembro de 1947 - Sexta-feira)