16 de janeiro de 2011

JOÃO PAULO II

Papa, (Beato)
1920-2005
Papa de 1978 a 2005

O Papa que Beatificou a Beata Alexandrina de Balasar


Karol Józef Wojtyla, conhecido como João Paulo II desde a eleição à Sede Apostólica em Outubro de 1978, nasceu na pequena cidade polaca de Wadowice, situada a 50 km de Cracóvia, em 18 de Maio de 1920. Ele era o mais novo de três filhos nascidos de Karol Wojtyla e Emília Kaczorowska. Sua mãe morreu em 1929. Seu irmão mais velho Edmund, médico, morreu em 1932 e seu pai, um antigo oficial do exército morreu em 1941. Uma irmã, Olga, tinha morrido antes de ele nascer.

Ele foi baptizado em 20 de Junho de 1920 na igreja paroquial de Wadowice pelo Padre Franciszek Zak, fez sua Primeira Comunhão aos 9 anos e foi confirmada em 18 anos. Após a formatura no liceu de Marcin Wadowita de Wadowice, matriculou-se em Cracóvia n Universidade Jagiellonian em 1938 e numa escola de teatro.

As forças nazis em 1939, fecharam a Universidade e o jovem Karol teve de trabalhar numa pedreira (1940-1944) e, em seguida, na fábrica química Solvay para ganhar a sua vida e para evitar de ser deportado para a Alemanha.

Em 1942, consciente da sua chamada ao sacerdócio, começou a cursar no Seminário clandestino de Cracóvia. Foi nesse mesmo período um dos promotores do Teatro Rapsódico, também ele clandestino.

Após a Segunda Guerra Mundial, ele prosseguiu os seus estudos no Seminário Maior de Cracóvia, uma vez que havia reaberto, e na Faculdade de Teologia da Universidade Jagiellonian. Foi depois ordenado sacerdote pelo Arcebispo de Cracóvia Adam Sapieha no dia 1 de Novembro de 1946.

Pouco tempo depois, o Cardeal Sapieha enviou-o para Roma onde trabalhou sob a orientação do francês Dominicano, Garrigou-Lagrange. Ele terminou o seu doutoramento em teologia em 1948 com uma tese sobre o tema da fé nas obras de São João da Cruz (Doctrina de fide apud Santuário Ioannem um Cruce). Nessa época, durante suas férias, ele exerceu o seu ministério pastoral entre os imigrantes polacos da França, Bélgica e Holanda.

Em 1948 voltou à Polónia e foi vigário de diversas paróquias de Cracóvia, bem como capelão dos estudantes universitários. Esse período durou até 1951 quando ele começou os seus estudos de filosofia e teologia. Em 1953 ele defendeu uma tese sobre “Avaliação da possibilidade de fundar uma ética católica sobre o sistema ético de Max Scheler”, na Universidade Católica de Lublin. Mais tarde ele tornou-se professor de teologia moral e ética social no Seminário Maior de Cracóvia e na Faculdade de Teologia de Lublin.

Em 4 de Julho de 1958, foi nomeado bispo titular de Ombi e auxiliar de Cracóvia pelo Papa Pio XII, e foi consagrado em 28 de Setembro de 1958, na Catedral de Wawel, Cracóvia, pelo Arcebispo Eugeniusz Baziak.

Em 13 de Janeiro de 1964, foi nomeado arcebispo de Cracóvia pelo Papa Paul VI, que o fez cardeal a 26 de Junho de 1967 com o título de S. Cesareo in Palatio uma diaconia elevada ao grau presbiteral pro illa vice. Para além de tomar parte no Concílio Vaticano II (1962-1965) onde ele fez uma importante contribuição para a elaboração da Constituição Gaudium et Spes, o Cardeal Wojtyla participou em todas as assembleias do Sínodo dos Bispos.

No decorrer do segundo Conclave de 1978, os cardeais elegeram-no Papa no Conclave de 16 de Outubro de 1978, e ele tomou o nome de João Paulo II. Em 22 de Outubro, o Dia do Senhor, ele inaugurou solenemente o seu ministério petrino como o 263º sucessor do apóstolo Pedro. O seu pontificado, um dos mais longos da história da Igreja, durou quase 27 anos.

Impulsionado pela sua solicitude pastoral para com todas as Igrejas e por um sentimento de abertura e de caridade para toda a raça humana, João Paulo II exerceu o seu ministério petrino com um incansável espírito missionário, a ela dedica toda a sua energia. Ele fez 104 visitas pastorais fora da Itália e 146 no interior da Itália. Como bispo de Roma ele visitou 317 das 333 paróquias da cidade.

Ele tinha mais reuniões do que qualquer um de seus antecessores com o Povo de Deus e com os líderes das nações. Mais de 17 600 000 peregrinos participaram nas audiências gerais realizadas cada quarta-feira (mais de 1 160), sem contar outras audiências especiais e cerimónias religiosas [mais de 8 milhões de peregrinos durante o Grande Jubileu do Ano 2000], e os milhões de fiéis que ele conheceu durante visitas pastorais na Itália e em todo o mundo. Não podemos esquecer também as numerosas personalidades públicas que ele enfrentou durante 38 visitas oficiais, 738 audiências e reuniões com chefes de Estado, e 246 audiências e reuniões com os primeiros-ministros.

O seu amor aos jovens levaram-no a estabelecer as Jornadas Mundiais da Juventude. Os 19 JMJ durante o seu pontificado, reuniram milhares de jovens de todo o mundo. Ao mesmo tempo os seus cuidados para com a família foram expressos nos Encontros mundiais de Famílias, que ele iniciou em 1994.

João Paulo II conseguiu estimular o diálogo com os judeus e com os representantes de outras religiões, a quem ele várias vezes convidada para reuniões de oração pela paz, especialmente em Assis.

Sob a sua orientação a própria Igreja aproximou-se do terceiro milénio e comemorou o Grande Jubileu do ano 2000, de acordo com as instruções dadas na Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente. A Igreja, em seguida, enfrentou a nova época, recebendo instruções na sua Carta Apostólica Novo millennio ineunte, na qual ele indicou aos fiéis o seu futuro caminho.

Com o Ano da Redenção, o Ano Mariano e do Ano da Eucaristia, ele promoveu a renovação espiritual da Igreja.

Ele deu um impulso extraordinário às Canonizações e Beatificações, para mostrar inúmeros exemplos de santidade de hoje, como um incentivo para as pessoas do nosso tempo. João Paulo II participou em 147 cerimónias de beatificação durante as quais proclamou 1338 Beatos; e 51 canonizações para um total de 482 santos. Proclamou Santa Tereza do Menino Jesus Doutora da Igreja.

Ele aumentou consideravelmente o Colégio dos Cardeais, criando 231 Cardeais, mais um in pectore cujo nome nunca foi revelado, em 9 consistórios. Presidiu igualmente seis reuniões plenárias do Colégio dos Cardeais.

João Paulo II presidiu 15 Sínodos dos Bispos: seis Assembleias Gerais Ordinárias (1980, 1983, 1987, 1990, 1994 e 2001), uma Assembleia Geral Extraordinária (1985) e oito Assembleias Especiais (1980,1991, 1994, 1995, 1997, 1998 (2) e 1999).

Os seus documentos mais importantes incluem 14 Encíclicas, 15 Exortações Apostólicas, 11 Constituições Apostólicas, 45 Cartas Apostólicas.

Promulgado o Catecismo da Igreja Católica, à luz da tradição, interpretada com com autoridade pelo Concílio Vaticano II. Também reformou os Códigos de Direito Canónico orientais e ocidentais, criou novas instituições e reorganizou a Cúria Romana.

A título privado, como Doutor, também publicou cinco livros: “Entrar na Esperança” (Outubro de 1994), “Dom e Mistério, sobre o quinquagésimo aniversário da minha ordenação como sacerdote” (Novembro de 1996), “Tríptico romano” meditações poéticas (Março de 2003), “Levantemo-nos e vamos” (Maio de 2004) e “Memória e Identidade” (Fevereiro de 2005).

À luz de Cristo ressuscitado dentre os mortos, em 2 de Abril de 2005, às 9,37 h, quando já se entrava, na Oitava de Páscoa e domingo da Divina Misericórdia, o amado Pastor da Igreja, João Paulo II, partiu deste mundo para o Pai.

A partir dessa noite até 8 de Abril, data do funeral do falecido Pontífice, mais de três milhões de peregrinos chegaram a Roma para prestar homenagem aos restos mortais do Papa. Alguns deles com mais de 24 horas na fila para entrarem na Basílica de S. Pedro.

Em 28 de Abril, o Santo Padre Bento XVI anunciou uma despensa no período normal de espera de cinco anos antes de começar a causa de beatificação e canonização no caso de João Paulo II. A causa foi oficialmente aberta pelo Cardeal Camillo Ruini, vigário geral para a Diocese de Roma, em 28 de Junho de 2005.

Será beatificado em Roma pelo Pape Bento XVI, seu sucessor, no dia 1 de Maio de 2011.

15 de janeiro de 2011

OS SANTOS NÃO SÃO TRISTES!...

Humor da Beata Alexandrina


O Padre Humberto Pasquale, Deolinda, a irmã da Alexandrina
e a Beata Alexandrina

Pelos seus livros sobre Alexandrina, vê-se que o P.e Humberto era um santo homem. Por uma fotografia sua, percebe-se que deveria ser pessoa divertida, o que já nos foi garantido por alguém que o conheceu. Veja-se como neste excerto envolve a Alexandrina na brincadeira:

«O Engenheiro Sérgio Guidi contou:

“Em 1946 ou 1947, — frequentava eu os primeiros anos da Universidade — fui com o Sr. Padre Humberto visitar a Alexandrina, a Balasar. Tinha ouvido falar dela e, sinceramente, não me sentia pro¬penso a acreditar no que se dizia, embora as pessoas que me falavam fossem do maior respeito e confiança. Fui a Balasar para dar um passeio e, como se diz, de pé atrás. A primeira impressão que tive, ao ver a Alexandrina, foi de simpatia; ela emanava simpatia. Dir-se-ia que não sofria, no seu leito de dor. Prestes a sair, estávamos já na rua, manifestei as minhas dúvidas ao Sr. Padre Humberto.

Queres experimentar? — disse-me ele — Eu, deste local, vou dar mentalmente ordem à Alexandrina de te cumprimentar, embora paralítica dos braços e das mãos.

Subi, sozinho, ao quarto da Alexandrina e, estendendo-lhe a mão, disse:

Até qualquer dia, Alexandrina!

Ela, como se quebrasse umas algemas, soltou os braços, pegou na minha mão e apertou-ma com tal força que eu não gritei por vergonha. Sorrindo, disse-me:

Aquele maroto do Sr. Padre Humberto disse alguma coisa?... Quer fazer um pacto comigo? Vamos rezar todas as noites uma Ave-Maria um pelo outro.

O pacto foi feito e, ainda agora (1965), em família, rezamos sempre a Ave-Maria antes de nos deitarmos. Sem dúvida, é a esta Ave-Maria e à protecção de Nossa Senhora que devo tantos favores e o ter-nos livrado de tantos perigos”.»

EU ESTOU BOA PARA CASAR!

O humor da Beata Alexandrina

A vida da Beata Alexandrina é já bem conhecida dos portugueses e brasileiros, como é sabido, graças ao Sítio oficial onde estão publicadas não só biografias da “Doentinha de Balasar”, mas também grande quantidade dos seus escritos e particularmente, nestes últimos tempos, muitas páginas do seu Diário, “Senti-mentos da alma”.

Lá se encontra igualmente a sua Autobiografia já traduzida em diversas lín-guas. É deste documento importante, escrito pela Beata em 1940 por ordem expressa do seu Director espiritual de então, o Padre Mariano Pinho, que vamos tirar a “matéria” para este curto trabalho que de antemão lhe oferecemos, pedindo-lhe igualmente que interceda o divino Espírito Santo de nos iluminar com a sua luz penetrante, de maneira que prestando homenagem à esposa, possamos pela mesma ocasião prestar ao Esposo celeste uma vibrante e fervorosa prece de acção de graças.

Estamos no período mais critico, da vida da Alexandrina, quanto à sua saúde e cura eventual.
Na verdade, depois do salto que dera da janela da sala para o quintal, nunca mais tivera saúde, mesmo depois de ter consultado numerosos médicos e até ter mesmo feito diversas promessas: o Senhor queria-a para Ele.

Na Autobiografia ela escreve:

« Nosso Senhor aliviou-me de um, mas deu-me outro sofrimento maior ain-da. Só dele teve conhecimento Jesus e, alguns anos mais tarde, o meu Pai es-piritual. »

Do sofrimento “maior ainda” de que aqui fala, não falaremos nós, por que não está no âmbito deste humilde trabalho, por isso mesmo recomendamos aos leitores de consultarem a dita Autobiografia.

« Passaram-se seis anos de doença ― continua ela de explicar no referido do-cumento ―, um pouco a pé, outro pouco na cama. Durante este período che-guei a estar cinco meses sem me levantar, continuando no mesmo sofrimento moral por espaço de doze anos sem nunca, nunca dizer nada a ninguém. Quando me encontrava sozinha e presa no meu leito, voltava-me para o qua-dro da entronização do Sagrado Coração de Jesus, pedia-lhe que me libertas-se de tal sofrimento, que me desse luz para conhecer o que havia de fazer, en-quanto ia chorando muitas lágrimas.

Não deixei de pedir muito à Mãezinha para que intercedesse por mim nas mesmas intenções. »

Como é hábito dizer-se: “Só Deus sabe escrever direito por linhas tortas”. Ale-xandrina devia conforma-se e aceitar humildemente este estado de debilidade para melhor enfrentar o que Jesus tinha para ela preparado.
Como os ares de Balasar não pareciam trazer-lhe qualquer alívio, ela foi envia-da para a Póvoa de Varzim onde anos antes tinha sido escolarizada durante dezoito meses.

« Com os meus dezasseis anos ― conta ela ―, pouco mais ou menos, fui conti-nuar o meu tratamento para a Póvoa de Varzim. »

Os ares marítimos da vila balneária parecem ter tido qualquer efeito “curativo” visto que desse tempo Alexandrina nos conta a sua primeira “aventura” amo-rosa, assunto que é na verdade aquele que escolhemos para uma vez mais ter-mos ocasião de louvar a sua pureza e o seu desapego às coisas do mundo.
O rosto simpaticamente encantador da Alexandrina, os seus olhos negros como amoras, o seu sorriso permanente e a sua natural jovialidade, não podiam dei-xar de atirar sobre ela os olhares dos rapazes da sua idade, o que nos parece cisa normal.
Como a esposa do Cântico dos Cânticos, também Alexandrina poderia dizer: « Eu sou morena, porém formosa! » (Cant. 1, 5).

Mas deixemos que ela mesma nos conte como isso se passou:

« Numa manhã, quando me dirigia para a igreja, percebi que alguém apres-sadamente se aproximava de mim. Era um militar que se dirigia a mim a pe-dir-me namoro. Recusei imediatamente, mas como ele insistisse e não deixas-se de me acompanhar, disse-lhe que se retirasse, que ia para a igreja. Pediu-me licença para estar comigo quando voltasse da igreja. Prometi-lhe que es-taria, só para me livrar dele, com a ideia de trocar o caminho. Ao voltar, pus-me a ver se o via e, como nada enxergasse, vim pela mesma rua. A certa altu-ra surgiu-me ele, não sei de onde, e disse-me:

― “Ó menina, você que me prometeu?”, e tratava de me acompanhar a casa.

Parei e falei-lhe, dizendo que era doente e que minha mãe não consentia que eu namorasse. Custou-me muito a convencê-lo. De repente, apareceu a minha irmã e ralhou-me, pensando que eu estava a namorar. Não voltei mais por aquele caminho, com receio de me encontrar com ele. Com isto, tudo termi-nou.

Várias vezes me vi apoquentada por rapazes a pedirem-me namoro, mas nunca aceitei. Cheguei a dizer a um que me falava em casamento:

― “Não deixo a minha família por causa de um homem.” »

Que simplicidade, mas ao mesmo tempo que têmpera forte e resposta que não permite insistência, mesmo se legítima.
Esta situação e, porque a saúde da Alexandrina parecia, aos olhos de muitos que a conheciam, normalizar-se, até mesmo o Sr Abade se meteu no assunto, parecendo querer tirar o lugar a S. Gonçalo de Amarante...

« Sendo do conhecimento do Senhor Abade que um outro me pretendia, Sua Reverência falou-me assim:

― “Se queres o rapaz, isso é tudo comigo.”

Eu respondi-lhe:

― “Eu estou boa para casar!”, pois já me sentia bastante doente e, além disso, não tinha inclinação nenhuma para o casamento.

Às vezes pensava, se um dia fosse casada, como educaria os filhinhos para serem todos de Nosso Senhor. »

Alexandrina não melhorará jamais e, quando isso compreendeu, uma só solu-ção se apresentou a ela: acomodar-se à vontade de Deus sobre ela.
Eis o que escreveu na sua Autobiografia:

« Como não consegui nada, morreram os meus desejos de ser curada e para sempre, sentindo cada vez mais ânsias de amor ao sofrimento e de só pensar em Jesus.

Um dia em que estava sozinha e, lembrando-me de que Jesus estava no sa-crário, disse:

“Meu bom Jesus, Vós preso e eu também. Estamos presos os dois: Vós preso para meu bem e eu presa das Vossas mãos. Sois Rei e Senhor de tudo e eu um verme da terra. Deixei-Vos ao abandono, só pensando neste mundo, que é das almas a perdição. Agora, ar-rependida de todo o coração, quero o que Vós quiserdes e sofrer com resignação. Não me falteis, bom Jesus, com a Vossa protec-ção.” »

Mais adiante, no mesmo documento, ela afirma ainda:

« Sem saber como, ofereci-me a Nosso Senhor como vítima, e vinha, desde há muito tempo, a pedir o amor ao sofrimento. Nosso Senhor concedeu-me tanto, tanto esta graça que hoje não trocaria a dor por tudo quanto há no mundo. Com este amor à dor, toda me consolava em oferecer a Jesus todos os meus sofrimentos. A consolação de Jesus e a salvação das almas era o que mais me preocupava.

Com a perda das focas físicas, fui deixando todas as distracções do mundo e, com o amor que tinha à oração – porque só a orar me sentia bem – habituei-me a viver em união íntima com Nosso Senhor. Quando recebia visitas que me distraíam um pouco, ficava toda desgostosa e triste por não me ter lembrado de Jesus durante esse tempo. »

Assim era bem verdade, o que ela dissera ao Sr Abade de Balasar:

“Eu estou boa para casar!”

Salvo que o Namorado não era aquele que esperavam, mas Jesus, o Esposo das almas virgens, o Eterno Amoroso que melhor do que ninguém sabe falar às almas que por ele aspiram.

« Eis que és formosa, ó meu amor, eis que és formosa; os teus olhos são como os das pombas » (Cant. 1, 15)

« Pomba minha, que andas pelas fendas das penhas, no oculto das ladeiras, mostra-me a tua face, faz-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa » (Cant. 2, 14).

« Os teus lábios são como um fio de escarlate, e o teu falar é agradável; a tua fronte é qual um pedaço de romã entre os teus cabelos » (Cant. 4, 3).

Assim fala o Senhor às almas suas amadas, particularmente aquelas que intei-ramente se ofereceram a Ele como vítimas, como consoladoras et participantes no mistério da Redenção.
Cada uma delas e também a Alexandrina de Balasar, que o Senhor amou dum amor exclusivo, pode dizer, dirigindo-se ao Esposo celeste:

« Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu » (Cant. 6, 3) ; “eu estou boa para casar!”

O desposório espiritual acontecerá alguns anos mais tarde e a Beata Alexan-drina receberá de Jesus o anel destinado às esposas mais queridas!
Afonso Rocha

12 de janeiro de 2011

ETERNIDADE SEM LUZ

Vive em mim a dor...


A Beata Alexandrina durante uml extase da Paixão

Nova transformação na minha alma. Morreu por completo aquele pequenino sopro de vida. Já não sinto aquela respiração que de longe a longe sentira. Vive em mim a dor e essa de toda a qualidade e espécie. Morri, morri para o mundo e para as criaturas. Tudo baixou ao túmulo para ficar para sempre sepultado. Meu Deus, que horror! Já não vivo, só vive a minha dor amada, só vive o meu inexplicável martírio. Poderá ele, sem a minha vida, dar a vida às almas? Poderei ser ainda útil à humanidade? Ó Jesus, ó Jesus, posso assim amar-Vos e consolar o Vosso santíssimo Coração? Pobre de mim! Depois do ódio e do abandono, depois do esquecimento, do desprezo, baixei à minha sepultura, já vivo na eternidade e sem que me désseis o meu Paizinho e sem ter de novo aqui a Santa Missa. Nunca mais, meu Jesus; nunca mais posso ter alegria, a não ser com os olhos em Vós. Podem de novo darem-me tudo o que me roubaram, sinto que para mim tudo é morte e que já é tarde para me ser restituído aquilo que eu mais amava e estimava depois de Vós, ó meu Jesus. Ai a Santa Missa! O meu director espiritual! E tudo mais, meu Jesus, tudo mais! Que horror! Como resistir a tanto? Não fui eu, meu Amado, fostes Vós em mim, foi o Vosso Amor. Obrigada, meu Jesus! Continuai a dispensar-me, dai-me força.

A minha eternidade não tem luz: é uma eternidade que não Vos ama, que não Vos louva, que não Vos vê, que não Vos goza. Tremenda eternidade. Não ver a Jesus é uma eternidade de morte. Só a dor triunfa sobre a morte. É o que vivo na eternidade que sinto. Seja qual for o estado da minha alma, Jesus, apressai-Vos, cumpri as Vossas santas promessas. Eu espero, eu espero, confiada por Vosso amor. Dai, Jesus, dai a vida às almas com a minha morte, com a minha eternidade. Dai-lhes a Vossa eternidade ; dai-lhes o Céu, o Céu, ó Jesus. (Sentimentos da alma, 13 de Maio de 1944)

8 de janeiro de 2011

SANTO ADRIANO DE CANTUÁRIA - 635-710

9 de Janeiro

ABADE e BISPO

Adriano nasceu no ano 635 no norte da África e foi baptizado com o nome de Hadrian. Tinha apenas cinco anos de idade quando sua família imigrou para a cidade italiana de Nápolis, pouco antes da invasão dos árabes. Lá estudou no convento dos beneditinos de Nerida, onde se consagrou sacerdote.

Adriano se tornou um estudioso da Sagrada Escritura, profundo conhecedor de grego e latim, professor de ciências humanas e teologia. A fama de sua capacidade e conhecimento chegou ao imperador Constantino II que em 663 o fez seu embaixador junto ao papa Vitalino, função que exerceu duas vezes. Depois, este papa o nomeou como um dos seus conselheiros.

Quando morreu o bispo da Cantuária, Inglaterra, o papa Vitalino convidou Adriano para assumir aquele cargo, mas ele recusou a indicação duas vezes, alegando não ter suficiente competência para ocupar esse posto. O papa lhe pediu para que indicasse alguém mais competente, pois ele mesmo não conhecia.

Nesta ocasião Adriano havia se encontrado com seu grande amigo, o teólogo grego e monge beneditino Teodoro de Tarso que estava em Roma. Adriano o indicou ao papa Vitalino. Consultado, Teodoro disse que estava disposto a aceitar, mas somente se Adriano concordasse em ir para a Inglaterra ajudá-lo na missão evangelizadora. Adriano aceitou de imediato. O papa consagrou Teodoro, bispo da Cantuária e nomeou Adriano seu assistente e conselheiro, em 668.

Ele chegou na Inglaterra um ano depois, pois foi detido durante a viagem, na França sob suspeita que tinha uma missão secreta do imperador Constantino II, para os reis ingleses, mas foi solto ao atestarem a sua integridade de sacerdote.

Adriano e Teodoro foram evangelizadores altamente bem sucedidos, junto ao povo inglês cuja maioria era pagã. O bispo Teodoro, logo colocou Adriano como abade do convento beneditino de São Pedro, depois chamado de Santo Agostinho, na Cantuária. Sob sua liderança, esta escola se tornou um centro de aprendizagem e formação de clérigos para a Igreja dos povos anglicanos.

Adriano viveu neste país durante trinta e nove anos, totalmente dedicados ao serviço da Igreja. Nele os ingleses encontraram um pastor cheio de sabedoria e piedoso, um verdadeiro missionário e instrumento de Deus. Muitos se iluminaram com os seus exemplos de vida profundamente evangélica.

Morreu em 9 de janeiro de 710, foi enterrado no cemitério daquele convento, na Inglaterra. A sua sepultura se tornou um lugar de graças, prodígios e peregrinação. Em 1091, o seu corpo foi encontrado incorrupto e trasladado para a cripta da igreja do mesmo convento. Adriano foi proclamado Santo pela Igreja, que o festeja no dia em que morreu.

SANTO ANDRÉ CORSINI - (1302-1373)

9 de Janeiro

A SERIEDADE DE UMA CONVERSÃO

André, de “lobo” transformou-se em “cordeiro”, e de “cordeiro” em “pastor”. Um dos grandes Santos do fim da Idade Média, oriundo de uma das mais nobres famílias da brilhante Florença do século XIV.

*****

Nicola e Peregrina pertenciam à nobre e antiga família dos Corsini, de Florença (Itália). À força de orações e promessas, obtiveram do Céu um filho, que consagraram à Virgem no convento dos carmelitas. Entretanto, na véspera do parto, Peregrina sonhara que havia dado à luz um lobinho que, entrando numa igreja, transformara-se em amável cordeiro.

André, o filho que nascera na festa desse Apóstolo, em sua infância e adolescência realmente assemelhava-se mais a um lobo do que a um cordeiro. Era desobediente, briguento, mundano, não respeitava nem pais nem mestres, e passava o tempo na caça e no jogo. Não é de se admirar que tivesse rixas constantes em casa.

A conversão do “lobo” que virou “cordeiro”

Certo dia, quando devia ter pouco mais de 15 anos, ele maltratava a mãe, que o repreendia pelos seus desmandos. Nesta ocasião, em lágrimas, ela lhe disse: “És bem o lobo do meu sonho”. O rapaz ficou surpreso. “Que lobo? Que sonho? Conta-me tudo”. Peregrina narrou-lhe então o sonho que tivera, acrescentando que, quando ele nascera, os pais o haviam consagrado à Virgem. E que seu proceder era o oposto do que eles esperavam dele.

André, tocado pela graça, ficou muito comovido. Saiu de casa e dirigiu-se à igreja do convento carmelita, onde se prostrou aos pés da Virgem do Povo, a quem fora consagrado. E rezou do fundo da alma: “Ó gloriosíssima Virgem Maria! Aqui tens, a teus pés, o lobo feroz e repleto de culpas que a ti recorre humildemente. Já que és a Mãe do Cordeiro sem mancha, cujo sangue nos lavou e remiu, rogo-te que me limpes, e de tal maneira convertas minha cruel natureza de lobo, que de hoje em diante seja eu mansíssimo e fidelíssimo cordeiro, digno de ser-te oferecido como vítima e servir-te até minha morte em tua santíssima Ordem Carmelitana”.

Quanto tempo passou ele ali, prostrado aos pés da Virgem? Os ofícios terminaram, a igreja se fechou, e os irmãos leigos começaram a limpeza do recinto para o dia seguinte. Um deles descobriu o jovem. Que fazia ali àquela hora? “Leve-me ao Superior, por favor”, pediu o rapaz. Em frente a ele, caiu de joelhos e suplicou que lhe desse imediatamente o hábito da Ordem. Mas todos conheciam sua família e seus desregramentos. O Superior titubeou, argumentou que nada lhe faltava em sua abastada família; por que queria tudo abandonar? André explicou-lhe a graça que acabara de receber, e que queria cumprir os votos dos piedosos pais. Estes foram chamados e, exultantes, deram sua licença. Recebeu o hábito em 1318, sendo daí para a frente um novo homem.

Penitências, orações e tentações diabólicas

É claro que uma pessoa, tendo vivido tanto tempo ao sabor de seus caprichos e mau temperamento, sem um remédio eficaz não se transformaria de vez. André utilizou para isso o método de “agere contra” — quer dizer, agir de maneira totalmente oposta ao vício ou defeito que queria combater. Para domar seus maus impulsos e espírito de independência, tornou-se o mais obediente e mais observante noviço. Vivera ele em meio ao excessivo luxo e comodidades? Agora escolhia para si o mais velho hábito do convento e lançava mão de ásperas penitências, disciplinas e contínuos jejuns. Para isso também observava um rigoroso silêncio, mortificava a vista, ouvidos e paladar, e dedicava longas horas à oração. Suportava o escárnio de seus antigos companheiros de libertinagem e o desprezo de alguns parentes. Sua conversão fora verdadeiramente profunda, e ele abraçou com entusiasmo o caminho da perfeição.

O demônio não podia resignar-se a perder assim definitivamente aquele que fora tanto tempo sua presa. Não o deixava em paz, assaltando-o com violentas tentações. Mas André recorria a Nossa Senhora e neutralizava assim os assaltos do espírito infernal.

Um dia, quando ele estava encarregado da portaria durante o jantar da comunidade, bateram com insistência na porta do convento. André, que tinha ordem de não deixar entrar nenhum estranho, abriu apenas um pequeno postigo na porta e viu um garboso senhor acompanhado de vários criados. — “Abre depressa, pois sou teu parente e não posso consentir em que permaneças mais tempo entre esses indigentes. Teus pais também querem que saias, pois escolheram e elegeram para tua esposa uma jovem nobre e formosa”. Respondeu que não o reconhecia por parente, que seus pais estavam satisfeitos com a estadia dele lá, e que não abriria por não ter licença. Reconhecendo no embusteiro o pai da mentira, com o sinal da Cruz fê-lo fugir.

Para praticar a humildade, mesmo depois de professar, André pediu para sair pedindo esmolas para o convento nas ruas onde moravam as pessoas mais proeminentes da cidade e alguns parentes seus. De muitos deles recebia insultos e repreensões, sob alegação de que desonrava o nome da família.

Professo, em nada diminuiu suas austeridades. Sua vida tornou-se de contínua penitência. Jejuava várias vezes por semana e dormia sobre palha, trazendo à cintura rude cilício.

Dom dos milagres e da profecia

A Providência logo o premiou com o dom dos milagres e da profecia. Assim, curou milagrosamente de uma horrível úlcera na perna um tio mundano e viciado no jogo, trazendo-lhe, com a saúde do corpo, a da alma. Um dia, atendendo às insistências de um amigo, aceitou ser padrinho de seu filho. Na hora da cerimônia, quando tinha a criança nos braços, começou a soluçar. Quando lhe perguntaram o porquê das lágrimas nesse momento, respondeu: “Eu choro porque este menino nasceu para sua perda e ruína de sua casa”. E isso sucedeu. Crescendo, o infeliz traiu sua pátria, sendo executado pela justiça e cobrindo de infâmia toda a família.

Frei André foi enviado pelos seus superiores a Paris, onde havia a mais famosa universidade da época, para aperfeiçoar-se na teologia. Quando voltou, foi eleito prior do convento de sua cidade.

De frade carmelita a eminente bispo

Vagando em 1360 a Sé de Fiésole, perto de Florença, o clero escolheu Frei André para ser seu bispo. Mas este, sabendo da escolha, escondeu-se na Cartuxa de Florença. Depois de muito o procurar inutilmente, o clero de Fiésole resolveu reunir-se e escolher outro bispo. Nesse momento entrou no recinto um menino de três anos, que disse: “Deus escolheu André para prelado; ele está em oração na Cartuxa, onde o encontrareis”. Ao mesmo tempo o Anjo da Guarda de André apareceu-lhe, também na figura de um menino vestido de branco, e lhe disse: “Não temas, André, porque eu serei teu guardião, e Maria será em todas as coisas tua ajuda e tua protetora”. O Santo dirigiu-se a Fiésole, encontrando-se no caminho com o cortejo daqueles que o vinham buscar.

Sabendo da grande responsabilidade que tem um bispo, André, para obter o auxílio divino, aumentou ainda mais suas austeridades e penitências, de modo tal que é dificilmente compreensível para o homem amolecido de nossos dias. Basta dizer que ele se disciplinava até o sangue todos os dias, durante o tempo em que rezava os Sete Salmos Penitenciais e algumas ladainhas. Usava um cinto de ferro junto à carne e um cilício.

Restaurador espiritual e material de sua diocese

Ele não falava jamais com mulheres, a não ser o mínimo indispensável, e não tolerava ouvir lisonjeiros. Visitou toda sua diocese, procurando reafervorar seu clero e diocesanos. Fez uma lista de todos os pobres de sua cidade, sobretudo dos pobres envergonhados, a quem socorria secretamente. Chamavam-se “pobres envergonhados” pessoas pertencentes à nobreza ou outras classes elevadas, que haviam caído na miséria. Durante um ano de carestia, deu aos pobres tudo o que tinha. Um dia em que já havia dado todo o pão disponível, surgiram outros pobres. Os pães se multiplicaram milagrosamente, satisfazendo a todos.

Às quintas-feiras ele lavava os pés de doze pobres, dando-lhes depois generosa esmola. Certa vez um deles tinha na perna uma úlcera tão asquerosa, que quis impedir ao bispo de tocá-la. Mas apenas o santo o fez, a perna curou-se imediatamente.

Seu espírito doce e pacífico serenava toda querela, pois tinha o dom de restabelecer amizades e acabar com discussões. Por isso o Papa Urbano V o mandou como núncio a Bolonha, cidade na qual havia guerra entre duas facções. Ele não só obteve a pacificação geral, mas reuniu entre si a nobreza e o povo com os laços de uma caridade mútua.

O santo trabalhava também para reparar os templos. Assim, reedificou sua catedral, que estava em ruínas.

Aos 71 anos de idade, quando celebrava a Missa de Natal, Nossa Senhora apareceu-lhe, prevenindo-o de que viria buscá-lo no dia dos Santos Reis. André preparou-se bem, pôs em ordem todos os negócios de sua diocese, e esperou a hora da morte recitando com os presentes o Símbolo dos Apóstolos, de Nicéia e de Santo Atanásio. Quando cantava o “Nunc dimittis servum tuum, Domine” (Deixai partir agora vosso servo, Senhor), entregou sua alma a Deus.

Plínio Maria Solimeo

Obras Consultadas:

Les Petits Bollandistes — Vies des Saints, d’après le Père Giry, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo II, pp. 257 a 262.
El Santo de Cada Dia, Edelvives, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1946, tomo I, pp. 353 a 362.
Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo I, pp. 234 a 239.
Pe. José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1993, pp. 44 e 45.

MALDITO ORGULHO !

Jesus, Jesus, tudo por Vosso amor
― Ó Jesus, quantos desabafos, quantos suspiros e lágrimas só para vós ! Dai-me a conhecer, meu Jesus, iluminai-me, divino Espírito Santo, se eu sentir-me assim ferida, tão profundamente magoada, se é melindre meu, se é orgulho da minha parte, para eu me emendar de tão grandes defeitos. Ó maldito orgulho, ó maldito amor próprio, que tanto ofendes a Jesus ! Tenho tantos desejos de me conhecer, de ma transformar num coração humilde e dócil, de ser só bondade e doçura para todos ! Jesus, Jesus, tudo por Vosso amor. Vede a dor do meu coração só com o receio de vos ofender. Paga bem caras as minhas maldades ; sofro e sofro imenso por ser má. Eu não tenho pena de dar a conhecer aquilo que sou, mas sim por ferir o meu Jesus e dar tão mau exemplo. Todo o mar da minha dor é de espinhos. Luto, nado neles, noite e dia. Eu não vivo, eu não sofro, nem nado nestes espinhos, é um sopro que existe em mim, a sofrer e a ser nos espinhos ferida. Ai, Jesus, a minha vida se é que é vida, se sou eu que vivo, não vivo para vos amar, vivo uma vida morta, sinto que vivo uma vida imunda de podridão. E as minhas chagas sangram, os espinhos da cabeça penetram fundos, muito fundos, trespassam os olhos e os ouvidos e o sangue corre de tantas feridas, a lança abre-me o coração, cercado de espinhos ; já quase não existe parte dele e do peito ; a podridão tem feito desaparecer. Que covas eu sinto em mim. Ó Jesus da minha alma, poderá este sofrimento servir de consolação para vós ? (Beata Alexandrina: “Sentimentos da alma”, 13 de Fevereiro de 1948).