29 de setembro de 2011

CAUSA-ME HORROR VER-ME VISITADA POR TANTA GENTE

O que em mim vai nascendo, nas trevas vai morrendo...

A minha vida morre nas trevas; eu já morri, e o que em mim vai nascendo, nelas vai morrendo sem conhecer a vida; apenas nasce, logo morre. Tenho o meu espírito tão escurecido parece-me que não sei compreender nem dizer o que sofro, o que em mim se passa. Eu sei que sofro dores, tristezas, amarguras, agonias de alma, mas não sei dizê-las, nem compreendê-las, nada ou quase nada. Apesar de ser em mim o sofrimento, sofro tanto à distância, sinto que não é meu o que sofro, e por ser tão longe e não ser meu, nada dele sei falar. Não me preocupa o não me compreenderem nem saber falar da minha dor, mas, sim, não sofrer como Jesus quer, com a perfeição que Ele quer, e não saber o que Ele quer. Causa-me verdadeiro horror o ver-me visitada por tanta gente. Tenho até nojo de mim, e pergunto a mim mesma: o que vem esta gente ver? Coitadinhos! Se vissem o que sou! E falo assim, porque sinto e vejo em mim um mundo de vergonhosa e nojenta podridão, podridão de tudo quanto há de imundo. Pobre gentinha que não vê o que eu sou! Esta repugnância e horror, que agora sinto às visitas, não é igual àquele que até agora sentia; este é mais sofrimento de alma; o que sentia era mais pelo cansaço e desejo de estar sozinha no silêncio, na união com Jesus. Este é mais horroroso, por ver que sou só podridão, que sou a vergonha da humanidade, indigna de aparecer aos divinos olhares de Jesus e ser assim tão visitada sem a pobre gente saber o que visita. O Senhor seja comigo, com a Sua graça, para que eu possa sofrer e ter aquela pureza de alma e corpo que o meu Jesus quer e eu devia ter. Ó meu Deus, ó meu Jesus, não sou digna de Vós. Onde está a minha perfeição? Em nada a encontro.

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(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 18 de Julho de 1947 - Sexta-feira)

SENTI O AMOR DE JESUS

No alto da cruz, o rosto de Jesus ainda era escarrado

Este quadro está aos pès da cama
da Beata Alexandrina
Não sei se estou ou não estou, se vivo ou não vivo no mundo. É na verdade, isto que a minha alma sente. Por vezes examino-me, interrogo-me a mim mesma: estou no mundo? Vivo nele? Ó meu Deus, parece-me que não vivo. As minhas trevas morreram e eu morri nelas, e nem por isso a ele abraçada. Ali, mais se me abriam as chagas e sobre ele mais as minhas carnes eram despedaçadas, e o sangue mais corria, mas inútil; a pedra não amolecia.
Nos entusiasmos e alegrias da ceia, não deixei de abraçar o Horto; via as grandes maravilhas de Jesus. Senti o amor com que S. João se inclinou ao Seu Santíssimo peito e o amor que, naquele momento, Jesus lhe fez sentir. Vi a luz, senti o amor de Jesus, ao dar-se a nós em alimento, mas o Horto não o pude deixar; segui então para ele. Que suor se sangue tão forte! Que agonia e amargura indizível! Levantei ao Pai o cálice e o sangue que transbordava regava o solo. Ouvi uma voz, que com toda a doçura dizia: amigo meu, a que vens? É com um beijo que entregas o teu Senhor! Que mal te fiz Eu a não ser amar-te? É assim que correspondes? E logo apareceu Judas que beijou Jesus.
No mesmo momento, vi uma lança muito aguda, que veio a espetar-se no Coração Divino de Jesus. Ele foi com ela para a prisão, no meio dos maus-tratos; não lha tiraram mais. O aumento dos maus-tratos aviva-Lhe mais a ferida feita por tão profunda lança. Saí, hoje, da prisão com Jesus; sigo com Ele para o Calvário. Sinto que a lança cá vai no Seu divino Coração e no meu, estão os dois num só, sofrem e sangram ambos, ao mesmo tempo. Sinto e vejo cair e levantar-se, para logo voltar a cair. Que sofrimento tão grande! Todo o Seu Santíssimo Corpo ferido, todas as feridas mais se avivam nas lajes, ao ser tão cruelmente arrastado.
Por vezes, vou eu a querer amparar Jesus, e não sou capaz; e não O posso ver sofrer assim. Que Calvário tão doloroso: Jesus desfalecido e eu também! Se eu O amasse, como Lhe dispensava em tais sofrimentos o meu amor! Sofro por O ver sofrer, sofro por O não amar. Ao aproximar-se o cimo da montanha, caí sem vida. O que lá me esperava ainda! O mundo, o Calvário de toda a ingratidão! No alto da cruz, o rosto de Jesus ainda era escarrado, e contra Ele proferiam muitas blasfémias. Jesus na Sua bondade infinita, como recompensa parecia mostrar-lhes o Seu Divino Coração, aberto pela dor e pelo amor, e convidava-os a entrar dentro. A uma recusa a Sua Santíssima alma chorava, eu sentia as Suas lágrimas. “Meus filhos, por que Me feris, por que procedeis assim?” Eu ouvia este murmúrio do Seu divino Coração.

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(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 11 de Julho de 1947 - Sexta-feira)

VEM AO FOGO, VEM AO AMOR

Meu Jesus, não sei amar, não sou capaz
13 de Outubro de 1955
A agonia aumentava, já não era vida humana que fazia viver Jesus, mas sim a vida divina. Momentos antes de expirar, fez-me sentir e compreender que se viu morto, descido da cruz e depositado nos braços de Sua Santíssima Mãe; e, e com a dor Dela unida à Dele, assim expirou. Nesse momento, senti que de Jesus saiu um sopro de luz, um sopro suave, um sopro de vida. Jesus não se apressou a vir. Quando veio, disse-me:
― Minha filha, minha filha, vem ao Meu divino Coração, vem ao fogo, vem ao amor, que tanto anseias; é fornalha acesa, é fogo que não mais se apaga.
Senti-me dentro do Coração divino de Jesus, coberta com as Suas chamas. E Ele, por algum tempo, ficou silencioso.
― Recebe esta vida, Minha filha; é a vida que tu vives e a que Eu quero dês às almas. Recebe-a, espalha-a, semeia-a. Ama-Me, ama-Me por elas. Se sempre Me amares com o amor com que Me tens amado e anseia amar, Eu prometo dar-te muitas bênçãos e graças, não para ti que já de todas te enriqueci, mas por ti as almas as receberem. Eu farei que sejas para elas como raio fulminante; não raio que tira a vida, mas sim que lha dá, fazendo-as viver para a graça.
Jesus voltou a calar-se; desta vez, fui eu a falar.
― Meu Jesus, não Vos amo, não tenho amor, não Vos sei amar e não sou capaz de me tornar digna de Vós.
― Confia que Me tens amor, que Me amas loucamente. Quando te disse para te tornares digna de Mim, Eu vi com a Minha sabedoria infinita o muito que ias sofrer. Foram dois os proveitos: as almas e o maior aperfeiçoamento da tua. Que consolação para Mim ver o esforço da Minha esposa mais querida a corrigir-se das faltas, que Eu mesmo permito, para mais se embelezar e tornar digna de Mim. Faço tudo isto, Minha filha, para acudir às almas.
Depois de mais um pouco de silêncio continuou sempre Jesus.
― Deixa-Me agora, Minha filha, esconder-Me eu em teu coração, deixa-Me fugir do mundo; não vê-lo assim a pecar, a ofender-Me. Está no campo do pecado, do gozo, do prazer, da vaidade, da imodéstia. As praias, Minha filha, os bailes, casinos e cinemas, quantas inocências roubadas, quantas mortes de almas! Foi a reparação que te pedi, foram os combates do demónio. Continua a dar-Me essa reparação. Pede-Me pelas almas; não Me peças, não Me peças, não Me peças pelos corpos, que esses não têm remédio. O mundo, o mundo; o que o espera!
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 11 de Julho de 1947 - Sexta-feira)

ESTAI SEMPRE EM MEU CORAÇÃO

― Tem sempre nele, Minha filha, aceso o fogo do teu amor

― Meu Jesus, meu Jesus, lembrai-Vos do Vosso amor, da Vossa misericórdia, e, como do alto da cruz, dizei agora ao Vosso Eterno Pai: perdoai-lhes, que não sabem o que fazem. Perdão, meu Jesus, perdão; quero acudir às almas, quero acudir aos corpos, quero sofrer e amar por todos; sou a Vossa vítima, meu Jesus. Estai sempre em meu coração, para ser este ferido e não Vós.
― Tem sempre nele, Minha filha, aceso o fogo do teu amor, da tua caridade de todas as tuas virtudes; quero ser nele abrasado. Deixa, esposa querida, grande heroína, estarem sempre em ti bem gravadas as Minhas divinas chagas e espinhos, que Me ferem. Para viveres e resistires à dor, recebe a gota do Meu divino Sangue; sou Eu mesmo o enfermeiro a introduzir o tubo em teu coração.
Jesus colocou-o, e sobre ele colocou o Seu Coração divino, para a gotinha do sangue cair.
― Vai dar esta vida, vai acudir às almas.
― Não a sei viver, meu Jesus, nem a sei distribuir. Eu só queria esconder-me e não aparecer mais. Não sei se estou a fazer bem ou mal, nem de que forma Vos dou mais glória, sozinha ou recebendo a quem vem? Que medo eu tenho de viver e de me enganar e perder a união Convosco.
― Bem escondida estás, Minha filha, dentro em Meu divino Coração. Nada temas, porque estou contigo. Não te enganas nem perdes a união Comigo. Quero que faças o sacrifício, recebendo quantos vierem, tenho-te aqui por isso. Quantas pessoas receberes, são outras tantas almas que têm o Céu certo. Quantas delas compreendem a tua vida de união, a tua vida íntima Comigo, e, compreendendo-a, aprendem-na, e principiam a vivê-la. Coragem, coragem, mensageira de Jesus, mestra das ciências e maravilhas divinas. Coragem; vai para a cruz que te espera; bem pouco será o tempo que viverás nela. O Céu espera-te, o Céu espera-te, Minha amada filha.
― Obrigada, obrigada, meu Jesus. Vou para a cruz e vou contente; vinde comigo para ela, não para sofreres, mas para me dares a Vossa força divina. Vinde, vinde, meu Jesus: sem Vós nada posso. Obrigada, meu Jesus; sempre o meu eterno obrigada.
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(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 11 de Julho de 1947 - Sexta-feira)

28 de setembro de 2011

AS MANHAS DE SATANÁS...

Amo-te, amo-te, minha pomba querida!

Se eu não tenho vida, o que é que sofre? Se eu não existo, porque me perseguem? Meu Deus, meu Deus, sinto que morri e estou aqui. Sinto que passei para a eternidade e estou no mundo. Ó vida, minha triste vida! O demónio não me deixa. Neste último ataque parece que redobrou a sua malícia.
― Pecas quando eu quero, como eu quero e levo-te aonde quero. Olha que vida tu tens! Que vida de sofrimentos, quando podias gozar! Desengana-te, olha que Deus não te quer, abandonou-te, odeia-te; tu és minha: podes pecar à vontade.
Dava-me as suas falsas e vergonhosas lições. Prometia o mundo como recompensa pelos crimes. Sem lhe dar resposta, eu dizia a Jesus:
Ainda que me desse o mundo por um só pecado, não o queria, meu Jesus, ainda que soubesse que não me condenáveis, que não me pedísseis conta, não, meu Jesus, nem uma leve falta: o Vosso divino Amor não o merece. É por amor e não por temor que eu não quero ferir-Vos nem desgostar-Vos na mínima coisa.
Eu parecia-me um trapo imundo debaixo das manhas de Satanás. A fúria atingiu toda a altura. Clamei muitas vezes:
— Jesus, Jesus, Mãezinha!
De repente Ele apareceu, serenou a tempestade sem me pôr a sua divina Mão; senti que foi só o seu Sopro divino que docemente me levou às almofadas. Uma doçura e suavidade suavizou o cansaço do meu corpo, a dor da minha alma e deu-lhe uma grande paz. Já muito calma e serena, na posição de costume, disse-me Jesus:
― “Eu vi, minha filha, Eu assisti, tu não pecaste, deste-me toda a consolação. Só dum anjo em carne, só duma virgem pura, pura, inocente, inocente, inocente posso exigir esta reparação, a maior das reparações.
Amo-te, amo-te, minha pomba querida!
Fiquei numa suavidade e paz serena. Adormeci por um pouco, parecia-me dormir com Jesus para agora combater com as minhas dúvidas, tristezas e amarguras. Ó dor bendita, quanto te amo! Em ti só vejo Jesus e as almas!
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 18 de Novembro 1944)

QUERO-TE CRUCIFICADA, ACEITAS ?

― É pelas almas que tudo isto te peço.

Com o coração lanceado, oprimido pela dor e a alma a derramar copiosas lágrimas, foi que eu hoje recebi o meu Jesus. Esperava-O com ansiedade, porque é só Ele a minha força. Baixou ao meu pobre coração; fiquei unida a Ele, a gozar Dele, mas sem O ouvir falar; não teve pressa em fazer-se ouvir. Falou-me, alguns minutos da Sua entrada em mim.
― Minha filha, sacrário onde habito, palácio onde tenho reinado, e no qual prometo reinar sempre, até ao último momento da tua existência na terra. Aqui estou, para confortar-te na tua dor e pedir-te mais, ainda mais. Era do Meu divino desejo ter-te na cruz, sempre na cruz, e sentires sempre, noite e dia, as Minhas divinas Chagas nas tuas mãos, nos pés, no coração, e em tua cabeça sentires as feridas dos meus espinhos e sobre o teu rosto caírem as gotas de Sangue que brotam deles. Quero que sintas todo o teu corpo ferido e despedaçado; quero-te assim constantemente ferida e crucificada; aceitas?
― Já sabeis que sim, meu Jesus; que só quero o que Vós quiserdes, isto é, a Vossa divina vontade, mas por minhas forças não posso; dai-me as Vossas e a Vossa graça, e, depois, fazei deste trapo do meu corpo o que Vos aprouver. O que eu quero é amar-Vos; e as almas, meu Jesus, quero salvá-las.
Jesus calou-se, por algum tempo, deixou-me unida a Ele, mergulhada no Seu divino amor. Interrompeu o silêncio:
― É pelas almas que tudo isto te peço. Dá-Me dor, sempre dor, Minha filha, ó Minha grande heroína. Tu amas-Me sem saberes que Me amas; és Minha, sem sentires que és Minha. Quero-te sem luz, quero-te à semelhança da avezinha, que, sem poder voar, ainda se esforça batendo as suas asinhas para seguir seus pais, abandonar o seu ninho. Coragem! Confia; depressa chegará o dia, em que acabam as tuas ânsias, terás toda a luz e voarás para Mim.
― Meu Jesus, eu não me engano? Tenho tanto medo de mim.
― Como, Minha filha, poderei Eu consentir que se enganasse a Minha esposa mais querida e fiel? Coragem! Confia; não falto às Minhas divinas promessas; tudo se realizará. Diz ao teu paizinho que tenho um canal introduzido em seu coração, pelo qual Eu passo para o dele o Meu conforto, as Minhas graças e a abundância do Meu divino amor. E farei que o Divino Espírito Santo lhe dê toda a luz para o iluminar, em todos os caminhos, não errados, mas sim escolhidos por Mim, caminhos que só escolho para aqueles a quem desejo coroar no Céu com a auréola dos santos. Diz-lhe com firmeza; são palavras de Jesus. Diz ao teu médico que um orvalho fecundo, uma chuva torrencial d graça cai sobre ele e sobre todos os que ao seu coração estão presos com laços de puro amor. É chuva de bênçãos, é orvalho de graças, é a prova de quanto o amo. Se não amasse tanto o seu coração, não o punha à frente da mais alta missão, que tenho na terra. Se o não amasse tanto, não o tinha a cuidar das Minhas coisas e da esposa e vítima, a quem mais quero e amo na terra. Vem, Minha Bendita Mãe, a confortar a Nossa filhinha; vem depressa para depressa te retirares.
Veio logo a Mãezinha, tomou-me no seu regaço, estreitou-me ao Seu Santíssimo coração, beijou-me, acariciou-me e começou a bafejar-me as mãos, os pés, o coração, a cabeça e, depois, todo o corpo.
― É o bálsamo para as tuas chagas, para as tuas feridas, Minha filha. Eu virei de longe a longe, suavizar o teu sofrer. Atende ao pedido de Jesus; deixa-te viver chagada, sofre para O teu e meu Jesus não sofrer, chora para Ele não chorar; vai acudir às almas, vai salvá-las. Conta com o auxílio da tua Mãezinha. Leva a minha graça, carinho e amor aos que te rodeiam, aos que cuidam d ti. Se soubesses como a todos amo também!
Veio Jesus, e acrescentou:
― Une tudo o que é Meu ao que te deu Minha Bendita Mãe; leva aqueles a quem amas, mesmo sem sentires que os amas. Confia que não deixaste de os amar. Amá-los desta forma é o amor mais puro, é amares-Me a Mim, acima de tudo. Vai distribuir, vai semear, vai salvar o mundo. Dá-Me dor sempre mais dor, dá-Me dor sempre na cruz.
― Ó meu querido Jesus, á minha querida Mãezinha muito obrigada, sou a Vossa vítima. Dai-me a graça de Vos ser fiel, dai-me força e amor para tudo sofrer.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 5 de Julho de 1947 - Primeiro sábado)

24 de setembro de 2011

JESUS ASSEMELHOU-ME A ELE...

Amo com loucura a minha cegueira de espírito

Vitral na igreja de Balasar
O tempo passa, só eu não mudo; um dia dá-me o outro dia, uma semana outra semana, um mês outro mês, um ano outro ano, e eu sempre na mesma, ou antes, pelo contrário cada vez mais cega, mais fria e gelada. Apagou-se por completo a luz da minha esperança; esperava, confiava no passar da vida aumentar em zelo, virtudes e amor, enlouquecer-me por Jesus, dar-Lhe aquilo que Ele anseia que eu seja; mas não, em vez de aumento perdi tudo, tudo em mim morreu. Apagou-se a luz que me iluminava e indicava o caminho; não posso ir para Jesus. Que cegueira a minha! Não tenho ninguém, nem, ao menos, quem me guie. Amo com loucura a minha cegueira de espírito, por ser esta a vontade do meu Senhor. Estou na cruz, não posso desprender-me dela, nem quero desprender-me; amo-a de alma e coração. Jesus assemelhou-me a Ele, bendito Ele seja. Sou a Sua vítima, quero salvar-Lhe as almas. Sinto-me crucificada, e, ao mesmo tempo, todo o corpo moído pela lepra, a desfazer-se em cinzas. E a alma chora, ao vê-lo assim tão miserável, tão criminoso e nojento. Sim, chora, chora continuamente, chora por dentro. Não sei como posso ter o sorriso nos lábios quando o coração e a alma soluçam, suspiram sem cessar. Ó meu Deus, que luta a da minha vida, que mar tempestuoso, que tempestade furiosa, destrói tudo; tudo está em ruínas! Eu caí, fui destruída, quero reviver, quero levantar-me, e não posso. Neste desfalecimento fito a Jesus e à querida Mãezinha, peço-Lhes amor, quero amá-Los, e não sou capaz. Quando Lhe peço profundamente, por momentos, me parece desaparecer do mundo, entrar no lado de Jesus e ir beber à chaga do Seu divino Coração, e fico-me ali a beber, e de lá trago mais vida e conforto. Com este conforto, sinto como se batessem em mim umas asas teimosas a tentarem levantar voo ao alto, para me levarem à verdadeira vida. Mas a dor, as cadeias da dor, prendem-me à terra, tenho que ficar, não posso voar, não posso partir ainda.
O demónio anda raivoso, de olhos esgaçados, aterradores, a tentar assaltar todas as janelas dos meus sentidos; tenta perder-me, quer arrastar-me, quer levar-me com ele. Que medo eu tenho de, por qualquer forma, fraquejar e ferir o meu Jesus! Temo o maldito, temo as criaturas. Não sei o que me espera, de por outra não sei o que espera a causa de Nosso Senhor. Venha o que vier, estou pronta para os golpes, para receber novos espinhos. Jesus e a Mãezinha serão a minha força.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 4 de Julho de 1947 - Sexta-feira)

ESMAGADA COMO DENTRO DE UMA PRENSA

Hoje de manhã, senti-me levada por alguém…


Ontem, logo ao cair da tarde, o Horto foi para mim um leito de espinhos; espinhos no corpo, espinhos no coração e na alma, espinhos em todo o meu espírito. Que tarde de amargura! Ao inclinar-se o dia, ao cair da noite, vi a terra Horto, o lugar que havia de ser regado com o meu sangue. Num impulso de amor, queria beijar e abraçar essa terra. Via os ânimos e cuidados com que se preparava a ceia; apesar de ser preparada como se fossem ordens minhas, eu não saía da minha tristeza e amargura. Via que ia ser a ceia do amor, das maravilhas, como outra jamais seria, mas não saía do meu sofrer. Fui ao Horto, o sangue regou a terra; vi muitos vermezinhos a beberem nele e nele viverem. Vi muitos outros que dele fugiam, sem lhe quererem tocar. A agonia aumentou, o sangue encheu o cálice, transbordou fora. Foi assim que o ofereci ao Pai. Neste momento, um orvalho fecundo, um orvalho de amor orvalhava a terra; ia ser para as almas, no decorrer dos tempos, orvalho de vida e de salvação. Novo sofrimento veio tirar-me o conforto desta visão. Fiquei, entre o Horto e o Calvário, esmagada como dentro de uma prensa, tinha que beber a amargura, até à última gota.
Hoje de manhã, senti-me levada por alguém, que me deu a mão, à varanda de Pilatos. A cabeça ia cheia de espinhos, o rosto coberto de sangue, todo o corpo ferido e despedaçado. Vi e ouvi a grande multidão que, a uma só voz, sem se condoer de mim, bradava a minha crucifixão. Vi a cruz, que, pouco depois, senti a meus ombros para seguir para o Calvário. O Coração divino de Jesus tinha para todos os algozes, que, no caminho da Via dolorosa O maltratavam, afectos de tanto amor; parecia que Jesus em troca de tão maus-tratos beijava, abraçava e levava ao colo todos aqueles que o feriam! Estes loucos de raiva; e Jesus, louco de amor. Que exemplo dá Jesus ao meu duro coração! Nesta loucura de amor fosse aproximando a montanha, que, sendo para mim, ou para Jesus que em mim subia, montanha de morte, ia ser para a humanidade montanha de vida. A dor aumentava em união com o amor. No alto da cruz, sentia no meu peito o de Jesus, que, de aflição, arquejava fortemente; unido ao meu, palpitava o Seu Divino Coração também; palpitava e batia fortemente, que fazia desfalecer o meu, de cansaço. Da Sua Chaga divina, aberta pelo amor, não ainda pela lança, saía um sol brilhante, um monte de raios doirados. Era a vingança de Jesus para o mundo. Quanto mais o corpo de Jesus desfalecia e gelava, mais a Sua Alma Santíssima desejava o momento de expirar. A Mãezinha estava, ao pé da cruz, com os Seus Santíssimos olhos lacrimosos, fitos em Jesus. Oh! como Ela suspirava! Senti, como se Jesus se atirasse para os Seus Santíssimos braços, para receber os Seus carinhos. Bem depressa Ela o iria receber, mas já sem vida. Que agonia a de Jesus ao ver e saber quanto a Sua Mãe Santíssima sofria! Ouvi o Seu brado ao Céu, o Seu último suspiro; expirou. Pouco depois, veio e falou-me:
― Minha filha, Minha filha, quem com Jesus vive, com Jesus morre; quem com Ele morre com Ele ressuscita para a verdadeira vida; vem, vem a Mim, vem gozar do Meu divino amor, vem confortar-te, vem viver.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 4 de Julho de 1947 - Sexta-feira)

GOZA DO MEU DIVINO AMOR

― Meu Jesus, gozo e sofro ao mesmo tempo…

Senti-me a nadar num mar imenso de amor e em igual mar de dor; não sabia como nadar nestes dois mares, ao mesmo tempo.
― Meu Jesus, gozo e sofro ao mesmo tempo; não se viver; bendito sejas Vós por assim me teres neste sofrimento.
― Minha filha, esposa fidelíssima, és o Meu retrato; Eu estava na cruz, sofria e amava; sofria os maus-tratos, sofria os crimes com que ia ser ofendido e amava os que Me maltratavam, a todos quantos Me feriam. Tu estás na cruz, sofres, à Minha semelhança, e, à Minha semelhança, amas. Amas as almas, amas o Meu Divino Coração; confia em Mim. Eu sofria na cruz, e nem por isso deixei de amar. Goza do Meu divino amor, recebe a Minha vida, o Meu conforto e dá-Me, ao mesmo tempo, a tua dor.
Dito isto Jesus ficou silencioso, e eu fiquei a ser queimada naquele fogo e a nadar naquela dor. Passaram-se alguns momentos e voltou Jesus a falar.
― É o ouro no cadinho, a ser purificado, Minha filha; é a tua alma a ser polida, a abrilhantar-se. Recebe a vida, mais vida, para dares às almas e para viveres.
Voltou Jesus novamente a ficar em silêncio. Depois de algum tempo, mostrou-me o Seu divino Coração aberto, e disse-me:
― Minha filha, o Meu divino amor não conhecido nem compreendido; é bem pequenino o número dos que o conhecem e compreendem. Até mesmo os sacerdotes, as almas consagradas a Mim, não conhecem o Meu divino amor, não compreendem o que é uma ofensa feita ao Meu Divino Coração. Vê quanto sofro! Consola-Me e desagrada-Me tu ao menos que compreendes a loucura de amor deste Coração e a gravidade duma ofensa feita ao mesmo Divino Coração.
Jesus ficou novamente silencioso. Depois de algum tempo, fui eu, desta vez, que exclamei:
― Jesus, meu doce amor, fazei que todos Vos conheçam e Vos amem. Sois o Senhor, tendes o poder. Dou a todos as Minhas divinas graças; rejeitam-nas, desprezam-nas.
― Faz-Me tu conhecido e amado. Vou dar-te, esposa querida, a gota do Meu Divino Sangue. Vão dois Anjos introduzir no teu coração o tubo do amor.
Vieram dois Anjos, colocaram-se um de cada lado, introduziram no meu coração um tubo doirado. Veio Jesus; no cimo do tubo colocou o centro do Seu Divino Coração. A gotinha do Seu Sangue caiu, enquanto que os anjos com toda a reverência se inclinavam para Jesus e batiam serenamente, cada um por sua vez, as suas asinhas brancas. Jesus continuou a falar-me, enquanto que eles, muito devagarinho, com toda a suavidade, foram subindo até certa altura, da qual, depois num voo rápido, desapareceram. Jesus deu-me o Seu Sangue Divino, e ficou a chorar.
― Sofro tanto com a ingratidão do mundo! Recebe esta vida e vai dá-la às almas para as quais Eu te criei, Minha filha.
― Eu vou, meu Jesus, mas não sem que estanqueis as Vossas lágrimas; passai-as todas para mim, dai-me toda a Vossa dor, ficai na consolação, e, depois, eu vou, meu Jesus.
― Foi para isso, filha querida, para te condoeres de Mim, para ficares na dor, que Eu chorei. Vai, louquinha de amor, vai, encanto de Jesus; vai para a cruz que te espera; abraça-a, e, abraçada a ela, pede ao mundo que não peque, que se converta, que Me ame, que venha a Mim. Coragem, muita coragem; para que Eu não sofra, para que Eu não chore, sentirás sempre na alma as Minhas lágrimas, e em teu coração a Minha dor. Coragem! Eu estou sempre contigo
― Obrigada, meu Jesus. Quero sofrer, quero chorar, para Vos consolar. São as minhas ânsias: consolar-Vos, amar-Vos, salvar-Vos as almas.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 4 de Julho de 1947 - Sexta-feira)

19 de setembro de 2011

PEDI TANTAS COISAS A JESUS !

Canonização de S. João de Brito

Tenho que fugir, tenho que esconder-me, e não sei onde; não posso estar aqui. Que horror me causa o mundo com as suas coisas, com os seus habitantes! Para onde fugir, meu Jesus? Onde poderei esconde-me, a não ser no Vosso divino Coração? Mas a, pobre de mim, não tenho força, não sou digna de ser recebida por Vós. Estou cansadíssima, morro com ânsias de amar o meu Jesus. Quanto mais anseio, quanto mais peço, menos compreendo, menos conheço o Seu Divino amor. Sinto-me a morrer faminta e sequiosa; não encontro o que anseio; nem eu mesmo sei o que a minha alma deseja. Quero levantar-me e voar, voar ao alto, ir ao encontro da fonte em que anseia beber. As minhas trevas que eu amo e abraçai, estão em indizível aumento. Este voo, que eu anelei, vai, de momento a momento, ao Seu encontro. Tudo são trevas debaixo da terra, na terra, no ar, no firmamento. A minha alma ainda continua a alguma coisa querer de Roma. O meu coração está unido, preso por assim dizer ao Santo Padre; espera e confia que dele tem muito que receber.
Foi-me dado o gosto, por pessoa muito querida, de eu ouvir pela rádio a canonização de S. João de Brito. Ouvi Sua Santidade falar; sentia, tanto ao vivo, a presença de nosso Senhor nele, que me parecia ser a voz do próprio Jesus. Assisti à Santa Missa; ai, nem sei dizer o meu contentamento. Há quase seis anos que não tinha tido essa dita. Pedi tantas coisas a Jesus! Pedi-Lhe tudo o que era Dele para os que me são mais queridos, para a minha família, para todos os que às minhas pobres orações se recomendam, e por fim para o mundo inteiro. Ao ouvir o que se passava em Roma, lembrava-me do Céu, sim do Céu que em nada se pode comparar com as coisas da terra. Oh! Como eu acompanhava tudo isto! Com o sorriso nos lábios, satisfeita pela que ouvia, mas na dor mais profunda que se pode imaginar; o coração estava triturado e alma acompanhava, como que a chorar, o meu sorriso. Não se passou um momento sem ele sentir que ela chorava. As lágrimas da alma, a dor do coração eram imensamente maiores do que o contentamento e o sorriso dos lábios. Este contentamento e sorriso eram como que coisas humanas, que apesar de serem em mim, pareciam não me pertencerem. Por tudo louvei o Senhor e bendisse a minha cruz. Quero deixá-Lo desfazer-me em dor, para consolá-Lo e salvar-Lhe as almas. O que hei-de fazer, meu Jesus? O que daria eu por uma só alma! Sou pobre, dai-me a Vossa riqueza para com ela Vo-las comprar. Estou insatisfeita, sem ter que dar e sem saber falar para Jesus. Estou cheia de medo, sem saber de quem e porquê. Sinto que nova descarga de sofrimentos vem sobre mim; abro os braços para receber novos cravos; fito os olhos em Jesus para Dele receber conforto e para que Ele seja em mim o sinal d aceitação a tudo.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 27 de Junho de 1947 - Sexta-feira)

MOMENTO DA PAIXÃO

Os apóstolos adormeceram…

Ontem à tardinha, o meu coração revestiu-se doutro coração; este coração era mundial; estava nojento, negro de podridão; com ele ficou o meu escondido. O coração mundial cravava para dentro do seu muitas setas, muitas lanças. Principiou a minha agonia, sem nada dar a conhecer. Fui para a ceia e da ceia para o Horto. A caminho dele seguiam-me os Apóstolos, cansados pelas grandes maravilhas e coisas que tinham visto e ouvido de Jesus. A viagem foi silenciosa, mas, naquele silêncio, quantas coisas lhes dizia Jesus; como os amava e lhes falava naquele silêncio aquele divino Coração tão oprimido pela dor e também pelo cansaço! Por entre a escuridão das oliveiras, Jesus apressou o passo, foi para a gruta orar. Os apóstolos adormeceram. Sentia a aflição, o suor de Jesus, o palpitar do Seu divino Coração, espremido não sei por quem até dar sangue, que encheu até transbordar o cálice, que em Suas divinas mãos estava. Jesus ia a desfalecer; veio um Anjo amparar-Lhe o braço, que sustentava o cálice. Sentia a grande conformidade e aceitação de Jesus com a vontade do Seu Eterno Pai, e, nesse momento, os Seus divinos olhos estavam fitos no Céu; sentia-os na minha alma como dois sois ao raiar. A justiça divina caía, não sobre o coração podre, mundial, mas sim sobre o que por dentro estava, tão ferido pelo de fora. Fui cheia de maus-tratos para a prisão. Hoje, senti-me sempre com a cruz em todo o caminho do Calvário. Que escuridão; que desfalecimento; como eu ía oprimida pela cruz! Como o meu rosto foi ferido e o corpo pelas lajes arrastado; só perto da montanha me foi tirada a cruz, mas eu sentia-me como se sempre levasse o seu peso. Fui crucificada e levantada ao alto; nova chuva de sangue saiu das feridas dos espinhos, novamente profundas e alargadas. Não era a minha cabeça, era a cabeça sacrossanta de Jesus que eu sentia em mim. Esta dor veio tirar mais a vida do meu coração, já quase moribundo; para melhor me fazer compreender foi o coração divino de Jesus e não o meu. Sentia Jesus beber todo o sofrimento do Calvário tão sofregamente, que não levantou dele Seus divinos lábios; era a fonte de remissão e de salvação; queria bebê-la até ao fim. Que loucura de amor Jesus tem por nós! Com Ele enlouqueci, agonizei e expirei. Ele veio depressa; desceu como que numa nuvem que logo nela me absorveu. Jesus vinha resplandecente de glória, tudo eram raios de luz os quais logo penetraram todo o meu corpo.

― Minha filha, anjo de pureza, venho a ti, cheio de amor. Que grande reparação e consolação tenho tirado do teu sofrimento! Que beleza a tua alma; como ela se tem purificado! Com o teu esforço e desejo de emenda dos teus defeitos, como te tens tornado digna de Mim. Feliz a alma, ditosa a alma, que se deixa guiar, moldar e trabalhar pelo Artista divino. Como está rica! Eu trabalho e tu cooperas com o Meu trabalho. Escuta o que Eu te digo, Minha querida, esposa fiel, mensageira de Jesus. Venho hoje, na última sexta-feira do mês do Meu divino amor, dar-to com toda abundância. Ó maravilha, dou-to e faço o milagre de aguentares com ele.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 27 de Junho de 1947 - Sexta-feira)

RAIOS DE FOGO, COMO RAIOS DE SOL...

As lágrimas da tua alma serão um dia a alegria


— Daqui em diante, ocultarei mais as Minhas divinas palavras; será, como há tempos te prometi, um êxtase mais de amor. Mas, nem gozando deste amor, estarás sem dor. É um meio que Eu uso, filha querida, de esconder para ti as Minhas graças, as Minhas riquezas, as maravilhas prodigiosas, que opero em tua alma. Assim posso evitar qualquer falta da tua fraqueza, por mais leve que ela fosse; assim posso tirar para as almas grande proveito. Promete-lhes, promete-lhes, em Meu nome, a salvação, o perdão das suas culpas, a graça de não Me ofenderem; promete-lhes tudo o que é Meu, àqueles que o quiserem receber. Espalha, transmite, irradia todo esse amor, que hoje te dou. Criei-te para elas, por ti lhes dou tudo.
Quando Jesus disse que me dava todo o Seu divino amor, saíram das Suas divinas chagas e da Sua sacrossanta Cabeça, das feridas dos espinhos raios de fogo como raios de sol. Do Seu sagrado lado, da chaga do divino Coração vieram uns poucos de raios, juntos de encontro ao meu, vieram como setas que me feriram, e, ao mesmo tempo, abrasaram. Embebida naquele amor pareceu-me deixar; ao mesmo tempo que gozava, sofria; o coração ardia, todo o corpo parecia nadar em amor, mas a alma chorava e que dorida que ela estava. Meu Jesus, por que é que eu gozo e choro ao mesmo tempo? Pode mais a dor do que a alegria, por que é, meu Jesus?
― Minha filha, minha filha, quero que sofras no gozo por aqueles que nos prazeres se satisfazem e alegram. É sempre um meio de acudires às almas e de em ti esconder as Minhas maravilhas.
― Meu Jesus, a minha alma chora como chorava ao ouvir o que se passava em Roma. É sempre o mesmo fim que tendes em vista?
― Não, Minha filha, as lágrimas da tua alma serão um dia a alegria, a honra e a glória, não só de Roma, mas sim de todo o mundo e mais ainda de Portugal. Não virá longe esse dia; que grande triunfo no Céu! Dá, esposa Minha, tudo às almas, sofre por elas, salva-as.
― Meu Jesus, não quero fazer-Vos uma pergunta, mas queria dar o conselho que me foi pedido. O que hei-de dizer? Não quero nada contra a Vossa Santíssima vontade.
― Fala, Minha querida, falará contigo o divino Espírito Santo. É chegada a minha hora, os caminhos estão-lhe abertos, já não posso estar mais tempo ferido. Vem receber agora a gota do Meu divino Sangue, o Sangue que é a tua vida, o Sangue que é a vida das almas, o Sangue que corre em tuas veias, o Sangue de Cristo na sua crucificada. Quantas almas há, Minha filha, que se possuíssem este Sangue o guardariam como as mais santas relíquias. Vais recebê-las por um tubo feito do Meu divino amor. Será por este tubo que sempre o receberás.
Jesus tomou um tubo doirado, introduziu-o em meu coração, e sobre ele colocou o Dele. A gotinha do Sangue caiu, o meu ficou a dilatar-se; Jesus logo retirou o Dele, e, no mesmo momento, ficou ao meu lado cravado numa cruz. Ao vê-Lo assim, logo parou a dilatação.
― Minha filha, Minha filha, é sempre na cruz crucificada comigo que Eu te quero; é sempre a dor que te peço; dá-Me dor, salva-Me as almas; vive na cruz, nela morrerás, mas abrasada em amor, Eu to prometo, é Jesus que to afirma. Coragem! Eu estarei sempre contigo. Dá-Me dor; acode ao mundo, perde-se, está em perigo.
― Obrigada, meu Jesus. Sou a Vossa escrava, sou sempre a vítima do Vosso divino amor e das almas. Dai-me graça, dai-me força, não me deixeis um momento sozinha.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 27 de Junho de 1947 - Sexta-feira)

16 de setembro de 2011

QUE MEDO TENHO DO MUNDO

Ao segundo combate interveio Jesus

As minhas trevas aumentaram tanto, tanto, que sinto, como se me tirassem a luz da eternidade. Se lembro o purgatório, medito no Céu, tudo são trevas, tudo é cegueira. Ó meu Deus, até mesmo a luz do paraíso se apagou. O mesmo se dá com as ânsias de amar a Jesus. São tão fortes! Aumentam tanto! Assim como aumenta o sentimento de O não amar, de não conhecer o Seu divino amor e de O não fazer amado. Derreto-me em desejos, em ardentes ânsias de O conhecer, de O amar, de O possuir, e nada consigo. Ó Jesus, como tudo isto fere profundamente o meu coração e dilacera todo o corpo até o destruírem, como se fossem dentes de ferro! Tudo por Vosso amor, meu Jesus, e pelas almas. Aceitai como se, a cada momento, me oferecesse a Vós como vítima. Tanto queria ter que Vos dar, meu Jesus, e amar-Vos até à loucura! Mas, ai! Pobre de mim, que nada tenho, e tudo o que é Vosso se me apaga. Quanto eu sofro, quanto eu sofro! Por Jesus querer que eu me corrija dos meus defeitos e me torne digna Dele, eu não sou capaz de me emendar, de uma vez para sempre, e nunca, por mim me poderei tornar digna de Jesus. O que hei-de eu fazer, Senhor? O que posso eu esperar, a não ser confiar em Vós, que podeis fazer de mim um instrumento, digno de Vós manejardes. Quero esconder-me, quero fugir para onde nunca mais possa ser vista. Não quero saber do mundo nem de nada, que nele existe. Se houvesse um lugar, onde pudesse esconder-me, para só sobre mim os olhares de Jesus, para só Nele pensar, Dele falar e para Ele viver! Que medo tenho do mundo e das criaturas! A minha alma sente que de alguma coisa, a meu respeito, se vai tratar, que muito se tem falado e se vai falar. Ela está com isso apavorada. Que ao menos Jesus se sirva de tudo isto, para reparar tantas ofensas, feitas ao Seu Divino Coração e ao Coração Imaculado da querida Mãezinha. São tantos os espinhos que me ferem! Jesus de tudo se serve para me martirizar. Bendito Ele seja.
O demónio tem trabalhado com todo o interesse para levar-me ao mal. Como ele trabalha para a perdição das almas! Com as suas maldosas lições estava sempre a temer os seus assaltos. Passaram-se uns dias e noites só com as ameaças. Veio na madrugada, veio com todo o furor e maldade diabólica. Todo o meu corpo parecia ser demónio. Por serem graves as coisas, que ele me apresentou, entendo não devê-las explicar aqui. Ele vinha com lanças nas mãos; entendi que era para cravar no Coração Divino de Jesus. Ao segundo combate, interveio Jesus, obrigou-o a retirar-se, disse-lhe: afasta-te, maldito, já tenho da Minha vítima a reparação, que desejava. Estava cansada, em suores; o coração batia aflitivo. Por vezes tinha repetido a oferta de vítima, chamando por Jesus e pela Mãezinha, não com o fim de me virem falar, mas sim para me acudirem, para eu não pecar. Ai, como são dolorosos estes combates! O demónio fugiu; a dor ficou com o grande receio de ter pecado.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 20 de Junho de 1947 - Sexta-feira)

QUE DOÇURA E AMOR !...

Da prisão vi o Calvário e a cruz

Na tarde de ontem, vi o Horto com toda a dor. Digo vi, mas foi a alma que senti e viu as oliveiras, que iam ser testemunhas de tanta agonia, e o lugar, e o solo que ia ser ensopado com o suor de sangue. Aquela visão deixou-me o coração a sangrar e o espírito em negras trevas. Ao anoitecer, senti o Judas com o seu rosto tão gravado em minha alma, parecia que estava ali retratado com o seu rosto desesperado, com olhares e cabelos aterradores. Ao terminar da ceia, senti como se a Mãezinha beijasse e abraçasse, pela última vez Jesus. Que doçura era a dela! Que triste foi a despedida! Oh! Como falavam um ao outro aqueles corações. Cheguei ao Horto, ali desceu sobre mim a justiça do Eterno Pai, como se fosse um fogo vingador. Tinha nas mãos o cálice, que com tal justiça transbordava fora. Veio um Anjo, em tamanho natural, e pôs-se ao lado de Jesus, que estava em mim, como que ampará-Lo. Fui presa com Jesus, e para esta prisão vieram tantos, tantos homens com paus; com seus escárnios e maus-tratos, nos acompanharam, à presença dos pontífices e à prisão! Quando Jesus estava já lá sozinho, eu sentia a Sua tristeza, enfraquecimentos e suores, que Lhe banhavam o corpo. Lá O deixei até hoje.
De manhãzinha, da prisão vi o Calvário e a cruz; segui para ele com ela. A meio do caminho, foi tão grande a queda e a descarga de açoites que sobre o meu corpo caíram! Foi tal a crueldade e o rancor com que fui arrastada pelas cordas a tão grande distância! E se eu fosse arrastada sozinha! Mas ia Jesus comigo. Que pena a minha! Crucificada na cruz, depois de muitos insultos e blasfémias, senti a esponja passar-me nos lábios e senti, antecipadamente, a lança, que abriu o lado e atravessou o Coração divino do meu Jesus. Ó dor, ó dor indizível! Depois de tudo isto, eu sentia Jesus como que a querer despregar os braços da cruz para abraçar o Calvário, abraçar o mundo, que assim O feria. Que doçura e amor saíam daquele coração divino aberto. As lágrimas da Mãezinha corriam dentro de mim. Nesta dor, neste mar de ingratidão expirei com Jesus. Ele não se apressou em vir ressuscitar-me. Ao dar-me a vida, disse-me:
― Minha filha, a cruz é sinal de predilecção; a cruz é selo dos Meus eleitos. Aqueles a quem mais amo, aqueles que escolhi para Mim, para serem grandes na terra e no Céu, embora deseje vê-los pequeninos a Meus divinos olhos, são os que mais dores, tristezas e amarguras recebem, enviadas por Mim. Assim é, Minha querida filha, porque muito te amo, porque te amo sobre todas as criaturas da terra, muito te faço sofrer. Amas sem igual, sofres sem igual. Todo aquele que quer e ama o sofrimento, quer e ama a Mim. Tu amas-Me; confia. Apago em ti as Minhas coisas, faço-te sentir que não Me amas, para mais Me ansiares, para mais Me possuíres. Se soubesses como Me alegro e consolo com as tuas ânsias de amor! Como prémio desta consolação e desempenho da tua missão sublime, tens o Meu divino amor com toda a abundância, possui-lo com a maior intensidade, que uma criatura humana pode possuí-lo; tens todas as Minhas graças, todas as Minhas riquezas, todas as maravilhas celestes. Dou-te o poder, Minha filha, dou-te esta promessa: podes a todos quantos te pedirem a fé, a graça e a conversão, dar o Meu divino amor; enfim tudo quanto for para a alma, podes, em Meu nome, dizer: tudo receberás; sim, Minha filha, por ti tudo lhes será dado. Criei-te para lhes dares a vida e a saúde das almas e não a dos corpos, não é essa a tua missão, mas isto não impede que Me peças a sua cura. Quantos por ti têm recebido a cura dos corpos e ainda receberão. Mas a das almas, a missão para que te criei, se tu soubesses, Minha querida, a transformação, as curas prodigiosas que neste Calvário, neste quartinho se tem operado! Coragem. A tua cruz dá o brilho às almas, é luz que irradia por esse mundo além. Dá-Me dor, dá-Me dor, Minha filha; se não fosse ela, oh! como Eu hoje já tinha sido ferido! A reparação que te pedi, foi pelos sacerdotes. Pedi-te a reparação para não precipitar alguns no inferno. Dá-Me dor, deixa que a tua cruz raie no mundo como raios de sol dourado. Nela vives, nela morrerás, e no Céu brilhará com todo o resplendor.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 20 de Junho de 1947 - Sexta-feira)

SANTA UNIÃO

Os nossos corações ficaram unidos

― Meu Jesus, sinto-me pequenina, dia a dia me afundo mais. Vede quanto eu sofro, ao ouvir-Vos dizer tantas coisas. Vede quanto eu sofro, por não me recomendar dos meus defeitos, como Vós desejais. E vejo, meu Jesus, que nunca por mim me poderei tornar digna de Vós. O que hei-de eu fazer, meu Senhor, senão pedir-Vos com toda a alma e coração para que ponhais em mim toda a Vossa dignidade e depois dizer-Vos: descei, Jesus, já sou digna de Vós com o que é Vosso. Tende dó de mim ó meu bom Jesus; não sei o que hei-de fazer, não tenho forças para mais.
― Que grande meio Eu consegui, Minha querida filha, para te fazer sofrer. Nada temas, tem coragem! É verdade que te quero pura, pura só para MIM, para Eu mais poder aparecer, mas Eu encarrego-Me de suprir o que te falta; não te deixo resvalar. E tu, nessa ansiedade de em todas as tuas palavras, acções e de em todo o teu viver, seres pura, vais subindo, subindo, mais te aproximas, mais te unes a Mim. Fala, Minha filha, fala da vida interior, da vida íntima comigo, dá-a às almas, ensina-lhes esta vida íntima que tanto Me agrada, de que tu só sabes viver; é a gota do Meu Divino Sangue. Vem, deixa-Me unir o Meu Divino Coração ao teu.
Jesus tomou o Seu divino Coração, colocou-O sobre o meu, a gotinha do Seu preciosíssimo sangue caiu, mas Jesus não levantou do meu o Seu divino Coração; ficaram unidos o Coração de Jesus e o meu, como se fosse um só coração e Jesus continuou:
― Vais ficar por algum tempo nesta união; recebe de Mim toda a vida e conforto, bebe, bebe, saboreia este amor, sacia a tua sede; vai repartir, deixa-a transparecer a todos quantos de ti se aproximam, infunda-a nas almas, reparte, semeia. Fala-lhes da Minha bendita Mãe, do Seu amor, da Sua protecção, do quanto é necessário reparar o Seu Santíssimo Coração. É com ela que tu salvas as almas; sim, só as almas; os corpos já não contes, Minha filha. O mundo, o mundo, que ingrato, que cruel; perde-se, está louco, está louco a ofender-Me. Vai depressa para a tua cruz, para a cruz, que te espera, que é cruz de salvação. Dá-Me dor, dá-Me dor, dá-Me dor para morreres de amor.
― Dou-Vos dor, dou, meu Jesus; dou-Vos tudo quanto Vos aprouver pedir-me. Vou para a minha cruz, e vou contente; vou, mas vou ainda confiada. Quero as almas, quero as almas, mas, se puder ser também os corpos. Ó meu Jesus, sou a Vossa vítima. Sede comigo, e aceitai o meu eterno obrigada. Fiquei por muito tempo a sentir o Coração divino de Jesus, unido ao meu, e sentia-me mais forte.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 20 de Junho de 1947 - Sexta-feira)

7 de setembro de 2011

NOVIDADE

Caros amigos,

A página de acolho do Site da Beata Alexandrina vai ser modificada no corrente da semana próxima (12 a 17 de Setembro) e nela estará a animação que aqui se vê.
Também haverá uma banda corrente onde estará inscrito: “SITE DOS AMIGOS DA BEATA ALEXANDRINA”.
Outras páginas serão igualmente modificadas, de maneira a darem ao Site um ar mais alegre, mais atractivo.
Novas rúbricas serão criadas e estarão a encardo de pessoas que muitos de vós conheceis, por serem “amigos” da Beata Alexandrina no Faceboock.
O nosso desejo é que vós sejais cada vez mais numerosos a visitar essas páginas que nos contam a vida e as obras da nossa querida Alexandrina.
Durante a minha estadia em Portugal (7 semanas), tive ocasião de contactar algumas pessoas que estão dispostas a colaborar, para que a Beata Alexandrina seja cada vez mais amada e conhecida.
Tive ocasião de encontrar o Padre José Granja que foi pároco de Balasar e que agora é Reitor da Basílica dos Congregados em Braga: ele está disposto a colaborar connosco e a tornar o Site que ambos criámos em 22 de Agosto de 2005, num  Site “Grande” e “importante”, tanto quanto merece a Beata de Balasar.
Afonso Rocha

4 de setembro de 2011

ESTOU PRONTA, JESUS

Não posso pensar que não amo a Jesus

A minha vida é morte; continuo a viver a vida dos mortos. Que imensa sepultura, em que podridão estou sepultada; causa-me nojo, causa-me horror. Sinto-me a ser comida pelos bichos escondidos nesta podridão; sinto-os a mexer e remexer nesta imundice. E não tenho outra vida a não ser esta, nem outra luz a não serem as trevas do meu espírito. Triste cegueira que não me deixa ver senão horrores nojentos, apodrecidos. E eu tanto a amo, abracei-a tanto e sinto não poder estar neste mundo sem ela. Quanto mais me orgulho, mais me quero mergulhar. Quantas mais trevas, mais trevas anseio. Ó amor do meu Jesus, não vivo, não conheço, não vejo; as coisas do Senhor não mas mostram a minha cegueira, as minhas trevas. Não posso pensar que não amo a Jesus e tanto anseio amá-Lo e fazê-Lo amado pelas criaturas. Quero subir para Ele e caio. Não me revisto Dele nem das Suas coisas; nada compreendo do que é do Céu. Que pobre e ignorante que eu sou! É por isso que eu sofro e quase me chego a persuadir que a minha vida, de tudo o que diz respeito às coisas do Senhor é uma ilusão minha; não digo intrujice porque não quero enganar ninguém. Como pode Jesus descer do mais alto ao mais baixo? Bendito Ele seja.
O demónio tem lutado para me levar a praticar tantos males; só com a graça de Jesus poderei resistir. Sinto-me como se fosse por ele arrastada para a maldade, para os vícios. Parece-me que estou revestida dele e de tudo o que a ele pertence. Não tive os combates apesar de os esperar, porque a grande tormenta que ele me causava me levava a crer que ele viesse. Mas nem por isso deixei de sofrer, ao sentir-me por ele arrastada, seduzida para tantas coisas fracas e parece-me que estou dele revestida e mergulhada em todos os tormentos do inferno. Se ao menos com os meus sofrimentos evitasse o pecado! Se com tudo isto, eu amasse a Jesus e O visse em todos os corações amado! Tenho vivido, nestes dias, sem procurar viver, a minha vida de há quatro anos na Foz. Como eu recordo todos os sofrimentos, gestos e palavras. Está tudo tão gravado em mim e tão profundamente, que jamais se apagará. Tudo isto por amor do meu Jesus e às almas; e nem mesmo assim O amo e as salvo. Meu Jesus, que pena eu tenho de não Vos pertencer inteiramente. Lembro com profunda dor e vivas saudades o Santo Sacrifício da Missa. Já aos anos que eu a não tenho no meu quartinho! Não voltarei a ter este mimo do Céu? Estou pronta, Jesus, para em tudo ser a Vossa vítima. O meu coração, o meu espírito voa a Roma; não só acompanhando os que já partiram para lá, mas também para já estar junto de Sua Santidade para implorar e receber dele aquilo que não sabe, mas que anseia e sabe que só dele virá. Pobre de mim! Tudo anelo e nada possuo a não ser miséria.
*****
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 13 de Junho de 1947 - Sexta-feira)

QUERO QUE EM TUDO ME IMITES

Eu quero-te pura, sem manchas

Ontem, logo que caiu a tarde, senti como se me tirassem um vestido mundial, que me tornou o escândalo de toda a gente, tal era a podridão, de que ele era feito. E assim vestida vergonhosamente, segui e cheguei ao Horto. Ali, desceu o Céu, a esmagar-me, e toda a humanidade a rasgarem-me e a arrancarem-me do corpo todos os nervos e veias. O que ali sofreu Jesus, dentro em meu pobre corpo, que tinha o Horto, o Calvário, a cruz e a morte! Ao receber o beijo de Judas vi, não o meu rosto, mas o de Jesus e o dele muito unidos, e fiquei a sentir, por muito tempo, que aquele beijo, ingratidão e traição se iam repetir, através de todos os tempos. Oh! Como transbordou o cálice da amargura, enchido de sangue inocente.
Na manhã de hoje caí desfalecida ao pé da coluna; recebi a chuva de açoites, que sobre mim foi descarregada, e vi Jesus, dentro em mim, no mesmo sofrimento, de olhos fitos no Céu, em sinal de oração a Seu Eterno Pai. Fui coroada de agudíssimos espinhos; tomei a cruz, segui o Calvário; saiu-me ao encontro a Mãezinha. Que dor senti com o seu pranto e dor! As lágrimas que no Seu rosto corriam, corriam-me no coração. Em todo o percurso do Calvário não perdi mais a união com Ela. Eu não arrastava só a cruz, arrastava-A também a Ela, ou melhor, arrastava a Sua dor. Mais adiante veio a Verónica com todo o sentimento de amor limpar o rosto de Jesus gravado no seu. Jesus deixou-Lho imprimido como recompensa, ela apertou-o ao coração como o maior tesouro e na verdade o era. Se eu soubesse amar a Jesus como a Verónica O amou! Se eu assim O abraçasse para não mais O deixar! Ó meu Deus, ó meu Jesus, pobre de mim que nada sou e nada sei! Cheguei ao Calvário; caído ao pé da cruz, antes de nela ser crucificada, nova descarga de pancadas feriu e despedaçou mais o resto das minhas carnes. No alto da cruz não senti outra coisa a não ser Jesus com os Seus olhares divinos a ver todo o mundo, toda a ingratidão e com a vista do corpo fitar o firmamento a orar e a desculpar-nos a Seu Eterno Pai. Agonizou, expirou e eu com Ele. Tão depressa morri que logo vivi; foi Jesus que me deu a vida, chamou-me e disse-me:
― Vem, Minha filha, ao Meu amor, ao Meu divino Coração é o dia dele; vem gozar do Céu, vem receber amor. Eu quero-te pura, sem manchas; quero-te digna de Mim. Esforça-te, corrige-te, de todos os teus defeitos. Dizia-te até agora que precisava das tuas faltas para Me esconder; agora digo-te: não as quero para mais Eu em ti aparecer. Quero que tudo o que é Meu em ti transpareça; quero que os teus olhares tenham a pureza dos Meus; quero que os teus lábios tenham o sorriso, a doçura dos Meus; quero que o teu coração tenha a ternura, a caridade e o amor do Meu; em suma: quero que em tudo Me imites, quero-te semelhante a Mim; quero que todo o teu corpo seja o Corpo de Jesus, um outro Cristo. És a nova redentora. Quero-te pura, pura com a Minha mesma pureza, quero-te digna de Mim, quero-te preparada para voares ao Céu. A dor e o Meu divino amor purifica-te; a dor e o Meu divino amor são de salvação para as almas. Vou ferir-te o coração; vai ser aberto pelo anjo S. Gabriel, para, depois, por essa abertura, por essa chaga trespassarem os raios do sol, os raios do Meu amor, para dele passarem ao mundo, passarem às almas. Antes disso, quero injectar-to de amor, quero preparar-to para receber o golpe. Em todo este tempo gozarás do Céu, gozarás do Paraíso; Jesus, no mesmo instante, não sei com quê, regou-me o coração com uma chuva miudinha doirada; aquela chuva causticou-me e parecia-me tê-lo separado do corpo.
*****
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 13 de Junho de 1947 - Sexta-feira)

MARAVILHOSO MOMENTO

Transverberação

Ao meu lado direito estava a Mãezinha, à frente, Jesus, e, à esquerda, o Anjo com uma lança na mão. Por cima de nós e em nós desceu o Céu com todo o seu azul, guarnecido de Anjos; muito no cimo, um grande trono da SS.ma Trindade. Tudo era luz, gozo, doçura e amor. A vida do Céu! A vida das almas! Vivia-se ali, mergulhada naquele amor de gozo, parecido com uma nuvem ou fumo branco, que por si se sustenta e conserva no ar; era um nadar de doçura. A um sinal de Jesus, o Anjo levantou a lança, cravou-ma no coração; trespassou-mo, dum lado ao outro; não senti dor. No mesmo momento que ele retirou a lança, vieram do coração de Jesus para o meu muitos raios de amor mais belos que ouro, mais brilhantes e encantadores do que os raios do sol ao nascer. Trespassaram-me todo o coração esses raios, e pareciam reflectir-se no mundo e nele se espalharem. É indizível o gozo e o fogo que eu senti. Disse-me, do lado, a Mãezinha.
― Minha filha, Minha filha, salva o mundo, salva os meus filhos, salva-os comigo, salva-os com Jesus. Coragem, muita coragem, Eu serei contigo! Já reflectiste que faço do teu quarto a Cova de Iria? Já reflectiste que, como em Fátima, aqui desço todos os meses, não falando nas vezes que, como hoje, venho a convite do Meu Filho? É para te dar conforto e encorajar. Recebe as minhas carícias.
Apresentou-me Jesus uma cruz, pôs-me sobre ela; por trás Dele estava outra, era a de Jesus.
― Minha filha, a alma, que sofre por amor, goza na cruz. Aqui a tens; é tua no Céu, é tua na terra. Em tudo te assemelhas a Mim. A Minha acompanhou-me do nascimento ao Calvário, e aqui a tenho resplandecente no Céu. Recebe a gota do Meu Divino Sangue. Recebe a vida, leva a vida, dá-a às almas. Não contes, filha querida, acudir-lhes aos corpos; o mundo não se regenera, não há emenda de vida, tem de ser punido, tem de cair sobre ele a justiça de Meu Pai. Mas prometo-te que a tua nobre missão será desempenhada com todo o brilho na terra e no Céu. Confia, confia; as almas por ti são salvas.
Recebi de Jesus o Seu Sangue Divino, que caiu do Seu Coração para o meu. Deixei de ver os Anjos, a Mãezinha, o Céu; ficou só Jesus. Disse-Lhe ainda com o coração a arder:
― Ó meu Jesus, eu não temo a cruz, temo a minha miséria. Com a Vossa graça divina suportarei todo o peso que me esmaga. O que eu não sei, meu Jesus, é como me hei-de tornar digna de Vós. Eu, Jesus, eu, meu amor, eu, a mais pobre e indigna das Vossas filhas temo e tremo.
― Coragem, esposa amada! És pequenina para seres grande; sentes-te horrorosa para seres Formosíssima. Essa podridão é do mundo, não é tua. Coopera Comigo, Eu tornar-te-ei digna de Mim, farei que tenhas toda a graça e pureza, que de ti exijo. Vai contente e alegre, vai para a cruz.
― Obrigada, meu bom Jesus; dizei por mim um outro obrigada à querida Mãezinha. Eu vou para a cruz, só por Vosso amor e por amor às almas. Mas vou ainda confiada que hei-de vencer o Vosso Divino Coração e Vós vencereis o Vosso Eterno Pai, para que o mundo seja poupado à Sua justiça Divina.
Ai, meu Deus, o tempo passa, foge e eu sem virtudes, sem amor. Que pobreza a minha! Quando recordo o tempo, que passei neste colóquio, sinto-me mais forte. Oh, como Jesus é bom!
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(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 13 de Junho de 1947 - Sexta-feira)