24 de setembro de 2012

Ó JESUS, EU VI O VOSSO DIVINO SANGUER CORRER...


É terno, muito terno o meu coração

Quando acabará na terra a minha eternidade? Quando poderei ver e ficar para sempre no céu com o meu Senhor? Sinto que não posso suportar por mais tempo esta dolorosa e tremenda eternidade, este martírio a que Jesus me submeteu. Preciso de partir, preciso de voar até Deus. Tenho medo de vacilar. Receio perder para sempre o meu Senhor. Está sempre em ser a minha vida. Tudo o que eu sofro morre antes de viver e assim temo e tremo da minha revolta contra tudo e contra o céu. Meu Deus, meu Deus, ai de mim se Vos perco, ai de mim se Vos ofendo. Sou capaz de tudo o que é mau. Nenhuma utilidade tenho para Vos servir e amar. Não deixei de oferecer ao Senhor o sacrifício de uns dias de separação da minha irmã. Ofereci-o por várias intenções e fi-lo só por amor, mas tudo se perdeu na inutilidade e na eternidade. Fugi quanto pude. Ontem, do solo do horto não quis aproveitar-me dos seus frutos. Hoje, fiz o mesmo da viagem para o calvário. Via e sentia que me estendiam redes como que a apanhar-me. Eu fugia-lhe o que podia. Não os deixavam tocar-me. No calvário, no alto da cruz, essas redes eram estendidas por alguém para mim. Saíam-me do coração, eram minhas e vinham para mim. Eram redes de fogo e de amor. Assim expirei. Passei pelo silêncio da morte. Pouco depois Jesus fez-me viver com a sua vida e falou-me assim:

― “É terno, muito terno o meu coração. É doce, bem doce o meu amor. Falar dele é dizer tudo. O amor tem de ser correspondido. Todo aquele que ama não ofende a pessoa amada. Eu amo, amo e peço amor. Se Eu for amado, não sou ofendido. Ó minha filha, ó minha filha, em que agonia está o meu Divino Coração. Sofro, sofro, sofro! Coragem, coragem, coragem no teu sofrimento! A tua dor, a tua dor arranca muitas almas das garras de Satanás. A tua dor faz com que Eu seja amado, muito amado por muitos corações. A tua dor acode a muitos, muitos pecadores, prestes a caírem no inferno. Ai o mundo, minha filha, ai o mundo! As almas, as almas correm loucas, tão loucas, para o abismo da perdição. Olha, olha, repara bem como o meu Divino Coração derrama sangue. Feriram-me as lançadas e punhaladas de pecados gravíssimos. Ferem-me a vaidade e desonestidades nas praias, nos cinemas e bailes. Peca-se horrivelmente nos  casinos e casas de vício. Peca-se na família, peca-se em todos os estados. Ai, quanto sofre o meu Divino Coração. Atendei, atendei à voz terníssima do Senhor. Atendei, atendei ao brado amorosíssimo do seu Coração. Vinde a Mim todos os que errastes. Vinde a Mim todos os que estais frios; quero perdoar-vos, quero aquecer-vos. Vinde a Mim, vinde a Mim todos os que estais doentes. Quero curar-vos, quero sarar-vos as vossas almas”.

― Ó Jesus, eu vi o Vosso divino sangue correr. Vi e vejo as chagas do Vosso amorosíssimo Coração. Ele está todo chagado, todo em sangue. Não o quero ver assim, ó amantíssimo Jesus. Vós sois o médico dos médicos, curai-Vos a Vós mesmo. Aceitai as minhas ânsias de Vos dar tudo, sem nada ter que Vos dar. Quero provar-Vos o meu amor e para isso a Vós me entrego e abandono. Fazei de mim o que quiserdes, que eu, pobrezinha, a Vós me abandono.

Sentimentos da alma: 4 de Setembro de 1953 – Primeira Sexta-feira.

3 de setembro de 2012

EU ESTOU A EXPERIMENTAR-TE



Viva Jesus !
Balasar, 15 de Março de 1935

Meu Padre ;
Não tencionava escrever-lhe esta semana devido ao estado em que me encontro. Estou tão falta de forças ! E a minha cabeça está tão ruim, tão ruim ! Só Nosso Senhor o sabe. Além disso, a minha secretária também lhe custava porque anda bastante doente. Mas como verá, à ordem de Nosso Senhor, resolvi fazê-lo.
Ontem, dia 14, das 9 às 10 da noite, depois de fazer a comunhão espiritual, falou-me Nosso Senhor assim :

― “Anda, minha filha, ouve-me : se soubesses como Eu te amo ! Mas não é possível compreenderes o meu amor. Eu estou a experimentar-te. Eu sei até onde chegam as tuas forças. Mas faço isto para que depois de ti fiquem as lições : para se saber como Eu me comunico às almas que escolho para tão alto fim. Anda passar esta noite muito tempo nos meus sacrários. Contempla o amor que ali me prendeu e que aqui me levou a instituir este Sacramento. Foi numa quinta-feira ; por esta hora medita o que eu jã sofria ! Implora o perdão para os pecadores. Manda dizer ao teu pai espiritual e não te demores em lhe escrever ; que pregue que Eu não posso ser mais ofendido. A profanação do domingo ! O pecado da gula ! O suicídio ! Mas... o da impureza, que horrendos crimes povoam o inferno ! Que se levantem os crimes que alastram no mundo, que senão dentro em pouco vai ser castigado. Que pregue assim por amor daquele Jesus crucificado, e por vosso amor preso naquele sacrário. É Ele mesmo quem vo-lo pede. Eu mandei avisar Sodoma e Gomorra e não fizeram caso. Ai destes, que o mesmo lhes acontecerá !”

Disse-me Nosso Senhor :
― “Aí vai o meu amor”.

E então, aquela força inexplicável e aquele calor que tanto me abrasava ! Oh ! como eu me sentia bem ! E dizia-me Nosso Senhor :

― “És a minha vítima, a vítima dos meus desígnios !”

E tornou-me a dizer que me queria no Céu mas que precisava de mim na terra. Nesta ocasião eu pedi ao meu Jesus a cura da minha querida Çãozinha. E Nosso Senhor prometeu-me curá-la breve [1], mas que lhe pedisse muito, e que lhe pedisse o que quisesse. O que Ele me não alcançasse que é porque não era bem para as almas.
O demónio não me tem consumido tanto : vem, mas vai sem grandes esforços. Tenho visto as sombras de costume. Num dos dias atrasados eu vi dentro do meu quarto um gato preto grande, ou um cabrito a pular, mas mais me parecia um cabrito. Peço-lhe por caridade para não esquecer junto de Nosso Senhor a minha querida Çãozinha. Mete tanta pena ela dizer que muito não queria perder o juízo ! Está proibida de trabalho ; não a esqueça, sim ?
Há dias recebi uma carta. Ainda lhe não respondi ; estou tão ruim ! Não sei como lhe hei-de responder. Ela mostra ser criatura instruída, não me parece ser como eu. Diz-me que vem aprender comigo a ciência da cruz. O que hei-de ensinar ! A quem vou ensinar ? Eu que tanto preciso de aprender.
Lembranças da minha mãe e da Deolinda. Não esqueça, por caridade, esta alma pobrezinha que também promete não o esquecer junto de Nosso Senhor.
Alexandrina



[1] Nota do Padre Pinho : De facto curou, quando já se principiava a desanimar da sua cura.