6 de novembro de 2012

A FERIDA DO AMOR


Eu tenho sede dos corações

Os estados percorridos pela alma da Alexandrina foram numerosos, porque também numerosas foram as suas ofertas ao Senhor como vítima: vítima da Eucaristia, vítima dos pecadores, vítima pelos sacerdotes, vítima pelo mundo e pela humanidade, vítima pela consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria.
A partir do dia 31 de Outubro e, durante quase dois anos, viveu as penas do Purgatório, estado místico dolorosíssimo que a obrigou a viver no seu corpo e  na sua alma a purificação que o Senhor exige das almas santas que ainda não tenha atingido o grau de santidade necessário para poderem entrar na Saca do Pai.
Entre esses momentos de trevas e de aridez espiritual, Jesus oferecia-lhe momentos de autêntica felicidade, felicidade celeste, como ela o explica:

“Passou-se algum tempo, desapareceu toda a treva, o sol dissipou para longe as nuvens, iluminou-se brilhante e claramente a minha alma, um fogo abrasador me incendiou o coração, fazendo passar o calor das labaredas a todo o corpo; gozava duma grande paz, mas sem ouvir ainda Jesus”.

Habituada aos grandes sofrimentos, estes estados de felicidade espiritual, quase a surpreendiam e Jesus, sempre atento à mínima solicitação da sua esposa de Balasar, vinha explicar-lhe o porquê desses momentos de plena felicidade:
“Minha filha, até aqui bateram sobre ti as ondas do mundo, as ondas horrorosas do pecado, de grandes maldades e crimes e cobriam-te as suas trevas, porque és vítima. Agora veio a ti a paz e o amor do Meu divino Coração e toda a luz do divino Espírito Santo”.

Mas estes momentos eram passageiros, e de novo era necessário que ela voltasse à treva, à aridez espiritual, aos combates com Satanás…

“Coragem! Eu quero ser amado; faz que as almas me amem. Eu tenho sede dos corações; repara-Me, conduze-os a Mim. Coragem, minha filha, nada temas. A dor e o amor são as moedas mais caras, são os selos com as quais selo as almas roubadas a Satanás”.

Jesus não cessa de pedir, mas também não cessa de oferecer. A sua conversa com a Alexandrina, parece uma conversa de amantes, como aquelas que podemos ler no Cântico dos Cânticos. Jesus ama-a e oferece-lhe o Seu Coração, faz-lhe promessas, mas exige dela amor, amor sem retorno, amor fiel, tanto nos bons como nos maus momentos. Jesus encoraja-a e previne-a. Ouçamos Jesus:

“Coragem, filha querida! Tu és o prado mimoso, onde produzem as virtudes e desabrocham as flores plantadas por Mim. Levanta-te, anima-te, não temas a cruz. No alto da montanha, no cimo dela, Eu farei cair pelo teu coração todas as bênçãos e graças de salvação para as almas. A tua vida será para elas o perfume das flores, o gorjeio das avezinhas duma manhã primaveril. Custa-te subir? Custa-te chegar ao cimo do teu Calvário? Não estranhes. O remate das obras, o seu enfeite são sempre o mais difícil”.
E para que Alexandrina não possa ter qualquer dúvida, Jesus afirma:
“Mas, ó minha filha, a obra não cai, confia em Mim. Principiei com alicerces tão firmes, que nada há que a faça estremecer, a pontos de vir a terra. É a obra das obras, é a obra mais sublime, é a missão das almas”.

A resposta da Alexandrina, é como sempre: suplicante e enternecida; humilde, mas firme. Ouçamo-la:

“Meu Jesus, ó amor meu, quero e não posso, desfaleço e caio; amparai-me Vós. Não me importo de caminhar de rastos e sempre de rastos ser humilhada, o que eu quero é estar na verdade e em tudo fazer a Vossa divina vontade. Dai-me graça, dai-me graça, meu Jesus, e fazei-me confiar cegamente. Quero sofrer tudo pelo Vosso divino amor, mas custa-me, a mais não poder, ser causa de grande sofrimento, de grande dor para os outros”.

Esta abnegação constante da Alexandrina, este amor sincero e humilde que ela sempre demonstra, enternece o Coração amante de Jesus, que com palavras cheias de amor, com ela se congratula e lhe incute coragem, sempre coragem, mais coragem, para tudo suportar por amor.

“Confia em Mim, alegra-te, Minha louquinha; estás na verdade, és minha, vives de Mim. Que felizes e ditosos são aqueles que Eu escolhi e associei ao teu martírio, ao teu grande, mas vitorioso Calvário. Coragem, coragem!”

O sofrimento da Alexandrina, livremente aceito, não é um sofrimento estéril, é um sofrimento que alimenta outras almas, que contribui à vida espiritual de outras almas, muitas vezes em dificuldades sem nome, por isso Jesus lhe afirma:

“A tua dor dá vidas, as tuas trevas são luz, que alumia as almas e vão brilhar aos confins do mundo.”

Como é sabido de todos, a Alexandrina viveu treze anos sem comer nem beber, o que obrigatoriamente a enfraquecia. Mas Jesus velava por ela e, para que ela permaneça com vida todo o tempo que Jesus quisesse “precisar” dela, Ele alimentava-a com o seu próprio Sangue. Este alimento divino destina-se não só ao sustento da sua alma, mas também do seu corpo. Algumas vezes este Sangue divino chega ao coração da Alexandrina com uma tal força que ela morreria, se o Senhor não estivesse atento ao derrame salutar. A Alexandrina várias vezes o explica nos seus escritos. O “Sangue do Cordeiro” é alimento que dá vida da alma, é alimento que mantém a vida do corpo.
Jesus explica:

“Recebe agora a gota do Meu divino Sangue. Hoje não cairá duma só vez; vais recebê-la, saboreá-la, como a abelhinha que sofregamente saboreia nas florzinhas o néctar”.

Vejamos agora, contado pela própria Alexandrina o que aconteceu:

“Jesus tomou em Suas mãos o Seu divino Coração; pelo centro saíam labaredas que formavam uma só labareda; uniu ao meu coração e fez que nele se introduzisse o pequenino tubo; senti-me como que adormecer docemente. Assim demoramos, por um pouco. Depois, Jesus retirou o Seu Coração divino, bafejou-me o peito e passou-me sobre ele a Sua bendita mão como quem acaricia.”

Solicitude divina do Senhor! Senhor, quão grande é o teu amor para com aqueles que escolheste para participarem, de maneira mais íntima, de maneira mais realista, ao pleno de Salvação previsto desde a eternidade!
A missão da Alexandrina deve continuar, não só naquele momento preciso, mas pelos tempos fora, não só “até aos confins do mundo”, mais até ao fim do mundo. Uma vez mais Jesus explica à sua vítima de Balasar esta missão sublime:

“Vai, Minha filha, a ferida que te fez o amor já está cicatrizada. Vai, leva para as almas estas chamas, abrasa os corações que têm fome de Mim; por ti Me dou a eles. Leva estas chamas, arrasta com elas a Mim as almas presas pelos laços infernais. Vai para a tua cruz, para a tua dor, não deixes correr mais pelos rastilhos o fogo, que faz rebentar a bomba divina, a justiça do Meu Pai. Coragem, coragem; nada temas, sorri a tudo!”

Alexandrina não discute, não faz mais perguntas: ela compreendeu perfeitamente a vontade divina. Ela sabe-se frágil, por isso ela diz apenas:

“Obrigada, meu Jesus. Sede comigo; tudo espero do Vosso divino coração.”

Que força, que carinho, que coragem!
Terminando a página do seu diário espiritual (Sentimentos da alma, Alexandrina explica o resultado desta visita de Jesus e o que se passou nela, pouco depois. É quase sobrerrealista:

“Passaram-se umas horas, o fogo de Jesus ainda me queima o coração; custa-me, por vezes, a aguentá-lo sem saber ele deitar panos frescos. Sinto-me mais forte; estou no fogo, mas em trevas, e o corpo num mar de dores. Ó minha cruz, ó meu Amor, ó meu Jesus!”

Palavras enternecedoras que fazem bater fortemente os nossos corações, que trazem aos nossos olhos lágrimas de regozijo que fazem bem, que procuram paz e avivam o nosso amor por Jesus e pela nossa querida Alexandrina, porque o que nela se passa, “é a obra das obras, é a obra mais sublime, é a missão das almas”.

Afonso Rocha
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 7 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)