21 de fevereiro de 2013

SEIS PRIMEIRAS QUINTAS-FEIRAS


Alexandrina explica:


Ontem de manhã [24 de Janeiro], senti como se assumisse a mim toda a maldade humana. Tudo entrou para mim, e eu era o mundo. Causou-me tal tormento que não sabia como resistir. Lembrei-me que neste dia a ordem de alívio dada pelo meu Paizinho não teria lugar. Enganei-me: sentia e via com os olhos da alma dentro em meu peito uma ovelha poisada sobre a terra, presa por grandes sebes de espinhos. Eu ia caminhando para o Horto, e ela sempre dentro de mim. Durante a tarde, desapareceu tudo isto, foi muito mais suave a dor. À noite voltei ao mesmo sofrimento pavoroso. Sobre o solo do Horto levantou-se um altar, altar de dor assediado por todos os martírios. Sobre ele estava não uma ovelha com sebes de espinhos, mas sim um cordeiro mansíssimo que tudo recebia sem dar sinal de vida, possuindo toda a vida. Daquele cordeiro saía tudo de bondade, e todo ele ardia em chamas que abrasavam o altar e todo o solo do Horto. Era Jesus, era Jesus, senti que era. Oh! Como Ele amava, quando recebia toda a maldade e ingratidão! Nesta ocasião coisas houve que agravaram muito o meu sofrimento. O demónio tentador aproveitou a ocasião para me atormentar. Sem eu querer via tudo pelo pior; foi grande a minha agonia. Meu Deus, se é possível, afastai de mim este sofrimento. Assim me uni à agonia de Jesus. Mas logo acrescentei: não se faça a minha vontade, mas a Vossa divina vontade. Não desvieis de mim a Vossa Face, ó meu Jesus, não me deixeis sozinha um só momento, só esse basta para eu desesperar! Num mar de dores passei toda a noite. Logo de manhã, no meu mundo, se levantou o mesmo altar de dor rodeado de martírios com o mesmo cordeirinho em cima. E assim segui para o Calvário. A toda a dor este cordeiro mansinho pagava com doçura e amor. Ele ardia em chamas e por entre elas, por entre a alvura da sua graça, caía o Seu sangue em abundância a regar a terra. Aproximava-se o fim da montanha, e o inocente Cordeiro sempre sobre o altar do patíbulo; sabia que ia morrer e ansiava por dar a vida. Que amor, que amor! Só podia ser o amor de um Deus, o amor de Jesus! No alto do Calvário, em vez da cruz, continuou a ser o mesmo altar e o mesmo Cordeiro a arder em chamas e a derramar sangue. Quanto mais se aproximava a hora de Jesus expirar, mais a crueldade de debatia contra o Cordeiro inocente e mais as chamas do Seu amor se estendiam sobre tanta maldade e ingratidão. O Cordeiro ia morrer e nesse momento passou da noite para o dia, da morte para a vida no abraço mais íntimo ao Seu Coração toda a humanidade. Desapareceu de mim o altar, o Cordeiro, e eu fiquei como se não vivesse. Dentro em pouco veio Jesus, falou-me em meu coração; falava-me nele como d’uma janela.
— Minha filha, minha filha, vítima de Jesus, vítima da humanidade, vítima da tua Pátria, do teu Portugal. Minha filha, minha filha, louquinha da Eucaristia, ama-Me, ama-Me e faz-Me amado; é por ti que Eu quero ser amado, é por ti que Eu quero muitas orações a amarem-Me, é por ti que Eu quero ser reparado, é por ti que Eu exijo grande reparação; repara-Me de tantos sacrilégios, de tantos crimes e iniquidades. A tua dor atingiu o auge. Podia dizer que o Meu divino amor atingiu para contigo também o seu auge; não porque o Meu amor tenha limites, mas porque te amo com o amor com que pode ser amada uma criatura humana; amo-te com amor louco.
Minha filha, minha esposa querida, faz com que Eu seja amado, consolado e reparado na minha Eucaristia. Diz em Meu Nome que todos aqueles que comungarem bem, com sincera humildade, fervor e amor em seis primeiras quintas-feiras seguidas e junto do Meu Sacrário passarem uma hora de adoração, e íntima união comigo lhes prometo o Céu. É para honrarem pela Eucaristia as Minhas santas Chagas, honrando primeiro a do Meu sagrado Ombro tão pouco lembrada. Quem isto fizer, quem às Santas Chagas juntar as dores da minha Bendita Mãe, e em nome delas nos pedirem graças, quer espirituais, quer corporais, Eu lhas prometo; a não ser que sejam de prejuízo à sua alma. No momento da morte trarei comigo Minha Mãe Santíssima para as defender.
— Ó meu Deus, como Vós sois bom, como é infinita e sem limites a Vossa misericórdia. Permiti que todos comunguem bem, com as devidas disposições, para se tornarem dignos das Vossas divinas promessas. Alcançai-me, meu Jesus, para mim a mesma graça.
— Dá-Me dor, dá-Me dor, ó minha filha, repara tanta maldade, dá-Me a tua cruz. Confia em Mim, não temas as trevas, o abandono e a ignorância. Todo o teu viver mostra a vida de Deus em ti; a tua vida é um livro de sabedoria, é a ciência divina a falar por ti. É vida de heroísmo, é vida de amor. Rebe a gota do Meu divino Sangue, maravilha encantadora do Paraíso. Se os Anjos e os Santos que estão na glória pudessem amar-Me mais, mais Me amariam ao ver tão grande prodígio. Como são lindos os hinos que Me entoam! Que prova de amor! O Sangue de Cristo, o Sangue das virgens, o Sangue que as gera. Tem coragem, vai para a cruz, vai para o teu martírio, leva a Minha graça, leva e Minha paz, vai distribuir e irradiar este amor.
— Obrigada, obrigada, meu Jesus. Quisera bem que todos o experimentassem e que todos Vos amassem.
Jesus fez passar a gota do Seu Sangue, e, no mesmo tempo, fez-me nadar num mar de suavidade e doçura, num mar de amor. Sentia-me arder, mas era fogo que confortava e dava vida à alma. Fiquei mais forte, com mais coragem para a cruz. Quanto devo ao meu Jesus.

Sentimentos da alma, 25 de Fevereiro de 1949.

TUDO MORREU, TUDO SE APAGOU...


Não digo nada do que me vai na alma…


Cá estou na renúncia de mim mesma, sujeita à obediência, a contrariar a minha vontade, a querer só o que Jesus quer, nada mais queria dizer, abafar por completo tudo o que em mim se passa. Se assim fizesse, entrava a minha vontade, não me renunciava, não obedecia, Jesus ficaria triste. Nisso não posso consentir. Obedeço às cegas, obedeço por amor. Estou a sucumbir sob o peso da minha cruz. Que dor, que amargura, meu Deus! Esta dor, esta amargura estende-se ao mundo inteiro. É uma angústia constante para o meu coração tão aberto pela lança e a cada momento avivada a ferida, tão cingido de espinhos e avivado pelas setas. Meu Deus, meu Pai, ouvi o meu brado incessante. Estou na cruz crucificada. Repete-se o número de vezes que os cravos são apertados. Toda a cabeça está trespassada pelo capacete de agudíssimos espinhos. A agonia da minha alma e o brado do meu coração não cessa. A alma chora, chora de tristeza e angústia e o coração brada, brada sempre: Meu Deus, meu Jesus, meu Senhor, valei-me pelo Vosso amor, valei-me pela Vossa sagrada Paixão e Morte. Eu quero, ó Jesus, e não posso mais. Não me abandoneis, vinde depressa socorrer-me. Com a Vossa graça, com a Vossa ajuda eu sou e serei sempre a Vossa vítima. Aí, quanto custa sofrer para consolar o meu Senhor e valer às almas, e sentir que não posso mais, que não sou capaz de aguentar com o aumento do mínimo sofrimento. Perdi tudo, tudo, tudo morreu e tudo o mais morrerá. Estou sempre no meu sepulcro de morte; ele nada deixa em mim viver. As trevas são pavorosas; a noite tristíssima e escura não deixa cintilar uma estrela. Tudo morreu, tudo se apagou. A minha ignorância invadiu todo o meu ser; é uma inundação total. Não sei falar de Jesus, não sei falar do sofrimento, não digo nada do que me vai na alma.
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Sentimentos da alma, 23 de Fevereiro de 1951.