22 de fevereiro de 2015

A CRUZ ERA TÃO GRANDE !

Balasar, 16 de Fevereiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Cá está a pobre Alexandrina a buscar um pouco de alívio para tantas aflições. Sempre ficarei melhor desabafando um pouco. Que dia de tanta aflição. Já hoje tenho levantado as mãos ao Céu e pedido: meu Deus, compadecei-Vos de mim, meu Deus, compadecei-Vos de mim. Que tempestade medonha. A minha alma está numa noite escura. Afigura-se-me que cá muito no íntimo sou rasgada aos pedacinhos e maltratada. Como eu estou sozinha num abandono total: não há quem se compadeça de mim. As dúvidas são tremendas. Que susto ao afigurar-se-me que faço tudo de minha cabeça. Que luta para não me deixar convencer disso porque não quero, nem por sombras, desgostar ao meu Jesus. O receio de mim mesma: a minha miséria, o meu nada, o nojo que tenho de mim. Ai meu Paizinho, poderei vencer? Receio, mas ao mesmo tempo confio. Mas ai, como estou neste momento. Que aflição tão grande! Ai, meu Jesus, sede a minha força. Ó minha Mãezinha querida, compadecei-Vos da vossa filhinha. As lágrimas são o meu desabafo, agora mesmo.
O meu Paizinho fica triste com isto? Perdoe-me, sim? O meu Jesus com certeza também me perdoa. Eu não é por não querer sofrer. Oh, quero sofrer a mais não poder. Já por mais que uma vez, hoje, o pedi ao meu Jesus. Mas sou tão fraca, não posso com uma aresta; quando o peso cai mais sobre mim fico quase desfalecida.


O meu Jesus hoje, não me falou: tem-me entregue aos sofrimentos. No fim da Sagrada Comunhão, fiquei com um peso esmagador. E já mais vezes o tenho sentido. Não é tão forte como no dia em que o meu Paizinho aqui esteve: mas parece que me arranca o coração e me enterra pelo chão dentro. De terça para quarta-feira, de noite, vi Nosso Senhor atravessar diante de mim com uma cruz aos ombros. Era tão grande! Ele ia tão aninhado debaixo dela, parecia que ia de joelhos. O manto era vermelho ou cor semelhante. Eu penso que não foi ilusão minha. Eu não dormia, nem estava a pensar em nada disto. Mas fosse como fosse eu só tenho que dizer tudo ao meu Paizinho, não é verdade? Eu não posso pensar no Céu. Não sei o que me vem do alto ter ao coração e mesmo mo arranca para lá. Parece que não caibo em mim. Juntam-se as ânsias de amor, parece que uma força que eu não conheço me levanta, Não é força minha, do meu corpo que eu não tenho nenhuma. Como devo proceder? Teimar a pensar na minha pátria ou recordar-me só por breves momentos?
Eu anseio tanto pelo Céu, mas parece que a força que se me faz sentir é forte de mais para quando estou sozinha, Por isso é que só com muita rapidez me lembro dele.
Ó meu Jesus faz-me sofrer muito, muito, muito, ora com o Céu ora com os meus males e com os do mundo. Que horror! Bendito Ele seja. Eu só quero forças para sofrer quanto Ele me enviar.
Cá tive o Santo Sacrifício celebrado pelo Senhor Padre de Fonte Arcada no dia 15. Depois contarei ao meu Paizinho tudo como foi. O Senhor Abade fez-nos sofrer um pouquinho: mas as humilhações são muito boas e muito precisas. Eu agradeci-as ao meu Jesus.
Eu estou muito doente com a gripe. A tosse consome-me de noite e de dia. Faz-me vomitar. Quando me dá mais forte, é preciso erguer-me um pouquinho senão abafa-me. Estou com tanto receio da sexta-feira! Estou cheiinha de medo.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.
Peço o favor de me recomendar aos Senhores Padres.

Abençoe e perdoe a pobre, Alexandrina.

21 de fevereiro de 2015

QUERO SOFRER ATÉ MORRER

Balasar, 8 de Fevereiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Quero primeiro agradecer a boa cartinha que me escreveu. Estimo-as tanto! Não é tanto pelos rápidos momentos de alívio que me dão, mas sim pela coragem que me infundem, e pelos santos conselhos que me dá. Que o meu amantíssimo Jesus se digne recompensá-lo do grande sacrifício que faz para me escrever.


Ai, meu Paizinho, parece que nem posso respirar com a tristeza, e penso que me esmagam. Em mim tudo são escrúpulos e dúvidas. Que triste viver. Por mais que o meu Paizinho e o meu Jesus me digam que estas coisas não são feitas por mim, estou sempre na dúvida, sempre ruim e tímida.
Se o meu Jesus me alcançava a graça de eu me convencer que não sou eu que faço e digo tantas coisas, que grande consolação. Mas não digo bem porque não sofria: e eu quero sofrer até morrer. Quero só sofrer sofrendo e sofrer amando. Meu Jesus, que horror eu ver o abismo incomparável das minhas misérias e o meu Jesus não ter nojo de habitar nesta imundice e acariciar-me, dizer-me coisas tão lindas, é o que me faz duvidar, quase me leva ao impossível. Parece-me que até tremo e o meu coração, se desfaz de dor.
Ai, meu Paizinho, ai da pobre Alexandrina.
O demónio continua a tentar-me e a chamar-me coisas feias. Mas ele tem razão: porque eu vejo que se não fosse o meu Jesus sustentar-me, eu era tudo o que ele diz, ou pior ainda, se por acaso houver coisas piores. Ainda há pouco ele gritava cheio, de raiva: “és condenada, estás condenada”. E eu cheia de dúvidas, e com isto mais aflição me fazia.
Mas no mesmo instante, muito no íntimo da minha alma, ouvi uma voz que me falava tão docemente: “não estás condenada, estás salva. És minha, o Céu é teu com toda a sua glória. Tu és toda e só de Jesus.”
Ai, meu Paizinho, nestes momentos não duvido que é o meu Jesus. Dá-me tanta paz! Mas como são rápidos estes momentos: como volto tão depressa ao mesmo sofrimento!
Meu Paizinho, eu sou tão má! Eu não posso prender o meu coração a nada. Quando faço esforço e me ponho, por alguns momentos, a fazer o meu exame de consciência e vejo como faço as minhas poucas e pobres orações, desculpo-me com o meu Jesus e digo-lhe que não posso melhor: mas prometo-lhe esforçar-me por as fazer melhor. Mas, ai pobre de mim: não faço nada, estou sempre na mesma, senão pior.
Que há-de ser de mim, meu Paizinho? Nosso Senhor é tão mal servido por mim! Eu não tomo emenda de vida! Mas eu quero amar o meu Jesus e a minha querida Mãezinha: Amo-Vos, Amo-Vos tanto até morrer de amor. Mas não sei o que há-de ser de mim, cada vez me sinto mais desviada e fugitiva de Jesus e de Maria: Ai, se eu os amasse com todo o amor do Céu e da Terra! Se eu possuísse todos os corpos para oferecer ao meu Jesus para Ele os crucificar, e todos os corações para o amar, como eu era feliz!
Adeus, meu Paizinho, estou tão cansadinha! Não posso mais. Ansiosa fico, esperando ou no domingo ou na segunda; seja como Nosso Senhor quiser. Nosso Senhor estes dois dias tem-me continuado a falar. O meu Paizinho quando vier verá. Algumas coisas referem-se ao meu Paizinho.
Peço o favor de me recomendar ao Senhor Padre.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.

Perdoe, por caridade, e abençoe a mais indigna filha, a pobre Alexandrina.

20 de fevereiro de 2015

HEI-DE VOS ESMIGALHAR

Balasar, 3 de Fevereiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Cá estou eu a agradecer a boa cartinha que o meu Paizinho teve a caridade de me escrever. São momentozinhos de alívio para logo voltar ao mesmo estado. Bendito seja Nosso Senhor! É por Ele tudo. Está um dia tão lindo! Quanto mais o sol resplandece contra as janelas e estende os seus raios para dentro, mais sofro ainda. Mais me faz sobressair a dor e a tristeza que sinto em minha alma. Hoje, antes de comungar, ai meu Jesus, como era medonho o meu estado. E logo que recebi a Jesus, parecia-me que Ele se abraçava ao meu coração, parecia arrancar-mo. E com tanta mágoa dizia-me:
— Tem pena, tem dó de Jesus: compadece-te de Mim, minha crucificada. Que ingratidão, que maldade a do Universo. Que dor pungente, que tristeza infinda. Sofro tanto! Não posso sair da dor, da tristeza e da amargura. Como há-de sair a minha esposa mais querida que está crucificada comigo?


E o meu Jesus soluçava dentro de mim e dizia-me:
— Só depois de uma libertação completa Eu darei suspiros como quem está desafogado e livre de tanto peso.
Eu sentia então também, por momentos, o alívio que certamente virá Nosso Senhor a ter. Agora não digo mais nada. Daqui por três quartos de hora devo estar na crucifixão.
Meu Paizinho, ontem mais nada ditei: fiquei muito cansadinha, não podia mais.
Nosso Senhor, antes de principiar a paixão veio, como de costume, infundir-me coragem. Falou-me assim:
— Ó minha querida crucificada, cá está o mendigo que, de oito em oito dias, te vem pedir a esmolinha da crucifixão. Serás capaz de negar alguma coisa ao teu Jesus?
— Não, mil vezes não.
— Bem, Eu o sei. Coragem pois. Eu sou a tua força: o teu Cireneu te acompanhará à imitação de Jesus.
Durante a paixão senti-me sempre muito abandonada: mas o meu Jesus deu-me força. Não faltou ao que prometeu e fez com que o Cireneu me ajudasse também. Custam tanto! Têm sido tão violentos! Mas ai, meu Paizinho, mais me custam ainda as dúvidas. Que medo, meu Jesus, ai que medo eu tenho de enganar e de tudo ser feito e dito por mim. Ai, ai, meu Paizinho, as dúvidas estão a poder mais que eu: estou a ficar em grande abatimento, muito, muito desfalecida.
O demónio diz-me que sou tão excomungada que nem o inferno me quer; nem o meu Paizinho, nem o Senhor Cónego Vilar. São todos da mesma comanda:
— Acredita-me! Ai deles e ai de ti, minha f., se a consagração do mundo vai ser feita. Hei-de vos esmigalhar.
Que bufada, que rangido de dentes, e isto com muitos nomes feios.
Adeus, meu Paizinho. Estou faminta de amor. Nada me mata a fome. Rogue por mim a Jesus e à Mãezinha.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.
Fará o favor de dar lembranças minhas aos Senhores Padres.

A bênção e perdão para a pobre, Alexandrina.

NUNCA JULGUEI SOFRER ASSIM

Balasar, 1 de Fevereiro de 1939

Viva Jesus
Meu Paizinho,
Só quando quase de todo eu não puder falar é que deixarei de ditar umas palavrinhas ao meu Paizinho. Já estou de novo ressuscitada. Já estou melhor um pouquinho. A febre baixou: já não vomito.


Não será por muito tempo: os jeitos são disso mas será até quando o meu Jesus quiser. Eu só quero o que Ele quiser. Mas oh! quanto eu sofro, só Ele conhece. Nunca julguei poder sofrer assim. Eu oferecia-Lhe tudo, tudo. Como eu gostava de Lhe fazer companhia de noite assim doentinha. Mas afigurava-se-me que Ele não aceitava nada e eu que não estava com Ele, que não Lhe fazia companhia nos seus sacrários. Eu tão doentinha e ver-me em tais trevas e aridez. Parece-me que o meu querido Jesus e a querida Mãezinha se aborrecem de mim. Não me podem suportar, viram-me as costas. Os abismos são medonhos. Verdadeiramente, o que neles se passa só digo ao meu Paizinho pessoalmente. Quanto Jesus sofre! Que ingratidão! E a minha alma sofre tanto com pena de Jesus. Tanto O queria consolar! O meu coração parece que se esmigalha. Ai, como eu queria amá-Lo e sinto que não amo nada, nada, pobre de mim. Ai, meu Paizinho que fome eu tenho do meu Jesus. A vida é tão penosa para esta pobrezinha. Como hei-de viver assim? Parece-me que não há abandono comparado ao meu. Ninguém se compadece de mim. A minha miséria é a maior de todas as misérias. Sinto uma tristeza tão profunda! Sinto-me tão envergonhada e confundida diante de Nosso Senhor! O meu Deus, no meio de tanta miséria, estar em mim, operar em mim tantas coisas, dizer-me palavras tão lindas! Mas a quem as diz? Quem sou eu? A mais indigna filhinha de Jesus. Todas as coisas da minha vida me atormentam e me fazem encher de dúvidas. Como é que Nosso Senhor não tem nojo de estar em mim. Quase me parece impossível Ele não ter nojo e não fugir espavorido para sempre.
Meu Paizinho, o demónio continua com toda a raiva sobre nós. Entre mais coisas que não digo por escrito, diz-me esta: que o Santo Padre, depois de morto, se levantará a dizer que está condenado por ter acreditado em mim e ter consagrado o mundo a Nossa Senhora. E que eu estou condenada por os ter enganado.
Ontem e hoje estou a jejuar. O meu Jesus não me falou. Mas preveniu-me. Disse-me que me deixava entregue à tremenda luta, que era para eu sofrer mais e assim ajudar a meu Paizinho. Que lhe dissesse que não se cansa de pregar e fazer pregar penitência, penitência, penitência.
Ai do mundo? A que ponto chegou a malícia? Ai dele se não se converte?
Meu Paizinho, só lhe cito estas palavras das muitas que Nosso Senhor me disse. Depois o meu Paizinho verá tudo. Não posso falar mais. Nem sei para onde hei-de voltar a escrever até ao dia do meu Paizinho aqui vir. Ainda tenho tanto que esperar!
Lembranças da minha mãe, da Deolinda e da Çãozinha.

Eu fiquei muito amiga com o Senhor Cónego Vilar, depois contarei ao meu Paizinho. Abençoe e perdoe a pobre Alexandrina.

19 de fevereiro de 2015

O SENHOR CÓNEGO VILAR VEIO ONTEM

Balasar, 27 de Janeiro de 1939

Carta da Deolinda

Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Estou muito doentinha: estou com febre: piorei esta noite: vamos a ver o que irá dar. Deu-me com a costumada dor do lado e agora tenho todo o corpo numa dor só. Pela manhã recebi o meu Jesus. Meu Deus que trevas, que noite! Parecia-me que Nosso Senhor estava amarrado ao meu coração e bradava-me muito do íntimo:
— Ai, ai, ai, tem dó de mim! Ai, ai, ai, tem dó de mim, minha esposazinha, tem dó de mim que sou Jesus.


Com que dor o meu Jesus me dizia isto. Mas parece-me que não me compadeci d’Ele. Estava dura, mais que um rochedo. Mas falei assim:
— Meu Jesus, mandai sofrimento a mais não poderes a este corpo e a esta alma. Esmigalhai-me, mas alegrai-Vos, consolai-Vos, salvai o mundo.
Estou na mesma dureza, na mesma escuridão. Já vai para as 11 horas, espero com profunda tristeza o momento da minha crucifixão. Que o meu Jesus seja a minha força.
Senhor Padre Pinho, vai estranhar por esta carta ser principiada a ditar pela Alexandrina e acabada por mim. Ontem, antes da paixão, já ela estava muito doentinha, já tinha passado a noite muito mal e com bastante febre. Ainda deu princípio à carta, mas já não lhe pôde dar fim.
Envio-lhe as palavrinhas que Nosso Senhor lhe disse no princípio da paixão.
— Ó minha querida crucificada é chegada a hora, aceitas? O teu Jesus sempre ao teu lado e o teu Paizinho, são os que com mais ternura te assistem.
Depois disto seguiu-se a paixão. Os açoites eram acompanhados dum grande rancor. Sexta-feira passada e esta quando ia para o Calvário passou ambas as mãos pelo rosto. Eu não sabia o que significava: mas pensei se seria a cena da Verónica. Depois perguntei-lhe e ela disse que sim que era.
O Senhor Cónego Vilar veio ontem, mas quando chegou, já ela estava na cruz. Como ela estava com muita febre, pensamos que não havia nem roupa, nem agua quente capaz de aquecer. Tremia continuamente. Depois esteve a falar com ele até as 4 horas e 5 minutos. Coitadinha! Custava-lhe tanto!
Quando ele daqui saiu já a febre estava a 40°. À noite, aos 40,5 e ainda estava a subir porque continuava o frio. Assim passou a noite e assim continua o dia muito, muito doentinha. Também está com os vómitos, mas ainda não vomitou sangue: só tem vomitado a bílis.
Vamos a ver o que dará.
Nosso Senhor tem-lhe falado todos os dias. Cá está tudo anotado
Mas tudo é pouco para lhe dar coragem. Sofre tanto interiormente! Custa-me tanto vê-la sofrer assim!
Eu continuo no meu posto de sempre, sempre ao lado dela dia e noite. Alivio-a pouco, mas faço todo quanto posso. Quem me dera poder consolá-la um pouquinho no meio de tanto sofrimento. Por caridade, não nos esqueça junto de Nosso Senhor para que Ele seja a nossa força.
Cumprimentos da minha mãe e da Çãozinha e muitas saudades da Alexandrina.
Sou esta que humildemente pede a bênção ao seu Paizinho,
Deolinda

P.S. Ainda são 2 horas da tarde e a Alexandrina já tem a febre a 40°. Quando for lá para a noite como estará ela. Adeus, abençoe a pobre Deolinda.

COMO CUSTA O MEU VIVER

Balasar, 24 de Janeiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Primeiro que tudo quero agradecer ao meu Paizinho a boa cartinha que teve a caridade de me escrever. Veio dar-me uns momentozinhos de alegria e de alívio. Foram mesmo poucos. Passados uns momentos eu voltei ao mesmo estado. É assim que o meu Jesus quer; que se faça a Sua Santíssima Vontade. Eu estou sempre pronta para o que Ele quiser. Confio que não me faltarão as forças precisas. Ai, meu Paizinho como custa o meu viver: ai a minha vida. Como eu queria poder fugir, desaparecer da vista de todos. Sinto que sou indigna de ser visitada e conhecida. Que miséria a minha, que nada eu sou.


Vai para às 9 da noite: que escuridão lá fora: mas maior noite é a escuridão que sinto na minha alma. Meu Paizinho, meu Paizinho, como hei-de viver assim? O meu peito parece que se abre com a aflição que sinto dentro. Se eu digo amo-Vos meu Jesus, Jesus eu Vos amo, parece que a minha prece se abafa, se enterra debaixo de peso que me sobrecarrega.
Os desejos de consolar a Jesus, as ânsias de O amar continuam e muito fortemente. Eu digo: ó meu Jesus, eu queria amar-Vos com o amor de todo o Céu e de todas as almas; assim parece que não caibo em mim, não me satisfaz. Ainda que eu possuísse todo esse amor, não me bastavam para os desejos que tenho de amar Jesus. Paizinho, será falta minha? Desgostarei o meu Jesus! Quem O ama como a Mãezinha querida, e toda a corte celeste? E a mim não me bastava este amor? Meu Deus, meu Deus, como pode ser isto, eu quero amor, amor, amor. Não sou capaz de exprimir melhor os desejos que tenho de amor. Tenha a caridade de me dizer se é falta minha. Mas ai, como eu queria gritar alto, bem alto a pedir amor. Ai, como eu tenho saudades do Céu. Passo momentos com tantas saudades que me parece não poder viver mais assim. Quando chegará o Céu? Quando acabarão as minhas dúvidas? Por um lado meu Paizinho a infundir-me coragem: por outro lado o meu Jesus e eu sempre caída, cheiinha de medo de enganar. Meu Deus, meu Deus, mas eu não tento enganar ninguém. Como posso eu dizer e fazer tanta coisa por mim? Ai meu Paizinho, como é estreitinho o caminho do Céu.
Agora pertinho da noite, veio cá o Senhor Abade ler-me uma carta que lhe escreveu o Senhor Cónego Vilar em que dizia que o Senhor Arcebispo queria que ele voltasse aqui na próxima sexta-feira. Dizia-lhe também que avisasse a doentinha que não achava nisso inconveniente nenhum. O Senhor Arcebispo vai para uma reunião de padres para a Póvoa e que o vinha trazer de automóvel a casa do Senhor Abade e buscá-lo. Mais um sacrifício que tenho de fazer. Só por amor de Jesus e das almas eu sofro isto. Pobre de mim, não roubei nada a ninguém, mas ando a ser interrogada. Se ao menos valer a pena o meu sofrimento! Que Nosso Senhor mo aceite, só Ele sabe quanto me custa. O Senhor Abade disse-me que na sexta-feira quando eu estivesse só com o Senhor Dr. Vilar que lhe pedisse para ver se ele arranjava licença para eu ter o Santíssimo Sacramento em casa. Eu não quero desobedecer ao Senhor Abade, mas não tenho licença do meu Paizinho para o fazer. Peço, por caridade, se não achar bem que eu lhe diga, para me avisar por telegrama que não o faça. E eu então nada digo. Posso estar sossegada? Avisa-me se não achar bem? O demónio diz-me que eu queria grandezas, mas eles tanto hão-de andar que hão-de descobrir que é mentira. Chama-me nomes feios e faz muita festa para me arreliar e parece que me quer atirar pelos ares. Como já é um pouco tarde vão só umas palavrinhas do que Nosso Senhor me disse hoje.
Digo ao meu Paizinho se o não amásseis como o amais, não lhe entregavas a minha alma, não me confiavas a ele? Entregaste-lhe o penhor mais querido, o objecto de todas as Vossas atenções? Portanto, paz, amor e confiança?
Adeus meu Paizinho. Ainda falta tanto tempo para vir cá! Nosso Senhor me dê forças até lá. Não se esqueça de mim na sexta-feira. Já que não pode assistir-me aqui, ao menos acompanhe com orações. Tenho tanto medo de estar sozinha! Quando acabarão estes exames? Parece que fico sempre com raposa, nunca chego a ficar bem.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.
Fará o favor de me recomendar aos Senhores Padres.

A bênção e perdão para a pobre Alexandrina.

18 de fevereiro de 2015

ANDA, MEU ENCANTO, OUVIR UMAS PALAVRINHAS DO TEU JESUS

Balasar, 20 de Janeiro de 1939

Viva Jesus!

Meu Paizinho,

Há pouco mais duma hora que acabou a paixão: que foi bem dolorosa. Estive a descansar e agora com muito custo vou-lhe dizer umas palavrinhas.


Antes de principiar, chamou-me Nosso Senhor:
— Anda, meu encanto, ouvir umas palavrinhas do teu Jesus. De novo te venho pedir uma esmolinha como o pobrezinho à porta do benfeitor. Não pede ele vezes sem conta?
— Ó meu Jesus eu aceito tudo, sofro tudo pelo Vosso divino Amor e para fins que tendes em vista: contanto que me deis força.
— Dou, estou contigo, acompanho-te sempre com o teu Cireneu.
O meu Jesus cumpriu a promessa. Acompanhou-me. No caminho do Calvário, quando eu sentia que estava tonta, tonta a desfalecer, disse-me Jesus:
— Vem agora o teu Cireneu para te dar força e coragem.
Sinto então que os auxílios do meu Paizinho me ajudavam a caminhar.
Já estou com tremendas dúvidas. Principiaram quase logo. Ai, meu Jesus: Ó meu Paizinho, custa tanto, tanto, parecer que sou eu quem faço tudo. Faça-se em tudo a vontade do meu Jesus. Não sei o que sinto, certamente é o demónio que não quer que eu dite esta carta. É uma força que parece que me arrasta para trás. Mas se é ele, não venceu.
Agora vai o que Nosso Senhor me disse no fim da paixão.
Queríeis mais almas para as crucificar como este amor, como esta louquinha e não as tendes? Querem amor, mas não querem sofrimentos? Querem-se assemelhar a Vós, mas não querem ser crucificadas? O mundo está preso num fiinho tão quebradiço? Dum instante para o outro ou o Santo Padre se move a consagrá-lo ou o castigo vem ao mundo? A vossa Imaculada Mãe tem o remédio para tudo? Mas até lá crucificais a Vossa louquinha? A consagração do mundo tem tantas vantagens? Faz que desça o perdão e a paz do Céu à terra? Faz que vão a Vós os corações, e afervora as almas no amor à Vossa Mãe Santíssima? Vós quereis que Ela seja amada? Ela está entre o pecador e a mão da Justiça Divina? É a salvação da humanidade? Que remédio tão salutar! Depressa, depressa a aplicá-lo! Ai, que maldade vai pelo mundo? Sofrestes tanto? É assim que sois recompensado? Pobre Jesus! Quero amar-Vos e reparar esses crimes. Aqui me tendes pronta para tudo Jesus. Se mil corpos tivesse, mil Vos dava par serem crucificados. Eu agradeço-te, meu encanto, e aceito-te os teus desejos. Não tendes que agradecer-me, meu Jesus, estes desejos são Vossos: Vós mos destes, eu vo-los entrego.
Agora mando isto para o meu Paizinho. Fará ele como bem entender?
Será bom mandar esta notícia ao Santo Padre? Digo, tudo, tudo ao meu Paizinho. Digo-lhe que o amais muito, muito, muito? Que estais sempre contente com o que ele faz. Sim Jesus. muito obrigada: Eu Vos agradeço por ele.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e Çãozinha.

A bênção e perdão para a pobre, a mais pobre de todas as criaturas. Alexandrina.

17 de fevereiro de 2015

NÃO MEREÇO SER FALADA

Balasar, 7 de Janeiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,

Já ontem era para lhe ditar umas palavrinhas, porque sentia necessidade de o fazer. Mas custava-me tanto a falar, estava tão mal disposta! Mas não esperei por melhor dia. Ai, meu Paizinho, quanto esta pobrezinha sofre. Eu queria esconder-me por completo e não queria que o meu nome fosse falado nem enquanto viva, nem depois de morta. Queria que se procedesse como se eu não tivesse vindo ao mundo. Claro está, não sou eu que quero, é a tribulação que me consome.


Não mereço ser falada, sou digna de desprezo. Vivo numa tristeza e noite contínuas. Trevas, trevas, ó que trevas. Vejo isto a grande distância. É escuro, é medonho, o caminho que tenho que seguir. Nem ao menos uma pequena luz para me guiar. Por vezes parece que rebento com o peso que vem sobre mim. Oh! como me faz sofrer!

Faz-me sofrer também, não caibo em mim, parece que me faz rebentar, as ânsias do meu Jesus. Ai, meu Paizinho, como eu queria amar o meu Jesus. Ele é digno de todo o amor.

Eu sofro, e sofro tanto, por me parecer que O não amo e que não tenho que Lhe oferecer. Ai meu Jesus que há-de ser de mim. Como eu me vejo longe de Vós. Meu Paizinho, neste mesmo instante me brada Jesus:
— Coragem, coragem, para o sacrifício. Não negues nada ao teu Jesus.
Momentos antes de principiar esta carta chamava-me Ele:
— Alexandrina, meu querido amor, já que não chamas por Mim, chamo Eu por ti. Dás-me todos os sacrifícios que te peço?

— Tudo, tudo, meu Jesus: o que eu quero é ter que Vos dar!

— É esta vida triste e dolorosa, mas Eu quero que vivas assim. Se soubesses em que fim aplico os teus sofrimentos! O proveito que tiro! Mas confia que te dou força e te darei sempre que precises, o teu Paizinho para te confortar e te guiar.

Eu lembro-me sempre do meu Jesus, mas confesso a minha falta, não chamo por Ele com o fim de Ele me falar. Desgostarei o meu Jesus? Ficará triste com o meu proceder? Por caridade, diga-me alguma coisa. Eu não quero desgostá-Lo. O sofrimento da minha alma, o meu desânimo, é que me obriga a fazer assim.

Hoje não lhe mando dizer mais nada do que o meu Jesus me tem dito.

Tem-me falado todos os dias. E nesses momentos sinto muita paz e não tenho dúvidas nenhumas. Mas sempre debaixo duma enorme tristeza.

O demónio diz-me:

— Juro-te, juro-te que és tu que fazes tudo. Andas a enganar aquele impostor, aquele f. etc... Não o enganas, sabe muito bem a malícia que tens, os crimes que praticas. Mas convém-lhe assim.

Ai, meu Paizinho, como as dúvidas me afligem. Como eu tenho medo de enganar e eu não queria enganar ninguém.

Amanhã é sexta-feira, já sinto medo. Por caridade, não me esqueça junto do meu Jesus.

Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.

E para esta pobrezinha, a bênção e perdão, Alexandrina.


P. S. Peço o favor de me recomendar muito aos Senhores Padres que aqui têm vindo.

16 de fevereiro de 2015

EU SEREI A TUA FORÇA

Balasar, 6 de Janeiro de 1939

Viva Jesus!

Meu Paizinho,

Vou ver se consigo ditar algumas palavras depois da minha paixão. Hoje foi muito dolorosa. Por várias vezes Nosso Senhor me disse que era a minha força porque, eu, me sentia desfalecida.

Antes de principiar a paixão, Nosso senhor disse-me:


— Tens coragem, meu encanto? Eu serei a tua força, o teu Cireneu ajudar-te-á de longe como se estivesse perto. Faz, meu amor, o que o teu Jesus agora não pode fazer, mas é o que os pecadores renovam com os seus pecados.

A minha alma está muito atribulada. Tenho tantos momentos que me parece não poder mais: tremendas dúvidas me afligem. Eu tenho nojo de mim. Sinto-me abandonada de todos, mas conheço bem que todos me deviam deixar e fugir espavoridos de mim.

Anseio por o dia que o meu Paizinho me possa dar um pouco de conforto.

O que será de mim daqui até lá! Nosso Senhor continua a enviar-me miminhos. São para Lhe tornar a oferecer, mas custam-me tanto!

Ontem tive aqui o Senhor Cónego Vilar, vinha do mando da Santa Sé.

O meu Paizinho já sabe? Mesmo sem ele me dizer nada, pensei e não me enganei, ao que ele vinha. Falou muito bem. Gostei muito dele. Parecia-me um santinho. Não deixou, com tudo isto, de me custar imenso. Fez-me várias perguntas que a tudo respondi, como sabia. Como ele não trazia cartão nenhum do meu Paizinho, já tinha dúvidas se procederia mal. Se fiz mal, peço desde já que me perdoe. Bem sabe que em nada lhe quero desobedecer. Se fosse outro Senhor Padre qualquer, que não viesse mandado como ele veio, claro está, que lhe não dizia nada.

Ele disse-me que talvez cá voltasse e hoje, o nosso senhor Abade, quando me veio trazer Nosso Senhor, disse-me que o Senhor Cónego Vilar talvez cá viesse na próxima sexta-feira, se pudesse. Ainda bem que o meu Paizinho está aqui na freguesia.

Não lhe mando nada do que Nosso Senhor me tem dito. Quando o meu Paizinho vier, cá encontrará tudo.

Só na passada terça-feira é que me não falou. Tenho-me sentido abatida, que faria se Nosso Senhor me não falasse, como me tem falado. Ele conhece tudo, sabe tudo, e se me não deitasse a mão, estava sempre caída. Pobre Jesus que é por mim tão mal servido! Preocupa-me tanto isto!

Lembranças aos Senhores Padres que aqui vierem.

Por Caridade, peça muito, muito por mim. Lembranças da minha mãe, da Deolinda e da Çãozinha.


Abençoe, por caridade, a pobre Alexandrina.

15 de fevereiro de 2015

PELO VOSSO AMOR

Balasar, 2 de Janeiro de 1939


Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Como, já desde o ano passado que não tem notícias minhas, resolvi hoje ditar-lhe umas palavrinhas.
Agradeço muito a boa cartinha que também, no ano passado recebi. Foi mesmo na sexta-feira que ela me chegou às mãos, e bem que eu precisava dumas palavrinhas de conforto. Mas Nosso Senhor tira-me tudo, não me deixa saborear nada.
Na sexta-feira passada não teve paixão. Não sei o que é: recordo este dia com saudades de não ter tido. Logo de manhãzinha eu tinha a minha alma triste como uma noite escura. Estava tão tímida! Que revolta, que tempestade, eu sentia nela. Comunguei e parecia-me que Nosso Senhor deitava as mãos ao meu coração para mo arrancar. Figurava-se-me que Ele encostava a cabeça e as mãos junto ao meu coração e O ouvia soluçar. Durante o dia tive várias coisas que também me fizeram sofrer. A Deolinda as dirá.
Agora o demónio é que me consome. Diz-me que eu faço a paixão quando eu quero. Que sou eu, que sou eu quem a faço. Aos médicos não enganas: diz-me ele. Não te creditam. Mas aqueles f. etc... e mais alguém bastam para espalhar. E nestes momentos, quando me diz estas coisas, que raiva ele tem contra mim. Uiva, parece que lhe oiço ranger os dentes, e figura-se me que me dá pontapés e escarra na cara. Eu, quando me parece que sinto os escarros, digo só com o pensamento: também a Nosso Senhor o escarraram. Então é que ele fica furioso. Diz-me tantas coisas feias de mim e do meu Paizinho! Que combate ainda hoje tive. Chamei pelo meu Jesus, pela Mãezinha do Céu e por muitos santos e santas para me ajudarem a vencer tão grande combate sem desgostar ao meu Jesus. Diz-me, também, que eu tremo porque quero. Foi por eu não tremer diante do Senhor Abade e do Senhor Cónego ao eles pronunciarem palavras das que costumam fazer-me tremer. Diz-me não tremeste, porque eles não te agradaram.
A bênção e perdão para a pobre Alexandrina

Adição da Deolinda

(O que disse Nosso Senhor à Alexandrina no sábado depois da Comunhão).


Anda para mim que sou o teu Jesus? Ou para o bercinho que são os Vossos Braços, o travesseiro, o Vosso Divino Coração? Que riqueza? Quem me embala são os anjos? A Vossa Louquinha, a Vossa esposazinha preocupa-se muito, coitadinha com as dúvidas? Mas olha: Disse-te que não tinhas paixão e não tiveste? Se sou eu, porque a não fiz? Confia, minha beleza, que é só, só obra divina? Não me assusto? Deixa que se saiba? Não foi por mim? Bem sabeis que quero viver escondido? Isso basta para que diante de Vós eu viva como que ninguém me veja? Isto não podia ser só para mim? Sofria, reparava, mas não fazia bem às almas? Sois Pai compassivo? Chamai-los assim? Uns vendo outros constando quanto sofrestes pelas suas almas? Consolo-Vos muito com a minha obediência em não consentir que venha ninguém sem licença de meu Paizinho? Vós ajudais da Vossa parte? Se preciso for fazeis que se não dê? É preciso mostrar que é obra divina? Que não fazem todos como querem? Mas quem tem poder sobre mim? Que tudo pode? Eu a tudo obedeço de boa vontade, meu Jesus. O que eu quero é saber que é da Vossa Vontade meu Jesus, que é do Vosso agrado. Na obra divina nem todos mandam como nas coisas do mundo? O que tem maior poder sobre mim é aquele a quem me confiaste, a quem entregaste a minha alma? Para isso também tem que sofrer? Não me engano eu, ele que sofra? Jesus, quereis que muita gente veja? Só aqueles a quem o meu Paizinho der licença? Mas hão-de ser muitos a quem ele a vai dar? Eu estou sempre contente? Ofereço pelo vosso amor? Sim, sim meu Jesus. Eu por Vós, pela Vossa Causa sofro tudo.

ESTUDE-ME, ESTUDE-ME !

As dúvidas da Alexandrina

As cartas da Beata Alexandrina ao seu Director espiritual, o Padre Mariano Pinho, sj, são uma fonte de ensinamentos espirituais e também, por vezes históricos, se bem que elas não tenham sida escritas com esse fim.



O ano 1939 – ano em que ela mais vezes escreveu ao seu “Paizinho” espiritual – é muito importante em ensinamentos espirituais, mas também históricos: foi o ano em que – oficialmente – começou a segunda guerra mundial.

A natureza de certas revelações recebidas de Jesus pela “Doentinha de Balasar”, são de índole a perturbá-la e mesmo a fazê-la duvidar dela mesma: Terá ela bem interpretado as palavras divinas? Terá compreendido bem o que Jesus lhe disse?

Daí as perguntas angustiadas, como esta, ao seu “Paizinho” espiritual:

“O meu Paizinho conhece bem quem eu sou?” ou ainda: “Afigura-se-me que tenho uma responsabilidade tão grande por andar tudo enganado comigo”.

Ela tem medo de enganar e este medo vai durar muito tempo e por muito tempo ainda ela vai fazer perguntas, cada vez mais angustiadas, ao seu Director espiritual. Várias vezes ela lhe pedirá, com a maior sinceridade de a estudar, de saber se tudo o que nela se passa vem de Deus ou dela. Um desses “gritos” e talvez o mais pungente, ela escreve-o em 8 de Abril desse ano 1939:

– Ai meu Jesus, que horror tenho de mim mesma. Que vergonha meu Paizinho, que vergonha da minha maldade, da minha miséria. Se o mundo pudesse ver o que sou no meu íntimo. Eu não queria que ninguém se escandalizasse comigo mas se eu pudesse conseguir mostrar o que sou para ninguém se enganar comigo. Meu Paizinho, por amor de Jesus e Maria, estude-me estude-me.

No dia seguinte ela volta a escrever ao Director: o seu estado espiritual não melhora: continua com os mesmos “sintomas”. Ouçamo-la:

“Numa tristeza profunda fui passando o dia com o tormento das dúvidas, ora duma coisa, ora doutra”.

Mas Jesus que nunca abandona as almas que Ele escolhe para grandes causas, veio animá-la, incutir-lhe coragem, mas prevenindo-a que ira continuar naquele mesmo sofrimento. Então, a Alexandrina, como sempre, entrega-se ao bom querer divino:


– Eu aceito tudo Jesus, mas dai-me coragem, dai-me força, dai-me confiança. Dai-me amor para morrer de amor.

DURO TEXTO, POUCO CONHECIDO

PROFECIA ?…

Texto longo, a ler com a devida atenção, e o pensamento que a Misericórdia divina é infinita. É útil dizer que o mesmo texto não podia ser para os tempos da Beata Alexandrina – mesmo se a segunda guerra mundial começara no dia 1 do mesmo mês de Setembro –, visto que a par ela, sua irmã e o Padre Mariano Pinho, ninguém mais tinha conhecimento dos escritos dela. A pequena frase “então principiará um mundo novo”, prova o que acabo de dizer acima.



Nosso Senhor dizia-me:

— A minha divina Voz irada é o canhão que aterra as vítimas. Os males do mundo, os horrores, o castigo do pecado, é a minha vingança é a minha divina Justiça desarmada sobre a terra. Mas não temas, não é contigo, és inocente. Olha, quando a dor e a amargura vem pungir o coração humano procuram desabafar com aqueles a quem mais amam mesmo que não sejam culpados. O mesmo me acontece a Mim: sou o teu Jesus, venho desabafar contigo. Olha, escreve já ao teu Paizinho, quero que ele pregue mas que diga que sabe a certeza que foi Jesus quem o disse como se ele o tivesse ouvido dos meus divinos Lábios. Se não se fizer penitência, se não houver renovação no mundo, corações contritos e arrependidos, corações puros a principiar pelos meus discípulos de quem tudo esperava e são os que mais mal me servem, que vai ser tão grande o castigo, guerra, peste e fome que hão-de chegar os cristãos a comerem-se uns aos outros. Não pouparei aldeias, vilas nem cidades: todo o mundo será vítima do meu castigo. Tremenda vingança, que horas de angústia o esperam. Será quase como no tempo de Noé, e então principiará um mundo novo. Mas se fizer penitência e todo o mundo se renovar e se cumprir os meus divinos Desejos virá a paz. Não te assustes, não te aflijas. Condói-te da dor e amargura do meu divino Coração. Tem confiança: digo as coisas mais íntimas à minha crucificada mais predilecta.

Dada a importância do “aviso”, Alexandrina parece – não duvidar – mas ter um certo receio, por isso se interroga e interroga o seu Director espiritual, o Padre Mariano Pinho.


Peço e volto a pedir luz ao divino Espírito Santo para mim e para o meu Paizinho. Meu Deus, minha querida Mãezinha, eu não me quero enganar nem enganar ninguém. Permita-me, meu Paizinho, este desabafo; será verdade isto que eu digo? Não será ilusão minha? Ai, meu Jesus, meu Jesus, que medo eu tenho. Eu não Vos quero desgostar, compadecei-Vos de mim: bem vedes quanto isto faz sofrer. (Carta ao Padre Mariano Pinho, sj, de 6 de Setembro de 1939)