21 de abril de 2015

JESUS, AGORA NÃO QUERIA DEIXAR-VOS

24 de Abril de 1953 – Sexta-feira


Sinto-me ora de joelhos implorando, ora correndo, louca pela humanidade, de mãos postas, no mesmo brado a implorar sempre, a querer não sei quê, mas sinto que quem implora não sou eu, e este querer meu não é também; parece-me que é o querer de Jesus, que é Ele que me leva, que me dá impulsos fortíssimos, até impulsos infinitos de pedir a todas as almas para virem ao Seu divino Coração. Jesus quer, e a Sua ansiedade divina não me deixa sossegar. Ai de mim! Jesus quer, e eu também quero dar-Lhe as almas, dar-Lhe o mundo inteiro. Mas não passo além dos desejos, além desta ansiedade. Que tormento, que angústia para a minha alma. Não sou nada e nada dou. Sofro tanto, tanto, e a inutilidade tudo me rouba. Jesus e as almas nada recebem de mim. Sinto a fadiga, o cansaço, como se pudesse correr o mundo inteiro a cada momento. Tudo isto à conquista das almas. Parece que nada adianta este meu tormento. É tal a minha pobreza, que empobreço a todos, rouba-me a mim mesma. Não digo o que se passa em mim, porque não sei. É indizível tal ignorância, são indizíveis tais sofrimentos. Queria abraçar o mundo, trazer num molho todas as almas para Jesus e ao mesmo tempo quero fugir delas; queria esconder-me num ermo, num lugar solitário onde não pudesse ser vista nem falar a ninguém. Ai o meu calvário, ai o meu calvário! Que pavor ver-me assim visitada! Jesus me perdoe o grande número das minhas faltas. Nem sempre tenho paciência nem caridade. A vontade está pronta para abraçar a cruz do Senhor, mas a natureza é tão fraca! Eu sem a dor não saberia viver, sou louca por ela. Ou sofrer, ou morrer, meu Jesus! Bem sabeis que não sei sofrer, mas que anseio toda a perfeição para Vos consolar. Não sei que sinto que não me deixa sossegar. Parece que tudo vem contra mim. Que revolta, meu Deus, que revolta, que humilhações que me esmagam. Será algum sofrimento de novo que vai surgir, ou é mais uma parcela da Vossa cruz? Seja feita a Vossa divina vontade. Jesus, sou a Vossa vítima.
Ontem a visão do Calvário levou-me ao Horto. Eu era uma bola a ser esmagada por um e outro. Ali agonizava e dava a vida. Ali tinha a vida da terra, de todo o pecado, de toda a podridão. E, como por um canal, estava ligada ao Céu e tinha a mesma vida do Pai. Passei a noite unida a Jesus nos sacrários, unida a Jesus na prisão. Sofri em silêncio com Ele. Segui hoje para o Calvário, triste, mais triste que a noite e a morte. Eu caminhei porque alguém caminhava em mim. Fui arrastada e barbaramente chicoteada, porque Jesus todos estes sofrimentos sofria. Ele, em tamanho natural, com a cruz aos ombros, cabia e caminhava dentro do meu peito. Como sangrava a Sua sacrossanta cabeça! Meu Deus, como caíam a meus pés as Suas carnes santíssimas retalhadas! E eu, em impulsos raivosos, cega e louca, esmagava-as aos pés sem dó nem piedade. Jesus ia expirando alagado em suores frios, ao terminar da montanha. Ai quanto sofreu Jesus com os meus pecados! Quanto Ele sofreu por nosso amor. Se eu pudesse e soubesse fazer compreender isto! No alto do Calvário continuo o meu sofrimento, a minha agonia indizível, acompanhada duma esmagadora humilhação. Acompanhavam-me numerosas pessoas que sem querer aumentavam o martírio do meu calvário. Se não fosse Jesus, se não fossem as almas, recusava-me a tudo. Sentia como se o meu coração estivesse preso por fortes argolas e cadeias a um mundo de rochedo. Estas argolas e cadeias não eram de ferro, mas sim de amor. Vinham do Coração divino de Jesus. Ele não podia desligar-se de nós. Que amor, que loucura de amor, que amor infinito! Ele expirou e eu com Ele. Prolongou-se por bastante tempo este silêncio mortal. Jesus demorou-se a dar-me novamente a vida. Quando me fez ressuscitar, falou-me assim:
— Ouvi a voz de Jesus sumida e quebrantada com o peso dos crimes da pobre humanidade! Jesus sofre através das suas vítimas. Jesus imola, noite e dia, a vítima deste calvário. É o amor, só o amor que leva Jesus a esta imolação. Quero salvar o mundo, quero salvar os filhos meus. Vê, minha filha, repara bem: um mar imenso de sangue que sai do meu divino Coração!...
— Ó Jesus, ó Jesus, parece que me afogo. Queria aparar o Vosso Sangue divino. Eu não queria que ele caísse e não o posso nem sei aparar. Que fazer, meu Jesus? Eu nada posso! Aceitai o meu pobre coração, pobrezinho como é. Vós tudo podeis. Nada Vos é impossível. Fazei que este mar de sangue possa ser encerrado todo dentro do meu. Se assim for, Jesus, e eu for calcada por toda a humanidade, é o meu coração que sofre e não é pisado o Vosso Sangue divino. Sofrer, Jesus, eu sempre, eu, mas que o Vosso Sangue divino esteja resguardado, Jesus, para não ser calcado por pés imundos, por pés criminosos, meu Amor.
— Desapareceu o Sangue, minha filha; foram os teus desejos, foram as tuas ânsias. Não é calcado o Sangue que o meu divino Coração derramou. Tudo em ti me consola. Toda a tua vida me desagrava. Sabes bem, minha filha, já te tenho dito, mostro-me sofredor para ser por ti consolado. Mostro-me sofredor para ser por ti reparado. Mostro-me sofredor para te levar mais e mais à compaixão por Mim. Sofre, sofre! Dá-me a tua dor. É Jesus, é o Mendigo do amor e da dor a pedir-te, a pedir-te sempre. Sofre, sofre, para aplacar a justiça do meu Pai. Ama-me, ama-me e faz que eu seja amado. Não duvides, minha filha, não duvides. A tua vida, toda a tua vida é a cópia mais fiel, mais exacta de Jesus crucificado. A tua missão é árdua, a mais árdua, mas a mais sublime. As almas, as almas custaram e custam dor e sangue. Os pecadores não querem converter-se. O mundo corre para um abismo de perdição. Eu, que tudo vi e vejo, lancei e lanço mãos à obra. Coragem, coragem! Continua a mesma obra de salvação. Que mar de crimes, que mar de crimes!... As ondas dos vícios tocam no Céu a desafiar a justiça do meu Pai. Coragem, escora firme, coragem, farol de luz luminosa. Coragem, florinha eucarística, coragem na tua missão. Fala de Mim às almas. Diz-lhes as minhas queixas. Fala de Mim ao mundo, diz-lhe que o quero salvar.
— Ó Jesus, Jesus, eu não sei dizer nada e nada sei sofrer. Queria ir para o Céu. Jesus, parece-me que não posso mais. Só a vontade está louca por mais e mais sofrer, mas a minha pobre natureza sente-se sucumbida. As humilhações esmagam-me. Só vejo em mim miséria e sou a causa de tantas misérias. Se Vós ao menos, meu Jesus, me repreendêsseis na Vossa sabedoria, esclarecêsseis as minhas faltas, não sentia tanto a humilhação.
— Confia, minha filha, tudo é por Mim, é para Mim. Jesus não mente, Jesus não mente. Não posso dizer aquilo que tu não fazes. As tuas faltas são próprias dos justos, dos meus eleitos. O teu céu está perto. Conservo-te neste calvário só por amor à humanidade. Anseias por Mim: Eu anseio por ti. O Céu está perto. Vem receber a gota do meu divino Sangue. Uniram-se os nossos corações e a gotinha do Sangue passou. Levou a vida necessária ao teu corpo e à tua alma. Nova vida para mais e mais sofreres, para mais e mais amares. Vai em paz! Fica na cruz! Dá a minha paz! Distribui o meu amor, distribui as minhas graças. Felizes, ditosos os que as recebem!
— Jesus, agora não queria deixar-Vos. Tenho mais força e tenho mais luz. Obedeço, mas antes disso lembro-Vos como sempre todos os que me são queridos, com as minhas primeiras intenções, todas as minhas intenções, com a humanidade inteira. Salvai a todos, meu Jesus! Perdoai a todos!
— Vai em paz! Vai em paz! Vai em paz e confia!

— Obrigada, Jesus, obrigada, Jesus. O meu eterno obrigada!

17 de abril de 2015

ÂNCIAS DE ME PURIFICAR

18 de Abril de 1947 - Sexta-feira


Tenho ânsias, tenho ânsias de me purificar, cada vez mais, e nada consigo! Que hei-de eu fazer, meu Jesus? Causa-me horror ver a minha miséria, porque é só o que eu vejo. Avanço, avanço, e, momento a momento, mais me enrolo, mais me mergulho na cegueira, que me aterra, na cegueira que nunca foi luz nem nunca a luz conheceu. Assusto-me, vejo, sinto que esta cegueira é morte e que nunca poderá ver. Neste temor, feito o Coração divino de Jesus, invoco o Seu Santo Nome, e, por vezes sinto-me como se fosse transportada às nuvens; deixo a terra, mas não chego ao Céu. Nesta viagem às alturas, respiro, sinto-me confortada, fortalecida com uns ares mais puros, com aquela vida que não é o Céu, mas também não é a terra; não é gozo, mas é força, não é a verdadeira vida, mas também não é morte. Baixo novamente à mesma cegueira, só à vista da minha miséria, mas então com mais coragem para abraçar a minha cruz, a pisar os espinhos que tão agudamente me ferem, ansiosa e como que enlouquecida para consolar Jesus, dar-lhe as almas, purificar-me de todos os meus defeitos, ser pura para só viver a vida de Jesus, ser pura e Nele me esconder para sempre, sofrer escondida Nele, amá-Lo sempre Nele escondida, fugir ao mundo, desaparecer dele, desaparecer por completo. Não consigo os meus desejos, não sou pura, nada sofro, nada faço de bom, tudo se apaga sem aparecer. Ai, meu Jesus, vinde em meu auxílio; estou sozinha sem ninguém, meu Jesus, sem ninguém. Foge-me o Céu, estou como se me fugissem todos os amigos da terra.
E o demónio a atormentar-me tão fortemente.
Tenho estado sobre o inferno, não sei o que me livrou de cair nele, nada vi que me segurasse, só me faltou mergulhar-me nos seus horrores, nas suas penas. Esta visão foi essa luta com o maldito. Tive mais três ataques. Nos dois primeiros, senti passar sobre mim as labaredas do inferno, ouvia uivos, ranger de dentes e um demónio muito feio de boca aberta com um grande pedaço da língua de fora, língua em brasa, e estendia ao longe grandes chamas; causava pavor. Já lá vão alguns dias e por vezes sinto no coração como se de novo voltasse a ver toda aquela cena. Convidava-me ao mal e fiquei com grande temor de ter pecado. Nem posso lembrar-me das suas malícias. Que horror! Como se ofende Nosso Senhor! Posso tão pouco invocar o nome de Jesus e da Mãezinha! Penso que é o maldito que não me deixa. Não posso sem me oferecer como vítima e é só para reparar que tais sofrimentos aceito. No último ataque, ele principiou, de longe, a preparar-me para o mal com coisas pequenas, mas cheias de maldades. Foi indo, foi indo, incendiou-se o fogo, envolveu-se a terra com o inferno; eu era o mundo, era o inferno. Ó meu Deus, que pavor! Voltei a repetir a Jesus: se hei-de ofender-Vos, prefiro o inferno; não quero pecar, não quero pecar, sou a Vossa vítima. Jesus, Mãezinha, ai, quanto me custa isto!
Ao cair da tarde de ontem, senti como se no meu coração estivesse gravado Jesus e a Mãezinha, numa tristeza e amargura tão profunda, que causava dó. Jesus beijou e aquele beijo foi de despedida; e deixou no Coração da Mãezinha raios de fogo; foram fios, foram prisões de amor que os deixaram para sempre unidos. Jesus foi para o Horto e ficou com a Mãezinha. A Mãezinha ficou e foi com Jesus. Eu no Horto senti como se em meu corpo nem uma só veia ficasse por abrir. Os Apóstolos dormiam; Judas aproximava-se. À voz de Jesus vieram sobressaltados. Judas deu o seu beijo traidor e todos caíram por terra; a terra foi o meu coração. Feriram-me as armas e os paus. Vi Jesus que em Suas Santíssimas mãos tomou. Ao ver isto, fugiu S. Pedro por entre a multidão; foi à frente de Jesus; não viu os maus-tratos que Lhe deram. Mas via a Mãezinha; velava ao longe. Eu sentia que o Seu Santíssimo Coração adivinhava tudo. Quanto Ela sofria e quanto sofria eu também com os sofrimentos de Jesus e os dela! Na manhã de hoje, caminhei oprimida pela violência da dor; ia como que encerrada num mundo do sofrimentos. Caminhei sem luz, mas cheguei ao Calvário e lá com mais sensibilidade fui cravada na cruz; e então em todo o meu corpo estava Jesus; eu era apenas uma casca frágil que O encobria. Sentia todas as Suas chagas e feridas, os espinhos da Sua Sacrossanta Cabeça, o palpitar do Coração, lágrimas e gotas de sangue, tudo em mim era Jesus. Quando estava a ser cravada na cruz, ainda senti o meu rosto a ser nojosamente escarrado. A frágil casca do meu corpo não impedia os sofrimentos e maus-tratos de Jesus. Fiquei no mesmo brado e agonia com Ele. Quando Jesus expirou, eu senti que o espírito divino voou de verdade ao Pai, e eu fiquei morta. Pouco depois Ele voltou e disse-me:
― Minha filha, o Jardineiro da tua alma está em teu coração; cuido, cultivo as flores que adornam a minha alma. Como são belas! A água que as rega é a água da pureza, água de graça e amor. Confia; o teu Jardineiro é Jesus; habito em teu coração; repara como eu cuido delas. Tu és a pastorinha de Jesus, a pastorinha das almas; apascenta-las no jardim formoso da tua alma. Vi então Jesus feito Jardineiro, no seio de belas flores, de regador na mão a regá-las cuidadosamente; via cair a água com abundância.
― Cuidai, cuidai, meu Jesus, cuidai delas e cuidai de mim; eu sou miséria e nada posso sem vós. Permiti que com a Vossa graça, no jardim do Vosso divino amor, eu posso mergulhar em almas; sustentai-as com o que é Vosso.
― Coragem, coragem, Minha filha; sem dor não há vítima, sem dor não há amor, sem dor não há vida. Tu és a vida de Jesus, és a vida das almas. Se todas as vítimas sofrem, como não hás-de sofrer tu, Minha filha, que és a maior vítima da humanidade. Dá-Me dor, acode ao mundo, vem sobre ele a justiça de Meu Pai e vem depressa. Não há justos na terra, não há almas que Me amem, a ponto de repararem todas e tão graves ofensas. Pobre mundo, vai ser carbonizado; ficará mirrado com o fogo da justiça divina.
Levantei as mãos, cheia de terror, e disse:
― Perdoai, meu Jesus, perdoai, perdoai já, perdoai sempre! Como hei-de acudir ao mundo? Bem me parecem a mim que de nada valem os meus sofrimentos.
― Coragem, Minha filha, coragem, amada Minha; sofre com alegria. A tua imolação continua se o mundo não quiser que seja de remédio para os seus corpos é-o sempre para as suas almas. Pede-lhe, pede-lhe que se converta, que venha a Mim. Dás-me mais lutas, mais ataques com o demónio?
― Dou, meu Jesus, mas sabeis bem que é o que mais me custa. Que medo de Vos ofender!
― É por te custar que, Minha filha, que mais reparação Me dás. Não temas, confia em Mim; não deixo que Me ofendas. Os dois primeiros combates que te pedi foram pelos esposos pais de família. Com que gravidade Me ofendem; o último foi por toda a humanidade. Foi por isso que te envolveste com o inferno. O mundo! o pecado! Vítima a lutar com o inferno. Eras tu, Minha pomba amada, a livrares de lá as almas. Coragem! Vem receber vida para combateres. Recebe uma gota do Meu Divino Sangue; é a tua vida, é a força do teu sofrer.
Jesus com o Seu Divino Coração a arder em labaredas uniu-O ao meu, deixou cair a gota do Seu Sangue divino. O fogo ateou-se; o meu principiou a dilatar-se. Jesus passou logo as Suas Santíssimas mãos sobre o meu peito, acariciou-me e disse:
― Toma, Minha filha, a tua cruz; vai convidar as almas a virem a Mim, vai levar-lhes esta vida. E como prova do valor dos teus sofrimentos e de que és a salvação delas, a cada acto de amor, a cada vez que Me disseres: Jesus, eu amo-Vos, serei amado por mais uma alma. E sempre que abraçada ao crucifixo disseres: Jesus, sou a Vossa vítima mais um pecador será salvo, esquecerei as suas ofensas. Prometo-te, confia, sou O teu Jesus. Diz-Me isto muitas vezes. Vai com coragem! No Céu continuas a mesma missão; ele está perto. Vai com alegria; vai, filha do amor, vai, louquinha do amor, vai chamar a Mim as almas.

― Obrigada, meu Jesus; obrigada, meu Amor, eu vou; vinde Vós comigo. Ao o Céu, meu Jesus, que nunca chega. Faça-se a Vossa vontade divina. Sou a Vossa vítima, vítima até dos meus desejos. Farei, Jesus, que eu morra para mim e para todos, viva só para Voa e para as almas.

11 de abril de 2015

DOMINGO DA MISERICÓRDIA

PONTOS DE REFLEXÃO

Livro dos Actos dos Apóstolos (4, 32-35)

O autor dos Actos dos Apóstolos – são Lucas – dá-nos aqui uma informação muito importante da maneira como viviam os primeiros cristãos: “a multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma”, porque eles tinham compreendido muito rapidamente que os preceitos de Jesus estavam assentes sobre o amor, porque Ele mesmo é amor. Mas ele vai ainda mais longe, quando acrescenta que “ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum”. Isto chama-se “caridade cristã” ou “solidariedade fraterna”.

Seria bom que nos dias de hoje, nós pensássemos mais nesta virtude, nesta “norma” que o Senhor veio trazer-nos e que nós esquecemos facilmente, porque muitas vezes isso nos “faz jeito”: a “caridade cristã” e que, sem muito alarde “distribuíssemos, então, a cada um conforme a necessidade que tivesse”. Isso teria como resultado visível e palpável que “entre eles não haveria ninguém necessitado”. Isto pode também chamar-se MISERICÓRDIA.

Primeira Carta de são João (5, 1-6)

O Apóstolo “que Jesus amava”, afirma-nos na sua carta que “todo o que crê que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus”. Quer ele dizer com isto que aqueles que não acreditam que “Jesus é o Cristo” se perderão, serão banidos para sempre? Claro que não, pois isso varreria, duma assentada, uma outra declaração do mesmo Apóstolo, quando afirma que “Deus é amor”.

Mas João, o visionário do amor, explica: “Todo o homem que ama o Pai – portanto Deus – ama também Aquele que d’Ele nasceu” –o Filho de Deus, Jesus Cristo, porque, explica o Apóstolo, somente se “nós amamos os filhos de Deus, amamos Deus e cumprimos os seus mandamentos” seremos verdadeiramente amados por Ele e pertenceremos à Sua família.

Saibamos ainda, como no-lo diz João, que os “mandamentos de Deus não são um fardo”, mas uma linha de conduta que nos conduz a Ele e n’Ele à salvação, porque “é Ele, Jesus Cristo, o vencedor do mundo; que veio pela água e pelo sangue; não só pela água, mas pela água e pelo sangue. E o Espírito é quem dá testemunho dele, porque o Espírito é a verdade”.

Portanto, amemos Deus e amemos o nosso próximo, como o Senhor no-lo pede. Se nós o fazemos, estaremos seguros da nossa salvação, que é a meta das nossas vidas de filhos de Deus.

Façamos inteiramente confiança à Misericórdia divina, porque o Senhor “é rico em Misericórdia”.

Evangelho segundo são João (20 19-31)

Depois da epístola, é ainda o Apóstolo João que nos fala para descrever um episódio bastante particular que aconteceu depois da ressurreição de Jesus: a primeira visita do Mestre aos seus amigos. João tem o cuidado de nos explicar em duas etapas o medo e a alegria destes, assim como a confissão de fé de Tomás.

De facto, num primeiro tempo ele diz-nos – ele lá estava também – que estavam fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas”, o que se pode compreender depois do que as mesmas autoridades tinham feito a Jesus.

Chegando ao meio deles, saudou-os: A paz esteja convosco!” o tom da sua voz não deixa qualquer dúvida aos discípulos. Mas para lhes provar que é bem Ele, Jesus mostra-lhes as suas chagas. Depois, num gesto que se adivinha solene, Ele diz-lhes: “Recebei o Espírito Santo”, antes de acrescentar o que será para sempre a instituição do Sacramento do perdão: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos”.

A quando desta primeira visita, o Apóstolo Tomás estava ausente. Logo que chegou foi-lhe dito que o Senhor os tinha visitado, mas ele não quiz acreditar, dizendo mesmo que só acreditaria quando visse as marcas dos cravos e chaga do lado de Jesus.

Uma semana depois, explica são João, estavam os discípulos outra vez dentro de casa e Tomé com eles. Estando as portas fechadas, Jesus veio, pôs-se no meio deles” e como da primeira vez, saudou-os: “A paz seja convosco!” Depois, voltando-se para Tomás, disse-lhe: “Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito”. Tomás ficou surpreendido, como se pode imaginar, mas deu-se conta da bondade do Senhor; ajoelhou-se e humildemente, do mais profundo do seu coração, exclamou estas extraordinárias palavras que são uma bela oração, mas sobretudo um profundo acto de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”

Depois, Jesus lhe dirá ainda: “Felizes os que crêem sem terem visto!”

É isto mesmo ter fé: acreditar em algo que nós não vemos, mas que estamos intimamente convencidos que existe e que é uma verdade infalível.

Neste Domingo da Misericórdia, clamemos do mais profundos dos nossos corações:

“Meu Senhor e meu Deus!” – e ainda: “Jesus, eu tenho confiança em Vós!”

Ámen.
Afonso Rocha

COMO EU QUERIA AMAR O MEU JESUS !

Balasar, 6 de Janeiro de 1939

Viva Jesus !


Meu Paizinho,
Já ontem era para lhe ditar umas palavrinhas, porque sentia necessidade de o fazer. Mas custava-me tanto a falar, estava tão mal disposta! Mas não esperei por melhor dia. Ai, meu Paizinho quanto esta pobrezinha sofre. Eu queria esconder-me por completo e não queria que o meu nome fosse falado nem enquanto viva, nem depois de morta. Queria que se procedesse como se eu não tivesse vindo ao mundo. Claro está não sou eu que quero, é a tribulação que me consome.
Não mereço ser falada, sou digna de desprezo. Vivo numa tristeza e noite contínuas. Trevas, trevas, ó que trevas. Vejo isto a grande distância. É escuro, é medonho, o caminho que tenho que seguir. Nem ao menos uma pequena luz para me guiar. Por vezes parece que rebento com o peso que vem sobre mim. Oh! como me faz sofrer!
Faz-me sofrer também, não caibo em mim, parece que me faz rebentar, as ânsias do meu Jesus. Ai, meu Paizinho, como eu queria amar o meu Jesus. Ele é digno de todo o amor.
Eu sofro, e sofro tanto, por me parecer que O não amo e que não tenho que Lhe oferecer. Ai meu Jesus que há-de ser de mim. Como eu me vejo longe de Vós. Meu Paizinho, neste mesmo instante me brada Jesus:  "Coragem, coragem, para o sacrifício. Não negues nada ao teu Jesus".
Momentos antes de principiar esta carta chamava-me Ele: "Alexandrina, meu querido amor, já que não chamas por Mim, chamo Eu por ti. Dás-me todos os sacrifícios que te peço!" Tudo, tudo, meu Jesus: O que eu quero é ter que Vos dar! "É esta vida triste e dolorosa, mas Eu quero que vivas assim. Se soubesses em que fim aplico os teus sofrimentos! O proveito que tiro! Mas confio que te dou força e te darei sempre que precises, o teu Paizinho para te confortar e te guiar."
Eu lembro-me sempre do meu Jesus, mas confesso a minha falta, não chamo por Ele com o fim de Ele me falar. Desgostarei o meu Jesus? Ficará triste com o meu proceder? Por caridade, diga-me alguma coisa. Eu não quero desgostá-Lo. O sofrimento da minha alma, o meu desânimo, é que me obriga a fazer assim.
Hoje não lhe mando dizer mais nada do que o meu Jesus me tem dito.
Tem-me falado todos os dias. E nesses momentos sinto muita paz e não tenho dúvidas nenhumas. Mas sempre debaixo duma enorme tristeza.
O demónio diz-me: juro-te, juro-te que és tu que fazes tudo.
Andas a enganar aquele impostor, aquele f. etc... Não o enganas, sabe muito bem a malícia que tens, os crimes que praticas. Mas convém-lhe assim. Ai, meu Paizinho, como as dúvidas me afligem. Como eu tenho medo de enganar e eu não queria enganar ninguém.
Amanhã é sexta-feira, já sinto medo. Por caridade, não me esqueça junto do meu Jesus.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Sãozinha.
E para esta pobrezinha, a bênção e perdão
Alexandrina.

P. S. Peço o favor de me recomendar muito aos Senhores Padres que aqui têm vindo.

9 de abril de 2015

EU SEREI A TUA FORÇA

Balasar, 6 de Janeiro de 1939

Viva Jesus


Vou ver se consigo ditar algumas palavras depois da minha paixão. Hoje foi muito dolorosa. Por várias vezes Nosso Senhor me disse que era a minha força porque, eu, me sentia desfalecida.
Antes de principiar a paixão, Nosso senhor disse-me: "Tens coragem, meu encanto? Eu serei a tua força, o teu Cireneu ajudar-te-á de longe como se estivesse perto. Faz, meu amor, o que o teu Jesus agora não pode fazer, mas é o que os pecadores renovam com os seus pecados."
A minha alma está muito atribulada. Tenho tantos momentos que me parece não poder mais: tremendas dúvidas me afligem. Eu tenho nojo de mim. Sinto-me abandonada de todos, mas conheço bem que todos me deviam deixar e fugir espavoridos de mim.
Anseio por o dia que o meu Paizinho me possa dar um pouco de conforto.
O que será de mim daqui até lá! Nosso Senhor continua a enviar-me miminhos. São para Lhe tornar a oferecer, mas custam-me tanto!
Ontem tive aqui o Senhor Cónego Vilar, vinha do mando da Santa Sé.
O meu Paizinho já sabe? Mesmo sem ele me dizer nada, pensei e não me enganei, ao que ele vinha. Falou muito bem. Gostei muito dele. Parecia-me um santinho. Não deixou, com tudo isto, de me custar imenso. Fez-me várias perguntas que a tudo respondi, como sabia. Como ele não trazia cartão nenhum do meu Paizinho, já tinha dúvidas se procederia mal. Se fiz mal, peço desde já que me perdoe. Bem sabe que em nada lhe quero desobedecer. Se fosse outro Senhor Padre qualquer, que não viesse mandado como ele veio, claro está, que lhe não dizia nada.
Ele disse-me que talvez cá voltasse e hoje, o nosso senhor Abade, quando me veio trazer Nosso Senhor, disse-me que o Senhor Cónego Vilar talvez cá viesse na próxima sexta-feira, se pudesse. Ainda bem que o meu Paizinho está aqui na freguesia.
Não lhe mando nada do que Nosso Senhor me tem dito. Quando o meu Paizinho vier, cá encontrará tudo.
Só na passada terça-feira é que me não falou. Tenho-me sentido abatida, que faria se Nosso Senhor me não falasse, como me tem falado. Ele conhece tudo, sabe tudo, e se me não deitasse a mão, estava sempre caída. Pobre Jesus que é por mim tão mal servido! Preocupa-me tanto isto!
Lembranças aos Senhores Padres que aqui vierem.
Por Caridade, peça muito, muito por mim. Lembranças da minha mãe, da Deolinda e da Sãozinha.
Abençoe, por caridade, a pobre

Alexandrina.

3 de abril de 2015

SEXTA-FEIRA SANTA COM A BEATA ALEXANDRINA

30 de Março de 1945 – Sexta-feira Santa


Envolta na mesma nuvem que ontem sobre mim desceu, principiei o dia de hoje, dia que só era noite e vida que só era morte. Faltavam-me as saudades por não receber o meu Jesus. Sofri mais nos dias passados com a lembrança de hoje não O receber do que hoje por não comungar. Sofria por sentir pouca pena. Indiferente a tudo, a minha alma sentiu, e o meu corpo também, que me levaram presa, e alguns por escárnio a ouvirem a opinião duma multidão de grande ralé e vil canalha que me condenavam à morte. Os meus ouvidos ouviam, a uma voz só, a palavra de “morra, condene-se”. Oh, que gritos os da multidão. Tomei a cruz, caí repetidas vezes; ia a cada passo a expirar. Caía e sobre mim ficava a cruz. Não por dó mas por receio, queriam alguém que a levasse. Houve quem caminhasse com ela, não por amor mas por ser mandado; mas mesmo assim quanto amor senti o meu coração dispensar-lhe. Que grande paga! O meu corpo ia entregue aos malfeitores, o meu espírito ia só em Deus. No calvário, o sangue corria por todas as feridas do meu corpo. Que horas tão agonizantes! Sentia na minha alma todos os suspiros que dava Jesus; todos os olhares, que Ele levantava ao céu, na minha alma foram gravados. Momentos antes de Jesus expirar, só de longe a longe dava um suspiro. E nesse intervalo de tempo estava como se não tivesse vida. E a minha alma a sentir tudo isto. Oh! como era lindo! Que lições tão belas nos dá Jesus. Tão maltratado e tão cheio de ternura e amor. Ainda o Seu santíssimo corpo a sofrer na terra e a Sua alma santíssima a voar ao céu; voava e deixava cair para a terra bênçãos e chuvas de amor. Veio o meu Jesus, fez-me por algum tempo esquecer a dor. Começou o meu coração a dilatar-se e a arder em chamas.
— Venho, minha filha, felicitar-te, saudar-te, louvar-te pelo teu aniversário, pela tua vida tão cheia de maravilhas, tão rica de virtudes, tão rica de amor. A tua vida é de rios de ouro e minas de pedras preciosas. Nunca o mundo viu nem voltará a ver; és a vida das almas. É com esta riqueza que elas são resgatadas, que elas dão salvas.
— Falai, falai, meu Jesus, são para Vós as felicitações, as saudações e os louvores. O que faço eu sem Vós, meu Jesus? O que sou eu sem Vós? Podeis dizer, podeis falar, a grandeza é Vossa, a miséria é minha.
— Louvo-te pela tua fidelidade e correspondência às minhas graças divinas. Louvo-te pela tua reparação. Quantas vítimas escolhi e recebi uma recusa. Quantas chamei e não me escutaram. A quantas convidei a uma alta elevação para mim e nada consegui. Em ti consolei-me, de ti tudo recebi. Tu és o instrumento das almas, és a conquistadora de Cristo. Toda a tua vida é uma vida de maravilhas. Se pudesses ver as almas que por ti foram salvas! E ultimamente, nestes três anos do teu jejum! Que grande meio para acudir aos pecadores. Mostro aqui o meu poder, as minhas ânsias e o meu amor para com eles. Nada te disse no aniversário do teu jejum, para tirar da tua amargura toda a doçura para mim e todo o proveito para as almas. E vou já assim preparando-te par a tua última fase. Martírio acompanhado com o jejum será o maior meio, o último meio de salvação. Não será só riqueza de rios de ouro e minas preciosas, mas será um mundo de ouro, um mundo das mesmas pedras. O martírio subirá ao auge e o amor atingirá toda a altura. O amor a Jesus, a dor pelas almas, reparação sem igual. Recebe agora, minha filha, o sangue do meu Divino Coração; é a vida que necessitas, é a vida que dás às almas.
Vi o Coração Divino de Jesus a arder em chamas, a transbordar de amor. Unido aos meus lábios, sentia o sangue correr e o meu coração por muito tempo a dilatar-se.
— Minha filha, o céu louva-me por te ter criado, louva-me pela honra que me dás e louvor que já da terra recebo. O céu louva-me e sempre me louvará. Da terra já recebo louvores e dentro em breve todo o mundo me dará louvor pela minha vítima, pela nova redentora. Prepara-te, filhinha, vou-me dar a ti. É um sinal que mesmo escondido sempre em ti habito. Repara, desce o céu sobre ti. Dou-me a ti numa comunhão real, numa comunhão eucarística.
Desceu sobre mim a abóbada do céu.
— Que lindo, que lindo! – exclamei eu. Vale a pena, meu Jesus, sofrer e sofrer tudo para possuir o céu.
Eram tantos, tantos os anjos que batiam as asas e prestavam homenagens a Jesus. Desta vez não cantavam. Adoravam e inclinavam-se em sinal de reverência na presença de Jesus. Ele disse as palavras Ecce Agnus Dei e depois as de Corpus Domini Jesu Christi.

Nota - No dia 11 de Abril, pergunta-me: “o que querem dizer estas palavras? E as outras: Corpus Domini Jesu Christi?” Notei também que normalmente ela não sabe estas frases e, referindo-se a elas, diz: “aquelas palavras que Jesus disse na comunhão”.

Parece-me bem que estendi a língua para receber Jesus. Ficamos por uns momentos num silêncio profundo, numa união tão grande. Depois Jesus chamou pela Mãezinha.
— Mãe Bendita, vem saudar e acariciar a nossa filhinha, a nossa vítima.
Ela veio, tomou-me para o Seu regaço, cobriu-me de mimos e entrelaçou os seus santíssimos braços nos de Jesus, e estreitavam-me os dois ao mesmo tempo.
— Minha filha, flor mimosa do meu Jesus, amo-te, amo-te com Ele. Recebe todo o nosso amor. Saúdo-te pelo louvor, honra e almas que nos dás. Sofre, sofre contente. É a mãe que pede para os seus filhos, é a mãe que pede para os irmãos teus.
Beijava-me dum lado Jesus e do outro a Mãezinha. Jesus acrescentou:
— Vai, filhinha, vai escrever tudo. Para tudo o que disseres, tudo o que fizeres, terás sempre a luz do Divino Espírito Santo; é Ele que fala em ti.
— Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha.

Fiquei logo duvidosa de tudo e mergulhada em tanta dor! De nada me valiam as pessoas queridas que me rodeavam. Vieram ainda espinhos tão agudos a ferirem-me. Por tudo bendisse ao Senhor e, como remate, rezei o Magnificat.

2 de abril de 2015

QUE NOITE, QUE SANTA NOITE !

A MAIOR DE TODAS AS NOITES !



Ao cair da tarde, senti-me então reunida com os amigos. Ó meu Deus, o que se passou, que quadros tão diferentes. Eu era Jesus e contra o meu coração sentia inclinar-se alguém e eu era esse alguém. Eu era a mesa, eu era o pão e o vinho; eu era o cálice onde ele era deitado; eu era as taças onde se serviam os alimentos; eu era Judas, era tudo. Eu era a doçura e mansidão de Jesus; era o desespero e traição de Judas. Que noite, que santa noite, a maior de todas as noites, a noite do maior milagre, do maior amor de Jesus. O Seu Divino Coração estava preso àqueles que Lhe eram tão queridos. Para poder partir, tinha de ficar entre eles, para subir ao céu, tinha de ficar na terra; assim o obrigava o Seu amor divino. Sinto necessidade de esclarecer todas estas cenas, mas não posso, não sei. O olhar esgazeado do mau discípulo ficou gravado em meu coração e todo aquele silêncio profundo de saudosas despedidas. A amargura da minha alma não podia subir mais alto. E, para afirmar mais esta amargura, vieram os sofrimentos da terra causados. Juntei a dor ao sacrifício e quantas vezes em espírito, com os olhos fitos no céu, ofereci ao trono divino o cálice da minha amargura. (Sentimentos da alma, 08-03-1945)

1 de abril de 2015

TESTEMUNHOS SOBRE A BEATA ALEXANDRINA

A GRANDEZA NA POBREZA !

Em 21 de Outubro de 1941, escrevia ao Sr. José G. Gomes, de Travassos (Póvoa de Lanhoso): «Diz-me na sua cartinha para eu lhe dizer daquilo que mais preciso. Agradeço-lhe e peço que o senhor acredite que não é por me desprezar de ser pobre e de pedir — pois estou contente por Jesus me assemelhar a Ele até na pobreza — mas não queria dizer-lhe de que preciso. Confio na Providência que não deixará de tocar nos corações generosos para me darem aquilo de que eu necessito. Não quero pedir nada para que não haja más interpretações sobre a causa de Nosso Senhor. Todos nós temos quem nos queira mal, e eu tenho muito medo do demónio. Coisas da terra, mal sei pedir e desejar a não ser quando à vista de olhos vejo serem úteis e indispensáveis. Os bens do Céu são o que nos convém: é o que levamos para a eternidade».

Padre Humberto Pasquale, Deolinda e a Alexandrina

A carta, repassada de prudência, documenta diversos factos: que a Alexandrina encontrou pessoas amigas compadecidas da sua grande pobreza; que, colocada perante a possibilidade de escolher entre dons de coisas terrenas «mal sabe pedir e desejar a não ser o que é útil e indispensável»; que, no referente a coisas terrenas, «se entrega completamente à Divina Providência», a qual não ignora aquilo de que necessitamos; que a sua vida é totalmente orientada para aqueles bens «que levamos para a eternidade».
Por isso, mesmo quando as pessoas amigas forneceram à doente tudo quantio lhes pareceu necessário, ela não faltou à virtude de pobreza. Aceitou-a e amou-a quando lhe faltava tudo, praticou-a com predilecção quando, por assim dizer, se viu rodeada de uma certa abastança.
A Sra. D. Maria Cândida Leite Reis Almeida afirmou o seguinte: «A Alexandrina amou a simplicidade e a pobreza. Por vezes oferecia-lhe peças de vestuário do seu uso diário, lençóis, colchas que ela aceitava por boa educação e gentileza, mas usava sempre o que fosse mais simples».
A Sra. D. Maria José Neves Correia e Silva, de Sertã, escreveu-nos: «Tudo era pobre à sua volta: a sua cama e o seu quarto modestíssimos, mas muito limpos, espelhavam a brancura da sua alma, e pouco a pouco este quartinho foi-se transformando em capela em que o altar era o leito de dor sobre o qual a vítima tão generosa se imolava, dia e noite, pelos pecados do mundo».
A fineza da sua alma nunca lhe permitiu equivocar-se quanto à natureza da pobreza e abandonar-se a excessos. Costumava dizer: «Pobre sim, mas suja não! Não envergonha um vestido remendado mas limpo!»
Ao segundo director espiritual dizia: «Gostava de tudo perfeito e asseado, mesmo quando doente. Tinha nojo do que estava sujo, e fazia limpezas, as mais custosas, porque alegrava-me de ver tudo limpinho».
«O asseio dela e do quarto era esmerado, mas na maior simplicidade — diz a Sra. D. Maria Teresa Vasconcelos, de Penafiel. — Usava certas roupas por respeito para com os benfeitores».
Ao perguntarmos à Deolinda se tinha notado na Alexandrina qualquer pontinha de vaidade, respondeu textualmente: «Vaidosa minha irmã? Não! Ela gostava de estar sempre limpinha e asseada, embora a roupa fosse velhinha e remendada. Dizia também que não sabia compreender que Nossa Senhora fosse desmazelada quando ouvia dizer que nem paninhos tinha para embrulhar o Menino Jesus, ou que Ele tivesse apenas um vestidinho. Costumava repetir “Pobre sim, mas limpinha!”»
O Rer. Pe. Adelino Pedrosa, de Esposende, escreveu esta linda afirmação: «Nunca lhe percebi a menor preocupação pelas temporalidades. Sempre desprendida, nas mãos de Deus. Estaria sempre no fundo de um calaboiço, abandonada de todos».
A Sra. D. Maria Sommer de Andrade, numa carta ao segundo director, escreve: «Também admirei, naquela casa, a autêntica pobreza em que viviam! E era tão fácil abrir a mão a rios de dinheiro que chovem ou querem chover, sempre, em casos deste género. As roupas que ajudámos a lavar, passajar e engomar, as louças e alimentação eram bem prova disso».
Rosa Ferreira da Silva, uma velhinha de 80 anos que conheceu bem a Serva de Deus, dizia-me com as lágrimas nos olhos: «Não era gananciosa a Alexandrina! Pessoas havia que lhe ofereciam dinheiro, e não foram poucas; pois ela, só aceitava perante a insistência dessas pessoas e usava-o para fazer bem».

A Deolinda confirma o testemunho dos estranhos, dizendo: «Nos últimos anos, já teve muita roupa para a sua cama, mas sempre usou amais velhinha. Às vezes eu queria pôr-lhe a nova, mas ela dizia: “Guarda-a, guarda-a para ti. Um dia ficarias sem nada” — Quantas vezes me lembro desta recomendação da minha irmã! Parecia prever o que se daria mais tarde, isto é, quando fui obrigada, por quem de direito, a guardar como relíquia toda a roupa usada por ela».
(Padre Humberto Pasquale: "Eis a Alexandrina")

EIS AQUI A ESCRAVA DO SENHOR

Vejo cada vez mais profundo o abismo da minha dor. Meu Deus, que universo sem fim de martírio! Perdi o meu Jesus. São estes os sentimentos da minha alma. Já não O vejo diante de mim de mão no Seu santíssimo rosto, como há dias O via e sentia. Agora apenas sinto a perda d’Ele e o Seu poder e a Sua justiça sobre mim. Perder a Deus, perder a Deus, oh! que desgraça, oh! que martírio! Sinto a perda de Jesus e de todas as criaturas; sou sozinha, sem ninguém, ninguém por mim. A luz, que sobre mim sentia, foi subindo no cimo da torre que em mim se levantou. A torre subiu, subiu, chegou ao céu. A luz, que era do céu, para dentro do céu entrou, deixando ficar seus raios luminosos sempre no cimo da torre. Esses raios fazem que eu lá do alto continue a ver a humanidade desgraçada, a humanidade perdida. Pobre do meu coração estala de dor continuamente. Ai o mundo que eu tanto queria salvar.
— Ó meu Jesus, dizei-me o que posso fazer em favor dele.



Não posso lembrar-me que Jesus vai deixar de me falar. Não posso resistir! Atormenta-me ter de escrever o que se passa na minha alma, atormentam-me os colóquios que tenho com o meu Jesus, com o receio de mim mesma, de entrar alguma coisa minha. Mas oh! o que será de mim, quando Jesus se esconder deveras! Ah! se me dessem a escolher, se eu tivesse o meu querer, escolheria, quereria a primeira parte: os colóquios e escrever tudo, até dia e noite sem parar, se fosse possível. Sofro por vir Jesus falar-me e sofro horrivelmente por ir deixar-me.
— E quando será, meu Jesus? Eis aqui a escrava do Senhor. Meu Deus, quando e como quiseres. Sede comigo.
Em horas de grande amargura, quando sofria com essa perda de Jesus, uma voz me segredava:
— Mas já não tens de escrever, já não recebes as visitas do teu Jesus.
— Ó meu Deus, parece que preferia todos os sofrimentos e não ser privada do meu Jesus, do meu Amor, que é tão meu. É necessário que eu sofra? Estou pronta, meu Jesus. Consolai-Vos, salvem-se as almas. Quando me será dado o meu paizinho? Já é tarde para consolação da minha alma. Que ele venha, meu Jesus, para a realização das Vossas divinas promessas, para honra e glória Vossa e Maior consolação.
Lá vou para a morte, ela vai-se avizinhando.
— Oh! quando chegará o meu grande dia, o maior dia da minha vida?
A minha alma sente que o meu nome é tão falado. Pobre de mim, que tanto tenho procurado viver escondida e nada consigo. Sinto que sou falada e por tantos com desdém e até com rancor. Sinto que os nomes de pessoas, que me são tão queridas, sofrem por minha causa, são até enxovalhadas.
— Meu Jesus, tudo por Vosso amor. Que eu seja calcada, extremamente desprezada, para serdes Vós glorificado, amado e louvado.
O dia de hoje foi dia de grandes saudades, de tristes aniversários para mim. Três anos sem me alimentar e sem a minha querida crucifixão. Chorei com saudades dela e com saudades da alimentação. Não pude conter as lágrimas. A minha alma estava em paz, contente com os destinos e miminhos de Jesus. Com o todo o amor estreitei tudo ao meu coração, mas a minha pobre natureza não pôde resistir a tanta dor; as lágrimas deslizaram-se pela face, as quais aumentaram ainda mais a minha dor, por me lembrar que o meu Jesus se entristeceu com elas.
— Meu Deus, meu Deus, meu Jesus, as minhas lágrimas não são de desespero, são de amor, são lágrimas de resignação. Conformo-me com a Vossa vontade divina. Posso com esta dor e saudades pensar e sentir mais ao vivo o que são as Vossas saudades, as ânsias e fome das almas, a dor que elas Vos causam com a sua perda. Quero, Jesus, e amo tudo quanto Vos aprouver enviar-me.
O demónio veio, nesta manhã, tão malicioso e raivoso! Dizia ele que nada satisfazia as minhas paixões; para as satisfazer, chamou por mais demónios, para pecarem comigo em diversos pontos. Ó meu Deus, que grande horror! Obrigava-me a eu dizer: não quero orar, não quero o céu, quero pecar, quero gozar. Gritei com toda a força da minha alma, no momento do grande perigo, da grande dor, a dizer a Jesus: pecar não, não quero pecar. Neste transe, veio o meu Jesus:
— Sossega, filhinha, coragem, não pecaste. A cadeia mais forte e que mais almas prende a Satanás é a carne, é a impureza. Só a cadeia do maior amor e da maior pureza pode quebrá-la e arrancá-las das suas garras. É por isso que de ti exijo esta grande imolação e sacrifício. Lancei as minhas mãos divinas ao teu amor, à tua pureza. Repara, repara, consola-me, salva-me as almas. Confia, confia, não pecaste, não te deixo pecar.
No remate de todo o sofrimento deste dia, rezei o Magnificat como sinal do meu grande agradecimento a todos os miminhos de Jesus.
(Sentimentos da alma, 27 de Março de 1945)