24 de abril de 2017

UM DIA, UMA MENSAGEM

OS ESPINHOS NÃO CESSAM DE FERIR-ME


Não chegou a minha aleluia. Não houve para mim a ressurreição de Jesus. Estou em agonia. Estou em grandes sofrimentos da alma. Todo o meu ser é um trapo que a dor desfez, produzido pela lepra do pecado. Os espinhos não cessam de ferir-me. São bem agudos e penetrantes.
Duas coisas tive de motivo de alegria, se Jesus mas deixasse sentir. Aprouve ao Senhor que nada me alegrasse; só com os olhos n’Ele me alegro no cumprimento da Sua divina vontade. Custa-me tanto, tanto, dizerem-me à minha frente que lhes foi dito que quem me visitasse ficaria excomungado.
— Jesus, Jesus, ai quanto custa! Seja tudo por Vosso amor e pela salvação das almas.
Causam-me pavor as visitas. Parece-me ter nojo delas. A todos ao mesmo tempo quero abraçar e possuir no meu coração; mas, meu Deus, essa excomunhão de que me acusam prejudicará essas almas?! Não estou aqui para ruína delas, mas sim por Vosso amor e por elas me imolar. Não posso dizer mais nada. Vou dizer as palavras do colóquio de Jesus. Mas, ah! Se eu pudesse ao menos colocar neste caderno o livro infindo do meu coração para ele dizer tudo, para falar do amor de Jesus, para dizer o que é dor e a minha loucura pelas almas! Se eu pudesse fazer desaparecer o pecado, para o meu Amado não ser ofendido, para nenhuma alma se perder. Que sabedoria tem este livro! Como ele conhece e compreende todas as coisas, e como eu sou ignorante para as saber dizer. Não há ignorância igual à minha.
Depois de eu ter desprezado e esquecido o horto, esqueci e desprezei o calvário. Caminhava na maior angústia, caminhava de tal forma que o chão se abria para me engolir e em corpo e alma ia precipitando-me no inferno.
Meu Deus, que pavor! Já nas garras de Satanás, atormentada por ele, ouvi alguém que fez abrir a terra que me tinha engolido, tirou-me da garra do demónio e das chamas infernais. A alma agonizava e o corpo estava cansado de tanto sofrer. Chamei por Jesus e pela Mãezinha. Uma coisa me dizia: perdi tudo. Não existem para mim, não tenho Jesus, não tenho a Mãezinha. Tive um desfalecimento mortal. No meio dele, principiei a repetir o meu “creio” sem acreditar. Ouvi a voz de Jesus que me chamou:
— Minha filha, minha querida filha, levanta-te! Coragem! Vem a Mim! Tu tens de viver sem vida, tens de viver sem luz, tens de acreditar sem sentimento de que acreditas. Amas-Me sem saberes que Me amas, sem teres esse sentimento. Os pecadores, as almas, o mundo, obrigam-Me a exigir de ti esta reparação. Coragem! Coragem! É para que as almas não caiam no inferno.
— O inferno, o inferno, ó Jesus, que tremendo é o inferno! Não posso pensar que as almas se perdem. Não posso consentir que as almas caiam no inferno, não posso saber que o Vosso Divino Sangue foi derramado inútil. Onde estais, Jesus, onde estais? Que escuridão, que montanha, que distância me separa! Eu amo-Vos, Jesus, eu amo-Vos na minha cruz, na minha dor! Aceito, aceito. Tudo por Vós!
Desta escuridão passei à luz; da agonia à suavidade. Jesus continuou, mas sem que eu O visse:
— Esta distância é a minha distância do pecador. A montanha são os crimes. A luz que vês é a minha luz; a suavidade o meu conforto. Tu és a minha vítima. Coragem e confiança! Tu fechaste com os teus sofrimentos as portas do inferno a milhares, a milhões, a milhões de almas. Nunca mais se abrirão para elas. O inferno abre-se para aquelas almas que desprezaram o meu Sangue, que calcaram o meu Sangue divino e desprezam ainda os meios que lhes dei, os sofrimentos, a imolação contínua da vítima deste calvário, da maior vítima que escolhi par a humanidade.
— Ó Jesus, que tormento o meu, que humilhação. Eu desapareço ao ouvir-Vos falar assim.
Voltei ao meu nada, ao nada de que me tirastes. Falo assim, digo a verdade.
— Posso falar, posso dizer tudo da minha esposa amada. Tem coragem!...”
Fui tão ao nada, fiquei no silêncio da morte. Algum tempo depois, a voz de Jesus deu-me a vida, mas então vi-O em tamanho natural com o Seu peito aberto e a pegar para as Suas mãos o Seu Divino Coração. Juntou-O ao meu e disse:
— Vem receber a gota do meu Divino Sangue, a vida para viveres, a vida para dares. Tem coragem! Um pouco mais! Um pouco mais, porque o teu Céu está perto. A tua missão lá vai continuar. Por ti as almas são enriquecidas. Por ti o mundo será favorecido. Eu não falto às minhas promessas. Eu queria que se compreendesse a minha vida prodigiosa em ti. Eu quero que todos saibam a tua loucura de amor por Mim, por Mim e pelas almas, pelas almas de quem sentes pejo e pavor. É para que o não sinta Eu! Esse pejo e pavor causam-me elas a Mim. És vítima, és vítima! Coragem! Coragem!”

Desapareceu Jesus. Eu voltei à tristeza, à cegueira, à morte. Fiquei na cruz, angustiada, mas não esqueci nem um só pedido. Lembrei tudo a Jesus, mesmo na Sua ausência a repetir o meu “creio” muitas, muitas vezes, recordando que Ele prometeu sempre estar comigo. (Sentimentos da alma: 23 de Abril de 1954 - Sexta-feira)

22 de abril de 2017

PRIMEIRO ENCONTRO COM O PADRE MARIANO PINHO

COMO JESUS ME ENVIOU O MEU DIRECTOR ESPIRITUAL


– Eu não tinha nem sabia sequer o que era um director espiritual; apenas tinha o meu pároco como guia da minha alma.
Como minha irmã fizesse um retiro aberto das Filhas de Maria, tomou nessa ocasião para seu director espiritual o conferente desse retiro, o Sr. Dr. Mariano Pinho. Este, sabendo que eu estava doente, mandou pedir as minhas orações, prometendo orar por mim. De vez em quando, mandava-me um santinho. Passaram-se dois anos, e sabendo eu que ele estava doente, sem saber como, senti tanta pena que comecei a chorar; minha irmã perguntou-me porque chorava, se o não conhecia sequer. Respondi-lhe: «Choro, porque ele era meu amigo e eu também sou dele.»

Em 16 de Agosto de 1933, Sua Reverência veio à nossa freguesia fazer um tríduo ao Sagrado Coração de Jesus, tomando-o então para meu director espiritual. Não lhe falei nos oferecimentos que fazia ao sacrário, nem nos calores que sentia, nem na força que me fazia elevar, nem nas palavras que tomei como uma exigência de Jesus. Pensava que era assim toda a gente. Só passados dois meses é que lhe falei nas palavras de Jesus e do resto nada disse, porque nada compreendia como coisas de Nosso Senhor. Apesar de Sua Reverência não me dizer que eram palavras de Nosso Senhor, eu continuei sempre e cada vez mais unida a Nosso Senhor. Quer de dia quer de noite eram os sacrários os meus lugares predilectos.

SEIS PRIMEIRAS QUINTAS-FEIRAS

EM HONRA DA EUCARISTIA E DAS CINCO CHAGAS


Nós conhecemos as “Primeiras nove sextas-feiras de cada mês”, pedidas por Jesus a Santa Margarida Maria de Alacoque; conhecemos igualmente os “Cinco primeiros sábados de cada mês” pedidos por Nossa Senhora de Fátima à irmã Lúcia de Jesus.
É necessário que conheçamos também as “Seis primeiras quintas-feiras de cada mês”, pedidas por Jesus, em Balasar, à Beata Alexandrina Maria da Costa. Em que consiste esta devoção?
Nada melhor do que ir à Fonte e, essa Fonte é Jesus. Ouçamo-Lo:

«Minha filha, minha esposa querida, faz que Eu seja amado, consolado e reparado na minha Eucaristia.
Diz em meu nome que todos aqueles que comungarem bem, com sinceridade e humildade, fervor e amor em seis primeiras quintas-feiras seguidas e junto do meu sacrário passarem uma hora de adoração e íntima união comigo, lhes prometo o Céu.
É para honrarem pela Eucaristia as minhas santas Chagas, honrando primeiro a do meu sagrado ombro tão pouco lembrada.
Quem isto fizer, quem às santas Chagas juntar as dores da minha Bendita Mãe e em nome delas nos pedir graças, quer espirituais, quer corporais, eu lhas prometo, a não ser que sejam de prejuízo à sua alma.
No momento da morte trarei comigo minha Mãe Santíssima para defendê-lo.»
Promessa feita à Beata Alexandrina em 25 de Fevereiro de 1949.


Comecemos já no próximo mês, para a maior glória de Deus e salvação das nossas almas.

COMO ME VEJO DE MÃOS VAZIAS !

CORAÇÃO E ALMA: ESCURIDÃO TOTAL


Continuo a sentir a perda de Jesus e da Mãezinha. Eles morreram para mim. Triste, tremenda separação. Não tenho palavras, a minha ignorância não deixa exprimir a dor desta separação. Perder a Deus, perder a Mãezinha, é perder tudo, é perder tudo. O meu coração e a minha alma estão numa angústia, estão como se estivessem sozinhos num universo de trevas, num mundo de perda eterna. Nem na terra, nem no Céu há conforto para eles, ou antes, nem existe a terra, nem existe o Céu.
Meu Deus, eu creio, creio, meu Deus. Assim o vou repetindo muitas vezes, sem ter apoio, luz e conforto de ninguém. A minha eternidade existe atrás de mim, em mim e à frente de mim. Tudo é eternidade desesperadora, revoltosa, odiosa contra tudo, contra Deus. Ai, a eternidade, ai, o que é a eternidade!... E a inutilidade que tudo me rouba?! A minha vida de tantos espinhos, de tantos punhais, de tanta contradição e humilhação é toda para ela.
Oh! Como me vejo de mãos vazias! Nenhum do meu sofrimento, nenhum do meu martírio aparece à luz do dia. Mas ele existe dia?! Há sol e estrelas no firmamento?! O que é isto, meu Deus, se sinto que não há Céu nem terra! Mas existe a eternidade? Eu vivo a eternidade. Vivo-a por Vosso amor e por amor às almas.
Não pode ser vista a profundeza do meu túmulo. Em que abismo estou! Ficam na superfície apenas a parede do meu sepulcro, mas eu desapareci, escondi-me. Fui cavando, cavando. Estou tão funda! Parece que tenho mundos, mundos sobre mim. Despi-me por mim de todas as coisas, por mim me enterrei, por mim mesma me fiz desaparecer. Os suores da alma não cessam com a canseira da escavação. É como se cavasse incessantemente sem tirar do meu punho o instrumento da escavação, mas a cavadela leva mais de um século. Por tudo seja bendito o Senhor!
No primeiro sábado não tive a visita da Mãezinha. Senti por Ela saudades de morte saudades de morte. Apesar da sagrada Comunhão desse dia ser mais íntima, mais confortante, ai de mim, se Jesus não velasse!
O meu horto não é aquele horto de outrora. A minha vida humana lá em baixo sempre fugitiva sem pisar terra alguma dele. Lá em cima, a grande altura, sempre a mesma pomba a deixar cair do seu biquito muitas gotinhas que se espalham em orvalho, mas ela não se satisfaz só com isso; vai levar aos corações essa gota e com o mesmo biquito retoca-os, faz neles o ninho. Vai também às inteligências focá-las, enchê-las de luz. Como é grande a vida e o trabalho dessa pomba!... Assim esvoaçou sobre o Horto e assim hoje esvoaçou sobre o Calvário.
Eu tive o Santo Sacrifício da Missa; com a minha fé abandonada à Mãezinha pedi-Lhe que me levasse e me fosse imolar com Jesus e me desse todos os seus sentimentos. Senti em mim como que um desespero na fugida do Calvário. A minha vida morta era a vida humana, mas aquela pomba era e dava a vida do Céu. Sem sentir que Jesus morreu, senti que Ele chegou junto de mim, sentou-se e como o bom Pastor chamou a si a Sua ovelhinha:
— Vem, minha filha, sou o teu Jesus. Descansa aqui.
Sentei-me junto d’Ele; nos Seus joelhos coloquei a minha cabeça, sobre a minha e o meu ombro deixou Ele cair o Seu divino braço. A minha alma foi recebendo conforto.

(Sentimentos da alma: 8 de Janeiro de 1954 - Sexta-feira)

21 de abril de 2017

CONVERSA COM UM AMIGO

Sobre os Sites e páginas Facebook


Há dias atrás, por mero acaso, encontrei um amigo que já não via há muito tempo.
Depois de nos saudarmos, começamos a conversar daquilo que os nossos corações estão cheios: da Beata Alexandrina.

— Sei que continuas a alimentar os Sites e as páginas no Facebook da nossa querida Beata, visto visitar essas páginas regularmente…
— Até parece que é tudo o que sei fazer, meu bom amigo, respondi eu sorrindo.
— O dois Sites sobre a Beata Alexandrina devem ter muitos visitantes, suponho eu?
— Uma média de 10 000 por mês, o que me parece razoável, visto que juntando os dois esta média sobe para 20 000 por mês… e até mesmo mais. Acontece, de vez em quando que num só mês um ou outro dos Sites atinja as 20 000 visitas…
— Vi que foste obrigado a abrir uma nova página no Facebook, por causa da limitação a 5 000 “amigos”.
— Foi essa a causa, de facto… Não queria que muitos ficassem “de fora” por uma questão de limitação…
— Notei que a maior parte dos teus “posts” recebem numerosos “gosto”, o deve ser para ti motivo de alegria.
— Para te ser franco, não são os “gostos” que mais me alegram, mas os comentários. Esses sim, alegram o meu coração, porque muitas vezes não só são pertinentes, mas também verdadeiros testemunhos de amor para com a Beata Alexandrina, quando não são autênticas orações!
— Mas também vi que há muitos comentários  — o que não se pode ver nos sites! — mesmo se muitas vezes o dito comentário se limita à palavra “Ámen”.
— É verdade que muitas vezes os comentários se limitam a isso, mas não vamos esquecer que a palavra “Ámen” significa “Assim seja”, o que me leva a crer que a pessoa que coloca esta palavra, tenha lido o texto proposto, o que nem sempre é o caso daqueles que se limitam à palavra “gosto”.
— Portanto, ao ouvir-te quase fico a pensar que estás insatisfeito!
— Eu não devo ter esse género de sentimentos, porque isso me levaria certamente à auto-satisfação e até mesmo à vaidade. Não, o que me interessa é que a Beata Alexandrina seja conhecida e amada pelo maior número possível de pessoas, qualquer que seja a nacionalidade destas.
— Se tivesses um conselho ou uma sugestão a fazer aos “amigos” da Beata Alexandrina, no Facebook, que lhes dirias?
— Que mais vale um curto comentário do que um “gosto” para fazer prazer.
— E dizendo isso, não te parece que corres o risco de perder “amigos”.
— Meu amigo, eu não perco nem ganho nada, porque não é para mim nem para a minha glória pessoal que trabalho, mas para a maior glória de Deus e a salvação das almas, das quais a minha também faz parte.
— Já sei o que vou fazer a próxima vez que for ao Facebook, visitar a página da Beata Alexandrina… Um pequeno ou curto comentário agrada-te mais do que o simples “gosto”, para marcar a visita…

— Compreendeste bem! É isso mesmo! Não te esqueças!

17 de abril de 2017

SOU POBRÍSSIMA, SOU NADA

SOFRI SEM UM MOMENTO DE REVOLTA


Continuo no meu estado grave e por não poder falar direi só umas palavras, como sinal da minha obediência. Meu Deus, meu Deus, que obediência tão custosa! Sinto a dor, vivo a dor; falar dela não sei, sou a maior ignorante. O que sofre o meu corpo e a minha alma nunca na terra o farei compreender. Eu só queria saber falar dela para honra e glória de Nosso Senhor e bem das almas. Na minha tremenda inutilidade, trevas densas, pavorosas, eu vejo os meus caminhos andados, mas todos selados de sangue; corre por eles como regatozinhos. É este sangue que brilha, é este sangue que me mostra a terra que trilhei, os espinhos que calquei. Dor e sangue foi e é a minha vida, mas a inutilidade nada me deixou para o meu Jesus nem para as almas a quem tanto amo, por amor d’Ele.
Sou pobríssima, sou nada. Sofri tanto, tanto como que saiu no jornal A Voz do Pastor! Tormento nunca dito, só sofrido se saberá compreender.
— Ai, meu Deus, se eu sofresse sozinha, se não sofressem os que estão à minha volta! Quanto Vos devo, meu Jesus. Não me faltastes com o Vosso amparo. Sofri sem um momento de revolta, com os olhos em Vós, sem má vontade contra ninguém. Obrigada, Jesus, obrigada, Jesus. O que eu não queria é que fôsseis Vós ofendido e que não houvesse tanto escândalo. Sou velhinha, mais velhinha que a terra, à terra me uni; o meu rosto nela poisou, tal foi o peso que a isso me obrigou.
O coração sente e vê o meu túmulo, não sai do pé dele, enquanto todo o outro ser em suor banhado segue a sua canseira num abismo tal sob o peso de milhões e milhões de mundos. Quando está nesta profundidade, parece que não pode voltar à superfície da terra. Com a perda de Jesus e da Mãezinha, do Calvário e do Horto, perdi tudo para jamais voltar a possuir.
Que dor, que dor infinita! A passagem pelo horto e pela montanha é como que por terra estranha, terra morta, sem luz, sem amor. Parece que, ainda que quisesse recordar o que tudo isto foi, não podia. Sem mal poder mover os lábios, falando mais com o coração, chamei por Jesus e pela Mãezinha: necessitava do Seu conforto.
Eram já três horas e alguns minutos sem que Ele viesse. Num dado momento, surgiu-me de repente. Com um foco de luz iluminou-me, tomou-me toda inteiramente e meteu-me no seu Divino Coração.
— Vem, minha filha, descansar na morada do meu Divino coração; aqui estás e dele vives. Vive do sacrário, vive da cruz, nela bem cingida, nela bem crucificada. Comunica a vida do Calvário, a vida do sacrário e a deste Coração Divino. Vives para os teus Amores, falas dos teus Amores. Coragem, recebe aqui conforto, recebe aqui fortaleza para tantas forças que a dor consome.

(Sentimentos da alma: 26 de Fevereiro de 1954)

16 de abril de 2017

TU TENS DE VIVER SEM VIDA

NÃO HOUVE PARA MIM RESSURREIÇÃO DO SENHOR



Não chegou a minha aleluia. Não houve para mim a ressurreição de Jesus. Estou em agonia. Estou em grandes sofrimentos da alma. Todo o meu ser é um trapo que a dor desfez, produzido pela lepra do pecado. Os espinhos não cessam de ferir-me. São bem agudos e penetrantes.
Duas coisas tive de motivo de alegria, se Jesus mas deixasse sentir. Aprouve ao Senhor que nada me alegrasse; só com os olhos n’Ele me alegro no cumprimento da Sua divina vontade. Custa-me tanto, tanto, dizerem-me à minha frente que lhes foi dito que quem me visitasse ficaria excomungado.
— Jesus, Jesus, ai quanto custa! Seja tudo por Vosso amor e pela salvação das almas.
Causam-me pavor as visitas. Parece-me ter nojo delas. A todos ao mesmo tempo quero abraçar e possuir no meu coração; mas, meu Deus, essa excomunhão de que me acusam prejudicará essas almas?! Não estou aqui para ruína delas, mas sim por Vosso amor e por elas me imolar. Não posso dizer mais nada. Vou dizer as palavras do colóquio de Jesus. Mas, ah! Se eu pudesse ao menos colocar neste caderno o livro infindo do meu coração para ele dizer tudo, para falar do amor de Jesus, para dizer o que é dor e a minha loucura pelas almas! Se eu pudesse fazer desaparecer o pecado, para o meu Amado não ser ofendido, para nenhuma alma se perder. Que sabedoria tem este livro! Como ele conhece e compreende todas as coisas, e como eu sou ignorante para as saber dizer. Não há ignorância igual à minha.
Depois de eu ter desprezado e esquecido o horto, esqueci e desprezei o calvário. Caminhava na maior angústia, caminhava de tal forma que o chão se abria para me engolir e em corpo e alma ia precipitando-me no inferno.
Meu Deus, que pavor! Já nas garras de Satanás, atormentada por ele, ouvi alguém que fez abrir a terra que me tinha engolido, tirou-me da garra do demónio e das chamas infernais. A alma agonizava e o corpo estava cansado de tanto sofrer. Chamei por Jesus e pela Mãezinha. Uma coisa me dizia: perdi tudo. Não existem para mim, não tenho Jesus, não tenho a Mãezinha. Tive um desfalecimento mortal. No meio dele, principiei a repetir o meu “creio” sem acreditar. Ouvi a voz de Jesus que me chamou:
— Minha filha, minha querida filha, levanta-te! Coragem! Vem a Mim! Tu tens de viver sem vida, tens de viver sem luz, tens de acreditar sem sentimento de que acreditas. Amas-Me sem saberes que Me amas, sem teres esse sentimento. Os pecadores, as almas, o mundo, obrigam-Me a exigir de ti esta reparação. Coragem! Coragem! É para que as almas não caiam no inferno.

(Sentimentos da alma: 23 de Abril de 1954 - Sexta-feira).

FOI BEM SEXTA-FEIRA SANTA !

COMUNHÃO SOBRENATURAL


Sexta-feira santa, foi bem sexta-feira santa! Ah! Se eu soubesse sofrer! Se eu soubesse aproveitar-me de tudo para desagravar o meu Jesus! Pobre de mim! Sou pobre e a todos dou pobreza! Sou miserável e toda a miséria da humanidade a mim pertence e assim vou vivendo a minha eternidade e inutilidade! Eternidade, eternidade! Que grande pavor! Viver-te sempre roubada pela inutilidade! Cresce-me a revolta e o ódio contra Deus. Tenho de odiá-Lo para sempre. Nada quero ter para Lhe oferecer por toda a eternidade. Oh! Que tormento perder a Deus! Perder a Mãezinha! Ai de mim, nunca mais os verei! Tive uma semana de espinhos penetrantes. Tormento indizível! Quanto mais agudos, quanto mais esses espinhos me ferem, mais eu os oferecia ao Senhor, apesar de sentir que nada era meu, que sempre estava roubada.
Passei o aniversário de 29 anos de cama. Não sei dizer as tristes recordações que me trouxe esta data, apesar de com os olhos no Céu tudo aceitar alegremente e só querer a vontade de Jesus. De novo voltei a ter a Santa Missa no quarto. Recorri à Mãezinha para Ela assistir por mim, já que cheguei a este ponto de nada saber. Pedi-lhe os Seus sentimentos junto da cruz. Ela veio colocar Jesus morto no meu coração e fez-me sentir a Sua agonia e chorar as Suas lágrimas. Pelo sacerdote fui encorajada a levar com mais amor a minha cruz num completo abandono. Horas depois, a notícia do sr. Bispo de Aveiro chegou até mim. Meu Deus, quanto sofri!... Se o meu nome não fosse lembrado, nem para bem nem para mal! Se eu ficasse esquecida para o mundo e dele pudesse desaparecer!... Jesus, sou a Vossa vítima. Creio, creio em vós! Na minha velhice eterna e ofício de cavador, fui vivendo os dias, as horas, abandonando-me louca para os braços de Jesus pela Mãezinha, sem o mínimo sentimento de que por Eles era aceite. Esta noite passeia-a mal, nos maiores sofrimentos do corpo. Não pude dormir. Pude acompanhar Jesus da prisão aos tribunais. Como a minha alma agonizava!... Esta manhã voltei a acompanhá-Lo, mas brava: pedia a Sua condenação. Fui eu que Lhe dei a morte. Na mesma manhã, uma visita recomendada veio aumentar o meu calvário, veio rasgar-me o coração, tocando-me num ponto que é o maior tormento da minha vida. Chorei muitas lágrimas, mesmo muitas, mas todas tinham um fim: de ir para Jesus.
Meu Deus, só vós conheceis como foi grande a minha dor. No íntimo do meu coração bradava constantemente: basta, basta, e com os lábios dizia: Jesus, não basta. Tudo o que Vós quiserdes, ó Amor, ó Amor, ó Amor, tudo o que Vós quiserdes; sou a Vossa vítima. Meu Deus, como pode ser, se o que vale é o que vem do íntimo, de dentro do coração para fora e não aquilo que dizem os lábios que vai de fora para dentro!? Eu não queria que o coração falasse assim, bradasse desta maneira. Eu queria que ele dissesse o que diziam os lábios, porque era a minha ansiedade, é só o que eu quero. Não tenho outro querer a não ser o de Jesus. Não era eu que assim falava no coração. Não sei quem era que dizia “basta”. Ai, quanto me custou esta luta! Nesta agonia mortal, veio Jesus ao meu encontro. Chamou-me. Só O ouvi, não O vi, nem O senti.
— Vem, minha filha, de encontro ao teu Jesus. Tem coragem. Não duvides, olha que sou Eu. Fui Eu que te escolhi, fui Eu que te preparei, fui Eu que assim te assemelhei a Mim. Escolhi-te para a mais nobilíssima missão. Preparei-te para ela. Assemelhei-te a Mim em toda a minha vida, na minha santa Paixão. Não te disse Eu: sofre, sofre, deixa que te humilhem e caluniem?! Recorda o que de Mim disseram.
— Ó Jesus, eu não Vos vejo, eu não Vos sinto, mas quero confiar que sois Vós.
— Colóquio de fé, colóquio de dor e de amor, minha filha, foi o que te disse Jesus. Sim, sem o amor, sem a tua loucura de amor não podias ser vítima de reparação, não podias assim sofrer e viver da fé sem a sentires. Confia, confia.
Jesus foi jogar o seu “esconde-esconde”. Desapareceu. Fiquei caída como morta. Não dei um passo, nem chamei por Ele. Pouco depois uma força invisível me levantou e ouvi de novo a voz do meu Senhor:
— Minha filha, vou dar-te o grande privilégio, vou dar-te a prova da minha loucura de amor. Amo-te tanto, tanto, amo-te com o maior amor com que Deus pode amar uma criatura Sua. Vais receber-Me na Eucaristia. O teu anjo da guarda vai ser quem Me vai depositar na tua língua para Eu baixar ao teu coração.
Era uma sala de que não lhe via o fim. Estava toda armada em roxo escuro. Só via bater as asas brancas de alguns anjos que em ala, silenciosos, se curvavam reverentes. Veio o meu anjo e deu-me Jesus. Era uma Hóstia grande. Pronunciou as palavras do Viaticus corpus Jesu Christi custodiat animam tuam in vitam aeternam. Ámen. Em seguida, falou-me assim:
— Vais agora, esposa e vítima do Rei celeste, receber o Sangue do teu Esposo Jesus. Vai-te ser dado pelo Anjo de Portugal.
Aproximou-se esse anjo de mim e do meu anjo da guarda, que foi quem me disse estas palavras. O anjo vestia de branco e capa azul. Trazia nas mãos uma pequenina taça e disse:
— Recebe, que é o Sangue de Jesus. Ele o deitou para aqui do Seu Coração. Vai fazer que ele passe para o teu.
Bebi o bocadinho do Sangue. Os anjos desapareceram. Ficou Jesus. Fez-me sentir o Seu amor e disse-me:
— Fortalece-te, minha filha, fortalece-te para a dor. Não podes deixar de sofrer, porque o mundo não deixa de pecar. Aceita, aceita. Não sentirás a ressurreição. A tua alma não terá Páscoa, para que muitas almas ressuscitem e tenham a Páscoa da graça. Aceita. Coragem.
Fugiu-me para sempre o meu Jesus. Fiquei no meu grande tormento a dizer-Lhe que aceitava, a dizer-Lhe o meu “creio”, sem esquecer os meus pedidos.
— Sede comigo, Jesus. Sede sempre a minha força.

(Sentimentos da alma: 16 de Abril de 1954 - Sexta-feira)

15 de abril de 2017

FELIZ PADRE HUMBERTO PASQUALE !

Ele é do número dos que vão para o céu sem penar no Purgatório


Que fogo no meu coração! Queima-me tanto, parece destruí-lo! Quanto daria eu, quanto sofreria eu para conseguir que este fogo me pertencesse e fosse fogo de amor a Jesus. Quero amor, quero amor. Quero amor para dar ao mundo, para que ele ame todo, só a Jesus. Pobrezinha, não tenho que lhe dar, não sei como conquistá-lo, não sei como entregá-lo a Jesus. Lá o vejo fugir, foge deste mundo para outro mundo predição. Eu fico de braços abertos e olhos no céu.
— Meu Jesus, como remediar este mal? Olhai o mundo que me destes, o mundo que me entregastes; olhai o mundo que é Vosso, só Vosso, Jesus. Dai-me o Vosso amor, só com ele poderei prendê-lo. Que ânsias tão grandes chegam da terra ao céu! Meu Deus, vejo as almas tão cheias de podridão! E os corpos a desfazerem de lepra, consequências do pecado. Que luz esta, que me obriga a ver tudo! Como está o mundo! E Vós, doce Jesus, o Vosso Divino Coração já não pode mais.
Lá estou entre o mundo e Jesus, para evitar que as maldades dos homens vão ferir mais o Seu Coração tão amante. Vêm bater a mim os açoites, os espinhos, todos os maus-tratos. Eu não O vejo, mas sinto como se Ele estivesse abatido, cheio de medo, e ver quando cai sobre Ele esta chuva de maldades. Que pena eu tenho de Jesus! Que agonia a minha por não poder fazer terminar o pecado! Sinto-O como um mendigo a tiritar de fome e de frio. A causa de tudo isto somos nós, é o pecado.
— Ó meu Deus, ó meu Deus, que grande é a minha dor por não poder aliviar-Vos, por não poder saciar a Vossa fome e aquecer-Vos ao calor do meu amor!
Nesta tarde, veio o demónio. Parece transformar-me a mim em demónio também. Maldito ele seja! Que inferno de maldade! Muito sorridente e a afirmar-me que eu tinha pecado, dizia-me, entre outras coisas, que eu era dele, estava nas mãos dele. Parece-me que ele me tapou a boca para eu não poder invocar o nome de Jesus e dizia-me: “chama por mim, ama-me”. Ao terminar o perigo tão horroroso, senti que podia mover os meus lábios e fiquei por muito tempo a repetir: “valei-me, Jesus, valei-me, Mãezinha”. E ele, mais ao longe, bailava e dizia: “chama-Os agora, desde que pecaste, desde que estás satisfeita”. Com uma gargalhada repetiu: “estás nas minhas mãos”. Veio o meu Jesus a confortar a minha alma.
— Não pecaste, minha filha, não estás nas mãos do demónio, mas sim nas minhas divinas mãos. Sempre te trouxe em meus braços, como a criancinha nos da sua mãe, meiga e carinhosa. Estiveste sempre nas minhas mãos nos perigos, estás sempre nas minhas divinas mãos nas lutas com o demónio e nelas estás na tua contínua imolação. Anima-te, continua a reparar. És mártir de dor, és mártir de amor, és mártir de toda a humanidade. Diz, minha filha, ao meu querido Padre Humberto que dele recebi muita consolação. É assim que eu quero: para acudir às almas vencem-se todas as dificuldades, suportam-se todos os sacrifícios. Como recompensa de tudo e prova do meu grande amor, diz-lhe que ele é do número dos que vão para o céu sem penar no Purgatório.

11 de abril de 2017

INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA

– vista pela Beata Alexandrina –


Ao iniciar a descrição da Santa Ceia, o evangelista S. Mateus escreveu: «ao cair da tarde, sentou-se à mesa com os Doze.» (Mt. 26,20)
A Alexandrina, falando da mesma cena escreveu no seu Diário: “Ao cair da tarde, senti-me então reunida com os amigos.”
Mas, para que se saiba, e porque a sua humildade prima sempre sobre todo o resto, ela afirma: “Eu era o amor e a ingratidão.”
Nesta descrição que ela faz da Ceia do Senhor com os seus discípulos, devemos ter em conta que falando na primeira pessoa, ela encarna Jesus. Todavia a expressão seguinte parece bem dela: “Ó meu Deus, o que se passou, que quadros tão diferentes.”
Diferente, sim, porque tratando-se duma visão, ela vê um “presente” onde todos os “quadros” — princípio e fim — se apresentam ao olhar da vidente. Daí a dificuldade, por vezes, para explicar o verdadeiro sentido da mesma.
S. João, ao descrever no seu Evangelho esta mesma cena — falando dele mesmo — diz que «um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa reclinado no seu peito.» (Jo. 13,23)
É exactamente o que a Alexandrina no seu Diário: “Eu era Jesus e contra o meu coração sentia inclinar-se alguém e eu era esse alguém.”
Alexandrina “era tudo”, neste momento extraordinário do “maior milagre” de Jesus:
“Eu era a mesa, eu era o pão e o vinho; eu era o cálice onde ele era deitado; eu era as taças onde se serviam os alimentos.”
Mas, ela também “era Judas”, aquele que iria pouco depois trair o Mestre.
Mas, apesar disso, e porque o amor é mais forte do que o ódio, ela “era a doçura e mansidão de Jesus”, contra a qual vinha ao encontro “o desespero e traição de Judas.”
Mas aquela visão, aquela solenidade invade o coração da Alexandrina e quase a obriga a exclamar:
“Que noite, que santa noite, a maior de todas as noites, a noite do maior milagre, do maior amor de Jesus!“
E depois explica, como sabe, como pode, o que vê:
“O Seu Divino Coração estava preso àqueles que Lhe eram tão queridos. Para poder partir, tinha de ficar entre eles, para subir ao céu, tinha de ficar na terra; assim o obrigava o Seu amor divino.”
Mas a força da visão, o seu conteúdo claro, porque divino, não permite ao ser humano explicar o inexplicável, por isso ela exclama, parecendo triste e talvez um tanto ou quanto desapontada:
“Sinto necessidade de esclarecer todas estas cenas, mas não posso, não sei.”
A Santa Ceia continuou, como escreveu S. Mateus:
«Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: “Tomai, comei: Isto é o meu corpo.”
Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: “Bebei dele todos. Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados.» (Mt. 26, 26-28)
Mas voltemos a Judas, o traidor, que ainda estava presente neste momento. No Evangelho de S. Mateus lemos:

«Enquanto comiam, disse: “Em verdade vos digo: Um de vós me há-de entregar.”
Profundamente entristecidos, começaram a perguntar-lhe, cada um por sua vez: “Porventura serei eu, Senhor?” Ele respondeu: “O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará. O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido!” Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou: “Porventura serei eu, Mestre?” “Tu o disseste”» — respondeu Jesus.» (Mt 26, 21-25)

Desta cena, entre Jesus e Judas, a Alexandrina explica que “o olhar esgazeado do mau discípulo ficou gravado em seu coração”, assim como o que se seguiu: “todo aquele silêncio profundo”, motivado pelo anúncio de Jesus e pela partida precipitada de Judas, depois de ter “tomado o bocado de pão”. (Jo. 13,30)

Ela diz ainda que “a amargura da sua alma não podia subir mais alto. E, para afirmar mais esta amargura, vieram os sofrimentos da terra causados pelos pecados. Juntei a dor ao sacrifício e quantas vezes em espírito, com os olhos fitos no céu, ofereci ao trono divino o cálice da minha amargura.” (S. 08-03-1945)

A Alexandrina descreveu mais algumas vezes esta Ceia do Senhor e os seus textos são sempre duma grande precisão evangélica e duma grande emoção, porque ela descreve o que nesse preciso momento “vê”.
Afonso Rocha

QUANTO SOFRE A ALMA VÍTIMA !

Quero ver o mundo numa só chama, que chegue da terra ao céu !


É tão grande o edifício que sinto em mim! Parece-me chegar dum lado ao outro, aos confins do mundo. Todo ele arde em chamas e eu ardo também com ele. Por entre as chamas, aparecem dum e outro lado grandes enleios de espinhos. São tantos e tão agudos! O fogo a todos destrói, transformam-se em chamas. Aparecem também muitos, muitos rastos de sangue, mas este sangue não apaga o fogo. Tudo são chamas, grandes chamas. Eu não estou satisfeita. Sinto, vejo que este fogo não atingiu a verdadeira altura. Quero ver o mundo numa só chama, que chegue da terra ao céu. Eu brado no meio deste fogo: quero amor, amor, mais amor. Quero amar a Jesus, quero amar a Mãezinha e vê-Los por todo o mundo amados. Este fogo não é meu, e as ânsias minhas não são. Perdi a Jesus, perdi a Mãezinha, de meu só tenho o pecado. Perdi todos os que me são queridos. Quando sei que eles vêm junto de mim, parece-me que sou assaltada por um bando de assassinos. Para onde foi o amor a Jesus, à Mãezinha e a estima pelas pessoas queridas! Contudo, confio em Jesus, que O não perdi, que O possuo ainda e que a minha estima pelas pessoas, que Ele colocou em meu coração, em lugar tão alto, não terá diminuído, antes pelo contrário, será cada vez mais intensa. Não quero usar de ingratidão nem para o céu nem para a terra. Não quero usar do instrumento que tanto feriu a Jesus.

— Meu Deus, o mundo perde-se! As almas lá fogem pelos caminhos da maior perdição. E eu vejo tudo! Quero ir ao encontro delas. Quero percorrer todos os caminhos e prendê-las. E como prendê-las a Jesus? Só com cadeias de amor. Meu Deus, como? Esse amor existe, mas, como não é meu, não me pertence. Tende dó, Senhor, dai remédio a tudo isto, meu Jesus. Eu morro, não posso resistir. Não posso ver o Vosso Divino Coração ferido, meu Jesus! Eu não posso consentir que as almas se percam eternamente. Nunca mais verem a Jesus! E Jesus ficar sem elas, depois de as comprar pelo preço do Seu divino sangue. Meu Deus, que será de mim? Dai-me força, perco a vida. Ai, que mais posso eu fazer pelas almas, para lhes dar o céu?

O demónio apareceu-me só com um olho. Mas era tão grande! Tinha um olhar de tanta malícia, tinha toda a maldade infernal. (Eu sei lá o que é olhar de malícia… Mas nele o compreendo. Grava-se aquele olhar no coração. E aquele olhar é capaz de prender tudo). Dentro desse olho estava um demónio em tamanho natural, de baixo a cima, completo. Aquele olhar tão maldoso atraía, prendia a si todos os corações que por tal maldade se levavam. Noutro ataque mais violento, ele me dizia que ia ter uma noite de prazer e que valia a pena perder tudo para gozar desta forma. Eu parecia-me arrumar para longe todos os objectos religiosos e dizia: “não os quero, quero gozar”. Mas não, a verdade não era esta. Eu, sempre que podia, oferecia-me a Jesus e pedia-Lhe por tudo para não pecar. Os insultos, as palavras feias eram tantas! Eu estava tão triste! Vieram os momentos mais aflitivos. Ele mostrava-se satisfeitíssimo e afirmava-me eu pecar. Veio uma dor tão grande: desfazer aquilo que me parecia gozo. E logo principiei a sentir pena de aquela dor me vir tirar tão grande satisfação. Meu Deus, que horror! Fiquei desalentada, mas confiada, à espera de auxílio. (Sentimentos da alma: 10 de Abril de 1945)

9 de abril de 2017

DIREITO DE RESERVA

Uma só coisa conta : a causa da Beata Alexandrina !


Estou sujeito a um direito de reserva, mas direito de reserva não requer de mim manter o silêncio sobre certas coisas cuja importância me parece essencial. A única razão para mim — que alimento as duas páginas da Beata Alexandrina, a título estritamente pessoal — é não publicar aqui algo que possa ter má influência na sua causa de canonização, que espero se realize o mais rapidamente possível, quando for a hora de Deus.
Publicar aqui textos dela é o fim que me fixei. Se algumas vezes esses textos podem perturbar algumas almas sensíveis, peço desculpa, mas se ela os escreveu, foi para que fossem conhecidos e meditados por cada um de nós.
Outra certeza: os textos que a Beata Alexandrina escreveu, não eram, na sua maioria, destinados ao seu tempo mas ao nosso actual.
Porquê?
A razão é fácil de compreender: só agora eles estão a ser conhecidos !
Quando ela os escreveu, só os seus directores espirituais estavam ao corrente e algumas pessoas da família, ninguém mais…
No seu tempo não existiam meios de comunicação social como hoje…
O único que ousou publicar textos da Alexandrina — o Padre Terças — foi o “culpado” (escrevo entre parênteses propositadamente!) e a sua publicação teve como efeito imediato o exílio do padre Mariano Pinho, primeiro Director espiritual da Alexandrina.
Quando se lêem os textos dela — como o posso fazer, graças a Deus! — esta realidade salta aos olhos, mesmo quando se não é “especialista” da Beata Alexandrina.
O facto de revelar estes textos tão importantes e mesmo sublimes, não me trouxe só amigos, bem pelo contrário, aumentou o número dos meus inimigos, porque humildemente, faço o que muitos, qualificados para isso, não fazem: até de  “ladrão” me chamaram !
O amor à Beata Alexandrina, deixa-me de “mármore”, quando me atacam ou me chamam nomes que aqui não citarei… A causa da Beata Alexandrina sempre teve e terá mais importância que a minha pobre pessoa…

Estou convicto que, como tão bem o diz São Paulo, “o amor jamais acabará”!
Para que não subsistam dúvidas, assino:
Afonso Rocha

8 de abril de 2017

PERÍODO MAIS DOLOROSO DA MINHA VIDA DE TRABALHO

Um patrão insuportável !

– Dos doze aos catorze anos vivi com regular saúde. Minha mãe pôs-me a servir em casa de um vizinho, mas, ao ajustar-me, tirou certas condições, como: confessar-me todos os meses, passar as tardes dos domingos em casa, para ir à igreja e estar sob o domínio dela, não andar de noite, etc. A combinação foi de cinco anos, mas não estive até ao fim. O patrão era um perfeito carrasco; chamava-me nomes, obrigava-me a trabalhar mais do que as forças que tinha. Tinha mau génio e pouca paciência – até os animais o conheciam, porque batia-lhes e assustava-os, sendo quase impossível chamar o gado, quando ele ia junto do gado. Envergonhava-me sem causa, fosse diante de quem fosse, e eu sentia-me humilhada. Apesar de estar no princípio da minha mocidade, não sentia alegria com aquele triste viver. Um dia fui à azenha levar a fornada, mas era já noitinha quando lá cheguei e, portanto, muito tarde quando regressei a casa, pois gastava no caminho uma hora. Depois que cheguei a casa, ralhou-me muito, insultou-me e até me chamou ladra. O pai dele, homem velhinho, revoltou-se contra ele, defendeu-me, dizendo que eu não tinha tido tempo para mais. Todos os dias vinha ficar à casa, e naquele dia, como estava melindrada – porque a minha consciência não me acusava a mais pequena falta – queixei-me a minha mãe que, depois de se informar do caso, não me deixou voltar, apesar de pedir muito para que continuasse a trabalhar lá. Minha mãe, vendo que ele não cumpria o contracto, tirou-me de servir.
Uma vez estive das dez horas da noite às quatro da manhã na Póvoa de Varzim a tomar conta de quatro juntas de bois, porque o patrão e um seu amigo ausentaram-se de mim; e eu, cheia de medo, lá passei aquelas horas tristíssimas da noite. Enquanto vigiava o gado, ia contemplando as estrelas que brilhavam muito e serviam de minhas companheiras.
Foi aos doze anos que me deram o cargo de catequista e cantora; trabalhava com muito gosto, tanto num cargo como noutro, mas pelo canto posso dizer que tinha uma paixão louca.
Quando comungava e me encontrava no meio das minhas companheiras a dar graças, sentia uma humilhação tão grande que julgava a mais indigna de receber Jesus-Hóstia!... (Autobiografia)

7 de abril de 2017

ESCONDE A TUA DOR, SORRI ALEGREMENTE !

No teu coração encontro mais bálsamo para o meu sofrer.


Nesta manhã, o meu coração ainda estava um pouco iluminado daquela luz que, ontem, Jesus lhe deu. Por essa razão, sentia-se mais confortada e tinha mais força para resistir a tanta dor. Chegou a hora de comungar. Não foi grande a preparação porque me faltavam muitíssimo as forças físicas. Esforcei-me, preparei-me o melhor que pude. Jesus baixou a mim. A Sua entrada no meu coração avivou-me mais a luz. Tinha a certeza de que era Ele. Depois de me bafejar todo o meu corpo interior e exterior, ficou avivado todo o meu sofrimento, e Ele disse-me:
— Estou deliciado, minha filha, no teu coração. Nestas delícias encontro mais bálsamo, fragrância para o meu sofrer. Com o meu hálito divino suavizei a tua dor. Neste coração abrasado de amor por fim encontro refrigério, posso descansar, que não sou ferido. Minha filha, minha pomba querida, sabes para que suavizei a tua dor com tanta luz e amor do meu Divino Coração? É para dar lugar a mais dor, é para que o teu possa ser mais ferido, é para que Eu possa receber e oferecer reparação a meu Eterno Pai por tantos e tão graves crimes, por tantos e horríveis sacrilégios que se cometem no mundo inteiro. Sofre, minha filha, esconde a tua dor, sorri alegremente, salva o mundo, que é meu, e é teu, porque to entreguei para o salvares”.
Não tive palavras para dizer a Jesus. Toda mergulhada n’Ele, sem ter um gozo completo, mas muito confortante, o coração parecia não saber dizer-Lhe outra coisa a não ser.
— Aceito, amo-Vos, meu Jesus.

*****

Veio a Mãezinha, trazia o Seu peito aberto. No centro, o Coração cercado de espinhos; por entre eles saíam uns raios de fogo que Ela fez passar para o meu. Mais forte com aqueles raios, sem Lhe pedir licença, atirei-me para Ela, arranquei-Lhe de uma só vez a sebe espinhosa que Lhe cingia o Coração. Fiquei com ela nas minhas mãos, e fiquei eu no regaço e nos braços da Mãezinha, e disse-Lhe:
— Mãezinha, Mãezinha, entrai e plantai Vós mesma no meu coração estes espinhos; quero sofrer a Vossa dor.
Ela assim o fez. Depois de os enlear, estreitou-me a Ela, e bafejou-me também. Em seguida acrescentou:
— “Eu serei minha filha, junto do teu calvário, o que fui outrora no Calvário do meu Jesus, junto à cruz. Sê sempre heróica e generosa, não negues nada a Jesus. As almas assim o exigem. Tu vives a Sua vida, Eu em ti vejo a Ele”.
Jesus aproximou-se e continuou:


— “Minha filha, sofrer por Mim é sofrer por minha Bendita Mãe. Amá-La a Ela é amar-Me a Mim. Dar-me almas a Mim é dar-Lhe almas a Ela. Foi com Ela e por Ela que Eu abri o Céu.” (Sentimentos da alma; 7 de Abril de 1951)

6 de abril de 2017

A FASE MAIS DOLOROSA DA TUA VIDA

Ouvi a voz de Jesus...


Ontem, quinta-feira, a minha alma bateu-se e debateu-se no solo duro do Horto. Enquanto que o corpo sofria as dores horríveis, ela transportou-se para lá. Não era mais que uma bola formada e esmigalhada pela violência do martírio. Tinha nojo de me ver, tinha nojo de ver o mundo. Sem entrar no Calvário, todo o sofrimento dele me feria e fazia agonizar. Nesta manhã fui desencarcerada. Segui para os tribunais: recebi os açoites, a sentença de morte e a cruz. Tive muitas quedas; fui arrastada. E a alma no percurso da viagem quase não deixou de bradar. Bradava ao Céu, bradava ao Eterno Pai, bradava na dor mais pungente. O coração amava, ansiava chegar ao fim; o corpo cobria-se de suores, os olhos choravam lágrimas de sangue. No alto do Calvário senti no meu corpo a renovação da crucifixão. Puxaram-me tanto os braços, parece que todos os ossos se me desconjuntaram. No cimo da cruz não fiz outra coisa a não ser oferecer ao Calvário, oferecer ao mundo o meu coração aberto para a todos receber. Meu Deus, que ânsias infindas! Amava e perdoava. Agonizei: separei-me de Jesus, separei-me da dor. Pouco depois, Jesus voltou, renovou-me a minha alma. Do seu divino Coração saía uma forte chama que veio penetrar no meu. Esta chama durou até ao fim do colóquio com Jesus. Iluminou-me a alma e todo o ser. Ouvi a voz de Jesus a dizer-me:
— “Minha filha, minha filha, escuta o meu brado dorido, escuta o meu queixume de grande dor. Estou cansado de esperar a reconciliação do mundo, estou cansado de sustentar o braço de meu Eterno pai. Ó minha filha, minha filha, que tristes dias, que dias pavorosos esperam a pobre humanidade. Oh! se não fosse este Calvário, se não fossem as lágrimas vítimas, Eu não teria esperado tanto. O meu eterno Pai não cederia aos meus pedidos. Minha filha, minha querida filha, vive sempre unida à minha bendita Mãe, é ela com este Calvário que afasta a justiça, que atrai a misericórdia”.
— Ó meu Jesus, meu Jesus, posso ouvir todos os Vossos queixumes, posso sentir toda a Vossa dor, mas não deixarei nunca, nunca, meu Jesus, de confiar em Vós. Confio no Vosso perdão, confio na Vossa misericórdia. Espero, Jesus, espero que à medida que Vós fordes esperando e perdoando, o mundo se converterá e virá para Vós.
— “É grande a tua confiança, é grande muito grande o teu amor, é poderosa, muito poderosa a tua dor. Pede, pede, minha filha não cesses de pedir. Pede a todos quantos de ti se aproximam. Lembra-te de que foi a missão das almas, a missão mais sublime que eu te confiei. Pede, pede, não cesses de pedir para que se convertam, para que se emendem, para que venham ao meu Divino Coração. Pede, pede, filha querida, que o teu Jesus também pede. Pede pelos teus lábios, ama pelo teu coração e dá-se por ti inteiramente às almas”.
— Ó meu Jesus, fazei que eu Vos sirva com perfeição, fazei que eu desempenhe a minha missão da forma que Vos agrade e convenha. No meu sentir, nada faço por Vós, nada sofro por Vós, não me movo por Vós. Que pena, que pena, meu Jesus. As ânsias que tenho são grandes, mas não são minhas. O amor com que Vos desejo amar chega até Vós, mas não é meu. Que pobreza, que pobreza!
— “Confia, confia, minha filha. Por quem sofres tu, senão por Mim? Quem é que tu amas, a não ser o meu Divino Coração e as almas? O outro amor que tu dedicas fica aquém, muito aquém do amor com que me amas. Estás desprendida do que é da terra, vives a vida divina, vives a vida do Céu”.
— Acredito, Jesus, porque sois Vós que o dizeis. Ah! Pudesse eu acreditar sempre. Mas fora deste colóquio, desta união convosco, tudo, tudo desaparece, só o abandono me resta.
— “Estás na fase mais dolorosa da tua vida. Estás na fase mais difícil dos meus santos. O teu martírio excede acima de todos os martírios deles. Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Os nossos corações uniram-se. Passou nova vida para o teu coração. Passou nova efusão de amor. Vai dá-lo aos que te rodeiam, vai dá-lo a todos os que se aproximam de ti. Vai, e faz que se espalhe no mundo inteiro”.
— Ó Jesus, muito obrigada. O meu coração está outro, aquela chama de fogo que saiu do Vosso deu-me uma nova vida. Obrigada, obrigada, meu Jesus.

(Sentimentos da alma; 6 de Abril de 1951)

4 de abril de 2017

NÃO HÁ UM SOPRO DE VIDA PARA ESTA VIDA

Para mim só a morte existe



Na cruz, sempre na cruz tem sido o meu viver. A cabeça sempre coroada de espinhos, com o sangue das feridas a correr-me pelas faces, deixava-me quase como cega e sufocada, sem poder respirar. O sangue da cabeça banhava-me o corpo e o do coração parecia-me chegar à terra. Ai, quanta dor, tristeza e amargura eu senti no coração e na alma. Custam mais, muito mais estas do que as do corpo. Este sentia o tormento da doença e muitas vezes o apertar dos cravos, o avivar das chagas e feridas. Mas este sofrimento fica muito aquém da dor do coração e agonias da alma. Só a sabedoria do Senhor compreende e pode fazer compreender o que é este martírio. Para o coração, a dor foi infinita e insuportável para as minhas forças. Mas Jesus venceu sempre em mim, embora à custa do meu esforço e luta constante. Não foi a lança, os espinhos e as setas que mais custaram ao meu coração. Foi essa dor que eu chamo infinita, que atinge a terra e o Céu. É como um sopro de ar que penetra todo o ser, atinge tudo, nada há que ela não trespasse. A minha alma tem chorado constantemente; chorou rios, mares infinitos de lágrimas. Ó meu Deus, que ansiedade também infinita eu tenho de fazer compreender a grandiosidade desta dor, os motivos e causas destas lágrimas. Ó Céu, ó Céu, falai vós por mim; a minha ignorância não me deixa. Eu sou um corpo morto sepultado na humanidade morta. Morri na podridão, nas trevas negras da morte e nesta podridão fui sepultada. Fui veneno, sou veneno e veneno continuarei a ser. A minha dor vive, o seu martírio existe, mas só para eu sofrer, mas nada a mim pertence. Rompe a dor por entre esta morte e não sei para onde caminha. Para mim só a morte existe. Sou sempre morte e sempre dou a morte. E todo o bem que eu faço o enveneno e mato e dou chorado ao Senhor. Não digo nada, não me faço compreender porque não sei, meu Jesus. Não tenho forças para sofrer, sinto que as não tenho, mas confio e espero em Jesus e na Mãezinha querida. Meu Deus, não me deixeis morrer esta luz apagada da minha confiança. O fogo do coração continua a ser para mim penoso e doloroso martírio. Ele queima-me, mas é um queimar sem conforto. Mas faz-me ter umas ânsias tão grandes, tão infinitas de amar a Jesus, a Sua lei e tudo o que é d`Ele: de amar a Mãezinha e toda a Santíssima Trindade. Quero só pertencer-Lhe inteiramente, consumir-me desaparecer nesta Divindade! E não tenho nada para Lhe dar, não há um sopro de vida para esta vida. (Sentimentos da alma: 23 de Março de 1951)

3 de abril de 2017

UM DIA DA PAIXÃO DA ALEXANDRINA

Fiquei como caída na valeta...


O dia 31 de Janeiro de 1947 foi uma sexta-feira.
Como todas as sextas-feiras, a Alexandrina viveu a Paixão de Jesus e, viveu-a tanto ao vivo que ao lermos o seu Diário desse mesmo dia, temos a impressão nítida de ver nós mesmos o que ela descreve com tanta simplicidade.
No texto que vamos ler, as situações não se encontram na ordem exacta do que se passou em Jerusalém e no Gólgota, mas esta maneira de descreve uma situação tão dolorosa, não nos impede de compreender e de “ver” o que então se passa.
Ela começa por dizer: Fiquei como caída na valeta da estrada, não podia levantar-me nem tão pouco levantar os olhos ao Céu para os fitar em Jesus.” Isto supõe que ela estava a caminho do Calvário, visto ela dizer ainda: “Não sei por quem fui levantada, mas sentia a minha alma chorar com profunda dor.” Jesus caíra uma vez mais e a Alexandrina com ele, o que a leva a exclamar: “Que indizível vergonha!” A esta exclamação segue-se uma pergunta aflitiva: “Tem ferido o meu Jesus?”
Algumas linhas depois ela volta ao Jardim das Oliveiras, onde na realidade começou a Paixão de Cristo e começa o seu texto com uma frase que só depois do Horto será realizada: “Os meus espinhos do Horto deram princípio às ruas estreitas e tristes do Calvário.”
Serão estes espinhos que a acompanharão durante o doloroso caminho que ela vai percorrer até ao Gólgota: “Segui por entre eles, abismada na noite mais negra; neles perdi a carne e o sangue. Subi ao cimo da montanha e a mesma noite se espalhou nela. No alto da cruz que era eu e nela estava pregada.”
No alto da montanha a Alexandrina era a cruz e ao mesmo tempo estava nela pregada. Esta assemelhação utilizada por ela é frequente nos seus escritos, visto que muitas vezes ela é a Alexandrina mas também Cristo, numa estreita união mística. O mesmo se passa quando ela descreve a última Ceia, onde ela é o pão e o vinho, mas também o cálice.
Assim pregada no madeiro, ela “sentia o levantar do peito de Jesus, o seu ofegar, palpitar do coração. Sentia o brado triste, o eco agonizante dos Seus gemidos; sentia o Seu sangue divino que caía ao pé da cruz.”
Nesses momentos de agonia de morte, a Alexandrina descreve ainda: “Sentia uma dor de alma que a obrigava a chorar e a dar a vida despedaçada de dor. Eu não podia aguentar aquela dor que era de Jesus. O que Ele sofreu! Ai a dor do Calvário, a dor, a visão da maldade humana. Eu não resisti; por alguns momentos pareceu-me mesmo a minha morte ser real.”
E depois esta exclamação que exprime bem os seus sentimentos nesse momento: “Não quero pensar, porque não posso recordar o sofrimento do meu Jesus.”
Depois de viver a Paixão, como se o sofrimento não fosse suficiente, o Senhor permitiu que ela fosse tentada pelo demónio, antes de se dar a ela na Eucaristia, como ela o explica a seguir:
“Com a vinda d’Ele ao meu coração esqueci mais as maldades do demónio; pude unir-me mais a Jesus e desabafar com Ele.”
Alguns dias antes, a Alexandrina tinha-se queixado a Jesus, mas uma queixa toda ela cheia de amor e de humildade. Ouçamo-la:
Quero amar e falar do amor de Jesus e não amo, nem tão pouco sei falar do Seu divino amor. Que ânsias insuportáveis de O amar e insuportáveis desejos de uma vida mais pura e perfeita! Que grande dor não poder nem saber amar Aquele, que tanto me ama e morreu por mim, e não ter nem saber viver aquela vida de perfeição, de que Jesus é digno que eu viva. Que horror!
Constantemente cai sobre mim como que uma chuva de maldades e de crimes. Sinto-me queimada e carbonizada dum fogo indizível de paixões. Eu sofro, ó meu Deus, e sofro tanto, sei que sofro e em quase nada se resumem os meus sofrimentos. Não sei exprimir-me, não sei falar, não sei dizer nada desta dor, que me consome; tudo se apaga, tudo morre. Ai meu Deus, que trevas tão doridas!” (S. 26-12-1947)

Afonso Rocha

1 de abril de 2017

NÃO SOU DAQUI...

Curvo-me, inclino-me de boa vontade


Que horrível, que extrema é a agonia da minha alma. Eu queria esconder a minha dor, não queria falar mais dela, queria abafá-la por completo. Parece-me que o coração chora de amargura. De longe a longe as mágoas que ele sente fazem-me bailar nos olhos as lágrimas. Quero encobrir tudo, bastava que Jesus soubesse; mas não posso, manda-me a obediência. E, embora como que arrastada, vou descobrindo, vou arrancando de dentro para fora alguma coisa do que sofro, do que sinto.
Não sei se pelo estado grave do sofrimento em que me encontro, ou se é a realidade, sinto-me no pôr-do-sol da vida; parece-me que a morte se avizinha de mim. Curvo-me, inclino-me de boa vontade a receber o golpe que Jesus lhe aprouver dar-me. Sinto no meu coração a separação dos que me são queridos. Vou para a minha Pátria, mas alguma coisa quero deixar entre eles para os animar e consolar na sua dor.
Não sou daqui, vou para o meu lugar, depressa nos veremos nessa glória sem fim.

— Meu Deus, meu Jesus, o que será isto? (S. 20-02-1945)