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sábado, maio 19, 2012

EU ERA JUDAS, ERA TUDO...


E u era a mesa, eu era o pão…

Neste colóquio com Jesus, não tive medo d’Ele, mas logo depois voltei a sentir todo o meu martírio. De manhã cedo, principiei a sentir que Jesus chorava dentro em mim. Eu era a cidade de Jerusalém e era Jesus. Eu era o amor e a ingratidão. Do meu coração saíam para a cidade os mais doces e ternos olhares; eram olhares de chamamento, olhares de compaixão. Mas oh! o que eu via sair dali, que revolta contra mim. Ao cair da tarde, senti-me então reunida com os amigos. Ó meu Deus, o que se passou, que quadros tão diferentes. Eu era Jesus e contra o meu coração sentia inclinar-se alguém e eu era esse alguém. Eu era a mesa, eu era o pão e o vinho; eu era o cálice onde ele era deitado; eu era as taças onde se serviam os alimentos; eu era Judas, era tudo. Eu era a doçura e mansidão de Jesus; era o desespero e traição de Judas. Que noite, que santa noite, a maior de todas as noites, a noite do maior milagre, do maior amor de Jesus. O Seu Divino Coração estava preso àqueles que Lhe eram tão queridos. Para poder partir, tinha de ficar entre eles, para subir ao céu, tinha de ficar na terra; assim o obrigava o Seu amor divino. Sinto necessidade de esclarecer todas estas cenas, mas não posso, não sei. O olhar esgazeado do mau discípulo ficou gravado em meu coração e todo aquele silêncio profundo de saudosas despedidas. A amargura da minha alma não podia subir mais alto. E, para afirmar mais esta amargura, vieram os sofrimentos da terra causados. Juntei a dor ao sacrifício e quantas vezes em espírito, com os olhos fitos no céu, ofereci ao trono divino o cálice da minha amargura.

Sentimentos da alma, 8 de Março de 1945.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

SUBIU O AMOR, SUBIU O QUE ERA DIVINO

― Confio, meu Jesus, e temo e sofro por confiar.

A Beata Alexandrina na Trofa, em casa do Sr Sampaio.
Ontem, era já quase noite e eu sem saber compreender o que a minha alma sofria. Veio do alto, um raio do sol foi cercar toda a humanidade, ficou como que uma muralha luminosa à sua volta: depois parecia que mexia e remexia toda a terra e envolvia-se nela. Nesta altura senti que o Céu irado e revoltado contra mim caía sobre o meu pobre corpo a esmagá-lo. Com este peso abriu-se-me o coração, sentia nele grande ferida a sangrar.
Fui com Jesus, até junto do aposento onde ia ser a ceia; não pude subir, fiquei ali esmagada pelo mesmo Céu, e, ali quase morreram as minhas pobres forças. Subiu Jesus, subiu o amor, subiu o que era divino. Não fui ao Horto, quase sem vida dali o contemplei; vi a sua solidão e escuridão, vi o solo tremer com a folhagem que continha; vi todos os sofrimentos, que lá esperavam Jesus; não fui lá, mas deste lugar com Ele sofria.
Na manhã de hoje, senti que eu mesma O fui buscar à prisão, vinha algemado, desfiguradíssimo, sem nenhuma beleza. O meu coração foi o lugar onde Ele foi açoitado, e dentro dele caía a chuva, de gotas de sangue, que produziu a coroa de espinhos. Os mesmos espinhos atingiam-me também o coração e foi sempre ele o caminho que percorreu Jesus para o Calvário; eu caminhava com Jesus e dentro do que era meu caminhava. Jesus desfalecia e caía e eu também; Ele recebia os maus-tratos e eu compartilhava deles. Passou pelo meu coração a Mãezinha e nele foi seguindo a Jesus; a Ele veio a Verónica limpar o rosto de Jesus e limpou o meu também que era com o de Jesus um só.
No Calvário, pregado na cruz, foi ainda o meu coração escada por onde desceram Jesus, o lugar e o lençol com que Ele foi amortalhado. E ainda nele a Mãezinha teve lugar para cuidar do corpo divino do seu Jesus. Tudo senti e vi antes de expirar. Que grande aumento de agonia! Tudo me estava presente. Como Jesus em mim, bradava o Seu Eterno Pai A vida de Jesus deixou-me e então é que eu me senti morta. Esta morte foi por pouco tempo; Jesus não demorou a dar-me de novo a Sua vida.
― Minha filha, Minha querida filha, a tua vida é Minha, o teu sofrimento é Meu. Tu estás no mundo e não és dele; tu vives, e a vida não é tua, sou Eu que vivo. A Minha vida está introduzida no teu corpo; é como que um sopro divino, e a tua alma, ó maravilha, é só a vida do Céu. Tu não sofres, sofro Eu, tu não sofres e Eu não posso sofrer sem ti. Nada em ti podia ter feito nem continuar a fazer sem a tua fidelidade e correspondência às Minhas divinas graças. É Cristo na Sua vítima e a vítima em Cristo. Confia em Mim, confia no que te digo.
― Confio, meu Jesus, e temo e sofro por confiar. Eu estou tão cheio de pecados, caio em tantas e tão grandes faltas; sou tão pequenina, tão nada, como podeis falar-me e viver em mim? Não tendes nojo, meu Jesus?
― Não, não, Minha filha. O teu nojo é para que Eu não tenha nojo das almas; o teu nada, é para encobrir as Minhas grandezas e maravilhas em ti. Quero-te assim pequenina, quero-te assim tão nada para dares tudo. Não viste como Eu tão pequenino levo tão grande cruz? Foi tara te mostrar que a graça tudo pode e que tu assim pequenina, com a Minha vida e força divina tudo vences; com o sorriso e amor à cruz tudo suportas e és vitoriosa no teu Calvário. Confia, Minha filha, querida, confia que te amo e tu Me amas muito, a mais não poderes amar-Me. Tu não és do mundo, e o mundo é teu; entreguei-to, dei-te o título de mãe da humanidade, dei-te todos os tesouros e graças do Meu divino Coração para a salvares. À semelhança do que disse aos Meus Apóstolos, quero dizer-te, não como lhes disse a eles: aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados, mas sim aqueles a quem prometeres a salvação, serão salvos, é deles o Céu. É em nome de Jesus que lho prometes, é Jesus a falar em teus lábios, no teu coração. Dou-te tudo, tudo faço para acudir às almas. Que grande prova de amor!
― Ó meu divino Jesus, se prometeis a salvação a todos quantos eu a prometer, eu prometo-a a todo o mundo, pois todas as almas eu quero salvar, todas são filhas do Vosso divino Sangue.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 12 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira).