Mostrar mensagens com a etiqueta Santa Ceia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Santa Ceia. Mostrar todas as mensagens

domingo, maio 02, 2021

A NOITE DO MAIOR AMOR

Eu era a mesa, eu era o pão e o vinho

A Beata Alexandrina "assiste" à Santa Ceia

Sinto em mim um fogo ardente, queima-me em todos os sentidos; todo o meu corpo está numa fornalha viva. Tenho sede, tenho sede de Jesus. Tenho fome, muita fome das almas. Queria engolir o mundo. Sinto-me cada vez mais mãe dele. Que loucura a minha por aquilo que é engano, lodo e imundície. Sou mãe, mas oh! que louca mãe! Sou mãe que chora a perda de seus filhos, sou mãe que os não pode ver em tanta desordem, em tanta malícia e crimes.

— Ai, meu Jesus, o que hei-de eu fazer, o que posso eu fazer?

Sou mãe que chora tanto, mas lágrimas de sangue que banham toda a humanidade. Não posso resistir a tanta dor, não posso sossegar, quero salvar o mundo, quero sofrer tudo, quero dar por ele a vida. Numa hora em que as ânsias eram insuportáveis, levantei com custo os meus olhos para Jesus e disse-lhe:

— Jesus, Jesus, ai o mundo, ai o mundo, quero salvá-lo. Deixai-me entrar no Vosso Divino Coração com todos os que me são queridos; deixai-me entrar com todos os que me pertencem e às minhas orações se recomendam; deixai-me entrar com todos os sacerdotes e pecadores endurecidos; deixai-me entrar com todos aqueles que me têm ofendido; deixai-me entrar com a humanidade inteira; que ninguém fique fora do Vosso Coração Divino para dele passarmos à nossa Pátria, ao céu que para todos criastes. Quero amar-Vos e louvar-Vos com todos eternamente.

Continuam os meus medos para com as pessoas a quem mais estimo e para com Jesus e a Mãezinha querida. Que horror! Não só tenho medo de Jesus, medo que muitas vezes não me deixa levantar para Ele os meus olhos, mas mais ainda: fujo d’Ele, não quero ouvi-lo, e até me parece que não queria que Ele existisse. Os crimes, o lodo de que estou coberta não podem ser vistos pelos Seus olhos divinos. Estou sempre a ser açoutada com as mesmas varas de espinhos; descarregam-nos sobre mim com toda a crueldade. Nada existe em mim que não seja ferido por eles. E a morte avizinha-se, e os homens não se apressam a dar-me o meu paizinho. Que tristeza! Não sabem o que é a dor. Não sabem quanto valem as luzes e conforto para uma alma.

— Perdoai-lhes, meu Jesus, eu espero em Vós, confio nas Vossas promessas divinas.

Durante esta noite, não sei se ainda era ontem ou se já pertencia a hoje, veio o demónio, veio desesperado, veio com todas as suas maldades, atormentou-me fortemente. Pegou o fogo e deixou em mim as suas manhas e, para disfarçar que não era ele, pôs-se ao largo. Só depois de eu muito lutar e de me parecer que tinha ofendido o meu Jesus tão gravemente é que ele se aproximou novamente a cobrir-me de insultos e a dar-me a afirmação de eu ter pecado. Estava num lago de suores na posição mais violenta que podia estar. Debaixo de mim um medonho abismo e muitos demónios em forma de esqueletos e de animais ferozes a atormentarem uma massa que lá estava. Ó meu Deus, que horror! Não podia falar nem gemer nem dar o mais pequeno movimento ao meu corpo. Pensei:

— Se me não valeis, meu Jesus, morro aqui. Valei-me, valei-me, vinde em meu auxílio.

Serenou tudo. Passados uns momentos, ouvi Jesus a dizer:

— Anjo celeste, anjo bendito, anjo que eu escolhi para guardares, guiares e amparares a minha vítima amada. Levanta-a, leva-a ao seu lugar.

No mesmo instante, sem me causar o mais pequeno incómodo, fiquei na minha posição. Mas logo em dúvidas e grande agonia. Jesus esteve em silêncio uns momentos e depois continuou:

— Não pecaste, minha filha: reparaste, consolaste, honraste o meu divino coração. Para as almas não sofrerem no inferno o que naquele abismo viste é que exijo de ti esta reparação. É fogo de vícios, são paixões, é a carne. Para reparar nesta matéria, só uma virgem inocente, só um enchente de fogo de amor pode apagar o enchente de vícios lodaçais. Tu és o brilho e encanto dos meus olhos. Sossega, sossega, não pecaste. Dá ao meu querido Padre Humberto a abundância do meu amor. Diz-lhe que estou com ele quando ora, quando trabalha, quando guia e encaminha para mim a tua alma. Dá-lhe por mim os meus agradecimentos.

Neste colóquio com Jesus, não tive medo d’Ele, mas logo depois voltei a sentir todo o meu martírio. De manhã cedo, principiei a sentir que Jesus chorava dentro em mim. Eu era a cidade de Jerusalém e era Jesus. Eu era o amor e a ingratidão. Do meu coração saíam para a cidade os mais doces e ternos olhares; eram olhares de chamamento, olhares de compaixão. Mas oh! o que eu via sair dali, que revolta contra mim. Ao cair da tarde, senti-me então reunida com os amigos. Ó meu Deus, o que se passou, que quadros tão diferentes. Eu era Jesus e contra o meu coração sentia inclinar-se alguém e eu era esse alguém. Eu era a mesa, eu era o pão e o vinho; eu era o cálice onde ele era deitado; eu era as taças onde se serviam os alimentos; eu era Judas, era tudo. Eu era a doçura e mansidão de Jesus; era o desespero e traição de Judas. Que noite, que santa noite, a maior de todas as noites, a noite do maior milagre, do maior amor de Jesus. O Seu Divino Coração estava preso àqueles que Lhe eram tão queridos. Para poder partir, tinha de ficar entre eles, para subir ao céu, tinha de ficar na terra; assim o obrigava o Seu amor divino. Sinto necessidade de esclarecer todas estas cenas, mas não posso, não sei. O olhar esgazeado do mau discípulo ficou gravado em meu coração e todo aquele silêncio profundo de saudosas despedidas. A amargura da minha alma não podia subir mais alto. E, para afirmar mais esta amargura, vieram os sofrimentos da terra causados. Juntei a dor ao sacrifício e quantas vezes em espírito, com os olhos fitos no céu, ofereci ao trono divino o cálice da minha amargura. (Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma de 8 de Março de 1945)

domingo, março 01, 2020

INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA


Hoje vou falar-vos da instituição da Eucaristia, tal como a viu a Alexandrina.
Ao iniciar a descrição da Santa Ceia, o evangelista S. Mateus escreveu: «ao cair da tarde, sentou-se à mesa com os Doze.» (Mt. 26,20)
A Alexandrina, falando da mesma cena escreveu no seu Diário: «Ao cair da tarde, senti-me então reunida com os amigos.»
Mas, para que se saiba, e porque a sua humildade prima sempre sobre todo o resto, ela afirma: «Eu era o amor e a ingratidão.»
Nesta descrição que ela faz da Ceia do Senhor com os seus discípulos, devemos ter em conta que falando na primeira pessoa, ela encarna Jesus. Todavia a expressão seguinte parece bem dela: «Ó meu Deus, o que se passou, que quadros tão diferentes.»
Diferente, sim, porque tratando-se duma visão, ela vê um “presente” onde todos os “quadros” — princípio e fim — se apresentam ao olhar da vidente. Daí a dificuldade, por vezes, para explicar o verdadeiro sentido da mesma.
S. João, ao descrever no seu Evangelho esta mesma cena — falando dele mesmo — diz que «um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa reclinado no seu peito.» (Jo. 13,23)
É exactamente o que diz a Alexandrina no seu Diário: «Eu era Jesus e contra o meu coração sentia inclinar-se alguém e eu era esse alguém.»
Alexandrina “era tudo”, neste momento extraordinário do “maior milagre” de Jesus:
«Eu era a mesa, eu era o pão e o vinho; eu era o cálice onde ele era deitado; eu era as taças onde se serviam os alimentos.»
Mas, ela também “era Judas”, aquele que iria pouco depois trair o Mestre.
Apesar disso, e porque o amor é mais forte do que o ódio, ela «era a doçura e mansidão de Jesus», contra a qual vinha ao encontro “o desespero e traição de Judas.”
Mas aquela visão, aquela solenidade invade o coração da Alexandrina e quase a obriga a exclamar:
«Que noite, que santa noite, a maior de todas as noites, a noite do maior milagre, do maior amor de Jesus!»
Depois explica, como sabe, como pode, o que vê:
«O Seu Divino Coração estava preso àqueles que Lhe eram tão queridos. Para poder partir, tinha de ficar entre eles, para subir ao céu, tinha de ficar na terra; assim o obrigava o Seu amor divino.»
Mas a força da visão, o seu conteúdo claro, porque divino, não permite ao ser humano explicar o inexplicável, por isso ela exclama, parecendo triste e talvez um tanto ou quanto desapontada:
«Sinto necessidade de esclarecer todas estas cenas, mas não posso, não sei.»
A Santa Ceia continuou, como escreveu S. Mateus:
«Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: “Tomai, comei: Isto é o meu corpo.”
Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: “Bebei dele todos. Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados.» (Mt. 26, 26-28)
Mas voltemos a Judas, o traidor, que ainda estava presente neste momento. No Evangelho de S. Mateus lemos:
«Enquanto comiam, disse: “Em verdade vos digo: Um de vós me há-de entregar.”
Profundamente entristecidos, começaram a perguntar-lhe, cada um por sua vez: “Porventura serei eu, Senhor?” Ele respondeu: “O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará. O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido!” Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou: “Porventura serei eu, Mestre?” “Tu o disseste”» — respondeu Jesus.» (Mt 26, 21-25)
Desta cena, entre Jesus e Judas, a Alexandrina explica que «o olhar esgazeado do mau discípulo ficou gravado em seu coração», assim como o que se seguiu: “todo aquele silêncio profundo”, motivado pelo anúncio de Jesus e pela partida precipitada de Judas, depois de ter “tomado o bocado de pão”. (Jo. 13,30)
Ela diz ainda que «a amargura da sua alma não podia subir mais alto. E, para afirmar mais esta amargura, vieram os sofrimentos da terra causados pelos pecados. Juntei a dor ao sacrifício e quantas vezes em espírito, com os olhos fitos no céu, ofereci ao trono divino o cálice da minha amargura.» (S. 08-03-1945)
A Alexandrina descreveu mais algumas vezes esta Ceia do Senhor e os seus textos são sempre duma grande precisão evangélica e duma grande emoção, porque ela descreve o que nesse preciso momento “via”.
Afonso Rocha

quinta-feira, abril 05, 2012

A CEIA DO MEU AMOR !

Manjar divino…

Ontem [quinta-feira], com todo este sofrer e a visão do Horto estava desolada e sem nenhuma vida. Senti e vi com os olhos da alma Jesus em tamanho natural, cravado na cruz e dela desprendeu os Seus Santíssimos braços para me abraçar; ficou preso à cruz só pelos cravos, que Lhe cravavam os pés. Com este abraço de Jesus levantei-me, fiquei com a alma mais forte. Veio a hora da ceia. Vi Jesus sentar-se à mesa com os Seus Apóstolos e ao sentar-se falou para Si o Seu divino Coração. Manjar divino; a ceia do Meu amor. Todo o aposento se iluminou e todos os Apóstolos ficaram embebidos naquele amor, que Jesus irradiava pelos Seus divinos olhos, lábios e todo o Seu ser, porque todo Ele era amor. Só Judas desesperado, com o demónio nele e o fogo infernal, já não recebeu o amor de Jesus. Como Ele amava, sofria e sorria! Como via tudo o que O esperava. Dali fui para o Horto; senti o romper das veias, as lágrimas de sangue, toda a agonia. Quando Jesus foi preso, vi Judas em atitude desesperadora a cravar no Coração divino de Jesus, que estava dentro em meu peito um grande e agudíssimo punhal. Por aquela grande ferida saíam raios doirados. Com o punhal cravado e a espalhar amor, assim foi Jesus para a prisão.
(Beata Alexandrina : Sentimentos da alma, 25 de Julho de 1947 - Sexta-feira).