segunda-feira, junho 20, 2011

SENTIMENTOS DA ALMA – 1947

3 de Janeiro de 1947 – (sexta-feira)
Onde estais, meu Jesus? Para onde fugistes de mim? Eu não posso passar sem Vós, meu Jesus. Vede que estou sozinha; vede quanto sofre a minha alma. Ela está cega e muda, não vê nem sabe dizer o que tem. Tremo de pavor e temo vacilar. Não posso dar um passo que não caia num poço sem fundo; este poço dá-me a morte. Mais um ano é passado, meu Jesus, e eu não posso olhar para trás, não vejo outra coisa senão treva atrás e à frente de mim. Como passei o meu tempo? Como o empreguei ao vosso serviço? Que mal, que mal, meu Jesus! Ó vida, ó vida que eu não soube nem sei viver! Que pobre, que miserável, e nada sou! Ah, se eu visse, mesmo muito ao longe, uma luz que me guiasse para vós! Se eu tivesse no meu pobre coração um pouquinho do vosso amor! Nada, nada, meu querido Jesus. São as trevas a luz que eu tenho; é o gelo o meu amor; é a morte que fala, é o silêncio da morte a voz, o brado da minha alma. E o Céu, o Céu, morro de saudades, morro, morro, Jesus. Nada faço para o merecer, nada sofro por vosso amor. A minha oferta, Jesus, a minha entrega a Jesus na noite de Natal foi para mim mais um fogo de vistas e não um amor sincero a Jesus, nem o fim de O consolar. Não sei o que me levou a fazer tal entrega; nem compreendo o que Jesus quer com estes sentimentos da minha alma. Seja o que for, lancei-me nos seus braços divinos como a criancinha sem olhos, sem pernas, sem vontade, sem entendimento. É em espírito, nos seus santíssimos braços que me conservo, com o coração, a cabeça e todo o corpo em sangue, dilacerado pelos espinhos. É nele e com Ele que a alma, momento a momento, vai agonizando. Que me importa não ter luz se a razão e a fé me afirmam que ela existe? Por vosso amor, meu Jesus, deixo passar sobre mim toda a tempestade. Ao terminar os últimos momentos do ano com as luzes acesas rezei o “Te Deum”. Foi o meu acto de acção de graças a Jesus por tudo o que Se dignou enviar-me que me causasse dor ou alegria; por tudo O bendisse pela grande prova do seu amor. Que ignorância a minha! Não soube dizer-Lhe mais nada. Principiei o novo ano tirando à sorte os meus protectores. Calhou-me S. José e Santa Teresinha. Fiquei contente pela sorte que me caiu. Que eles sejam os meus guias por entre as trevas que tanto pavor causam à minha alma. Convidei todo o Céu a interceder por mim e a ensinar-me a amar a Jesus e à Mãezinha. Queria só viver a vida do amor.
Passou no dia 2 o quinto aniversário em que Jesus me disse: «Prepara-te para a luta, que tens que combater aparentemente sozinha». E que luta foi esta, meu Deus! Oh, como esta data me mostrou, por entre as trevas, os caminhos espinhosos que pisei! Ao principiar o ano, principiei a sentir cair sobre mim uma chuva torrencial; esta chuva para desfazer e queimar o meu corpo, sinto-o mesmo como se ele ardesse em chamas, parece que me deixa toda em cinzas de fogo. Estou cansada de tanto sofrer. Mas a alma está como de braços abertos para receber tudo o que Jesus quiser dar-lhe.
Tive um combate tão grande, tão grande com o demónio! O coração, de aflito, bateu tanto e tão fortemente que por último acabou por não viver; fiquei quase morta no pecado. E na morte que me senti não tinha força para sair do pecado nem tinha coração que me levasse ao arrependimento. Mergulhei-me no lodo e nele tinha que morrer. O demónio continuava com as suas feias palavras e indecentes lições. Senti dentro de mim alguém que com todo o rigor lhe fez sinal para se retirar. Retirou-se, ou retiraram-se, porque eram mais que um; fugiram espavoridos. Eu fiquei abismada na minha dor. Não há sofrimento que me lembre tanto de dizer a Jesus que não como os combates do demónio, quando sinto ele a aproximar-se.
Ontem já de noite, quanto mais me esforçava por desviar do Horto o meu pensamento, mais o coração dele se aproximava. O solo do Horto e a justiça de Deus eram para mim as pedras dum moinho. O meu corpo era o grazino de trigo que entre elas era esmagado e moído. O coração, à semelhança duma nuvem que se abre para descarregar a água, abriu-se para descarregar amor e receber toda a dor. Aquela dor fez-me sentir como se o meu corpo suasse água, suasse sangue. Prostrada por terra numa gruta retirada, senti e a minha alma viu um anjo levantar-se. Fiquei mais forte para o que me esperava. Hoje, logo de manhã, estava Jesus no meu coração com a sua santa cabeça cercada de tão agudos espinhos que me feriam também a mim toda quando Jesus Se inclinava sobre mim. E as carnes divinas de Jesus caíam dentro do meu corpo aos pedaços. Ele era açoitado dentro em mim; eu era a coluna, eu fui a cruz. E assim passei o Calvário e cravada nele senti bater brandamente, mesmo a agonizar, o Coração divino de Jesus. E senti que Ele no alto da cruz, no meio da mais dolorosa agonia, nos últimos momentos da sua vida espalhava amor, só amor. o amor estendia-se a todo o mundo como o perfume se espalha. E eu com Ele, por seu amor e pelas almas, agonizava. Fiquei como morta um bom pedaço. Sentia uma vida vinda muito do alto como que a contemplar a morte do meu corpo, mas não era a vida que a ele pertencia. Veio o meu Jesus.
― Minha filha, aos corações que se amam com o amor puro e santo nada há que os separe. Os nossos corações estão unidos: o meu e o teu, no maior amor, no amor divino, no amor de Deus. Não há nada, querida filha, não há nada que nos separe. Mas Eu quero, ao principiar do ano, na primeira sexta-feira, dedicada ao meu divino Coração, uni-los e enleá-los novamente. Quem vem deitar-lhes esses novos enleios é a tua e minha bendita Mãe.
Jesus tomou em suas mãos divinas o seu divino Coração e o meu; uniu-os tanto, tanto! Veio a Mãezinha, enfaixou-os, enleou-os bem com fios finíssimos doirados e conservou-se ao nosso lado. Jesus continuou:
― É um só coração, é um só amor nos nossos corações. É como uma sala com dois compartimentos com a entrada livre. Ambos têm o mesmo poder, o mesmo encanto, o mesmo Céu. Passei para o teu toda a riqueza que o meu contém. Queres saber, filha querida, o significado disto? Entreguei-te o mundo e hoje mesmo renovo a entrega. É por ti, pelo poder e missão que te confiei que este mundo vem a Mim. Passa livre do teu coração para o meu. Tui não podes ver, minha filha, nem sentir com consolação as graças e maravilhas com que te enriqueci; não convém à tua alma e é mais proveitoso para as almas dos pecadores. Enriqueci-te, elevei-te tanto as alturas como é alta a missão que te dei. Enchi-te do eu divino amor e da minha vida divina, para venceres e suportares todos os espinhos que ainda hão-de ferir-te. Não esperes consolações e alegrias: és a minha vítima. Não esperes luz, mas sim conforto e toda a abundância de amor, com a certeza de Eu sempre estar contigo e sempre em ti vencer. Sou o teu Jesus, confia em Mim. Tem coragem, que depressa vai acabar na terra a tua missão. Estou contentíssimo, minha filha, afirmo-te: foi grande a consolação que Me deste, foi grande o número de almas que salvaste com o amor com que suportaste todo o sofrimento que te dei no ano que terminou. Aqui não podes sabê-lo, no Céu o verás.
― Meu Jesus, tudo isso me humilha, mas ainda quero ser por Vós mais humilhada; falai-me dos meus pecados, porque até aqui só falastes do que é vosso. O que tenho eu de bom que não fosse vindo de Vós?
― Eu não quero falar dos teus pecados, porque nas tuas faltas escondo a grandeza e a riqueza que só no Céu será conhecida e verdadeiramente compreendida. E não falta na terra quem te humilhe. Mas coragem, essa humilhação exalta-te e também Eu fui humilhado. Não quero, minha filha, terminar este colóquio sem te prevenir, sem dar ao mundo este aviso: a chuva de fogo que sentes sair sobre ti é por seres a minha vítima; é a chuva que depressa cairá sobre o mundo, se ele não se converter; é o castigo que apenas deixará um pequeno número dos seus habitantes.
― Ó meu Jesus, e não haverá remédio? Que posso eu fazer por ele, para o salvar?
― Sofre, sofre, não é as almas que queres salvar? Os corpos nada vale. Eu te prometo: com os teus sofrimentos e o poder da minha bendita Mãe, as almas serão salvas; os corpos, a sua emenda de vida o fará. Se a vida for pura, se fizerem penitência, são poupados ao castigo. Diz, diz, minha filha, que é Jesus que chama, que é Jesus que pede, que é Jesus que convida: é o Pai que quer salvar os seus filhos. Vem, minha bendita Mãe, cingir os espinhos e a cabeça da vossa vítima.
Vi a Mãezinha com uma coroa de espinhos em suas santíssimas mãos; não sei de onde pegou nela. Em todo o tempo que esteve com Jesus não A vi com ela. Colocou sobre a minha cabeça, senti-me quase morrer.
― Coragem, minha filha, sou Mãe de Jesus, sou tua Mãe também. É com estes espinhos que ainda falta ferir-te que vais acudir às almas. Eu quero estar unida ao Coração do meu Jesus e ao teu, quero comunicar-te o meu amor, a minha ternura e doçura, para melhor poderes atrair as almas a Jesus.
― Vai em paz, disse Jesus. Leva contigo toda a confiança: nada temas: Eu não te falto. Leva a minha riqueza, leva o meu amor, leva as riquezas da tua Mãezinha querida e vai salvar o mundo. Coragem! Avizinha-se o Céu.
― Obrigada, meu Jesus; obrigada, Mãezinha. Vinde comigo, sede a força da minha alma.

Beata Alexandrina Maria da Costa

segunda-feira, abril 25, 2011

SÉTIMO ANIVERSÁRIO DA BEATIFICAÇÃO

Homenagem de Balasar à Beata Alexandrina

O Padre Dário Pedroso durante a homilia
Nesta manhã do dia 25 de Abril de 2011, estive em Balasar para assistir às festividades que comemoravam o sétimo aniversário da beatificação da Alexandrina Maria da Costa, a “doentinha de Balasar” que o Beato João Paulo II elevou às honras dos altares.
A igreja de Balasar estava tão repleta que muitos fieis tiveram que ficar cá fora, ouvindo com muito recolhimento e atenção tudo quanto no templo de dizia, se cantava ou se rezava.
A Eucaristia foi presidida pelo sacerdote Jesuíta, o Padre Dário Pedroso, grande devoto da Beata e actual Director do Apostolado da Oração e da simpática revista para a juventude: Cruzada Eucarística.
A quando da homilia, o Padre Dário traçou, em largas linhas, com muita convicção e de maneira pungente, a vida e a espiritualidade da Beata de Balasar, frisando particularmente os sofrimentos que a Alexandrina livremente aceitou e ofereceu para a conversão dos pecadores.
Lembremo-nos que aquela Eucaristia era oferecida a Deus, de maneira particular, pelos doentes.
Finda a Missa, o mesmo sacerdote procedeu à bênção com Cruzada Eucarística, dos doentes e de todos os assistentes, passando de banco em banco, vagarosamente, num ambiente de grande fervor e ao som dos cânticos que o grupo coral de Balasar cantava sem descontinuar.
Agradeço a Deus por ter podido participar a esta bela cerimónia, que humildemente ofereço a Deus por todos os visitantes dos blogues e sites consagrados à Beata Alexandrina.
Afonso Rocha

quarta-feira, março 30, 2011

TIVE A SANTA MISSA NO DIA 30 DE MARÇO

30 de Março – Aniversário do Nascimento da Beata Alexandrina.

Tive, nestes dias, várias coisas que deviam ser para mim de grande consolação, mas não foram. Tudo recebi indiferente, apenas senti um pouco de conforto na alma. Causa-me horror a minha vida, esta vida que é só morte, escuridão e eternidade. Eu não ando à busca de consolações. Para mim a minha única ansiedade é dá-la a Jesus, é que Ele seja consolado e amado. Eu queria o mundo todo num incêndio de amor. Queria todos os corações a arderem no mesmo amor. Parece que morro por não ver Jesus amado com aquele amor de que Ele é digno.

No dia 27, data do 12º aniversário em que deixei de me alimentar, nunca poderei dizer o que senti em mim. A fome era tão grande, tão grande, era infinita, mas não fome para comer. Estava como que tivesse o peito e o coração abertos, e vinha o mundo como se fossem ondas do mar para junto de mim. Quanto mais tinha, quantas mais ondas vinham, eu mais ia ao encontro delas e maior era a ansiedade de as possuir. A humanidade era o mar e todo esse mar era meu e cabia dentro em meu peito e coração. Sofri amargamente, infinitamente por todo esse mar não entrar em mim. Sofri sozinha, em silêncio. Os meus desabafos foram para Jesus e para a Mãezinha; apesar de sentir a Sua perda, fazia-os com actos de fé. Ao que eu cheguei!... à inutilidade, à eternidade!... Na minha arte de cavadora, os suores regam-me a alma. O corpo num tormento indizível fica banhado nos mesmos suores. À volta do meu sepulcro nascem tantas açucenas, tantos lírios brancos; alguém os rega e cuida deles com canseira e com amor. Não sou eu, não sei quem é. Eu vivo uma vida separada, diferente e indiferente a tudo isto. Tive a Santa Missa no dia 30 de Março. Que confusão e vergonha para mim! Sou acompanhá-la ao Sanctus e elevação do cálix e da hóstia. Que se alegre Jesus na minha tristeza. Não posso dizer mais nada. Vou ver se consigo dizer as palavras de Jesus. Quando hoje se aproximavam as três horas, senti como se alguém me lembrasse o horto e o calvário que em toda a minha vida tinha sido esquecido. Parecia-me bater o pé no chão orgulhosa como se não quisesse um Deus, nem nada superior a mim. Odienta, escarrava o horto e o calvário. Fazia actos de fé para convencer-me que nada era assim. Veio Jesus e disse:

― “O meu Divino Coração é asilo, é refúgio das almas vítimas que se deram inteiramente a mim. Vem, minha filha, vem, esposa querida, toma conforto, recebe vida para tanta vida que a dor consumiu.”

Fui impelida e tão depressa fui ao regaço de Jesus como entrei no Seu Coração divino. Ali repousei mergulhada no Seu amor. Sem saber como, Ele desapareceu-me e em vez do Seu Coração tive por leito o chão duro e por luz as trevas mais densas. Era um bosque, era uma montanha de espinhos, era uma montanha inigualável que me separava de Jesus. Sem poder mover-me, sem poder levantar-me, com o rosto em terra chorava as minhas lágrimas, chamava por Ele e repetia os meus actos de fé. Depois de muito tempo, apareceu Ele junto de mim: tinha rompido a montanha. De todas as Suas chagas, pés, mãos e coração saíam raios como sóis brilhantes. Todos estes raios inclinavam-se para mim. Da superfície das chagas caía sangue com tanta abundância como a água cai no chafariz e transborda. Mexida remexida pelos raios, fiquei de olhos fitos em Jesus.

― Não posso nada, Senhor! Não pude ir ao Vosso encontro!

― “Vim Eu ao teu, minha filha. Estes raios são do meu amor. Este sangue é sangue de dor. Esta montanha é a montanha do vício, montanha do crime. É o mundo, é o mundo que me fere. Sofre, sofre. Se não fossem as tuas lágrimas, a tua dor, o teu amor, o mundo, os pecadores não seriam salvos. Que grande é a tua reparação! Sofre, porque Eu estou contigo. Quanto mais longe Me sentes, mais me possuis. Todo o teu sofrimento são invenções minhas para acudir aos sacerdotes, para salvar os pecadores. Repara-me por eles.

Recebe agora a gota do meu Divino sangue. É a minha vida que te faz viver, é o meu amor, o teu amor às almas, o teu amor à cruz. O que te fiz sofrer no aniversário do teu jejum é nem mais nem menos o meu sofrimento, a minha fome, a minha ansiedade das almas. Fica na tua cruz, fica na tua missão salvadora. Repete os teus actos de fé; em tal sofrimento só com eles te agarras a Mim sem Me veres, sem Me sentires. Coragem! Coragem!”

Fiquei logo nas trevas sem saber de Jesus a fazer-Lhe os meus pedidos.
—
(Beata Alexandrina: "Sentimentos da alma" 2 de Abril de 1954).

terça-feira, março 29, 2011

A MINHA ALMA TORNAVA-SE SÁBIA...

  • 1º de Janeiro de 1954 – Primeira Sexta-feira
 
Perdi o meu maior tesouro. Perdi a Jesus, perdi a Mãezinha. Parece, sinto como se Eles morressem para mim. Não posso pensar na triste, na dolorosíssima separação de sexta-feira. Triste mortório, mas é tal a diferença como da terra ao Céu. Custou mais, infinitamente mais, a separação de Jesus e da Mãezinha, este sentimento como se Eles morressem para mim, do que quando perdemos e nos separamos dos nossos entes queridos.
Ai, meu Deus, ai, meu Deus, só ao Céu é dado compreender esta dor e àqueles que a sentem. Apenas levanto um bocadinho do véu e não consigo mais nada. Foi tal a dor que me pareceu ficar sem coração, não sei se desfeito pela dor, se Jesus e a Mãezinha mo levaram. O que sei é que ficou em mim um vazio tão grande que só o Céu mo podia encher. E depois o sofrimento de cada dia e cada noite resultado de tudo isto. Chorei muitas vezes e muitas lágrimas. A dor levava-me a levantar a voz, mas logo me vencia e chorava em silêncio. Que as minhas lágrimas sejam actos de amor para Vós, Jesus e Mãezinha! Ai de mim! Perdi os meus Amores! Mas logo a confiança obrigava o coração a falar. Creio, creio que não os perdi. Todo o meu martírio reverta em favor das almas. Sou a Vossa vítima. Creio, creio, confio que não estou só. Ai quanto custa dizer: Creio! Sem crer; confio! Sem confiar.
Neste momento, a minha alma sangra de dor por não ser capaz de dizer como foi a minha separação e a ter necessidade de o dizer. Perder a Jesus e a Mãezinha foi perder o Céu. Todo o meu ser se retalha e, no meio dela, vou dizendo sempre: creio, creio, meu Deus, eu creio! Nestes dias tão dolorosos, de tão grande martírio para o corpo e de tanta angústia para a alma, ainda veio mais um tormento para o meu pobre coração. Várias cartas me chegaram às mãos a dizerem-me que o senhor Bispo de Aveiro tinha proibido a vinda aqui dos sacerdotes. Punhais tão dolorosos! A minha alma tinha a visão da consequência desta ordem. Tanta humilhação! Se eu pudesse reparar tanto escândalo que se dá! Tantas más interpretações por causa disto! A minha oferta de vítima não cessa diante do Senhor. Por Vosso amor, tudo! Faça-se a Vossa vontade! O meu túmulo, o meu túmulo, a minha arte de cavador vai continuando. Cobri-me eu mesma com a terra do meu sepulcro. Fui eu que me cobri, fui eu que desapareci, que me enterrei. Estou tão funda, tão funda!... Parece que toda a terra da humanidade me cobre e os suores da alma vão continuando assim como a eternidade e a inutilidade. Não conta, não anda a eternidade. Que pavorosa ela é! Se Jesus não velasse, só ela me tirava a vida. Tanto sofrer para tanta inutilidade! Uma vida de tanta dor para nada ter que oferecer a Jesus. Estou de mãos vazias. As minhas ânsias tão infinitas, tão infinitas não as posso fazer compreender. Quero o mundo, quero o mundo dentro do meu coração. Quero todos os corações, quero todas as almas, quero levá-las com o meu sangue. Quero amar a Jesus pelo mundo inteiro. Queria morrer, a cada momento, até ao fim dos séculos e a cada momento dar o sangue até à última gota, para que nenhuma alma se perdesse, nem nenhum coração deixasse de amar a Jesus. Queria, sim, dar todo o meu sangue e a vida, a cada momento, até ao fim dos séculos para evitar um só pecado. 
Ai, ai, não posso consentir que Jesus seja ofendido! Eu não tive horto. Vou dizer o melhor que puder o que senti. 
Sobre o solo do horto esvoaçava uma pomba. Tinha sempre no seu biquito uma gota que deixava cair sobre a terra e se transformava em orvalho fecundador. Uma gota caía, logo outra aparecia. Este orvalho era celeste. Era o maná que alimentava, que dava a vida, dava luz e sabedoria. Uma vida no ar, outra vida na terra. A minha alma tornava-se sábia, compreendia tudo isto, tudo o que era do Céu. A minha dor, a minha dor humana vivia-a, sentia-a o mais dolorosa que se pode imaginar. 
No calvário de hoje, a mesma pomba continuava a voar, a deixar cair as mesmas gotas que se transformavam em orvalho, orvalho celeste e a dar a mesma luz e vida de sabedoria. Eu cá em baixo levava a cruz da minha vida dum martírio indizível. Não vi Jesus, não o senti. Não soube que Ele expirasse. Veio alguém que juntou ao meu coração, à minha vida terrestre a vida divina. Essa mesma vida comunicava-se a mim como quem injecta. Desapareceu a minha vida terrena para viver a outra. O coração e a alma fortaleceram-se mais. A casa do meu interior tinha mais luz. Diz-me Jesus nesta altura:
 
– “Sou o Senhor do mundo, o Senhor da paz, o Senhor da fé e da confiança. Crê, crê, vive da fé. É colóquio de fé.”
 
Creio, creio, Jesus. A gota de sangue Jesus não disse que ma ia dar; senti o choque e o meu coração ficou unido ao outro Coração, a chupar dele como a criancinha no seio de sua mãe. Novas palavras de Jesus.
 
– “Coragem! Vive para as almas. Recebe as carícias de minha Bendita Mãe. Sou Eu o portador delas, já que amanhã Ela não te vem falar.”
 
– Obrigada, Jesus. Dizei à Mãezinha o meu muito obrigada.
 
Não disse tudo da minha separação. Que saudade das carícias da Mãezinha e saudade da Santíssima Trindade. Toda Ela me abraçava com a Mãezinha, e o Divino Espírito Santo em forma de pomba irradiou-me toda com a Sua luz, que iluminou todo o meu ser; prendia-me a Ele com fitas de várias cores que d’Ele pendiam. O que foi! Quanto custou! Não digo nada. Fico na minha dor e na minha eterna saudade.
 
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 1954)

sexta-feira, março 25, 2011

SE EU TIVESSE NO MUNDO MAIS DUAS VITIMAS COMO TU!...

26 de Março de 1954 – Sexta-feira

A minha eternidade, a minha eternidade, uma eternidade sem Deus, uma eternidade sem a Mãezinha. Que saudades, que pena desta perda.

– Jesus, não vos perdi! Mãezinha, não Vos perdi! Creio, creio, creio sempre que hei-de ser Vossa no tempo e na eternidade.

Tenho de repetir isto muitas vezes, mas custa-me imenso a repetir. Eu que odeio tanto a mentira parece-me mentir a mim mesma, mentir ao mundo, mentir a Deus constantemente. Sinto que perdi a minha união com Deus. Gostava tanto de viver unida a Ele. Cheguei a ter consolação na minha união constante. Cheguei a ter conforto e hoje não tenho nada. Que Jesus se console e tire para Ele todo o conforto. Os meus males tão agravados continuam a não me deixar ditar. Faltam-me as forças, apesar das minhas trevas, ignorância, inutilidade, morte e eternidade, eu sinto uma necessidade mais que imensa, infinita de abrir à humanidade o meu peito e o coração para que ela leia o que está lá dentro, para que ela veja o amor com que é amada. Não é minha esta leitura, não é meu este amor.

– Ai, meu Deus! Ai, meu Jesus! Como eu queria falar disto, como eu queria falar de Vós!

Parece que estou louca por Jesus e pelas almas. Que tormento para a minha alma não poder rezar por falta de forças e sentir que não vivo unida ao meu Senhor, que tudo perdi para sempre. O meu túmulo existe sempre, os suores do corpo e da alma e aquele ofício que nunca mais poderei deixar, ofício de cavador, no abismo profundo, indizível, vou continuando com a minha velhice, velhice eterna. A morte vai indo, vai-se aproximando. Já sinto bem a lança que me há-de trespassar o coração, e o sangue corre pela montanha do calvário, sem eu querer saber dele, nem do Horto, sem me aproveitar dos seus frutos. Recebo sofrimentos, espinhos de toda a espécie. Só Jesus pode levar a minha cruz. Eu não sou capaz. Chamei por Ele no desprezo do meu calvário, fiz actos de fé, arrastei-me a todo o custo à Sua procura. Ele apareceu-me, veio ao meu encontro. Pegou-me em ambas as mãos, levantou-me do meu desfalecimento; de mãos dadas fiquei de joelhos junto d’Ele ao ouvir a Sua voz divina que assim me falava:

– “Minha filha, e esposa querida, sou teu Pai e Esposo da tua alma. Sou o teu conforto, o teu amparo e a tua vida. Não me perdeste, nem jamais perderás. Repete-me com frequência, mesmo em espírito, muitos actos de fé. Tu não perdeste a união comigo. Tu viés só de mim, em mim, unida a mim. Confia! Confia! Vem descansar nos meus braços.”

– É de joelhos, Jesus, que eu quero estar unida a Vós e chorar as minhas lágrimas. Sou nada, sou pobrezinha, só Vos tenho ofendido. Não sei viver para Vós.

De nada adiantou eu querer ficar de joelhos. Jesus sentou-se. Eu não fui para os seus braços. Fiquei sentada junto d’Ele; tive por travesseira os Seus joelhos, amparada pelas Suas divinas mãos. De pois de um pouco de silêncio, Ele continuou:

– “A tua missão sublime, a mais difícil, a mais árdua, mas a maior de todas as missões da terra. Tem-la desempenhado bem conforme a minha divina vontade. Se Eu tivesse no mundo mais duas vítimas como tu!... Mas não tenho, não tenho!... Sofre, sofre!...”

Falharam-me os joelhos de Jesus, falhou-me a Sua presença. Fiquei caída nas trevas mais pavorosas. Não fui capaz de me levantar mais. Fui-me arrastando, repetindo os meus actos de fé. Depois de muito lutar e caminhar de rasto, encontrei-O novamente:

– “Estou aqui, minha filha. Dor e sangue, dor e sangue! Só assim as almas são salvas. Enriqueci-te, dei-Me todo a ti com todas as minhas graças e tesouros, com toda a minha vida para por ti Me dar a elas. Deixa-as aproveitar. Dá-lhes tudo quanto elas quiserem receber. Pus-te no mundo para as almas. Tu és a sua luz e farol. Todos os meus prodígios em ti são meios de salvação. Pobres daqueles que não querem ver! O teu Céu está próximo! A minha causa há-de triunfar com todo o brilho e pompa. Uno ao teu o meu coração. Vou dar-te a gota do meu Sangue. Vou dar-te nova vida para tudo o que a dor consome. Confia em Mim! Acode ao mundo! Canso-Me de sustentar a justiça do meu Pai.”

– Vós não Vos cansais, Jesus. Perdoai a todos. Lembro-Vos as minhas intenções

Quando assim falava, já Jesus tinha fugido.

– Creio, creio, apesar de sentir que nada passou por mim.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 1954)

terça-feira, março 22, 2011

APARIÇÃO DE S. JOSÉ

  • Meteu-me uma açucena na mão...

Jesus veio como de costume comunicar-me a Sua vida. Vinha acompanhado de S. José. A Sua mão esquerda pegava na mão direita dele. S. José na sua mão esquerda trazia uma grande açucena branca. Ao chegar junto de mim, beijou-me dos dois lados do rosto e disse-me:

– Aceita um ósculo meu, outro da minha Esposa, da tua Mãezinha a quem tanto amas. Faz que ela seja amada, propaga a minha devoção, com isso muito me consolas.

Meteu na minha mão direita o pé da açucena, fez que ela tombasse sobre a mão e braço esquerdo e disse-me:

– Aceita, ofereço-ta, é tua.

Osculou-me novamente, com toda a seriedade e respeito e desapareceu; ficou só Jesus e teve então Ele a palavra e disse-me:

– “Essa oferta, essa açucena, minha filha, é o símbolo da tua vida de pureza. Confia, não duvides, é Jesus que to afirma. O que fizeres à minha Bendita Mãe e a meu Pai adoptivo, a Mim o fazes. Todo o culto e amor a Eles dedicado, aceito-o como para Mim.”

Fiquei sozinha; Jesus também desapareceu. Não podia lutar; não tinha forças, não via, nem actos de fé sabia fazer. Neste abandono demorei-me, mergulhada nas trevas por algum tempo.

Apareceram os dois companheiros novamente. S. José trazia nos braços o manto e a coroa da Mãezinha. Foi ele a colocar-mo aos ombros e a coroa na cabeça.

– Aceita nova oferta da minha Esposa: o Seu manto e coroa de Rainha. O teu reinado é o mundo, são as almas, são os pecadores.

Sem mais nada, escondeu-se. Jesus continuou:

– “O demónio tem sobre ti toda a sua raiva infernal. É grande o estrago que lhe dás. Fazes mais mal à sua obra satânica pelo teu sofrimento do que todo o bem que na humanidade se faz. Está raivoso, raivoso, serve-se de tudo, serve-se dos homens para a minha causa destruir. Nunca, nunca seus infernais intentos se satisfazem. Sofre tudo, minha filha, sofre toda a tua indizível dor e tormento. Repara-Me, repara-Me por todos os sacrilégios e confissões nulas.”

– Jesus, eu amo-Vos, sou a Vossa vítima.

– “Recebe a gota do meu Divino Sangue. Vive, vive a minha vida, acode ao mundo, acode aos pecadores, loucos a correrem para o inferno.”

Sem mais uma palavra, fugiu-me o meu Jesus. Deixou-me tão triste, tão triste, em tanta dor, em tantas trevas que mal pude fazer os meus pedidos. Para fazer actos de fé tinha de mentir-me a mim mesma. Que Ele seja bendito por tudo.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma de 19 de Março de 1954)

domingo, março 06, 2011

MUITO CHEGADINA A JESUS

Como a mãe que se deita ao pé do filhinho para o adormecer

Grande sofrimento, triste e doloroso. Ai, meu Jesus, não sei exprimir quanto sofro, não compreendo tal dor. Choro, choro sempre a perda do meu corpo, a morte da minha alma. A cada passo sinto em mim como que uma bomba que vai explodir tudo. Tremo apavorada. Prenderam-me os voos; estou como a pombinha na escuridão, sem ver caminho, batendo as asas no ar sem poder descer, sem poder subir, de asas presas, temerosa de cair desastradamente.

Ó meu Deus, que será de mim? Vede bem o meu sofrimento, tende compaixão, compadecei-Vos de quem só confia em Vós.

Hoje de manhã cedo era tal a dor que sentia em mim, era tal a repugnância e a vergonha que me causava o ver que todo o povo se preparava e esperava novos acontecimentos. Parecia-me ver grupos aqui e acolá fazendo comentários. Meu Deus, espera-me a sexta-feira! Que medo! Tudo isto que eu sinto e vejo por Vós passou, meu Jesus. São sofrimentos Vossos, que tanto sofrestes por meu amor.

Os meus olhos parecem penetrar no íntimo de toda a multidão que ocupa as ruas. A minha alma sente tudo. Ao lado de uma montanha, perto de entrar numa cidade, a figueira amaldiçoada por Jesus. Mais abaixo alguém traz à cabeça uma bilha de água. Há encontros, falam, preparam-se para novos acontecimentos. Vi tudo, senti tudo. Oh, quanto sofria em silêncio! A figueira de que acima falei, tive o conhecimento que a vi verde, florescida e hoje já seca, como lenha velha para o lume. Eu não pensava em nada disto, antes pelo contrário; quando principiava a sentir estes sentimentos de alma, esforçava-me por me distrair e fazer de conta que nada sentia. O meu esforço era inútil, de cada vez se avivavam mais estes sentimentos de alma. Este meu esforço de nada querer sentir não é para fugir à dor nem à vontade do meu Jesus, mas sim o receio de ser confusão minha ou ilusão. Estou convencida que não é. Nosso Senhor, ao ver tal receio e medo de engano não podia deixar-me enganar. Ninguém como Ele sabe que não quero enganar ninguém.

As manhas do maldito continuam cada vez mais, parece que a sua malícia refina. Diz-me o que há de pior. Ai, meu Deus, que coisas tão feias! Blasfema contra Nosso Senhor, acusa-O como réu de culpa e faz que eu diga tudo, ou parece-me que digo e depois afirma-me que sou eu e deixa-me quase nessa persuasão. Só com Nosso Senhor a alma e o pobre corpo pode resistir a tanto. O coração de aflito faz ruído enorme, com o receio de pecar e dizer tantas coisas contra o meu Jesus. Na última luta fiquei quase sem vida. Murmurava:

Ó meu Jesus, ó minha querida Mãezinha! Meu Deus, que triste vida a minha! Que será de mim?

Não podia mover-me e necessitava de alívio. Veio Jesus com as suas santíssimas mãos, colocou-me na posição que eu desejava, cobriu-me de carícias e como a mãe que se deita ao pé do filhinho para o adormecer, disse-me :

— Descansa comigo. Não é triste a tua vida, filhinha, é vida de reparação e sacrifício. Alegra-te comigo, com a consolação que Me dás. Não pecas, não, minha amada.

Senti logo paz na minha alma. Muito chegadinha a Jesus, depressa pude adormecer, coberta com as suas carícias, abrasada no seu amor. (Beata Alexandrina: Sentimentos da Alma, 7 de Dezembro de 1944).

domingo, fevereiro 06, 2011

SENTIMENTOS DA ALMA

COMO COMEÇAM OS ESCRITOS DA ALEXANDRINA

Balasar, 19 de Fevereiro de 1942

Meu bom Jesus :

Sinto o meu coração retalhado pela dor. Terei ainda mais golpes para ferir-me ? Faça-se a vossa vontade. Cravada na cruz convosco, escorrendo sangue e na maior agonia, vejo-me e sinto-me de todos abandonada. Não posso viver no mundo, tenho medo. Jesus vinde depressa, vinde, levai-me para o Céu. Os homens tentam desviar de mim, arrancaram-me para sempre aquilo que me servia de alívio, que podia dar-me conforto. Tiraram-me o meu pai espiritual, proíbem-no de me escrever a mim e de eu lhe escrever a ele. Permiti-me vós, ao menos, meu Amado, desabafar convosco. Estou sozinha no meio da tempestade e ela não serena. Abro-vos o meu pobre coração, só vós sabeis ler o que nele está escrito com dor e sangue, só vós compreendeis e podeis avaliar o meu sofrer. O mundo desconhece-o, os homens nada compreendem. Deixai-me dizer a vós o que vós dissestes ao vosso Eterno Pai : Perdoai-lhes, meu Jesus, porque eles não sabem o que fazem, estão ceguinhos, falta-lhes a vossa luz divina : iluminai-os a todos e a todos dai o vosso amor. O Jesus, todos os meus pressentimentos me tem saído certos. Poderão eles ainda proibirem que vos receba sacramentalmente ? Ai de mim, seria como o golpe que me tiraria a vida se vós com o vosso divino poder me não conservásseis. Digam o que disserem, façam eles o que fizerem, o que nunca conseguirão é tirar-me desta união íntima com vós. Roubarem-me Jesus Sacramentado, sim, não duvido que o façam ; tirarem-me do meu coração o tesouro riquíssimo que eu adora, que eu amo acima de todas as coisas, o Pai, o Filho, o Espírito Santo, nunca, nunca os homens o conseguirão : teriam para isso fazer-me viver sem coração e sem alma. Impossível ! Venha a força do mundo inteiro, seja ela toda contra mim : separar-me desta grandeza infinita, deste amor infindo, nunca, só o pecado, só esse me pode separar. Mas eu confio plenamente em vós, é de vós, meu Jesus, que eu tudo espero, embora que o sentir da minha alma me chegue quase a persuadir que me engano a mim mesma. Sinto que não vos amo, sinto que nada de vós posso esperar por tão grande ser a minha miséria. Que confusão a minha ! Que grande é o meu desfalecimento ! Levantai-me, meu Jesus, ajudai-me, assim pregada na cruz, a subir todo o caminho doloroso do calvário. Em cada degrau que passo quero deixar escrito com o sangue que das minhas feridas corre : Jesus, Jesus, não vejo o Céu, retirou-se de mim todo aquele azul do firmamento, perdi, roubaram-me tudo o que era vida. Só sinto dor, só sinto e vejo a morte. Não tenho a quem recorrer : só por vós e pela Mãezinha posso chamar. Pobre de mim ! Quantas vezes com a minha dor não me atrevo a olhar-vos ! Ouvi-me sempre, mesmo que eu não vos chame ; dizei à Mãezinha que me ampare, dai-me toda a força do Céu. Todos os ruídos que oiço recordo o meu Paizinho espiritual. Será elle que vem ? Que vida de ilusão. Cada pensamento que me vem à ideia deste tão duro penar são setas que se espetam no meu coração, são açoites que me despedaçam o corpo e a alma. Que mal fiz eu, que crime pratiquei ? O meu Jesus, se não fosse por vosso amor, se não fosse o desejo ardentíssimo de vos dar as almas, recusava-me a tudo. Queria amar-vos muito, nunca ofender-vos para ganhar o Céu, mas não queria a crucifixão, não queria ouvir na terra a vossa doce e meiga voz, não queria ver a vossa Divina Imagem nem dolorosa nem gloriosa ; tinha uma eternidade inteira para contemplar-vos e para ouvir-vos falar. Perdoai-me os meus desabafos, Jesus, bem vêdes que só convosco posso desabafar. Já que me escolhestes para a dor, ja que me destinastes para tão grandes martírios, eis a tua vítima, eis a tua escrava, Jesus ; fazei de mim o que quiserdes, a tua benção, meu Amado. Diz à Mãezinha que me abençoe e ptoteja. Sou tua mais indigna filhinha, pobre

Alexandrina

domingo, janeiro 16, 2011

JOÃO PAULO II

Papa, (Beato)
1920-2005
Papa de 1978 a 2005

O Papa que Beatificou a Beata Alexandrina de Balasar


Karol Józef Wojtyla, conhecido como João Paulo II desde a eleição à Sede Apostólica em Outubro de 1978, nasceu na pequena cidade polaca de Wadowice, situada a 50 km de Cracóvia, em 18 de Maio de 1920. Ele era o mais novo de três filhos nascidos de Karol Wojtyla e Emília Kaczorowska. Sua mãe morreu em 1929. Seu irmão mais velho Edmund, médico, morreu em 1932 e seu pai, um antigo oficial do exército morreu em 1941. Uma irmã, Olga, tinha morrido antes de ele nascer.

Ele foi baptizado em 20 de Junho de 1920 na igreja paroquial de Wadowice pelo Padre Franciszek Zak, fez sua Primeira Comunhão aos 9 anos e foi confirmada em 18 anos. Após a formatura no liceu de Marcin Wadowita de Wadowice, matriculou-se em Cracóvia n Universidade Jagiellonian em 1938 e numa escola de teatro.

As forças nazis em 1939, fecharam a Universidade e o jovem Karol teve de trabalhar numa pedreira (1940-1944) e, em seguida, na fábrica química Solvay para ganhar a sua vida e para evitar de ser deportado para a Alemanha.

Em 1942, consciente da sua chamada ao sacerdócio, começou a cursar no Seminário clandestino de Cracóvia. Foi nesse mesmo período um dos promotores do Teatro Rapsódico, também ele clandestino.

Após a Segunda Guerra Mundial, ele prosseguiu os seus estudos no Seminário Maior de Cracóvia, uma vez que havia reaberto, e na Faculdade de Teologia da Universidade Jagiellonian. Foi depois ordenado sacerdote pelo Arcebispo de Cracóvia Adam Sapieha no dia 1 de Novembro de 1946.

Pouco tempo depois, o Cardeal Sapieha enviou-o para Roma onde trabalhou sob a orientação do francês Dominicano, Garrigou-Lagrange. Ele terminou o seu doutoramento em teologia em 1948 com uma tese sobre o tema da fé nas obras de São João da Cruz (Doctrina de fide apud Santuário Ioannem um Cruce). Nessa época, durante suas férias, ele exerceu o seu ministério pastoral entre os imigrantes polacos da França, Bélgica e Holanda.

Em 1948 voltou à Polónia e foi vigário de diversas paróquias de Cracóvia, bem como capelão dos estudantes universitários. Esse período durou até 1951 quando ele começou os seus estudos de filosofia e teologia. Em 1953 ele defendeu uma tese sobre “Avaliação da possibilidade de fundar uma ética católica sobre o sistema ético de Max Scheler”, na Universidade Católica de Lublin. Mais tarde ele tornou-se professor de teologia moral e ética social no Seminário Maior de Cracóvia e na Faculdade de Teologia de Lublin.

Em 4 de Julho de 1958, foi nomeado bispo titular de Ombi e auxiliar de Cracóvia pelo Papa Pio XII, e foi consagrado em 28 de Setembro de 1958, na Catedral de Wawel, Cracóvia, pelo Arcebispo Eugeniusz Baziak.

Em 13 de Janeiro de 1964, foi nomeado arcebispo de Cracóvia pelo Papa Paul VI, que o fez cardeal a 26 de Junho de 1967 com o título de S. Cesareo in Palatio uma diaconia elevada ao grau presbiteral pro illa vice. Para além de tomar parte no Concílio Vaticano II (1962-1965) onde ele fez uma importante contribuição para a elaboração da Constituição Gaudium et Spes, o Cardeal Wojtyla participou em todas as assembleias do Sínodo dos Bispos.

No decorrer do segundo Conclave de 1978, os cardeais elegeram-no Papa no Conclave de 16 de Outubro de 1978, e ele tomou o nome de João Paulo II. Em 22 de Outubro, o Dia do Senhor, ele inaugurou solenemente o seu ministério petrino como o 263º sucessor do apóstolo Pedro. O seu pontificado, um dos mais longos da história da Igreja, durou quase 27 anos.

Impulsionado pela sua solicitude pastoral para com todas as Igrejas e por um sentimento de abertura e de caridade para toda a raça humana, João Paulo II exerceu o seu ministério petrino com um incansável espírito missionário, a ela dedica toda a sua energia. Ele fez 104 visitas pastorais fora da Itália e 146 no interior da Itália. Como bispo de Roma ele visitou 317 das 333 paróquias da cidade.

Ele tinha mais reuniões do que qualquer um de seus antecessores com o Povo de Deus e com os líderes das nações. Mais de 17 600 000 peregrinos participaram nas audiências gerais realizadas cada quarta-feira (mais de 1 160), sem contar outras audiências especiais e cerimónias religiosas [mais de 8 milhões de peregrinos durante o Grande Jubileu do Ano 2000], e os milhões de fiéis que ele conheceu durante visitas pastorais na Itália e em todo o mundo. Não podemos esquecer também as numerosas personalidades públicas que ele enfrentou durante 38 visitas oficiais, 738 audiências e reuniões com chefes de Estado, e 246 audiências e reuniões com os primeiros-ministros.

O seu amor aos jovens levaram-no a estabelecer as Jornadas Mundiais da Juventude. Os 19 JMJ durante o seu pontificado, reuniram milhares de jovens de todo o mundo. Ao mesmo tempo os seus cuidados para com a família foram expressos nos Encontros mundiais de Famílias, que ele iniciou em 1994.

João Paulo II conseguiu estimular o diálogo com os judeus e com os representantes de outras religiões, a quem ele várias vezes convidada para reuniões de oração pela paz, especialmente em Assis.

Sob a sua orientação a própria Igreja aproximou-se do terceiro milénio e comemorou o Grande Jubileu do ano 2000, de acordo com as instruções dadas na Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente. A Igreja, em seguida, enfrentou a nova época, recebendo instruções na sua Carta Apostólica Novo millennio ineunte, na qual ele indicou aos fiéis o seu futuro caminho.

Com o Ano da Redenção, o Ano Mariano e do Ano da Eucaristia, ele promoveu a renovação espiritual da Igreja.

Ele deu um impulso extraordinário às Canonizações e Beatificações, para mostrar inúmeros exemplos de santidade de hoje, como um incentivo para as pessoas do nosso tempo. João Paulo II participou em 147 cerimónias de beatificação durante as quais proclamou 1338 Beatos; e 51 canonizações para um total de 482 santos. Proclamou Santa Tereza do Menino Jesus Doutora da Igreja.

Ele aumentou consideravelmente o Colégio dos Cardeais, criando 231 Cardeais, mais um in pectore cujo nome nunca foi revelado, em 9 consistórios. Presidiu igualmente seis reuniões plenárias do Colégio dos Cardeais.

João Paulo II presidiu 15 Sínodos dos Bispos: seis Assembleias Gerais Ordinárias (1980, 1983, 1987, 1990, 1994 e 2001), uma Assembleia Geral Extraordinária (1985) e oito Assembleias Especiais (1980,1991, 1994, 1995, 1997, 1998 (2) e 1999).

Os seus documentos mais importantes incluem 14 Encíclicas, 15 Exortações Apostólicas, 11 Constituições Apostólicas, 45 Cartas Apostólicas.

Promulgado o Catecismo da Igreja Católica, à luz da tradição, interpretada com com autoridade pelo Concílio Vaticano II. Também reformou os Códigos de Direito Canónico orientais e ocidentais, criou novas instituições e reorganizou a Cúria Romana.

A título privado, como Doutor, também publicou cinco livros: “Entrar na Esperança” (Outubro de 1994), “Dom e Mistério, sobre o quinquagésimo aniversário da minha ordenação como sacerdote” (Novembro de 1996), “Tríptico romano” meditações poéticas (Março de 2003), “Levantemo-nos e vamos” (Maio de 2004) e “Memória e Identidade” (Fevereiro de 2005).

À luz de Cristo ressuscitado dentre os mortos, em 2 de Abril de 2005, às 9,37 h, quando já se entrava, na Oitava de Páscoa e domingo da Divina Misericórdia, o amado Pastor da Igreja, João Paulo II, partiu deste mundo para o Pai.

A partir dessa noite até 8 de Abril, data do funeral do falecido Pontífice, mais de três milhões de peregrinos chegaram a Roma para prestar homenagem aos restos mortais do Papa. Alguns deles com mais de 24 horas na fila para entrarem na Basílica de S. Pedro.

Em 28 de Abril, o Santo Padre Bento XVI anunciou uma despensa no período normal de espera de cinco anos antes de começar a causa de beatificação e canonização no caso de João Paulo II. A causa foi oficialmente aberta pelo Cardeal Camillo Ruini, vigário geral para a Diocese de Roma, em 28 de Junho de 2005.

Será beatificado em Roma pelo Pape Bento XVI, seu sucessor, no dia 1 de Maio de 2011.

sábado, janeiro 15, 2011

OS SANTOS NÃO SÃO TRISTES!...

Humor da Beata Alexandrina


O Padre Humberto Pasquale, Deolinda, a irmã da Alexandrina
e a Beata Alexandrina

Pelos seus livros sobre Alexandrina, vê-se que o P.e Humberto era um santo homem. Por uma fotografia sua, percebe-se que deveria ser pessoa divertida, o que já nos foi garantido por alguém que o conheceu. Veja-se como neste excerto envolve a Alexandrina na brincadeira:

«O Engenheiro Sérgio Guidi contou:

“Em 1946 ou 1947, — frequentava eu os primeiros anos da Universidade — fui com o Sr. Padre Humberto visitar a Alexandrina, a Balasar. Tinha ouvido falar dela e, sinceramente, não me sentia pro¬penso a acreditar no que se dizia, embora as pessoas que me falavam fossem do maior respeito e confiança. Fui a Balasar para dar um passeio e, como se diz, de pé atrás. A primeira impressão que tive, ao ver a Alexandrina, foi de simpatia; ela emanava simpatia. Dir-se-ia que não sofria, no seu leito de dor. Prestes a sair, estávamos já na rua, manifestei as minhas dúvidas ao Sr. Padre Humberto.

Queres experimentar? — disse-me ele — Eu, deste local, vou dar mentalmente ordem à Alexandrina de te cumprimentar, embora paralítica dos braços e das mãos.

Subi, sozinho, ao quarto da Alexandrina e, estendendo-lhe a mão, disse:

Até qualquer dia, Alexandrina!

Ela, como se quebrasse umas algemas, soltou os braços, pegou na minha mão e apertou-ma com tal força que eu não gritei por vergonha. Sorrindo, disse-me:

Aquele maroto do Sr. Padre Humberto disse alguma coisa?... Quer fazer um pacto comigo? Vamos rezar todas as noites uma Ave-Maria um pelo outro.

O pacto foi feito e, ainda agora (1965), em família, rezamos sempre a Ave-Maria antes de nos deitarmos. Sem dúvida, é a esta Ave-Maria e à protecção de Nossa Senhora que devo tantos favores e o ter-nos livrado de tantos perigos”.»

EU ESTOU BOA PARA CASAR!

O humor da Beata Alexandrina

A vida da Beata Alexandrina é já bem conhecida dos portugueses e brasileiros, como é sabido, graças ao Sítio oficial onde estão publicadas não só biografias da “Doentinha de Balasar”, mas também grande quantidade dos seus escritos e particularmente, nestes últimos tempos, muitas páginas do seu Diário, “Senti-mentos da alma”.

Lá se encontra igualmente a sua Autobiografia já traduzida em diversas lín-guas. É deste documento importante, escrito pela Beata em 1940 por ordem expressa do seu Director espiritual de então, o Padre Mariano Pinho, que vamos tirar a “matéria” para este curto trabalho que de antemão lhe oferecemos, pedindo-lhe igualmente que interceda o divino Espírito Santo de nos iluminar com a sua luz penetrante, de maneira que prestando homenagem à esposa, possamos pela mesma ocasião prestar ao Esposo celeste uma vibrante e fervorosa prece de acção de graças.

Estamos no período mais critico, da vida da Alexandrina, quanto à sua saúde e cura eventual.
Na verdade, depois do salto que dera da janela da sala para o quintal, nunca mais tivera saúde, mesmo depois de ter consultado numerosos médicos e até ter mesmo feito diversas promessas: o Senhor queria-a para Ele.

Na Autobiografia ela escreve:

« Nosso Senhor aliviou-me de um, mas deu-me outro sofrimento maior ain-da. Só dele teve conhecimento Jesus e, alguns anos mais tarde, o meu Pai es-piritual. »

Do sofrimento “maior ainda” de que aqui fala, não falaremos nós, por que não está no âmbito deste humilde trabalho, por isso mesmo recomendamos aos leitores de consultarem a dita Autobiografia.

« Passaram-se seis anos de doença ― continua ela de explicar no referido do-cumento ―, um pouco a pé, outro pouco na cama. Durante este período che-guei a estar cinco meses sem me levantar, continuando no mesmo sofrimento moral por espaço de doze anos sem nunca, nunca dizer nada a ninguém. Quando me encontrava sozinha e presa no meu leito, voltava-me para o qua-dro da entronização do Sagrado Coração de Jesus, pedia-lhe que me libertas-se de tal sofrimento, que me desse luz para conhecer o que havia de fazer, en-quanto ia chorando muitas lágrimas.

Não deixei de pedir muito à Mãezinha para que intercedesse por mim nas mesmas intenções. »

Como é hábito dizer-se: “Só Deus sabe escrever direito por linhas tortas”. Ale-xandrina devia conforma-se e aceitar humildemente este estado de debilidade para melhor enfrentar o que Jesus tinha para ela preparado.
Como os ares de Balasar não pareciam trazer-lhe qualquer alívio, ela foi envia-da para a Póvoa de Varzim onde anos antes tinha sido escolarizada durante dezoito meses.

« Com os meus dezasseis anos ― conta ela ―, pouco mais ou menos, fui conti-nuar o meu tratamento para a Póvoa de Varzim. »

Os ares marítimos da vila balneária parecem ter tido qualquer efeito “curativo” visto que desse tempo Alexandrina nos conta a sua primeira “aventura” amo-rosa, assunto que é na verdade aquele que escolhemos para uma vez mais ter-mos ocasião de louvar a sua pureza e o seu desapego às coisas do mundo.
O rosto simpaticamente encantador da Alexandrina, os seus olhos negros como amoras, o seu sorriso permanente e a sua natural jovialidade, não podiam dei-xar de atirar sobre ela os olhares dos rapazes da sua idade, o que nos parece cisa normal.
Como a esposa do Cântico dos Cânticos, também Alexandrina poderia dizer: « Eu sou morena, porém formosa! » (Cant. 1, 5).

Mas deixemos que ela mesma nos conte como isso se passou:

« Numa manhã, quando me dirigia para a igreja, percebi que alguém apres-sadamente se aproximava de mim. Era um militar que se dirigia a mim a pe-dir-me namoro. Recusei imediatamente, mas como ele insistisse e não deixas-se de me acompanhar, disse-lhe que se retirasse, que ia para a igreja. Pediu-me licença para estar comigo quando voltasse da igreja. Prometi-lhe que es-taria, só para me livrar dele, com a ideia de trocar o caminho. Ao voltar, pus-me a ver se o via e, como nada enxergasse, vim pela mesma rua. A certa altu-ra surgiu-me ele, não sei de onde, e disse-me:

― “Ó menina, você que me prometeu?”, e tratava de me acompanhar a casa.

Parei e falei-lhe, dizendo que era doente e que minha mãe não consentia que eu namorasse. Custou-me muito a convencê-lo. De repente, apareceu a minha irmã e ralhou-me, pensando que eu estava a namorar. Não voltei mais por aquele caminho, com receio de me encontrar com ele. Com isto, tudo termi-nou.

Várias vezes me vi apoquentada por rapazes a pedirem-me namoro, mas nunca aceitei. Cheguei a dizer a um que me falava em casamento:

― “Não deixo a minha família por causa de um homem.” »

Que simplicidade, mas ao mesmo tempo que têmpera forte e resposta que não permite insistência, mesmo se legítima.
Esta situação e, porque a saúde da Alexandrina parecia, aos olhos de muitos que a conheciam, normalizar-se, até mesmo o Sr Abade se meteu no assunto, parecendo querer tirar o lugar a S. Gonçalo de Amarante...

« Sendo do conhecimento do Senhor Abade que um outro me pretendia, Sua Reverência falou-me assim:

― “Se queres o rapaz, isso é tudo comigo.”

Eu respondi-lhe:

― “Eu estou boa para casar!”, pois já me sentia bastante doente e, além disso, não tinha inclinação nenhuma para o casamento.

Às vezes pensava, se um dia fosse casada, como educaria os filhinhos para serem todos de Nosso Senhor. »

Alexandrina não melhorará jamais e, quando isso compreendeu, uma só solu-ção se apresentou a ela: acomodar-se à vontade de Deus sobre ela.
Eis o que escreveu na sua Autobiografia:

« Como não consegui nada, morreram os meus desejos de ser curada e para sempre, sentindo cada vez mais ânsias de amor ao sofrimento e de só pensar em Jesus.

Um dia em que estava sozinha e, lembrando-me de que Jesus estava no sa-crário, disse:

“Meu bom Jesus, Vós preso e eu também. Estamos presos os dois: Vós preso para meu bem e eu presa das Vossas mãos. Sois Rei e Senhor de tudo e eu um verme da terra. Deixei-Vos ao abandono, só pensando neste mundo, que é das almas a perdição. Agora, ar-rependida de todo o coração, quero o que Vós quiserdes e sofrer com resignação. Não me falteis, bom Jesus, com a Vossa protec-ção.” »

Mais adiante, no mesmo documento, ela afirma ainda:

« Sem saber como, ofereci-me a Nosso Senhor como vítima, e vinha, desde há muito tempo, a pedir o amor ao sofrimento. Nosso Senhor concedeu-me tanto, tanto esta graça que hoje não trocaria a dor por tudo quanto há no mundo. Com este amor à dor, toda me consolava em oferecer a Jesus todos os meus sofrimentos. A consolação de Jesus e a salvação das almas era o que mais me preocupava.

Com a perda das focas físicas, fui deixando todas as distracções do mundo e, com o amor que tinha à oração – porque só a orar me sentia bem – habituei-me a viver em união íntima com Nosso Senhor. Quando recebia visitas que me distraíam um pouco, ficava toda desgostosa e triste por não me ter lembrado de Jesus durante esse tempo. »

Assim era bem verdade, o que ela dissera ao Sr Abade de Balasar:

“Eu estou boa para casar!”

Salvo que o Namorado não era aquele que esperavam, mas Jesus, o Esposo das almas virgens, o Eterno Amoroso que melhor do que ninguém sabe falar às almas que por ele aspiram.

« Eis que és formosa, ó meu amor, eis que és formosa; os teus olhos são como os das pombas » (Cant. 1, 15)

« Pomba minha, que andas pelas fendas das penhas, no oculto das ladeiras, mostra-me a tua face, faz-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa » (Cant. 2, 14).

« Os teus lábios são como um fio de escarlate, e o teu falar é agradável; a tua fronte é qual um pedaço de romã entre os teus cabelos » (Cant. 4, 3).

Assim fala o Senhor às almas suas amadas, particularmente aquelas que intei-ramente se ofereceram a Ele como vítimas, como consoladoras et participantes no mistério da Redenção.
Cada uma delas e também a Alexandrina de Balasar, que o Senhor amou dum amor exclusivo, pode dizer, dirigindo-se ao Esposo celeste:

« Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu » (Cant. 6, 3) ; “eu estou boa para casar!”

O desposório espiritual acontecerá alguns anos mais tarde e a Beata Alexan-drina receberá de Jesus o anel destinado às esposas mais queridas!
Afonso Rocha