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sexta-feira, junho 18, 2021

CREIO, JESUS, CREIO

O meu pão de cada dia


Estou no meu martírio a redobrá-lo ainda mais por ter de falar de mim, ou melhor, da minha dor. Custa-me imenso. Não queria dizer nada. Tenho vergonha, escandalizo-me a mim mesma. Não escandalizarei mais alguém? Sempre a falar da dor, deste sofrimento inexplicável! Mas como modificá-lo, se outra coisa não tenho?! O meu sofrimento é tão grande, tão grande, tão infinito!... Só Jesus o conhece, só Ele o pode vencer. Eu sei que não sou eu.

O dia da festa da Santíssima Trindade e da Mãezinha no Sameiro foi para mim uma agonia mortal. Tinha morrido, se Jesus não fizesse a graça de me conservar a vida. O meu Paizinho espiritual estava na minha mente ligado com a Mãezinha do Céu. Era uma festa em que não devíamos nem podíamos estar separados. Daqui nasciam as mais dolorosas e tristes recordações. Deus e o homem! Como este veio ao contrário dos desígnios do Senhor! Na terra nunca, nunca poderei dizer o que sofri e sofro. Só à luz da eternidade haverá tal visão. Com tão variadas e tristes recordações, com tão tremenda e dolorosa agonia fixei no Céu os olhos da minha alma. Não podia movê-los. Tinham que estar sempre firmes para não cair no desespero.

Estou a passar a data da minha estadia na Foz, 11 anos; martírio sobre martírio. Quanto mais dor e humilhação, mais ódio e incompreensão. Por tudo o Senhor seja bendito!

O meu pão de cada dia, o meu pavor são as almas que se abeiram de mim. Causa-me pavor, e o coração não pode separar-se delas. Por elas quero dar o sangue e a vida. Quero-as todas para Jesus, com todos os corações numa só chama de amor. Não posso falar das almas nem desta ânsias. Não resisto. Estou sempre à espera das consolações e alegrias.

— Senhor, quem poderá dar-mas?! Que angústia, que angústia!

O meu túmulo, a minha escavação, a minha inutilidade e eternidade não param. Tenho que viver tudo isto, mesmo sem vida. Tenho que sentir toda a dor e sempre estar de mãos vazias. Nesta manhã, depois de receber o meu Jesus, foi tão dolorosa a minha morte e inutilidade, um abismo se abriu a engolir tudo. Repeti tanto o meu “creio” a Jesus…

— Meu Senhor, parece-me mentir-Vos a Vós e mentir-me a mim mesma. Dai-me coragem para que eu repita o meu “creio” sem crer, sem acreditar e Vos diga que Vos amo, sem ter vida, sem viver para Vós, sem sentir o Vosso amor.

Apunhalava-me a mim mesma. Fazia-o com toda a crueldade. Subi para o Calvário, sempre num desprezo e ódio infernal contra ele. Estendi-me no mundo. Nele bebi todo o veneno. Em seguida, apertei o coração, enleei nele grossas e negras cadeias para que nenhum veneno saísse dele. Fiz o mesmo à língua para a não deixar mover, nem deitar fora o veneno apanhado.

— Creio, Jesus, creio! (Alexandrina Maria da Costa: S. 18 de Junho de 1954).

sexta-feira, maio 14, 2021

VIVA JESUS! VIVA MARIA!

O meu coração continua como a lâmpada amortecida


Eu quisera dizer quanto a minha alma tem sofrido, mas apenas tenho experimentado, e não sei explicar. Horrorosos sofrimentos passaram por mim! Nunca pensei poder sofrer tanto. Hoje sinto-me mais aliviada um bocadinho, mais redobrada a minha confiança em Jesus e na Mãezinha, com mais forças para combater o inferno que se tem revoltado contra mim.

O meu coração continua como a lâmpada amortecida. De longe a longe vai deitando umas gotazinhas de sangue que a Humanidade ainda vem aproveitá-las. Cada uma delas parece ser a última. Sinto que ele ainda está preso à vida divina por um fiozinho comparado a um arame fininho que à mais pequenina coisa pode partir.

No meu corpo já não sinto as aves; parece-me já não existir dele nem sequer o mais pequenino bocado de cinza.

Sinto que quem me sustenta a vida do meu coração é Jesus, só Jesus, parecendo-me estar ligada à Pátria celeste por aquele fiozinho.

Viva Jesus! Viva Maria! Viva a Santíssima Trindade a quem amo tanto! (Alexandrina Maria da Costa: 14 de Maio de 1942).

terça-feira, fevereiro 04, 2020

OS “TRÊS AMORES” DA BEATA ALEXANDRINA


Como muitos irão pensar que se trate da Eucaristia, de Maria e do Santo Padre, direi que isso era uma verdade permanente para ela, mas os “Três amores” pelos quais ela tinha uma devoção muito grande e contínua, eram o Pai, o Filho e o Espírito Santo, portanto a Santíssima Trindade: estes eram na verdade os seus três amores de predilecção.
De facto, podemos ler no deu Diário de 14 de Maio de 1942, esta exclamação que parece sair do mais profundo do seu coração:
«Viva Jesus! Viva Maria! Viva a Santíssima Trindade a quem amo tanto!»
Dez dias mais tarde, no mesmo Diário, podemos ler ainda:
«Santíssima Trindade, ó minha querida e saudosa Trindade, para quem só quero viver, a quem me entrego, a quem só quero amar.» (S. 24-05-1942)
Todos os dia e, várias vezes, ela recitava a oração ensinada pelo Anjo da Guarda de Portugal aos Pastorinhos de Fátima: “Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente”… etc.
No dia 15 de Agosto de 1942, festa da Assunção de Maria, é Jesus que confirma para ela a presença contínua da Trindade Santíssima no coração e na alma da “Doentinha de Balasar”:
«A Santíssima Trindade inclina-se, o divino Espírito Santo estende os seus raios, irradia-os sobre este cofre requíssimo do Santíssimo Coração de Jesus.» (S. 15-08-1942)
A beata Alexandrina sempre reconheceu humildemente o seu nada, a sua pequenez e muitas vezes se dizia a “pobre Alexandrina”. A 3 de Outubro de 1942, Jesus disse-lhe:
― Não és pobre, filha amada, não és pobre, filha querida. Tens o brilho, a candura do lírio e da açucena. És riquíssima, possuis a riqueza divina. És encanto e os atractivos da Trindade divina, és a glória da Corte celeste. (S. 03-10-19-42)
E como ela continuasse a considerar-se pequenina e pobrezinha e mesmo indigna de todas as graças celeste, Jesus vem — a 3 de Abril de 1943 — confirmar à que lhe dissera anteriormente:
«Amada de Jesus, amada de Maria, amada da Santíssima Trindade, amada de toda a corte celeste.»
Alguns meses mais tarde, a 4 de Dezembro de 1943, Jesus insiste:
«Reparas os crimes de milhões e milhões de pecadores. Como és encantadora aos olhos da Santíssima Trindade!»
Na sua pequenez, sentia-se incapaz de amar a Santíssima Trindade, por isso, aproveitando da festa de Todos os Santos em 1 de Novembro de 1944, ela solicita a ajuda de todos os amigos de Deus vivendo na Corte celeste:
«Logo de manhãzinha ao preparar-me para receber o meu Jesus encarreguei-os (todos os Santos) de amarem por mim a Jesus, à Mãezinha e toda a Santíssima Trindade.»
Em 5 de Janeiro de 1945, Jesus volta a confirmar esta predilecção da Trindade Santíssima pela Alexandrina:
«Minha filha, flor angélica, mimo da Trindade divina, mimo de Maria, mimo de toda a corte celeste.»
Não são numerosos os Santos que beneficiaram da graça sublime da visão da Santíssima Trinde. A beata Alexandrina faz parte — como santa Catarina de Sena e o Santo Padre Pio, por exermplo — desses priveligiados que foram convidados à visão suprema: Ela explica:
«Assim ia passando as horas unida a Jesus Sacramentado e a toda a Santíssima Trindade. Sentia-me feliz na minha dor. De repente, sem eu nisso pensar, desceram sobre a minha cama duas alas de anjinhos muito lindos, batendo as asas. À frente abriu-se, como se fosse a abóbada do Céu: Que lindo! Que lindo! Uma pomba branca nas maiores alturas deixava cair muitos e muitos raios de luz. Num trono, mais abaixo, estava Jesus sustentando na mão uma grande cruz. Ele era belo e bela era a cruz. Era cruz de Redenção. A seu lado estava a Mãezinha sentada como Rainha. À volta um grande número de pessoas vestidas de vestes diferentes. Que beleza era tudo isto! Ao contar estas coisas, a minha irmã disse: Vale a pena sofrer tudo isto: dores, suores e angústias da alma para gozar, embora em rápidos momentos, coisas tão belas! Que riqueza é o Céu! Se todos o conhecessem! Não ofendiam a Jesus, ao menos com o desejo de irem gozar o Céu!» (S. 30 a 31 de Dezembro de 1942)
Estas frases da beata Alexandrina aqui citadas chegarão para nos fzer melhor compreender as graças insignes que ela recebeu de Jesus e para nos demonstrar que podemos recorrer a elas nas nossas necessidades, porque a sua intercessão — nunca é demais l;embrá-lo — junto do Coração de Jesus e de Maria é das mais eficases.
Que todos possamos dizer, como a beata Alexandrina a quando desta maravilhosa visão:
Que lindo! Que lindo! É o Céu.
E esta oferta de Jesus:
«Em troca, filha querida, da tua vida de dor e de amor leva os Nossos amores àqueles que te amam e com tanto empenho te rodeiam.»
Afonso Rocha

segunda-feira, agosto 01, 2016

NÃO VIVES A VIDA DO MUNDO

A mais rica das missões


— Ó Jesus, tudo por vosso amor; nem força tenho para respirar.
A pouco e pouco, perdi todo o sangue: parecia-me estar moribunda. Principiei a sentir na minha alma uma paz suave e doce; era paz celeste. Parecia-me deixar o mundo, ir gozar o Céu.
Fiquei por muito tempo como que a dormir um sono terno, aquecida por um calor que me queimava o coração e irradiava todo o peito. Principiou Jesus a falar-me:

— Minha filha, não vives a vida do mundo, desprendeste-te de tudo o que é dele. Vives no Céu, vives do que é divino. Os teus caminhos são caminhos de Cristo; é por isto que não és compreendida. Olha, meu anjo, é sublime a tua missão: é a mais rica das missões. Eis a razão por que és odiada e perseguida; odiada por Satanás, pelas almas que lhe roubas. Perseguida pelo mundo, porque não compreende a vida que vives, o que é a minha vida nas almas. Não temas, filhinha, não te é roubado o tesouro imenso que com minha Mãe te entreguei. É só para teu maior martírio, proveito para as almas e grande glória para Mim. Fechei-o com Minha bendita Mãe com chaves de oiro; selámos-te o coração com selos divinos. Que dor para o Meu divino Coração ao ver a tua dor! (S. 22-12-1944)

quinta-feira, junho 23, 2011

SOU O SENHOR DO MUNDO, O SENHOR DA PAZ

A casa do meu interior tinha mais luz

Sobre o solo do horto esvoaçava uma pomba. Tinha sempre no seu biquito uma gota que deixava cair sobre a terra e se transformava em orvalho fecundador. Uma gota caía, logo outra aparecia. Este orvalho era celeste. Era o maná que alimentava, que dava a vida, dava luz e sabedoria. Uma vida no ar, outra vida na terra. A minha alma tornava-se sábia, compreendia tudo isto, tudo o que era do Céu. A minha dor, a minha dor humana vivia-a, sentia-a o mais dolorosa que se pode imaginar.

No calvário de hoje, a mesma pomba continuava a voar, a deixar cair as mesmas gotas que se transformavam em orvalho, orvalho celeste e a dar a mesma luz e vida de sabedoria. Eu cá em baixo levava a cruz da minha vida dum martírio indizível. Não vi Jesus, não o senti. Não soube que Ele expirasse. Veio alguém que juntou ao meu coração, à minha vida terrestre a vida divina. Essa mesma vida comunicava-se a mim como quem injecta. Desapareceu a minha vida terrena para viver a outra. O coração e a alma fortaleceram-se mais. A casa do meu interior tinha mais luz. Diz-me Jesus nesta altura:

– Sou o Senhor do mundo, o Senhor da paz, o Senhor da fé e da confiança. Crê, crê, vive da fé. É colóquio de fé.

Creio, creio, Jesus. A gota de sangue Jesus não disse que ma ia dar; senti o choque e o meu coração ficou unido ao outro Coração, a chupar dele como a criancinha no seio de sua mãe. Novas palavras de Jesus.

– Coragem! Vive para as almas. Recebe as carícias de minha Bendita Mãe. Sou Eu o portador delas, já que amanhã Ela não te vem falar.

– Obrigada, Jesus. Dizei à Mãezinha o meu muito obrigada.

Não disse tudo da minha separação. Que saudade das carícias da Mãezinha e saudade da Santíssima Trindade. Toda Ela me abraçava com a Mãezinha, e o Divino Espírito Santo em forma de pomba irradiou-me toda com a Sua luz, que iluminou todo o meu ser; prendia-me a Ele com fitas de várias cores que d’Ele pendiam. O que foi! Quanto custou! Não digo nada. Fico na minha dor e na minha eterna saudade.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 1º de Janeiro de 1954).

terça-feira, março 29, 2011

A MINHA ALMA TORNAVA-SE SÁBIA...

  • 1º de Janeiro de 1954 – Primeira Sexta-feira
 
Perdi o meu maior tesouro. Perdi a Jesus, perdi a Mãezinha. Parece, sinto como se Eles morressem para mim. Não posso pensar na triste, na dolorosíssima separação de sexta-feira. Triste mortório, mas é tal a diferença como da terra ao Céu. Custou mais, infinitamente mais, a separação de Jesus e da Mãezinha, este sentimento como se Eles morressem para mim, do que quando perdemos e nos separamos dos nossos entes queridos.
Ai, meu Deus, ai, meu Deus, só ao Céu é dado compreender esta dor e àqueles que a sentem. Apenas levanto um bocadinho do véu e não consigo mais nada. Foi tal a dor que me pareceu ficar sem coração, não sei se desfeito pela dor, se Jesus e a Mãezinha mo levaram. O que sei é que ficou em mim um vazio tão grande que só o Céu mo podia encher. E depois o sofrimento de cada dia e cada noite resultado de tudo isto. Chorei muitas vezes e muitas lágrimas. A dor levava-me a levantar a voz, mas logo me vencia e chorava em silêncio. Que as minhas lágrimas sejam actos de amor para Vós, Jesus e Mãezinha! Ai de mim! Perdi os meus Amores! Mas logo a confiança obrigava o coração a falar. Creio, creio que não os perdi. Todo o meu martírio reverta em favor das almas. Sou a Vossa vítima. Creio, creio, confio que não estou só. Ai quanto custa dizer: Creio! Sem crer; confio! Sem confiar.
Neste momento, a minha alma sangra de dor por não ser capaz de dizer como foi a minha separação e a ter necessidade de o dizer. Perder a Jesus e a Mãezinha foi perder o Céu. Todo o meu ser se retalha e, no meio dela, vou dizendo sempre: creio, creio, meu Deus, eu creio! Nestes dias tão dolorosos, de tão grande martírio para o corpo e de tanta angústia para a alma, ainda veio mais um tormento para o meu pobre coração. Várias cartas me chegaram às mãos a dizerem-me que o senhor Bispo de Aveiro tinha proibido a vinda aqui dos sacerdotes. Punhais tão dolorosos! A minha alma tinha a visão da consequência desta ordem. Tanta humilhação! Se eu pudesse reparar tanto escândalo que se dá! Tantas más interpretações por causa disto! A minha oferta de vítima não cessa diante do Senhor. Por Vosso amor, tudo! Faça-se a Vossa vontade! O meu túmulo, o meu túmulo, a minha arte de cavador vai continuando. Cobri-me eu mesma com a terra do meu sepulcro. Fui eu que me cobri, fui eu que desapareci, que me enterrei. Estou tão funda, tão funda!... Parece que toda a terra da humanidade me cobre e os suores da alma vão continuando assim como a eternidade e a inutilidade. Não conta, não anda a eternidade. Que pavorosa ela é! Se Jesus não velasse, só ela me tirava a vida. Tanto sofrer para tanta inutilidade! Uma vida de tanta dor para nada ter que oferecer a Jesus. Estou de mãos vazias. As minhas ânsias tão infinitas, tão infinitas não as posso fazer compreender. Quero o mundo, quero o mundo dentro do meu coração. Quero todos os corações, quero todas as almas, quero levá-las com o meu sangue. Quero amar a Jesus pelo mundo inteiro. Queria morrer, a cada momento, até ao fim dos séculos e a cada momento dar o sangue até à última gota, para que nenhuma alma se perdesse, nem nenhum coração deixasse de amar a Jesus. Queria, sim, dar todo o meu sangue e a vida, a cada momento, até ao fim dos séculos para evitar um só pecado. 
Ai, ai, não posso consentir que Jesus seja ofendido! Eu não tive horto. Vou dizer o melhor que puder o que senti. 
Sobre o solo do horto esvoaçava uma pomba. Tinha sempre no seu biquito uma gota que deixava cair sobre a terra e se transformava em orvalho fecundador. Uma gota caía, logo outra aparecia. Este orvalho era celeste. Era o maná que alimentava, que dava a vida, dava luz e sabedoria. Uma vida no ar, outra vida na terra. A minha alma tornava-se sábia, compreendia tudo isto, tudo o que era do Céu. A minha dor, a minha dor humana vivia-a, sentia-a o mais dolorosa que se pode imaginar. 
No calvário de hoje, a mesma pomba continuava a voar, a deixar cair as mesmas gotas que se transformavam em orvalho, orvalho celeste e a dar a mesma luz e vida de sabedoria. Eu cá em baixo levava a cruz da minha vida dum martírio indizível. Não vi Jesus, não o senti. Não soube que Ele expirasse. Veio alguém que juntou ao meu coração, à minha vida terrestre a vida divina. Essa mesma vida comunicava-se a mim como quem injecta. Desapareceu a minha vida terrena para viver a outra. O coração e a alma fortaleceram-se mais. A casa do meu interior tinha mais luz. Diz-me Jesus nesta altura:
 
– “Sou o Senhor do mundo, o Senhor da paz, o Senhor da fé e da confiança. Crê, crê, vive da fé. É colóquio de fé.”
 
Creio, creio, Jesus. A gota de sangue Jesus não disse que ma ia dar; senti o choque e o meu coração ficou unido ao outro Coração, a chupar dele como a criancinha no seio de sua mãe. Novas palavras de Jesus.
 
– “Coragem! Vive para as almas. Recebe as carícias de minha Bendita Mãe. Sou Eu o portador delas, já que amanhã Ela não te vem falar.”
 
– Obrigada, Jesus. Dizei à Mãezinha o meu muito obrigada.
 
Não disse tudo da minha separação. Que saudade das carícias da Mãezinha e saudade da Santíssima Trindade. Toda Ela me abraçava com a Mãezinha, e o Divino Espírito Santo em forma de pomba irradiou-me toda com a Sua luz, que iluminou todo o meu ser; prendia-me a Ele com fitas de várias cores que d’Ele pendiam. O que foi! Quanto custou! Não digo nada. Fico na minha dor e na minha eterna saudade.
 
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 1954)

quinta-feira, agosto 02, 2007

QUERO SER VITIMA

“Quero ser vítima !”
Esta página dos “Sentimentos da alma” ditada pela Beata Alexandrina para o seu Diário é deveras interessante, visto que ela aí mostra não só a sua humildade, mas também as suas lutas, as suas dúvidas, dúvidas motivadas pelo tesouro que lhe fora encerrado no coração por Jesus e Maria : a humanidade.
Ela vive sentimentos que são dela sem verdadeiramente o serem, visto que as dúvidas de que vai falar-nos, não são propriamente as suas mas as da humanidade. Esta “incorporação” da humanidade que ela vive desde há muito e já em si um grande sofrimento, visto que a Beata Alexandrina vivia então tudo quanto vivia a própria humanidade, com todos os bens e males que nela existiam então e existem ainda.
Conhecendo esta situação particular da sua alma, pode-se assim compreender melhor quando ela escreve : “E eu, pobre de mim, apavorada pelos sofrimentos, parece-me que vou tantas vezes a cair no desespero !” ou ainda quando ela diz, mais adiante : “Era melhor gozar tudo neste mundo, porque depois desta vida nada mais há.” Se assim não fosse, estas palavras saídas da sua boca seriam inaceitáveis. Mas logo a seguir, ela diz também : “Ó Jesus, ó Mãezinha, não consintais que eu deixe de confiar e esperar em Vós. Valei-me, eu não quero ofender-vos.” Estas, ao contrário, são palavras suas e não aquelas da humanidade pecadora que dentro do coração da Alexandrina se agita e se rebela.
A Alexandrina só tem um único desejo : “Quero ser vítima e só quero o que quer o meu Senhor.” E, para que assim seja, ela conhece o melhor refúgio, o único asilo onde as portas estão sempre abertas : o Coração de Jesus [1].
Um longo colóquio se trava entre Jesus e a sua querida esposa. Jesus queixa-se da dureza do coração dos homens, dos desvaires criminosos da humanidade pecadora e propõe soluções para conter esta terrível calamidade e, para tranquilizar a sua vítima, diz-lhe também que ela o não ofende com as suas dúvidas, porque fazem parte do plano divino.
No fim do colóquio Jesus, para a confortar e alimentar, propõe-lhe uma gota do seu santíssimo Sangue [2]. É assim “mais uma renovação das maravilhas de Jesus, mais uma gota de Sangue divino a correr nas veias da vítima deste Calvário”, acrescenta Jesus.

* * * * *

« Ainda não posso falar. Só dito umas palavrinhas como prova de que quero obedecer até à morte. Não sei o que me espera. Não sei se o meu coração adivinha alguma coisa. É tal a dor e a agonia que por vezes parece tirara-me esta vida morta que eu vivo. Não tenho para onde virar-me, não tenho quem em socorra. Digo com toda a verdade : no sentir da minha alma, não tenho uma única pessoa que seja por mim, em quem possa confiar. Parece-me que ninguém me acredita, todos duvidam de mim, todos me escarnecem e desaparecem. E eu, pobre de mim, apavorada pelos sofrimentos, parece-me que vou tantas vezes a cair no desespero ! E daqui nasce a revolta contra Deus, se é que Ele existe ; sem eu querer, é claro, mas tenho momentos de duvidar da existência de Deus. Caso Ele existisse, seria para mim pior que um tirano. Vem-me esta tentação : como pode consentir Deus que eu sofra tanto no corpo e na alma por tão longos anos ! Depois a dúvida da eternidade ! Era melhor gozar tudo neste mundo, porque depois desta vida nada mais há. Ai, meu Deus, meu Deus, quando assim luto, atiro-me para Jesus e para a Mãezinha, chamo-os e abandono-me só a Eles. Digo-lhes : Ó Jesus, ó Mãezinha, não consintais que eu deixe de confiar e esperar em Vós. Valei-me, eu não quero ofender-vos. Sinta o que sentir, passe pelo meu espírito o que passar, eu abandonada a Vós vou para onde Vós fordes, fico onde me colocardes e convosco serei salva. Parece-me que não acredito na Santíssima Trindade nem em Jesus sacramentado, nem nosso Santos, nem no Céu. Tudo é morte depois desta vida, assim como é morte tudo em mim já nesta.
Continuo a sofrer muito com aqueles instrumentos que passaram do Coração da Mãezinha para o meu. Mas, ai o sangue dela junto ao de Jesus é o que mais me causa mais dor. Como pode juntar-se o sangue divino ao meu ? Parece-me que foi um enxerto no meu coração. E em mim tem que haver raízes bem fortes, bem presas para o fundo, para não deixarem o vendaval atirar o tronco a terra, para que os rebentos possam florir e dar bons frutos. Queria dizer muito deste sentimento, mas a ignorância não me deixa. Sofro, sofro infinitamente, mas não deixo de ansiar os sofrimentos, a perfeição, o amor a Jesus e às suas coisas. Quero ser vítima e só quero o que quer o meu Senhor. Em toda esta angústia passei o meu dia de ontem bradando, bradando uma e outra vez ao Céu. Vi-me no Calvário e este cheio de caminhos e todos tinham que ser regados com o meu sangue. Esta visão transportou-me ao Horto. Cheia de agonia e pavor, suei sangue. Fui presa e transportada para a prisão. Suportei todos os tormentos daquela vil canalha. E hoje, sob a fúria dos mesmos, segui para o Calvário e ainda crucificada na cruz com todo o corpo retalhado a sua raiva e ódio saíam sobre mim. Eu senti que os malvados queriam ver-me desaparecer para sempre. Que ódio, que crueldade ! E o Coração divino de Jesus não deixava em mim de amar. Era dentro do meu coração que Ele amava a Humanidade inteira. E eu não podia deixar de amar a cruz; via e sentia que só ela era a vida. O sangue regou todo o Calvário e era como se regasse o mundo inteiro, todo ali presente, todo cruel a dar a morte a Jesus. Fiquei sem vida, foi como se entregasse o espírito ao Céu, a Deus. Não levou muito tempo que eu voltasse à vida; foi Jesus que ma deu e falou no meu coração.
— Quantos avisos, quantos pedidos do Mendigo Divino, e Jesus vai imolando a sua vítima, Jesus vai-a crucificando contidamente. E o mundo, o cruel mundo continua com os seus desvarios. Continua na opulência, na vaidade, na devassidão.
Minha filha, Minha querida filha, os pedidos de Jesus não são uma coisa vã. É grande, é grande, é urgente a imolação mais dolorosa e permanente. Ai de Portugal sem a vítima deste Calvário ! Pobre Portugal, se não correspondes ! Ai do mundo sem a Santa Missa, sem a Eucaristia, sem as minhas vítimas. Ai do mundo sem a vítima pequenina nos seus olhos, mas grande, muito grande, com toda a grandeza aos olhos de Deus !
Pede, pede, Minha filha, levanta ao Céu as tuas mãos, fixa nele os teus olhares, não duvides da tua prece, não duvides do teu poder com o Todo-Poderoso. Tudo pedes com Jesus, tudo pedes com Maria. Eu quero, Eu quero, sim, Minha filha, que o teu brado seja constante. Tem coragem, tem coragem; os teus sentimentos não são a realidade. Os teus sofrimentos, os teus sofrimentos nascem cada vez mais dolorosos nesses sentimentos aflitivos. A hora é grave, a hora é grave ! O teu esposo Jesus lançou mão a tudo. Quer salvar o mundo, quer salvar sobretudo Portugal. Pede, pede, Minha filha, a misericórdia, a compaixão da santíssima Trindade.
— Ó meu Jesus, ó minha Trindade Divina, como hei-de eu pedir-vos se duvido de Vós ! Como hei-de eu pedir-vos se é tão grande a minha dúvida ? Bem sabeis, Senhor, que em nada acredito, mas não deixo de combater. Mas já que agora não duvido, já que agora acredito que existe uma eternidade, peço-vos com toda a lama e com todo o coração : Jesus Sacramentado, Coração Divino de Jesus, Santíssima Trindade, Eterno Pai, quero aplacar a Vossa justiça, quero implorar a Vossa misericórdia. Apiedai-vos, apiedai-vos, compadecei-vos de Portugal, compadecei-vos do mundo inteiro ; todo o mundo é filho do Coração Divino de Jesus.
— Ó Minha filha, ó Minha filha, todos os teus sofrimentos são obra da sabedoria divina. Tu não desgostas nem ao de leve o teu Jesus com as tuas dúvidas. Tudo quanto de ti exijo são meios de salvação. Não percas o teu heroísmo, a tua generosidade. O Senhor conta contigo. Da dor do teu coração hão-de rebentar rebentos novos, como rebentarem da árvore da cruz. Não te tenho dito Eu que em tudo te assemelhei a Mim ? Que alegria para o Meu Divino Coração se os homens compreendessem bem isto ! Tu toda Cristo, toda Jesus. Jesus em toda a vida da Sua vítima.
Vem receber a gota do Meu divino sangue.
Mais uma renovação das maravilhas de Jesus, mais uma gota de sangue divino a correr nas veias da vítima deste Calvário.
Fica, Minha filha, na tua cruz. Fica nesta dor que só Jesus conhece e compreende. Fica nesta vida que Ele te escolheu. Fica com coragem, fica com alegria. Bendiz e sorri sempre à tua cruz que te dá o Senhor.
Coragem, coragem, o Céu é contigo. Pede oração, pede penitência.
— Obrigada, obrigada, meu Jesus. »[3]
_____
[1] Ler a este respeito : “Junto do altar do Sagrado Coração de Jesus”, um longo trabalho sobre a relação estreita e amorosa entre o Coração de Jesus e a Beata Alexandrina.
[2] Ler sobre esta “transfusão” de Sangue divino, o trabalho intitulado “O Sangue do Cordeiro”.
[3] Sentimentos da alma : 10 de Janeiro de 1952 – Sexta-feira.