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sábado, junho 19, 2021

QUE HORROR, MEU SENHOR !

Jesus fez-me ressuscitar

 

São indizíveis as amarguras e torturas da minha alma. Custa-me imenso falar. A cada movimento, parece que é fora de mim arrancado com toda a violência o coração e, em seguida, as entranhas. Digo pouco, por não poder e por a minha ignorância nada saber dizer, mas sofro e sofro muito por não poder e não saber. Pois sinto uma fome, uma necessidade, posso dizer infinita, de desabafar. Eu não quero de forma alguma queixar-me, não quero entristecer o meu Jesus. O esforço que faço, o nada que digo, é para obedecer. É Jesus, é a glória do meu Senhor e o bem das almas que me levam ao máximo do sacrifício. Vi-me, senti-me nas garras do demónio; ouvi os uivos do inferno, o desespero das almas. Meu Deus! Como é desesperador! Se eu pudesse dizer a forma provocadora, descarada e maldosa, com que são praticados tantos e tantos crimes. Meu Deus, meu Deus, compadecei-Vos de mim. Que maldade infernal! Parecia-me que era em mim, e era eu a praticar crimes tão hediondos. Era eu a cair no inferno, era eu a entregar-me toda à devassidão e prazer, sem nada me satisfazer, mas sem poder naqueles momentos pecar mais; não tive um momento de arrependimento, não tive um olhar para Jesus a pedir-Lhe compaixão. Corri logo à busca de novos instrumentos, de novos lugares e ocasiões, para poder continuar a minha obra infernal. Que horror, meu Senhor, que horror! Disse que não tive um momento de arrependimento, nem um olhar para Jesus, mas tive. Pedi-Lhe bem que não queria pecar. Mas isto foi como se não fosse eu. Foi tudo e tudo é inútil para mim. Não sei como encontrar Jesus, não sei como dar-Lhe as minhas lágrimas, os meus suspiros, os meus sofrimentos, tristezas e amarguras. Tudo morre, tudo é inutilidade, tudo é perdido para mim. Passam-se os dias grandes, os dias festivos da Santa Igreja, e a minha alma não encontra um favozinho de doçura; tudo é perdido, tudo é morte. Estou a comemorar o aniversário da minha estadia na Foz. Sem querer recordar, surge-me de repente uma e outra cena. Fica-me o coração cercado de espinhos, e a cruz atravessa-o dum lado ao outro. Tudo sofro por amor de Jesus, sem sentir que O amo, sem saber que Ele se consola em mim. O abandono é o meu lema. Confio que sou conduzida ao porto de salvação. Nesta imensidade tempestuosa, em que só prevalece a inutilidade, a minha alma conserva-se em paz, a não ser de longe a longe uns momentos de agitação, dúvidas de toda minha vida, tentações contra a Fé, que me levam quase que a cair no desespero. Para que vim ao mundo? Para que serve tanto sofrer e uma vida presa no leito? Isto é sem eu querer, sinto mesmo serem tentações do demónio, ser ele a querer roubar-me a paz. O meu Horto, tão diferente do já foi, não teve outra coisa senão a inutilidade. Eu fui morte para ele, e ele morte para mim. Foi assim, porque eu não quis aproveitar da vida que ele me oferecia. E Jesus, que via infinitamente, aos Seus olhares tudo era presente, sofria, sofria dor infinita, e fez-me sentir a mesma dor, ao mesmo tempo que se mostrou e fez sentir o quanto me amava, o quanto amava as almas. Neste momento afoguei-me n’Ele, perdi-me n’Ele, desapareci como gotinha de água perdida no universo. Hoje, na Sagrada Comunhão, não digo que tive consolação; perdi-me novamente neste Oceano, como gota de orvalho, que com o sol desaparece. A alma ficou mais forte. Foi com esta fortaleza que venceu a inutilidade do Calvário. Na viagem para lá, ao sentir-me desfalecer com tão pavorosa inutilidade, espontaneamente o coração bradou: valei-me, Jesus, ai de mim se não vindes em meu auxílio. Pude chegar ao cimo; mesmo assim, inútil, fiquei na cruz crucificada. O coração continuou a bradar constantemente; eu sou inútil, Jesus, mas sois Vós útil para todos nós. Meu Pai, meu Pai, vinde em meu auxílio.

E foi neste brado que eu caí no sono da morte. Senti como se a alma morresse na maior escuridão. Passou-se algum tempo, e Jesus fez-me ressuscitar. Rasgou no meu peito o véu preto da morte e fez aparecer um véu de luz. (Alexandrina Maria da Costa: S. 20 de Junho de 1952)

quinta-feira, junho 10, 2021

NADA POSSUO

Eu lá vou, de queda em queda


Hei-de repetir sempre o meu “creio” com a Vossa graça, Senhor. Se eu tivesse ao menos um fiozinho de aranha a que pudesse agarrar-me! Mas nada, nada possuo, meu Deus! Mundo e mundos de inutilidade! Mundos e mundos de trevas e morte! Eu lá vou, de queda em queda, para os abismos sem fim. Quanto sofre o meu corpo, Jesus, e quanto sofre a minha alma!... (Alexandrina Maria da Costa: 10-06-1955)

terça-feira, junho 08, 2021

VINDE, MEU BOM JESUS

Vivei em mim como eu desejo viver convosco


No dia dois [de Junho], depois das nove horas da noite, estava eu a fazer a oferta de tudo o que se passasse em mim durante a noite como actos de amor a Nosso Senhor Sacramentado. Fazia-o mais com o pensamento do que com os lábios porque não podia. Eu disse ao meu Jesus se fosse da Vossa Vontade eu ficar convosco nos vossos sacrários durante esta noite! Sim antes queria fazer companhia a Nosso Senhor do que dormir. E dizia também: “Vinde meu bom Jesus e vivei em mim como eu desejo viver convosco; operai em mim tantas graças como se eu vos recebesse sacramentalmente.” Principiei então a sentir a presença de Nosso Senhor em mim. (Alexandrina Maria da Costa: Carta ao Padre Mariano Pinho: 06-06-1935)

domingo, junho 06, 2021

O MUNDO QUE EU SOU

Este mundo não quer Jesus


Por vezes, a minha alma vê Jesus, feito enfermeiro, a querer entrar a este mundo, que sou eu mesma. Rodeia, rodeia uma e outra vez este monstro mundial, para curar-lhe as chagas de entro e de fora. Jesus anda cheio de amor e doçura, mas não tem estrada. Esta rocha dura não quer ouvir o Seu convite de ternura, não quer deixar-se curar. Que pena eu tenho não consentir que Jesus seja o meu enfermeiro! Ele quer acariciar-me, e eu não deixo, revolto-me contra Ele, obrigo-O a afastar-se de mim. Apesar de ser eu que O não quero, nem quero a Suas bondades, ternuras e carinhos, a alma chora por não O querer, por não lhe dar entrada, por não O amar. Que pena eu tenho de Jesus! Sofro ao mesmo tempo com Ele. Sou o mundo e sou Jesus; peco e quero pecar; amo e quero amar; e este amor é louco, não tem limites, ama e não olha a quem; o que quer é ser aceite. Se este amor fosse eu, e minhas não fossem as maldades! Mas ai pobre de mim! O amor é de Jesus, as maldades são minhas. Abracei-me à minha cegueira com tal afecto, com tal amor, que não mais a largarei; ela só me causa sofrimento, só me mostra que sou lodo e lama, mas eu quero e neste estreito abraço mais me vou mergulhando nela. O que é bom, o que é de Jesus, não aparece nas minhas medonhas trevas. Mas o que posso eu esperar, o que posso eu ver, se nada há em mim de bom, nada tenho de encantador que a mim pertença. Sou miséria, só miséria; ó Jesus, compadecei-Vos de mim! Tenho recebido, nestes dias algumas, algumas graças, alguns mimos do Céu, que eu não mereço. Agradeço-as a Jesus e à querida Mãezinha, mas este meu agradecimento não chega. (Alexandrina Maria da Costa: S. 6 de Junho de 1947).

sexta-feira, junho 04, 2021

EU SOU O TEU JESUS

Vem para mim, tem coragem!


Assim caminhei hoje para o cimo da montanha, abrindo-se a terra em fendas. Aqui me engolia, acolá me dava para voltar a ser engolida.

Creio, meu Deus, creio. À minha agonia e morte veio Jesus buscar-me. Chamou por mim.

— Vem, minha filha, dá-Me a tua mão.

Abrindo um curral, mas este curral era Jesus, sempre levando-me pela mão, fez que eu entrasse e disse-me:

— Vem para mim, tem coragem! Eu sou o teu Jesus.

Eu, sempre sustentada pelas mãos do Senhor, à entrada do curral, que me parecia ser Ele. Principiaram a entrar ovelhas nutridas, umas atrás das outras; todas tinham um lugar e nunca mais deixavam de entrar.

— Vês, minha filha, estas ovelhinhas são as almas que os teus sofrimentos a Mim conduzem.

Não sei dizer como fiquei, fora de mim. Se assim é, Jesus, como creio, eu quero ficar na terra e nela sofrer até ao fim do mundo.

— Não, minha filha, o teu Céu está perto, mas lá a tua missão continua e as almas, essas ovelhinhas nutridas, continuam a salvar-se como se sofresses. Estende-me as tuas mãos.

Estendi-as. Jesus colocou-me nelas um vaso. Este vaso estava cheio duma semente que não conheci. Para cima do vaso sobressaía como que uma pinha. De cada biquinho da pinha saía uma chama e todas reunidas faziam uma só chama.

— Semeia, minha filha, na terra esta semente. É a minha semente. Enriquece com ela as almas. Incendeia nos corações este amor. É o meu amor. Sofre, sofre, acode ao mundo.

Desapareceu Jesus, desapareceu o vaso. Fiquei sozinha entre as trevas.

— Creio, Jesus, creio e que o meu “creio” seja eterno, em acção de graças por sempre em Vós confiar e confiada de nunca deixar de crer.

À minha frente estava uma montanha. Não tentei subi-la. Chegava ao Céu. Não podia passar além. Sozinha, cheia de pavor, bradava:

— Jesus, onde estais? Vinde em meu socorro.

Ele saiu-me por entre a rocha a trabalhar; martelava, cinzelava. Era um bom artista. Pegou-me pela mão. (Alexandrina Maria da Costa: S. 4 de Junho de 1954)

sexta-feira, maio 28, 2021

JESUS MENINO ESTAVA À PORTINHA…

Como que para entrar


De noite, tive uma visão; vi-me dentro dum templo, de joelhos, junto ao altar, onde estava o sacrário. À portinha dele, muito unidinho, como que para entrar para dentro estava Jesus Menino; era Formosíssimo; não tinha mais de dois ou três anos. Fitou-me com os Seus olhos encantadores; os Seus olhares divinos foram para mim olhares de convite para entrar também. Não cheguei a fazê-lo; de repente desapareceu Jesus, o Sacrário e o templo, fiquei sozinha, mas mais forte e corajosa e com mais ânsias de me unir para sempre a Jesus na Eucaristia. (S. 20-09-1947)

quinta-feira, maio 27, 2021

O TEU CORPO É UM SACRÁRIO

A Eucaristia sou Eu


— Minha filha, ó filhinha amada, tesoureira do teu Jesus, depositária, distribuidora do amor do meu divino Coração. O teu corpo é o sacrário que contém o vaso sagrado da minha Eucaristia. O teu coração é esse vaso, a Eucaristia sou eu. Dei-me em alimento às almas, criei-te para alimento das mesmas almas. (S. 04-05-1945)

És a vida das almas, és a nova Eucaristia delas. Purifica-as dos seus defeitos, lava-as dos seus crimes, prepara-las para mim que sou a verdadeira Eucaristia. És a pastorinha que conduz o rebanho ao Pastor Divino. (S. 11-05-1945)

— Minha filha, sou o jardineiro, venho ao meu jardim, ao jardim mais belo, que há de mais rico; venho buscar flores para a minha Eucaristia, para adorno dos meus sacrários. Venho buscar o seu néctar para as minhas feridas, para a chaga do meu divino Coração. (S. 31-05-1945)


quarta-feira, maio 26, 2021

COMO CHEGAR AO CÉU

Contemplação das obras de Deus


Pelos quatro anos e meio de idade, punha-me a contemplar o céu (abóbada celeste) e perguntava aos meus se poderia chegar-lhe se pudesse colocar umas sobre as outras todas as árvores, casas, linhas dos carrinhos, cordas, etc., etc. Como me dissessem que nem assim chegaria, ficava descontente e saudosa, porque não sei o que me atraía para lá.

Lembro-me de que, nesta idade, tinha em casa uma tia doente, que morreu de cancro, e chamava-me para ir embalar um filho, primeiro fruto do seu matrimónio, serviço que fazia com toda a prontidão, quer de dia quer de noite.

Já nesta idade amava muito a oração, pois lembra-me que minha tia pedia-me para rezar com ela a fim de obter a sua cura. (Alexandrina Maria da Costa: Autobiografia)

sábado, maio 22, 2021

NÃO SEI DIZER…

Que grande é a minha ignorância!


Sinto a necessidade de desabafar, falar da dor, não porque queira queixar-me, porque isso não quero fazer e quero a todo o custo encobri-la, mas não sei porquê, não sei o que me leva a falar dela. É talvez a minha pobre natureza; sou talvez eu por não saber sofrer, que sinto a necessidade de dizer que sofro. Ah! A minha dor é tão grande! Ela cobre o mundo, ela vai ao encontro de Jesus, vai tocar e ferir o seu divino Coração. Que grandeza a da minha dor! Eu não posso consentir que ela vá ferir o Coração do meu Senhor. Ela sai de mim, de dentro do meu peito como o maior rio que nunca seca e nunca cessa de encher o mar. Meu Deus, como eu sofro por Vos sentir sofrer! Meu Deus, como eu sofro por ver e sentir este rio caudaloso a sair do meu peito e a ir ferir o Vosso divino Coração, produzindo nele um ar infinito de dor. Se os Anjos ou os Santos falassem por mim! Só eles saberiam exprimir-se. Eu não sei, Senhor, eu não sei. Que grande, que grande, que nunca dita é a minha ignorância! (Alexandrina Maria da Costa: S. 22 de Maio de 1953)

terça-feira, maio 18, 2021

ACEITO TUDO O QUE SEJA DOR

Principiei a tirar espinhos de Jesus


— O que é isto, meu Jesus?

É sempre a minha cruz. Neste conjunto de sofrimentos, o meu calvário com o de Jesus, o coração oprimido com o peso esmagador da dor abafava, não resistia.

— Poderei vencer, Jesus? Resistirei a tanto? Só convosco. Valei-me, tenho medo.

Sentia tanto o meu abandono e o de Jesus! O meu corpo sangrava, dava as últimas gotas de sangue. Ele veio.

— Amo-te tanto, minha filha! Assemelhei-te a mim e o teu calvário ao meu. Tem coragem. Os espinhos que te ferem foram os meus. As varas que te açoitam e despedaçam foram as minhas. Os maus-tratos e as cordas que te prendem eram minhas, e a cruz minha foi também. Foi o amor a causa dos espinhos, dos açoites, da cruz, do calvário e da morte. Prendeu-me o amor à cruz, prendeu-me ainda nos sacrários até ao fim dos séculos. E tu, minha pomba bela, à minha semelhança presa foste também; prendeu-te o amor ao meu Divino Coração, prendeu-te o amor às almas. Deixa-te ferir, minha amada; cada espinho que te fere sai um dia da minha sagrada cabeça e do meu Divino Coração. Vês como tenho tantos!

Jesus apresentou-me a Sua sagrada cabeça e o Seu Coração Divino. Que grande sebe agudíssima o feria! Enterneci-me tanto por Jesus e disse-Lhe:

— Aceito tudo o que seja dor, mas quero tirar de Vós todos esses espinhos e não deixar sinal algum de ferimento.

Principiei a tirar espinhos de Jesus que tinha ao meu dispor. Em poucos instantes desapareceram todos, e nem a sagrada cabeça nem o Coração Divino ficaram chagados, nem com sinal de sangue. Tudo desapareceu. (Alexandrina Maria da Costa: 18-05-1945)

domingo, maio 16, 2021

CARTA A NOSSA SENHORA

 Dá-me a tua pureza


«Balasar, 30/4/1941

 Querida Mãezinha

Ao principiar o Teu mês bendito, venho pedir-Te a Tua bênção, o Teu amor, para eu poder amar o Teu e meu querido Jesus. Quero amá-Lo tanto, tanto, quero ser uma louquinha de amor, quero só viver e morrer de amor! Ajudai, minha querida Mãezinha, o Vosso Jesus a imolar e sacrificar esta que quer dar o sangue e a vida pelas almas e pelo Vosso Jesus. Dá-me, Mãezinha, a Tua pureza, a Tua humildade, a Tua obediência; dá-me as tuas virtudes para que eu seja santa, para dar toda a glória ao Teu Jesus para quem só quero viver.

Mãezinha, peço-Te esta esmolinha do Céu: quero que o mês de Maio seja para mim o último que passo na terra. Quero ir depressa gozar do Teu Jesus e da Tua companhia. Quero continuar junto de Ti a implorar perdão e misericórdia para o mundo Teu. Tua filha a mais indigna, pobre Alexandrina.

P.S. – Hei-de fazer cair uma chuva de graças e de amor sobre aqueles e aquelas que na terra me são queridos. Sempre a Tua filha, Alexandrina.»( Alexandrina Maria da Costa: Autobiografia)

sábado, maio 15, 2021

ESTE OLHAR DÁ LUZ

Este olhar penetra tudo


— Anima-te, alegra-te, minha pomba bela, não pecaste. A chuva doirada que sobre ti e o abismo caía é a chuva do meu divino amor, recompensa da tua reparação. Por ti foi levada ao abismo, para dar nele luz às almas, para que venham ao meu Divino Coração. Coragem, coragem, minha filhinha querida, virgem pura, esposa amada.

— Bendito sejais, meu Jesus.

Aumentou o meu martírio; queria deixar ocultos os últimos sentimentos da minha alma. Sei que o não quereis, mandais-me que escreva tudo. Aceitai o meu sacrifício e dai-me toda a luz do Divino Espírito Santo para poder escrever tudo como for da Vossa divina vontade.

Há dias que sinto nos meus olhos um olhar que não me pertence. Não é olhar malicioso, não é olhar do demónio como por algumas vezes nas lutas com ele tenho sentido. A diferença é mais do que do céu à terra. Este olhar é terno, tem doçuras, tem encantos, tem amor; este olhar tem prisões, este olhar penetra tudo, este olhar dá luz; é como um espelho que tudo faz reflectir, no qual nada se pode esconder. Este olhar é como uma bala que a todos atinge. Este olhar vê para dentro e para fora, vê tanto com os olhos abertos como com eles fechados, vê tudo, tudo, e não sei que tem em si que atrai. Sinto que esta atracção vem de encontro ao meu coração, e com que eu o abro para receber tudo o que nele quer entrar. Este olhar tem ainda chaves que fecham, são chaves que só servem no coração, são chaves que só fecham o que estes olhares a si atraem.

— Meu Deus, não sei exprimir melhor os meus sentimentos, não sei aclarar mais o que dentro em mim se passa. Desfaço-me em amor, bondade e carinho. Que riqueza sinto em mim! Nada disto me pertence. Minha é a dor que destes sentimentos é motivada. Temo e tremo. Meu Jesus, não permitais que tudo isto nasça de mim, mas sim de Vós, só de Vós. Aceitai toda a minha agonia.

Sinto como se tudo isto fosse escrito com sangue tirado do meu coração. (Alexandrina Maria da Costa: 15-05-1945)

quinta-feira, maio 13, 2021

PORTUGAL INGRATO

Fátima, Fátima! Calvário, calvário!


― Calvário ditoso, calvário prodigioso, calvário transformado num paraíso de Jesus na terra. Desci, desci, minha filha, desci, desci, esposa querida, desci do Céu. Entrei no teu coração, transformei-o num céu. Eu quero, eu quero fortalecer-te. Eu quero falar pelos teus lábios. Eu quero dizer-te as minhas alegrias e tristezas. Alegro-me no teu coração. Alegro-me com a reparação que me dás. Eu posso, sim, eu posso apresentar a meu eterno Pai grande reparação. Eu posso, sim, eu posso colocar sob a sua divina mão uma escora firme para a sustentar. Ó Portugal ingrato, ó mundo cruel, o que seria de ti sem a vítima deste calvário!... Portugal ingrato! Portugal, quantas graças tens recebido do teu Deus?! Fátima, Fátima! Calvário, calvário! Este ditoso calvário, meios para ti de grande reparação. Estou triste, estou triste. Portugal ingrato! Estou triste, muito triste! O mundo cruel! Nada mais posso fazer. Fiz tudo, fiz tudo para a salvação dos filhos do meu sangue.

― Ó Jesus, ó Jesus, estou certa, confio. Tudo fizestes, tudo fareis e o mundo será salvo. Portugal será grato, sempre grato ao Vosso Divino Coração. Sou Vossa vítima, Jesus. É a Vós que eu abraço, é a Vós que eu me prendo. Só convosco eu serei forte, só com a Vossa graça vencerei. Ai, meu Jesus, sou eu, bem sabeis que sou eu, a mais pobrezinha, a mais indigna das Vossa filhas, mas bem sabeis que, apesar de pobre e miserável, com a Vossa graça também serei eu a sofrer pelo Vosso amor e pelas almas. Com a Vossa graça sempre repetirei: Jesus, sou a Vossa vítima! Jesus, sou a Vossa vítima! Jesus, sou a Vossa vítima! (Alexandrina Maria da Costa: 09-10-1953)

quarta-feira, maio 12, 2021

COMO UMA LÂMPADA AMORTECIDA

Tal é hoje o estado do meu coração


Hoje a vida divina do meu coração comparo-a a uma lâmpada amortecida que a cada momento parece apagar-se. Já não nasce o sangue senão de longe a longe uma gota, que já mal se pode beber. Eu hoje dizia a Nosso Senhor assim:

— Meu Jesus, Mãezinha, vede a aridez da minha alma, vede o abandono que ela sente do Céu e da terra. Lançai sobre mim vossos divinos olhares de compaixão. Acudi-me, acudi-me, não me deixeis morrer de susto no meio das trevas. A minha alma está tímida com os assaltos do demónio. Quer acusar-me e lançar-me ao rosto tudo o que há de pior, apresentando-me a minha vida inteira cheia de enganos.

Jesus não me deixa por muito tempo combater as dúvidas, mas ele enraivecido enche-me de pavor. Se eu pudesse ter um sacerdote sempre junto de mim! É o meu Paizinho quem eu quero, pois foi esse que Jesus me prometeu e que os homens me tiraram.

As aves sínto-as já nos pés, mas como que aborrecidas por não encontrarem que comer. Vão mexendo e remexendo as poucas cinzas que me restam. Ai, o dia mais feliz da minha vida é o dia da minha morte! (Alexandrina Maria da Costa: 12 de Maio de 1942)

segunda-feira, maio 10, 2021

NADA SEI DIZER

 O demónio tem-me atormentado tanto, tanto!


— Tirai, Jesus, tira, meu Amor, para Vós a consolação e a alegria, deixai para mim o que é dor e trevas. A vontade quer aceitar por amor; a pobre natureza fraqueja, porque mais não pode. Tende dó de mim, Jesus.

O demónio tem-me atormentado tanto, tanto! Tudo aproveita para me martirizar. Eu que tudo faço por malícia, que tudo faço para enganar; enche-me de dúvidas. Veio com um ataque tão atormentador! Eu não tinha no meu corpo o mais pequenino bocadinho que não servisse de instrumento para ofender a Jesus. Parecia-me que o maldito se utilizava de todo o meu ser para pecar comigo, para ferir o meu Jesus.

— Ó meu Deus, que mar de crimes! Ofender-Vos com todos os meus sentidos!

Lutei por muito tempo, no meio de insultos, e ele parecia-me ser o senhor do meu coração. Figurava-se-me que o via dentro dele. E ele dizia-me:

— Expulsa-me do teu coração. Não és capaz, sou senhor dele.

Depois de muito lutar e lutar às portas da morte, fiquei caída, fora das minhas almofadas. Sem poder mexer-me, invoquei muitas vezes o nome de Jesus, chamei por Ele, pedi-Lhe para me acudir, mas oh! com que vergonha e tristeza! Ouvi Ele dizer-me assim:

— Com um sopro, saído dos meus lábios divinos, vais docemente para as tuas almofadas, minha filhinha.

E vi-O então a Ele senhor do meu coração. Era Jesus Menino, já crescidinho. A cruz era maior que Ele.

— Sou eu o rei, sou eu o senhor. És minha e tudo o que é teu a mim pertence. Não pecaste, minha filha. O teu corpo não é como o demónio te faz sentir, um instrumento de pecado; todo ele é um instrumento de reparação para mim. Repara, repara, aceita, abraça a tua cruz. O teu corpo é de pureza, o teu coração é de amor.

— Confio, meu Jesus, não me falteis e não consintais que eu mova os meus lábios e nada faça que Vos desgoste.

No meio das minhas amarguras, no abismo das minhas trevas, quando já não posso mais e me parece não haver remédio para os meus males, sinto por vezes Jesus no meu coração a estreitar-me com todo o amor e a repetir-me uma e muitas vezes:

— Coragem! Eu estou contigo, não te falta o conforto do teu Jesus. És minha, eu amo-te, nada temas. Sofre contente, sofre por amor, não deixes as almas perderem-se.

Tudo isto faz-me reviver, mas por bem pouco tempo. Só as ânsias de me dar às almas, de salvar o mundo não cessam, consomem-me o coração. Que desejos tão vivos de incendiar no mundo o fogo divino, o fogo que, sem ser meu, sinto-o, consome-me, devora-me!

— Ó mundo, hei-de vencer-te, hás-de salvar-te. Ó rochedo, hei-de reduzir-te a chamas, hás-de amar a Jesus, hás-de ser puro, hás-de viver para Ele.

O demónio continua a rodear as janelas que cercam o edifício do meu corpo. Redobra sempre a sua malícia, tenta entrar por uma e por outra. Enraivecido, uiva e desespera-se, por nada poder conseguir. Não posso lembrar-me que hoje é o dia a Ascensão de Jesus ao céu. Parece-me que Jesus subiu, deu a Sua entrada no céu sem ser louvado e festejado. As trevas cegaram os anjos e todos os habitantes do céu. O meu coração apavorado chora lágrimas de dor e de sangue. Sente as cordas que amanhã lhe vão atar o seu corpo. Sente nele as bofetadas e os escarros que ao rosto lhe hão-de ir cair. Pobre coração, que não sabe amar, que não sabe compadecer-se de Jesus, que está nele caído com a cruz às costas e atado com grossas cordas. Visão dolorosa a da minha alma! Em que estado ela vê Jesus. Anteciparam-se os sofrimentos; já hoje sinto tudo. Durante a Ceia vi e senti o abraço de Jesus a seus discípulos. Que abraço tão terno e eterno! Entre eles houve um que recusou, não quis aceitar. Mas a ternura e o amor de Jesus continuaram ainda sobre ele. Como Nosso Senhor sofreu ao ser desprezado o Seu convite, o Seu amor, o Seu chamamento! Se Jesus, a Mãezinha ou os anjos falassem em meus lábios para gravarem bem nestas linhas o amor divino e a ingratidão do mundo a esse amor! Que sede eu tenho de dar almas a Jesus, de salvar o mundo e de matar o pecado para sempre, para sempre! Não sei dizer o que quero e não vejo nada para fazer, estou ceguinha. (Alexandrina Maria da Costa: 10 de Maio de 1945).

sábado, maio 08, 2021

MUITAS VEZES DESFALEÇO

Sinto coisas tão grandes como o Céu


A minha cruz é pesadíssima para eu levar. Ela aumenta de dia para dia. Só vivo da confiança que Jesus a leva por mim. Mas muitas vezes desfaleço, sinto que não tenho confiança, não tenho esperança, não tenho nada. Não sou nada, mesmo nada, nem ao menos vermezinho da terra chego a ser e sou ao mesmo tempo trapo imundo, trapo a desfazer-se de podridão, onde toda a humanidade calca e se limpa ao mesmo tempo. Limpa-se e suja-se, contamina-se com o veneno da minha podridão. Ai, o que eu sou, meu Deus, o que eu sou de miséria e crime, ai, o que vejo dentro em mim! Parece que não posso consentir que as almas se abeirem de mim. De momento para momento aumenta o pavor pela miséria que sinto, pela criminosa que sou. Apavoro-me por sentir que elas outra coisa não podem ver em mim. Tenho medo de as escandalizar, tenho medo que elas com a visão de tantos crimes se percam. A estes sentimentos dolorosos juntam-se outros não menos dolorosos. Enlouqueço-me por elas, quero abraçá-las de tal forma a metê-las todas no Coração Divino de Jesus, a fechá-las todas no Céu. Que indizíveis sofrimentos, que sofrimentos e ânsias infinitas. Parece que é Jesus a arrancar-me o coração deste corpo imundo para o levar para Ele e com ele todos corações do mundo inteiro. Sinto, sinto que Jesus os quer e eu não posso dar-Lhos, nem aguentar com as ânsias que Ele tem de os possuir. Não sei dizer mais nada. Sinto coisas tão grandes como o Céu; sinto a necessidade de falar delas e não sei. Meu Deus, meu Deus, que poder supremo me arranca e atrai para Vós! Que loucura, que loucura a do Vosso amor! Queria falar dele e não me deixa a minha ignorância. Passei a vida esquecida do Senhor. São esses os meus sentimentos, foi assim o meu dia de ontem depois de talvez milhares de vezes pronunciar o Seu santo Nome, fiquei sem nada dizer e nada fazer por Ele. (Alexandrina Maria da Costa: S. 8 de Maio de 1953)

sexta-feira, maio 07, 2021

O SOFREDOR SOIS VÓS

 Quanto sofri, meu Deus!


Meu Deus, como se pode sofrer assim?! Eu quero abafar, quero esconder a dor, mas não posso mais. Meu Deus, como se sofre, como se pode sofrer desta forma? Humildemente, Senhor, diante de Vós quero-Vos pedir perdão. O sofredor sois Vós. Perdoai-me o meu queixume, o meu desabafo. Vós sois o portador da minha cruz, o Senhor das minhas amarguras; sois Vós, só Vós a beber o amargo do meu fel. Como me atrevo, Senhor, a queixar-me? Depois de reconhecer a minha miséria, vi que não sou capaz de suportar uma pequenina parcela da minha cruz sem o Vosso auxílio, Senhor.

Dias amargos, dias dolorosos de profundas e sentidas lágrimas foram os que se passaram. A minha pobre natureza não pode ser mais fraca. A vontade está pronta, sempre pronta para tudo o que Vos aprouver, meu Amor. Escondo, escondo muito os sofrimentos para não ser causa de os meus sofrerem. Bem sabeis, Jesus, que é assim, é só por Vós e pelas almas. Eu aceito esta vida de tão doloroso martírio. Sem ver a Jesus, sentia que da Sua sacrossanta cabeça se desprendiam espinhos, como pétalas de flores que os ventos desfolham e se vinham espetar na minha cabeça. Sentia que mãos cruéis de lança em punho me alanceavam o coração e me cravavam muitos punhais. Que dor, que dor! Quanto sofri, meu Deus! Da mesma forma, sem ver a Mãezinha, vinham as setas do Seu Santíssimo Coração. Os olhos da alma viam tudo que pareciam vir dos ares. O coração adivinhava donde vinham os espinhos e tudo o mais. (Alexandrina Maria da Costa: 7 de Maio de 1954 – Sexta-feira)

sexta-feira, abril 30, 2021

FILHINHA, ESTOU A DELICIAR-ME NA TUA DOR

— Ó meu Jesus, é bem doce sofrer por Vós


Como hei-de caminhar! Como hei-de vencer tão grande dor! Como hei-de suportar tão aterradoras trevas! Só Jesus poderá valer-me, só Ele pode aguentar o peso da minha cruz. Passo horas e horas num brado de socorro. Apavorada de horrores e trevas e sem conseguir um momento de conforto e a sentir a alma rasgar-se, despedaçar-se em dor. De longe a longe, Jesus vai dando à minha alma um pouquinho de suavidade, dizendo-me do íntimo do coração:

— Coragem, filhinha, cá estou eu a deliciar-me na tua dor. O teu Jesus não te falta com a sua graça e o seu conforto.

— Ó meu Jesus, é bem doce sofrer por Vós; é bem doce o Vosso conforto, mas tudo desaparece nas trevas, tudo passa como se não fosse para mim. Parece-me que Vós existis só para me condenares e não para me salvares. Não há para mim mimos do céu nem da terra; para mim tudo morreu, tudo desapareceu na negra escuridão da noite. É sempre noite, em todo o mundo noite. Sinto todo o mundo a tremer apavorado; lá se vai ele a mergulhar no abismo da perdição. Eu quero acudir-lhe, quero salvá-lo e não posso. Sinto a sua perda, mas não o vejo para o agarrar, não vejo as almas, não vejo as prisões, as trevas não me deixam. Meu Deus, perdi a luz, perdi a vida. Pobre do meu coração em dor e em ânsias: dor por Jesus ser ofendido, dor por as almas se perderem; ânsias de amar a Jesus, ânsias de O ver amado, ânsias de salvar as almas. Que fogo consumidor! Sinto o estalar do rochedo por onde o fogo vai penetrando. Mas ah! é impossível estas chamas incendiarem tudo. E eu só enrolada, mergulhada sempre na negrura mais aterradora. Quando mais não posso, levanto os olhos ao céu e digo:

— Meu Jesus, sei, acredito, confio que estais em mim e sabeis que só a Vós quero amar e não Vos quero ofender.

E, descendo para baixo, imagino ver toda a humanidade e digo-lhe:

— Ó mundo, quero salvar-te, por ti, pela tua entrega a Jesus, quero sofrer tudo.

Dito isto, fico de braços caídos, como se no meu corpo não existisse gota de sangue. Nada feito, do mundo nada consigo. A minha prece não chegou ao céu, Jesus não a ouviu. Mas ah! tenho aqui um coração que palpita por Ele e Ele bem o sabe. Confio, confio; é Jesus e a Mãezinha que vão vencer as minhas trevas. São Eles que vivem, são Eles que sofrem em mim. Os ceguinhos que não têm olhos no corpo também se salvam. Eu perdi a luz da minha alma, maior será a compaixão de Jesus. Hei-de salvar-me e com Jesus hei-de salvar muitas almas. O demónio rodeou-me tanto durante a noite! Não foi um, foram muitos. Assustava-me tanto pelas formas com que se apresentavam! Um deles tinha uma tão grande e tão feia, quase me tocava com ela. O meu corpo ficou como se fosse uma casa com janelas por todos os lados; estas todas fechadas, mas todas rodeadas por eles. São como feras que querem lançar-se à presa, são ladrões que querem assaltar a casa, assassinos que querem matar quem nela habita. Que olhares tão maliciosos! Que gestos de tanta maldade!

— Não pecarei eu, meu Jesus? Tirais disto alguma consolação para Vós, algum proveito para as almas? Sou a Vossa vítima, guardai para Vós o meu coração, o meu corpo e a minha alma. Tende dó de mim, meu Jesus.

Parece-me que em nada falei verdade. (Sentimentos da alma: 30 de Abril de 1945)


quarta-feira, abril 28, 2021

JESUS, ONDE ESTAIS?

 JESUS, VENHO AO VOSSO ENCONTRO

Jesus, venho ao vosso encontro. Onde estais vós? Não poderei encontrar-vos? Ouvi ao menos as minhas mágoas. Se vós me faltais, não tenho ninguém. Vistes-me na manhã de hoje orava na cruz convosco em tão grande agonia, com os olhos levantados para o Céu que senti e vi desaparecer sem a mais pequenina esperança de voltar a vê-lo e de nele poder entrar? Que tristeza a minha de ver tudo perdido e sem remédio! Uma vez descida da cruz, principiei a subir o calvário. Ia tão fraca! Caminhava quase com o rosto em terra; aqui e além caía, feria-me dolorosamente: ficava em sangue. Que medo, que pavor até, ao recordar-me que em pouco ia ser crucificada sem auxílio nenhum da terra. Valeu-me o vosso divino amor; viestes vós ao meu encontro.


— Minha filha, faltam-te as forças humanas; tem coragem, nunca te faltarão as forças divinas. O calvário é o caminho dos meus eleitos, o calvário é o caminho das minhas esposas, o calvário é o caminho das minhas crucificadas. É pelo calvário que eu dou o perdão aos pecadores, é pelo calvário que eu dou amor aos corações. Ânimo, ânimo, minha louquinha, a tua Mãezinha e o teu Paizinho acompanham-te, auxiliam-te numa união íntima.

― Obrigada, meu Jesus.

Animada com as vossas doces palavras fui para o Horto. Nunca vos encontrei, mas a vossa força divina venceu em mim. Senti ; logo no princípio o descaramento com que os soldados se apresentariam no Horto para a prisão. Senti que à frente viria Judas com todo o veneno em seus lábios. Senti no meu corpo os pontapés que um pouco mais tarde, quando me arrastassem pelas cordas, me haviam de dar. Tive no meu coração os Vossos sentimentos, quando víeis à vossa frente todos os pecados e crimes do mundo. Se com todos estes sofrimentos todas as almas se salvassem! Mas ai, quantos ainda se perdem não se aproveitando do meu sofrer. O Jesus, senti o meu corpo banhar-se em sangue, ficando os vestidos pegados a ele e pegados à terra. Mas mais, muito mais ainda sofreu o vosso corpo delicado e divino. Na flagelação e coroação de espinhos velastes sempre por mim. Ao abrigo e amparo de um amor santo e puro, senti inebriar-se-me a alma e numa suavidade e paz descansei por algum tempo.

Veio depois a Mãezinha tomar-me em seu regaço, apertou-me em seus braços, acariciou-me. Com tudo isto, tive muitas vezes que chamar por Vós e por Ela. Assustada com a tristeza e abandono, desfalecida a mais não poder, não tinha forças para caminhar. Sempre em vão invocava o Céu; o abandono era total, tinha que ser sozinha que eu agonizava na cruz. Nessa dolorosa agonia cravou-se-me no coração uma lança; tinha que sentir toda aquela dor ainda antes de expirar. Pobre de mim, pobre da Humanidade que não conhece quanto sofrestes, ó Jesus!

Terminada a crucifixão continuei a viver aparentemente sozinha. Ia recordando a retirada que me fizeram do meu Paizinho espiritual. Mais uma prova do vosso infinito amor, meu Jesus. Fizestes que o Sr. Doutor não só cuidasse de suavizar as dores do meu corpo, mas também que suavizasse a dor dolorosa e profunda da minha alma. Vós que tudo conheceis, serviste-vos dele para preparardes o meu coração para receber a último golpe. Obrigada, meu Jesus; outra coisa não sei dizer. Deixai-me repetir convosco: A minha alma está triste até à morte. Perdi a luz, perdi tudo. A tua bênção e o teu perdão, meu Amor. (Sentimentos da alma: 20 de Fevereiro de 1942).

sexta-feira, janeiro 15, 2021

CANTO DE AMOR A JESUS

Ó amor, como tu és grande e forte!

Fala, fala, meu coração,
diz ao menos nestas linhas quanto desejas amar o teu Jesus!

Fala, fala, coração meu,
diz ao teu Jesus que só a Ele queres
e que só nele queres descansar!


Não canses, não deixes de falar do amor!
O amor que é amor, verdadeiro e puro amor,
não pode calar-se,
não pode deixar de manifestar-se,
tem que falar e provar que ama sempre:
ama de dia e de noite, ama na dor e na alegria,
ama na exaltação
e, se é amor verdadeiramente puro,
ama mais ainda quando é humilhado.

Ó amor, como tu és grande e forte!

Ó Jesus, onde poderei encontrar a escola do vosso amor?

É com certeza no vosso Divino Coração,
é aí que eu posso aprender a amar-Vos
e com aquele amor por o qual o meu coração suspira.

Ó Jesus, ó Jesus, dai-me lugar,
deixai-me entrar para lá viver, Vos amar, para de amor morrer.

Onde estará, meu Jesus, o segredo de amar?
Onde poderei encontrar tão precioso tesouro?
Eu não quero mais nada na terra a não ser amar-Vos e salvar-Vos as almas.
Tudo o mais é mesquinho e nada; tudo o mais é ilusão e mentira.

Mas o vosso amor, ó Jesus,
é tudo e sem ele não posso viver:
tenho uma fome que me mata o coração.
 

Jesus, eu quero assemelhar-me à criancinha
que nos braços de sua mãe
não sabe dizer outra coisa a não ser: mãe, pai.

Eu quero dizer sempre, sempre: Jesus, Jesus, amor, amor.
É vosso o meu coração, sou vossa inteiramente.
 

Estou a mais nada poder fazer; mas enquanto me for possível, ainda que seja de cinco em cinco minutos, uma letra hei-de dizer sempre:
Ó Mãezinha, amo-Te e amo a Jesus! Sou tua e sou dele!
 

Eu queria que o meu coração fosse uma fonte da qual nunca deixasse de correr água de doçura e fogo de amor para o Coração Divino do meu Jesus.

Que grande dita se eu O amasse com o amor de todos os corações! 

Jesus, o que Te posso eu dar? O que tenho eu que não seja teu?
Tenho o pecado, tenho a miséria, e é essa mesma que Te dou.
Será desvergonha da minha parte?
Ó Jesus, mas eu nada mais tenho e quero dar-Vos alguma coisa.
Compadecei-Vos dela e da do mundo inteiro.
 

A minha fome de Jesus nunca mais terá fim.
Nada me enche, nada me satisfaz.

Os meus caminhos não acabam:
quanto mais ando, mais fome eu sinto
e mais longe estou do Suspirado da minha alma.

Ó Céu, ó Céu, quando chegarás tu, para me satisfazeres?
Ó Jesus, vinde depressa!
 

Nada mais sei dizer, meu Jesus,
a não ser meu eterno obrigada de alma e coração,
e de alma e coração dizer-Vos que Vos amo.

Mas o meu amor não tem limites,
quer subir tanto, quer ir tão longe, quer chegar até Vós.
Jesus, fazei que Vos ame, não posso sozinha.
 

Com o coração a sangrar, mas sempre em Vós,
meu Jesus, confiada, bradarei noite e dia:

– Amo-Vos e é vosso o meu coração!

Ai, minha querida Mãezinha,
amai com o vosso Coração o meu querido Jesus.
Só assim Ele pode ser amado como merece.

Ó Mãezinha, queria dizer-Vos tantas coisas!
Deixai-me, Jesus, deixai-me gritar sempre,
com toda a alma, com todo o coração:

– Jesus é o meu amor,
o único a quem quero pertencer e para quem quero viver.
Só Ele tem para mim encantos, só a Ele se prende todo o meu ser.
Morra tudo em mim para em mim só Jesus viver!
 

Quando penso em Jesus na Eucaristia,
fico deveras confundida com tanta loucura de amor.
O que digo? É mais que loucura de amor.
Não sei como Jesus, o nosso bom Jesus,
nos pode amar tanto.

O que vistes em nós, meu Jesus,
que tanto Vos encantasse?
O que foi que Vos obrigou
a fazer-Vos prisioneiro de tantos séculos?
Oh, que amor!

Ó Jesus, dai-me um coração que Vos ame
e saiba corresponder às doçuras e loucuras do vosso infinito amor.
Quero viver presa por Vós, como Vós o viveis por mim.
 

Ó Jesus, meu querido amor:
eu queria ter a pureza dos Anjos,
o ardor dos Querubins e dos Serafins
para amar-Vos e cantar os vossos eternos louvores.

Eu queria, ó Jesus,
eu queria a sabedoria infinita
para saber cantar as glórias
e os louvores do Senhor.

Eu quero prestar ao Altíssimo
a honra devida de Pai Omnipotente,
de Criador e Senhor de todo o meu ser e do mundo inteiro.

Ó Jesus, só Tu és santo, só Tu és digno de todo o amor.
Aceita, ó Jesus, aceita os ardores do meu coração.
Aceita as minhas ânsias de bem Te servir, de mais e melhor Te amar.

Ó Jesus bom, ó Jesus santo, ó Jesus amor, amor, amor… 

Jesus, em que mísero estado Te encontro!
Quem foi que Te feriu assim?
Ah, sei bem! Foram os meus pecados.
Quero chorá-los, quero detestá-los
e em troca de tanto amor recebe o meu coração, que é teu:
quero amar-Te eternamente!...
 

Meu doce Jesus, tão tarde Vos conheci
e tarde, ainda muito mais tarde Vos amei!
Fazei que agora viva só para Vós e para o vosso amor!
 

É vosso o meu coração, sou vossa inteiramente.