Eles não sabem o que fazem
quarta-feira, junho 09, 2021
PERDOAI-LHES, MEU JESUS
domingo, junho 06, 2021
segunda-feira, maio 31, 2021
OU SOFRER OU O CÉU
Que valor pode ter a vida, se não sofro
segunda-feira, maio 24, 2021
Ó MEU JESUS NÃO ME ABANDONEIS
Sinto-me abandonada de todos
O
demónio quebrou todas as cadeias que o prendiam, caiu sobre mim. Luto sozinha,
combato a sua raiva. Ó minha querida Mãezinha, tiram-me o meu Paizinho nestes
tristes dias em que eu mais precisava dele.
Sinto-me
abandonada de todos a não ser quando mo dais milagrosamente para conforto da
minha alma; o que tão raras vezes acontece. Perdoai a todos os que me ferem,
perdoai tanta cegueira; eles de mim estão perdoados. No lugar do meu coração já
não cabem mais espadas; tenho sofrido por todos os lados, tenho recebido
sofrimentos de quem menos esperava. Ó meu Jesus, para todos o vosso perdão, o
vosso amor e a vossa compaixão. Purificai, santificai, abrasai no vosso divino
amor e levai para junto de vós sem demora a vossa filhinha agonizante. (Alexandrina Maria da Costa: S. 24-05-1942).
UM MAR DE AMOR
Um mar que nunca terá fim
quarta-feira, maio 12, 2021
VISITA DO CÓNEGO MANUEL VILAR
Segundo exame da Santa Sé
Sorri-me e
respondi-lhe: «Eu sei com certeza ao que V. Reverência vem aqui.» Ao que ele
disse: «Diga, diga, Alexandrina.» Então disse eu: «Vem de mando da Santa Sé»,
pois era o que eu sentia na minha alma nesse momento. Sua Reverência confirmou,
dizendo: «É isso mesmo.» E apresentou os documentos que tinham vindo de Roma.
Fez-me várias perguntas a que respondi. Não falei da crucifixão, mas falou-me
ele, dizendo: «Parece que há mais qualquer coisa que se passa há meses…»,
apontando a Paixão, mostrando desejo de vir assistir, como veio logo na
primeira sexta-feira seguinte.
Falando disto ao
meu Director espiritual, este aconselhou-me a que lhe falasse com toda a
franqueza. Visitou-me quatro vezes, mas só duas foram obrigatórias. Se não me
engano, logo da primeira vez disse-me: «Olhe, Alexandrina, gostava de há muito
a ter conhecido, mas não queria ter vindo como vim.» Confiou-me o segredo da
sua partida para Roma, pois naquela ocasião só era sabedor o Sr. Arcebispo.
Como me sentia
muito bem a conversar com ele e como tinha toda a licença do meu Director
espiritual, falámos muito, mesmo muito de Jesus, porque sentia-me como que
mergulhada num abismo de santidade e sabedoria, o que raras vezes me acontece,
mesmo com sacerdotes. Disse-lhe que não falava assim com outros senhores
Padres, porque não era feitio meu, mas sim pela confiança que nele sentia. Sua
Reverência respondeu-me: «Faz muito bem, Alexandrina, em nada dizer porque, se
lhes dissesse, eles não a compreenderiam.»
Chorei quando Sua
Reverência se despediu de mim na partida para Roma. Prometeu escrever-me de lá,
dizendo-me que ficaria a ser a sua intercessora na terra. Recebi algumas cartas
dele em que mostrava ter em mim inteira confiança. Respondi-lhe, e ajudámo-nos
mutuamente com orações a Nosso Senhor. (Alexandrina Maria da Costa:
Autobiografia)
Imagem: O Cónego Manuel Vilar que se tornou amigo da Alexandrina.
terça-feira, maio 11, 2021
TROCA DE CORAÇÕES
Jesus fez a troca, senti-me logo outra
Cheguei, mas com
muito custo, ao cimo do calvário. Cravada na cruz, com o coração em sangue,
bradava incessantemente socorro ao Eterno Pai. O coração voava para Ele, mas
era repelido, parecia não ser aceite. Nem na cruz era poupado o meu corpo; os
olhos da minha alma viam todo o mundo a vir feri-lo. Via todo o mundo a
penetrar na minha cabeça grande número de agudos espinhos. Que grande dor me
faziam! Toda a humanidade maltratava e esmagava o meu coração, deixando-me em
agonia mortal. Veio Jesus ao encontro desta dor e agonia. Demorava-se: fez-me
esperar muito tempo. Esperei resignada.
— O que
quiserdes, meu Jesus, a minha vontade é a Vossa.
— Minha
filha, prenda valiosíssima que eu dei ao mundo. Quanto ele tem de agradecer-me!
Tu és a depositária, és o cofre das riquezas e dons divinos. És a mensageira da
paz, de quanto a humanidade te é devedora. Coloquei-te no meio dela, és um
centro de virtudes, és um centro de flores cândidas e puras. És a vida das
almas, és a nova Eucaristia delas. Purifica-as dos seus defeitos, lava-as dos
seus crimes, prepara-las para mim que sou a verdadeira Eucaristia. És a
pastorinha que conduz o rebanho ao Pastor Divino. Tu és o porta-voz de Jesus
para o Santo Padre. Diz, minha filha, ele que fale à humanidade inteira. Ele,
que é o pai da terra, que peça em nome do Pai do Céu. Quero uma reconciliação
firme e sincera, quero um mundo novo de pureza e de amor. Penitência,
penitência e oração. Penitência no lugar dos prazeres, oração em vez das
vaidades e passatempos ilícitos. União comigo, amor puro, amor abrasado ao meu
Divino Coração. Se houver, minha filha, a verdadeira transformação, receberá o
mundo inúmeras graças, uma chuva de bênçãos cai sobre ele. Mas, ai dele, se
assim não for. Aceita, filhinha amada, o meu Divino Coração, consola-o,
cura-lhe tão profunda chaga. Dá-me o teu para o confortar e para lhe dar vida.
Jesus fez a
troca, senti-me logo outra. (Alexandrina Maria da Costa: 11-05-1945)
segunda-feira, maio 10, 2021
OS MEUS OLHOS NADA VÊEM
Vontade do meu Deus, quero-te
— Vontade
divina, vontade do meu Deus, quero-te, abraço-te e nunca mais te largarei.
Os grandes
arrancos da minha alma têm continuado; por vezes são como terramoto que tudo
destrói; todo o meu ser parece ficar em estilhaços. E os sobressaltos vão-se
repetindo: temo a todos, temo a mim mesma. Sem ver e sem forças para resistir,
estou como se estivesse de braços abertos à espera de tudo o que o céu quiser
enviar-me, o céu que me parece ser de trevas, o céu que baixa sobre mim e me
obriga a infundir-me na terra, na terra de iguais trevas. A que profundeza já
eu vou! Quanto mais esmagada, quanto mais me vou aprofundando, mais em trevas
fico. Que horror! Parece não poder convencer-me que na terra há luz e há sol,
que no céu há alegria, luz brilhante e amor sem fim. Meu Deus, não conheço
nada, parece que nada disto experimentei. Sinto dentro em minha alma uma
revolta do céu contra a terra. Jesus não pode mais aguentar com os crimes da
pobre humanidade. Que quadro tão doloroso, que cena tão triste! Se o mundo
pudesse ver o que se passa em mim, com certeza não pecaria mais. Se não o
comovesse o amor de Jesus, aterrava-o a Sua justiça. Sinto, sinto toda a
justiça divina a querer descarregar sobre a terra. Não sei quem é, é alguém que
se prostra com grande aflição diante da justiça divina para sustentar o Seu
braço poderoso, prestes a cair sobre a terra. Não é só a alma que o sente, vê
com os seus olhos esta visão claramente.
— Meu Deus,
só Vós sabeis quanto eu sofro e por quem sofro. É por Vós, é pelas almas. (Alexandrina Maria da Costa: 10 de Maio de 1945).
quarta-feira, maio 05, 2021
AO DIRECTOR E AO MÉDICO
— Anima-te, meu anjo, e confia sempre
Tomou-me a
Mãezinha em seus braços, senti-me logo cheia de doçura e amor. Dum lado o seu
santíssimo rosto e do outro a sua bendita mão me acariciava. Estava o meu rosto
no meio daquela prensa santíssima. Cobriu-me de beijos, senti-me viver.
— Minha
filha – dizia-me ela – venho em breve buscar-te para o céu. Antes de expirares,
levo-te à presença de Jesus pela minha bendita mão; entre mim e Ele serás
conduzida ao paraíso. À tua chegada terás coros de virgens, coros angélicos,
toda a corte celeste em hinos, todo o céu em festa.
— Obrigada,
Mãezinha. espero-Vos depressa, a não ser que os Vossos breves sejam como os de
Jesus. Seja como for, não tenho vontade nem querer próprio. O que quero é a
Vossa força santíssima para levar a minha cruz, a pureza do meu corpo e da
minha alma, o amor ao Vosso Coração e ao de Jesus, a graça de não O desgostar
nunca, nunca. Dizei-me, Mãezinha, estais triste comigo ou está Jesus?
— Não,
esposa do meu filho querido. A minha alegria e consolação estão em ti, nada
fizeste para me entristecer; tudo fazes para honra e consolação minha e do teu
Jesus. Sossega, sossega, meu Filho, sossega a tua filhinha.
— Coragem,
sossega, amada do meu Divino Coração. O que te digo é para te firmar e
fortalecer no teu martírio. Não me desgostaste, sossega, não o permito. De ti
recebo a alegria e amor que o meu Divino Coração deseja. És a loucura do céu, a
vida das almas, o encanto da terra, a glória do meu Pai.
Por algum tempo
fiquei fortalecida, mas, à medida que as horas foram passando, corri
apressadamente a mergulhar-me nas trevas para nelas poder esconder-me de todos
e para sempre. Abismada nelas, parecia-me não caberem em mim as ânsias, ânsias
doridas, ânsias capazes de dar a morte, ânsias não sei de quê. Que peso o da
minha cruz! Mas quero-a, amo-a para sempre. (Sentimentos da alma: 05-05-1945)
segunda-feira, maio 03, 2021
MARIA ANA COSTA
A mãe da beata Alexandrina
Maria Ana, filha mais velha de José António
da Costa e de Ana Joaquina Leitão, era
uma bela moça alegre e trabalhadeira. Nasceu a 22 de Janeiro de 1877, em Gresufes,
um dos muitos lugares de que se compõe a aldeia de Balasar. Teve 4 irmãos e 5
irmãs.
Para memória, aqui fica o seu “assento” de baptismo:
«Aos 24 dias do mês de
Janeiro do ano de 1877, nesta Igreja Paroquial de Santa Eulália de Balasar,
concelho da Póvoa de Varzim, Diocese de Braga, baptizei solenemente um
indivíduo do sexo feminino, a quem dei o nome de Maria e que nasceu nesta
freguesia às cinco horas da manhã do dia 22 do mesmo mês e ano, filha legítima
de José António da Costa, lavrador, natural desta mesma freguesia, e de Ana
Joaquina Leitão, lavradora, natural da freguesia de Minhotães, concelho de
Barcelos, desta mesma diocese, e na mesma recebidos, e paroquianos e moradores
no lugar de Gresufes desta freguesia de Balasar, neta paterna de Manuel António
da Costa e de Joaquina Maria de Freitas e materna de Francisco Manuel de Araújo
e de Maria Joaquina Leitão. Foi padrinho Manuel António da Costa e madrinha
Maria Joaquina Leitão, lavradores, os quais todos sei serem os próprios.
E para constar lavrei em
duplicado este assento que, depois de ser lido e conferido perante os
padrinhos, comigo o assinou o padrinho, não assinando a madrinha por não saber
escrever.
Era ut supra.
O Padrinho – Manuel
António da Costa
O Reitor – António Martins
de Faria»
Na sua juventude apaixonou-se por António Gonçalves Xavier, de Vila Pouca,
lugar da freguesia, vizinho de Gresufes.
«Maria
Ana da Costa conhecia com certeza António Xavier desde a infância, pois Vila
Pouca e Gresufes são pegados e as casas dos pais dos dois não distavam mais de
300 metros. O que fizeram nas termas foi sem dúvida estreitar uma relação que
antes era só de vizinhança.»[1]
Desta paixão — que era, sem qualquer dúvida, sincera por parte de Maria Ana
— nasceu uma primeira filha, a Deolinda, em 21 de Outubro de 1901. Maria Ana
tinha então 24 anos.
Naqueles tempos, por razões diversas que não cabe aqui explicar, eram
numerosas as mães solteiras, por isso mesmo não deu grande alarido na freguesia
que isso tivesse acontecido com aquela jovem camponesa.
Passou-se algum tempo sem que o prometido casamento se realizasse. António
Xavier tinha outras ideias: ir para o Brasil ganhar o dinheiro necessário para
sustentar a futura esposa e a filha. E assim o fez.
No seu depoimento, a quando do processo diocesano para a beatificação e
canonização da Alexandrina, a Deolinda explicou:
«Da minha mãe tive as
informações sobre o meu pai que agora exponho.
Era um aventureiro: foi
várias vezes ao Brasil. A minha mãe tinha ido para as Termas do Gerês, para
cura, e foi lá que o conheceu.»
E mais adiante, diz ainda:
«Voltou do Brasil quando
eu já tinha os meus dois anos e começou a andar de novo atrás da minha mãe. Mas
como a família (dela) se opunha, ela disse-lhe claramente que naquelas
condições não podia casar… Então ele apresentou-se à minha avó e ao meu tio
Joaquim e combinou o matrimónio: estavam já a procurar casa quando ele teve de
ir para a Póvoa para se curar duma doença contraída no Brasil…
Um dia que a minha mãe
tinha ido a Vila do Conde vender hortaliça, no regresso passou pela Póvoa onde
tinha marcado um encontro com ele para o informar de que estava novamente
grávida (nascerá a Alexandrina). Mas da casa donde tinha saído o meu pai saiu
também uma mulher que lhe disse: – Xavier, as minhas tesouras não estarão no
teu quarto?
A minha mãe teve assim a
confirmação das vozes que já corriam. Xavier protestou que eram tagarelices.
Mas na verdade em pouco tempo casou com aquela mulher da Póvoa.
A minha mãe chorou
lágrimas amargas e desde então, por toda a vida, vestiu-se quase sempre como
uma viúva e dedicou-se exclusivamente à educação das duas filhas…»
Aquela que mais tarde será muitas vezes a “secretária” da Alexandrina,
deixou-nos de Maria Ana este testemunho:
«A mãe da Alexandrina
reparou de modo edificante os erros da sua juventude. Ou melhor, com a caridade
para com todas as pessoas, que a conheciam como mulher de grande coração;
depois com uma vida de intensa piedade. Levantava-se cedíssimo. Todos os dias
pelas 5 da manhã entrava na igreja, de que tinha a chave. Quando começava a
Santa Missa, ela já há duas horas estava de joelhos frente ao Santíssimo. Assim
fez enquanto as forças lho consentiram.»
Depois daqueles desaires e respectivas consequências, Maria Ana,
sinceramente arrependida da sua conduta, mudou completamente, tornando-se mesmo
um exemplo para todos, porque a partir daí manteve “uma conduta
irrepreensível”.
Deolinda, falando de sua mãe, presta-lhe esta simples e sincera homenagem:
«A minha mãe ensinou-nos a
trabalhar desde pequenas. A sua caridade era conhecida de todos, tanto que o
pároco de então disse: – Quando esta senhora morrer, senti-lo-á toda a
paróquia. – De facto não havia doente que ela não socorresse. Vinham chamá-la até
de noite e ela acorria porque sentia pena. Assistia os moribundos; recitava as
orações da agonia; vestia os mortos. Mais, sendo uma boa cozinheira, era
chamada per os jantares nos baptizados e nas bodas, como também na residência
por ocasião de pregações.»
Na sua autobiografia a Alexandrina fala-nos da sua primeira “teimosia”, que
teve resultados pouco lisonjeiros:
«Como era desinquieta e,
enquanto minha mãe descansava um pouco, tendo-me deitado junto dela, eu não
quis dormir e, levantando-me, subi à parte de cima da cama para chegar a uma
malga que continha gordura de aplicar no cabelo – conforme era uso da terra –
e, por ter visto alguém fazê-lo, principiei também a aplicá-la nos meus
cabelos. Minha mãe deu por isso, falou-me e eu assustei-me. Com o susto, deitei
a malga ao chão, caí em cima dela e feri-me muito no rosto. Foi preciso
recorrer imediatamente ao médico que, vendo o meu estado, recusou-se a
tratar-me, julgando-se incapaz. Minha mãe levou-me a Viatodos, a um
farmacêutico de grande fama, que me tratou, embora com muito custo, porque foi
preciso coser a cara por três vezes e levou bastante tempo a cicatrizar a
ferida.»
No mesmo documento, e com muita ternura a Alexandrina conta a oferta que a
mãe lhe fizera: os primeiros soquinhos:
«Uma vez minha mãe deu-me
uns soquinhos. Eu fiquei tão contente com eles, porque eram lindos!... Para ver
a figura que fazia com eles, preparei-me como se fosse à Missa, calcei-os e
depois ajoelhei-me, pondo-os à minha frente, fingindo que estava na igreja.
Como era vaidosa!»
Com o mesmo carinho, Alexandrina lembra-se do que lhe dizia a mãe, quando
na sua meninice se mostrava irrequieta e tumultuosa:
«Minha mãe dizia: “Os
fidalgos têm um bobo para os fazer rir e eu não sou fidalga, mas também tenho
quem me esteja a fazer festa”».
Mas Maria Ana tinha punho de ferro e era exigente para com as filhas:
deu-lhes uma boa educação religiosa e inculcou-lhes duas grandes virtudes que
tanto a uma como a outra, ficaram bem registadas nos seus corações juvenis: a
caridade e o amor ao trabalho.
No que toca aos carismas de sua filha, ela sempre se mostrou recatada,
quase alheia a eles, ou porque não os compreendesse bem, não os avaliando ao
seu justo valor, ou então para deixar que livremente Deus actuasse na
Alexandrina, segundo a Sua santíssima Vontade.
Maria Ana faleceu pouco mais de 5 anos após a Alexandrina, em 24 de Janeiro
de 1961, e foi sepultada na campa familiar, no Cemitério de Balasar, junto de
seu irmão Joaquim Costa, que a precedeu na Mansão celeste.
Afonso Rocha
sábado, maio 01, 2021
CHOREM OS MEUS OLHOS...
Sorriam-se os meus lábios
Está próxima, Jesus, a minha crucifixão. Vêde-me na cruz
cravada convosco, de olhos levantados para o Céu, que já não vejo, a bradar
sempre: Jesus, Jesus, porque me abandonaste? Estou sozinha, faltam-me todos os
auxílios do Céu e da terra. Aceito para consolar-vos, tudo aceito, tudo sofro
para que se fechem as portas do inferno.
Meu bom Jesus, velais sempre sobre mim, estais sempre a
fortificar-me com a vossa graça e força divinas. Animastes-me dizendo :
— Minha filha, minha loucura, é na tua crucifixão que
está toda a salvação das almas. É no teu duro penar que está a minha consolação
e na tua completa imolação que está a minha glória, é no teu calvário que está
a minha completa alegria. Coragem, coragem! Não te falta Jesus com a Mãezinha e
o teu Paizinho. Tens em ti a graça divina.
Caminhei para o Horto. Não se podem comparar as agonias e
tristezas humanas com as Vossas. Quanto sofrestes por meu amor. Terei eu
coragem de negar-vos alguma coisa? Oh! não, meu Jesus, não. Dai-me força para
que eu não use de tal ingratidão. As trevas do Horto eram aterradoras. Todos os
sofrimentos eram pavorosos. Os pecados do mundo eram a prensa mais dura que
apertava o meu coração e o Vosso. Era o pecado, só o pecado a causa de todos os
sofrimentos; era o pecado que eu sentia a rasgar-me as veias; era o pecado que
afastava de mim o Céu, deixando-me no maior abandono, obrigando-me a suar
sangue. Foi o pecado, só o pecado o algoz de toda a Vossa Paixão. Quanto Vos
devo, meu bom Jesus, por sofrerdes em mim e me associardes a Vós. Já não podia
resistir mais e segredou-me a Vossa voz divina:
— Tens, minha filha, sempre à tua frente o amor do
teu Jesus.
― Ó meu Amor, sinto desaparecer dia à dia, momento a
momento, as forças do meu corpo e da minha alma! Só com Vós crucificado em mim
poderei vencer. Eu já não vivo, porque tudo em mim é morte. Fui flagelada, fui
coroada de espinhos, descansei no voso divino Coração; apertava-o com amor ao meu: prender-vos para
sempre, não me separar mais de Vós eram os meus desejos. Tive uns momentozinhos
que deixastes cair sobre mim a vossa divina Graça e uns raiozinhos do vosso
Amor aqueceram o meu coração. Quando descansei na Mãezinha Ela unia aos meus os
seus lábios santíssimos demorando-se assim todo o tempo do meu descanso. Isto
não são consolações, meu Jesus, bem sabeis que tudo isso desapareceu para mim,
são os auxílios que me dais, sem os quais era impossível a minha crucifixão.
Fui para o calvário, a cada passo sentia-me cair por terra, a perder a vida.
Estava pregada na cruz; das chagas escorria o sangue como dumas fontes. Os insultos
que ouvia golpeavam-me todo o corpo. A dor do coração fazia-o ansiar com tanta
força que parecia levantar-me o peito a pontos de o abrir. Chamar por vós,
bradar ao Céu, tudo era inútil. Só trevas e abandono, só agonia mortal.
― Ó meu
Jesus, passou a crucifixão, a noite já vai alta e no alto do calvário estou eu
de braços abertos, na cruz pregada, na noite mais triste e tenebrosa a bradar
sempre: Ó Céu, ó Céu, ó Céu que me abandonaste. Ó terra que me desprezaste e me
odeias. O meu brado perde-se num mundo de abandono, o meu eco perde-se num
mundo que não tem fim. Estou só, Jesus, a tiritar de frio e de fome. Estou
cega, perdi a luz. Já não existirá no mundo, meu Amor? Todo ele é trevas, todo
ele é cegueira. Juntai, meu Jesus, a este duro penar, a dor que me causa ao ser
notada a falta do meu Paizinho aqui. Jesus, Jesus, permiti tudo, menos o
escândalo; eu não quero que sejais ofendido, mas muito menos ainda naquilo que
me diz respeito. Perdoai a todos, perdoai a mim e dai-me a vossa bênção, Jesus.
(Sentimentos da alma: 27 de Fevereiro de 1942)
sexta-feira, abril 30, 2021
DÁ-ME AS TUAS MÃOS
Vem para a barquinha do Meu Coração Divino
Espinhos, sempre
espinhos a penetrarem-me, a ferirem-me: é sempre a mesma vida. O meu calvário é
só dor, só dor.
Se esta minha
palavra de “creio” fosse sentida, se, quando digo a Jesus que confio, soubesse
que confiava, todo o meu calvário era suavizado.
— Oh! Não,
meu Deus, não! Nada sinto, e parece que nada acredito! Este tormento de mentir
aos outros e mentir a mim mesma e sobretudo a Vós, meu Sumo Bem, quanto me
custa, quanto me custa!... Só vós o sabeis! Bendito sejais!
Envergonha-me ao
máximo falar da minha cruz, sofrimento e calvário. É o meu pão. Outra massa não
tenho; a dor, a dor… A minha loucura por Jesus, de O amar e de O fazer amado,
de Lhe dar todas as almas, aumenta de dia para dia. Não tenho a mínima
consolação nesta loucura, mas consome-me e nela me perco. É tal o abismo que
desapareço. Mas a humilhação por as almas me rodearem envergonha-me de tal
forma que também me faz desaparecer. Fica só a existir a minha miséria.
O meu sepulcro cá
está na superfície da terra. Verdejam e vicejam flores à sua volta. Sinto e com
os olhos da alma vejo que há quem cuide delas, mas não sei quem é. Eu, no meu
ofício rude e penoso de cavador, continuo na mesma canseira, parecendo ter
mundos e mundos sobre mim, tal é a profundidade em que trabalho. Os suores regam
a alma e o corpo. A noite, as trevas aterradoras, a inutilidade e a morte
caíram sobre tudo isto. Não vi, não vejo, não sou nada e nada tenho que dar ao
meu Jesus. O meu brado não chega até Ele. As minhas lágrimas não O consolam.
Ah! Se Jesus saboreasse em mim alguma coisa, não me importava sofrer. Assim
também não me importo. Com o sentimento completo pelo abandono da terra a Ele
me abandonei pela Mãezinha.
— Sou Vossa,
sou Vossa, sempre a Vossa vítima. Ó Jesus, eu creio, eu creio!
Ontem, no meu
horto, não tive coragem de Lhe dizer o meu “creio”. Chorei, uni-me aos Seus
sofrimentos. Hoje, numa indizível amargura na viagem para o Calvário, amargura
tão triste e dolorosa que me obrigava as lágrimas a regarem-me a face. Pelo Céu
e terra abandonada não deixei de chamar por Jesus, mas com tal desfalecimento
que nunca Lhe repeti a palavra “creio”. Num momento inesperado, senti em mim um
amor tão forte, amor que não era meu, mas nele me mergulhei. Não por mim, mas
por força estranha que n’Ele me mergulhou. Após uns momentos de experimentar
este amor, ouvi Jesus a dizer-me assim:
— Amor,
amor, amor, minha filha, sou Eu o amor que te atrai, sou Eu o amor por quem
vives, a quem só amas, por quem enlouqueceste. Tem coragem! A tua vida é a vida
mais imitadora de Jesus. Por ti Me enlouqueci. A Mim te assemelhei. Não
duvides, nada temas. Tu vives a minha vida, a minha vida comunicas. A tua morte
ressuscita e dá a vida às almas, depois de iluminadas com a tua cegueira. As
tuas densas trevas são a luz do mundo.
Eu não tive a
visão de Jesus; nem os olhos da alma, nem os do corpo viram. Quando Ele assim
falava, fiquei sem o mínimo bocadinho do Seu amor, envolta no mar mais
tempestuoso; as ondas debatiam-se com a maior fúria, enrolando-me, levando-me à
profundeza do mar que não tinha fim. Os ventos sopravam, novas ondas debatidas
traziam-me à superfície da água. Sem ninguém por mim, julguei-me perdida. Veio
Jesus novamente.
— Minha
filha, ó minha filha, vem cá. Dá-me as tuas mãos. Vem para a barquinha do Meu
Coração Divino. Por Mim és salva como foram os meus apóstolos. Este mar é o mar
das paixões, esta fúria tempestuosa é a fúria louca dos vícios. Acode ao mundo!
Sustenta o braço da justiça de meu Pai! Tenho tantos espinhos e punhais no meu
Coração!... Queres que eles passem para ti, como as setas do Coração Imaculado
de minha Mãe?
Ainda não tinha
pronunciado a palavra “sim”, mas o meu coração estava ansioso por a pronunciar
e já os espinhos da cabeça sacrossanta de Jesus se deslocavam por si para a
minha cabeça e os punhais para o coração. Jesus deu-me as setas da querida
Mãezinha que tinha em suas mãos e com muito cuidado nas espetou no coração,
enquanto eu Lhe dizia:
— Tudo
quanto quiserdes. Sou a Vossa vítima!
Tudo isto se
passou dentro do Coração Divino de Jesus. A tempestade estava serena. Tudo isto
foi visto com os olhos da minha alma e mais ainda a forma como Jesus passou o
Sangue para o meu coração. Fez do Seu uma pequenina e bela infusinha que tombou
sobre o meu coração, e a gotinha do sangue caiu.
— Recebe a
gota do meu Divino Sangue, a vida que vives, a vida que comunicas a milhares e
milhares de almas que se abeiram de ti. Tem coragem! Tem coragem! Tende
coragem! Nenhuma alma sai daqui (foi esta a minha promessa e Eu não falto) que
vá como veio. Quantas ressurreições, quantas ressurreições! Em algumas daquelas
mais renitentes, que parece nada aproveitarem, levam o remorso. Elas não querem
ceder. O seu orgulho não quer baixar, mas a graça lá fica para mais tarde. Eu
não te abandono. Minha Bendita Mãe não te abandona. Confia! Não Nos perdeste.
Quanto maior é o sentimento da perda, mais Nos possuis. Como abandonar-te a ti
a quem confiei que continues a minha obra de salvação! A tua vida vai ser
sempre assim até ao fim. Não quero dizer que ainda não te sejam dados momentos
de alegria, mas não para tu os sentires.
Recebe as
carícias da minha Bendita Mãe. O teu adeus não foi até ao Céu. Ela virá ainda
ver-te na terra. Recebe as carícias de Jesus com as da Mãezinha com os Seus
ósculos santíssimos que trazia em Suas santíssimas mãos.
Disse-Lhe o meu
“obrigada” para Jesus e para a Mãezinha. Fiz-Lhes os meus pedidos, mas já no
mar tempestuoso com a mesma fúria e sem a presença de Jesus. Já lá vão muitas
horas, a tempestade continua; os seus espinhos e punhais e setas da Mãezinha continuam
a estar presentes no coração e a virem novos espinhos constantemente. O Senhor
seja bendito! (Sentimentos da alma: 30 de Abril de 1954
– Sexta-feira).
quinta-feira, abril 29, 2021
PARA ONDE CAMINHO, SENHOR?
Neste caminho vem ao meu encontro a mulher querida
– Para onde
caminho, Senhor? Que será de mim, meu Jesus?
Passei da dor ao
amor, do calvário, da cruz ao Tabor. Principiei a sentir o amor de Jesus
fortemente no meu peito e no coração e a Sua divina presença em mim; e logo
ouvi a Sua voz, doce e suave:
– Vem o céu
a prestar homenagens ao Rei do céu, à rainha da terra no seu encontro demorado.
Era meu desejo, minha amada, minha pomba querida, que o mundo conhecesse a
forma como me dou à minha esposa, à alma virgem. Queria que o mundo conhecesse
e compreendesse este amor: o amor com que te amo, o amor com que me amas a mim,
o amor às almas, o amor à cruz. Era meu desejo, grande desejo que o mundo
conhecesse a tua vida, vida do amor mais puro, vida de heroicidade, vida de
heroísmos com toda a abundância. A tua vida é um painel riquíssimo onde está
retratada a vida divina, a vida mais completa de Cristo crucificado. Os homens,
os homens, minha filha, opõem barreiras escandalosas a esta vida que eu
desejava fosse conhecida para glória minha e bem das almas.
– Ó meu
Jesus, por eu não ter querer quero o que Vós quereis; se assim não fora, queria
viver escondida, viver como se não vivesse, viver como se nunca tivesse existido, contanto que Vos amasse e as
almas fossem salvas. Mas, se assim o quereis, o remédio está nas Vossas divinas
mãos; fazei que os homens procedam doutra maneira.
– Não, não,
minha amada querida, não é assim.
– Perdoai-me
então, meu Jesus, perdoai-me, se Vos ofendi.
– Sossega,
não me desgostaste. Onde estão as graças que lhes dei? Não se utilizaram delas,
desprezaram-nas, calcaram-nas a seus pés. Utilizaram-se da sua vontade própria,
do seu orgulho, dos seus juízos, das falsas luzes. Que mágoa para o meu divino
coração. Coragem, filhinha, vence a minha divina causa e com ela vencem os que
por ela lutam. Tu és o verdadeiro caminho, estrada de oiro, estrada real,
cercado de um lado e do outro das pedras mais preciosas, das maravilhas do
Senhor. Felizes almas, felizes pecadores que nela entrarem que vão a porto de
salvação. Os teus olhares, os teus carinhos, as tuas ternuras, tudo leva ao
céu. São olhares, ternuras e carinhos atraentes que atraem a ti as almas. Por
ti vêm a mim. Vais agora, minha filha, receber a vida divina, a vida que te
alimenta e dá vida, a vida que dás às almas. Vais receber o meu divino sangue.
Jesus uniu o Seu
divino Coração ao meu assim como o Seu santíssimo rosto e lábios se uniram aos
meus. O meu coração parecia-me estar colado ao de Jesus e do Seu Coração divino
passava para o meu sangue. Sentia o meu a dilatar-se, a dilatar-se, era grande,
muito grande. Sentia também receber vida dos lábios de Jesus para os meus. Ele
cobria-me de carícias e dizia-me:
– Dou-te o
meu sangue, a minha vida por onde eu quero e como quero.
Esta união foi
demorada. Depois de algum tempo, Jesus chamou:
– Vem, minha
Mãe, minha bendita Mãe, dá a tua vida celeste, dá as tuas graças e riquezas a
esta minha filha e esposa e também tua filhinha querida.
Jesus desuniu de
mim o Seu santíssimo rosto e lábios, mas deixou sempre ligado o Seu divino
Coração. Tomou a Mãezinha o lugar de Jesus; uniu o seu santíssimo rosto ao meu,
estreitava-me, cobria-me das suas carícias e bafejava-me com tanta doçura.
Senti que d’Ela recebi muita vida, e dizia-me:
– Minha
filha, esposa do meu Jesus, tabernáculo do meu Jesus, sacrário do meu Jesus,
onde Ele habita sempre, sempre.
E Jesus
dizia-lhe:
– Dá-lhe,
minha Mãe, as riquezas do céu, dá-lhe todo o teu amor. Ao menos tu e eu a
darmos-lhe a sentir o nosso amor e consolação, já que das criaturas, a quem ela
ama e que estão a seu lado, não recebe consolação, não sente que elas a amam e
até delas tem medo. Tirei-lhe tudo, tudo, tirei-lhe para minha glória,
tirei-lhe para a salvação das almas, tirei-lhe para abrilhantar a escora que
sustenta o braço do meu Eterno Pai, para ela, ao ver tal brilho, tais encantos,
se esqueça do seu poder e use de misericórdia, só de misericórdia para o mundo.
Tirei-lhe tudo, espremi-a, espremi-a, dela consegui os licores deliciosos.
– Desprende-te
de nós, minha filha, vai para a tua cruz, para a tua vida de amor.
O meu coração
estava cheio, cheio; Jesus fechou-o para não sair dele o sangue, e disse:
– Este é o
sangue que germina, gera e dá a vida às virgens como tu.
– Obrigada,
meu Jesus, obrigada, Mãezinha. Custa-me tanto desprender-me de Vós, sair deste
amor! Sim, por Vosso amor desprendo-me, mas antes dai-me este amor para dar às
almas que eu amo e me são tão queridas; dai-mo para eu dar a todos os meus,
dai-mo para eu dar àquela alma que está em perigo e por quem Vos ofereci hoje
os meus sofrimentos. Quero que ela se salve e como sinal disso não quero que
morra sem todos os sacramentos. Dai-mo para eu dar às almas que tanto me fazem
sofrer, para que Vos conheçam melhor e Vos amem cada vez mais. Dai-mo para dar
ao mundo inteiro, para que ele seja salvo.
– Vai, ó
nova redentora, salvadora dos pecadores, vai, obedece, escreve tudo, faz esse
sacrifício, dá o nosso amor como desejas, com toda a abundância.
– Obrigada,
Jesus e Mãezinha, obrigada sempre na terra e no céu.
Voltei à minha
cruz, ao mar imenso das minhas dores. Já lá vão algumas horas e o meu coração
ainda arde como uma grande fornalha.
– Bendito
seja Jesus e o Seu amor. (Sentimentos da alma: 19 de
Janeiro de 1945 – Sexta-feira)
terça-feira, abril 27, 2021
CHAMEI POR JESUS
Ataque furioso do demónio
Quando esta
manhãzinha despertava dum sono leve e passageiro, eram de tal forma as trevas
que eu sentia na minha alma que me parecia ver com os olhos do meu rosto, à
minha frente, uma grande muralha negra; assustei-me, o meu corpo estremeceu.
Não era nada, os olhos do rosto nada viam, os da alma, esses viam e
aterravam-se. A pouco e pouco, fui-me envolvendo mais e mais nessas trevas
assustadoras. Preparei-me para receber Jesus em meu coração. Entrou para a
escuridão e na escuridão ficou. Pobre Jesus, onde baixou Ele! Sem luz, mas
muito unidinha a Ele, fui percorrendo o caminho do meu calvário. Caía e sobre
mim caía a cruz. Era arrastada e arrastada comigo era ela também. Ao cair sobre
a terra, os espinhos cravavam-se, penetravam cada vez mais fundo. Que dores
horríveis! Ainda as sinto. Da minha boca sentia como se saíssem golfadas de
sangue, vindas do coração, resultado das grandes quedas, de bater com o peito
em pedras. E tudo isto se passou sem luz, sempre a cada passo a ser envolvida
num rolo de trevas. Eu pensava que não podiam ser mais aterradoras, mas vejo
que dia a dia mais me assustam. Ó meu Deus, tudo por Vós! Veio o maldito com as
suas artes. Empregou todos os meios maliciosos para me obrigar a pecar. Chamei
por Jesus.
Que grande luta!
Estava sem vida, banhada em suor. Fiquei a dizer muitas vezes:
— Que grande
martírio, meu Jesus, que grande martírio! Eu não quero pecar, sou a Vossa
vítima.
Disse-me o meu
Jesus:
— É grande o
martírio, ó minha filha, eu bem o sei, é martírio de amor, é martírio de
reparação. Só podia receber da tua alma bela e pura, só podia do teu corpo
virginal receber esta consolação, esta reparação. Custa-te muito? Só assim é
que me dás tudo. Coragem! Tu não me ofendes.
— Lanço-me
nos Vossos divino braços, ó Jesus, neles quero estar sempre, mesmo nas lutas
com Satanás. Sozinha tenho medo, aí estou livre de Vos ofender.
Fiquei
desfalecida e continuei nos sofrimentos do calvário. Todo o corpo era sangue.
Sentia uma sede abrasadora e o maior dos abandonos. Ouvi do meu coração sair
este brado: “tenho sede, tenho sede”. Compreendi que era Jesus e lembrei-me que
Ele tinha sede das almas. No mesmo instante, senti passar nos meus lábios uma
esponja, uma e outra vez. A sede dos lábios ficou na mesma e a do coração
aumentou. O brado continuava:
— Não é a
sede dos lábios que quero saciada, mas sim a sede do coração, a sede das almas.
Nesta sede e
neste abandono fiquei por muito tempo como se estivesse com os olhos fitos no
céu e o corpo esmagado com o peso de toda a humanidade. E Jesus não vinha, demorou
tanto! Esperei, esperei. Veio então e disse-me:
— O rei
habita no seu palácio com a sua grandeza, poder e amor, mesmo que a rainha não
o veja, não o sinta. Custa muito, minha filha, o esposo separar-se da sua
esposa. Mas a minha separação não é real, fico escondido em ti. Fico a governar
a nação da tua alma pelos lábios de quem escolhi para te amparar e dirigir.
Todos os que te amparam, todos os que te guiam, fui eu que os trouxe a teu
lado. Coragem, filhinha. Vem cá, vem ao meu coração, vem receber vida; estás
desfalecida, necessitas dela para ires à conquista das almas. Vem, vem, ó
conquistadora da humanidade, vem receber o sangue do meu divino Coração;
necessitas da vida divina, porque momento a momento perdes a vida humana. Vives
milagrosamente, vives do meu divino sangue; é ele o meu alimento.
Jesus uniu o Seu
divino Coração ao meu; sentia-o e via-o cheio de raios de amor e ao lado uma
grande chaga. Principiou a deitar do d‘Ele para o meu o Seu divino sangue e o
meu, tão pequenino, principiou a dilatar-se, parecia não me caber no peito.
Jesus uniu os Seus divino lábios aos meus para me acariciar e continuou:
— Estão os
anjos, minha filha, a verem este grande milagre, as minhas maravilhas em ti.
domingo, abril 25, 2021
UM DIA NA VIDA DA BEATA ALEXANDRINA
25 de
Abril de 1947 - Sexta-feira
(Domingo 25 de Abril de 2021, 17° aniversário da beatificação)
O meu sofrimento
aumenta, a minha cruz pesa-me mais de momento para momento. Sinto-me como se
estivessem a terminar os meus dias aqui na terra. O meu pobre corpo é uma massa
em sangue, desfeito pela dor. Vivo como se não vivesse. O que será de mim, meu
Jesus! Amo a cruz e não tenho forças para a abraçar. Sinto-me arrefecer, estou
gelada. Quanto mais sofro, menos sinto amar a Jesus. Quanto mais Lhe ofereço os
meus sofrimentos, nas minhas negras e dolorosas trevas, menos sinto que Lhe
dou. Não tenho para Ele um sorriso, um acto de amor ou reparação. Sou pobre,
mísera pobre; o que Lhe dou, nada me pertence. Sinto-me, por vezes, na divina
presença de Jesus, de mãos vazias, olhos baixos, cabeça inclinada, envergonhada
de mim mesma. Que contas Vos hei-de dar, meu Deus, a Vós, de quem tudo recebi a
quem nada dei e nada tenho para dar. Triste confusão a minha! Poderei viver sem
sofrer e sem amar O meu Jesus? Oh! não, não posso sem isso a vida seria para
mim já um inferno. Ó Jesus aceitai para Vós o meu sofrimento e mesmo sem sentir
amor fazei que Vos ame, deixai-me enlouquecer por Vós. Os espinhos nascem para
mim, noite e dia, como noite e dia nascem e crescem as flores dos campos e
jardins. Por todos os lados os sinto e vejo a ferirem-me. Eu quero-os e amo-os,
mas desfaleço em recebê-los; recebe-os como mimos do Céu, como carícias de
Jesus. Pressinto que novos e agudos espinhos alguém prepara para me cravar;
parece-me ouvir o rumor de nova tempestade. Levantam-se contra mim novas ondas
furiosas. De novo me estendo na cruz; deixo-me crucificar à semelhança do meu
Senhor.
O demónio
atormenta-me com dúvidas que sem a força do Céu seriam um desespero. Aparece-me
em formas feiíssimas e, por vezes, abre-se todo o inferno com todos os seus
sofrimentos para me receber. Numerosas feras infernais correm para mim com todo
o seu furor. Ó meu Deus, parece-me que todo o mundo é inferno, que todo o mundo
é pecado, que todo o mundo tem a malícia e a maldade do demónio. O maldito
instrui as almas em grandes crimes.
Na tardinha de
ontem, avivou os sofrimentos do meu corpo, que eram enormes, a visão, a visão
do Calvário. Dentro de mim, vi Jesus, depois de morto, ser descido da cruz e
ser posto nos braços da Mãezinha; vi os Seus olhos agoniosos, senti o Seu
coração trespassado; senti e vi o caminho com que Ele O estreitava e limpava o
sangue e o pó das Suas feridas. Todo o Calvário se mexia, as pedras estalavam e
faziam grandes fendas. Esta agonia e sofrimentos tão dolorosos preparam-me o
Horto; e lá fui para ele; lá se me rasgaram as veias, suei sangue e vi o
cálice. Jesus foi que o levantou e ofereceu ao Pai, cheio de amargura. O solo
estremeceu e com todos os ramos das oliveiras. Debaixo de cruéis maus-tratos,
deixei-o para ir para a prisão. E hoje, num canal de sofrimento, como se fosse
uma prensa fui subindo as ladeiras do Calvário. Senti as cordas na cintura e no
pescoço; cortavam-me, feriam-me. Vi Jesus a ser despido e, neste momento, o Seu
rosto divino ficou como que incendiado; levantou ao Céu os Seus olhares e
baixou-os, depois, em profunda tristeza e grande vergonha. Vi, junto à cruz, a
escada, pela qual Jesus havia de ser descido; vi o lençol onde Ele havia de ser
embrulhado. Jesus, antes de expirar, viu a cena comovedora, ao ser depositado
nos braços da Mãezinha; viu os Seus carinhos e lágrimas, viu as espadas que A
feriam, viu-A em igual dor e agonia. Quando expirou, o Seu espírito voou como
pomba de todas as Suas chagas saíram raios de luz como sol por frestas. Quando
o Seu espírito divino voou foi-Lhe aberto o coração. Senti a Sua grande prova
de amor e que Ele nada mais podia fazer por nós. Pouco depois, de novo vivi com
Ele.
― Minha
filha, Minha filha, um coração puro, um coração abrasado, com a mistura da dor
alcança do Meu divino Coração tudo quanto Lhe pedir em benefício das almas,
isto não falando em outras graças. Assim és tu, vítima poderosa, sem seres
igualada. Não és igualada na dor e também o não és no poder. Eu tenho em Minhas
divinas mãos o teu martírio com todo o teu amor; sou Eu mesmo a colocá-lo como
escora firme a sustentar o braço do Meu Eterno Pai, para não cair sobre o mundo
culpado a castigá-lo. Podia dizer-te, esposa querida, que ele cai e cai sem
remédio, por não virem a mim, seguindo a Minha divina voz. Não quero fazer-te
tal afirmação, para não entristecer-te.
― Meu Jesus,
meu doce Amor falardes-me assim é dardes-me a certeza do que nos espera; bem
sinto eu que nada Vos dou e de nada valem os meus sofrimentos.
― Coragem,
coragem, Minha filha, parece que nada Me dás, porque já tudo tenho em Meu
poder. Sentes que nada valem os teus sofrimentos, porque, sofrendo Eu, em ti
tomo-os como meus; e, para maior sofrimento teu, nada em ti deixo aparecer.
Confia em Mim. Todo o teu martírio, em união comigo, forma os selos com os
quais selo as almas e as deixo com o sinal da salvação. Confia, vítima amada,
se não acudires aos corpos, as almas são sempre de salvação. O que vale a tua
dor e o teu amor com o Meu! Coragem, vítima generosa, vítima de dor e amor. Vê,
Minha querida, o Mendigo divino a estender para ti o braço, a pedir-te a
esmola. A taça, em que a vais deitar, foi feita do ouro do teu martírio. Os
espinhos, que a rodeiam, foram feitos das pedras preciosas das tuas virtudes; é
a taça das almas, é a taça da salvação. Dá-Me a esmola, dá-Me a esmola. Só uma
alma e um coração puro podem combater com Satanás e reparar-Me das maldades e
crimes a que ele leva as almas. Como prova do teu amor, da tua generosidade,
vou dar-te, em breves dias duas felizes novas que vão ser de alegria para o teu
coração e para mais alguns dos que te rodeiam. Se o mundo bem compreendesse as
Minhas maravilhas em ti e o valor do teu sofrimento, ter-te-iam suavizado o teu
calvário e o daqueles que escolhi para te ajudarem a subi-lo.
― Meu Jesus,
meu Jesus, peço-Vos força e amor. Sobre essa taça me coloco, sacrificai-me
Jesus, imolai-me como Vos aprouver. Jesus retirou a taça doirada, cercada e
adornada de belos espinhos.
― Vou dar-te
ainda, Minha filha, a gota do Meu sangue divino; recebe que é vida, a vida do
Céu, a vida de que vives. Recebe ara sofreres, recebe que é para viveres e para
dares a vida às almas. É o Meu sangue com a tua dor e amor que lhes dás a vida
e mais ainda faz com que Eu por muitos seja amado, o que não seria sem ti,
Minha esposa querida.
Jesus uniu logo
os nossos corações, e, logo que caiu a gota do Seu precioso sangue, desuniu-os
e deixou por algum vir do Seu lado aberto para o meu peito fortes chamas de fogo.
Com as Suas divinas mãos cerrou a abertura do Seu peito e disse:
― Trabalho
em ti como quero, faço do Meu divino coração e do teu o que Me apraz. Vai levar
a vida às almas, esta vida que é a verdadeira vida. Vai levar a todos o Meu
divino amor, mas mais, muito mais aos que mais te amam, aos que mais de perto
te rodeiam. Amar a Minha vítima é amar a Mim; cuidar dela é cuidar de Mim.
Coragem! Vai em paz, vai em paz.
― Obrigada,
meu Jesus; um eterno obrigado, meu amor! São tantos e tão grandes os meus sofrimentos
que mesmo no meio das minhas negras trevas obriga-me a dizer: para ditar tudo o
que fica dito, vi aqui só a mão e a força de Jesus com a luz do divino Espírito
Santo; sem isto nada teria dito. Ó meu Jesus, ó meu Deus, quanto sofre a mais
indigna das Vossas filhas; e só vê nela miséria e nada mais! Dai-me graça,
dai-me perdão para as minhas culpas e para as do mundo inteiro.
















