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quarta-feira, junho 09, 2021

PERDOAI-LHES, MEU JESUS

Eles não sabem o que fazem


Deixai-me dizer a Vós o que Vós dissestes ao vosso Eterno Pai: Perdoai-lhes, meu Jesus, porque eles não sabem o que fazem, estão ceguinhos, falta-lhes a vossa luz divina: iluminai-os a todos e a todos dai o vosso amor. O Jesus, todos os meus pressentimentos me tem saído certos. Poderão eles ainda proibirem que vos receba sacramentalmente? Ai de mim, seria como o golpe que me tiraria a vida se vós com o vosso divino poder me não conservásseis. Digam o que disserem, façam eles o que fizerem, o que nunca conseguirão é tirar-me desta união íntima com vós. (Alexandrina Maria da Costa: 19-02-1942)

domingo, junho 06, 2021

O MUNDO QUE EU SOU

Este mundo não quer Jesus


Por vezes, a minha alma vê Jesus, feito enfermeiro, a querer entrar a este mundo, que sou eu mesma. Rodeia, rodeia uma e outra vez este monstro mundial, para curar-lhe as chagas de entro e de fora. Jesus anda cheio de amor e doçura, mas não tem estrada. Esta rocha dura não quer ouvir o Seu convite de ternura, não quer deixar-se curar. Que pena eu tenho não consentir que Jesus seja o meu enfermeiro! Ele quer acariciar-me, e eu não deixo, revolto-me contra Ele, obrigo-O a afastar-se de mim. Apesar de ser eu que O não quero, nem quero a Suas bondades, ternuras e carinhos, a alma chora por não O querer, por não lhe dar entrada, por não O amar. Que pena eu tenho de Jesus! Sofro ao mesmo tempo com Ele. Sou o mundo e sou Jesus; peco e quero pecar; amo e quero amar; e este amor é louco, não tem limites, ama e não olha a quem; o que quer é ser aceite. Se este amor fosse eu, e minhas não fossem as maldades! Mas ai pobre de mim! O amor é de Jesus, as maldades são minhas. Abracei-me à minha cegueira com tal afecto, com tal amor, que não mais a largarei; ela só me causa sofrimento, só me mostra que sou lodo e lama, mas eu quero e neste estreito abraço mais me vou mergulhando nela. O que é bom, o que é de Jesus, não aparece nas minhas medonhas trevas. Mas o que posso eu esperar, o que posso eu ver, se nada há em mim de bom, nada tenho de encantador que a mim pertença. Sou miséria, só miséria; ó Jesus, compadecei-Vos de mim! Tenho recebido, nestes dias algumas, algumas graças, alguns mimos do Céu, que eu não mereço. Agradeço-as a Jesus e à querida Mãezinha, mas este meu agradecimento não chega. (Alexandrina Maria da Costa: S. 6 de Junho de 1947).

segunda-feira, maio 31, 2021

OU SOFRER OU O CÉU

Que valor pode ter a vida, se não sofro


Termina o mês da Mãezinha. Que saudade eu tenho de ele findar! Será de verdade o meu último Maio na terra? Que pena eu tenho de não A ter amado muito assim como a Jesus! Tudo foge, tudo passa, tudo se esconde, só a minha miséria aparece para a ver claramente nos mundos das minhas trevas. Abro os meus braços ao céu, quero abraçar o meu martírio e, junto a ele, Jesus e a Mãezinha. Tenho sede, e nada há que me satisfaça, nem ao menos o sofrimento. Temo-o, mas quero-o para dar a vida às almas, para consolação do meu Jesus. Ou sofrer ou o céu. Que valor pode ter a vida, se não sofro, se não amo? (Alexandrina Maria da Costa: S. 31 de Maio de 1945).

Na imagem:
A beata Alexandrina e o Padre Mariano Pinho.

segunda-feira, maio 24, 2021

Ó MEU JESUS NÃO ME ABANDONEIS

Sinto-me abandonada de todos


O fiozinho da vida divina que estava ligado ao meu coração, apesar de sentir que o não tenho, ainda está ligado ao lugar onde ele habitava. Sinto que ele está a cada momento a querer quebrar. A fúria da horrenda tempestade dá-lhe todos os abalos. Do pequenino lugar que ocupava o meu pobre coração sai, de longe a muito longe, umas escassas gotas de sangue. Agora é que eu sinto quanto a pobre Humanidade necessita dele; toda ela sequiosamente o quer sugar. Ó meu Jesus, não abandoneis a pobrezinha que sempre em vós confiou e confia. Apesar de tudo sentir perdido por entre as trevas, é de vós que tudo espero.

O demónio quebrou todas as cadeias que o prendiam, caiu sobre mim. Luto sozinha, combato a sua raiva. Ó minha querida Mãezinha, tiram-me o meu Paizinho nestes tristes dias em que eu mais precisava dele.

Sinto-me abandonada de todos a não ser quando mo dais milagrosamente para conforto da minha alma; o que tão raras vezes acontece. Perdoai a todos os que me ferem, perdoai tanta cegueira; eles de mim estão perdoados. No lugar do meu coração já não cabem mais espadas; tenho sofrido por todos os lados, tenho recebido sofrimentos de quem menos esperava. Ó meu Jesus, para todos o vosso perdão, o vosso amor e a vossa compaixão. Purificai, santificai, abrasai no vosso divino amor e levai para junto de vós sem demora a vossa filhinha agonizante. (Alexandrina Maria da Costa: S. 24-05-1942).

O TEMPO NÃO PASSA

As horas parecem séculos


Jesus suspendeu-me a crucifixão: parece-me que me suspendeu a vida. Só Ele pode avaliar a minha tristeza e saudade. Não tenho o sofrimento da cruz; já não me sinto nela, escondeu-se-me por completo, mas tenho maior cruz ainda, são maiores os meus sofrimentos. Não posso viver no mundo. O tempo não passa, as horas parecem-me séculos, os dias e as noites eternidades. Quantas vezes levanto os meus olhos ao Céu para exclamar: Jesus, ó meu querido e saudoso Jesus! Mãezinha, ó minha querida e saudosa Mãezinha! Santíssima Trindade, ó minha querida e saudosa Trindade, para quem só quero viver, a quem me entrego, a quem só quero amar. Pobre de mim! Digo que amo e não tenho coração para amar, não tenho corpo senão para a dor, sou como uma bola de espuma que depressa se desfaz. Que trevas, meu Jesus, que securas, que amarguras, que agonias as da minha alma. (Alexandrina Maria da Costa: S. 24 de Maio de 1942)

UM MAR DE AMOR

Um mar que nunca terá fim


Esse mar infinito para onde corre a minha dor, a dor que vai ferir o meu amantíssimo Jesus vem também de encontro ao meu peito, para o meu coração: um mar infinito, um mar que nunca terá fim, nem poderá esgotar-se o seu amor. É esse amor que me atrai, é esse amor que não posso deixar de anunciar. Trabalha em mim como que um motor; este motor tem voz que se espalha, voz que ecoa no mundo inteiro, voz que junta o humano com o divino, voz que levanta a terra para o Céu. Quantas coisas sabe sentir o meu coração e a minha alma e não as sabe dizer! Que pavoroso martírio para mim! Quero abraçar o mundo, quero abraçar as almas, quero num abraço divino estreitá-las, metê-las todas no peito, no Coração de Jesus; é uma ânsia tormentosa, é uma ânsia sem limites, sem fim. (Alexandrina Maria da Costa: S. 22 de Maio de 1953)

quarta-feira, maio 12, 2021

VISITA DO CÓNEGO MANUEL VILAR

Segundo exame da Santa Sé


– Em 5 de Dezembro de 1939, recebi a visita do nosso Sr. Abade, acompanhado pelo Ex.mo e Rev.mo Senhor Cónego Vilar que, depois de me ser apresentado, ficou a sós comigo. Falámos de várias coisas de Nosso Senhor cerca de duas horas, para depois entrarmos verdadeiramente no assunto que o trouxe aqui. Sua Reverência disse-me assim: «A Alexandrina deve estranhar a minha visita, não me conhece…»

Sorri-me e respondi-lhe: «Eu sei com certeza ao que V. Reverência vem aqui.» Ao que ele disse: «Diga, diga, Alexandrina.» Então disse eu: «Vem de mando da Santa Sé», pois era o que eu sentia na minha alma nesse momento. Sua Reverência confirmou, dizendo: «É isso mesmo.» E apresentou os documentos que tinham vindo de Roma. Fez-me várias perguntas a que respondi. Não falei da crucifixão, mas falou-me ele, dizendo: «Parece que há mais qualquer coisa que se passa há meses…», apontando a Paixão, mostrando desejo de vir assistir, como veio logo na primeira sexta-feira seguinte.

Falando disto ao meu Director espiritual, este aconselhou-me a que lhe falasse com toda a franqueza. Visitou-me quatro vezes, mas só duas foram obrigatórias. Se não me engano, logo da primeira vez disse-me: «Olhe, Alexandrina, gostava de há muito a ter conhecido, mas não queria ter vindo como vim.» Confiou-me o segredo da sua partida para Roma, pois naquela ocasião só era sabedor o Sr. Arcebispo.

Como me sentia muito bem a conversar com ele e como tinha toda a licença do meu Director espiritual, falámos muito, mesmo muito de Jesus, porque sentia-me como que mergulhada num abismo de santidade e sabedoria, o que raras vezes me acontece, mesmo com sacerdotes. Disse-lhe que não falava assim com outros senhores Padres, porque não era feitio meu, mas sim pela confiança que nele sentia. Sua Reverência respondeu-me: «Faz muito bem, Alexandrina, em nada dizer porque, se lhes dissesse, eles não a compreenderiam.»

Chorei quando Sua Reverência se despediu de mim na partida para Roma. Prometeu escrever-me de lá, dizendo-me que ficaria a ser a sua intercessora na terra. Recebi algumas cartas dele em que mostrava ter em mim inteira confiança. Respondi-lhe, e ajudámo-nos mutuamente com orações a Nosso Senhor. (Alexandrina Maria da Costa: Autobiografia)

Imagem: O Cónego Manuel Vilar que se tornou amigo da Alexandrina.

terça-feira, maio 11, 2021

TROCA DE CORAÇÕES

 Jesus fez a troca, senti-me logo outra


— Meu Jesus, permiti que a minha confiança em Vós vá tão longe quanto pode ir, para que eu possa convencer-me sempre, sempre que não Vos ofendo. Não permitais, meu doce amor, que eu duvide um só momento da Vossa palavra divina.

Cheguei, mas com muito custo, ao cimo do calvário. Cravada na cruz, com o coração em sangue, bradava incessantemente socorro ao Eterno Pai. O coração voava para Ele, mas era repelido, parecia não ser aceite. Nem na cruz era poupado o meu corpo; os olhos da minha alma viam todo o mundo a vir feri-lo. Via todo o mundo a penetrar na minha cabeça grande número de agudos espinhos. Que grande dor me faziam! Toda a humanidade maltratava e esmagava o meu coração, deixando-me em agonia mortal. Veio Jesus ao encontro desta dor e agonia. Demorava-se: fez-me esperar muito tempo. Esperei resignada.

— O que quiserdes, meu Jesus, a minha vontade é a Vossa.

— Minha filha, prenda valiosíssima que eu dei ao mundo. Quanto ele tem de agradecer-me! Tu és a depositária, és o cofre das riquezas e dons divinos. És a mensageira da paz, de quanto a humanidade te é devedora. Coloquei-te no meio dela, és um centro de virtudes, és um centro de flores cândidas e puras. És a vida das almas, és a nova Eucaristia delas. Purifica-as dos seus defeitos, lava-as dos seus crimes, prepara-las para mim que sou a verdadeira Eucaristia. És a pastorinha que conduz o rebanho ao Pastor Divino. Tu és o porta-voz de Jesus para o Santo Padre. Diz, minha filha, ele que fale à humanidade inteira. Ele, que é o pai da terra, que peça em nome do Pai do Céu. Quero uma reconciliação firme e sincera, quero um mundo novo de pureza e de amor. Penitência, penitência e oração. Penitência no lugar dos prazeres, oração em vez das vaidades e passatempos ilícitos. União comigo, amor puro, amor abrasado ao meu Divino Coração. Se houver, minha filha, a verdadeira transformação, receberá o mundo inúmeras graças, uma chuva de bênçãos cai sobre ele. Mas, ai dele, se assim não for. Aceita, filhinha amada, o meu Divino Coração, consola-o, cura-lhe tão profunda chaga. Dá-me o teu para o confortar e para lhe dar vida.

Jesus fez a troca, senti-me logo outra. (Alexandrina Maria da Costa: 11-05-1945)

segunda-feira, maio 10, 2021

OS MEUS OLHOS NADA VÊEM

Vontade do meu Deus, quero-te


A minha língua, envolvida em trevas, parece estar presa e não poder mover-se para dizer a grande dor que me vai na alma. Os meus olhos nada vêem. Que dizer, que fazer, meu Jesus? Tremo de medo, temo a minha existência aqui. Que grande horror pensar que tenho de demorar-me neste triste exílio! É triste por ser triste, mas alegre por ser o que Jesus quer.

— Vontade divina, vontade do meu Deus, quero-te, abraço-te e nunca mais te largarei.

Os grandes arrancos da minha alma têm continuado; por vezes são como terramoto que tudo destrói; todo o meu ser parece ficar em estilhaços. E os sobressaltos vão-se repetindo: temo a todos, temo a mim mesma. Sem ver e sem forças para resistir, estou como se estivesse de braços abertos à espera de tudo o que o céu quiser enviar-me, o céu que me parece ser de trevas, o céu que baixa sobre mim e me obriga a infundir-me na terra, na terra de iguais trevas. A que profundeza já eu vou! Quanto mais esmagada, quanto mais me vou aprofundando, mais em trevas fico. Que horror! Parece não poder convencer-me que na terra há luz e há sol, que no céu há alegria, luz brilhante e amor sem fim. Meu Deus, não conheço nada, parece que nada disto experimentei. Sinto dentro em minha alma uma revolta do céu contra a terra. Jesus não pode mais aguentar com os crimes da pobre humanidade. Que quadro tão doloroso, que cena tão triste! Se o mundo pudesse ver o que se passa em mim, com certeza não pecaria mais. Se não o comovesse o amor de Jesus, aterrava-o a Sua justiça. Sinto, sinto toda a justiça divina a querer descarregar sobre a terra. Não sei quem é, é alguém que se prostra com grande aflição diante da justiça divina para sustentar o Seu braço poderoso, prestes a cair sobre a terra. Não é só a alma que o sente, vê com os seus olhos esta visão claramente.

— Meu Deus, só Vós sabeis quanto eu sofro e por quem sofro. É por Vós, é pelas almas. (Alexandrina Maria da Costa: 10 de Maio de 1945).

quarta-feira, maio 05, 2021

AO DIRECTOR E AO MÉDICO

 — Anima-te, meu anjo, e confia sempre


— Anima-te, meu anjo, e confia sempre. Dá ao teu paizinho, minha filha, o meu Divino Coração com toda a doçura, ternura e amor. Dá-lho cheio dos meus agradecimentos pela sua dor e exemplo na sua cruz; é exemplo dos santos. Diz-lhe que me servi de tão grande martírio para reparação de tantos e tão maus sacerdotes. Tudo está a terminar, ele será exaltado, e os exaltados humilhados, e a sua missão continua sempre junto de ti e junto às outras almas. Dá também ao teu médico o meu Divino Coração como nome dele, da esposa e de todos os filhinhos, gravados a oiro. São meus, pertencem-me; são salvos, é de todos o céu. Dá-lhe também os meus agradecimentos, diz-lhe que sou eu que o nomeio combatente livre e vencedor da minha divina causa, causa mais brilhante e prodigiosa. Diz-lhe que redobre os seus cuidados e canseiras junto de ti. É preciso milagre, grande milagre para a tua vida e existência aqui. Dá à Sãozinha a promessa do céu sem purgatório pelo que trabalho pela minha causa divina. Faz-me uma lista das pessoas a quem queres que lhes dê o céu sem irem ao purgatório. Sei muito bem quais elas são e quero condescender com os teus desejos. Vem, minha Mãe, toma o teu lugar de Mãe carinhosa e extremosíssima, dá a vida e suaviza a dor desta nossa filhinha.

Tomou-me a Mãezinha em seus braços, senti-me logo cheia de doçura e amor. Dum lado o seu santíssimo rosto e do outro a sua bendita mão me acariciava. Estava o meu rosto no meio daquela prensa santíssima. Cobriu-me de beijos, senti-me viver.

— Minha filha – dizia-me ela – venho em breve buscar-te para o céu. Antes de expirares, levo-te à presença de Jesus pela minha bendita mão; entre mim e Ele serás conduzida ao paraíso. À tua chegada terás coros de virgens, coros angélicos, toda a corte celeste em hinos, todo o céu em festa.

— Obrigada, Mãezinha. espero-Vos depressa, a não ser que os Vossos breves sejam como os de Jesus. Seja como for, não tenho vontade nem querer próprio. O que quero é a Vossa força santíssima para levar a minha cruz, a pureza do meu corpo e da minha alma, o amor ao Vosso Coração e ao de Jesus, a graça de não O desgostar nunca, nunca. Dizei-me, Mãezinha, estais triste comigo ou está Jesus?

— Não, esposa do meu filho querido. A minha alegria e consolação estão em ti, nada fizeste para me entristecer; tudo fazes para honra e consolação minha e do teu Jesus. Sossega, sossega, meu Filho, sossega a tua filhinha.

— Coragem, sossega, amada do meu Divino Coração. O que te digo é para te firmar e fortalecer no teu martírio. Não me desgostaste, sossega, não o permito. De ti recebo a alegria e amor que o meu Divino Coração deseja. És a loucura do céu, a vida das almas, o encanto da terra, a glória do meu Pai.

Por algum tempo fiquei fortalecida, mas, à medida que as horas foram passando, corri apressadamente a mergulhar-me nas trevas para nelas poder esconder-me de todos e para sempre. Abismada nelas, parecia-me não caberem em mim as ânsias, ânsias doridas, ânsias capazes de dar a morte, ânsias não sei de quê. Que peso o da minha cruz! Mas quero-a, amo-a para sempre. (Sentimentos da alma: 05-05-1945)

segunda-feira, maio 03, 2021

MARIA ANA COSTA

 A mãe da beata Alexandrina

Maria Ana, filha mais velha de José António da Costa e de Ana Joaquina Leitão, era uma bela moça alegre e trabalhadeira. Nasceu a 22 de Janeiro de 1877, em Gresufes, um dos muitos lugares de que se compõe a aldeia de Balasar. Teve 4 irmãos e 5 irmãs.

Para memória, aqui fica o seu “assento” de baptismo:

«Aos 24 dias do mês de Janeiro do ano de 1877, nesta Igreja Paroquial de Santa Eulália de Balasar, concelho da Póvoa de Varzim, Diocese de Braga, baptizei solenemente um indivíduo do sexo feminino, a quem dei o nome de Maria e que nasceu nesta freguesia às cinco horas da manhã do dia 22 do mesmo mês e ano, filha legítima de José António da Costa, lavrador, natural desta mesma freguesia, e de Ana Joaquina Leitão, lavradora, natural da freguesia de Minhotães, concelho de Barcelos, desta mesma diocese, e na mesma recebidos, e paroquianos e moradores no lugar de Gresufes desta freguesia de Balasar, neta paterna de Manuel António da Costa e de Joaquina Maria de Freitas e materna de Francisco Manuel de Araújo e de Maria Joaquina Leitão. Foi padrinho Manuel António da Costa e madrinha Maria Joaquina Leitão, lavradores, os quais todos sei serem os próprios.

E para constar lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, comigo o assinou o padrinho, não assinando a madrinha por não saber escrever.

Era ut supra.

O Padrinho – Manuel António da Costa

O Reitor – António Martins de Faria»

Na sua juventude apaixonou-se por António Gonçalves Xavier, de Vila Pouca, lugar da freguesia, vizinho de Gresufes.

«Maria Ana da Costa conhecia com certeza António Xavier desde a infância, pois Vila Pouca e Gresufes são pegados e as casas dos pais dos dois não distavam mais de 300 metros. O que fizeram nas termas foi sem dúvida estreitar uma relação que antes era só de vizinhança.»[1]

Desta paixão — que era, sem qualquer dúvida, sincera por parte de Maria Ana — nasceu uma primeira filha, a Deolinda, em 21 de Outubro de 1901. Maria Ana tinha então 24 anos.

Naqueles tempos, por razões diversas que não cabe aqui explicar, eram numerosas as mães solteiras, por isso mesmo não deu grande alarido na freguesia que isso tivesse acontecido com aquela jovem camponesa.

Passou-se algum tempo sem que o prometido casamento se realizasse. António Xavier tinha outras ideias: ir para o Brasil ganhar o dinheiro necessário para sustentar a futura esposa e a filha. E assim o fez.

No seu depoimento, a quando do processo diocesano para a beatificação e canonização da Alexandrina, a Deolinda explicou:

«Da minha mãe tive as informações sobre o meu pai que agora exponho.

Era um aventureiro: foi várias vezes ao Brasil. A minha mãe tinha ido para as Termas do Gerês, para cura, e foi lá que o conheceu.»

E mais adiante, diz ainda:

«Voltou do Brasil quando eu já tinha os meus dois anos e começou a andar de novo atrás da minha mãe. Mas como a família (dela) se opunha, ela disse-lhe claramente que naquelas condições não podia casar… Então ele apresentou-se à minha avó e ao meu tio Joaquim e combinou o matrimónio: estavam já a procurar casa quando ele teve de ir para a Póvoa para se curar duma doença contraída no Brasil…

Um dia que a minha mãe tinha ido a Vila do Conde vender hortaliça, no regresso passou pela Póvoa onde tinha marcado um encontro com ele para o informar de que estava novamente grávida (nascerá a Alexandrina). Mas da casa donde tinha saído o meu pai saiu também uma mulher que lhe disse: – Xavier, as minhas tesouras não estarão no teu quarto?

A minha mãe teve assim a confirmação das vozes que já corriam. Xavier protestou que eram tagarelices. Mas na verdade em pouco tempo casou com aquela mulher da Póvoa.

A minha mãe chorou lágrimas amargas e desde então, por toda a vida, vestiu-se quase sempre como uma viúva e dedicou-se exclusivamente à educação das duas filhas…»

Aquela que mais tarde será muitas vezes a “secretária” da Alexandrina, deixou-nos de Maria Ana este testemunho:

«A mãe da Alexandrina reparou de modo edificante os erros da sua juventude. Ou melhor, com a caridade para com todas as pessoas, que a conheciam como mulher de grande coração; depois com uma vida de intensa piedade. Levantava-se cedíssimo. Todos os dias pelas 5 da manhã entrava na igreja, de que tinha a chave. Quando começava a Santa Missa, ela já há duas horas estava de joelhos frente ao Santíssimo. Assim fez enquanto as forças lho consentiram.»

Depois daqueles desaires e respectivas consequências, Maria Ana, sinceramente arrependida da sua conduta, mudou completamente, tornando-se mesmo um exemplo para todos, porque a partir daí manteve “uma conduta irrepreensível”.

Deolinda, falando de sua mãe, presta-lhe esta simples e sincera homenagem:

«A minha mãe ensinou-nos a trabalhar desde pequenas. A sua caridade era conhecida de todos, tanto que o pároco de então disse: – Quando esta senhora morrer, senti-lo-á toda a paróquia. – De facto não havia doente que ela não socorresse. Vinham chamá-la até de noite e ela acorria porque sentia pena. Assistia os moribundos; recitava as orações da agonia; vestia os mortos. Mais, sendo uma boa cozinheira, era chamada per os jantares nos baptizados e nas bodas, como também na residência por ocasião de pregações.»

Na sua autobiografia a Alexandrina fala-nos da sua primeira “teimosia”, que teve resultados pouco lisonjeiros:

«Como era desinquieta e, enquanto minha mãe descansava um pouco, tendo-me deitado junto dela, eu não quis dormir e, levantando-me, subi à parte de cima da cama para chegar a uma malga que continha gordura de aplicar no cabelo – conforme era uso da terra – e, por ter visto alguém fazê-lo, principiei também a aplicá-la nos meus cabelos. Minha mãe deu por isso, falou-me e eu assustei-me. Com o susto, deitei a malga ao chão, caí em cima dela e feri-me muito no rosto. Foi preciso recorrer imediatamente ao médico que, vendo o meu estado, recusou-se a tratar-me, julgando-se incapaz. Minha mãe levou-me a Viatodos, a um farmacêutico de grande fama, que me tratou, embora com muito custo, porque foi preciso coser a cara por três vezes e levou bastante tempo a cicatrizar a ferida.»

No mesmo documento, e com muita ternura a Alexandrina conta a oferta que a mãe lhe fizera: os primeiros soquinhos:

«Uma vez minha mãe deu-me uns soquinhos. Eu fiquei tão contente com eles, porque eram lindos!... Para ver a figura que fazia com eles, preparei-me como se fosse à Missa, calcei-os e depois ajoelhei-me, pondo-os à minha frente, fingindo que estava na igreja. Como era vaidosa!»

Com o mesmo carinho, Alexandrina lembra-se do que lhe dizia a mãe, quando na sua meninice se mostrava irrequieta e tumultuosa:

«Minha mãe dizia: “Os fidalgos têm um bobo para os fazer rir e eu não sou fidalga, mas também tenho quem me esteja a fazer festa”».

Mas Maria Ana tinha punho de ferro e era exigente para com as filhas: deu-lhes uma boa educação religiosa e inculcou-lhes duas grandes virtudes que tanto a uma como a outra, ficaram bem registadas nos seus corações juvenis: a caridade e o amor ao trabalho.

No que toca aos carismas de sua filha, ela sempre se mostrou recatada, quase alheia a eles, ou porque não os compreendesse bem, não os avaliando ao seu justo valor, ou então para deixar que livremente Deus actuasse na Alexandrina, segundo a Sua santíssima Vontade.

Maria Ana faleceu pouco mais de 5 anos após a Alexandrina, em 24 de Janeiro de 1961, e foi sepultada na campa familiar, no Cemitério de Balasar, junto de seu irmão Joaquim Costa, que a precedeu na Mansão celeste.

Afonso Rocha



[1] Prof. José Ferreira “A Balasar da Alexandrina”.

sábado, maio 01, 2021

CHOREM OS MEUS OLHOS...

 Sorriam-se os meus lábios


Jesus, dai-me as vossas forças divinas, quero a minha dor e sem elas nunca o conseguirei. Chore o meu coração noite e dia se assim o quiserdes, mas alegrem-se os meus olhos, sorriam-se os meus lábios. Seja o vosso santo amor e as almas toda a base do meu sofrer. Estou como a pombinha que nos ares dia e noite bate as asas; não tem onde poisar, ampara-a o vosso poder. Faltam-lhe as forças, não pode continuar seu voo, cai por terra, não tem quem se compadeça dela se lhe faltais Vós. Jesus, sou eu que vagueio nos ares, sou eu a ser destruída pela tempestade, sou eu a mais indigna das vossas filhinhas sem luz e sem amparo. O Jesus, não sabia eu que ainda tinha tanto para Vos dar. Que grande é a minha ignorância! Pensava já ter-vos dado tudo; enganei-me, viestes agora fazer a última colheita. Colhei tudo, colhei depressa e colhei-me depois para Vós. Dei-vos definitivamente no dia 20, até quando mo quiseres dar, o meu Paizinho Espiritual. Dei-vos no dia 24 toda a correspondência que dele tinha, a qual me serviu de luz e encaminhou para Vós. Vistes bem quão grande foi o sacrifício, não pelo apego que às cartas tinha, mas sim por me serem pedidas em dias de tanta dor. Quando as tomei nas minhas mãos e para as unir a todas as atava com uma fita branca, ouvistes, meu Amor, o que ia dizendo? Jesus mas deu, Jesus mas tirou. Ao entregá-las para não mais lhe passar a vista dos olhos parece que todo o meu corpo estremeceu. Mas querendo fazer-me forte, murmurei sempre: Não é o meu Jesus digno de muito mais? Tudo é pouco para Ele que tanto me ama e tudo deu por mim; tudo é pouco para lhe salvar as almas. Depois disto, mandei que me tirassem da parede o seu retrato. Isto, meu Jesus, pouco ou nada podeis ter em conta; eu não tinha por ele a mais pequenina estima, de boa vontade o mandaria lançar ao fogo. A dor que me causou foi só por ver que até com isso pegaram, que até isso servia de base para fazerem a quem estava inocente. Meu Jesus, custa-me tanto servir de instrumento de sofrimento para os outros! Contemplai todo o meu sacrifício e lançai os vossos olhares divinos cheios de compaixão.

Está próxima, Jesus, a minha crucifixão. Vêde-me na cruz cravada convosco, de olhos levantados para o Céu, que já não vejo, a bradar sempre: Jesus, Jesus, porque me abandonaste? Estou sozinha, faltam-me todos os auxílios do Céu e da terra. Aceito para consolar-vos, tudo aceito, tudo sofro para que se fechem as portas do inferno.

Depois da crucifixão

Meu bom Jesus, velais sempre sobre mim, estais sempre a fortificar-me com a vossa graça e força divinas. Animastes-me dizendo :

— Minha filha, minha loucura, é na tua crucifixão que está toda a salvação das almas. É no teu duro penar que está a minha consolação e na tua completa imolação que está a minha glória, é no teu calvário que está a minha completa alegria. Coragem, coragem! Não te falta Jesus com a Mãezinha e o teu Paizinho. Tens em ti a graça divina.

Caminhei para o Horto. Não se podem comparar as agonias e tristezas humanas com as Vossas. Quanto sofrestes por meu amor. Terei eu coragem de negar-vos alguma coisa? Oh! não, meu Jesus, não. Dai-me força para que eu não use de tal ingratidão. As trevas do Horto eram aterradoras. Todos os sofrimentos eram pavorosos. Os pecados do mundo eram a prensa mais dura que apertava o meu coração e o Vosso. Era o pecado, só o pecado a causa de todos os sofrimentos; era o pecado que eu sentia a rasgar-me as veias; era o pecado que afastava de mim o Céu, deixando-me no maior abandono, obrigando-me a suar sangue. Foi o pecado, só o pecado o algoz de toda a Vossa Paixão. Quanto Vos devo, meu bom Jesus, por sofrerdes em mim e me associardes a Vós. Já não podia resistir mais e segredou-me a Vossa voz divina:

— Tens, minha filha, sempre à tua frente o amor do teu Jesus.

― Ó meu Amor, sinto desaparecer dia à dia, momento a momento, as forças do meu corpo e da minha alma! Só com Vós crucificado em mim poderei vencer. Eu já não vivo, porque tudo em mim é morte. Fui flagelada, fui coroada de espinhos, descansei no voso divino Coração; apertava-o com amor ao meu: prender-vos para sempre, não me separar mais de Vós eram os meus desejos. Tive uns momentozinhos que deixastes cair sobre mim a vossa divina Graça e uns raiozinhos do vosso Amor aqueceram o meu coração. Quando descansei na Mãezinha Ela unia aos meus os seus lábios santíssimos demorando-se assim todo o tempo do meu descanso. Isto não são consolações, meu Jesus, bem sabeis que tudo isso desapareceu para mim, são os auxílios que me dais, sem os quais era impossível a minha crucifixão. Fui para o calvário, a cada passo sentia-me cair por terra, a perder a vida. Estava pregada na cruz; das chagas escorria o sangue como dumas fontes. Os insultos que ouvia golpeavam-me todo o corpo. A dor do coração fazia-o ansiar com tanta força que parecia levantar-me o peito a pontos de o abrir. Chamar por vós, bradar ao Céu, tudo era inútil. Só trevas e abandono, só agonia mortal.

― Ó meu Jesus, passou a crucifixão, a noite já vai alta e no alto do calvário estou eu de braços abertos, na cruz pregada, na noite mais triste e tenebrosa a bradar sempre: Ó Céu, ó Céu, ó Céu que me abandonaste. Ó terra que me desprezaste e me odeias. O meu brado perde-se num mundo de abandono, o meu eco perde-se num mundo que não tem fim. Estou só, Jesus, a tiritar de frio e de fome. Estou cega, perdi a luz. Já não existirá no mundo, meu Amor? Todo ele é trevas, todo ele é cegueira. Juntai, meu Jesus, a este duro penar, a dor que me causa ao ser notada a falta do meu Paizinho aqui. Jesus, Jesus, permiti tudo, menos o escândalo; eu não quero que sejais ofendido, mas muito menos ainda naquilo que me diz respeito. Perdoai a todos, perdoai a mim e dai-me a vossa bênção, Jesus. (Sentimentos da alma: 27 de Fevereiro de 1942)

sexta-feira, abril 30, 2021

DÁ-ME AS TUAS MÃOS

Vem para a barquinha do Meu Coração Divino

Espinhos, sempre espinhos a penetrarem-me, a ferirem-me: é sempre a mesma vida. O meu calvário é só dor, só dor.


— Meu Deus, chegarei ao fim? Creio, creio e só em Vós confio.

Se esta minha palavra de “creio” fosse sentida, se, quando digo a Jesus que confio, soubesse que confiava, todo o meu calvário era suavizado.

— Oh! Não, meu Deus, não! Nada sinto, e parece que nada acredito! Este tormento de mentir aos outros e mentir a mim mesma e sobretudo a Vós, meu Sumo Bem, quanto me custa, quanto me custa!... Só vós o sabeis! Bendito sejais!

Envergonha-me ao máximo falar da minha cruz, sofrimento e calvário. É o meu pão. Outra massa não tenho; a dor, a dor… A minha loucura por Jesus, de O amar e de O fazer amado, de Lhe dar todas as almas, aumenta de dia para dia. Não tenho a mínima consolação nesta loucura, mas consome-me e nela me perco. É tal o abismo que desapareço. Mas a humilhação por as almas me rodearem envergonha-me de tal forma que também me faz desaparecer. Fica só a existir a minha miséria.

O meu sepulcro cá está na superfície da terra. Verdejam e vicejam flores à sua volta. Sinto e com os olhos da alma vejo que há quem cuide delas, mas não sei quem é. Eu, no meu ofício rude e penoso de cavador, continuo na mesma canseira, parecendo ter mundos e mundos sobre mim, tal é a profundidade em que trabalho. Os suores regam a alma e o corpo. A noite, as trevas aterradoras, a inutilidade e a morte caíram sobre tudo isto. Não vi, não vejo, não sou nada e nada tenho que dar ao meu Jesus. O meu brado não chega até Ele. As minhas lágrimas não O consolam. Ah! Se Jesus saboreasse em mim alguma coisa, não me importava sofrer. Assim também não me importo. Com o sentimento completo pelo abandono da terra a Ele me abandonei pela Mãezinha.

— Sou Vossa, sou Vossa, sempre a Vossa vítima. Ó Jesus, eu creio, eu creio!

Ontem, no meu horto, não tive coragem de Lhe dizer o meu “creio”. Chorei, uni-me aos Seus sofrimentos. Hoje, numa indizível amargura na viagem para o Calvário, amargura tão triste e dolorosa que me obrigava as lágrimas a regarem-me a face. Pelo Céu e terra abandonada não deixei de chamar por Jesus, mas com tal desfalecimento que nunca Lhe repeti a palavra “creio”. Num momento inesperado, senti em mim um amor tão forte, amor que não era meu, mas nele me mergulhei. Não por mim, mas por força estranha que n’Ele me mergulhou. Após uns momentos de experimentar este amor, ouvi Jesus a dizer-me assim:

— Amor, amor, amor, minha filha, sou Eu o amor que te atrai, sou Eu o amor por quem vives, a quem só amas, por quem enlouqueceste. Tem coragem! A tua vida é a vida mais imitadora de Jesus. Por ti Me enlouqueci. A Mim te assemelhei. Não duvides, nada temas. Tu vives a minha vida, a minha vida comunicas. A tua morte ressuscita e dá a vida às almas, depois de iluminadas com a tua cegueira. As tuas densas trevas são a luz do mundo.

Eu não tive a visão de Jesus; nem os olhos da alma, nem os do corpo viram. Quando Ele assim falava, fiquei sem o mínimo bocadinho do Seu amor, envolta no mar mais tempestuoso; as ondas debatiam-se com a maior fúria, enrolando-me, levando-me à profundeza do mar que não tinha fim. Os ventos sopravam, novas ondas debatidas traziam-me à superfície da água. Sem ninguém por mim, julguei-me perdida. Veio Jesus novamente.

— Minha filha, ó minha filha, vem cá. Dá-me as tuas mãos. Vem para a barquinha do Meu Coração Divino. Por Mim és salva como foram os meus apóstolos. Este mar é o mar das paixões, esta fúria tempestuosa é a fúria louca dos vícios. Acode ao mundo! Sustenta o braço da justiça de meu Pai! Tenho tantos espinhos e punhais no meu Coração!... Queres que eles passem para ti, como as setas do Coração Imaculado de minha Mãe?

Ainda não tinha pronunciado a palavra “sim”, mas o meu coração estava ansioso por a pronunciar e já os espinhos da cabeça sacrossanta de Jesus se deslocavam por si para a minha cabeça e os punhais para o coração. Jesus deu-me as setas da querida Mãezinha que tinha em suas mãos e com muito cuidado nas espetou no coração, enquanto eu Lhe dizia:

— Tudo quanto quiserdes. Sou a Vossa vítima!

Tudo isto se passou dentro do Coração Divino de Jesus. A tempestade estava serena. Tudo isto foi visto com os olhos da minha alma e mais ainda a forma como Jesus passou o Sangue para o meu coração. Fez do Seu uma pequenina e bela infusinha que tombou sobre o meu coração, e a gotinha do sangue caiu.

— Recebe a gota do meu Divino Sangue, a vida que vives, a vida que comunicas a milhares e milhares de almas que se abeiram de ti. Tem coragem! Tem coragem! Tende coragem! Nenhuma alma sai daqui (foi esta a minha promessa e Eu não falto) que vá como veio. Quantas ressurreições, quantas ressurreições! Em algumas daquelas mais renitentes, que parece nada aproveitarem, levam o remorso. Elas não querem ceder. O seu orgulho não quer baixar, mas a graça lá fica para mais tarde. Eu não te abandono. Minha Bendita Mãe não te abandona. Confia! Não Nos perdeste. Quanto maior é o sentimento da perda, mais Nos possuis. Como abandonar-te a ti a quem confiei que continues a minha obra de salvação! A tua vida vai ser sempre assim até ao fim. Não quero dizer que ainda não te sejam dados momentos de alegria, mas não para tu os sentires.

Recebe as carícias da minha Bendita Mãe. O teu adeus não foi até ao Céu. Ela virá ainda ver-te na terra. Recebe as carícias de Jesus com as da Mãezinha com os Seus ósculos santíssimos que trazia em Suas santíssimas mãos.

Disse-Lhe o meu “obrigada” para Jesus e para a Mãezinha. Fiz-Lhes os meus pedidos, mas já no mar tempestuoso com a mesma fúria e sem a presença de Jesus. Já lá vão muitas horas, a tempestade continua; os seus espinhos e punhais e setas da Mãezinha continuam a estar presentes no coração e a virem novos espinhos constantemente. O Senhor seja bendito! (Sentimentos da alma: 30 de Abril de 1954 – Sexta-feira).

quinta-feira, abril 29, 2021

PARA ONDE CAMINHO, SENHOR?

 Neste caminho vem ao meu encontro a mulher querida

– Para onde caminho, Senhor? Que será de mim, meu Jesus?


Tudo é medo, tudo é pavor. Caminho apressadamente por entre ruas escuras e estreitas. Caio desfalecida, esmaga-me o peso das humilhações. Sou arrastada por duas cordas. Sinto o meu rosto por terra, as faces muito feridas. A dor dos agudos espinhos vem penetrar-me até ao coração; dor que parece dar-me a morte. Sinto os joelhos, os ombros e mais partes do corpo em dolorosas chagas. Envergonhada de tanta curiosidade, na tristeza mais profunda que se pode imaginar, a custo vou caminhando, caindo repetidas vezes. Neste caminho vem ao meu encontro a mulher, a mulher querida, compadecida da minha dor. Com que ternura e amor limpa do meu rosto o suor, o sangue e o pó. Os laços da mais estreita amizade prendem os nossos corações. É indizível o que queria dizer dela, os louvores que queria dar-lhe. Oh! como queria que ela fosse falada por este acto tão heróico. No alto da montanha, que desespero sinto em mim, é desespero de amor. Tudo me causa horror: a morte, a morte, o abandono, ó meu Deus. De joelhos, levanto os olhos para o Eterno Pai, dou-Lhe o meu sinal de aceitação a tudo. Baixo os olhos, entro em mim e num abraço mais íntimo estreito tudo ao meu coração. Entrego-me à morte. Os algozes continuam o seu bárbaro papel. Quadro horroroso! Que nojo e vergonha de mim mesma. O meu corpo e a minha alma a desfazerem-se em lepra. Espero a minha hora.

Passei da dor ao amor, do calvário, da cruz ao Tabor. Principiei a sentir o amor de Jesus fortemente no meu peito e no coração e a Sua divina presença em mim; e logo ouvi a Sua voz, doce e suave:

– Vem o céu a prestar homenagens ao Rei do céu, à rainha da terra no seu encontro demorado. Era meu desejo, minha amada, minha pomba querida, que o mundo conhecesse a forma como me dou à minha esposa, à alma virgem. Queria que o mundo conhecesse e compreendesse este amor: o amor com que te amo, o amor com que me amas a mim, o amor às almas, o amor à cruz. Era meu desejo, grande desejo que o mundo conhecesse a tua vida, vida do amor mais puro, vida de heroicidade, vida de heroísmos com toda a abundância. A tua vida é um painel riquíssimo onde está retratada a vida divina, a vida mais completa de Cristo crucificado. Os homens, os homens, minha filha, opõem barreiras escandalosas a esta vida que eu desejava fosse conhecida para glória minha e bem das almas.

– Ó meu Jesus, por eu não ter querer quero o que Vós quereis; se assim não fora, queria viver escondida, viver como se não vivesse, viver como se nunca tivesse existido, contanto que Vos amasse e as almas fossem salvas. Mas, se assim o quereis, o remédio está nas Vossas divinas mãos; fazei que os homens procedam doutra maneira.

– Não, não, minha amada querida, não é assim.

– Perdoai-me então, meu Jesus, perdoai-me, se Vos ofendi.

– Sossega, não me desgostaste. Onde estão as graças que lhes dei? Não se utilizaram delas, desprezaram-nas, calcaram-nas a seus pés. Utilizaram-se da sua vontade própria, do seu orgulho, dos seus juízos, das falsas luzes. Que mágoa para o meu divino coração. Coragem, filhinha, vence a minha divina causa e com ela vencem os que por ela lutam. Tu és o verdadeiro caminho, estrada de oiro, estrada real, cercado de um lado e do outro das pedras mais preciosas, das maravilhas do Senhor. Felizes almas, felizes pecadores que nela entrarem que vão a porto de salvação. Os teus olhares, os teus carinhos, as tuas ternuras, tudo leva ao céu. São olhares, ternuras e carinhos atraentes que atraem a ti as almas. Por ti vêm a mim. Vais agora, minha filha, receber a vida divina, a vida que te alimenta e dá vida, a vida que dás às almas. Vais receber o meu divino sangue.

Jesus uniu o Seu divino Coração ao meu assim como o Seu santíssimo rosto e lábios se uniram aos meus. O meu coração parecia-me estar colado ao de Jesus e do Seu Coração divino passava para o meu sangue. Sentia o meu a dilatar-se, a dilatar-se, era grande, muito grande. Sentia também receber vida dos lábios de Jesus para os meus. Ele cobria-me de carícias e dizia-me:

– Dou-te o meu sangue, a minha vida por onde eu quero e como quero.

Esta união foi demorada. Depois de algum tempo, Jesus chamou:

– Vem, minha Mãe, minha bendita Mãe, dá a tua vida celeste, dá as tuas graças e riquezas a esta minha filha e esposa e também tua filhinha querida.

Jesus desuniu de mim o Seu santíssimo rosto e lábios, mas deixou sempre ligado o Seu divino Coração. Tomou a Mãezinha o lugar de Jesus; uniu o seu santíssimo rosto ao meu, estreitava-me, cobria-me das suas carícias e bafejava-me com tanta doçura. Senti que d’Ela recebi muita vida, e dizia-me:

– Minha filha, esposa do meu Jesus, tabernáculo do meu Jesus, sacrário do meu Jesus, onde Ele habita sempre, sempre.

E Jesus dizia-lhe:

– Dá-lhe, minha Mãe, as riquezas do céu, dá-lhe todo o teu amor. Ao menos tu e eu a darmos-lhe a sentir o nosso amor e consolação, já que das criaturas, a quem ela ama e que estão a seu lado, não recebe consolação, não sente que elas a amam e até delas tem medo. Tirei-lhe tudo, tudo, tirei-lhe para minha glória, tirei-lhe para a salvação das almas, tirei-lhe para abrilhantar a escora que sustenta o braço do meu Eterno Pai, para ela, ao ver tal brilho, tais encantos, se esqueça do seu poder e use de misericórdia, só de misericórdia para o mundo. Tirei-lhe tudo, espremi-a, espremi-a, dela consegui os licores deliciosos.

– Desprende-te de nós, minha filha, vai para a tua cruz, para a tua vida de amor.

O meu coração estava cheio, cheio; Jesus fechou-o para não sair dele o sangue, e disse:

– Este é o sangue que germina, gera e dá a vida às virgens como tu.

– Obrigada, meu Jesus, obrigada, Mãezinha. Custa-me tanto desprender-me de Vós, sair deste amor! Sim, por Vosso amor desprendo-me, mas antes dai-me este amor para dar às almas que eu amo e me são tão queridas; dai-mo para eu dar a todos os meus, dai-mo para eu dar àquela alma que está em perigo e por quem Vos ofereci hoje os meus sofrimentos. Quero que ela se salve e como sinal disso não quero que morra sem todos os sacramentos. Dai-mo para eu dar às almas que tanto me fazem sofrer, para que Vos conheçam melhor e Vos amem cada vez mais. Dai-mo para dar ao mundo inteiro, para que ele seja salvo.

– Vai, ó nova redentora, salvadora dos pecadores, vai, obedece, escreve tudo, faz esse sacrifício, dá o nosso amor como desejas, com toda a abundância.

– Obrigada, Jesus e Mãezinha, obrigada sempre na terra e no céu.

Voltei à minha cruz, ao mar imenso das minhas dores. Já lá vão algumas horas e o meu coração ainda arde como uma grande fornalha.

– Bendito seja Jesus e o Seu amor. (Sentimentos da alma: 19 de Janeiro de 1945 – Sexta-feira)

terça-feira, abril 27, 2021

CHAMEI POR JESUS

Ataque furioso do demónio

Quando esta manhãzinha despertava dum sono leve e passageiro, eram de tal forma as trevas que eu sentia na minha alma que me parecia ver com os olhos do meu rosto, à minha frente, uma grande muralha negra; assustei-me, o meu corpo estremeceu. Não era nada, os olhos do rosto nada viam, os da alma, esses viam e aterravam-se. A pouco e pouco, fui-me envolvendo mais e mais nessas trevas assustadoras. Preparei-me para receber Jesus em meu coração. Entrou para a escuridão e na escuridão ficou. Pobre Jesus, onde baixou Ele! Sem luz, mas muito unidinha a Ele, fui percorrendo o caminho do meu calvário. Caía e sobre mim caía a cruz. Era arrastada e arrastada comigo era ela também. Ao cair sobre a terra, os espinhos cravavam-se, penetravam cada vez mais fundo. Que dores horríveis! Ainda as sinto. Da minha boca sentia como se saíssem golfadas de sangue, vindas do coração, resultado das grandes quedas, de bater com o peito em pedras. E tudo isto se passou sem luz, sempre a cada passo a ser envolvida num rolo de trevas. Eu pensava que não podiam ser mais aterradoras, mas vejo que dia a dia mais me assustam. Ó meu Deus, tudo por Vós! Veio o maldito com as suas artes. Empregou todos os meios maliciosos para me obrigar a pecar. Chamei por Jesus.


— Não chamas por Ele, é por mim que tu chamas, é a mim que tu queres. Da terra és por todos abandonada, nenhuns querem pecar contigo, têm nojo de ti. Olha em que estado tu estás! Eu peco, mas peco com nojo para tu ofenderes o inimigo que eu odeio.

Que grande luta! Estava sem vida, banhada em suor. Fiquei a dizer muitas vezes:

— Que grande martírio, meu Jesus, que grande martírio! Eu não quero pecar, sou a Vossa vítima.

Disse-me o meu Jesus:

— É grande o martírio, ó minha filha, eu bem o sei, é martírio de amor, é martírio de reparação. Só podia receber da tua alma bela e pura, só podia do teu corpo virginal receber esta consolação, esta reparação. Custa-te muito? Só assim é que me dás tudo. Coragem! Tu não me ofendes.

— Lanço-me nos Vossos divino braços, ó Jesus, neles quero estar sempre, mesmo nas lutas com Satanás. Sozinha tenho medo, aí estou livre de Vos ofender.

Fiquei desfalecida e continuei nos sofrimentos do calvário. Todo o corpo era sangue. Sentia uma sede abrasadora e o maior dos abandonos. Ouvi do meu coração sair este brado: “tenho sede, tenho sede”. Compreendi que era Jesus e lembrei-me que Ele tinha sede das almas. No mesmo instante, senti passar nos meus lábios uma esponja, uma e outra vez. A sede dos lábios ficou na mesma e a do coração aumentou. O brado continuava:

— Não é a sede dos lábios que quero saciada, mas sim a sede do coração, a sede das almas.

Nesta sede e neste abandono fiquei por muito tempo como se estivesse com os olhos fitos no céu e o corpo esmagado com o peso de toda a humanidade. E Jesus não vinha, demorou tanto! Esperei, esperei. Veio então e disse-me:

— O rei habita no seu palácio com a sua grandeza, poder e amor, mesmo que a rainha não o veja, não o sinta. Custa muito, minha filha, o esposo separar-se da sua esposa. Mas a minha separação não é real, fico escondido em ti. Fico a governar a nação da tua alma pelos lábios de quem escolhi para te amparar e dirigir. Todos os que te amparam, todos os que te guiam, fui eu que os trouxe a teu lado. Coragem, filhinha. Vem cá, vem ao meu coração, vem receber vida; estás desfalecida, necessitas dela para ires à conquista das almas. Vem, vem, ó conquistadora da humanidade, vem receber o sangue do meu divino Coração; necessitas da vida divina, porque momento a momento perdes a vida humana. Vives milagrosamente, vives do meu divino sangue; é ele o meu alimento.

Jesus uniu o Seu divino Coração ao meu; sentia-o e via-o cheio de raios de amor e ao lado uma grande chaga. Principiou a deitar do d‘Ele para o meu o Seu divino sangue e o meu, tão pequenino, principiou a dilatar-se, parecia não me caber no peito. Jesus uniu os Seus divino lábios aos meus para me acariciar e continuou:

— Estão os anjos, minha filha, a verem este grande milagre, as minhas maravilhas em ti.

(Sentimentos da alma: 27 de Abril de 1945 – Sexta-feira)

domingo, abril 25, 2021

UM DIA NA VIDA DA BEATA ALEXANDRINA

 25 de Abril de 1947 - Sexta-feira
(Domingo 25 de Abril de 2021, 17° aniversário da beatificação)

O meu sofrimento aumenta, a minha cruz pesa-me mais de momento para momento. Sinto-me como se estivessem a terminar os meus dias aqui na terra. O meu pobre corpo é uma massa em sangue, desfeito pela dor. Vivo como se não vivesse. O que será de mim, meu Jesus! Amo a cruz e não tenho forças para a abraçar. Sinto-me arrefecer, estou gelada. Quanto mais sofro, menos sinto amar a Jesus. Quanto mais Lhe ofereço os meus sofrimentos, nas minhas negras e dolorosas trevas, menos sinto que Lhe dou. Não tenho para Ele um sorriso, um acto de amor ou reparação. Sou pobre, mísera pobre; o que Lhe dou, nada me pertence. Sinto-me, por vezes, na divina presença de Jesus, de mãos vazias, olhos baixos, cabeça inclinada, envergonhada de mim mesma. Que contas Vos hei-de dar, meu Deus, a Vós, de quem tudo recebi a quem nada dei e nada tenho para dar. Triste confusão a minha! Poderei viver sem sofrer e sem amar O meu Jesus? Oh! não, não posso sem isso a vida seria para mim já um inferno. Ó Jesus aceitai para Vós o meu sofrimento e mesmo sem sentir amor fazei que Vos ame, deixai-me enlouquecer por Vós. Os espinhos nascem para mim, noite e dia, como noite e dia nascem e crescem as flores dos campos e jardins. Por todos os lados os sinto e vejo a ferirem-me. Eu quero-os e amo-os, mas desfaleço em recebê-los; recebe-os como mimos do Céu, como carícias de Jesus. Pressinto que novos e agudos espinhos alguém prepara para me cravar; parece-me ouvir o rumor de nova tempestade. Levantam-se contra mim novas ondas furiosas. De novo me estendo na cruz; deixo-me crucificar à semelhança do meu Senhor.


Na noite de 14 para 15, veio de encontro ao meu martírio, suavizar a minha dor, uma linda visão da SS. Trindade; era um trono riquíssimo: no cimo o divino Espírito Santo em forma de pomba deixava cair sobre O Pai e sobre O Filho que mais abaixo, ao lado um do outro, estavam sentados, uma chuva de raios doirados. Pouco depois, diante do Eterno Pai, uma alma ficou ajoelhada em sinal de reverência; uniu-se a uma mão dela uma mão de Jesus que o Padre Eterno ligou. Tudo estava iluminado, parecia o Céu, era luz celeste. Desapareceram as três divinas pessoas e a alma ficou por algum tempo na mesma posição, mergulhada no mesmo amor. Confortou-me também a visão, duma vez de S. José, e, doutra, de Nossa Senhora; um e outro com o Menino Jesus ao colo. São eles que me levantam, são eles a força e a coragem do meu tanto sofrer. Não sou eu que sofro, mas sim Jesus, só Jesus que sofre por mim.

O demónio atormenta-me com dúvidas que sem a força do Céu seriam um desespero. Aparece-me em formas feiíssimas e, por vezes, abre-se todo o inferno com todos os seus sofrimentos para me receber. Numerosas feras infernais correm para mim com todo o seu furor. Ó meu Deus, parece-me que todo o mundo é inferno, que todo o mundo é pecado, que todo o mundo tem a malícia e a maldade do demónio. O maldito instrui as almas em grandes crimes.

Na tardinha de ontem, avivou os sofrimentos do meu corpo, que eram enormes, a visão, a visão do Calvário. Dentro de mim, vi Jesus, depois de morto, ser descido da cruz e ser posto nos braços da Mãezinha; vi os Seus olhos agoniosos, senti o Seu coração trespassado; senti e vi o caminho com que Ele O estreitava e limpava o sangue e o pó das Suas feridas. Todo o Calvário se mexia, as pedras estalavam e faziam grandes fendas. Esta agonia e sofrimentos tão dolorosos preparam-me o Horto; e lá fui para ele; lá se me rasgaram as veias, suei sangue e vi o cálice. Jesus foi que o levantou e ofereceu ao Pai, cheio de amargura. O solo estremeceu e com todos os ramos das oliveiras. Debaixo de cruéis maus-tratos, deixei-o para ir para a prisão. E hoje, num canal de sofrimento, como se fosse uma prensa fui subindo as ladeiras do Calvário. Senti as cordas na cintura e no pescoço; cortavam-me, feriam-me. Vi Jesus a ser despido e, neste momento, o Seu rosto divino ficou como que incendiado; levantou ao Céu os Seus olhares e baixou-os, depois, em profunda tristeza e grande vergonha. Vi, junto à cruz, a escada, pela qual Jesus havia de ser descido; vi o lençol onde Ele havia de ser embrulhado. Jesus, antes de expirar, viu a cena comovedora, ao ser depositado nos braços da Mãezinha; viu os Seus carinhos e lágrimas, viu as espadas que A feriam, viu-A em igual dor e agonia. Quando expirou, o Seu espírito voou como pomba de todas as Suas chagas saíram raios de luz como sol por frestas. Quando o Seu espírito divino voou foi-Lhe aberto o coração. Senti a Sua grande prova de amor e que Ele nada mais podia fazer por nós. Pouco depois, de novo vivi com Ele.

― Minha filha, Minha filha, um coração puro, um coração abrasado, com a mistura da dor alcança do Meu divino Coração tudo quanto Lhe pedir em benefício das almas, isto não falando em outras graças. Assim és tu, vítima poderosa, sem seres igualada. Não és igualada na dor e também o não és no poder. Eu tenho em Minhas divinas mãos o teu martírio com todo o teu amor; sou Eu mesmo a colocá-lo como escora firme a sustentar o braço do Meu Eterno Pai, para não cair sobre o mundo culpado a castigá-lo. Podia dizer-te, esposa querida, que ele cai e cai sem remédio, por não virem a mim, seguindo a Minha divina voz. Não quero fazer-te tal afirmação, para não entristecer-te.

― Meu Jesus, meu doce Amor falardes-me assim é dardes-me a certeza do que nos espera; bem sinto eu que nada Vos dou e de nada valem os meus sofrimentos.

― Coragem, coragem, Minha filha, parece que nada Me dás, porque já tudo tenho em Meu poder. Sentes que nada valem os teus sofrimentos, porque, sofrendo Eu, em ti tomo-os como meus; e, para maior sofrimento teu, nada em ti deixo aparecer. Confia em Mim. Todo o teu martírio, em união comigo, forma os selos com os quais selo as almas e as deixo com o sinal da salvação. Confia, vítima amada, se não acudires aos corpos, as almas são sempre de salvação. O que vale a tua dor e o teu amor com o Meu! Coragem, vítima generosa, vítima de dor e amor. Vê, Minha querida, o Mendigo divino a estender para ti o braço, a pedir-te a esmola. A taça, em que a vais deitar, foi feita do ouro do teu martírio. Os espinhos, que a rodeiam, foram feitos das pedras preciosas das tuas virtudes; é a taça das almas, é a taça da salvação. Dá-Me a esmola, dá-Me a esmola. Só uma alma e um coração puro podem combater com Satanás e reparar-Me das maldades e crimes a que ele leva as almas. Como prova do teu amor, da tua generosidade, vou dar-te, em breves dias duas felizes novas que vão ser de alegria para o teu coração e para mais alguns dos que te rodeiam. Se o mundo bem compreendesse as Minhas maravilhas em ti e o valor do teu sofrimento, ter-te-iam suavizado o teu calvário e o daqueles que escolhi para te ajudarem a subi-lo.

― Meu Jesus, meu Jesus, peço-Vos força e amor. Sobre essa taça me coloco, sacrificai-me Jesus, imolai-me como Vos aprouver. Jesus retirou a taça doirada, cercada e adornada de belos espinhos.

― Vou dar-te ainda, Minha filha, a gota do Meu sangue divino; recebe que é vida, a vida do Céu, a vida de que vives. Recebe ara sofreres, recebe que é para viveres e para dares a vida às almas. É o Meu sangue com a tua dor e amor que lhes dás a vida e mais ainda faz com que Eu por muitos seja amado, o que não seria sem ti, Minha esposa querida.

Jesus uniu logo os nossos corações, e, logo que caiu a gota do Seu precioso sangue, desuniu-os e deixou por algum vir do Seu lado aberto para o meu peito fortes chamas de fogo. Com as Suas divinas mãos cerrou a abertura do Seu peito e disse:

― Trabalho em ti como quero, faço do Meu divino coração e do teu o que Me apraz. Vai levar a vida às almas, esta vida que é a verdadeira vida. Vai levar a todos o Meu divino amor, mas mais, muito mais aos que mais te amam, aos que mais de perto te rodeiam. Amar a Minha vítima é amar a Mim; cuidar dela é cuidar de Mim. Coragem! Vai em paz, vai em paz.

― Obrigada, meu Jesus; um eterno obrigado, meu amor! São tantos e tão grandes os meus sofrimentos que mesmo no meio das minhas negras trevas obriga-me a dizer: para ditar tudo o que fica dito, vi aqui só a mão e a força de Jesus com a luz do divino Espírito Santo; sem isto nada teria dito. Ó meu Jesus, ó meu Deus, quanto sofre a mais indigna das Vossas filhas; e só vê nela miséria e nada mais! Dai-me graça, dai-me perdão para as minhas culpas e para as do mundo inteiro.