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terça-feira, junho 22, 2021

O AMOR VENCEU

Sofro e morro de dor


Jesus continua na cruz e dentro de mim, de mim que não vivo nem existo. Ai, o doce Jesus de braços e Coração abertos! Queria dizer quanto Ele sofre e ama; sei sentir, não sei dizer, não me chega a língua, não sou capaz. Sofro e morro de dor. O que daria eu para poder fazer compreender a todos uma ofensa feita ao Coração Divino de Jesus, e quanto Ele nos ama apesar de tudo! Assim caminhei para o calvário com esta sede de me dar a conhecer às almas, de me dar a elas, de morrer por elas. Nunca caí tantas vezes como hoje. Que repetidas quedas! Que desfalecimento tão grande! O meu corpo gelava-se sem sangue; o coração não palpitava, os lábios não tinham vida. O amor venceu, foram as cordas que me arrastaram. Os meus lábios moribundos tinham sede ardente, mas o coração mais sequioso estava; quer beber a amargura até à última gota, tudo quer sofrer, porque a todos ama. Tudo quer dar para tudo receber. No alto da cruz sentia no meu corpo os maus-tratos do mundo, era como se fosse por todo ele apedrejado; sentia mesmo como se as pedras me ferissem. No Coração Santíssimo de Jesus, que estava em mim crucificado, vi sair uns raios de fogo, pareciam raios de sangue. Aqueles raios vinham estender-se sobre todos aqueles de quem o meu corpo sentia os maus-tratos, as pedradas. Que ternura e compaixão saía daquele Coração tão amante! Dos meus olhos moribundos, já sem vista para o mundo, saíam para ele os olhares mais doces, mais ternos e amantes; eram olhares que penetravam tudo e a todos; viam toda a maldade e ingratidão. Foi assim que veio Jesus. Veio, prendeu-me e demorou-se bastante tempo sem me falar. Tomou em Suas divinas mãos o meu coração e fez dele uma grande bola que momentos depois colocou no lugar do coração. (Alexandrina Maria da Costa: 22 de Junho de 1945)

terça-feira, junho 08, 2021

JESUS NÃO PODE MAIS

Bendita seja a minha cruz!


Pensava hoje amar tanto, tanto, o meu Jesus! Pedi-Lhe no dia do Seu Divino Coração todo o Seu amor até me perder nele. E não fui capaz de O amar e nada soube dizer-Lhe. Esperava até, ao recebê-Lo, ouvir d’Ele umas palavrinhas, mas nada ouvi. Fiz a preparação friamente, recebi-O como a um estranho, não sei falar-Lhe. Pedi-Lhe amor, mas, não sei como, não tinha nada de meu para receber e depositar esse amor. Sofro por ditar os sentimentos da minha alma e sofro por não os saber ditar. Bendita seja a minha cruz! Hoje sofro como nunca sofri. Logo após a comunhão, levantou-se em mim um mundo de tantas maldades, de tantos crimes. Pareceu-me que me abriram o peito, subiram tão alto, chegaram ao céu, feriram o Coração de Jesus. Estas maldades, que atingiram a maior altura, caem por todos os lados, encobrem o mundo, tiram-lhe a vida. E, assim, tenho passado as horas com o peito aberto, o coração ferido sem nada poder fazer. Jesus não pode mais. (Alexandrina Maria da Costa: 08-06-1945)

sábado, junho 05, 2021

A ALMA FIEL NÃO TEME A CRUZ

Ó Jesus conto com toda a graça, força e amor do Céu


— A alma fiel não teme a cruz; toma-a, abraça-a, acaricia-a, leva-a só por amor! Os espinhos com que Jesus adorna na terra as suas crucificadas transformar-se-ão no Céu em pétalas das rosas mais belas e viçosas. Mais ainda: transformar-se-ão em pérolas, em pedras preciosas. Como é encantador para Jesus uma virgem que a Ele toda se dá e por Ele tudo sofre!

— Meu Jesus, eu dou-me a vós, eu sofro por vós, despedaçai de dor o meu coração; eu quero amar-vos, eu quero dar-vos as almas. Cobri de espinhos todo o meu pobre corpo, mas o que sou eu sem vós? Miséria, meu Jesus, só miséria.

— Tu és grande, tu és forte, minha amada. Serás grande para o mundo e grande aos olhos de Deus. Estás rica, estás rica, meu amor com os maiores dons e as maiores riquezas do Céu. Que belo é Deus, que belo é Jesus e belas faz as suas almas. Vais, minha louquinha, vais, minha heroína, dar a maior prova, a última prova de amor a Jesus e ás almas. Não temas, não temas, Jesus e Maria estão contigo, o divino Espírito Santo iluminar-te-á sempre. Tu és o cofre riquíssimo que Jesus tem na terra; tens muito que distribuir às almas.

— Ó Jesus conto com toda a graça, força e amor do Céu. (Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma; 5 de Junho de 1943)


sexta-feira, junho 04, 2021

A TUA VIDA É CHEIA DE PRODÍGIOS

Creio, Jesus, sou a tua vítima


— Vem, minha filha, trabalha, trabalha. Repara a justiça de meu Pai. Sofre, sofre. Acode ao mundo que não quer escutar a minha voz. Tu és o lírio e açucena perfumada. Com tal perfume atrais as almas a Mim. A tua vida é toda a minha vida. Oh, como Eu quero que ela se leia e compreenda! É cheia de prodígios divinos. Ela tem ensinamentos do presépio ao calvário. Antes de Eu vir à terra e depois de Eu vir à terra. A minha vida em ti não é para ti. A luz que em ti brilha não é para te luminar a ti, mas a toda a humanidade.

Recebe a gota do meu Divino Sangue. Só vives desta vida. É só Jesus que te faz viver. Fica na cruz, fica na cruz. Sofre, sofre o teu indizível sofrimento.

Fiquei logo na minha costumada agonia a fazer os meus pedidos ao Senhor sem sentir que Ele tinha vindo até mim e a parecer-me que nunca O veria.

— Creio, Jesus, sou a tua vítima. (Alexandrina Maria da Costa: S. 4 de Junho de 1954)

terça-feira, maio 25, 2021

UM PESO ESMAGADOR

Caminhei sobrecarregada


— Aceito, ó meu Deus, a minha cruz.

Nem a visita de Jesus Sacramentado me aliviou. Caminhei sobrecarregada com o seu peso esmagador. E como caminhei eu? Como se fosse um vermezinho da terra escondido sob ela. O meu corpo não era corpo, era uma massa disforme, toda em sangue; olhos, cabeça, todo o ser. No decorrer das horas, pude juntar aos sofrimentos do calvário grandes sofrimentos que martirizaram a minha alma; não convém dizê-los. Jesus e a Mãezinha tudo sabem. Que calvário tão penoso! E o abandono aterrador! O meu coração bradava ao céu, os meus olhos fitavam Jesus, e os meus lábios segredavam-Lhe:

— Bendita seja a minha cruz, seja tudo pelo Vosso divino amor e pelas almas. Estou pronta, sempre pronta para ser a Vossa vítima.

Veio Jesus confortar-me, veio ao encontro do meu martírio, veio com toda a fortaleza do Seu divino amor. O coração palpitava fortemente, o peito parecia levantar-se, era pequeno para conter um coração que dentro dele continha a grandeza e amor sem igual. Jesus demorou-se a falar-me, mas só o Seu amor bastava-me. Senti mais vida, mas Ele não ficou sempre silencioso. Não digo aqui tudo o que Jesus me disse; oculto-o, devo ocultar. Ficará para quem tem o direito de eu nada lhe ocultar. Ao que Jesus me disse respondi:

— Faço isso, meu Jesus, mas é enormíssimo o meu sacrifício; bem vedes que é. Aceitai-o já, faço-o por Vosso amor. Por este tão grande sofrimento, fazei-me o que Vos peço. (Alexandrina Maria da Costa: 25 de Maio de 1945).

VI UMA ENORME CRUZ

À beira dela, a Mãezinha das Dores


Durante a noite, não sei a hora, o meu corpo era destruído pela dor, e a alma estava nas maiores angústias, na sepultura das minhas trevas. Não tinha ninguém por mim; tinha de lutar.

— Ó meu Deus, quem poderá resistir a tanta dor?

De repente, vi à minha frente, junto de mim, uma enorme cruz levantada. E ao pé dela, sentada, a Mãezinha das Dores. Que bela, que bela Ela era! Fitei-A sem nada Lhe dizer, não podia falar. O seu santíssimo Coração, cheio de setas, fez-me esquecer a minha dor. Não falei eu, mas falou Ela.

— Minha filha, tem coragem; esta cruz é tua. Eu estou sempre junta a ti, para te auxiliar, como junto estive à cruz do meu Jesus.

Dito isto, desapareceu rapidamente a linda visão. Tão grande madeiro não me atemorizou com a vista da Mãezinha. Serenou a tempestade do meu sofrimento, e adormeci por um pouco. Ao despertar, logo me aterrou o pensamento de ser sexta-feira. O coração abafado e oprimido pela dor cobriu-se de luto.

— Aceito, ó meu Deus, a minha cruz. (Alexandrina Maria da Costa: 25 de Maio de 1945).

terça-feira, maio 04, 2021

LIVRAI-ME DE VOS OFENDER

Fazei em mim e de mim quanto Vos aprouver


Durante a noite fiz companhia a Jesus no Sacrário e na prisão. Hoje de manhã, ouvi a sentença de morte. Segui para o Calvário, o coração fez-se outra vez pomba. Foi ela quem levou a cruz, foi ela que levou as setas do coração da Mãezinha, que A acompanhava. Viagem dolorosa, sempre as setas a ferirem-me, eu não podia consentir que a Mãezinha sofresse tanto! O coração d’Ela, os sues lábios, a sua dor, todo o seu ser era o meu. No alto do Calvário, foi essa pombinha na cruz crucificada. Com o peito aberto e o coração a sangrar, era-lhe por toda a humanidade avivada a chaga, dolorosa profunda, do coração. Sabia bem que sempre assim seria, até ao fim dos séculos. Aquela dor, unida sempre à dor da Mãezinha, que, lacrimosa, e atravessada por cruéis setas, se mantinha junto à cruz, levou a pombinha a bradar tanto que fez estremecer todo o solo. Fez-se noite, e a pombinha, como que se batesse as asas, deu-se toda ao eterno Pai expirou. A morte reinou em mim.

Veio Jesus com a sua vida encheu-me dela e falou-me assim:

– Nova vida, novo triunfo de Jesus na tua alma. Eu triunfo e reino no teu coração, como outrora triunfei e reinei no Calvário. Triunfei e reinei sobre a morte. Triunfo e reino nos teus sofrimentos, na tua cruz. Coragem, coragem, minha filha. Jesus escolheu a tua vida, os anjos escreveram-na. Toda a tua missão está escrita no livro divino. Eu quero, Eu quero trabalhar sempre na tua alma. Eu quero operar nela um conjunto de todas as maravilhas divinas. A nobreza da tua missão condiz com os prodígios maravilhosos que Jesus em ti operou. Eu quero reinar e triunfar em ti. Sabes para quê, esposa minha, vítima predilecta do Meu Divino Coração? Para que, por ti, reinem e triunfem milhões e milhões de almas. Triunfem do pecado, reinem sobre Satanás. As almas, as almas, se te conhecessem, tal qual és, tal qual Eu te enriqueci! Devoravam-te de amor, como se fossem feras.

– Ó Jesus, ó Jesus, não sabem elas quem Vós sois? Não conhecem elas tudo quanto sofrestes por elas? Ai, pobrezinhas, nem por isso Vos devoram com amor puro e louco. Eu não queria, não, meu Jesus, que elas me amassem e se enlouquecessem por mim, mas queria, sim, oh! Se queria, meu Jesus, que Vos amassem com a maior pureza e loucura de amor; que cessassem de Vos ofender. E, por isso, é com esse fim que eu sofro, que aceito a cruz que me dais. Mas não quero, Jesus, não quero deixar de Vos confessar que tenho estes desejos, mas sou a maior de todas as pecadoras. Só tenho a vontade de Vos não ofender, Jesus, e nada mais. Perdoai-me, Jesus, perdoai-me.

– Minha filha, minha louquinha de amor, a tua humildade alegra o Céu, os anjos e os santos estão jubilosos. A humildade é própria das almas grandes aos olhos do Meu Eterno Pai. Tu és a Sua vítima mais querida e amada. Tens as tuas faltas; também elas são necessárias e proveitosas à tua alma. Com elas humilhas-te diante do Senhor. Com elas escondes toda a grandeza de Deus. Não duvides, não duvides, não duvides das Minhas Divinas palavras. Não duvides que foste criada para desempenhar a missão mais alta e sublime. Não duvides, tem sempre presente que foi Jesus a escolher-te para tudo isto. O teu coração, vítima eucarística, é um abismo de amor, no qual Eu habito, no qual Eu me delicio e com o qual se incendeiam os corações e as almas. Dá-Me, dá-Me a reparação. Não te importes, minha filha, da forma como ela te é pedida. Eu vejo, na minha sabedoria infinita, que só desta forma o Meu Eterno Pai pode ser reparado. Só, só com esta reparação, evitas de caírem no inferno tantas almas, tantas, tantas, minha filha, loucas pelos prazeres, esquecidas dos seus deveres para comigo. Tu não caíste no inferno, não, mas evitaste, naqueles momentos, que lá caíssem certas almas que, pelo seu pecado, haviam de ser condenadas eternamente.

– Senhor, Senhor, fazei em mim e de mim quanto Vos aprouver. Livrai-me de Vos ofender.

– Vem, minha filha, recebe a gota do Meu Divino Sangue. É a gota infinita dum Deus infinitamente amável e misericordioso. É sangue que te dá a vida, para tu dares vidas. Tu és canal de vida eterna, canal de salvação. É por ti que Eu me dou, é por ti que as almas recebem toda a graça e vida divina. Ai das que as rejeitam, ai das que as desperdiçam! O mundo, o pobre mundo, o Portugal, o ingrato Portugal! Diz-lhe, diz-lhe que Jesus o chama e o quer. Diz-lhe que calque aos pés todas as maldades e vícios. Que faça oração, que faça penitência. Fica, fica na tua cruz, para salvares as almas. Conta com a graça divina, a graça do teu Senhor”.

– Obrigada, obrigada, meu Jesus. (Sentimentos da alma: 04-05-1952)

quarta-feira, abril 28, 2021

EXISTIRÁ ALEGRIA NO MUNDO?

Tenho medo de mim mesma!

Existirá alegria no mundo? Em algum dia da minha vida, por acaso conheceria eu o que era alegria? Se alguma vez a experimentei, morreu para mim de tal forma como se nunca a conhecesse. O pensamento de aceitar e cumprir do coração e da alma a vontade de Jesus dá-me um pouco de alento. Mas logo este pensamento me aflige: estou eu a cumprir a vontade do Senhor? E daqui grandes agonias e tristezas para a minha alma. Estou esmagada entre o céu e a terra, toda transformada e embebida em trevas. Tremendo horror, meu Jesus! Tenho medo de mim mesma.


Quem poderá aguentar tanta aflição a não ser Jesus? Quem poderá viver e caminhar por tão negra escuridão a não ser com os olhares de Jesus? Morro, morro, meu Deus, morro despedaçada, esmigalhada na tremenda noite. O meu coração, tão oprimido pela dor, faísca raios de lume. Esses pedacinhos de raios, que eu sinto e vejo sair dele, espalham-se pelo mundo; todo ele é fogo. Queria ver estes raios irem ferir todos os corações, e este fogo, que do meu sai, incendiar a todos, para que só no mundo existisse o fogo do amor de Jesus. Quero gritar e gritar sempre, enquanto viver neste exílio. Custe o que custar, esteja nas trevas que estiver, abandonada em tudo e de todos, gritarei sem cessar: quero amar Jesus, quero consolá-Lo, salvar-Lhe as almas, dar-Lhe o mundo inteiro. Não sei dizer a Jesus, não sei pedir-Lhe meios para O alegrar, meios para melhor salvar as almas.

— Jesus, bem vedes o que o meu coração quer. Só por Vós e aceito a cruz.

Que alívio para a minha alma, que conforto para o meu coração, se eu pudesse dizer a minha dor, não para que saibam quanto sofro e vejam as ânsias do meu coração, mas para glória do meu Deus e bem de toda a humanidade. Não sou eu quem sofre, não sou eu quem resiste à dor, mas sim Jesus, só Jesus, que sofre pelos filhos Seus. Para mim era impossível suportar tão grande martírio. E o demónio aumenta-mo. Que fúria a sua, que maldade sem igual! Que tristeza não poder fazer que todas as almas a conheçam, para não se deixarem guiar por ele. Dizia-me hoje num penoso combate, quando eu clamava pelo meu Jesus.

— Não pronuncies esse nome, somos inimigos odiosos. Ele odeia-me a mim e eu a Ele. Diz comigo que O odeias e que O não queres. Comigo tens o gozo e o prazer nesta vida e uma eternidade feliz. Com Ele sofres aqui e lá. Estou a pecar contigo, levo-te ao prazer para O ofenderes gravemente. Diz comigo que queres pecar, que queres ofendê-Lo.

Como eu, sempre que podia, chamava por Jesus e Lhe renovava a oferta de vítima e Lhe dizia não querer pecar, ele, enraivecido, insultava-me, tentava escarrar-me até dentro da boca e procurava novos meios maliciosos. Que tristeza, meu Deus, que aflição a minha! Ao terminar da luta, o meu coração parecia rebentar, o meu corpo estava banhado em suor, e os meus olhos tentavam desfazer-se em copiosas lágrimas. Triste e mais do que envergonhada, fitei Jesus na cruz sem poder dizer palavra. Ele veio a confortar a minha alma.

— Não pecaste, não, minha filha, pomba branca, arminho puro. A tua pureza não se manchou nem manchará. A tua alma é bela, é encantadora. Criei-te para mim com encantos atraentes. Dá-me toda esta reparação. Não chores com o receio de me teres ofendido, porque não pecaste. Oferece-me as tuas lágrimas por aqueles que me ofendem. Os desejos de pecar, as ânsias insaciáveis do prazer não são teus, é a reparação daqueles que, depois do gozo, do gozo passageiro, enganador e traiçoeiro, querem novo gozo, nova satisfação, atraiçoando assim o meu Coração divino. Coragem! Estou satisfeito com o teu amor e com tudo o que me dás.

— Ai, meu Jesus, se eu pudesse convencer-me sempre que não Vos tinha ofendido! Mas depressa caio nas minhas dúvidas. Tende dó de mim.

— Vive em paz, filhinha amada, pois estou contigo mesmo nas tuas trevas.

— Obrigada, meu Jesus.

Ai de mim! Perdi amigos, perdi Jesus, não posso mais encontrá-Lo nesta escuridão. Perdi a vida, perdi tudo, tudo. A morte rodeia-me, avizinha-se de mim; traz consigo os maiores horrores, a maior escuridão. E eu sem conforto do céu e da terra. Os que me são queridos, por mais que se esforcem, não me dão um momento de alegria. As mais pequeninas coisas abismam-se cada vez mais na profundeza da minha dor. Perdi o meu Jesus, ou sinto que O perdi e não O queria perder. Queria possuí-Lo, mas sem colóquios com Ele. Triste noite da quinta-feira! Oh! como Jesus me associa às Suas dores, à Sua paixão divina! Sinto ânsias de atravessar por cima de todos os espinhos, de ir ao encontro da cruz, abraçá-la e com ela seguir para a morte. Sobre o meu peito sinto o discípulo querido, sinto o seu sono de paz, a tranquilidade do seu coração e da sua alma, e sobre ele o amor terno de Jesus. Sinto em mim a braseira e os que a ela se aqueciam. Sinto, retirado um pouco, que está alguém aterrado e tímido, mas vai-se aproximando e vai negar Jesus. Sinto as suas lágrimas de arrependimento. Sinto o cantar do galo e o abrir do bico em meu coração. Sinto sobretudo a dor infinita de Jesus e o Seu amor e mansidão para com todos. Quanta amargura, quantas mágoas em Seu Coração, naquele Cordeirinho inocente! Não posso ir ao fim da dor de Jesus, não resisto a mais. Sentimentos da alma: 26 de Abril de 1945).

terça-feira, março 10, 2020

ALMA FIEL NÃO TEME A CRUZ


O dia 5 de Junho de 1943 é o Primeiro sábado do mês. Como habitualmente Jesus e a sua bendita Mãe vêm visitar a “Doentinha de Balasar”, para lhe incutirem coragem para que ela possa levar a cabo a grande missão que lhe fora confiada.
Jesus começa por afirmar-lhe que “a alma fiel não teme a cruz ; toma-a, abraça-a, acaricia-a, leva-a só por amor!”
E como se esta afirmação não parecesse suficiente, Ele acrescenta ainda que “os espinhos com que Jesus adorna na terra as suas crucificadas transformar-se-ão no Céu em pétalas das rosas mais belas e viçosas”.
É assim que o Senhor trata as suas esposas; é assim que Ele as “adorna”: com espinhos e sofrimentos de toda a espécie.
Não se trata aqui de dolorismo ou da apologia deste, mas simplesmente de mística, de mística pura e de comunhão dos Santos, o que poderíamos chamar também “vasos comunicantes”.
“Estou convencido ― escreve S. Paulo aos Romanos ― de que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há-de revelar-se em nós” (Ro. 8, 18).
Jesus quis “precisar” de almas vítimas para continuar, ao longo dos séculos, o mistério da Redenção; não que a sua morte dolorosa e redentora não fosse suficiente para resgatar a humanidade inteira, mas simplesmente por que Ele quis associar a esta mesma Redenção essas almas predestinadas que livremente se ofereceram para esse fim. É por isso que lemos em S. Paulo aquela célebre frase em que ele afirma “completar no seu corpo o que faltou à Paixão de Cristo”, ou ainda “porque àqueles que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem uma imagem idêntica à do seu Filho”.
Dessas almas predestinadas que livremente se ofereceram para esse fim, a Beata Alexandrina é um exemplo concreto e “palpável”, se assim nos podemos exprimir. Ela mesma o afirma aqui categoricamente: “eu dou-me a vós, eu sofro por vós, despedaçai de dor o meu coração”. E porque se oferece ela assim tão firme e categoricamente? A resposta também ela a dá a seguir: “Eu quero dar-vos as almas”, como se ela dissesse: “Eu quero participar na redenção da humanidade, participar da maneira que Vós mesmo desejais, meu Jesus!”
Esta oferta generosa não fica sem resposta, não cai no esquecimento do Senhor, porque no Senhor tudo é e está presente: “Como é encantador para Jesus uma virgem que a Ele toda se dá e por Ele tudo sofre!”
E quando assim é, que mais desejará a alma vítima, de que poderá ter medo?
Esta pergunta faz também o Apóstolo Paulo: “Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada?” (Ro. 8, 35) E, como em S. Paulo toda a questão tem a sua resposta, ele a dá algumas linhas mais adiante: “Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso” (Ro. 8, 38-39).
É, como diz o mesmo Apóstolo, na mesma Carta (Ro. 8, 14) : “Todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus”.
Assim é também com a Alexandrina.
Mesmo quando Jesus a “felicita”, quando lhe diz que ela “é o cofre riquíssimo que Jesus tem na terra”, ela continua humilde, convicta de que nada é e que aquilo que “tem” lhe é dado pelo Senhor, “rico em misericórdia”, não podendo pois gloriar-se daquilo que não lhe pertence e que “recebeu por acréscimo”, “contando com toda a graça e força do Céu” para poder “distribuir às almas” as graças de que pela bondade divina foi feita depositária.
Jesus tem depois palavras carinhosas para todos aqueles que ajudam a Alexandrina “a subir o doloroso Calvário”, aconselha-os e promete-lhes a sua divina protecção “que contem sempre com as graças e bênçãos do Senhor”.
A página do Diário termina com a intervenção de Maria, uma curta mensagem de encorajamento para a Alexandrina:
― Toma conforto, minha filhinha, esposa do meu Jesus, salvação de todos os meus filhos. Como és amada de toda a corte celeste!
Textos tirados dos Sentimentos da alma de 5 de Junho de 1943, Primeiro sábado do mês.
Afonso Rocha

domingo, julho 31, 2016

COMO O SOL BRILHANTE

Fica na Cruz...


– Minha filha, minha filha, vítima querida do meu Eterno Pai, escora firme do Seu braço, da Sua justiça divina. Se não fosse a tua oferta, se não fossem as almas, já cantavas no Céu, há muito tempo, as glórias do Senhor.
O mundo, as almas são ingratas, são cruéis. Tu foste generosa, tu foste louca por elas, por meu amor, bem Eu sei, mas foi aceite a tua oferta, foi aceite a tua oferta, a tua prece.
Pede, pede, minha filha, pede pelo amor do meu Divino Coração, para que os corações se abrasem no meu amor. Pede que desapareçam da face da terra tantos e tantos crimes, crimes hediondos, que desafiam a justiça do Senhor. Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Foram os Anjos, foram os Anjos que ligaram o tubo doirado ao teu o meu Divino Coração. A gotinha do sangue passou, passou o sangue de Jesus, aquele sangue que veio do seio de Maria, minha e tua Mãe também. Passou a vida de que tu vives e a vida que Eu quero que tu dês às almas. Ela transparece em ti e por ti atravessa os corações, como sol fortíssimo, como sol brilhante pela vidraça. Pede oração, pede penitência e a morte para o pecado.
Vai em paz. Vai em paz. Fica na cruz. Sorri, abraça-a, beija-a por meu amor.

– Ó Jesus, fico na cruz, sim, fico na cruz, e é da cruz que eu Vos peço. Sede no meu coração. Atendei ao que nele está escrito. Confio, Jesus, confio. (S. 03-12-1952)

domingo, fevereiro 22, 2015

A CRUZ ERA TÃO GRANDE !

Balasar, 16 de Fevereiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Cá está a pobre Alexandrina a buscar um pouco de alívio para tantas aflições. Sempre ficarei melhor desabafando um pouco. Que dia de tanta aflição. Já hoje tenho levantado as mãos ao Céu e pedido: meu Deus, compadecei-Vos de mim, meu Deus, compadecei-Vos de mim. Que tempestade medonha. A minha alma está numa noite escura. Afigura-se-me que cá muito no íntimo sou rasgada aos pedacinhos e maltratada. Como eu estou sozinha num abandono total: não há quem se compadeça de mim. As dúvidas são tremendas. Que susto ao afigurar-se-me que faço tudo de minha cabeça. Que luta para não me deixar convencer disso porque não quero, nem por sombras, desgostar ao meu Jesus. O receio de mim mesma: a minha miséria, o meu nada, o nojo que tenho de mim. Ai meu Paizinho, poderei vencer? Receio, mas ao mesmo tempo confio. Mas ai, como estou neste momento. Que aflição tão grande! Ai, meu Jesus, sede a minha força. Ó minha Mãezinha querida, compadecei-Vos da vossa filhinha. As lágrimas são o meu desabafo, agora mesmo.
O meu Paizinho fica triste com isto? Perdoe-me, sim? O meu Jesus com certeza também me perdoa. Eu não é por não querer sofrer. Oh, quero sofrer a mais não poder. Já por mais que uma vez, hoje, o pedi ao meu Jesus. Mas sou tão fraca, não posso com uma aresta; quando o peso cai mais sobre mim fico quase desfalecida.


O meu Jesus hoje, não me falou: tem-me entregue aos sofrimentos. No fim da Sagrada Comunhão, fiquei com um peso esmagador. E já mais vezes o tenho sentido. Não é tão forte como no dia em que o meu Paizinho aqui esteve: mas parece que me arranca o coração e me enterra pelo chão dentro. De terça para quarta-feira, de noite, vi Nosso Senhor atravessar diante de mim com uma cruz aos ombros. Era tão grande! Ele ia tão aninhado debaixo dela, parecia que ia de joelhos. O manto era vermelho ou cor semelhante. Eu penso que não foi ilusão minha. Eu não dormia, nem estava a pensar em nada disto. Mas fosse como fosse eu só tenho que dizer tudo ao meu Paizinho, não é verdade? Eu não posso pensar no Céu. Não sei o que me vem do alto ter ao coração e mesmo mo arranca para lá. Parece que não caibo em mim. Juntam-se as ânsias de amor, parece que uma força que eu não conheço me levanta, Não é força minha, do meu corpo que eu não tenho nenhuma. Como devo proceder? Teimar a pensar na minha pátria ou recordar-me só por breves momentos?
Eu anseio tanto pelo Céu, mas parece que a força que se me faz sentir é forte de mais para quando estou sozinha, Por isso é que só com muita rapidez me lembro dele.
Ó meu Jesus faz-me sofrer muito, muito, muito, ora com o Céu ora com os meus males e com os do mundo. Que horror! Bendito Ele seja. Eu só quero forças para sofrer quanto Ele me enviar.
Cá tive o Santo Sacrifício celebrado pelo Senhor Padre de Fonte Arcada no dia 15. Depois contarei ao meu Paizinho tudo como foi. O Senhor Abade fez-nos sofrer um pouquinho: mas as humilhações são muito boas e muito precisas. Eu agradeci-as ao meu Jesus.
Eu estou muito doente com a gripe. A tosse consome-me de noite e de dia. Faz-me vomitar. Quando me dá mais forte, é preciso erguer-me um pouquinho senão abafa-me. Estou com tanto receio da sexta-feira! Estou cheiinha de medo.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.
Peço o favor de me recomendar aos Senhores Padres.

Abençoe e perdoe a pobre, Alexandrina.

sexta-feira, abril 06, 2012

ÉS O CORDEIRINHO SACRIFICADO E IMOLADO

Levas a cruz, porque não posso levá-la Eu...

— Minha filha, loucura de amor pelas almas, loucura de amor por mim. És louca pelas almas à minha semelhança. Assemelhei o teu calvário ao meu. A tua vida é vida de Cristo, vive Cristo transformado em ti. Sobes o calvário, porque não posso subi-lo eu agora. Levas a cruz, porque não posso levá-la eu também. És o cordeirinho sacrificado e imolado, dás a vida na maior das agonias, porque agora não posso eu sofrer assim. É revestida de mim que sofres, é comigo que levas a cruz, é comigo que nela expirarás.
Por um grande intervalo de tempo, vi Jesus com a cruz aos ombros. Não O senti, vi-O. Mas eu era Jesus e era a cruz. Que cruz tão grande! E Jesus tão curvado debaixo dela; o Seu santíssimo rosto quase chegava ao chão.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 16 de Fevereiro de 1945)

sábado, dezembro 03, 2011

MINHA FILHA, NÃO RECEIES A CRUZ

Foi grande a consolação que Me deu...

O coração de Jesus era como um vaso  formosíssimo, o qual Ele despejou dentro do meu coração.
― Dou-te tudo e com tudo fico, Minha filha; dou-te toda a Minha riqueza, e em Meu nome que o dês ao teu Paizinho também como prémio do seu sofrer. Diz-lhe que o associei ao princípio do teu Calvário e que ele foi o teu cireneu e contigo vítima. Diz-lhe que fui Eu que vos uni e que, nesta união, passais a vida da terra e a eternidade. No dia da primeira crucifixão, vós formaste uma escada para o Paraíso, pela qual não têm cessado de subir as almas. Diz-lhe que Eu sou sempre o seu Jesus, cheio de bondade e amor para com ele. Diz-lhe que Jesus lhe manda todas as graças deste Calvário, deste viveiro das almas. Diz, Minha filha, ao Meu e teu queridíssimo médico que lhe dou o Meu profundo agradecimento pelo seu acto de fortaleza, sem respeito humano para a Minha divina causa. Foi grande a consolação que Me deu pela luz que levou a muitos corações. Como prémio desse acto heróico dou-lhe todas as Minhas bênçãos e graças para ele e para os seus; e prometo-lhe a fidelidade à graça e guiá-lo em todos os seus passos; prometo-lhe a perseverança final e toda a luz do Espírito Santo. Quero fazer compartilhar destas promessas aos que mais de perto te rodeiam e trabalham em defesa do que é Meu. Vi Jesus a abençoar, por um bom espaço de tempo. Vem, Minha Bendita Mãe, à Nossa filhinha, que te espera e necessita do teu conforto para amparo da sua dor.
Veio a Mãezinha; cobria manto de Rainha; tomou-me para o Seu regaço, envolveu-me no Seu Santíssima manto, abraçou-me e cobriu-me de carícias.
― Minha filha, Minha filha, sofre o Coração do Meu divino Filho e sofre o Meu também. Tira-Lhe do Dele os espinhos, tira-Me do Meu as setas. Passa para os que amas as minhas carícias, diz-lhes que também são para elas, que Eu lhas mando. Pede-lhes, em Meu nome, para fazerem o mesmo que a ti peço. Quero que Jesus seja amado, quero ser amada também; quero que o Coração divino de Jesus seja reparado, e não quero que nele fique nem um só espinho. Peço reparação para o Meu santíssimo Coração e para dele lhe serem tiradas todas as setas e espadas que tem. Pede aos que amas para Nos amarem e por Nós sofrerem, dizendo e repetindo sempre: quero que o meu amor, o meu sofrimento vão tirar aos Corações de Jesus e Maria todo o ferimento quer têm; e que o mesmo amor e sofrimento Jesus por Maria o aceite pela salvação das almas, pela conversão dos grandes pecadores. Diz, Minha filha, que quero que o Meu desejo seja propagado.
Aproximou-se Jesus e com a Mãezinha, de novo, me acariciaram e com os Seus lábios docemente bafejaram-me.
― Vai, Minha filha; o Céu não demora, não receies a cruz. O bafejar do teu Jesus e da tua Mãezinha será para ti a vida da tua dor e o maná celeste que quero que espalhes pelas almas que amas, por toda a humanidade. Tem coragem! Quando mais ansiares a tua Pátria, recorda as almas do Purgatório, a quem tanto amas, que tanto anseiam por Me gozarem e contemplarem face a face, e oferece-Me para seu alívio as tuas ânsias, saudades de voares para o Céu para junto de Mim. Coragem! Leva a Nossa paz, leva o Nosso amor.
― Obrigada, Jesus; obrigada, Mãezinha. Já me sinto na cruz; toda ela é de espinhos.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 6 de Dezembro de 1947 - Primeiro sábado.)

segunda-feira, novembro 28, 2011

A MAIS ALTA MISSÃO...

Jesus ficou em silêncio e eu a nadar em paz e gozo

— Em ti estou bem, Minha pomba amada, ao abrigo do teu coração não pode o mundo ferir-Me.
― Meu Jesus, meu terno amor, que confusão e vergonha a minha! Quero cair humilhada e contrita aos Vossos  divinos pés e aí chorar as minhas culpas. Como podeis Vós que tudo vedes, falar assim da maior de todas as pecadoras, da mais indigna das Vossos filhas!
― Assim teria sido, Minha querida, se Eu não velasse por ti e não correspondesses às Minha divinas graças. O fazer-te conhecer o mal não tirou à tua alma o brilho e a graça; conhecê-lo não é praticá-lo. E só assim podias dar ao Meu divino Coração a reparação para tantos pecados e tantos crimes! És a Minha vítima, a quem confiei a mais alta missão. E como prova disso atende bem ao que te digo para bem o saberes dizer. Quase um século era passado que Eu mandei a esta privilegiada Freguesia a cruz para sinal da tua crucifixão. Não a mandei de rosas, porque as não tinha, eram só espinhos; nem de oiro, porque esse com pedras preciosas serias tu com as tuas virtudes, com o teu heroísmo a adorná-la. A cruz foi de terra, porque a mesma terra a preparou. Estava preparada a cruz; faltava a vítima, mas já nos planos divinos estava escolhida; foste tu. O mal aumentou, a onda dos crimes atingiu o seu auge, tinha que ser a vítima imolada; vieste, foi o mundo a crucificar-te. Agora partes para o Céu e a cruz fica até ao fim do mundo como ficou também a Minha. Foi a maldade humana a preparar-Me a Minha, e a mesma maldade preparou a tua. Oh! como são grandes os desígnios do Senhor! Como são grandes e admiráveis, que encantos eles têm! Poderia Eu na Minha sabedoria infinita assemelhar-te mais a Mim? Desta cruz, desta imolação tirei dois proveitos: o amor à cruz, o amor à minha imagem crucificada e a grande reparação. Não é só a Minha Alexandrina a ser na cruz crucificada, mas Cristo nela e com ela. É necessário maior prova? Estudem os sábios, estudem aqueles, não a quem dei a luz, mas a quem a vou dar. Alguns a quem a dei e a não aceitaram, não voltam a recebê-la. Partes para o Céu, Minha filha, mas por ti continua a obra da salvação. Acode às almas, acode às almas. Fica por um pouco a gozar a Minha paz para dela tomares conforto para a luta. No meio das tuas trevas, recorda estes momentos, lembra-te que sou Eu, confia em Mim.
Jesus ficou em silêncio e eu a nadar em paz e gozo; não tinha dúvidas que era Jesus. Uns momentos depois Jesus interrompeu o silêncio, e com o tubo doirado, ligado ao Seu divino Coração, introduziu-o no meu.
― Vais receber a gotinha do Meu Sangue divino e juntamente o meu divino amor com toda a abundância.
Pelo centro do Coração divino de Jesus saíam labaredas altíssimas; senti-me a arder e a queimar nelas; tudo em mim era fogo. Jesus com carícias e o bafejar dos Seus lábios divinos, desligou o tubo, retirou o Coração, apagou as chamas.
― Vai, filhinha, vai esposa Minha, não temas a cruz; comigo vences. Dá-Me dor, dá-Me dor, dá-Me amor, dá-Me amor. Vai para a cruz, vai salvar as almas, condu-las a Mim. Vai semear, leva o Meu divino amor. Vai, diz tudo, oferece-Me o sacrifício. Coragem, coragem.
― Obrigada, meu Jesus. Por não ter querer, tudo faço pelo Vosso divino amor; dai-me força, dai-me luz.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 5 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira)

domingo, outubro 30, 2011

VI JESUS PREGADO NA CRUZ

Pobre coração, penetrado de espinhos tão penetrantes!

Nem vida para viver, nem coração para amar.
Não vivo, não vivo, não; de mim, do meu pobre corpo ficou a dor, a dor que me tritura, a dor que, dia e noite, me consome; consome-me, e não é no meu corpo que ela vive; sim, não é em mim que ela existe, ela trespassa em todo o meu ser, como vento que em todo o lugar penetra. Onde estou eu? Onde é que eu vivo? Ó Jesus, ó Jesus, eu sou como uma aragem, que passa nos ares, nos ares vive e em todo o lugar existe, tudo observa, vê penetra. Sou eu e não sou, vivo eu e não vivo, penetro tudo e nada sei. Mas, ó meu Deus, se eu não vivo nem tenho coração para amar, como posso ter ânsias de amor, mas de um amor que se perde e enlouquece, e sentir que um coração dentro de mim é tão mal tratado, tão ofendido e calcado aos pés; é todo um mundo contra ele. Pobre coração, penetrado de espinhos tão penetrantes! Se eu pudesse mostrar, se pudesse copiar todos os ferimentos deste coração para ver se conseguia evitá-los, para, em vez de sofrimentos e ingratidões, fazê-lo receber consolação e amor! Ai de mim, meu Deus; eu pertenço ao número destes ingratos e para vergonha e confusão minha sou a pior de todas, sou a que mais mal trato este terno e doce coração. Meu Deus, como os dias passam e a vida foge e eu sem nada para Vos dar, pobre de tudo, sem amor e pureza para me apresentar diante de Vós. Valei-me, valei-me meu Jesus; ouvi o meu brado aflitivo e contínuo. Vede que o meu espírito anda como a abelhinha de flor em flor à procura de néctar que a satisfaça. Ele voa, voa, poisa aqui, poisa ali, e, mais das vezes, não tem onde poisar, não encontra satisfação, não encontra onde possa descansar. Estou cansada, meu Jesus, de Vos procurar sem Vos encontrar; parece que errei o caminho. Morro sem Vos ver, sem Vos possuir. Vinde socorrer-me; apressai-Vos, eu Jesus. Oh! que desalento e trevas as minhas! Tenho medo, tenho medo! Eu quero luz, meu Jesus; dai-me alguém que me ilumine, dai-me quem me ajude a formar o meu voo para o Céu, para Vós, só para Vós. O mundo, oh como eu aborreço o mundo com o que é dele; aborreço-o e dele tenho compaixão; aborreço as suas maldades, mas amo-o a ele; abracei-o e quero-o todo dentro do Coração do divino Jesus.
Ontem, logo de manhã, vi Jesus pregado na cruz e pregado na cruz do meu corpo; gravou-se em mim. Como fiquei a senti-Lo tanto ao vivo! Como na cruz, Ele inclinou para o meu peito a Sua Santíssima Cabeça; senti todo o Seu Santíssimo Corpo gelar e expirar.
Esta visão com o sentimento preparou-me um Horto dolorosíssimo; tinha-o sempre diante de mim, sentia a dor angustiosa de Jesus. A minha alma via-O caminhar para um lado e para o outro, a olhar o mundo, a chorar; na sua angústia levantava os olhos para o Céu e o Seu divino rosto cobria-se de suor. Eu tinha o rosto de Jesus e o Seu suor no meu coração e na minha alma. Estive bem unida aos sofrimentos do meu Jesus. Passei pelas cerimónias da ceia, o adeus à Mãezinha e por fim o Horto real com todas as cenas; o suor de sangue, a prisão.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 3 de Outubro de 1947 - Sexta-feira)

UM ANIVERSÁRIO...

Nunca pensei que a crucifixão fosse desta forma

Eu morri com Ele e, à Sua voz divina, voltei a viver.
― Minha filha, Minha filha, vem ao teu Jesus que te ama, que te quer e tu és Dele; vem ao teu Jesus que quer confortar-te; e tu necessitas do Seu conforto. Tem coragem. Tu aumentimtaste no amor ao Meu divino Coração, à medida que em ti aumentou a dor. Amas-Me e amas as almas. É pelo Calvário, é pela cruz que elas são salvas. Coloquei-te no Calvário, dei-te um Calvário e com ele a cruz que abraçaste. Confia em Mim. Ai do mundo sem o sofrimento destes dolorosos anos! Eu pedi o teu corpo para crucificar e tu aceitaste, entregaste-Mo; não querias que te crucificasse e se cumprissem as Minhas divinas palavras?
― Ó meu Jesus, eu queria e quero tudo, mas eu nunca pensei que a crucifixão fosse desta forma; eu pensava ser só as dores que sentia em todo o meu corpo.
― Sorri e consolei-me na inocência do teu pensar. Era preciso, Minha filha, que houvesse alguém que se deixasse crucificar com esta crucifixão tão real. Nesta como em nenhuma outra, eu provo quanto sofri; tantos, tantos sofrimentos até agora desconhecidos. Escolhi-te, esposa amada, para por ti serem mostrados ao mundo. Ai dele, se por ele não te deixavas imolar. Ai dele, ai das almas, ai de Portugal, sem este Calvário vitorioso, sem esta cruz de salvação. Descansa em Mim, Minha filha, de mim recebe todo o amor, toda a luz, todo o conforto. Por ser hoje o aniversário, em que, pela primeira vez, por Mim te deixaste crucificar, faço-te gozar do Meu amor e veres com toda a luz divina para bem compreenderes e te convenceres que não te enganas, que estás na verdade, que fui Eu e só Eu que te crucifiquei. Goza, hoje, de tudo isto, porque os outros colóquios serão dolorosos, voltarás às trevas.
Senti-me como se caísse no regaço de Jesus e nele adormecesse com o meu rosto inclinado sobre o Seu rosto divino. Passara-se uns momentos, e eu despertei a ser bafejada por Jesus, a nadar em amor, toda embebida em luz. Toda a treva, todo o sofrimento de alma e corpo tinha desaparecido. Não tinha dúvidas, era na verdade Jesus o Autor de toda a minha vida. Que gozo, que felicidade.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 3 de Outubro de 1947 - Sexta-feira)

terça-feira, agosto 02, 2011

ATÉ NO CÉU ERA NOITE - Parte II

Minha filha, escola das maravilhas

O dia da Ascensão de Jesus ao Céu foi para mim cheio de noite escura; foi uma morte total de todas as coisas. Até no Céu era noite e reinava a morte. Não pude ansiar pela minha Pátria, nem recordar o que se passava lá. Caminhei para o Horto sempre arrastada pela maldade. O meu coração tornou-se uma bola, um entretenimento dos homens; em tão curta viagem, recebeu todos os maus-tratos. Os caminhos eram ladrilhados de agudos e variados espinhos para o ferirem. Vi ao lado, em visão bem clara, o Calvário, e, no cimo, a cruz. A cruz era a minha, não digo bem, era a de Jesus. Quando assim falo, é dele e só dele, porque é Ele a sofrer em mim, eu só O acompanho. Senti que Ele se queria refugiar, e para uma gruta me refugiei com Ele. O que ali sofreu Jesus! O sangue que Ele soou! O sangue que caiu do Seu Divino Coração duramente espremido, enquanto o cálice da amargura, transbordou fora. Ofereceu-o ao Pai; Este mandou o Anjo, a confortá-Lo. Ela desceu e colocou-se, ao lado de Jesus, como para O levantar. O Calvário com a cruz não desapareceu. O mundo com a sua maldade continuou a agravar os Seus sofrimentos. Depois, o beijo de Jesus e nada mais. Hoje, de manhãzinha, entrei nas ruas do Calvário. Quase no princípio, caiu Jesus, pela primeira vez; caiu sobre a cruz, feriu gravemente o Seu santíssimo rosto e peito. Desfalecida, oprimida por tão grande peso, segui com Ele o caminho do calvário. Caiu, segunda vez, e eu caí também. Senti e ouvi os estalos das pancadas que despedaçavam o Seu santíssimo corpo. Cheguei ao cimo, vi a esponja, que de nada valia para a sede, em que ardia Jesus. No alto da cruz, de todas as feridas dos espinhos saíam raios doirados; formavam um só brilhante. Estes raios, este sol resplendoroso enchiam a terra, mas este levantou sobre eles negras muralhas, para deles se esconder; rejeitou-os. Daqui nasceu o brado e a agonia contínua de Jesus. Sofri com Ele até ao último momento, até que agonizei e deixei o coração mais duro que a dura pedra. Veio, pouco depois Jesus; transformou-o de dureza para luz e bondade.
― Minha filha, escola das maravilhas, de todas as maravilhas de Jesus, rainha do mundo o qual eu quero e é urgente que a esta escola venha todo aprender. És escola de maravilhas, porque em ti há do mais alto e sublime; em ti há tudo o que é do Céu, tudo o que é de Deus. És rainha do mundo, porque to entreguei e confiei para o salvares. Quero que em ti aprenda; e quanto tem que aprender! Em ti aprende a amar, a sofrer, a cumprir em tudo a lei do Senhor; em ti pode admirar as maravilhas, que o mesmo Senhor em ti depositou. Não foi para ti, Minha esposa querida, que assim te fez rica e poderosa; foi para as almas, foi para as almas, foi para as salvar.
― Ó meu Jesus, ó meu Jesus, como eu sou pequenina, como me sinto humilhada, queria desaparecer de diante de Vós. A minha humilhação não é por ouvir-Vos falar assim, porque falei das Vossas coisas, mas sim por me teres escolhido para depositária das Vossas graças, preferindo-me a tantas criaturas. Que vergonha, meu Jesus!
*****
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 16 de Maio de 1947 - Sexta-feira)

segunda-feira, julho 25, 2011

VAI CONVIDAR AS ALMAS A VIREM A MIM

― Perdoai, meu Jesus, perdoai, perdoai já, perdoai sempre!

[Jesus disse]:
— Pobre mundo, vai ser carbonizado; ficará mirrado com o fogo da justiça divina.
Levantei as mãos, cheia de terror, e disse:
― Perdoai, meu Jesus, perdoai, perdoai já, perdoai sempre! Como hei-de acudir ao mundo? Bem me parecem a mim que de nada valem os meus sofrimentos.
― Coragem, Minha filha, coragem, amada Minha; sofre com alegria. A tua imolação continua se o mundo não quiser que seja de remédio para os seus corpos é-o sempre para as suas almas. Pede-lhe, pede-lhe que se converta, que venha a Mim. Dás-me mais lutas, mais ataques com o demónio?
― Dou, meu Jesus, mas sabeis bem que é o que mais me custa. Que medo de Vos ofender!
― É por te custar que, Minha filha, que mais reparação Me dás. Não temas, confia em Mim; não deixo que Me ofendas. Os dois primeiros combates que te pedi foram pelos esposos pais de família. Com que gravidade Me ofendem; o último foi por toda a humanidade. Foi por isso que te envolveste com o inferno. O mundo! o pecado! Vítima a lutar com o inferno. Eras tu, Minha pomba amada, a livrares de lá as almas. Coragem! Vem receber vida para combateres. Recebe uma gota do Meu Divino Sangue; é a tua vida, é a força do teu sofrer.
Jesus com o Seu Divino Coração a arder em labaredas uniu-O ao meu, deixou cair a gota do Seu Sangue divino. O fogo ateou-se; o meu principiou a dilatar-se. Jesus passou logo as Suas Santíssimas mãos sobre o meu peito, acariciou-me e disse:
― Toma, Minha filha, a tua cruz; vai convidar as almas a virem a Mim, vai levar-lhes esta vida. E como prova do valor dos teus sofrimentos e de que és a salvação delas, a cada acto de amor, a cada vez que Me disseres: Jesus, eu amo-Vos, serei amado por mais uma alma. E sempre que abraçada ao crucifixo disseres: Jesus, sou a Vossa vítima mais um pecador será salvo, esquecerei as suas ofensas. Prometo-te, confia, sou O teu Jesus. Diz-Me isto muitas vezes. Vai com coragem! No Céu continuas a mesma missão; ele está perto. Vai com alegria; vai, filha do amor, vai, louquinha do amor, vai chamar a Mim as almas.
― Obrigada, meu Jesus; obrigada, meu Amor, eu vou; vinde Vós comigo. Ao o Céu, meu Jesus, que nunca chega. Faça-se a Vossa vontade divina. Sou a Vossa vítima, vítima até dos meus desejos. Farei, Jesus, que eu morra para mim e para todos, viva só para Voa e para as almas.


(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 18 de Abril de 1947 - Sexta-feira)

sábado, julho 02, 2011

SEM DOR NÃO HÁ VÍTIMA

Não quero pecar, não quero pecar, sou a Vossa vítima !

Tenho ânsias, tenho ânsias de me purificar, cada vez mais, e nada consigo! Que hei-de eu fazer, meu Jesus? Causa-me horror ver a minha miséria, porque é só o que eu vejo. Avanço, avanço, e, momento a momento, mais me enrolo, mais me mergulho na cegueira, que me aterra, na cegueira que nunca foi luz nem nunca a luz conheceu. Assusto-me, vejo, sinto que esta cegueira é morte e que nunca poderá ver. Neste temor, fito o Coração divino de Jesus, invoco o Seu Santo Nome, e, por vezes sinto-me como se fosse transportada às nuvens; deixo a terra, mas não chego ao Céu. Nesta viagem às alturas, respiro, sinto-me confortada, fortalecida com uns ares mais puros, com aquela vida que não é o Céu, mas também não é a terra; não é gozo, mas é força, não é a verdadeira vida, mas também não é morte. Baixo novamente à mesma cegueira, só à vista da minha miséria, mas então com mais coragem para abraçar a minha cruz, a pisar os espinhos que tão agudamente me ferem, ansiosa e como que enlouquecida para consolar Jesus, dar-lhe as almas, purificar-me de todos os meus defeitos, ser pura para só viver a vida de Jesus, ser pura e Nele me esconder para sempre, sofrer escondida Nele, amá-Lo sempre Nele escondida, fugir ao mundo, desaparecer dele, desaparecer por completo. Não consigo os meus desejos, não sou pura, nada sofro, nada faço de bom, tudo se apaga sem aparecer.

Ai, meu Jesus, vinde em meu auxílio; estou sozinha sem ninguém, meu Jesus, sem ninguém. Foge-me o Céu, estou como se me fugissem todos os amigos da terra. E o demónio a atormentar-me tão fortemente. Tenho estado sobre o inferno, não sei o que me livrou de cair nele, nada vi que me segurasse, só me faltou mergulhar-me nos seus horrores, nas suas penas. Esta visão foi essa luta com o maldito. Tive mais três ataques. Nos dois primeiros, senti passar sobre mim as labaredas do inferno, ouvia uivos, ranger de dentes e um demónio muito feio de boca aberta com um grande pedaço da língua de fora, língua em brasa, e estendia ao longe grandes chamas; causava pavor.

Já lá vão alguns dias e por vezes sinto no coração como se de novo voltasse a ver toda aquela cena. Convidava-me ao mal e fiquei com grande temor de ter pecado. Nem posso lembrar-me das suas malícias. Que horror! Como se ofende Nosso Senhor! Posso tão pouco invocar o nome de Jesus e da Mãezinha! Penso que é o maldito que não me deixa. Não posso sem me oferecer como vítima e é só para reparar que tais sofrimentos aceito.

No último ataque, ele principiou, de longe, a preparar-me para o mal com coisas pequenas, mas cheias de maldades. Foi indo, foi indo, incendiou-se o fogo, envolveu-se a terra com o inferno; eu era o mundo, era o inferno. Ó meu Deus, que pavor! Voltei a repetir a Jesus: se hei-de ofender-Vos, prefiro o inferno; não quero pecar, não quero pecar, sou a Vossa vítima. Jesus, Mãezinha, ai, quanto me custa isto!

Ao cair da tarde de ontem, senti como se no meu coração estivesse gravado Jesus e a Mãezinha, numa tristeza e amargura tão profunda, que causava dó. Jesus beijou e aquele beijo foi de despedida; e deixou no Coração da Mãezinha raios de fogo; foram fios, foram prisões de amor que os deixaram para sempre unidos. Jesus foi para o Horto e ficou com a Mãezinha. A Mãezinha ficou e foi com Jesus. Eu no Horto senti como se em meu corpo nem uma só veia ficasse por abrir. Os Apóstolos dormiam; Judas aproximava-se. À voz de Jesus vieram sobressaltados. Judas deu o seu beijo traidor e todos caíram por terra; a terra foi o meu coração. Feriram-me as armas e os paus. Vi Jesus que em Suas Santíssimas mãos tomou. Ao ver isto, fugiu S. Pedro por entre a multidão; foi à frente de Jesus; não viu os maus-tratos que Lhe deram. Mas via a Mãezinha; velava ao longe. Eu sentia que o Seu Santíssimo Coração adivinhava tudo. Quanto Ela sofria e quanto sofria eu também com os sofrimentos de Jesus e os dela!

Na manhã de hoje, caminhei oprimida pela violência da dor; ia como que encerrada num mundo do sofrimentos. Caminhei sem luz, mas cheguei ao Calvário e lá com mais sensibilidade fui cravada na cruz; e então em todo o meu corpo estava Jesus; eu era apenas uma casca frágil que O encobria. Sentia todas as Suas chagas e feridas, os espinhos da Sua Sacrossanta Cabeça, o palpitar do Coração, lágrimas e gotas de sangue, tudo em mim era Jesus. Quando estava a ser cravada na cruz, ainda senti o meu rosto a ser nojosamente escarrado. A frágil casca do meu corpo não impedia os sofrimentos e maus-tratos de Jesus. Fiquei no mesmo brado e agonia com Ele. Quando Jesus expirou, eu senti que o espírito divino voou de verdade ao Pai, e eu fiquei morta. Pouco depois Ele voltou e disse-me:

— Minha filha, o Jardineiro da tua alma está em teu coração; cuido, cultivo as flores que adornam a minha alma. Como são belas! A água que as rega é a água da pureza, água de graça e amor. Confia; o teu Jardineiro é Jesus; habito em teu coração; repara como eu cuido delas. Tu és a pastorinha de Jesus, a pastorinha das almas; apascenta-las no jardim formoso da tua alma.

Vi então Jesus feito Jardineiro, no seio de belas flores, de regador na mão a regá-las cuidadosamente; via cair a água com abundância.

— Cuidai, cuidai, meu Jesus, cuidai delas e cuidai de mim; eu sou miséria e nada posso sem vós. Permiti que com a Vossa graça, no jardim do Vosso divino amor, eu posso mergulhar em almas; sustentai-as com o que é Vosso.

— Coragem, coragem, Minha filha; sem dor não há vítima, sem dor não há amor, sem dor não há vida. Tu és a vida de Jesus, és a vida das almas. Se todas as vítimas sofrem, como não hás-de sofrer tu.

Minha filha, que és a maior vítima da humanidade. Dá-Me dor, acode ao mundo, vem sobre ele a justiça de Meu Pai e vem depressa. Não há justos na terra, não há almas que Me amem, a ponto de repararem todas e tão graves ofensas. Pobre mundo, vai ser carbonizado; ficará mirrado com o fogo da justiça divina.

Levantei as mãos, cheia de terror, e disse:

— Perdoai, meu Jesus, perdoai, perdoai já, perdoai sempre! Como hei-de acudir ao mundo? Bem me parecem a mim que de nada valerem os meus sofrimentos.

— Coragem, Minha filha, coragem, amada Minha; sofre com alegria. A tua imolação continua se o mundo não quiser que seja de remédio para os seus corpos é-o sempre para as suas almas. Pede-lhe, pede-lhe que se converta, que venha a Mim. Dás-me mais lutas, mais ataques com o demónio?

— Dou, meu Jesus, mas sabeis bem que é o que mais me custa. Que medo de Vos ofender!

— É por te custar que, Minha filha, que mais reparação Me dás. Não temas, confia em Mim; não deixo que Me ofendas. Os dois primeiros combates que te pedi foram pelos esposos pais de família. Com que gravidade Me ofendem; o último foi por toda a humanidade. Foi por isso que te envolveste com o inferno. O mundo! o pecado!  Vítima a lutar com o inferno. Eras tu, Minha pomba amada, a livrares de lá as almas. Coragem! Vem receber vida para combateres. Recebe uma gota do Meu Divino Sangue; é a tua vida, é a força do teu sofrer.

Jesus com o Seu Divino Coração a arder em labaredas uniu-O ao meu, deixou cair a gota do Seu Sangue divino. O fogo ateou-se; o meu principiou a dilatar-se. Jesus passou logo as Suas Santíssimas mãos sobre o meu peito, acariciou-me e disse:

— Toma, Minha filha, a tua cruz; vai convidar as almas a virem a Mim, vai levar-lhes esta vida. E como prova do valor dos teus sofrimentos e de que és a salvação delas, a cada acto de amor, a cada vez que Me disseres: Jesus, eu amo-Vos, serei amado por mais uma alma. E sempre que abraçada ao crucifixo disseres: Jesus, sou a Vossa vítima mais um pecador será salvo, esquecerei as suas ofensas. Prometo-te, confia, sou O teu Jesus. Diz-Me isto muitas vezes. Vai com coragem! No Céu continuas a mesma missão; ele está perto. Vai com alegria; vai, filha do amor, vai, louquinha do amor, vai chamar a Mim as almas.

— Obrigada, meu Jesus; obrigada, meu Amor, eu vou; vinde Vós comigo. Ai o Céu, meu Jesus, que nunca chega. Faça-se a Vossa vontade divina. Sou a Vossa vítima, vítima até dos meus desejos. Farei, Jesus, que eu morra para mim e para todos, viva só para Vós e para as almas.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 18 de Abril de 1947 – Sexta-feira)