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sexta-feira, junho 18, 2021

CREIO, JESUS, CREIO

O meu pão de cada dia


Estou no meu martírio a redobrá-lo ainda mais por ter de falar de mim, ou melhor, da minha dor. Custa-me imenso. Não queria dizer nada. Tenho vergonha, escandalizo-me a mim mesma. Não escandalizarei mais alguém? Sempre a falar da dor, deste sofrimento inexplicável! Mas como modificá-lo, se outra coisa não tenho?! O meu sofrimento é tão grande, tão grande, tão infinito!... Só Jesus o conhece, só Ele o pode vencer. Eu sei que não sou eu.

O dia da festa da Santíssima Trindade e da Mãezinha no Sameiro foi para mim uma agonia mortal. Tinha morrido, se Jesus não fizesse a graça de me conservar a vida. O meu Paizinho espiritual estava na minha mente ligado com a Mãezinha do Céu. Era uma festa em que não devíamos nem podíamos estar separados. Daqui nasciam as mais dolorosas e tristes recordações. Deus e o homem! Como este veio ao contrário dos desígnios do Senhor! Na terra nunca, nunca poderei dizer o que sofri e sofro. Só à luz da eternidade haverá tal visão. Com tão variadas e tristes recordações, com tão tremenda e dolorosa agonia fixei no Céu os olhos da minha alma. Não podia movê-los. Tinham que estar sempre firmes para não cair no desespero.

Estou a passar a data da minha estadia na Foz, 11 anos; martírio sobre martírio. Quanto mais dor e humilhação, mais ódio e incompreensão. Por tudo o Senhor seja bendito!

O meu pão de cada dia, o meu pavor são as almas que se abeiram de mim. Causa-me pavor, e o coração não pode separar-se delas. Por elas quero dar o sangue e a vida. Quero-as todas para Jesus, com todos os corações numa só chama de amor. Não posso falar das almas nem desta ânsias. Não resisto. Estou sempre à espera das consolações e alegrias.

— Senhor, quem poderá dar-mas?! Que angústia, que angústia!

O meu túmulo, a minha escavação, a minha inutilidade e eternidade não param. Tenho que viver tudo isto, mesmo sem vida. Tenho que sentir toda a dor e sempre estar de mãos vazias. Nesta manhã, depois de receber o meu Jesus, foi tão dolorosa a minha morte e inutilidade, um abismo se abriu a engolir tudo. Repeti tanto o meu “creio” a Jesus…

— Meu Senhor, parece-me mentir-Vos a Vós e mentir-me a mim mesma. Dai-me coragem para que eu repita o meu “creio” sem crer, sem acreditar e Vos diga que Vos amo, sem ter vida, sem viver para Vós, sem sentir o Vosso amor.

Apunhalava-me a mim mesma. Fazia-o com toda a crueldade. Subi para o Calvário, sempre num desprezo e ódio infernal contra ele. Estendi-me no mundo. Nele bebi todo o veneno. Em seguida, apertei o coração, enleei nele grossas e negras cadeias para que nenhum veneno saísse dele. Fiz o mesmo à língua para a não deixar mover, nem deitar fora o veneno apanhado.

— Creio, Jesus, creio! (Alexandrina Maria da Costa: S. 18 de Junho de 1954).

quarta-feira, junho 09, 2021

OUVIA UMAS HARMONIAS SUAVES

Aparição de Maria


Em alguns dias precedentes eu ouvia umas harmonias muito suaves, como toques de acordes de instrumentos celestes, executando música angélica; e apreciando a doçura dessa música divina, eu esquecia-me do mundo e da vida terrena, perdia a noção de mim própria e parece que passava a viver numa região estranha onde tudo é ventura inefável.

Foi então que no dia 9 de Junho de 1942, pelas 13 horas, me apareceu sobre a cama descendo do Céu a figura deslumbrante da Mãezinha que parece se fixou em minha frente um pouco para a minha esquerda. Vestia ricos vestidos brilhantes, de cores variadas, trazia os pés nus, chegou-se a mim para me acariciar e com sua mão direita apontou para o Céu. Parecia comovida com o meu sofrimento a prometer-me a recompensa e a inspirar-me confiança. O trono em que veio era brilhantíssimo como ouro pálido em que o sol projectava os seus mais brilhantes raios. Foi inefável a consolação que me deixou a primeira aparição. (Alexandrina Maria da Costa: 09-06-1942)

domingo, junho 06, 2021

O MUNDO QUE EU SOU

Este mundo não quer Jesus


Por vezes, a minha alma vê Jesus, feito enfermeiro, a querer entrar a este mundo, que sou eu mesma. Rodeia, rodeia uma e outra vez este monstro mundial, para curar-lhe as chagas de entro e de fora. Jesus anda cheio de amor e doçura, mas não tem estrada. Esta rocha dura não quer ouvir o Seu convite de ternura, não quer deixar-se curar. Que pena eu tenho não consentir que Jesus seja o meu enfermeiro! Ele quer acariciar-me, e eu não deixo, revolto-me contra Ele, obrigo-O a afastar-se de mim. Apesar de ser eu que O não quero, nem quero a Suas bondades, ternuras e carinhos, a alma chora por não O querer, por não lhe dar entrada, por não O amar. Que pena eu tenho de Jesus! Sofro ao mesmo tempo com Ele. Sou o mundo e sou Jesus; peco e quero pecar; amo e quero amar; e este amor é louco, não tem limites, ama e não olha a quem; o que quer é ser aceite. Se este amor fosse eu, e minhas não fossem as maldades! Mas ai pobre de mim! O amor é de Jesus, as maldades são minhas. Abracei-me à minha cegueira com tal afecto, com tal amor, que não mais a largarei; ela só me causa sofrimento, só me mostra que sou lodo e lama, mas eu quero e neste estreito abraço mais me vou mergulhando nela. O que é bom, o que é de Jesus, não aparece nas minhas medonhas trevas. Mas o que posso eu esperar, o que posso eu ver, se nada há em mim de bom, nada tenho de encantador que a mim pertença. Sou miséria, só miséria; ó Jesus, compadecei-Vos de mim! Tenho recebido, nestes dias algumas, algumas graças, alguns mimos do Céu, que eu não mereço. Agradeço-as a Jesus e à querida Mãezinha, mas este meu agradecimento não chega. (Alexandrina Maria da Costa: S. 6 de Junho de 1947).

sábado, junho 05, 2021

DIZ AO TEU PAIZINHO, DIZ AO TEU MÉDICO

Serão para eles as primeiras bênçãos


— Diz ao teu Paizinho que Jesus te escolheu; diz ao teu médico que Jesus te confiou, diz à tua irmãzinha que te acompanha nas tuas dores, diz a todos que te ajudam a subir o doloroso calvário, que serão para eles as primeiras bênçãos, as primeiras graças, tudo o que é do Céu. Diz ao teu Paizinho que já cá na terra tem um trono em meu divino Coração. Diz-lhe que Jesus e Maria o amam loucamente. Diz-lhe que já que nesta luta mais não pode, te acompanhe sempre, sempre com orações, sempre, sempre com aquela união de almas com que Eu vos uni. Diz ao teu médico que seja forte com a força do meu divino Coração. Que te acompanhe sempre, sempre, que te ajude a levar a cruz. Que conte sempre com as graças e bênçãos do Senhor para ele e todos os seus; todos eles terão a perseverança final. Acaricia-te Jesus, acaricia-te a Mãezinha: são ternuras, doçuras, amor do Céu.

Toma conforto, ó minha filhinha, esposa do meu Jesus, salvação de todos os filhos meus. Oh! como és amada de toda a corte celeste!

Estas últimas palavras foram da Mãezinha. (Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma; 5 de Junho de 1943).

Na imagem:
A beata Alexandrina, o Pe. Mariano Pinho e o Dr. Augusto de Azevedo

sexta-feira, junho 04, 2021

SOL BRILHANTE, SOL ESPLENDOROSO

Será aquele que se vai reflectir no mundo


― Sol brilhante, sol esplendoroso será aquele que se vai reflectir no mundo. Os homens não querem deixar reflectir seu brilho. Ai deles, pobres daqueles que se opõem à frente dos caminhos do Senhor! Jesus todo se consola e alegra nas almas suas amadas. Jesus todo se delicia no arminho das almas puras. Os raios do amor divino formam sobre elas uma auréola brilhante e encantadora que atrai a si o mundo e os corações. Os que se dizem amigos de Jesus não conhecem as almas suas esposas. Jesus está descontentíssimo com a maior parte dos seus discípulos: não têm luz, não a procuram, não sabem, não procuram saber. Lançam-se como Satanás a deitarem por terra as obras do Senhor. Desviam de si as bênçãos divinas e toda a protecção da Virgem Maria. A Mãezinha celeste está preparada para vir buscar a sua filhinha para junto de si. O prémio é brilhantíssimo. A dor do Paizinho da louquinha de Jesus tem dado toda a glória e triunfo ao Céu. Pobres daqueles que assim o têm feito sofrer. Jesus nada deixa sem recompensa. Jesus dá toda a graça e amor ao médico da alma e ao médico do corpo da louquinha da Eucaristia. Jesus será todo e tudo para eles. (Alexandrina Maria da Costa: S. 4 de Julho de 1942)

EU SOU O TEU JESUS

Vem para mim, tem coragem!


Assim caminhei hoje para o cimo da montanha, abrindo-se a terra em fendas. Aqui me engolia, acolá me dava para voltar a ser engolida.

Creio, meu Deus, creio. À minha agonia e morte veio Jesus buscar-me. Chamou por mim.

— Vem, minha filha, dá-Me a tua mão.

Abrindo um curral, mas este curral era Jesus, sempre levando-me pela mão, fez que eu entrasse e disse-me:

— Vem para mim, tem coragem! Eu sou o teu Jesus.

Eu, sempre sustentada pelas mãos do Senhor, à entrada do curral, que me parecia ser Ele. Principiaram a entrar ovelhas nutridas, umas atrás das outras; todas tinham um lugar e nunca mais deixavam de entrar.

— Vês, minha filha, estas ovelhinhas são as almas que os teus sofrimentos a Mim conduzem.

Não sei dizer como fiquei, fora de mim. Se assim é, Jesus, como creio, eu quero ficar na terra e nela sofrer até ao fim do mundo.

— Não, minha filha, o teu Céu está perto, mas lá a tua missão continua e as almas, essas ovelhinhas nutridas, continuam a salvar-se como se sofresses. Estende-me as tuas mãos.

Estendi-as. Jesus colocou-me nelas um vaso. Este vaso estava cheio duma semente que não conheci. Para cima do vaso sobressaía como que uma pinha. De cada biquinho da pinha saía uma chama e todas reunidas faziam uma só chama.

— Semeia, minha filha, na terra esta semente. É a minha semente. Enriquece com ela as almas. Incendeia nos corações este amor. É o meu amor. Sofre, sofre, acode ao mundo.

Desapareceu Jesus, desapareceu o vaso. Fiquei sozinha entre as trevas.

— Creio, Jesus, creio e que o meu “creio” seja eterno, em acção de graças por sempre em Vós confiar e confiada de nunca deixar de crer.

À minha frente estava uma montanha. Não tentei subi-la. Chegava ao Céu. Não podia passar além. Sozinha, cheia de pavor, bradava:

— Jesus, onde estais? Vinde em meu socorro.

Ele saiu-me por entre a rocha a trabalhar; martelava, cinzelava. Era um bom artista. Pegou-me pela mão. (Alexandrina Maria da Costa: S. 4 de Junho de 1954)

EM VÓS CONFIO

Minha é a miséria e inutilidade


Vivo a eternidade que não principiei e que nunca acabarei. Eternidade, eternidade, como tu me fazes sofrer! Tu não principiaste nem acabarás para mim. Eu vivo-te, odeio-te e contra ti me revolto e contra Deus. Ó eternidade, ó vida que me fizeste perder o meu Deus, o meu Jesus, a minha querida Mãezinha! Não posso consentir em tal perda. Não posso sentir nem recordar que foi por toda a eternidade que perdi estes tão queridos Amores! Que saudades dos primeiros sábados, do meu colóquio com a Mãezinha! E tudo o mais, meu Deus, tudo o mais! Que tormento para a minha alma! Quero afirmar-me, quero agarrar-me ao Céu e não tenho nada a que possa segurar-me. Que abandono, que tormento! Perder todas as coisas divinas depois de ter perdido as humanas. Perder todo o conforto e apoio do Céu, depois de ter perdido todo o conforto e auxílio da terra. Lá vou indo na minha cavação tão profunda, tão profunda que apavora. São tão raras, tão raras as cavadelas. Parece-me que levam mais de um século a dar cada uma, mas cansam-me tanto, tanto a alma. Ela está sempre banhada em suores. Só o sustentar nas mãos tal instrumento fatiga-me o corpo e a alma, leva-me a maior abatimento. O corpo desfeito pela dor ressente-se com o sofrimento da alma. É para ele maior tormento. Vejo o túmulo, aquele túmulo que me escondeu, aquele túmulo que a morte exigiu e as trevas e a mesma morte continuam a exigir. À volta dele é um prado e jardim florido. Por dentro morte e trevas. Por fora verduras, lírios, açucenas que verdejam, vida que vive e faz sobreviver sempre. Nada disto é meu. Minha é a miséria e inutilidade. A inutilidade rouba-me os meus sofrimentos, os meus sacrifícios, as minhas ânsias de me dar ao Senhor e às almas. Como o livro do meu coração quer falar, expandir-se!... Como são infinitas as minhas ânsias de amar a Jesus e de O fazer amar e de Lhe entregar a humanidade inteira! A inutilidade tudo abafa e até este livro me rouba. O meu calvário, o meu horto tão cheio de agonia é por mim espezinhado e esquecido. Nada disto vivo, porque parece que nada disto foi para mim.

Ó meu Deus, ó meu Deus, em Vós confio. Creio, Jesus, creio. Valei-me com a Mãezinha. (Alexandrina Maria da Costa: S. 4 de Junho de 1954)

QUE SAUDADES DO CÉU!

Não posso viver aqui, meu Jesus!


— Não temas, minha filha, o teu Jesus. Quem o possui e ama deveras não o pode temer. Jesus quisera que todos falassem nas bondades do seu divino Coração com toda a simplicidade e amor. Jesus quisera que todos falassem nas bondades do seu divino Coração, da sua ternura, da sua compaixão, do seu perdão. Jesus é louco por todos os filhos seus. Jesus ama-os apaixonadamente e a todos quer dar os tesouros inesgotáveis do seu amável Coração. Jesus a todos quer ver à volta do seu Sacrário a amá-lo e a recebê-lo com aquele amor e carinho como as andorinhas com os seus filhinhos. Que timoratos são os que temem deveras a Jesus e todos aqueles que desconfiam das suas bondades e misericórdia! O amor e a confiança é tudo para a alma que deveras ama e pertence a Jesus!

― Ó Jesus, eu confio plenamente em Vós. Vós ides atender aos meus pedidos, ides, Senhor? E depois ides logo levar-me para o Céu, sim, meu Jesus? Que desejos e saudades eu tenho dele! Não posso viver aqui, meu Jesus! Este exílio é aterrador! (Alexandrina Maria da Costa: S. 4 de Junho de 1942)

quinta-feira, junho 03, 2021

JESUS ABRIU O SEU CORAÇÃO

Vai dar ao mundo tudo o que de Nós recebes


— Diz ao teu médico que todo o céu se alegra ao ver a sua atitude e defesa pela minha divina causa. Abro o meu divino coração para derramar o meu divino amor e a abundância das minhas graças sobre ele e todos os seus. Derramo-as sobre o seu coração de esposo, de pai e filho também. São para ele e para os que lhe são caros. Recebem-nas por ti. Diz-lhe que é unido a mim que operaremos milagres para conservar-te a vida até que se dissipem as nuvens para aparecer o sol, e brilharem as minhas graças e maravilhas. Vem, minha Mãe, confortar a nossa filhinha. Dá-lhe a tua graça, pureza e amor.

Veio a Mãezinha, tomou-me em Seus braços, estreitou-me com Jesus. Beijou-me, acariciou-me docemente.

— Minha filha – disse-me Ela – ama sempre o teu Jesus. Sofre tudo com alegria para O consolares. Vê-Lo amado sou amada também. Vê-Lo consolado é ser consolada eu também. O amor que dás a Jesus dás a mim.

— Vai, minha filha – disse Jesus – vai dar ao mundo tudo o que de Nós recebes. Dá primeiro aos que te são queridos como prova do teu coração agradecido. Dá, pomba bela, são riquezas do céu.

Jesus e a Mãezinha deixaram-me com mais força para sofrer. Confio que com Ele tudo vencerei, e que o mundo e o demónio nada poderão contra mim. (Alexandrina Maria da Costa: S. 2 de Junho de 1945)

segunda-feira, maio 31, 2021

OU SOFRER OU O CÉU

Que valor pode ter a vida, se não sofro


Termina o mês da Mãezinha. Que saudade eu tenho de ele findar! Será de verdade o meu último Maio na terra? Que pena eu tenho de não A ter amado muito assim como a Jesus! Tudo foge, tudo passa, tudo se esconde, só a minha miséria aparece para a ver claramente nos mundos das minhas trevas. Abro os meus braços ao céu, quero abraçar o meu martírio e, junto a ele, Jesus e a Mãezinha. Tenho sede, e nada há que me satisfaça, nem ao menos o sofrimento. Temo-o, mas quero-o para dar a vida às almas, para consolação do meu Jesus. Ou sofrer ou o céu. Que valor pode ter a vida, se não sofro, se não amo? (Alexandrina Maria da Costa: S. 31 de Maio de 1945).

Na imagem:
A beata Alexandrina e o Padre Mariano Pinho.

MOMENTOS HÁ EM QUE NÃO POSSO RESISTIR

Terra, triste exílio que não posso suportar


Já me sinto elevada a uma certa altura da terra. Momentos há em que não posso resistir a tantas saudades do Céu. Espero ver o meu Jesus dentro em pouco com a minha querida Mãezinha e todos os meus amores por quem aspiro; porém quero que se cumpram todas as promessas de Jesus, quero que me dêem o meu Paizinho que sem eu dar motivos para isso e em momentos tão amargos mo retiraram. Parece que só isso e a determinação da consagração do mundo pelo Santo Padre me obrigam a ainda viver na terra, triste exílio que não posso suportar. (Alexandrina Maria da Costa: S. 31 de Maio de 1942)

quinta-feira, maio 27, 2021

VI UM SACRÁRIO À MINHA FRENTE

A portinha estava fechada


Foi no dito dia 27, que era sábado, e eu sem poder rezar redobrava o meu esforço por lhe estar unida na Eucaristia longe de pensar receber dele tão depressa a recompensa. Jesus, eu toda para vós e vós todo para mim. Eu quero estar sempre unida a vós em todas as prisões de amor. Que maravilha! De repente, à minha frente vi um sacrário. A portinha estava fechada, mas por todas as frestazinhas da porta do sacrário saíam numerosos raios dourados; davam toda a luz e todos eles vinham bater e repousar no meu pobre peito. Não foi uma ilusão minha, pois nunca pensei Jesus pagar com tanta generosidade o meu grande esforço. (Alexandrina Maria da Costa: 06-06-1942).

terça-feira, maio 25, 2021

VI UMA ENORME CRUZ

À beira dela, a Mãezinha das Dores


Durante a noite, não sei a hora, o meu corpo era destruído pela dor, e a alma estava nas maiores angústias, na sepultura das minhas trevas. Não tinha ninguém por mim; tinha de lutar.

— Ó meu Deus, quem poderá resistir a tanta dor?

De repente, vi à minha frente, junto de mim, uma enorme cruz levantada. E ao pé dela, sentada, a Mãezinha das Dores. Que bela, que bela Ela era! Fitei-A sem nada Lhe dizer, não podia falar. O seu santíssimo Coração, cheio de setas, fez-me esquecer a minha dor. Não falei eu, mas falou Ela.

— Minha filha, tem coragem; esta cruz é tua. Eu estou sempre junta a ti, para te auxiliar, como junto estive à cruz do meu Jesus.

Dito isto, desapareceu rapidamente a linda visão. Tão grande madeiro não me atemorizou com a vista da Mãezinha. Serenou a tempestade do meu sofrimento, e adormeci por um pouco. Ao despertar, logo me aterrou o pensamento de ser sexta-feira. O coração abafado e oprimido pela dor cobriu-se de luto.

— Aceito, ó meu Deus, a minha cruz. (Alexandrina Maria da Costa: 25 de Maio de 1945).

segunda-feira, maio 24, 2021

COISAS ESTRANHAS

Nada podia ouvir de alegria


Desde o dia 24 de Maio [de 1942], dia do Divino Espírito Santo, em que eu pedia toda a luz e todo o fogo do seu divino Amor, do seu Amor santificador, o estado da minha alma modificou-se, mas nesse dia de tarde eu ainda dizia: Eu já não tenho vida da terra, só tenho corpo para a dor. A partir deste dia, deixei de sentir o que até ali sentia quase continuamente, que eram nojentas serpentes cheias de toda a imundice, que entravam pela boca e saíam arrancadas não sei por quem, fazendo lembrar os condenados do inferno atormentados pelos demónios. Não podia ouvir o chilrear dos passarinhos ao alvorecer e ao anoitecer do dia, apesar de me lembrar que estavam a louvar o seu Criador. Os seus gorjeios feriam muito a minha alma. Nada podia ouvir de alegria. A minha sede era abrasadora, as saudades de me alimentar não as sei exprimir e tudo isto me parecia levar ao desespero por sentir que era impossível saciar os meus desejos. Logo dizia ao meu Jesus: É por vós que sofro, e saciai vós a vossa sede de amor, a sede que tendes das almas. (Alexandrina Maria da Costa: S. 24-05-1942).

Ó MEU JESUS NÃO ME ABANDONEIS

Sinto-me abandonada de todos


O fiozinho da vida divina que estava ligado ao meu coração, apesar de sentir que o não tenho, ainda está ligado ao lugar onde ele habitava. Sinto que ele está a cada momento a querer quebrar. A fúria da horrenda tempestade dá-lhe todos os abalos. Do pequenino lugar que ocupava o meu pobre coração sai, de longe a muito longe, umas escassas gotas de sangue. Agora é que eu sinto quanto a pobre Humanidade necessita dele; toda ela sequiosamente o quer sugar. Ó meu Jesus, não abandoneis a pobrezinha que sempre em vós confiou e confia. Apesar de tudo sentir perdido por entre as trevas, é de vós que tudo espero.

O demónio quebrou todas as cadeias que o prendiam, caiu sobre mim. Luto sozinha, combato a sua raiva. Ó minha querida Mãezinha, tiram-me o meu Paizinho nestes tristes dias em que eu mais precisava dele.

Sinto-me abandonada de todos a não ser quando mo dais milagrosamente para conforto da minha alma; o que tão raras vezes acontece. Perdoai a todos os que me ferem, perdoai tanta cegueira; eles de mim estão perdoados. No lugar do meu coração já não cabem mais espadas; tenho sofrido por todos os lados, tenho recebido sofrimentos de quem menos esperava. Ó meu Jesus, para todos o vosso perdão, o vosso amor e a vossa compaixão. Purificai, santificai, abrasai no vosso divino amor e levai para junto de vós sem demora a vossa filhinha agonizante. (Alexandrina Maria da Costa: S. 24-05-1942).

O TEMPO NÃO PASSA

As horas parecem séculos


Jesus suspendeu-me a crucifixão: parece-me que me suspendeu a vida. Só Ele pode avaliar a minha tristeza e saudade. Não tenho o sofrimento da cruz; já não me sinto nela, escondeu-se-me por completo, mas tenho maior cruz ainda, são maiores os meus sofrimentos. Não posso viver no mundo. O tempo não passa, as horas parecem-me séculos, os dias e as noites eternidades. Quantas vezes levanto os meus olhos ao Céu para exclamar: Jesus, ó meu querido e saudoso Jesus! Mãezinha, ó minha querida e saudosa Mãezinha! Santíssima Trindade, ó minha querida e saudosa Trindade, para quem só quero viver, a quem me entrego, a quem só quero amar. Pobre de mim! Digo que amo e não tenho coração para amar, não tenho corpo senão para a dor, sou como uma bola de espuma que depressa se desfaz. Que trevas, meu Jesus, que securas, que amarguras, que agonias as da minha alma. (Alexandrina Maria da Costa: S. 24 de Maio de 1942)

UM MAR DE AMOR

Um mar que nunca terá fim


Esse mar infinito para onde corre a minha dor, a dor que vai ferir o meu amantíssimo Jesus vem também de encontro ao meu peito, para o meu coração: um mar infinito, um mar que nunca terá fim, nem poderá esgotar-se o seu amor. É esse amor que me atrai, é esse amor que não posso deixar de anunciar. Trabalha em mim como que um motor; este motor tem voz que se espalha, voz que ecoa no mundo inteiro, voz que junta o humano com o divino, voz que levanta a terra para o Céu. Quantas coisas sabe sentir o meu coração e a minha alma e não as sabe dizer! Que pavoroso martírio para mim! Quero abraçar o mundo, quero abraçar as almas, quero num abraço divino estreitá-las, metê-las todas no peito, no Coração de Jesus; é uma ânsia tormentosa, é uma ânsia sem limites, sem fim. (Alexandrina Maria da Costa: S. 22 de Maio de 1953)

sábado, maio 22, 2021

SINTO QUE PERDI JESUS

Quanto mais corro ao Seu encontro…


Tenho fome, tenho sede de possuir Jesus; não cessa, é devoradora. Quanto mais corro ao Seu encontro, mais sinto Ele fugir. Perdi-O, perdi-O, não O encontro no meio de tantas trevas. Infundo-me nelas cada vez mais, de olhos vendados e louca por tão grande dor ato na cabeça as minhas mãos. Não digo bem: sinto que o faço e que estou perdida no mar tempestuoso e encapelado, na noite mais negra e aterradora, mergulhada em mundos de escuridão. Sinto e ouço o zunir dos ventos, as ondas levantam-se à maior altura e baixam de novo serenamente. E eu sozinha, tão sozinha, sem ninguém! Ao sentir tempestade tão desastrosa, fito-a, escuto-a, mas com serenidade. Se morrer nela, morro por Jesus, morro pelas almas. Confio, espero, o meu corpo pode sofrer tudo, pode desaparecer destruído com o furor da tempestade, mas a alma tem o seu fim, há-de ir ao encontro de Jesus, Ele há-de recebê-la, há-de ampará-la e levá-la para Ele.

— Ó mundo, que tão ingrato tens sido para mim! E eu amo-te tanto; amo-te não pelos teus falsos encantos, mas sim porque és de Jesus. A minha dor por vezes é quase desesperadora. Oh! se não fosse Jesus e a Mãezinha! A Eles devo a minha resistência a tudo. (Alexandrina Maria da Costa: S. 22 de Maio de 1945)

sexta-feira, maio 21, 2021

MOMENTOS DE DESERTO ESPIRITUAL

Nada tenho a não ser miséria


As tristezas e amarguras da minha alma são cada vez maiores. A noite, mais tenebrosa e aterradora. A vida tornou-se pesada e difícil de viver, vida sem vida, vida morta, porque só vive a minha miséria. Sou um monstro mundial de podridão. Sinto como se nunca nascesse para Deus, nunca vivesse para coisa alguma de utilidade. Nada tenho a não ser miséria. Estou para a eternidade de mãos vazias. Horas tristes, horas difíceis de vencer. Parece-me que em vão invoco o nome do Senhor e que nada vale o meu brado por Jesus e pela querida Mãezinha.

Consolai-Vos, Jesus, nas minhas tristezas e amarguras. Não quero alegrar-me a mim, mas sim alegrar-Vos a Vós. Creio nas Vossas promessas. Creio, Jesus, creio! Que esta palavra se repita dia e noite sem cessar. É um crer sem um sentimento de fé. Creio. Creio. Sou a Vossa vítima. (Alexandrina Maria da Costa: 21 de Maio de 1954 – Sexta-feira)

quarta-feira, maio 19, 2021

AMOR À ORAÇÃO

Em Maio oferecia muitas flores à Mãezinha


– À medida que ia crescendo, ia aumentando em mim o desejo da oração. Tudo queria aprender. Ainda conservo as devoções que aprendi na minha infância, como: Lembrai-vos, ó puríssima Virgem Maria, Ó Senhora minha, ó minha Mãe, o oferecimento das obras do dia – Ofereço-Vos, ó meu Deus –, a oração ao Anjo da Guarda, oração a S. José e várias jaculatórias.

Quando ia a passeio com a patroa para o campo, acompanhada com outras meninas, fugia do convívio delas e ia colher flores que desfolhava para fazer tapetes na igreja de Nossa Senhora das Dores. Era em Maio e toda me comprazia de ver o altar da Mãezinha adornado de rosas e cravos e de respirar o perfume dessas flores. Algumas vezes, oferecia à Mãezinha muitas flores que minha mãe propositadamente me levava.

O capelão de Nossa Senhora das Dores organizou várias comissões de meninas para angariar meios para o culto da mesma capela. Essas comissões espalhavam-se pelas freguesias vizinhas da Póvoa de Varzim. Eu fui para a Aguçadoura e aceitávamos tudo o que nos dessem, como batatas, cebolas, etc. Por mais que pedíssemos, pouco arranjámos e tivemos a má ideia de saltar a um campo e tirámos batatas, cerca de dois quilogramas. Fui eu uma das que fiz tal acção, enquanto outras vigiavam. Entregámos as ofertas, não contando nada do que se tinha passado. (Alexandrina Maria da Costa: Autobiografia)