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quinta-feira, junho 10, 2021

NADA POSSUO

Eu lá vou, de queda em queda


Hei-de repetir sempre o meu “creio” com a Vossa graça, Senhor. Se eu tivesse ao menos um fiozinho de aranha a que pudesse agarrar-me! Mas nada, nada possuo, meu Deus! Mundo e mundos de inutilidade! Mundos e mundos de trevas e morte! Eu lá vou, de queda em queda, para os abismos sem fim. Quanto sofre o meu corpo, Jesus, e quanto sofre a minha alma!... (Alexandrina Maria da Costa: 10-06-1955)

sexta-feira, junho 04, 2021

EM VÓS CONFIO

Minha é a miséria e inutilidade


Vivo a eternidade que não principiei e que nunca acabarei. Eternidade, eternidade, como tu me fazes sofrer! Tu não principiaste nem acabarás para mim. Eu vivo-te, odeio-te e contra ti me revolto e contra Deus. Ó eternidade, ó vida que me fizeste perder o meu Deus, o meu Jesus, a minha querida Mãezinha! Não posso consentir em tal perda. Não posso sentir nem recordar que foi por toda a eternidade que perdi estes tão queridos Amores! Que saudades dos primeiros sábados, do meu colóquio com a Mãezinha! E tudo o mais, meu Deus, tudo o mais! Que tormento para a minha alma! Quero afirmar-me, quero agarrar-me ao Céu e não tenho nada a que possa segurar-me. Que abandono, que tormento! Perder todas as coisas divinas depois de ter perdido as humanas. Perder todo o conforto e apoio do Céu, depois de ter perdido todo o conforto e auxílio da terra. Lá vou indo na minha cavação tão profunda, tão profunda que apavora. São tão raras, tão raras as cavadelas. Parece-me que levam mais de um século a dar cada uma, mas cansam-me tanto, tanto a alma. Ela está sempre banhada em suores. Só o sustentar nas mãos tal instrumento fatiga-me o corpo e a alma, leva-me a maior abatimento. O corpo desfeito pela dor ressente-se com o sofrimento da alma. É para ele maior tormento. Vejo o túmulo, aquele túmulo que me escondeu, aquele túmulo que a morte exigiu e as trevas e a mesma morte continuam a exigir. À volta dele é um prado e jardim florido. Por dentro morte e trevas. Por fora verduras, lírios, açucenas que verdejam, vida que vive e faz sobreviver sempre. Nada disto é meu. Minha é a miséria e inutilidade. A inutilidade rouba-me os meus sofrimentos, os meus sacrifícios, as minhas ânsias de me dar ao Senhor e às almas. Como o livro do meu coração quer falar, expandir-se!... Como são infinitas as minhas ânsias de amar a Jesus e de O fazer amar e de Lhe entregar a humanidade inteira! A inutilidade tudo abafa e até este livro me rouba. O meu calvário, o meu horto tão cheio de agonia é por mim espezinhado e esquecido. Nada disto vivo, porque parece que nada disto foi para mim.

Ó meu Deus, ó meu Deus, em Vós confio. Creio, Jesus, creio. Valei-me com a Mãezinha. (Alexandrina Maria da Costa: S. 4 de Junho de 1954)

sábado, maio 22, 2021

VENHO A TI COM O MEU AMOR

Hoje fez-me sentir a Sua divina presença


— Minha filha, venho a ti com o meu amor que é a vida do teu corpo, que é a vida da tua alma. Sou teu, estou aqui, confia, sou o teu Jesus.

Hoje fez-me sentir a Sua divina presença em mim, fez dilatar fortemente o meu coração e cobriu-o das Suas ternuras e carícias. Depois disto despertei como dum sono e disse-Lhe:

— Muito obrigada. (Alexandrina Maria da Costa: S. 22 de Maio de 1945)

segunda-feira, maio 17, 2021

QUERO SALVAR O MUNDO

Tenho de sofrer e agonizar


Por vezes o fogo que sinto em meu coração parece nunca mais se apagar. E o que quero fazer? O que tenho a fazer? Nem eu sei. Quero salvar o mundo, quero ver este fogo incendiado na terra para atingir todos os corações. Parece que ando louca a bater à porta de todos a convidá-los a deixarem o pecado, a amarem só a Jesus. Tenho de ver, tenho de fazer nascer um mundo novo, um mundo puro, um mundo do céu. Tenho de sofrer e agonizar por ele, tenho de morrer nas trevas para dar luz. Oh! e como eu caminho para elas! Obriga-me o amor, só o amor. Continuam em mim os olhares que não me pertencem. Além das atracções têm tantos enleios! Que confusão a minha! E o sorriso dos meus lábios também não é meu. Parece-me um sorriso que tem braços para abraçar eternamente e bálsamo para curar todas as chagas. Não sei, não sei o que se passa em todo o meu corpo. O que está nele não me pertence. Estes enleios, ternuras, prisões, doçuras e amor nada têm que ver comigo, nada têm que atribuir a mim, este corpo não é meu, esta vida minha não é. Tudo se passa nas minhas trevas. Se eu soubesse exprimir! Se eu soubesse mostrar tudo isto para bem das almas e glória do meu Jesus, deixava de ser vítima, já não sofria. O céu não me falta, mundos e mundos vão ficando sobre mim. Eu a submergir-me cada vez mais na escuridão, abrasada em sede do amor de Jesus, em ânsias de Lhe dar almas. Não olho aos sofrimentos; caminho, caminho. Vejo tudo quanto me espera. Vou como ovelha muda que nada sabe dizer. Vejo a ingratidão, o sangue que tenho de derramar, o calvário e a morte. Sinto as almas que nele têm de ser banhadas. Fito os meus olhos no céu: venha o que vier, tenho que dar o céu ao mundo, tenho que comprá-lo com a moeda do meu sofrimento. (Alexandrina Maria da Costa: 17-05-1945)

sexta-feira, maio 14, 2021

VIVA JESUS! VIVA MARIA!

O meu coração continua como a lâmpada amortecida


Eu quisera dizer quanto a minha alma tem sofrido, mas apenas tenho experimentado, e não sei explicar. Horrorosos sofrimentos passaram por mim! Nunca pensei poder sofrer tanto. Hoje sinto-me mais aliviada um bocadinho, mais redobrada a minha confiança em Jesus e na Mãezinha, com mais forças para combater o inferno que se tem revoltado contra mim.

O meu coração continua como a lâmpada amortecida. De longe a longe vai deitando umas gotazinhas de sangue que a Humanidade ainda vem aproveitá-las. Cada uma delas parece ser a última. Sinto que ele ainda está preso à vida divina por um fiozinho comparado a um arame fininho que à mais pequenina coisa pode partir.

No meu corpo já não sinto as aves; parece-me já não existir dele nem sequer o mais pequenino bocado de cinza.

Sinto que quem me sustenta a vida do meu coração é Jesus, só Jesus, parecendo-me estar ligada à Pátria celeste por aquele fiozinho.

Viva Jesus! Viva Maria! Viva a Santíssima Trindade a quem amo tanto! (Alexandrina Maria da Costa: 14 de Maio de 1942).

segunda-feira, maio 10, 2021

NADA SEI DIZER

 O demónio tem-me atormentado tanto, tanto!


— Tirai, Jesus, tira, meu Amor, para Vós a consolação e a alegria, deixai para mim o que é dor e trevas. A vontade quer aceitar por amor; a pobre natureza fraqueja, porque mais não pode. Tende dó de mim, Jesus.

O demónio tem-me atormentado tanto, tanto! Tudo aproveita para me martirizar. Eu que tudo faço por malícia, que tudo faço para enganar; enche-me de dúvidas. Veio com um ataque tão atormentador! Eu não tinha no meu corpo o mais pequenino bocadinho que não servisse de instrumento para ofender a Jesus. Parecia-me que o maldito se utilizava de todo o meu ser para pecar comigo, para ferir o meu Jesus.

— Ó meu Deus, que mar de crimes! Ofender-Vos com todos os meus sentidos!

Lutei por muito tempo, no meio de insultos, e ele parecia-me ser o senhor do meu coração. Figurava-se-me que o via dentro dele. E ele dizia-me:

— Expulsa-me do teu coração. Não és capaz, sou senhor dele.

Depois de muito lutar e lutar às portas da morte, fiquei caída, fora das minhas almofadas. Sem poder mexer-me, invoquei muitas vezes o nome de Jesus, chamei por Ele, pedi-Lhe para me acudir, mas oh! com que vergonha e tristeza! Ouvi Ele dizer-me assim:

— Com um sopro, saído dos meus lábios divinos, vais docemente para as tuas almofadas, minha filhinha.

E vi-O então a Ele senhor do meu coração. Era Jesus Menino, já crescidinho. A cruz era maior que Ele.

— Sou eu o rei, sou eu o senhor. És minha e tudo o que é teu a mim pertence. Não pecaste, minha filha. O teu corpo não é como o demónio te faz sentir, um instrumento de pecado; todo ele é um instrumento de reparação para mim. Repara, repara, aceita, abraça a tua cruz. O teu corpo é de pureza, o teu coração é de amor.

— Confio, meu Jesus, não me falteis e não consintais que eu mova os meus lábios e nada faça que Vos desgoste.

No meio das minhas amarguras, no abismo das minhas trevas, quando já não posso mais e me parece não haver remédio para os meus males, sinto por vezes Jesus no meu coração a estreitar-me com todo o amor e a repetir-me uma e muitas vezes:

— Coragem! Eu estou contigo, não te falta o conforto do teu Jesus. És minha, eu amo-te, nada temas. Sofre contente, sofre por amor, não deixes as almas perderem-se.

Tudo isto faz-me reviver, mas por bem pouco tempo. Só as ânsias de me dar às almas, de salvar o mundo não cessam, consomem-me o coração. Que desejos tão vivos de incendiar no mundo o fogo divino, o fogo que, sem ser meu, sinto-o, consome-me, devora-me!

— Ó mundo, hei-de vencer-te, hás-de salvar-te. Ó rochedo, hei-de reduzir-te a chamas, hás-de amar a Jesus, hás-de ser puro, hás-de viver para Ele.

O demónio continua a rodear as janelas que cercam o edifício do meu corpo. Redobra sempre a sua malícia, tenta entrar por uma e por outra. Enraivecido, uiva e desespera-se, por nada poder conseguir. Não posso lembrar-me que hoje é o dia a Ascensão de Jesus ao céu. Parece-me que Jesus subiu, deu a Sua entrada no céu sem ser louvado e festejado. As trevas cegaram os anjos e todos os habitantes do céu. O meu coração apavorado chora lágrimas de dor e de sangue. Sente as cordas que amanhã lhe vão atar o seu corpo. Sente nele as bofetadas e os escarros que ao rosto lhe hão-de ir cair. Pobre coração, que não sabe amar, que não sabe compadecer-se de Jesus, que está nele caído com a cruz às costas e atado com grossas cordas. Visão dolorosa a da minha alma! Em que estado ela vê Jesus. Anteciparam-se os sofrimentos; já hoje sinto tudo. Durante a Ceia vi e senti o abraço de Jesus a seus discípulos. Que abraço tão terno e eterno! Entre eles houve um que recusou, não quis aceitar. Mas a ternura e o amor de Jesus continuaram ainda sobre ele. Como Nosso Senhor sofreu ao ser desprezado o Seu convite, o Seu amor, o Seu chamamento! Se Jesus, a Mãezinha ou os anjos falassem em meus lábios para gravarem bem nestas linhas o amor divino e a ingratidão do mundo a esse amor! Que sede eu tenho de dar almas a Jesus, de salvar o mundo e de matar o pecado para sempre, para sempre! Não sei dizer o que quero e não vejo nada para fazer, estou ceguinha. (Alexandrina Maria da Costa: 10 de Maio de 1945).

sexta-feira, novembro 25, 2011

COMO É DOLOROSO O MEU SOFRER

O meu corpo continua a ser o depositário do vestido espinhoso de Jesus

Não só sinto que se apagou para mim a luz do dia, mas também a da eternidade; toda a luz se apagou para mim para sempre. Estou como se perdesse tudo, a felicidade e a luz e o gozo do Paraíso. Ai, como é doloroso o meu sofrer. Quantas vezes invoco os nomes de Jesus, da Mãezinha e dos Santos, na esperança de encontrar alívio e conforto e nada consigo; tudo morre sem em mim ter vida. Não acabem os meus lábios de se moverem a pronunciar qualquer acto de louvor ou amor a Jesus sem que tudo morra e desapareça para sempre.
Ó meu Deus, que pobrezinha eu sou! Ó Jesus que cegueira a minha! Que horror, que horror! Só vejo maldades, só vejo misérias em mim e à volta de mim. Que lama tão nojenta! Que mundo sem habitantes! Tudo é podridão vergonhosa e nojenta podridão. Estou agarrada e presa a ela; quero levantar-me, caminhar, e não posso, não tenho quem me deite a mão. Fugiu-me tudo, fugiram-me todos, não tenho ninguém por mim, nem um só amigo me ficou. Só eu existo no mundo, só eu sou crimes, só eu sou veneno. Tenho medo de mim; tenho medo de estar sozinha. Jesus, valei-me; a eternidade aproxima-se. Que tremenda escuridão, e eu de mãos vazias. Que me aproveitou a mim vir ao mundo? Como me utilizei eu da vida, que me foi dada? Ó Jesus, ó Jesus, sou a Vossa vítima; amparai-me com a Vossa divina mão; não resisto sem o Vosso amparo, sem a Vossa graça.
O meu corpo continua a ser o depositário do vestido espinhoso de Jesus; sinto-o todo numa ferida e em sangue. Sinto também que continuo a ser o veneno das almas, o veneno de toda a humanidade, veneno que tenta, contra o Céu, a envenenar se possível fosse o próprio Deus. Que peçonha tão perigosa e que ódio contra Jesus!

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 28 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)