sexta-feira, janeiro 15, 2021

CANTO DE AMOR A JESUS

Ó amor, como tu és grande e forte!

Fala, fala, meu coração,
diz ao menos nestas linhas quanto desejas amar o teu Jesus!

Fala, fala, coração meu,
diz ao teu Jesus que só a Ele queres
e que só nele queres descansar!


Não canses, não deixes de falar do amor!
O amor que é amor, verdadeiro e puro amor,
não pode calar-se,
não pode deixar de manifestar-se,
tem que falar e provar que ama sempre:
ama de dia e de noite, ama na dor e na alegria,
ama na exaltação
e, se é amor verdadeiramente puro,
ama mais ainda quando é humilhado.

Ó amor, como tu és grande e forte!

Ó Jesus, onde poderei encontrar a escola do vosso amor?

É com certeza no vosso Divino Coração,
é aí que eu posso aprender a amar-Vos
e com aquele amor por o qual o meu coração suspira.

Ó Jesus, ó Jesus, dai-me lugar,
deixai-me entrar para lá viver, Vos amar, para de amor morrer.

Onde estará, meu Jesus, o segredo de amar?
Onde poderei encontrar tão precioso tesouro?
Eu não quero mais nada na terra a não ser amar-Vos e salvar-Vos as almas.
Tudo o mais é mesquinho e nada; tudo o mais é ilusão e mentira.

Mas o vosso amor, ó Jesus,
é tudo e sem ele não posso viver:
tenho uma fome que me mata o coração.
 

Jesus, eu quero assemelhar-me à criancinha
que nos braços de sua mãe
não sabe dizer outra coisa a não ser: mãe, pai.

Eu quero dizer sempre, sempre: Jesus, Jesus, amor, amor.
É vosso o meu coração, sou vossa inteiramente.
 

Estou a mais nada poder fazer; mas enquanto me for possível, ainda que seja de cinco em cinco minutos, uma letra hei-de dizer sempre:
Ó Mãezinha, amo-Te e amo a Jesus! Sou tua e sou dele!
 

Eu queria que o meu coração fosse uma fonte da qual nunca deixasse de correr água de doçura e fogo de amor para o Coração Divino do meu Jesus.

Que grande dita se eu O amasse com o amor de todos os corações! 

Jesus, o que Te posso eu dar? O que tenho eu que não seja teu?
Tenho o pecado, tenho a miséria, e é essa mesma que Te dou.
Será desvergonha da minha parte?
Ó Jesus, mas eu nada mais tenho e quero dar-Vos alguma coisa.
Compadecei-Vos dela e da do mundo inteiro.
 

A minha fome de Jesus nunca mais terá fim.
Nada me enche, nada me satisfaz.

Os meus caminhos não acabam:
quanto mais ando, mais fome eu sinto
e mais longe estou do Suspirado da minha alma.

Ó Céu, ó Céu, quando chegarás tu, para me satisfazeres?
Ó Jesus, vinde depressa!
 

Nada mais sei dizer, meu Jesus,
a não ser meu eterno obrigada de alma e coração,
e de alma e coração dizer-Vos que Vos amo.

Mas o meu amor não tem limites,
quer subir tanto, quer ir tão longe, quer chegar até Vós.
Jesus, fazei que Vos ame, não posso sozinha.
 

Com o coração a sangrar, mas sempre em Vós,
meu Jesus, confiada, bradarei noite e dia:

– Amo-Vos e é vosso o meu coração!

Ai, minha querida Mãezinha,
amai com o vosso Coração o meu querido Jesus.
Só assim Ele pode ser amado como merece.

Ó Mãezinha, queria dizer-Vos tantas coisas!
Deixai-me, Jesus, deixai-me gritar sempre,
com toda a alma, com todo o coração:

– Jesus é o meu amor,
o único a quem quero pertencer e para quem quero viver.
Só Ele tem para mim encantos, só a Ele se prende todo o meu ser.
Morra tudo em mim para em mim só Jesus viver!
 

Quando penso em Jesus na Eucaristia,
fico deveras confundida com tanta loucura de amor.
O que digo? É mais que loucura de amor.
Não sei como Jesus, o nosso bom Jesus,
nos pode amar tanto.

O que vistes em nós, meu Jesus,
que tanto Vos encantasse?
O que foi que Vos obrigou
a fazer-Vos prisioneiro de tantos séculos?
Oh, que amor!

Ó Jesus, dai-me um coração que Vos ame
e saiba corresponder às doçuras e loucuras do vosso infinito amor.
Quero viver presa por Vós, como Vós o viveis por mim.
 

Ó Jesus, meu querido amor:
eu queria ter a pureza dos Anjos,
o ardor dos Querubins e dos Serafins
para amar-Vos e cantar os vossos eternos louvores.

Eu queria, ó Jesus,
eu queria a sabedoria infinita
para saber cantar as glórias
e os louvores do Senhor.

Eu quero prestar ao Altíssimo
a honra devida de Pai Omnipotente,
de Criador e Senhor de todo o meu ser e do mundo inteiro.

Ó Jesus, só Tu és santo, só Tu és digno de todo o amor.
Aceita, ó Jesus, aceita os ardores do meu coração.
Aceita as minhas ânsias de bem Te servir, de mais e melhor Te amar.

Ó Jesus bom, ó Jesus santo, ó Jesus amor, amor, amor… 

Jesus, em que mísero estado Te encontro!
Quem foi que Te feriu assim?
Ah, sei bem! Foram os meus pecados.
Quero chorá-los, quero detestá-los
e em troca de tanto amor recebe o meu coração, que é teu:
quero amar-Te eternamente!...
 

Meu doce Jesus, tão tarde Vos conheci
e tarde, ainda muito mais tarde Vos amei!
Fazei que agora viva só para Vós e para o vosso amor!
 

É vosso o meu coração, sou vossa inteiramente.

DOLOROSOS ESTADOS DA ALMA

 Sem luz e sem director...

A vontade está pronta para mais e mais me dar ao Senhor, para mais e mais me imolar e Lhe dar almas. À pobre natureza tudo lhe repugna; até agora o não poder ver a luz e ter de fazer do meu quarto uma masmorra escura. Parece que quase me leva ao desespero ao precisar de ar e não poder ver a luz. É tal a aflição que me parece que todo o meu ser se estrancinha. Então chamo por Jesus, por aquele Jesus que sinto ter perdido com a Mãezinha, por aquele Jesus em que sinto não acreditar, pois quantas vezes, meu Deus, me parece ter perdido a fé e não acreditar nas verdades da Santa Igreja, nem na vida eterna! Mesmo com o sentimento de nada acreditar, invoco o Céu em meu poder. Vou repetindo o «creio na vida eterna».


Amo-Vos, meu Jesus, amo-Vos! Sou a vossa vítima. Só quero que em mim se faça sempre a vossa vontade.

Oh, vida sem vida! Oh, vida sem fé!

Meu Deus, meu Deus, como é custoso passar os meus dias assim!

Não sei descrever quanto me custou não ter, no primeiro sábado deste ano, a visita, o colóquio com a Mãezinha! Tremo e temo os últimos dias do meu exílio.

Ai de mim, se deixo de confiar. Ai de mim, se nesta luta da alma, nestes sofrimentos indizíveis o combatente não for Jesus! Que trevas, que abandono! Não sou da terra nem do Céu, não sou de Deus nem de ninguém!

Foi esta a minha subida para o calvário. Eu não deixava de dizer:

Fazei, Jesus que as minhas trevas façam luz e que o meu fechar de olhos abra os olhos a todas as almas que os têm fechados para Vós, para os vossos caminhos.

Creio, creio sempre!

Não há calvário nem Céu para mim: que o haja para todas as almas, filhas do vosso Sangue, que eu entre no número delas também.

Creio, creio, creio assim.

Nesta luta bradou-me Jesus:

— Ó minha filha, ó minha esposa querida, Eu estou aqui no tabernáculo do teu coração. Repete o teu «creio». Estou aqui. Tu és o sacrário onde Eu habito dia e noite sem Me ausentar. Tu és a hóstia que comigo se imola. Tu és a hóstia que as almas comigo comungam.

Vives comigo na Eucaristia, vives a minha vida.

Nesta imolação contínua, nesta união inseparável, nesta vida tão mística e divina as almas por ti Me recebem.

A tua dor, o teu sangue, oh, moeda incomparável!

A tua vida misteriosa, a tua vida onde está toda a ciência de Deus, a sabedoria omnipotente, a vítima que em tudo se assemelha ao Altíssimo!

Imola-te, deixa-te imolar!

São as almas que comigo e minha Bendita Mãe vamos salvar.

Ó mundo criminoso e nojento, ó mundo ameaçador da justiça de Deus, converte-te, converte-te!...

Minha filha, minha querida filha, vamos a salvar as almas. As almas, as almas!...

Não penses em evitar o castigo que ao mundo espera, mas sim em poupá-las às penas eternas.

Coragem, minha filha, coragem nas tuas dúvidas, nas tuas trevas!

Avisei-te de tudo isto. Tem coragem. Os teus colóquios vão ser ainda mais dolorosos. Eu virei apenas confortar-te, dar-te o meu Sangue, dar-te coragem para tudo suportares e repetir-te:

Estou aqui; sou Jesus; estou contigo!

Tu, esposa, vítima amada, não terás o sentimento real da minha presença em ti. Tens que acreditar sem amor, sem luz e sem fé.

Coragem! Coragem! Crê! Crê! O mundo exige”.

Enquanto Jesus falava, fez-me sentir e ver que realmente o meu coração era um sacrário da sua habitação, que o seu sacrário era também a minha morada, o mesmo cibório com Ele, a mesma hóstia era oferecida ao Pai.

A minha imolação com Ele era contínua. Tive luz e visão clara, compreensão completa de tudo isto.

— Ó Jesus, eu aceito tudo. Em tudo Vos quero amar. Só quero as almas e a vossa divina vontade.

Não me deixeis desesperar, não me deixeis desesperar! Confio em Vós.

Eu a acabar de falar, todas as trevas me submergiram e Jesus desapareceu.

Jesus, eu creio, Jesus, eu amo-Vos. Conto com Vós! Espero em Vós até ao último suspiro.

Ele depressa veio. Não O vi, só O senti. Uniu o seu coração ao meu e disse:

— Minha filha, minha filha, aqui estou a dar-te vida nas trevas, para que das trevas saia luz. Tu és farol, tu és vida, tu és a ressurreição e a vida das almas. Dor e sangue, dor e sangue, ó escudo sagrado pelo Divino! Coragem, filha, coragem! Acode às almas que, depois de MIM, são tudo. Oh, sabedoria, ó ciência de Deus! Oh, meios escolhidos para a nova redenção das almas!

Desapareceu Jesus e eu fiquei tão só e em tanta dor que nem me lembrei de Lhe fazer os meus pedidos. Só depois Lhos fiz, como se Ele ainda estivesse presente.

— Ó meu Deus, ó meu Deus, como hei-de viver?!... Compadecei-Vos de mim!...

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma de 14 de Janeiro de 1955, ano da sua morte)

segunda-feira, janeiro 11, 2021

ENVERGONHA-ME A MINHA VIDA

Sente-se como se não amasse Jesus

Sinto na minha alma como se me estivessem a preparar alguma traição. Estou cheia de medo e em tantas trevas que me parece que até o sol foi encerrado numa nuvem negra para nunca mais aparecer, para nunca mais brilhar.


– E o dia, meu Jesus, o dia nunca mais raia para mim. Ah! E se mesmo assim eu Vos amasse! Se eu fosse Vossa e vivesse só para Vós! Vede, meu Jesus, o meu coração sequioso de Vós. Eu quero dizer ao céu que caia sobre mim e me esconda e guarde e comigo esconda e guarde toda a humanidade. Ai o mundo, meu Jesus, o mundo que tanto me preocupa. Queria mares, universos de sangue para derramar por ele. Queria mundos e céus de amor para Vos amar por ele. Não cesseis, meu Jesus, a minha imolação, para que não cesse para ele a Vossa graça e o Vosso perdão. Se me permitissem, meu Jesus, queria penitenciar o meu corpo, queria fazer dele o mais doloroso escravo para toda a humanidade salvar. Pobre de mim, temo fazê-lo sem licença e não tenho um guia. Jesus, espero em Vós, em Vós confio, faça-se a Vossa vontade; sede a minha luz, o meu caminho.

Que tremendas são as manhas do demónio. Como posso eu dar honra e glória ao meu Deus! Parece-me mentira, mas não quero duvidar das divinas palavras do meu Jesus. Sofro tanto com estes ataques! Se o mundo soubesse o que é o inferno e a maldade e a fúria do demónio, com certeza não pecaria tanto. Veio esta noite numa fúria desastrosa contra mim. Maldades, mais maldades, palavras e lições feias. O meu corpo parecia já estar desfeito de tanto cansaço. Ele queria que eu dissesse:

– Busco, quero e amo os prazeres; troco tudo por um só prazer, até o próprio Deus. Não quero o céu, quero o mundo, quero pecar.

– Pecar nunca – disse eu.

– Quero o inferno, meu Jesus, prefiro uma eternidade de inferno e não quero gozar um só momento, não quero o prazer, não quero o mundo. O que eu quero é não perder um momento de consolação e reparação para Vós e de salvação para as almas. Valei-me, Jesus, dai-me o inferno, mas não me deixeis pecar. Amar-Vos, sim, só, só amar-Vos.

Tudo isto disse a Jesus só com o pensamento, porque não podia mais. Foi o bastante para a fúria do demónio aumentar. Lutei, murmurando sempre, dizendo a Jesus que não queria pecar. A minha luta era sobre um grande abismo, nem podia respirar. O meu coração tinha a aflição da morte. O demónio fugiu à voz de Jesus, que disse:

– Desempenha, anjo meu, a quem sempre obedeceste, desempenha a missão que eu dei sobre a minha Alexandrina, o meu anjo em carne; leva-a ao seu lugar.

Senti-me levada como por uma aragem suave para a minha posição. E Jesus continuou:

– Se pudesses ver, minha filha, como sou ofendido nesta hora contra a virtude da santa pureza, morrias de pasmo ou antes de dor. Mas a tua reparação consolou-me, fez-me esquecer o muito que me ofendem. Esta consolação só podia ser tirada duma de pureza angélica.

Dito isto, Jesus estreitou-me com muito amor ao seu Divino Coração e repetiu por três vezes:

– Amo-te, amo-te, amo-te, meu amor; não pecaste, não me ofendeste.

Fiquei confiada nas palavras de Jesus, mas triste, tão triste, o coração em tanta dor, mais, muito mais do que uma ferida dolorosa depois do tratamento.

– Jesus, já que assim o quereis, seja a minha vida como Vos consolar e agradar mais. Aqui me tendes pronta para tudo, meu Senhor.

Mal posso confiar. Envergonha-me a minha vida. A virtude que eu mais amo e na que mais sofro. Só por muita graça e misericórdia de Jesus não O tenho ofendido gravemente.

– Ó meu Deus, tenho vergonha de mim mesma, como a não hei-de ter de Vós? Perdão, meu Jesus, perdão, meu Amor.

sexta-feira, janeiro 08, 2021

JESUS, QUAIS SÃO OS MIMINHOS QUE DE VÓS VOU RECEBER ESTE ANO?

 

Primeira mensagem de 1945

 


– Jesus, quais são os miminhos que de Vós vou receber neste novo ano? Estou cheia de medo, ou mais ainda, cheia de pavor. Venha o que vier, pelo muito que eu seja ferida, humilhada e abatida, com a Vossa graça divina a tudo direi: “Seja bem-vindo, faça-se a vontade de Jesus; sou vítima do meu Amor, vítima das almas”. Confesso, meu Jesus, que o meu maior receio é a minha fraqueza, temo ofender-Vos. Confio em Vós; seja firme o meu amor e subirei alegre o meu calvário. Reparai e vede, Jesus, as ânsias que tenho; se não fôsseis Vós, tiravam-me a vida. Queria nascer agora, mas já Vos conhecer para nunca manchar o meu corpo. Queria que comigo nascesse o mundo inteiro e que todo ele já Vos conhecesse também para não se deixar manchar. Queria um coração novo, mas que sempre Vos tivesse amado para nunca deixar de Vos amar. O mesmo querer tenho para todas as criaturas, para assim Vos amarem com o mesmo amor que para mim desejo. Onde hei-de esconder-me e comigo esconder o mundo? Onde hei-de purificar-me e purificar o mundo a não ser em Vós? Escondei-me, purificai-me. Fazei-me nascer agora para a graça e para o amor e comigo nascer o mundo, mas de tal forma como se eu nem ele Vos tivesse ofendido. Não sei onde estou; não vivo neste exílio nem vivo no Céu. Parece-me viver entre ele e a terra. Fui para esta morada, comigo levei o mundo, morada sem luz, sem vida e sem nada. A minha alma rasga-se de dor, é indizível o que sinto em mim. Meu Deus, que derrota! Não tenho luz, e roubaram-me os guias de tão tremendos caminhos. Morro na escuridão, Jesus, morro desfalecida. Vinde, vinde com a Mãezinha, dai-me força, dai-me vida.

Não posso pensar nos combates do demónio, tremo de horror. Ele arma tantas ciladas para prender-me! Forma tantos assaltos à minha alma! Parece-me morrer de dor. Ouço a sua voz maldita desafiadora. E quando fica só assim! O que mais me aflige é quando ele faz o que há de pior. Na manhãzinha de ontem, preparava-me para comungar e logo a alma principiou a sentir os seus assaltos. A minha preparação foi um terrível combate. Que vergonha a minha à chegada de Jesus ao meu coração! À voz de chamada do demónio vieram muitos demónios. E o maldito dizia-me:

– Tu és o manjar mais delicioso para todos os demónios do inferno. Olha como te preparas para comungar. É assim que és uma esposa de Jesus! Não és, não és, Ele não te quer, és minha, dá-me o teu coração. Se mo deres por vontade, dou-te o mundo com todos os encantos, grandezas e prazeres.

Nesta altura, consegui renovar a Jesus a minha oferta de vítima e escrava.

– Não quero o mundo nem nada que lhe pertença, meu Jesus, o que eu quero é não pecar. Amar-Vos só e não magoar o Vosso Coração divino.

O demónio redobrou de raiva. Sentia que o que ele queria era que eu lhe desse de boa vontade o meu coração e com ele o mundo. O meu corpo estava desfeito com o cansaço. O momento era grave. Ao parecer-me estar tudo perdido, não haver remédio para mim, bradei ao céu de alma e coração:

– Pecar não! Valei-me, Jesus!

Cessou a luta, mas ficaram-se na alma uns tristes efeitos. Uma tristeza tão grande por não ter pecado, parecia-me que gostava ter ofendido a Jesus. Que aflição a minha! O demónio, mais retirado, continuava raivoso; queria voltar a arrancar-me a alma e a despedaçar-me o corpo. A pouco e pouco, uma suavidade e paz apoderaram-se de mim, invadiram-me toda. Jesus fez-me sentir que tudo o que se passava na minha alma eram efeitos do demónio. Era ele que tinha pena de eu não ter pecado e estava raivoso por não o ter conseguido. Chegou logo Jesus para eu O receber; gozava uma grande paz, mas muito triste, tímida e envergonhada. Logo que O recebi, esqueci por algum tempo tão tremenda e feia luta.

Hoje, voltou o maldito com outro ataque infernal. Só Jesus vê a dor que me vai na alma. Disse-me que eram as pessoas cúmplices do meu crime, ensinou-me a pecar.

– Meu Deus, como sair disto sem Vos ofender? Só com a Vossa graça. Por misericórdia Vossa, só nos momentos da luta eu sei e compreendo as lições do mafarrico. É mais uma prova do Vosso infinito amor. Só Vós sabeis quanto eu quero amar-Vos e reparar as ofensas feitas contra o Vosso divino Coração e nunca manchar o meu corpo nem a minha alma. Triste quinta-feira que me dás a sexta!

A minha alma está cansada de tantos sofrimentos, de tanta dor que a espera. Temo as horas que se aproximam, temo a morte. O céu está revoltado com tanta ingratidão da terra. Temo tudo, mas por tudo quero passar; quero morrer para dar a vida!

(Sentimentos da alma: 4 de Janeiro de 1945

domingo, novembro 29, 2020

À SOMBRA DA EUCARISTIA

 Sentimentos da alma: 29 de Novembro de 1945

Tenho que desistir, não tenho forças, não posso falar para dizer os sentimentos da minha alma. E, agora que o não posso fazer, apetece-me chorar.

— Meu Deus, que cegueira a do meu corpo e a da minha alma!


E, no meio desta noite tormentosa, sinto dores horrorosas. Sinto na alma e no corpo um tormento inexplicável. Por maior que seja o meu esforço, nada digo, porque não sei. Não posso pensar que o meu corpo há-de ser tocado ou poisar na minha cama ou por ele passar qualquer aragenzinha. Queria poder sustentar-me no ar, onde nada pudesse tocar-me. Que tremendo horror! Ai, como tenho o corpo e a alma feridos! Tenho nojo e medo da minha cama. Quantas vezes, de repente me apetece chamar-lhe maldita e excomungada. Queria abandoná-la, não posso estar nela. Tenho medo, tenho medo!

— Sim, meu Jesus, quem há-de resistir a isto? Só Vós, só Vós. Oh! Se eu neste ponto soubesse dizer o que sinto!

Tive um novo ataque do demónio, violento, mas pouco demorado. O coração estava aflitíssimo e o peito ofegante. Ao ouvir as suas feias palavras, mais em espírito do que com os lábios, oferecia-me a Jesus e à Mãezinha e pedia-Lhes para não pecar. Ao terminar da luta, fiquei aterrada na minha escuridão e no receio de ter ofendido a Jesus. Não resistia, se Jesus não viesse. Ele apressou-Se a vir e disse-me:

— Não pecaste, não, amada filha. É à sombra da Eucaristia que a alma, louca de amor por mim, se consola e delicia. É à sombra da tua pureza que o mundo se purificará. É da tua pureza que eu recebo a reparação das suas maldades e crimes. Dá-me tudo, dá-me tudo o que te peço, para que as almas tudo possam receber. Coragem, estou contigo.

Desisti, não posso. Vou a caminho do horto. Vejo todos os sofrimentos que lá me esperam. Tenho de sofrer em silêncio sem um desabafo. No meio deste sofrimento não peço a Jesus o céu, mas lembro-Lho. Fico em espírito por muito tempo a repetir:

— Jesus, o céu, o céu, o céu…


segunda-feira, agosto 17, 2020

 A VISÃO DAS ESCADAS

 

No dia 17 de Agosto de 1945, a beata Alexandrina teve uma visão surpreendente: ela não só viu a Virgem Maria com o Menino Jesus nos braços, mas vio também a utilidade dos seus sofrimentos, representados por escadas que subiam para o Céu:

 

Neste prolongado martírio, ainda sem nada ver, senti na alma uma nova transformação: uma aragem suave e o esquecimento da dor. Logo a seguir, à minha frente, apareceu a Mãezinha com o Menino Jesus ao colo. A minha alma, num momento, só viu toda a Sua formosura: cabelos doirados e em caracóis. Sorridente, muito sorridente, estendia para mim seus bracinhos e esforçava-se por sair dos da Mãezinha. Como quem forma um voo, saltou para os meus braços e logo se escondeu no meu coração, e a Mãezinha desapareceu. Logo a Sua voz divina se fez ouvir dentro de mim.

— Minha filha, minha filha, por cada uma das tuas dores, por cada uma das tuas virtudes é-te dada uma escada. Por elas podem subir continuamente, pelas das dores os pecadores, e pelas das virtudes as almas sequiosas de mim. Repara, vê como elas sobem.

As escadas eram tantas, tantas, não tinham conta. Era tão grande o número das almas que subiam por elas! Algumas subiam tão rapidamente! A minha alma sorriu ao vê-las. As escadas não tinham só degraus: tinham, pelos lados espécie de pegueiras (corrimões), por onde subiam mais que uma ao mesmo tempo. Continuou Jesus:

— São escadas firmes. Não há tempestade que as deite à terra; não há frio que as corte; não há fogo que as queime. Podem subir todos. Ainda que alguma caia, não fica delas desprendida. As escadas têm nelas um íman que as atrai, e voltam de novo a subir. São rolas que sobem, são pombinhas que voltam ao seu pombal. Repara, todas vão dar ao mesmo sítio. No cimo de todas elas estás tu. És o íman, és o pombal, és o palácio do amor, lá do alto o espalhas sobre elas. Minha pomba, minha pomba, dá-lhes a tua alvura, dá-lhes a tua graça. Fá-las subir na terra e atrai-as para ti no céu. Que maravilhas insondáveis, que grandezas as minhas na tua alma! Como não havia eu de sorrir de contentamento e querer vir para ti dos braços da minha Mãe? Tem coragem! Vês quanto valem as tuas dores? Vês quanto vale sofreres assim, para salvares tantas almas? Olha a tua coroa. Vê o prémio do teu martírio. Podes, à sombra da tua coroa, da recompensa que de mim te é dada, abrigar os pecadores e as almas que anseiam por mim.

domingo, março 29, 2020

O CORDEIRO SUJO


«Foi na noite do dia 1 para o dia 2 [de Fevereiro de 1951] que eu tive uma visão, mas, temerosa de que fosse sonho, nada disse na sexta-feira. Agora que sei que não foi, vou descrevê-la» – escreveu a Alexandrina no seu Diário de 3 de Fevereiro do mesmo ano.
«Vi junto de mim um cordeiro branco, todo sujo, caído na lama, ou melhor, enterrado nela, mal se conhecia a cor e todo enlameado em silvas espinhosas, ia morrer. Senti-me obrigada a salvá-lo, a livrá-lo da morte. Levantei-o, principiei a limpá-lo, a tirar-lhe as cadeias de espinhos que o prendiam, tomei-o para os meus braços, estreitei-o a mim, principiou a viver com mais formosura. Em seguida, divisei mais ao longe, por uma larga estrada, um rebanho de ovelhas brancas tão grande que não fui capaz de contar. Jesus caminhava entre elas de cajado na mão. Ele era belo, e belo, belo fazia todo o rebanho. Compreendi que todas aquelas ovelhas se nutriam de Jesus. Oh! como elas eram belas e gordas, faziam-me encantar.»
Esta visão deixou a Alexandrina um tanto ou quanto perplexa. Ela mesma o confessa: “temerosa de que fosse sonho, nada disse na sexta-feira”.
Todavia, ela sabia que no momento oportuno, Jesus lhe explicaria o significado desta mesma visão. Não esperou muito, porque no sábado seguinte, dia 3, depois da sagrada Comunhão, Jesus apresentou-se a ela sob a forma dum mendigo a pedir o abrigo do seu coração e disse-lhe:
— «Minha filha, bate à porta do teu coração o teu mendigo Jesus. Deixa-me entrar, dá-me abrigo, aquece-me ao fogo do teu amor, venho a tiritar de frio.»
Como sempre, num transporte de amor, onde a humildade sempre sobressai, a Alexandrina acolhe o Esposo divino:
— Entrai, Jesus, e aquecei-Vos, não ao calor do meu amor, mas no Vosso fogo divino, que Vos peço aceiteis como se fosse meu.»
— «Ó minha filha, oferece-me todos os teus sofrimentos para que as almas se convertam, se afervorem e me amem.»
A Alexandrina sentia-se certamente feliz com a vinda do Senhor e diz humildemente, como desculpando-se:
— Não pode ser melhor, Jesus. Que poderei eu fazer mais?
No mesmo Diário ela escreveu como se passou a sequência deste colóquio.
«E, mostrando-se em tom de censura, disse-me:
— Reparaste naquele cordeiro tão manchado, já perdido e naquelas ovelhas que te mostrei a caminharem comigo e de que não falaste? O cordeiro era uma alma na flor da vida prestes a cair no inferno e que foi salva pelos teus sofrimentos, pela tua vida. Não a esqueças.»
No mesmo “tom de censura”, Jesus continuou:
— «As ovelhas em grande número, que não pudeste contar também foram salvas por ti. Mas essas sempre nutridas pelo meu alimento já não correm risco de se perderem. Anima-te, toma coragem para tanta dor.»
E, como habitualmente, a Alexandrina oferece-se e implora. Ouçamo-la:
— Não estejais triste, Jesus, que eu nada disse por temor. Perdoai-me, sou a Vossa vítima.
Cessou o “tom de censura”. O Coração divino enterneceu-se por tanta humildade e disponibilidade. Como para a recompensar, chamou por Maria, sua divina Mãe e pediu-lhe que viesse confortar a vítima do Calvário da Balasar.
«Veio a Mãezinha — escreveu a Alexandrina —; cobria-a manto azul escuro de cima a baixo. Como eu estava pregada na cruz, Ela não me tomou para os seus braços, curvou-se para mim, beijou-me, encheu-me de carícias, bafejou-me os lábios e em seguida todas as chagas e disse-me»:
— «Minha filha, tem coragem na tua cruz! Dá a Jesus tudo quanto Ele te pede, faz a Sua vontade que é também a minha. Ele sofre tanto e eu com Ele, com os crimes do mundo! É igual a nossa dor.»
Depois, como para lhe provar a dor que Lhe enchia o Coração, a Virgem Mãe «abriu para o lado o seu manto; no centro do peito mostrou-lhe o seu santíssimo Coração ferido por setas, cercado de espinhos.» A reacção da doentinha foi como habitualmente.
— Ó Mãezinha, ó Mãezinha, isso não é para a Mãe do meu Senhor. Não quero ver Jesus sofrer e não Vos quero ver a Vós. Passai para o meu coração todas essas setas e espinhos.
E assim aconteceu.
(Sentimentos da Alma: 3 de Fevereiro de 1951)
Afonso Rocha

sábado, março 14, 2020

AI DO MUNDO SEM AS VÍTIMAS !


O Diário da Alexandrina de 5 de Janeiro de 1952 – Primeiro sábado do mês ― dá-nos numerosas indicações e instruções.
Jesus dirigindo-se à sua amada esposa, faz-lhe algumas revelações importantes sobre a vida espiritual, sobre o mundo das almas e particularmente das almas vítimas e seguidamente alguns pedidos, não só de oração especial e urgente diante dos sacrários abandonados, mas também uma mensagem para o seu Director espiritual, o qual deve aceitar tudo quanto o Senhor permite, para o aperfeiçoamento da sua própria alma.
“É por ti, é à luz deste fogo que deixaste atear que muitas almas guiadas por esta estrela por Mim escolhida, levadas pelo teu exemplo se transformarão em almas ardentes, verdadeiramente eucarísticas.”
“É por ti”, afirma Jesus, é por intermédio da Beata Alexandrina e, graças “à luz do fogo que ela deixou atear” na sua alma cândida e pura, “que muitas almas”, depois de conhecerem a vida e os escritos dela, serão “guiadas pela estrela escolhida por Jesus”, e sentirão o desejo sincero e irresistível de seguir o seu exemplo e se “transformarão em almas ardentes, verdadeiramente eucarísticas”.
Jesus afirma mais: “Tu serás para o mundo o que outrora fui Eu e continuo a ser”. Jesus foi e continua a ser o nosso único Redentor e a Beata Alexandrina, colaborando nessa mesma redenção tornou-se nossa redentora, nossa intercessora, nossa intermediária junto do Trono divino, porque vítima, como Jesus, a Vítima do Calvário.
A Eucaristia é o centro de toda a vida espiritual; sem Eucaristia não pode haver verdadeira vida, porque sem a Eucaristia a alma deixa de ter alimento e, sem alimento morre.
De igual modo, o mundo precisa de vítimas, vítimas que seguindo o exemplo da grande Vítima do Gólgota, se deixem crucificar generosamente, colaborando assim estreitamente com Ele e “completando nos seus corpos frágeis o que faltou à Paixão de Cristo”. Eis porque este grito do Senhor deverá ecoar continuamente aos nossos ouvidos:
“Ai do mundo sem a Eucaristia! Ai do mundo sem as Minhas vítimas, sem hóstias comigo continuamente imoladas!”
Neste dia, Jesus não veio só para a Alexandrina, mas também para os seus queridos amigos e protectores: o Pe. Mariano Pinho e o Dr. Augusto de Azevedo, aos quais Ele vai enviar uma mensagem particular:
Para o Padre Mariano Pinho, Jesus manda escrever:

Diz ao teu Paizinho que sou todo amor para ele, que o fiz hóstia para com ele muitas almas serem hóstias. Diz-lhe que ele não poderá, nem saberá viver sem sofrimentos. É da dor que nascem as almas eucarísticas, hóstias só por amor imoladas. Diz-lhe que há um ano lhe disse que o sol brilhava e hoje lhe digo que brilha ainda mais. Quase todos os obstáculos estão removidos para o triunfo da causa do Senhor e para a realização das Suas promessas.
O bom Jesuíta era uma alma eucarística, era uma hóstia continuamente imolada, mas Jesus lembra-lhe aqui estas verdades que essências na vida íntima com Deus: o amor e o sofrimento; a rosa e os espinhos.
Para o Médico, o “Bom Samaritano” da Alexandrina, Jesus manda escrever a sua gratidão para com este homem exemplar e sempre pronto a se dar ao serviço do próximo:
Diz ao teu médico um muito obrigado de Jesus pela sua firmeza e defesa da Sua causa divina. Diz-lhe que dia a dia exalto os humilhados e humilho os exaltados. Diz-lhe que Jesus triunfa e a vitória está próxima. Dá-lhe a chuva das Minhas graças com todo o incêndio do Meu divino amor para ele e para os que são seus.
Como é comovente ver Jesus agradecer a um simples mortal…
Aqui temos um exemplo de humildade: um Deus que se abaixa a felicitar uma alma por Ele criada… e, com a promessa de uma chuva de graças para ele e sua família.
E é verdade que o Doutor Augusto de Azevedo e a sua numerosa família foram sempre protegidos — quase de maneira visível — por Jesus e Maria.
Afonso Rocha

quarta-feira, março 11, 2020

A CARIDADE DA ALEXANDRINA


Já aqui falei da fé e da esperança na Alexandrina. Para terminar vou falar agora da última virtude teologal, a caridade, que nela era, como as outras uma virtude nata.
A caridade que também se conjuga com o amor pode e deve ser compreendida sobre dois prismas: o amor a Deus e o amor ao próximo, como nos ensina o Senhor nos Dez Mandamentos.
«O aspecto característico, muito pessoal e evidente da espiritualidade da Alexandrina, foi o amor. Todo o seu falar, todo o seu agir estavam embebidos nesta virtude e eram por ela impulsionados. No amor resumia tudo. Os seus conselhos eram sempre repassados de amor, convites ao amor para com Deus, para com Nossa Senhora e para com as almas. Deu-se toda e sempre por amor a Nosso Senhor. A Ele não pedia outra coisa a não ser o amor, e não quis senão fazer a vontade de Deus, de quem se fez vítima.»
Falando do seu amor para com Deus, podemos dizer que este amor, «enquanto lhe enchia a alma de gratidão por tudo o que d’Ele recebia, fê-la zelosa pela glória e interesses divinos.»
Pode dizer-se que a Alexandrina «manteve-se em vida porque o amor a fazia viver.»
Também é pertinente afirmar que «não encontrando em si mesma possibilidades para amar mais, imensamente mais, como queria, dava linguagem a todas as criaturas, convidando-as a amarem e louvarem por ela o Senhor. Era seu desejo e ânsia ardente transformar o mundo numa fornalha de amor.»
Todos os actos da sua vida transpiravam de amor a Deus.
«Na acção de graças depois da Comunhão, às vezes levantava-se em ímpetos de amor e punha-se de joelhos na cama, o peito arquejante, o rosto afogueado, como se uma torrente de amor a invadisse toda.»
Outras vezes, «falando das coisas de Deus, aconteceu ver-se-lhe o rosto transfigurado, mais parecendo uma criatura celestial do que humana. Notou-se, nessas ocasiões, que o seu corpo emitia calor como se estivesse abrasada em febre.»
«Impressionava muitíssimo a linguagem dela ao pedir amor a Jesus e a Nossa Senhora. Tratava-se da forma mais perfeita do amor, pois queria a Deus não pelas consolações, promessas ou prémio, mas por Ele mesmo.»
Assim viviam os Santos e Santas de Deus que a Igreja glorificou para que sejam para nós faróis e exemplos a seguir.
Vejamos agora como era o seu amor para com o próximo.
«A caridade para com o próximo era nela o reflexo do amor que tinha para com Deus, do qual tirava a medida para amar o seu semelhante.»
O seu amor para com o próximo era tão grande que orava por todos sem excepção, até mesmo por aqueles que a perseguiam ou a caluniavam.
«O motivo que a impelia a debruçar-se sobre o seu próximo foi sempre e exclusivamente sobrenatural.»
A Alexandrina «nunca se deixou levar por sentimentos de simpatia, de animosidade ou por outros motivos humanos, mas só e sempre pela caridade, mesmo com os da sua família.» Prova disto, «a amizade mais profunda para com a irmã Deolinda serviu para se elevarem mutuamente, cada vez mais, para Nosso Senhor», ao ponto que o Padre Mariano Pinho confessou não saber qual delas era a mais santa.
Daqui poder «afirmar-se que a prática da caridade era o que mais aconselhava e admirava na vida das pessoas.»
Em certas ocasiões, àqueles que a visitavam, «teve por vezes, de fazer repreensões, mas preocupava-se com chegar ao coração e levar as pessoas a considerarem as faltas por aquilo que elas representam de ofensa a Deus.»
Acontecia igualmente que «por causa das almas infiéis à graça vertia lágrimas, rezava e sofria, oferecendo-se por elas heroicamente.»
A caridade da Alexandrina, o seu amor ao próximo não se limitava àquelas pessoas que ela conhecia ou a visitavam, bem pelo contrário, tinha «o cunho da universalidade. Abrangia nas suas intenções todo o mundo e as necessidades de todos os homens, como se fosse mãe de todos: para ela não havia fronteiras.»
Amor heróico porque «nas suas preces pedia a Nosso Senhor para que poupasse o sofrimento aos outros e, em vez deles, a fizesse sofrer a ela.» 
Diz Jesus que «não há maior amor que dar a vida pelos irmãos.»
A heroicidade do amor da Alexandrina pelos pecadores fica aqui bem patente: «Pouco depois de ter acamado, ofereceu-se vítima “para consolar Jesus e salvar-Lhe as almas”».
«Amou com invulgar amor o Santo Padre. Quis consola-lo durante a guerra e por ele ofereceu a vida.»
«Ofereceu-se vítima para a Consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria, para que houvesse paz na Europa.»
Seria longo enumerar todos os actos de amor caridoso para com o próximo feitos pela “Doentinha de Balasar”.
Aprendamos com ela a amar a Deus sobre todos as coisas e ao próximo como a nós mesmos, mesmo quando isso nos parece difícil.
Afonso Rocha

UMA VISÃO

Com a ajuda do Espírito Santo, vou procurar comentar este belo texto que vou ler e que provém da Autobiografia da Alexandrina.

Como já várias vezes o disse, não sou nem teólogo nem escritor, escrevo apenas aquilo que sinto em meu coração, que creio e sinto ser justo, de acordo com o documento referido e sobretudo em acordo com as regras da Santa Igreja Católica da qual me sinto plenamente filho devotado e obediente.
***
Em 1936, por volta do fim do ano, a Alexandrina que tem então 32 anos, teve uma visão que a impressionou ao ponto de nunca mais a esquecer, porque, como ela mesma o diz, “ficou-me bem gravada na minha memória e na minha alma”.
Vejamos o que ela escreveu:
«Pelos fins do ano de 1936, numa noite, apresentou-se diante de mim, a pequena distância, um prado muito viçoso e florido. As flores eram açucenas. E tantas que eram!... E tão perfeitas!... Por entre elas pastava um grande rebanho de ovelhinhas, sendo impossível contá-las. O pastor era Jesus, em tamanho natural, muito belo e com um cajado na mão. Aproximei-me desse prado e, quando ia entrar nele, tudo se transformou num caminho árido e seco. Caminhei por uma encosta difícil de subir. Ao cimo do monte, havia um caminho bastante assustador, porque tudo eram silvas e espinhos. Ao meu lado esquerdo, ouvia gemidos de ovelhinhas. Queria aproximar-me delas para ver a causa dos seus gemidos, mas uma enorme ribanceira, escura, profunda, impedia-me de ver as ovelhinhas e a causa dos seus sofrimentos. Sentia que sofriam muito.
Continuei a caminhar por aquele caminho e, mais acima, ao lado direito, ouvia a mesma coisa. Nessa altura, vi a causa de tão grande sofrimento: estava uma ovelhinha, de lã branca, mas muito suja e presa pela lã a enormes espinhos, caída sobre eles. À primeira impressão, entendi que aqueles gemidos não podiam ser de saudades pela sua mãe, porque a ovelhinha já era grandinha. Ao ver o estado dela, tive tanta pena que me aproximei e, com todo o amor e carinho, fui vagarosamente desprendendo-a dos espinhos. Depois de a soltar, desapareceu da visão.
Isto nunca mais me esqueceu e conto-o com a maior facilidade, porque ficou-me bem gravado na minha memória e na minha alma.»
O texto começa pois assim:
“Pelos fins do ano de 1936, numa noite, apresentou-se diante de mim, a pequena distância, um prado muito viçoso e florido. As flores eram açucenas. E tantas que eram!... E tão perfeitas!...”
A palavra “noite” pode surpreender e levar-nos a crer que se trata de um sonho… Mas, não, porque se fosse um sonho ela o teria dito. Portanto ela estava bem acordada e viu, “a pequena distância”, como se ela estivesse à entrada da porta de sua casa e o dito prado fosse o seu quintal — para aqueles que conhecem a casa onde ela viveu. Uns cinquenta metros, para os que não conhecem a casa.
No meio daquele prado “muito viçoso”, a mais da erva viçosa, tinham nascido flores, mas não umas flores quaisquer, sem interesse: tinham nascido açucenas que, como todas as açucenas eram “tão perfeitas”.
Não poderíamos ver aqui o “prado” onde a Alexandrina iria trabalhar sob o olhar de Jesus, para a salvação das almas?
Aquelas açucenas numerosas e belas não representariam a virtude que Jesus tanto ama: a pureza? E a Alexandrina era uma alma pura e virgem, escolhida por Jesus para uma alta missão.
A visão continua com a aparição dum “grande rebanho de ovelhinhas” em tão grande número que era impossível contá-las. Várias vezes Jesus disse à Alexandrina que ela tinha salvado milhões e milhões de almas com os sofrimentos que ela livremente aceitava…
O pastor desse numerosíssimo rebanho era Jesus, que ela via “em tamanho natural”, que Ele era “muito belo” trazendo “na mão um cajado”, como todos os pastores.
Lembremos que Jesus disse numerosas vezes à Alexandrina que era Ele o seu Mestre, o seu guia, mesmo se deixando inteira liberdade ao director espiritual que na terra a guiava.
Esta visão tão bela despertou a curiosidade da Alexandrina e o desejo de ir mais longe, de entrar naquele prado maravilhoso do qual ela se aproximou. Mas, ó surpresa, “quando ia entrar nele, tudo se transformou num caminho árido e seco”.
Quantos e quantos anos a Alexandrina viveu na noite escura, na maior aridez, num deserto espiritual que provoca dúvidas, tristezas e por vezes incompreensão: ela viveu este estado de alma quase até à morte.
Mas, nem por isso recuou, como ela mesma o diz: “Caminhei por uma encosta difícil de subir”.
E na verdade, a Alexandrina nunca recuou, quaisquer que fossem as dificuldades que se lhe apresentavam pela frente. Quanto sofreu com as ingratidões, as calúnias, as incompreensões, a falta de alimentos e de roupas, ela que estava sempre pronta a dar esmola!
Mas a encosta que ela sobe corajosamente ainda lhe vai reservar mais surpresas, como podemos ler na sua Autobiografia:
“Ao cimo do monte, havia um caminho bastante assustador, porque tudo eram silvas e espinhos”.
Bela imagem dos sofrimentos da Alexandrina, sofrimentos que iriam aumentando com o correr dos anos. Quantas “silvas e espinhos” iria ela afrontar até à morte! Como ela mesma o confessa: “só Deus sabe quanto sofro”!
O percurso é difícil porque de cada lado daquele caminho se desenha um grande precipício.
“Ao meu lado esquerdo — explica ela — “ouvia gemidos de ovelhinhas”.
Situação dolorosa para ela, ela que muito amava os animais. Por isso mesmo a sua primeira reacção foi de prestar assistência, de cuidar daquelas ovelhinhas que sofriam…
“Queria aproximar-me delas para ver a causa dos seus gemidos, mas uma enorme ribanceira, escura, profunda, impedia-me de ver as ovelhinhas e a causa dos seus sofrimentos. Sentia que sofriam muito”.
Ao impossível ninguém é obrigado, por isso, diz ela:
“Continuei a caminhar por aquele caminho e, mais acima, ao lado direito, ouvia a mesma coisa”.
A generosidade da Alexandrina nunca se dava por vencida e, porque aquelas ovelhinhas — agora do lado direito — sofriam também ela quis absolutamente saber a causa e, certamente debruçando-se um pouco mais, riscando de cair, ela compreendeu:
“Estava uma ovelhinha, de lã branca, mas muito suja e presa pela lã a enormes espinhos, caída sobre eles”.
Estas ovelhinhas que gemiam não representam elas todas aquelas almas que, presas nas “silvas” do pecado, vinham até junto dela pedir auxílio e receber os seus conselhos?
Ela a todos recebia com amor e a todos “distribuía” uma palavra de consolação, um conselho que muitas vezes as fazia “arrepiar caminho”.
Que vai ela fazer a esta ovelhinha presa no meio das silvas e dos espinhos?
Com um pouco de humor, como muitas vezes, ela diz:
“À primeira impressão, entendi que aqueles gemidos não podiam ser de saudades pela sua mãe, porque a ovelhinha já era grandinha”.
Se “já era grandinha”, devia ter idade para fazer atenção, mas os silvados — entenda-se a vida de pecado — são traiçoeiros e atiçam os nossos maus desejos, os nossos ardores que nem sempre são virtuosos: por isso muitas vezes caímos neles, porque somos pecadores.
Para sairmos destes silvados traiçoeiros é-nos necessária a humildade e o desejo sincero de pensar onde vamos pôr os pés, antes de darmos um passo em frente.
Que vai fazer a Alexandrina? Como sempre, ela vai limpar aquela ovelhinha de maneira a que ela possa voltar para o meio do rebanho, sã e ilesa.
“Ao ver o estado dela, tive tanta pena que me aproximei e, com todo o amor e carinho, fui vagarosamente depreendendo-a dos espinhos”.
Durante a sua vida e mais particularmente durante a sua “vida pública”, a Alexandrina recebia visitas, algumas delas cobertas de misérias físicas e morais e a todas estas pessoas que vinham visitá-la, ela limpava “com todo o amor e carinho” suas almas e até os corpos de todos os espinhos causados pelo pecado. Ela não confessava, mas aconselhava, como o faria um bom sacerdote durante uma confissão.
Bem numerosos — os testemunhos abundantes o provam — foram aqueles que ao sair daquele pequeno quarto de Balasar, saíram “mais leves” do pecado e mais prontos a enfrentar as dificuldades da vida, tanto corporal como espiritual!
“Depois de a soltar, desapareceu da visão”.
Esta frase não necessita de comentário: ela é bem explícita.
Mas ao terminar a descrição da visão, ela confessa:
“Isto nunca mais me esqueceu e conto-o com a maior facilidade, porque ficou-me bem gravado na minha memória e na minha alma”.
Que lição podemos tirar desta bela visão?
Que a intercessão da Alexandrina, a leitura dos seus textos — Autobiografia e Sentimentos da alma, entre outros — são uma realidade que não podemos negar, porque é bem sabido que ela é “o canal pelo qual Jesus quer fazer passar as Suas graças”.
Afonso Rocha