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sábado, junho 05, 2021

DIZ AO TEU PAIZINHO, DIZ AO TEU MÉDICO

Serão para eles as primeiras bênçãos


— Diz ao teu Paizinho que Jesus te escolheu; diz ao teu médico que Jesus te confiou, diz à tua irmãzinha que te acompanha nas tuas dores, diz a todos que te ajudam a subir o doloroso calvário, que serão para eles as primeiras bênçãos, as primeiras graças, tudo o que é do Céu. Diz ao teu Paizinho que já cá na terra tem um trono em meu divino Coração. Diz-lhe que Jesus e Maria o amam loucamente. Diz-lhe que já que nesta luta mais não pode, te acompanhe sempre, sempre com orações, sempre, sempre com aquela união de almas com que Eu vos uni. Diz ao teu médico que seja forte com a força do meu divino Coração. Que te acompanhe sempre, sempre, que te ajude a levar a cruz. Que conte sempre com as graças e bênçãos do Senhor para ele e todos os seus; todos eles terão a perseverança final. Acaricia-te Jesus, acaricia-te a Mãezinha: são ternuras, doçuras, amor do Céu.

Toma conforto, ó minha filhinha, esposa do meu Jesus, salvação de todos os filhos meus. Oh! como és amada de toda a corte celeste!

Estas últimas palavras foram da Mãezinha. (Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma; 5 de Junho de 1943).

Na imagem:
A beata Alexandrina, o Pe. Mariano Pinho e o Dr. Augusto de Azevedo

segunda-feira, maio 17, 2021

QUERO SALVAR O MUNDO

Tenho de sofrer e agonizar


Por vezes o fogo que sinto em meu coração parece nunca mais se apagar. E o que quero fazer? O que tenho a fazer? Nem eu sei. Quero salvar o mundo, quero ver este fogo incendiado na terra para atingir todos os corações. Parece que ando louca a bater à porta de todos a convidá-los a deixarem o pecado, a amarem só a Jesus. Tenho de ver, tenho de fazer nascer um mundo novo, um mundo puro, um mundo do céu. Tenho de sofrer e agonizar por ele, tenho de morrer nas trevas para dar luz. Oh! e como eu caminho para elas! Obriga-me o amor, só o amor. Continuam em mim os olhares que não me pertencem. Além das atracções têm tantos enleios! Que confusão a minha! E o sorriso dos meus lábios também não é meu. Parece-me um sorriso que tem braços para abraçar eternamente e bálsamo para curar todas as chagas. Não sei, não sei o que se passa em todo o meu corpo. O que está nele não me pertence. Estes enleios, ternuras, prisões, doçuras e amor nada têm que ver comigo, nada têm que atribuir a mim, este corpo não é meu, esta vida minha não é. Tudo se passa nas minhas trevas. Se eu soubesse exprimir! Se eu soubesse mostrar tudo isto para bem das almas e glória do meu Jesus, deixava de ser vítima, já não sofria. O céu não me falta, mundos e mundos vão ficando sobre mim. Eu a submergir-me cada vez mais na escuridão, abrasada em sede do amor de Jesus, em ânsias de Lhe dar almas. Não olho aos sofrimentos; caminho, caminho. Vejo tudo quanto me espera. Vou como ovelha muda que nada sabe dizer. Vejo a ingratidão, o sangue que tenho de derramar, o calvário e a morte. Sinto as almas que nele têm de ser banhadas. Fito os meus olhos no céu: venha o que vier, tenho que dar o céu ao mundo, tenho que comprá-lo com a moeda do meu sofrimento. (Alexandrina Maria da Costa: 17-05-1945)

domingo, maio 16, 2021

EXAME DOLOROSO E DEMORADO

O Dr. Gomes de Araújo foi prudente e delicado


A ida de carro para o consultório foi o que há de mais doloroso. No corpo, sentia o maior martírio, e na alma a maior agonia, parecendo que morria.

Antes de entrar na sala de consultas, dizia aos que me levavam nos braços: «Pousai-me, pousai-me, ainda que seja no chão!» De repente, apareceu o médico e instalou-me numa cama de observações, e aí estive até que fosse observada. Pouco antes de ir para a sala de consultas, Nosso Senhor tirou-me a agonia da alma, deixando-me só os sofrimentos físicos. Já podia resistir melhor.

Principiou o exame que foi muito doloroso e demorado. Quando me despia, disseram-me que não me afligisse. E eu, recordando o que fizeram a Nosso Senhor, disse: «Também despiram Jesus», não pensando em mais nada. O Dr. Gomes de Araújo, apesar de me parecer um pouco brusco, foi prudente e delicado.

De o regresso a casa, voltou Jesus a exercer sobre mim as Sua acção divina para continuar a minha viagem, mas deu-me de novo as agonias da alma. Ao passar em Ribeirão, fui descansar em casa do Sr. Dr. Dias de Azevedo, a esperar pela noite, para poder entrar na freguesia sem ninguém perceber.

Tanto numa casa como na outra, fui tratada por todos com muito carinho, mas nada me confortava. Sorria a tudo, encobrindo o mais possível a minha dor. Saí de lá já de noite, e tudo me convidava a um silêncio cada vez mais profundo. Tudo me passava despercebido. Durante a viagem, só reparei numas flores do jardim de Famalicão, porque me chamaram a atenção para elas. Chegámos a casa era meia-noite e assim conseguimos que ninguém desse pela minha saída.

Depois desta viagem, os sofrimentos agravaram-se muito, muito. Tudo o que deveria sentir no dia da viagem guardou-me Nosso Senhor para o dia seguinte, piorando sempre cada vez mais. (Alexandrina Maria da Costa: Autobiografia)

NA IMAGEM
A beata Alexandrina, o Refúgio da Foz do Douro e o Dr. Henrique Gomes de Araújo.

sábado, maio 15, 2021

VIAGEM AO PORTO

O meu estado físico era gravíssimo


Pedi durante um mês. Mas, quanta mais luz pedia, mais em trevas ficava, tornando-se assim a dor da minha alma cada vez mais profunda, não sabendo o que havia de fazer, até que Nosso Senhor me disse que era da Sua divina vontade que fosse ao Porto.

O meu estado físico era gravíssimo, temiam tirar-me do leito para tão longa viagem; até eu temia, e muito, pois se não consentia que me tocassem no corpo, como havia de poder ir tão longe!... Animada com as palavras de Nosso Senhor, confiava n’Ele e, sob a Sua acção divina, preparei-me para sair na madrugada de 1 de Julho de 1941. Eram quatro horas da manhã, já eu tinha feito as minhas orações e, para fingir que ia muito alegre, principiei a chamar minha irmã, dizendo-lhe que íamos para a cidade. Só por este meio escondia a minha dor e alegrava os meus. Quando dizia isto, senti o automóvel que pouco depois chegava a nossa casa. Entrou no meu quarto o Sr. Dr. Dias de Azevedo, acompanha por um senhor amigo. Depois de conversarmos um pouco, minha irmã vestiu-se e preparámo-nos para sair. Às 4,50 partimos, era ainda de noite, para não alarmar o povo, e saímos da nossa freguesia sem encontrar ninguém.

Em que silêncio ia a minha alma! Mergulhada num abismo de tristeza, mas sem me separa um momento da união íntima do meu Jesus, ia-lhe pedindo sempre toda a coragem para o exame que ia ter; e pelo seu divino amor e pelas almas oferecia todo o meu sacrifício. Chamava pela Mãezinha e pelos santos e santas a quem mais amava. Não ligava importância a nada e tudo o que se me deparava causava-me profunda tristeza. De vez em quando, interrompiam o meu silêncio perguntando-me se ia bem. Agradecia, sem sair do abismo em que ia mergulhada. Era já dia claro quando parámos em casa do senhor que nos acompanhava, na Trofa. Era aí que eu ia descansar e receber o meu Jesus, esperando pela hora de seguir para o Porto. Antes de continuar a minha viagem, levaram-me ao jardim do Sr. Sampaio. Amparada e sob a mesma acção divina, fui até junto de umas florinhas, que colhi, dizendo: «Quando Nosso Senhor criou estas florinhas, já sabia que hoje as vinha aqui colher.» Depois, fui fotografada em dois lugares escolhidos. Desloquei-me de um lugar para o outro por meu pé, o que nunca pude fazer depois que acamei, pois nem sequer podia voltar-me de lado, na cama. Só um milagre divino, porque sem ele não me mexia, nem sequer consentia que me tocassem.

Depois, entrei no carro, segui a viagem, e a minha alma sofria horrivelmente. À distância de seis quilómetros do Porto, Nosso Senhor retirou a Sua acção divina. Principiei a sentir todos os sofrimentos do meu corpo e tornou-se tormentosa o resto da viagem e disse, não por saber a distância que faltava, mas o meu estado fez-me falar assim: «Já estamos perto do Porto.» E alguém me disse: «Estamos, estamos.» Porque tinha visto que só faltavam os 6 quilómetros a que me referi. (Alexandrina Maria da Costa: Autobiografia)