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sábado, junho 19, 2021

QUE HORROR, MEU SENHOR !

Jesus fez-me ressuscitar

 

São indizíveis as amarguras e torturas da minha alma. Custa-me imenso falar. A cada movimento, parece que é fora de mim arrancado com toda a violência o coração e, em seguida, as entranhas. Digo pouco, por não poder e por a minha ignorância nada saber dizer, mas sofro e sofro muito por não poder e não saber. Pois sinto uma fome, uma necessidade, posso dizer infinita, de desabafar. Eu não quero de forma alguma queixar-me, não quero entristecer o meu Jesus. O esforço que faço, o nada que digo, é para obedecer. É Jesus, é a glória do meu Senhor e o bem das almas que me levam ao máximo do sacrifício. Vi-me, senti-me nas garras do demónio; ouvi os uivos do inferno, o desespero das almas. Meu Deus! Como é desesperador! Se eu pudesse dizer a forma provocadora, descarada e maldosa, com que são praticados tantos e tantos crimes. Meu Deus, meu Deus, compadecei-Vos de mim. Que maldade infernal! Parecia-me que era em mim, e era eu a praticar crimes tão hediondos. Era eu a cair no inferno, era eu a entregar-me toda à devassidão e prazer, sem nada me satisfazer, mas sem poder naqueles momentos pecar mais; não tive um momento de arrependimento, não tive um olhar para Jesus a pedir-Lhe compaixão. Corri logo à busca de novos instrumentos, de novos lugares e ocasiões, para poder continuar a minha obra infernal. Que horror, meu Senhor, que horror! Disse que não tive um momento de arrependimento, nem um olhar para Jesus, mas tive. Pedi-Lhe bem que não queria pecar. Mas isto foi como se não fosse eu. Foi tudo e tudo é inútil para mim. Não sei como encontrar Jesus, não sei como dar-Lhe as minhas lágrimas, os meus suspiros, os meus sofrimentos, tristezas e amarguras. Tudo morre, tudo é inutilidade, tudo é perdido para mim. Passam-se os dias grandes, os dias festivos da Santa Igreja, e a minha alma não encontra um favozinho de doçura; tudo é perdido, tudo é morte. Estou a comemorar o aniversário da minha estadia na Foz. Sem querer recordar, surge-me de repente uma e outra cena. Fica-me o coração cercado de espinhos, e a cruz atravessa-o dum lado ao outro. Tudo sofro por amor de Jesus, sem sentir que O amo, sem saber que Ele se consola em mim. O abandono é o meu lema. Confio que sou conduzida ao porto de salvação. Nesta imensidade tempestuosa, em que só prevalece a inutilidade, a minha alma conserva-se em paz, a não ser de longe a longe uns momentos de agitação, dúvidas de toda minha vida, tentações contra a Fé, que me levam quase que a cair no desespero. Para que vim ao mundo? Para que serve tanto sofrer e uma vida presa no leito? Isto é sem eu querer, sinto mesmo serem tentações do demónio, ser ele a querer roubar-me a paz. O meu Horto, tão diferente do já foi, não teve outra coisa senão a inutilidade. Eu fui morte para ele, e ele morte para mim. Foi assim, porque eu não quis aproveitar da vida que ele me oferecia. E Jesus, que via infinitamente, aos Seus olhares tudo era presente, sofria, sofria dor infinita, e fez-me sentir a mesma dor, ao mesmo tempo que se mostrou e fez sentir o quanto me amava, o quanto amava as almas. Neste momento afoguei-me n’Ele, perdi-me n’Ele, desapareci como gotinha de água perdida no universo. Hoje, na Sagrada Comunhão, não digo que tive consolação; perdi-me novamente neste Oceano, como gota de orvalho, que com o sol desaparece. A alma ficou mais forte. Foi com esta fortaleza que venceu a inutilidade do Calvário. Na viagem para lá, ao sentir-me desfalecer com tão pavorosa inutilidade, espontaneamente o coração bradou: valei-me, Jesus, ai de mim se não vindes em meu auxílio. Pude chegar ao cimo; mesmo assim, inútil, fiquei na cruz crucificada. O coração continuou a bradar constantemente; eu sou inútil, Jesus, mas sois Vós útil para todos nós. Meu Pai, meu Pai, vinde em meu auxílio.

E foi neste brado que eu caí no sono da morte. Senti como se a alma morresse na maior escuridão. Passou-se algum tempo, e Jesus fez-me ressuscitar. Rasgou no meu peito o véu preto da morte e fez aparecer um véu de luz. (Alexandrina Maria da Costa: S. 20 de Junho de 1952)

segunda-feira, maio 03, 2021

TU NÃO PECASTE, TEM CORAGEM!

3 de Maio de 1945


No primeiro dia de Maio quantas coisas pedi à Mãezinha para me alcançar no Seu mês bendito. Consagrei-me a Ela para Ela me consagrar a Jesus. Entre muitas outras coisas pedi-Lhe força para o meu sofrimento. Meu Deus, e quanto necessito eu do auxílio do céu, da força da querida Mãezinha, par aguentar com o peso de tão grande cruz. Logo no segundo dia recebi um miminho do céu, um mimo que feriu bem o meu coração, um espinho que o dilacerou todo. Agradeci-o logo à Mãezinha, aceitei-o e ofereci-Lho como prova do meu amor, e para Ela o oferecer por mim a Jesus. Tudo é dor em mim! Que horror, que horror! O meu coração, a minha alma estão num luto fechado; não sei o que é isto. Que arrancos sinto em mim! Sinto como se pela boca me tirassem tudo o que dentro em meu corpo contém. Ai, meu Jesus, e que desejos tão grandes, que ânsias quase desesperadoras de ouvir dizer que terminou a guerra. Eu nada sei dizer, só Jesus conhece quanto sofro. A Ele vou renovando a oferta de vítima, para que venha a paz. Oh! que compaixão eu tenho pelos governadores que dizem terem partido para a eternidade. Oro por eles, e parece-me que a eles prenderam o meu coração. Todo o meu corpo continua em chamas, e sinto como se o meu pequenino quarto ardesse comigo. E quero acudir ao mundo, apanhá-lo, prendê-lo, colocá-lo todo nestas labaredas, neste fogo que não dá luz. Que medo, ó que medo viver em tantas trevas! O quarto em que vivo é como uma masmorra onde nunca penetrou o sol nem a luz do dia. São trevas na alma, trevas no corpo, trevas no céu e na terra. Parece que nunca mais posso ver Jesus, sinto que não é meu, que O perdi para sempre. Mas mesmo assim quero amá-Lo, sinto ânsias loucas de O amar e, como não me parecem minhas nem meu o amor, digo-Lhe:

— Jesus, este anseio não é meu, é Vosso, e Vosso é o amor; sois Vós que amais com o que é Vosso e sois Vós que sofreis e levais a minha cruz. Vede a pobrezinha que nada faz e nada tem: é só noite, só miséria. Sou Vossa escrava, Jesus, só Vossa e da Mãezinha.

O demónio, ainda esta noite, com tanta malícia e fúria consumiu desesperadamente o meu pobre corpo. Estava banhada em suor e não podia lutar. O coração batia com grande estrondo e numa marcha apressadíssima. Queria sossegar uns momentos, para poder respirar, e não podia.

— Já estás satisfeita? Não queres pecar mais? Hás-de pecar, hás-de pecar. Peca contigo todo o inferno e muitos da terra. E nomeava-os. Como tu estás! Como tu estás! E enchia-me de insultos. Estava cheia de lutar, mas não de ofender a Deus. Sentia que queria mais, muito mais. Não era bastante o gozo que me parecia sentir. Veio uma dor a destruí-lo todo. Fiquei louca, a querer gozar, e a dor insuportável a não me deixar, destruía tudo o que era gozo. Perdida no meio do mar, gritei por Jesus:

— Não quero pecar, não quero pecar.

Fora do meu lugar, não podia tomar a minha posição, nem aguentar por mais tempo a que tinha. Falou Jesus:

— Anjo, bendito anjo criado por mim, leva ao seu lugar a minha querida esposa, leva-a com todo o carinho e amor; é minha, só minha.

Fiquei logo na minha posição e senti-me tão cheia de carinho e amimalhada, e Jesus continuou:

— Oferece-me, filhinha amada, esta reparação, para que os impuros se cansem de me ofenderem, e não se canse o meu divino Coração de lhes perdoar. Dá-me, minha virgem pura, toda esta reparação. Tu não pecaste. É grande, é forte o teu amor. Tem coragem! Cumprem-se as minhas divinas promessas, e chega o céu.

As palavras e ternuras de Jesus suavizaram a minha dor e cansaço. Pude por um pouco adormecer. Ai, a quinta-feira! Estou a braços com ela. O meu coração anda de rasto, sente já toda a dor e ingratidão. Os meus ouvidos ouvem dum e do outro lado insultos e palavras de desprezo. Vejo todos os sofrimentos e anseio por eles; vejo a morte e desejo passar por ela; é morte que vai dar a vida. No Horto, senti o cálice da amargura. Com os olhos fitos no céu, no meio da tremenda agonia, senti como se me rasgassem a fio de espada ou ponta de navalha todas as veias do corpo. O sangue corria, ensopou-me toda e foi juntar-se às lágrimas da maior amargura. Os ouvidos tudo ouvem ao longe, mas sinto em mim coisa mais sublime que vê e adivinha tudo. Não sou eu, é Jesus que tudo conhece e sabe. É chegada a prisão. (Sentimentos da alma: 3 de Maio de 1945)

sexta-feira, abril 30, 2021

FILHINHA, ESTOU A DELICIAR-ME NA TUA DOR

— Ó meu Jesus, é bem doce sofrer por Vós


Como hei-de caminhar! Como hei-de vencer tão grande dor! Como hei-de suportar tão aterradoras trevas! Só Jesus poderá valer-me, só Ele pode aguentar o peso da minha cruz. Passo horas e horas num brado de socorro. Apavorada de horrores e trevas e sem conseguir um momento de conforto e a sentir a alma rasgar-se, despedaçar-se em dor. De longe a longe, Jesus vai dando à minha alma um pouquinho de suavidade, dizendo-me do íntimo do coração:

— Coragem, filhinha, cá estou eu a deliciar-me na tua dor. O teu Jesus não te falta com a sua graça e o seu conforto.

— Ó meu Jesus, é bem doce sofrer por Vós; é bem doce o Vosso conforto, mas tudo desaparece nas trevas, tudo passa como se não fosse para mim. Parece-me que Vós existis só para me condenares e não para me salvares. Não há para mim mimos do céu nem da terra; para mim tudo morreu, tudo desapareceu na negra escuridão da noite. É sempre noite, em todo o mundo noite. Sinto todo o mundo a tremer apavorado; lá se vai ele a mergulhar no abismo da perdição. Eu quero acudir-lhe, quero salvá-lo e não posso. Sinto a sua perda, mas não o vejo para o agarrar, não vejo as almas, não vejo as prisões, as trevas não me deixam. Meu Deus, perdi a luz, perdi a vida. Pobre do meu coração em dor e em ânsias: dor por Jesus ser ofendido, dor por as almas se perderem; ânsias de amar a Jesus, ânsias de O ver amado, ânsias de salvar as almas. Que fogo consumidor! Sinto o estalar do rochedo por onde o fogo vai penetrando. Mas ah! é impossível estas chamas incendiarem tudo. E eu só enrolada, mergulhada sempre na negrura mais aterradora. Quando mais não posso, levanto os olhos ao céu e digo:

— Meu Jesus, sei, acredito, confio que estais em mim e sabeis que só a Vós quero amar e não Vos quero ofender.

E, descendo para baixo, imagino ver toda a humanidade e digo-lhe:

— Ó mundo, quero salvar-te, por ti, pela tua entrega a Jesus, quero sofrer tudo.

Dito isto, fico de braços caídos, como se no meu corpo não existisse gota de sangue. Nada feito, do mundo nada consigo. A minha prece não chegou ao céu, Jesus não a ouviu. Mas ah! tenho aqui um coração que palpita por Ele e Ele bem o sabe. Confio, confio; é Jesus e a Mãezinha que vão vencer as minhas trevas. São Eles que vivem, são Eles que sofrem em mim. Os ceguinhos que não têm olhos no corpo também se salvam. Eu perdi a luz da minha alma, maior será a compaixão de Jesus. Hei-de salvar-me e com Jesus hei-de salvar muitas almas. O demónio rodeou-me tanto durante a noite! Não foi um, foram muitos. Assustava-me tanto pelas formas com que se apresentavam! Um deles tinha uma tão grande e tão feia, quase me tocava com ela. O meu corpo ficou como se fosse uma casa com janelas por todos os lados; estas todas fechadas, mas todas rodeadas por eles. São como feras que querem lançar-se à presa, são ladrões que querem assaltar a casa, assassinos que querem matar quem nela habita. Que olhares tão maliciosos! Que gestos de tanta maldade!

— Não pecarei eu, meu Jesus? Tirais disto alguma consolação para Vós, algum proveito para as almas? Sou a Vossa vítima, guardai para Vós o meu coração, o meu corpo e a minha alma. Tende dó de mim, meu Jesus.

Parece-me que em nada falei verdade. (Sentimentos da alma: 30 de Abril de 1945)


segunda-feira, abril 24, 2017

UM DIA, UMA MENSAGEM

OS ESPINHOS NÃO CESSAM DE FERIR-ME


Não chegou a minha aleluia. Não houve para mim a ressurreição de Jesus. Estou em agonia. Estou em grandes sofrimentos da alma. Todo o meu ser é um trapo que a dor desfez, produzido pela lepra do pecado. Os espinhos não cessam de ferir-me. São bem agudos e penetrantes.
Duas coisas tive de motivo de alegria, se Jesus mas deixasse sentir. Aprouve ao Senhor que nada me alegrasse; só com os olhos n’Ele me alegro no cumprimento da Sua divina vontade. Custa-me tanto, tanto, dizerem-me à minha frente que lhes foi dito que quem me visitasse ficaria excomungado.
— Jesus, Jesus, ai quanto custa! Seja tudo por Vosso amor e pela salvação das almas.
Causam-me pavor as visitas. Parece-me ter nojo delas. A todos ao mesmo tempo quero abraçar e possuir no meu coração; mas, meu Deus, essa excomunhão de que me acusam prejudicará essas almas?! Não estou aqui para ruína delas, mas sim por Vosso amor e por elas me imolar. Não posso dizer mais nada. Vou dizer as palavras do colóquio de Jesus. Mas, ah! Se eu pudesse ao menos colocar neste caderno o livro infindo do meu coração para ele dizer tudo, para falar do amor de Jesus, para dizer o que é dor e a minha loucura pelas almas! Se eu pudesse fazer desaparecer o pecado, para o meu Amado não ser ofendido, para nenhuma alma se perder. Que sabedoria tem este livro! Como ele conhece e compreende todas as coisas, e como eu sou ignorante para as saber dizer. Não há ignorância igual à minha.
Depois de eu ter desprezado e esquecido o horto, esqueci e desprezei o calvário. Caminhava na maior angústia, caminhava de tal forma que o chão se abria para me engolir e em corpo e alma ia precipitando-me no inferno.
Meu Deus, que pavor! Já nas garras de Satanás, atormentada por ele, ouvi alguém que fez abrir a terra que me tinha engolido, tirou-me da garra do demónio e das chamas infernais. A alma agonizava e o corpo estava cansado de tanto sofrer. Chamei por Jesus e pela Mãezinha. Uma coisa me dizia: perdi tudo. Não existem para mim, não tenho Jesus, não tenho a Mãezinha. Tive um desfalecimento mortal. No meio dele, principiei a repetir o meu “creio” sem acreditar. Ouvi a voz de Jesus que me chamou:
— Minha filha, minha querida filha, levanta-te! Coragem! Vem a Mim! Tu tens de viver sem vida, tens de viver sem luz, tens de acreditar sem sentimento de que acreditas. Amas-Me sem saberes que Me amas, sem teres esse sentimento. Os pecadores, as almas, o mundo, obrigam-Me a exigir de ti esta reparação. Coragem! Coragem! É para que as almas não caiam no inferno.
— O inferno, o inferno, ó Jesus, que tremendo é o inferno! Não posso pensar que as almas se perdem. Não posso consentir que as almas caiam no inferno, não posso saber que o Vosso Divino Sangue foi derramado inútil. Onde estais, Jesus, onde estais? Que escuridão, que montanha, que distância me separa! Eu amo-Vos, Jesus, eu amo-Vos na minha cruz, na minha dor! Aceito, aceito. Tudo por Vós!
Desta escuridão passei à luz; da agonia à suavidade. Jesus continuou, mas sem que eu O visse:
— Esta distância é a minha distância do pecador. A montanha são os crimes. A luz que vês é a minha luz; a suavidade o meu conforto. Tu és a minha vítima. Coragem e confiança! Tu fechaste com os teus sofrimentos as portas do inferno a milhares, a milhões, a milhões de almas. Nunca mais se abrirão para elas. O inferno abre-se para aquelas almas que desprezaram o meu Sangue, que calcaram o meu Sangue divino e desprezam ainda os meios que lhes dei, os sofrimentos, a imolação contínua da vítima deste calvário, da maior vítima que escolhi par a humanidade.
— Ó Jesus, que tormento o meu, que humilhação. Eu desapareço ao ouvir-Vos falar assim.
Voltei ao meu nada, ao nada de que me tirastes. Falo assim, digo a verdade.
— Posso falar, posso dizer tudo da minha esposa amada. Tem coragem!...”
Fui tão ao nada, fiquei no silêncio da morte. Algum tempo depois, a voz de Jesus deu-me a vida, mas então vi-O em tamanho natural com o Seu peito aberto e a pegar para as Suas mãos o Seu Divino Coração. Juntou-O ao meu e disse:
— Vem receber a gota do meu Divino Sangue, a vida para viveres, a vida para dares. Tem coragem! Um pouco mais! Um pouco mais, porque o teu Céu está perto. A tua missão lá vai continuar. Por ti as almas são enriquecidas. Por ti o mundo será favorecido. Eu não falto às minhas promessas. Eu queria que se compreendesse a minha vida prodigiosa em ti. Eu quero que todos saibam a tua loucura de amor por Mim, por Mim e pelas almas, pelas almas de quem sentes pejo e pavor. É para que o não sinta Eu! Esse pejo e pavor causam-me elas a Mim. És vítima, és vítima! Coragem! Coragem!”

Desapareceu Jesus. Eu voltei à tristeza, à cegueira, à morte. Fiquei na cruz, angustiada, mas não esqueci nem um só pedido. Lembrei tudo a Jesus, mesmo na Sua ausência a repetir o meu “creio” muitas, muitas vezes, recordando que Ele prometeu sempre estar comigo. (Sentimentos da alma: 23 de Abril de 1954 - Sexta-feira)

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

HEI-DE VOS ESMIGALHAR

Balasar, 3 de Fevereiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Cá estou eu a agradecer a boa cartinha que o meu Paizinho teve a caridade de me escrever. São momentozinhos de alívio para logo voltar ao mesmo estado. Bendito seja Nosso Senhor! É por Ele tudo. Está um dia tão lindo! Quanto mais o sol resplandece contra as janelas e estende os seus raios para dentro, mais sofro ainda. Mais me faz sobressair a dor e a tristeza que sinto em minha alma. Hoje, antes de comungar, ai meu Jesus, como era medonho o meu estado. E logo que recebi a Jesus, parecia-me que Ele se abraçava ao meu coração, parecia arrancar-mo. E com tanta mágoa dizia-me:
— Tem pena, tem dó de Jesus: compadece-te de Mim, minha crucificada. Que ingratidão, que maldade a do Universo. Que dor pungente, que tristeza infinda. Sofro tanto! Não posso sair da dor, da tristeza e da amargura. Como há-de sair a minha esposa mais querida que está crucificada comigo?


E o meu Jesus soluçava dentro de mim e dizia-me:
— Só depois de uma libertação completa Eu darei suspiros como quem está desafogado e livre de tanto peso.
Eu sentia então também, por momentos, o alívio que certamente virá Nosso Senhor a ter. Agora não digo mais nada. Daqui por três quartos de hora devo estar na crucifixão.
Meu Paizinho, ontem mais nada ditei: fiquei muito cansadinha, não podia mais.
Nosso Senhor, antes de principiar a paixão veio, como de costume, infundir-me coragem. Falou-me assim:
— Ó minha querida crucificada, cá está o mendigo que, de oito em oito dias, te vem pedir a esmolinha da crucifixão. Serás capaz de negar alguma coisa ao teu Jesus?
— Não, mil vezes não.
— Bem, Eu o sei. Coragem pois. Eu sou a tua força: o teu Cireneu te acompanhará à imitação de Jesus.
Durante a paixão senti-me sempre muito abandonada: mas o meu Jesus deu-me força. Não faltou ao que prometeu e fez com que o Cireneu me ajudasse também. Custam tanto! Têm sido tão violentos! Mas ai, meu Paizinho, mais me custam ainda as dúvidas. Que medo, meu Jesus, ai que medo eu tenho de enganar e de tudo ser feito e dito por mim. Ai, ai, meu Paizinho, as dúvidas estão a poder mais que eu: estou a ficar em grande abatimento, muito, muito desfalecida.
O demónio diz-me que sou tão excomungada que nem o inferno me quer; nem o meu Paizinho, nem o Senhor Cónego Vilar. São todos da mesma comanda:
— Acredita-me! Ai deles e ai de ti, minha f., se a consagração do mundo vai ser feita. Hei-de vos esmigalhar.
Que bufada, que rangido de dentes, e isto com muitos nomes feios.
Adeus, meu Paizinho. Estou faminta de amor. Nada me mata a fome. Rogue por mim a Jesus e à Mãezinha.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.
Fará o favor de dar lembranças minhas aos Senhores Padres.

A bênção e perdão para a pobre, Alexandrina.

terça-feira, abril 24, 2012

EU ERA A CIDADE DE JERUSALEM


Ao cair da tarde, senti-me então reunida com os amigos.

Jesus esteve em silêncio uns momentos e depois continuou:
— Não pecaste, minha filha: reparaste, consolaste, honraste o meu divino coração. Para as almas não sofrerem no inferno o que naquele abismo viste é que exijo de ti esta reparação. É fogo de vícios, são paixões, é a carne. Para reparar nesta matéria, só uma virgem inocente, só um enchente de fogo de amor pode apagar o enchente de vícios lodaçais. Tu és o brilho e encanto dos meus olhos. Sossega, sossega, não pecaste. Dá ao meu querido Padre Humberto a abundância do meu amor. Diz-lhe que estou com ele quando ora, quando trabalha, quando guia e encaminha para mim a tua alma. Dá-lhe por mim os meus agradecimentos.
Neste colóquio com Jesus, não tive medo d’Ele, mas logo depois voltei a sentir todo o meu martírio. De manhã cedo, principiei a sentir que Jesus chorava dentro em mim. Eu era a cidade de Jerusalém e era Jesus. Eu era o amor e a ingratidão. Do meu coração saíam para a cidade os mais doces e ternos olhares; eram olhares de chamamento, olhares de compaixão. Mas oh! o que eu via sair dali, que revolta contra mim. Ao cair da tarde, senti-me então reunida com os amigos. Ó meu Deus, o que se passou, que quadros tão diferentes. Eu era Jesus e contra o meu coração sentia inclinar-se alguém e eu era esse alguém. Eu era a mesa, eu era o pão e o vinho; eu era o cálice onde ele era deitado; eu era as taças onde se serviam os alimentos; eu era Judas, era tudo. Eu era a doçura e mansidão de Jesus; era o desespero e traição de Judas. Que noite, que santa noite, a maior de todas as noites, a noite do maior milagre, do maior amor de Jesus. O Seu Divino Coração estava preso àqueles que Lhe eram tão queridos. Para poder partir, tinha de ficar entre eles, para subir ao céu, tinha de ficar na terra; assim o obrigava o Seu amor divino. Sinto necessidade de esclarecer todas estas cenas, mas não posso, não sei. O olhar esgazeado do mau discípulo ficou gravado em meu coração e todo aquele silêncio profundo de saudosas despedidas. A amargura da minha alma não podia subir mais alto. E, para afirmar mais esta amargura, vieram os sofrimentos da terra causados. Juntei a dor ao sacrifício e quantas vezes em espírito, com os olhos fitos no céu, ofereci ao trono divino o cálice da minha amargura.

Sentimentos da alma, 8 de Março de 1945

sexta-feira, abril 13, 2012

OU SOFRER OU MORRER !

Seja feita a Vossa vontade

— Minha filha, a tua reparação, as raízes fortíssimas do teu amor arrancam deste medonho abismo as raízes do pecado das almas que nele estão. Vêm subindo para mim, embora caiam, não voltam a cair tão fundo, caem para se levantarem e, a pouco e pouco, ficarão firmes. Coragem, filhinha! Não tens nisto consolação?
— Meu Jesus, não tenho outra senão a de Vos ter consolado. E Vós estais?
— Muito, muito, minha pomba bela. Espremo, espremo o meu cachinho de uvas, consolo-me, delicio-me nos preciosos licores que ele me dá. Chupo tudo para minha consolação e alegria, tudo aproveito para as almas. É por isso que não te dou alegria nem consolação com a presença daqueles que ta podiam dar, privando-os a eles de se consolarem e alegrarem de te verem alegre e consolada.
— Obrigada, meu Jesus, seja feita a Vossa vontade.
Horas depois, voltou o demónio, principiou com as mesmas manhas e actos feios. Logo que o pressenti, ofereci-o a Jesus em reparação pelas almas que Ele me pediu. Fi-lo depressa, enquanto o maldito mo deixava fazer. Quase nos mesmos momentos, dizia:
— Jesus, Jesus, não quero pecar.
No mesmo instante, repetia em mim sem eu querer:
— Quero, quero pecar, quero o prazer, quero gozar.
Imediatamente, voltava a dizer:
— Jesus, Mãezinha, valei-me, não quero ofender-Vos.
Logo repetia, sem minha vontade:
— Quero ofender-Vos o mais gravemente.
Pobre de mim, parecia-me estar toda, toda entregue a Satanás, toda em ânsias de satisfazer paixões. O meu coração já não podia com tanta luta. O meu corpo não era cinza, não era outra coisa a não ser dor, dor que só pode ser conhecida por quem a experimentar. Parecia-me que o demónio tinha realizado os seus desejos. Voltei a chamar por Jesus. O maldito dizia-me:
— Chama-O agora, depois de satisfeita, depois de teres pecado.
Veio Jesus, colocou-se ao meu lado, não fez outra coisa senão levantar a sua bendita mão à frente de Satanás; deu-lhe sinal de paragem, e, imediatamente, cessou o ataque, e o maldito fugiu.
— Ó meu Jesus, em que agonia me preparei para Vos receber. Que grande confusão a minha. Que vergonha ao dar-Vos entrada no meu coração. Não posso pensar na Vossa bondade infinita.
Durante o dia, surgiram-me espinhos dum lado e do outro. De boa vontade, sem tentar desviá-los, com os olhos em Vós e por amor às almas, todos deixei cravarem-se em meu coração. Ou sofrer ou morrer. Se não consolo o meu Jesus, se não salvo almas, que estou aqui a fazer, para que serve a minha vida? Para nada, nada.
*****
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 26 de Fevereiro de 1945)

sexta-feira, outubro 21, 2011

SOFRI UM CORTE...

Como estou só, tão só, sem ninguém!

Eu não posso, por vezes, resistir a ânsias tão fortes e tão loucas de amor a Jesus; parece-me morrer. Quanto mais quero a vida de Jesus e o Seu amor divino, mais despida e fria me sinto de tudo. Tudo é miséria, toda eu sou misérias.
O demónio aproveita-se de todo este estado de alma para deitar tudo por terra, para mais atormentar o meu espírito já tão atribulado. Ai de mim, se falta à minha alma a paz e a força do meu Deus.
Sofri um corte, mas um corte, que abalou tudo, de todos os que me são mais queridos. Como estou só, tão só, sem ninguém! Ter-Vos-hei a Vós, meu Jesus, e a Vossa graça? Se Vos possuo, nada mais quero; estou segura. Que medo, mas ó que medo eu tenho de falar dos meus sofrimentos; é uma nova cruz; não posso dizer que sofro! Nada posso dizer da minha dor e das coisas de Jesus sem grande martírio para a minha alma. Que horror! Ó santa obediência, como tu és poderosa!
A caveira grande e deformada continua dentro em mim; não posso vê-la; e para meu maior martírio tenho que vê-la e senti-la. Que nojo! Ter que fitá-la a desfazer de podridão!

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 5 de Setembro de 1947 - Sexta-feira)

quarta-feira, julho 20, 2011

QUE AMOR LOUCO, QUE AMOR SEM IGUAL

28 de Março de 1947 - Sexta-feira

A morte vem, aproxima-se para breve, mas é uma morte que, me deixa viva, só o corpo morre; são os pecados, é o mundo inteiro a matar-me, mas não pode matar tudo. A vida que sinto não morrer é a vida superior, é a vida de triunfo, é a vida que faz viver e governa todas as vidas. Sinto que ela está em todo o mundo como sopro de ar espalhado. Sinto que a esta vida pertence todo o Céu e toda a terra. Sinto imensa necessidade de falar desta vida, de a fazer conhecida e não sei; limito-me apenas a dizer; é a vida de graça, é a vida de amor. Mas oh! Que amor louco, que amor sem igual! Eu queria amar esta loucura de amor, com amor e loucura semelhante. Mas, ó meu Deus, como estou longe! Sinto que se trabalha dentro em mim; toda a mobília da minha casa, isto é, do meu corpo saiu fora. Toda a imundice, todo o pó é limpo, mas não por uma só vez; tem sempre de se voltar atrás e limpar novamente. O meu vazio é tão grande; só o Céu o pode encher, só Jesus com todo o Seu amor o poderá satisfazer. O mundo não me enche, nem milhões deles, se os houvesse. Sinto-me como a querer fugir da terra, a aborrecê-la, a odiá-la; não me pertence, quero desaparecer dela. Ando como se fosse um sopro a vaguear nos ares. Quero ir para Jesus, encher este vazio. Mas Ele está tão longe. Ai, a minha Pátria! Quanto mais a anseio, mais a vejo fugir. Daqui nascem os meus desânimos e desalentos; mas estreitando contra o meu peito o Crucifixo, logo me levanto. Hei-de vencer com Jesus. A cegueira é tanta, não me deixa ver, fico como desatremada nos seus caminhos. Mas a minha confiança, tantas vezes contra toda a esperança obriga-me a crer: sou de Jesus e da Mãezinha. Depois de tanta luta, tanto sofrer, virá o Céu. Sei que o não mereço, mas espero não ser por Jesus, nem pela Mãezinha abandonada.
Haverá alguém que só Neles confie e fique Deles ao abandono? Oh! não! Oh! não; pensar assim, seria ferir Jesus. Quero ter o meu espírito sempre preso, açaimado para não perder a minha união com Deus. Se assim não for serei como animal mais feroz e sem freios; e no meio do mar doloroso martírio de alma e corpo não perder por um só momento que seja a união com o meu Deus. Quero separar-me tanto tempo Dele, como Ele se separa de nós com os Seus olhares divinos, e como a dor se separa do corpo. Não posso viver sem Deus; não posso viver sem a dor. Queria ver toda a humanidade a viver a vida íntima com Nosso Senhor; estou certa que o pecado desapareceria da terra.
O demónio não cessa a sua guerra contra mim; o meu espírito é com dúvidas consumido. Quando assim é, Jesus vem por uns momentos suavizar a minha alma com o Seu amor e a Sua paz; fico mais forte para a luta. Passou o quinto aniversário que Jesus deixou de manifestar em mim a Sua Santa Paixão e deixei de me alimentar. Só quero o que Jesus quer. Mas ó que pena e que saudades. Senti durante três dias como se todo o meu ser tivesse bocas para comer; tudo ansiava. O alimento que eu desejava, que era tudo, sentia que todo o mundo o comia; para mim só me bastava a dor e a saudade. Meu Jesus, sou a Vossa vítima. Os olhos do corpo não choravam, mas os da alma suspiram o lugar; foram lágrimas dolorosas, mas sempre conformes com a vontade do Senhor.

(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 28 de Março de 1947 - Sexta-feira)