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quinta-feira, junho 10, 2021

EM NADA, MESMO NADA TENHO ALEGRIA

Eu já tinha sofrido tanto!


O demónio principiou de novo com as suas ameaças. Ontem à noite, quando rezávamos, ele veio atormentar o meu espírito, abanar-me com a cama, até ser notado por alguém; e bailava de contentamento. E eu já tinha sofrido tanto! Tive um dia tão cheio de espinhos! Oh! quanto se sofre! Oh! agonias das almas que não sois compreendidas! E eu sozinha e só miséria. Jesus espreme e tira para Si toda a substância. Em nada, mesmo em nada, tenho alegria. Que Ele se alegre e console nesta noite, nestas trevas do meu espírito. Elas surgem cada vez mais; infundo-me nelas e momento a momento mais tenho que atravessar. Hoje revivi, momento a momento, pormenor por pormenor, a minha ida para a Foz. Dois anos são passados. Foi um painel que se apresentou à minha frente, passei hoje novamente por tudo. Eu dizia para mim mesma:

— Por quem obedeci? Por quem sofri tudo isto? Só por Jesus e pelas almas. (Alexandrina Maria da Costa: 10-06-1945)

segunda-feira, maio 31, 2021

OU SOFRER OU O CÉU

Que valor pode ter a vida, se não sofro


Termina o mês da Mãezinha. Que saudade eu tenho de ele findar! Será de verdade o meu último Maio na terra? Que pena eu tenho de não A ter amado muito assim como a Jesus! Tudo foge, tudo passa, tudo se esconde, só a minha miséria aparece para a ver claramente nos mundos das minhas trevas. Abro os meus braços ao céu, quero abraçar o meu martírio e, junto a ele, Jesus e a Mãezinha. Tenho sede, e nada há que me satisfaça, nem ao menos o sofrimento. Temo-o, mas quero-o para dar a vida às almas, para consolação do meu Jesus. Ou sofrer ou o céu. Que valor pode ter a vida, se não sofro, se não amo? (Alexandrina Maria da Costa: S. 31 de Maio de 1945).

Na imagem:
A beata Alexandrina e o Padre Mariano Pinho.

segunda-feira, maio 10, 2021

NADA SEI DIZER

 O demónio tem-me atormentado tanto, tanto!


— Tirai, Jesus, tira, meu Amor, para Vós a consolação e a alegria, deixai para mim o que é dor e trevas. A vontade quer aceitar por amor; a pobre natureza fraqueja, porque mais não pode. Tende dó de mim, Jesus.

O demónio tem-me atormentado tanto, tanto! Tudo aproveita para me martirizar. Eu que tudo faço por malícia, que tudo faço para enganar; enche-me de dúvidas. Veio com um ataque tão atormentador! Eu não tinha no meu corpo o mais pequenino bocadinho que não servisse de instrumento para ofender a Jesus. Parecia-me que o maldito se utilizava de todo o meu ser para pecar comigo, para ferir o meu Jesus.

— Ó meu Deus, que mar de crimes! Ofender-Vos com todos os meus sentidos!

Lutei por muito tempo, no meio de insultos, e ele parecia-me ser o senhor do meu coração. Figurava-se-me que o via dentro dele. E ele dizia-me:

— Expulsa-me do teu coração. Não és capaz, sou senhor dele.

Depois de muito lutar e lutar às portas da morte, fiquei caída, fora das minhas almofadas. Sem poder mexer-me, invoquei muitas vezes o nome de Jesus, chamei por Ele, pedi-Lhe para me acudir, mas oh! com que vergonha e tristeza! Ouvi Ele dizer-me assim:

— Com um sopro, saído dos meus lábios divinos, vais docemente para as tuas almofadas, minha filhinha.

E vi-O então a Ele senhor do meu coração. Era Jesus Menino, já crescidinho. A cruz era maior que Ele.

— Sou eu o rei, sou eu o senhor. És minha e tudo o que é teu a mim pertence. Não pecaste, minha filha. O teu corpo não é como o demónio te faz sentir, um instrumento de pecado; todo ele é um instrumento de reparação para mim. Repara, repara, aceita, abraça a tua cruz. O teu corpo é de pureza, o teu coração é de amor.

— Confio, meu Jesus, não me falteis e não consintais que eu mova os meus lábios e nada faça que Vos desgoste.

No meio das minhas amarguras, no abismo das minhas trevas, quando já não posso mais e me parece não haver remédio para os meus males, sinto por vezes Jesus no meu coração a estreitar-me com todo o amor e a repetir-me uma e muitas vezes:

— Coragem! Eu estou contigo, não te falta o conforto do teu Jesus. És minha, eu amo-te, nada temas. Sofre contente, sofre por amor, não deixes as almas perderem-se.

Tudo isto faz-me reviver, mas por bem pouco tempo. Só as ânsias de me dar às almas, de salvar o mundo não cessam, consomem-me o coração. Que desejos tão vivos de incendiar no mundo o fogo divino, o fogo que, sem ser meu, sinto-o, consome-me, devora-me!

— Ó mundo, hei-de vencer-te, hás-de salvar-te. Ó rochedo, hei-de reduzir-te a chamas, hás-de amar a Jesus, hás-de ser puro, hás-de viver para Ele.

O demónio continua a rodear as janelas que cercam o edifício do meu corpo. Redobra sempre a sua malícia, tenta entrar por uma e por outra. Enraivecido, uiva e desespera-se, por nada poder conseguir. Não posso lembrar-me que hoje é o dia a Ascensão de Jesus ao céu. Parece-me que Jesus subiu, deu a Sua entrada no céu sem ser louvado e festejado. As trevas cegaram os anjos e todos os habitantes do céu. O meu coração apavorado chora lágrimas de dor e de sangue. Sente as cordas que amanhã lhe vão atar o seu corpo. Sente nele as bofetadas e os escarros que ao rosto lhe hão-de ir cair. Pobre coração, que não sabe amar, que não sabe compadecer-se de Jesus, que está nele caído com a cruz às costas e atado com grossas cordas. Visão dolorosa a da minha alma! Em que estado ela vê Jesus. Anteciparam-se os sofrimentos; já hoje sinto tudo. Durante a Ceia vi e senti o abraço de Jesus a seus discípulos. Que abraço tão terno e eterno! Entre eles houve um que recusou, não quis aceitar. Mas a ternura e o amor de Jesus continuaram ainda sobre ele. Como Nosso Senhor sofreu ao ser desprezado o Seu convite, o Seu amor, o Seu chamamento! Se Jesus, a Mãezinha ou os anjos falassem em meus lábios para gravarem bem nestas linhas o amor divino e a ingratidão do mundo a esse amor! Que sede eu tenho de dar almas a Jesus, de salvar o mundo e de matar o pecado para sempre, para sempre! Não sei dizer o que quero e não vejo nada para fazer, estou ceguinha. (Alexandrina Maria da Costa: 10 de Maio de 1945).

segunda-feira, novembro 21, 2011

É CRISTO EM TODO O TEU VIVER

Eu quisera, filha querida, que viesse o mundo inteiro, junto de ti

Passou-se algum tempo neste estado mortal; veio como que uma nuvem de fogo, envolveu-me nela, o coração principiou com total fogo, envolveu-me nela, o coração começou a arder com tal fogo que se comunicava ao  corpo; este fogo queimava-me, mas sem me dar luz. Senti-me adormecer naquelas trevas mais claras e suaves. Não sei o tempo que passei neste sono com Jesus. Ao terminar do sono, ouvi que Ele me dizia:
― Minha filha, minha amada filha, a tua noite com o teu prolongado e inigualável Calvário são para as almas astros cintilantes, com vão com o Seu brilho penetrar nos corações e nas almas mais escurecidas pelas trevas do pecado. Confia, confia em Mim. Se soubesses a luz, que elas por ti recebem! Se soubesses os milagres, as grandes ressurreições que nelas são operadas neste teu quartinho, Calvário escolhido por Mim! O teu quarto é o templo das maravilhas prodigiosas do senhor. Eu quisera, filha querida, que viesse o mundo inteiro, o mundo que te confiei, junto de ti. São muitas as almas que vêm, mas em comparação das que precisam vir e eram Meus divinos desejos que elas viessem, é como uma gotinha de água caída do oceano.
Ao ouvir estas palavras de Jesus, não pude conter-me, e exclamei:
― Então, meu Jesus, ofendi-Vos, ficaste triste comigo por eu pensar: se eu pudesse ir com os meus para uma ordem e esconder-me a isto tudo. Dizei-me, dizei-me, Jesus.
― Sossega, sossega, Minha pomba amada; não Me ofendeste, antes recebi de ti consolação. Quando assim pensares, não acrescentaste logo: meu Jesus, não quero fugir à cruz, que me dais, quero só a Vossa divina vontade? Compreendi-te; está tudo visto. Que encantadora lição; viver escondida por Mim! Olha, Minha filha; é o mundo, são os pecadores o fim principal da tua vida aqui; é a tua missão, a mais alta e sublime missão. Quando mandas abrir a porta às almas, é Cristo em ti a abrir-lhes o coração: é Cristo que lhes fala com bondade e doçura, é Cristo que lhes sorri e as fita com olhares atraentes e encantadores e as convida para o Céu. É Cristo em todo o teu viver. Que loucura a minha pelas almas! E elas, ai delas! E elas, ai delas, tão mal Me tratam, tanto Me ferem! Olha para Mim.
Apenas vi o rosto de Jesus com semblante tristíssimo; todo o Seu Santíssimo corpo, da cabeça aos pés, tinha um vestido de espinhos, tudo era sangue. Acudi logo:
― Não posso ver-Vos, Jesus, nesse sofrimento; passai-o para mim, aliviai-Vos a Vós; não me poupeis, sou criatura Vossa e Vós o meu Senhor. Para assim sofrerdes, de nada valem os meus sofrimentos.
― Ai do mundo sem eles, Minha filha, ai do mundo sem vítimas, ai dele sem o teu Calvário contínuo; já a bomba divina tinha rebentado! Que incêndio de justiça sobre o incêndio dos crimes! O mundo é teu, é teu o mundo, confiei-to; sofre pelas almas; pensa só a elas salvares. Ó mundo, ó pobre mundo, que não acordas, ai o que te espera para breve, para breve.
Quando Jesus assim me falava, todos os espinhos Dele tinham desaparecido, mas ai que dor a minha! Pobre de mim, nada soube dizer a Jesus; fitei-O e fiquei calada.
― Coragem, Minha filha! Eu vou dar-te a gota do Meu divino Sangue; vai passar para o teu coração vagarosamente; vai ser como uma esponja com água; vai passar por todo o teu coração e correr em todas as veias. É o sangue que gera as virgens, é o sangue que te dá a vida, o sangue que te levanta as forças perdidas e consumidas pela dor, é o sangue que te anima a continuares no te martírio.
Jesus, enquanto falou, introduziu o tubo e deixou passar a gotinha vagarosamente; quando acabou de falar, já o tinha desligado.
― Coragem, coragem ,filha querida; vai para a dor, vai para a cruz. Vou pedir-te grande luta com o demónio. Repara-Me pelos sacerdotes, que é tão grande o número a ofender-Me. Repara-Me pelos casados, que praticam graves crimes. Repara-Me pela juventude desonesta, pela juventude corrompida. Vai sofrer, vai para a cruz, vai com alegria, vai ditar tudo; eu serei contigo e contigo levas a luz do Espírito Santo. Goza da minha paz, goza uns momentos da minha luz.
Fiquei sem dor, fiquei sem trevas, por um pequenino espaço de tempo. Abracei Jesus no meu coração, e disse-Lhe por despedida:
― Obrigada, obrigada, meu Jesus.


(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 14 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

sexta-feira, setembro 30, 2011

CAUSA-ME HORROR VER-ME VISITADA POR TANTA GENTE

O que em mim vai nascendo, nas trevas vai morrendo...

A minha vida morre nas trevas; eu já morri, e o que em mim vai nascendo, nelas vai morrendo sem conhecer a vida; apenas nasce, logo morre. Tenho o meu espírito tão escurecido parece-me que não sei compreender nem dizer o que sofro, o que em mim se passa. Eu sei que sofro dores, tristezas, amarguras, agonias de alma, mas não sei dizê-las, nem compreendê-las, nada ou quase nada. Apesar de ser em mim o sofrimento, sofro tanto à distância, sinto que não é meu o que sofro, e por ser tão longe e não ser meu, nada dele sei falar. Não me preocupa o não me compreenderem nem saber falar da minha dor, mas, sim, não sofrer como Jesus quer, com a perfeição que Ele quer, e não saber o que Ele quer. Causa-me verdadeiro horror o ver-me visitada por tanta gente. Tenho até nojo de mim, e pergunto a mim mesma: o que vem esta gente ver? Coitadinhos! Se vissem o que sou! E falo assim, porque sinto e vejo em mim um mundo de vergonhosa e nojenta podridão, podridão de tudo quanto há de imundo. Pobre gentinha que não vê o que eu sou! Esta repugnância e horror, que agora sinto às visitas, não é igual àquele que até agora sentia; este é mais sofrimento de alma; o que sentia era mais pelo cansaço e desejo de estar sozinha no silêncio, na união com Jesus. Este é mais horroroso, por ver que sou só podridão, que sou a vergonha da humanidade, indigna de aparecer aos divinos olhares de Jesus e ser assim tão visitada sem a pobre gente saber o que visita. O Senhor seja comigo, com a Sua graça, para que eu possa sofrer e ter aquela pureza de alma e corpo que o meu Jesus quer e eu devia ter. Ó meu Deus, ó meu Jesus, não sou digna de Vós. Onde está a minha perfeição? Em nada a encontro.

*****
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 18 de Julho de 1947 - Sexta-feira)