23 de maio de 2018


PERÍODO EM QUE O DEMÓNIO MAIS ME APOQUENTOU


– Se a vida material melhorou nesta altura, redobraram os assaltos do demónio que há meses me vinha ameaçando. Foi em Julho de 1937 que o «manquinho», não satisfeito de me atormentar a consciência e de me dizer coisas demasiadamente feias, principiou a atirar-me abaixo da cama e de noite e a qualquer hora do dia.


A princípio, até para as pessoas da casa fui encobrindo, menos para a minha irmã, passando por ser aflições do coração. A pouco e pouco, o mal foi aumentando e teve que o saber minha mãe e uma pessoa que vivia connosco. Quem observava os tombos que eu dava abaixo da cama mostravam-se muito pesarosos, não supondo nada do que se tratava. Passavam-se os dias e o mal aumentava sempre. Uma noite atirou-me para o chão, passando por cima da cama de minha irmã, que ficava junto de mim. Ela levantou-se, pegando em mim ao colo, e dizia: «Anda para a tua caminha.» Mal ela me deitou, levantei-me rapidamente e dei uns assobios. Reconhecendo imediatamente o mal que tinha feito, principiei a chorar e disse para minha irmã: «Ai, o que eu fiz!» Ela sossegou-me, dizendo: «Não te aflijas, que não foste tu.» Na noite seguinte, voltou a acontecer o mesmo, e disse-lhe em voz alta: «Não me deito» – afastando-a de mim. Quando reconhecia que fazia mal, chorava.
Uma noite em que passei com o mafarrico as coisas piores que se podiam imaginar, o que tudo desconhecia e ignorava, chorava amargamente e pensava não receber o meu Jesus sem me confessar. Nesse dia, o Sr. Abade não estava na freguesia para vir trazer Nosso Senhor, mas pensava quanto me custaria ter de dizer que não comungava sem me reconciliar, com receio que o Sr. Abade me perguntasse a causa, e ter de lhe dizer tudo, tudo, e não querer abrir-me com ele. Minha irmã, ao ver as minhas lágrimas, procurava consolar-me por todas as formas. Como não conseguisse, disse-me que à tarde iria falar com o meu Director espiritual que se encontrava a fazer uma pregação numa freguesia vizinha da nossa. Disse-lhe que nada adiantava, pois não lhe diria a ele o que se tinha passado. Pedi-lhe um postal de Nossa Senhora e, com grande sacrifício, descrevi por maior o sucedido, guardando-o debaixo do travesseiro até que chegasse a hora de o ir entregar. De repente, entrou no meu quarto o meu Director, acompanhado por um seminarista, trazendo-me Jesus-Hóstia para eu receber. Como soubesse que estava para banhos o nosso pároco, teve a boa lembrança de me vir trazer Jesus. Quando Sua Reverência me disse que trazia Nosso Senhor para receber, respondi-lhe: «Não posso comungar sem me confessar.»
As lágrimas e a vergonha não me deixavam falar. Com muito custo disse que tinha escrito um postal e que o guardava sob o travesseiro. O meu Director tomou-o, leu-o e tudo compreendeu, sossegando-me e dizendo-me que tudo previa em face de tudo quanto se tinha passado, mas não me tinha prevenido de nada.
Foi tremenda esta tribulação, que se repetiu por várias vezes. Tinha ataques muito furiosos duas vezes por dia, pelas nove ou dez horas da noite e depois do meio-dia, durante cerca de uma hora ou mais. Durante os ataques, sentia em mim toda a raiva e furor do inferno. Não podia consentir que me falassem de Nosso Senhor e na Mãezinha, nem podia ver as Suas imagens, cuspindo-as e calcando-as aos pés. Também não podia consentir junto de mim o meu Director; chamava-lhe nomes, queria espancá-lo e tinha-lhe uma raiva de morte, assim como a algumas pessoas da casa. Ficava com o meu corpo denegrecido com as pancadas e a escorrer sangue com as mordeduras. Também dizia palavras muito feias para quem estava junto de mim. Hoje gostava que muita gente presenciasse só para temerem o inferno e não ofenderem a Jesus.
Depois que passava a influência do demónio e recordava o que tinha feito e dito, sentia horrorosos escrúpulos; parecia-me ser a maior criminosa. Foram meses de doloroso martírio. Muito mais tinha que dizer sobre este assunto, mas não posso. A minha alma não resiste ao relembrar tais sofrimentos. (Autobiografia)


PRIMEIRO EXAME DA SANTA SÉ


– Em 1 de Maio de 1937, recebi a vista de Rev.mo o Padre Durão. Vinha mandado da Santa Sé para examinar o caso da consagração do Mundo a Nossa Senhora. O meu desejo era viver ocultamente, sem que ninguém soubesse o que se passou. Sua Reverência entregou à minha irmã um cartão do meu Director espiritual e disse-lhe que mo lesse. Ao ouvir as palavras do cartão que eram assim «Vai aí o Sr. Padre Durão; fale-lhe à vontade e responda-lhe a tudo o que lhe perguntar», fiquei admirada e disse para a minha irmã: «Que hei-de eu dizer-lhe?» Não sabia que era preciso estes exames para casos destes. Minha irmã animou-me e disse-me: «Dirás o que Nosso Senhor te inspirar.»


Fiquei surpreendida quando me fez perguntas das coisas de Nosso Senhor, mas, sem a mais pequena hesitação, comecei a responder às suas perguntas. Sua Reverência disse-me que só queria que lhe dissesse o principal, pois não me queria cansar, visto ser grave o meu estado. Respondi-lhe que não sabia que era o principal. Sua Reverência disse-me: «Gosto disso, gosto disso.» E foi quando me falou da consagração do mundo a Nossa Senhora. Depois de me fazer várias perguntas, com muito bom modo, disse-me: «Não se enganará?» Ao ouvir estas palavras, passou-me pela mente o engano da minha morte e pensei assim: «Isto é contra mim, vou já dizê-lo.» Então respondi: «Enganei…» E contei-lhe o que se tinha passado na Festa da Santíssima Trindade de 1936. Sua Reverência não mais me disse se estaria enganada, e falou assim: «Estas coisas custam muito, não custam?» Respondi: «Custam e fico triste.» E comecei a chorar. Sua Reverência pediu-me para o não esquecer nas minhas orações e prometeu-me nunca me esquecer no Santo Sacrifício da Missa.
Ajoelhou-se, rezou três Ave-Marias a Nossa Senhora e algumas jaculatórias. Despediu-se de mim e retirou-se. Chorei muito e fiquei muito atribulada e triste por se saber o que há tanto tempo de passava ocultamente. Escrevi logo ao meu Director espiritual, contando-lhe tudo. Sua Reverência respondeu-me imediatamente sossegando-me e dizendo que era tudo para glória de Nosso Senhor.

Nota do Padre Mariano Pinho: «Esqueceu a narração de como, em Setembro de 1936, se escreveu para a Santa Sé sobre a Consagração.


MORTE APARENTE OU MORTE MÍSTICA


– Em 1935, Nosso Senhor preveniu-me de que iria morrer antes da festa da Santíssima Trindade de 1936. Como não conhecia outra morte, pensava que era deixar este mundo e partir para a eternidade. Nesse tempo, tudo eram mimos, consolações e alegrias espirituais. À medida que se ia aproximando o dia da Santíssima Trindade, aumentava a minha alegria e contentamento. Ia passar no Céu a festa dos meus tão queridos Amores, como lhes chamava: Pai, Filho e Espírito Santo.


Os males do corpo iam aumentando e tudo dava sinal da minha partida. Dois dias antes, Nosso Senhor disse-me que morreria das 3h às 3,5 da manhã e que mandasse vir o meu Pai espiritual. Assim o fiz. Ele chegou ao cair da tarde e passou a noite junto de mim. Preparei-me para morrer. Sua Reverência fez comigo um acto de inteira resignação e conformidade com a vontade de Deus. Pedi perdão à minha família, a cantar de alegria, assim:

Feliz, oh, feliz
Se eu tal conseguia,
Morrer a cantar
O nome de Maria!
Feliz quem mil vezes,
Na longa agonia,
Com amor repete
O nome de Maria.

A aflição ia aumentando, à hora marcada por Nosso Senhor, não sei o que senti, deixando de ouvir o que se passava à volta de mim. O meu Pai espiritual e a minha família rezaram o ofício da agonia, acenderam uma vela benzida, meteram-ma nas mãos, mas eu já não dei por isso, e assim estive algum tempo.
Julgavam-me já quase morta e choravam por mim. Nessa altura, já ouvi os choros dos meus; principiei a respirar e, pouco a pouco, reanimei-me, mas, ainda debaixo do mesmo estado, pensei: Estais a chorar e eu sempre morro. Estava sempre a ver quando aparecia na presença de Nosso Senhor. Não tinha pena por deixar o mundo e os meus queridos. Quando via que ia melhorar e que não se cumpriam as palavras de Jesus, caiu sobe mim uma tristeza que não se pode calcular e um peso esmagador.
Eram horas do meu Director espiritual se retirar, não tendo tempo para me dizer umas palavrinhas de conforto. Passei a festa da Santíssima Trindade como uma moribunda e dentro de mim tudo era morte. As lágrimas corriam-me, as dúvidas eram quase insuportáveis, porque não só me tinha enganado no que dizia respeito a este dia, isto é, à morte, como também em tudo quanto Nosso Senhor me tinha dito antes deste dia. Nos dois primeiros dias a seguir, parecia-me que todo o mundo estava morto. Não havia sol, nem lua, nem dia para mim. Era quase insuportável o meu viver. Aproximavam-se de mim a Deolinda e a Çãozinha, únicas pessoas que sabiam do caso, e diziam: «Não falas para nós? Não te ris?» Eu respondia-lhes: «Retirai-vos de mim!” Já não sou a mesma! Jamais me vereis rir; não haverá sol que me alumie!» – e chorava. Debaixo da maior dor e amargura, falava-lhes de tal forma que elas não tinham mais que me dizer.
Estavam as duas a combinar em ir uma delas ter com o meu Director espiritual, quando de repente apareceu o Sr. Dr. Oliveira Dias, que vinha em nome do meu Pai espiritual confortar a minha alma. Sua Reverência tinha-lhe contado tudo e, como não pudesse vir pessoalmente, pois estava em pregação, compreendendo bem o meu sofrimento, tratou de nos aliviar.
Sua Reverência, o Sr. Dr. Oliveira Dias, esclareceu-me o caso, contando-nos várias passagens que se tinham dado com alguns santos e desde então fiquei a saber que se tratava da morte mística, da qual nunca tinha ouvido falar. O Sr. Dr. Oliveira Dias pareceu-me um anjo que veio do Céu serenar a tempestade da minha alma. Continuei a viver muito atribulada, pois Jesus pareceu morrer também, ficando alguns meses sem ouvir a Sua divina voz. Quando aumentava a agonia da alma, recordava os casos que me tinham sido contados e animava-me com o que dizia o meu Pai espiritual. (Autobiografia)

19 de maio de 2018

TENHO FOME, TENHO SEDE DE POSSUIR JESUS



Tenho fome, tenho sede de possuir Jesus; não cessa, é devoradora. Quanto mais corro ao Seu encontro, mais sinto Ele fugir. Perdi-O, perdi-O, não O encontro no meio de tantas trevas. Infundo-me nelas cada vez mais, de olhos vendados e louca por tão grande dor ato na cabeça as minhas mãos. Não digo bem: sinto que o faço e que estou perdida no mar tempestuoso e encapelado, na noite mais negra e aterradora, mergulhada em mundos de escuridão. Sinto e ouço o zunir dos ventos, as ondas levantam-se à maior altura e baixam de novo serenamente. E eu sozinha, tão sozinha, sem ninguém! Ao sentir tempestade tão desastrosa, fito-a, escuto-a, mas com serenidade. Se morrer nela, morro por Jesus, morro pelas almas. Confio, espero, o meu corpo pode sofrer tudo, pode desaparecer destruído com o furor da tempestade, mas a alma tem o seu fim, há-de ir ao encontro de Jesus, Ele há-de recebê-la, há-de ampará-la e levá-la para Ele.
— Ó mundo, que tão ingrato tens sido para mim! E eu amo-te tanto; amo-te não pelos teus falsos encantos, mas sim porque és de Jesus. A minha dor por vezes é quase desesperadora. Oh! se não fosse Jesus e a Mãezinha! A Eles devo a minha resistência a tudo.
Jesus prometeu e não faltou: veio ontem e veio hoje, confortou a minha alma. Parece descer do ar como a avezinha que baixa ao seu ninho. Ontem falou-me depois de por um bom espaço de tempo me ter feito sentir o Seu divino amor e acalentar o meu coração com o Seu bafo divino. Disse-me:
— Minha filha, venho a ti com o meu amor que é a vida do teu corpo, que é a vida da tua alma. Sou teu, estou aqui, confia, sou o teu Jesus.
Hoje fez-me sentir a Sua divina presença em mim, fez dilatar fortemente o meu coração e cobriu-o das Suas ternuras e carícias. Depois disto despertei como dum sono e disse-Lhe:
— Muito obrigada.
Só no dia vinte, dia do Divino Espírito Santo, não veio, deixou-me todo o dia num prolongado martírio. Escondi o mais que pude, com o sorriso, a dor que sentia. Mas então nesse dia é que redobrou a ternura dos meus olhares, então é que eu via as almas, escolhi-as, ia ao seu encontro, atraía-as, prendia-as com as doces prisões que tinha em meu coração. E desde então vou-as enleando cada vez mais. Sofro por possuir tudo isto no meio da minha miséria.
— Meu Deus, guardar esta riqueza, que me não pertence, no meio da minha podridão! O que eu  sou, o que eu sou! Jesus, que horror!
De longe a longe, sinto os abalos na minha alma e junto com eles um desassossego, com que um desespero, mas que não é meu. Abro os meus braços, estendo-os na cruz, ofereço a Jesus o meu coração e deixo-me imolar, deixo-me sacrificar. Tenho sede do amor de Jesus e não O amo. Tenho sede das almas e não as salvo. Renovo a minha oferta de vítima e aceito o que Jesus quiser. (Sentimentos da alma: 22-05-1945)


18 de maio de 2018

UM DIA NA VIDA DA BEATA ALEXANDRINA




18 de Maio de 1945 – Sexta-feira

Bendirei ao Senhor. Recebi de Jesus, neste mês bendito da querida Mãezinha, mais um miminho, que veio abrir-me a sepultura, e mais miminhos que vieram cravar-me na chaga do meu coração sempre a sangrar, não a deixando assim cicatrizar. De vez em quando é avivada fortemente. Bendirei sempre a Jesus e à Mãezinha, mas confesso: se não fossem as forças do céu, teria desesperado e morrido. Que grande amor o de Jesus!
— Quanto Vos devo, meu Amor. Convosco venci e vencerei sempre.
Não pude ter uma palavra de queixume; ainda mais mereço pela minha miséria. Estou como a pombinha de bico aberto a bater as asas prestes a perder-se sem ter onde pousar. Tenho sede de luz, tenho sede de conforto.
— Já que na terra me tapam todos os caminhos, deixai-me, Jesus, deixai-me, Mãezinha, entrar nos Vossos Corações amantíssimos. Ainda que nada sinta, deixai-me ao menos a certeza que vivo n’Eles. Lá estou livre de ódios e perseguições, lá estou certa de que Vos amo e não Vos ofendo.
Se o meu corpo pudesse encobrir-se nas trevas para não ser mais visto nem lembrado, como nas trevas foi encoberta a minha alma, assim morreria, não seria mais falada como são os desejos do meu Prelado. É com todo o amor que aceito e obedeço às suas ordens. Não nasceu dentro em mim a mais pequenina sombra de ódio contra ele e contra os seus companheiros. Antes pelo contrário, dizia:
— Meu Jesus, compadecei-Vos deles, não compreendem mais, não conhecem os sofrimentos duma alma. Meu Jesus, se pudesse prostrar-me diante de Vós e de mãos levantadas soubesse agradecer-Vos os miminhos que me dais!
Com o coração a sangrar de dor, não pude com os lábios rezar a Magnificat, mas rezei-a com o pensamento.
— Dai-me força, Jesus, para sofrer e não me condeneis Vós, porque a sentença dos homens nada vale a não ser para meu maior martírio.
Foram os homens que me prepararam o sofrimento de hoje, para mais me assemelhar a Jesus e acompanhá-Lo no caminho do calvário. E lá vou eu, presa com cordas, mas com amor abraçada à cruz. Sou vítima das opiniões dos homens, sou vítima das lágrimas dos meus. Se eu pudesse sofrer sozinha… Bendirei ao Senhor, não quero perder um momento. Os meus olhares continuam a não serem meus. Fitam-se cheios de ternura num e noutro coração que mais se deixa compenetrar destes olhares tão cheios de doçura e amor. Os olhares não vão para todos por igual; os corações, a sua correspondência, é que fazem merecer tudo quanto estes olhares encerram. Tinha tanto que dizer neste ponto! São tantos os que queria atrair e abraçar a mim!
— O que é isto, meu Jesus?
É sempre a minha cruz. Neste conjunto de sofrimentos, o meu calvário com o de Jesus, o coração oprimido com o peso esmagador da dor abafava, não resistia.
— Poderei vencer, Jesus? Resistirei a tanto? Só convosco. Valei-me, tenho medo.
Sentia tanto o meu abandono e o de Jesus! O meu corpo sangrava, dava as últimas gotas de sangue. Ele veio.
— Amo-te tanto, minha filha! Assemelhei-te a mim e o teu calvário ao meu. Tem coragem. Os espinhos que te ferem foram os meus. As varas que te açoitam e despedaçam foram as minhas. Os maus-tratos e as cordas que te prendem eram minhas, e a cruz minha foi também. Foi o amor a causa dos espinhos, dos açoites, da cruz, do calvário e da morte. Prendeu-me o amor à cruz, prendeu-me ainda nos sacrários até ao fim dos séculos. E tu, minha pomba bela, à minha semelhança presa foste também; prendeu-te o amor ao meu Divino Coração, prendeu-te o amor às almas. Deixa-te ferir, minha amada; cada espinho que te fere sai um dia da minha sagrada cabeça e do meu Divino Coração. Vês como tenho tantos!
Jesus apresentou-me a Sua sagrada cabeça e o Seu Coração Divino. Que grande sebe agudíssima o feria! Enterneci-me tanto por Jesus e disse-Lhe:
— Aceito tudo o que seja dor, mas quero tirar de Vós todos esses espinhos e não deixar sinal algum de ferimento.
Principiei a tirar espinhos de Jesus que tinha ao meu dispor. Em poucos instantes desapareceram todos, e nem a sagrada cabeça nem o Coração Divino ficaram chagados, nem com sinal de sangue. Tudo desapareceu.
— Vês, minha esposa querida, como o teu novo sofrimento cicatrizou todas as feridas que eu tinha? Coragem! Anima-te, eu não te falto. Duvidar de mim é ofender-me. Ainda que te dissesse que o que te prometi vinha, não te enganava, ainda que levasse anos, pois os anos em comparação da eternidade representam um já. Mas não demoro, confia. Vou deixar-te, minha filha, um pouco mais libertada do demónio, para poderes resistir. Preciso de operar milagre. Se soubesses com os combates do demónio as almas que arrancaste dos abismos e conduziste a mim! Estão firmes, não voltam a ofender-me gravemente, salvam-se. Para resistires ao teu penoso calvário vou vir a ti frequentes vezes, as mais delas silencioso. São êxtases de amor, mas deles receberás sempre, sempre, toda a abundância das minhas graças, ternuras e amor. És rica de mim, és rica de virtudes. É por isso que os teus olhares atraem, têm carinhos, têm doçuras, têm prisões, têm amor. É por isso que o teu sorriso tem meiguices, tem tudo o que é do céu. Não vives, vivo eu, são meios de salvação e de chamamento às almas. Não é verdade, minha filha, que eu na minha vida, no meu calvário, possuía duas vidas, humana e divina? Até nisso te pareces comigo. No teu calvário tens também a vida divina, é Cristo que está em ti. Nada temas. Vem o jardineiro divino ao Seu jardim ver as maravilhas que nele operou e o fruto de tantas canseiras. Vem o Rei ao palácio da Sua esposa, o Redentor divino à Sua redentora, à nova salvadora da humanidade. As minhas maravilhas em ti não ficam ocultas, não consinto no seu escondimento, hão-de brilhar, são a minha glória, são a salvação das almas. Tudo será escrito, minha doutora das ciências divinas, tudo será conhecido no livro da tua vida. És a heroína do amor, a heroína da dor, a heroína da reparação, a heroína dos combates, a rainha dos heroísmos. Recebe conforto, filhinha, recebe o meu amor divino. Quando vier a ti nos meus colóquios, uno-me a ti com este amor. Venho dar vida e conforto ao teu coração, ajudar-te nas tuas trevas. Conta sempre comigo mesmo no meu exílio, no meu escondimento em ti. És minha sempre, e eu sempre em ti habito.
— Aceitai, meu Jesus, o meu coração agradecido e entregai-o por mim à Mãezinha. Muito obrigada pelo fogo divino que me fazeis sentir. Se todas as almas o sentissem! Parece-me que tenho uma enorme fornalha no peito e no coração. Como sois poderoso e bom para comigo! Aceitai o meu sofrimento como prova do meu amor e dai-me por ele as almas. Lembro-Vos, meu Jesus, neste momento, todos os que me são queridos. Lembro-Vos os sacerdotes e os pobres pecadores. Lembro-Vos o Santo Padre e as suas intenções. Lembro-Vos toda a minha família e todos os que se me recomendam. Lembro-Vos os que me ferem e lembro-Vos o mundo inteiro.
— Aceito, filhinha, toda a prece saída dos teus lábios. Pede, pede tudo, pede, confia sempre.
Voltei às trevas e à minha dor, mas a arder em sede de consolar o meu Jesus e salvar o mundo. Não há na terra maior alegria do que sofrer por Ele. (Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma)

3 de junho de 2017

UMA LONGA CARTA

Maior deve ser o perdão...


Balasar, 6 de Junho de 1935

Viva Jesus!,
Meu P.
Estou deveras admirada com o silêncio de Vª Revª. Por acaso ter-lhe-ia dado causa para assim proceder? Estou sossegada na minha consciência; se em alguma coisa o ofendi foi por ignorância, por isso maior deve ser o perdão.
Eu continuo muito doentinha; mas tenho tido a consolação de receber Nosso Senhor todos os dias. Isto só por um milagre do Céu, pois o Senhor Abade nunca me fez tal. Algumas vezes recebo o meu Jesus e fico muito desconsolada. Bendito Ele seja! Tudo é permitido por Ele, seja em tudo feita a Sua Santíssima Vontade.
No dia dois, depois das nove horas da noite, estava eu a fazer a oferta de tudo o que se passasse em mim durante a noite como actos de amor a Nosso Senhor Sacramentado. Fazia-o mais com o pensamento do que com os lábios porque não podia. Eu disse ao meu Jesus se fosse da Vossa Vontade eu ficar convosco nos vossos sacrários durante esta noite! Sim antes queria fazer companhia a Nosso Senhor do que dormir. E dizia também:
― Vinde meu bom Jesus e vivei em mim como eu desejo viver convosco; operai em mim tantas graças como se eu vos recebesse sacramentalmente.
Principiei a sentir a presença de Nosso Senhor em mim e logo ouvi que me chamava:
— Filha, filha, ó minha querida filha anda passar a noite comigo nos meus sacrários: anda consolar o teu Jesus. Anda com a tua reparação curar as minhas chagas que estão tão vivas! Fui hoje tão ofendido! Caíram tantas almas no inferno! Cortei-lhe o fio da vida antes do tempo marcado por não as poder sofrer mais.
Eu ofereci a Nosso Senhor todo o meu corpo para Ele crucificar pelo seu divino amor para a salvação das almas; e dava-lho de tão boa vontade como Ele se deixou crucificar por meu amor. E dizia-me Nosso Senhor:
— Como me consolas! É o bálsamo com que curas as minhas chagas. Atenção, minha filha, para mandares dizer ao teu pai espiritual. Esta noite vão cair no inferno mil almas e o pecado que me leva a condená-las é o pecado da impureza, a maldita carne. Já lá estão a cair fartas de me ofenderem e Eu abundado de as suportar. São de todas as classes: jovens e donzelas, casados e viúvos, velhos e novos. Que horror! Como Eu sou ofendido! Estão mais para lá cair; se me dás o teu corpo para sofrer por eles ainda lhes acudirás. Pede-me por elas, dá-mas são minhas. Custaram-me o meu sangue. Eu não exijo de ti a noite inteira porque não podes. Mas só no Céu verás como lhes acudistes nestas horas. Eu preciso de destruir o mundo, poucas famílias deixar, mas não o faço, enquanto tiver almas que como tu sustentem o braço da minha justiça.
Parecia-me que era tão beijada e abraçada! E dizia-me Nosso Senhor:
— Amo-te tanto, minha filha! Amo-te tanto! Tenho mais cuidado pela tua alma do que um da terra teria se possuísse todos os tesouros do mundo. Ama muito a minha Mãe Santíssima que Ela também te ama muito. Como me consolas quando me pedes o aumento do amor dela e da SS. Trindade.
No dia três, no fim da Sagrada Comunhão, falava-me Nosso Senhor:
— Minha filha, lá caíram no inferno as almas. Como Eu fui ofendido! Como me renovaram a minha paixão! Muitas também que mereciam lá estar, mas poupei-as pela tu reparação. Não posso exigir mais de ti, dando-me o teu corpo e dizendo tudo ao pai espiritual para ser comunicado às almas. Queres ver os anjos?
E eu disse a Nosso Senhor:
— Mostrai-mos, Jesus, Mostrai-mos Jesus.
Principiei, então, a ver uma coisa alta do feitio do Céu com uma cor tão linda! Via nela não sabia o quê. Não sei como fiquei. Como havia de mandar eu dizer a Vª Revª que eram os anjos se eu não divisava o que era?
Dizia-me Nosso Senhor:
— Faço isto para te obrigar a obedeceres e a escreveres e a confiares nisto.
Do meio saiam à moda de uns raios dourados e dizia-me Nosso Senhor que era o amor com que eles O amavam, via também à moda de um altar em ponto grande e no meio parecia-me uma pombinha branca. Por cima tinha muitos, muitos anjinhos; estavam em torno sobre a SS. Trindade. Passados alguns momentos voltei a vê-los; já os divisava melhor. Eram mais vastos do que moinhos. Parecia que estavam aos montes. Via mais outras coisas, eram os querubins e os serafins. Disse-me Nosso Senhor:
— Vê-los? Há-de ir a tua alma para o Céu cercada deles.
Sentia todo aquele calor e força de que tenho falado a Vª Revª e uma união tão grande com Nosso Senhor que não podia deixar. E disse-me o meu Jesus:
— Manda dizer ao teu pai espiritual que Eu quero que sejam realizados os teus desejos: quero que sejas visitada por ele. Foi a ele que confiei a tua alma e teus segredos. O tempo passa. Não queiras nada do mundo: vive como se estivesses comigo em corpo nos meus sacrários que Eu vivo em ti como lá. É a paga do amor que me tens e de quereres viver lá unida a mim.
No dia seis, pouco depois da Sagrada Comunhão, falava-me Nosso Senhor:
— Ó filha, tu não te cansas de me dizer que habite em ti, e Eu não me canso de em ti viver. E como me hei-de cansar se tu és o meu anjo, a companheira fiel dos meus sacrários! Continua a tua missão que dentro de pouco acabará. Deixa-me que te diga que o teu fim está próximo. Vive nos meus sacrários; pede-me pelos pecadores. O meu coração está angustiado nos sacrários. Eu chamo-os por todos os modos: infelizes. Estão surdos à minha voz divina, estão cegos à luz do seu Deus. Sofre, minha filha, que os teus sofrimentos e aflições transformar-se-ão, dentro em pouco, em rosas cobertas de pérolas preciosas. Minha filha, à volta de ti é o paraíso. Os anjos, os querubins, e os serafins e a minha Mãe Santíssima. Como Eu sou bem louvado por eles! Queres voltar a vê-los?
Eu disse que sim ao meu Jesus. Principiei, então, a ver tantas coisas! Um movimento tão grande! Pelo meio tinha tantos, tantos parecia fios dourados entrelaçados uns nos outros! E dizia-me Nosso Senhor:
— É o amor em que eles ardem por mim.
Sentia um calor tão forte e uma força a abraçar-me! E dizia-me Nosso Senhor:
— Amo-te tanto! Faz que eu seja amado que, dentro em pouco, amar-me-ás e contemplar-me-ás para sempre no Céu.
Por hoje mais nada. Muitas lembranças da minha mãe, da Deolinda. da Senhora Dª Sãozinha, destes dias não sei nada, pois está para Braga.
Por caridade, não esqueça de pedir por mim que preciso muito para eu fazer em tudo a vontade de Nosso Senhor, que eu também tenho pedido muito a Jesus por Vª Revª e prometo continuar. Fico ansiosa por receber uma cartinha de Vª Revª.
Abençoe, por caridade, a pobre

Alexandrina Maria da Costa.

9 de maio de 2017

UMA VISÃO

UM CAMPO DE AÇUCENAS


Alexandrina já tinha completado os seus 32 anos, quando aconteceu o que ela a seguir nos conta.
Nesta ocasião já ela se tinha oferecido como vítima, assim como já tinha recebido vários convites do Senhor visando a crucifixão e a sua missão de visitar os sacrários abandonados. Não se pode pois dizer que se trate de qualquer ilusão ou invento dela. Também não foi esta a sua primeira visão. Mas vejamos o que ela tem para nos dizer:

*****

– Pelos fins do ano de 1936, numa noite, apresentou-se diante de mim, a pequena distância, um prado muito viçoso e florido. As flores eram açucenas. E tantas que eram!... E tão perfeitas!... Por entre ela pastava um grande rebanho de ovelhinhas, sendo impossível contá-las. O pastor era Jesus, em tamanho natural, muito belo e com um cajado na mão. Aproximei-me desse prado e, quando ia entrar nele, tudo se transformou num caminho árido e seco. Caminhei por uma encosta difícil de subir. Ao cimo do monte, havia um caminho bastante assustador, porque tudo eram silvas e espinhos. Ao meu lado esquerdo, ouvia gemidos de ovelhinhas. Queria aproximar-me delas para ver a causa dos seus gemidos, mas uma enorme ribanceira, escura, profunda, impedia-me de ver as ovelhinhas e a causa dos seus sofrimentos. Sentia que sofriam muito.
Continuei a caminhar por aquele caminho e, mais acima, ao lado direito, ouvia a mesma coisa. Nessa altura, vi a causa de tão grande sofrimento: estava uma ovelhinha, de lã branca, mas muito suja e presa pela lã a enormes espinhos, caída sobre eles. À primeira impressão, entendi que aqueles gemidos não podiam ser de saudades pela sua mãe, porque a ovelhinha já era grandinha. Ao ver o estado dela, tive tanta pena que me aproximei e, com todo o amor e carinho, fui vagarosamente depreendendo-a dos espinhos. Depois de a soltar, desapareceu da visão.

Isto nunca mais me esqueceu e conto-o com a maior facilidade, porque ficou-me bem gravado na minha memória e na minha alma. (Autobiografia)

24 de abril de 2017

UM DIA, UMA MENSAGEM

OS ESPINHOS NÃO CESSAM DE FERIR-ME


Não chegou a minha aleluia. Não houve para mim a ressurreição de Jesus. Estou em agonia. Estou em grandes sofrimentos da alma. Todo o meu ser é um trapo que a dor desfez, produzido pela lepra do pecado. Os espinhos não cessam de ferir-me. São bem agudos e penetrantes.
Duas coisas tive de motivo de alegria, se Jesus mas deixasse sentir. Aprouve ao Senhor que nada me alegrasse; só com os olhos n’Ele me alegro no cumprimento da Sua divina vontade. Custa-me tanto, tanto, dizerem-me à minha frente que lhes foi dito que quem me visitasse ficaria excomungado.
— Jesus, Jesus, ai quanto custa! Seja tudo por Vosso amor e pela salvação das almas.
Causam-me pavor as visitas. Parece-me ter nojo delas. A todos ao mesmo tempo quero abraçar e possuir no meu coração; mas, meu Deus, essa excomunhão de que me acusam prejudicará essas almas?! Não estou aqui para ruína delas, mas sim por Vosso amor e por elas me imolar. Não posso dizer mais nada. Vou dizer as palavras do colóquio de Jesus. Mas, ah! Se eu pudesse ao menos colocar neste caderno o livro infindo do meu coração para ele dizer tudo, para falar do amor de Jesus, para dizer o que é dor e a minha loucura pelas almas! Se eu pudesse fazer desaparecer o pecado, para o meu Amado não ser ofendido, para nenhuma alma se perder. Que sabedoria tem este livro! Como ele conhece e compreende todas as coisas, e como eu sou ignorante para as saber dizer. Não há ignorância igual à minha.
Depois de eu ter desprezado e esquecido o horto, esqueci e desprezei o calvário. Caminhava na maior angústia, caminhava de tal forma que o chão se abria para me engolir e em corpo e alma ia precipitando-me no inferno.
Meu Deus, que pavor! Já nas garras de Satanás, atormentada por ele, ouvi alguém que fez abrir a terra que me tinha engolido, tirou-me da garra do demónio e das chamas infernais. A alma agonizava e o corpo estava cansado de tanto sofrer. Chamei por Jesus e pela Mãezinha. Uma coisa me dizia: perdi tudo. Não existem para mim, não tenho Jesus, não tenho a Mãezinha. Tive um desfalecimento mortal. No meio dele, principiei a repetir o meu “creio” sem acreditar. Ouvi a voz de Jesus que me chamou:
— Minha filha, minha querida filha, levanta-te! Coragem! Vem a Mim! Tu tens de viver sem vida, tens de viver sem luz, tens de acreditar sem sentimento de que acreditas. Amas-Me sem saberes que Me amas, sem teres esse sentimento. Os pecadores, as almas, o mundo, obrigam-Me a exigir de ti esta reparação. Coragem! Coragem! É para que as almas não caiam no inferno.
— O inferno, o inferno, ó Jesus, que tremendo é o inferno! Não posso pensar que as almas se perdem. Não posso consentir que as almas caiam no inferno, não posso saber que o Vosso Divino Sangue foi derramado inútil. Onde estais, Jesus, onde estais? Que escuridão, que montanha, que distância me separa! Eu amo-Vos, Jesus, eu amo-Vos na minha cruz, na minha dor! Aceito, aceito. Tudo por Vós!
Desta escuridão passei à luz; da agonia à suavidade. Jesus continuou, mas sem que eu O visse:
— Esta distância é a minha distância do pecador. A montanha são os crimes. A luz que vês é a minha luz; a suavidade o meu conforto. Tu és a minha vítima. Coragem e confiança! Tu fechaste com os teus sofrimentos as portas do inferno a milhares, a milhões, a milhões de almas. Nunca mais se abrirão para elas. O inferno abre-se para aquelas almas que desprezaram o meu Sangue, que calcaram o meu Sangue divino e desprezam ainda os meios que lhes dei, os sofrimentos, a imolação contínua da vítima deste calvário, da maior vítima que escolhi par a humanidade.
— Ó Jesus, que tormento o meu, que humilhação. Eu desapareço ao ouvir-Vos falar assim.
Voltei ao meu nada, ao nada de que me tirastes. Falo assim, digo a verdade.
— Posso falar, posso dizer tudo da minha esposa amada. Tem coragem!...”
Fui tão ao nada, fiquei no silêncio da morte. Algum tempo depois, a voz de Jesus deu-me a vida, mas então vi-O em tamanho natural com o Seu peito aberto e a pegar para as Suas mãos o Seu Divino Coração. Juntou-O ao meu e disse:
— Vem receber a gota do meu Divino Sangue, a vida para viveres, a vida para dares. Tem coragem! Um pouco mais! Um pouco mais, porque o teu Céu está perto. A tua missão lá vai continuar. Por ti as almas são enriquecidas. Por ti o mundo será favorecido. Eu não falto às minhas promessas. Eu queria que se compreendesse a minha vida prodigiosa em ti. Eu quero que todos saibam a tua loucura de amor por Mim, por Mim e pelas almas, pelas almas de quem sentes pejo e pavor. É para que o não sinta Eu! Esse pejo e pavor causam-me elas a Mim. És vítima, és vítima! Coragem! Coragem!”

Desapareceu Jesus. Eu voltei à tristeza, à cegueira, à morte. Fiquei na cruz, angustiada, mas não esqueci nem um só pedido. Lembrei tudo a Jesus, mesmo na Sua ausência a repetir o meu “creio” muitas, muitas vezes, recordando que Ele prometeu sempre estar comigo. (Sentimentos da alma: 23 de Abril de 1954 - Sexta-feira)

22 de abril de 2017

PRIMEIRO ENCONTRO COM O PADRE MARIANO PINHO

COMO JESUS ME ENVIOU O MEU DIRECTOR ESPIRITUAL


– Eu não tinha nem sabia sequer o que era um director espiritual; apenas tinha o meu pároco como guia da minha alma.
Como minha irmã fizesse um retiro aberto das Filhas de Maria, tomou nessa ocasião para seu director espiritual o conferente desse retiro, o Sr. Dr. Mariano Pinho. Este, sabendo que eu estava doente, mandou pedir as minhas orações, prometendo orar por mim. De vez em quando, mandava-me um santinho. Passaram-se dois anos, e sabendo eu que ele estava doente, sem saber como, senti tanta pena que comecei a chorar; minha irmã perguntou-me porque chorava, se o não conhecia sequer. Respondi-lhe: «Choro, porque ele era meu amigo e eu também sou dele.»

Em 16 de Agosto de 1933, Sua Reverência veio à nossa freguesia fazer um tríduo ao Sagrado Coração de Jesus, tomando-o então para meu director espiritual. Não lhe falei nos oferecimentos que fazia ao sacrário, nem nos calores que sentia, nem na força que me fazia elevar, nem nas palavras que tomei como uma exigência de Jesus. Pensava que era assim toda a gente. Só passados dois meses é que lhe falei nas palavras de Jesus e do resto nada disse, porque nada compreendia como coisas de Nosso Senhor. Apesar de Sua Reverência não me dizer que eram palavras de Nosso Senhor, eu continuei sempre e cada vez mais unida a Nosso Senhor. Quer de dia quer de noite eram os sacrários os meus lugares predilectos.

SEIS PRIMEIRAS QUINTAS-FEIRAS

EM HONRA DA EUCARISTIA E DAS CINCO CHAGAS


Nós conhecemos as “Primeiras nove sextas-feiras de cada mês”, pedidas por Jesus a Santa Margarida Maria de Alacoque; conhecemos igualmente os “Cinco primeiros sábados de cada mês” pedidos por Nossa Senhora de Fátima à irmã Lúcia de Jesus.
É necessário que conheçamos também as “Seis primeiras quintas-feiras de cada mês”, pedidas por Jesus, em Balasar, à Beata Alexandrina Maria da Costa. Em que consiste esta devoção?
Nada melhor do que ir à Fonte e, essa Fonte é Jesus. Ouçamo-Lo:

«Minha filha, minha esposa querida, faz que Eu seja amado, consolado e reparado na minha Eucaristia.
Diz em meu nome que todos aqueles que comungarem bem, com sinceridade e humildade, fervor e amor em seis primeiras quintas-feiras seguidas e junto do meu sacrário passarem uma hora de adoração e íntima união comigo, lhes prometo o Céu.
É para honrarem pela Eucaristia as minhas santas Chagas, honrando primeiro a do meu sagrado ombro tão pouco lembrada.
Quem isto fizer, quem às santas Chagas juntar as dores da minha Bendita Mãe e em nome delas nos pedir graças, quer espirituais, quer corporais, eu lhas prometo, a não ser que sejam de prejuízo à sua alma.
No momento da morte trarei comigo minha Mãe Santíssima para defendê-lo.»
Promessa feita à Beata Alexandrina em 25 de Fevereiro de 1949.


Comecemos já no próximo mês, para a maior glória de Deus e salvação das nossas almas.

COMO ME VEJO DE MÃOS VAZIAS !

CORAÇÃO E ALMA: ESCURIDÃO TOTAL


Continuo a sentir a perda de Jesus e da Mãezinha. Eles morreram para mim. Triste, tremenda separação. Não tenho palavras, a minha ignorância não deixa exprimir a dor desta separação. Perder a Deus, perder a Mãezinha, é perder tudo, é perder tudo. O meu coração e a minha alma estão numa angústia, estão como se estivessem sozinhos num universo de trevas, num mundo de perda eterna. Nem na terra, nem no Céu há conforto para eles, ou antes, nem existe a terra, nem existe o Céu.
Meu Deus, eu creio, creio, meu Deus. Assim o vou repetindo muitas vezes, sem ter apoio, luz e conforto de ninguém. A minha eternidade existe atrás de mim, em mim e à frente de mim. Tudo é eternidade desesperadora, revoltosa, odiosa contra tudo, contra Deus. Ai, a eternidade, ai, o que é a eternidade!... E a inutilidade que tudo me rouba?! A minha vida de tantos espinhos, de tantos punhais, de tanta contradição e humilhação é toda para ela.
Oh! Como me vejo de mãos vazias! Nenhum do meu sofrimento, nenhum do meu martírio aparece à luz do dia. Mas ele existe dia?! Há sol e estrelas no firmamento?! O que é isto, meu Deus, se sinto que não há Céu nem terra! Mas existe a eternidade? Eu vivo a eternidade. Vivo-a por Vosso amor e por amor às almas.
Não pode ser vista a profundeza do meu túmulo. Em que abismo estou! Ficam na superfície apenas a parede do meu sepulcro, mas eu desapareci, escondi-me. Fui cavando, cavando. Estou tão funda! Parece que tenho mundos, mundos sobre mim. Despi-me por mim de todas as coisas, por mim me enterrei, por mim mesma me fiz desaparecer. Os suores da alma não cessam com a canseira da escavação. É como se cavasse incessantemente sem tirar do meu punho o instrumento da escavação, mas a cavadela leva mais de um século. Por tudo seja bendito o Senhor!
No primeiro sábado não tive a visita da Mãezinha. Senti por Ela saudades de morte saudades de morte. Apesar da sagrada Comunhão desse dia ser mais íntima, mais confortante, ai de mim, se Jesus não velasse!
O meu horto não é aquele horto de outrora. A minha vida humana lá em baixo sempre fugitiva sem pisar terra alguma dele. Lá em cima, a grande altura, sempre a mesma pomba a deixar cair do seu biquito muitas gotinhas que se espalham em orvalho, mas ela não se satisfaz só com isso; vai levar aos corações essa gota e com o mesmo biquito retoca-os, faz neles o ninho. Vai também às inteligências focá-las, enchê-las de luz. Como é grande a vida e o trabalho dessa pomba!... Assim esvoaçou sobre o Horto e assim hoje esvoaçou sobre o Calvário.
Eu tive o Santo Sacrifício da Missa; com a minha fé abandonada à Mãezinha pedi-Lhe que me levasse e me fosse imolar com Jesus e me desse todos os seus sentimentos. Senti em mim como que um desespero na fugida do Calvário. A minha vida morta era a vida humana, mas aquela pomba era e dava a vida do Céu. Sem sentir que Jesus morreu, senti que Ele chegou junto de mim, sentou-se e como o bom Pastor chamou a si a Sua ovelhinha:
— Vem, minha filha, sou o teu Jesus. Descansa aqui.
Sentei-me junto d’Ele; nos Seus joelhos coloquei a minha cabeça, sobre a minha e o meu ombro deixou Ele cair o Seu divino braço. A minha alma foi recebendo conforto.

(Sentimentos da alma: 8 de Janeiro de 1954 - Sexta-feira)

21 de abril de 2017

CONVERSA COM UM AMIGO

Sobre os Sites e páginas Facebook


Há dias atrás, por mero acaso, encontrei um amigo que já não via há muito tempo.
Depois de nos saudarmos, começamos a conversar daquilo que os nossos corações estão cheios: da Beata Alexandrina.

— Sei que continuas a alimentar os Sites e as páginas no Facebook da nossa querida Beata, visto visitar essas páginas regularmente…
— Até parece que é tudo o que sei fazer, meu bom amigo, respondi eu sorrindo.
— O dois Sites sobre a Beata Alexandrina devem ter muitos visitantes, suponho eu?
— Uma média de 10 000 por mês, o que me parece razoável, visto que juntando os dois esta média sobe para 20 000 por mês… e até mesmo mais. Acontece, de vez em quando que num só mês um ou outro dos Sites atinja as 20 000 visitas…
— Vi que foste obrigado a abrir uma nova página no Facebook, por causa da limitação a 5 000 “amigos”.
— Foi essa a causa, de facto… Não queria que muitos ficassem “de fora” por uma questão de limitação…
— Notei que a maior parte dos teus “posts” recebem numerosos “gosto”, o deve ser para ti motivo de alegria.
— Para te ser franco, não são os “gostos” que mais me alegram, mas os comentários. Esses sim, alegram o meu coração, porque muitas vezes não só são pertinentes, mas também verdadeiros testemunhos de amor para com a Beata Alexandrina, quando não são autênticas orações!
— Mas também vi que há muitos comentários  — o que não se pode ver nos sites! — mesmo se muitas vezes o dito comentário se limita à palavra “Ámen”.
— É verdade que muitas vezes os comentários se limitam a isso, mas não vamos esquecer que a palavra “Ámen” significa “Assim seja”, o que me leva a crer que a pessoa que coloca esta palavra, tenha lido o texto proposto, o que nem sempre é o caso daqueles que se limitam à palavra “gosto”.
— Portanto, ao ouvir-te quase fico a pensar que estás insatisfeito!
— Eu não devo ter esse género de sentimentos, porque isso me levaria certamente à auto-satisfação e até mesmo à vaidade. Não, o que me interessa é que a Beata Alexandrina seja conhecida e amada pelo maior número possível de pessoas, qualquer que seja a nacionalidade destas.
— Se tivesses um conselho ou uma sugestão a fazer aos “amigos” da Beata Alexandrina, no Facebook, que lhes dirias?
— Que mais vale um curto comentário do que um “gosto” para fazer prazer.
— E dizendo isso, não te parece que corres o risco de perder “amigos”.
— Meu amigo, eu não perco nem ganho nada, porque não é para mim nem para a minha glória pessoal que trabalho, mas para a maior glória de Deus e a salvação das almas, das quais a minha também faz parte.
— Já sei o que vou fazer a próxima vez que for ao Facebook, visitar a página da Beata Alexandrina… Um pequeno ou curto comentário agrada-te mais do que o simples “gosto”, para marcar a visita…

— Compreendeste bem! É isso mesmo! Não te esqueças!

17 de abril de 2017

SOU POBRÍSSIMA, SOU NADA

SOFRI SEM UM MOMENTO DE REVOLTA


Continuo no meu estado grave e por não poder falar direi só umas palavras, como sinal da minha obediência. Meu Deus, meu Deus, que obediência tão custosa! Sinto a dor, vivo a dor; falar dela não sei, sou a maior ignorante. O que sofre o meu corpo e a minha alma nunca na terra o farei compreender. Eu só queria saber falar dela para honra e glória de Nosso Senhor e bem das almas. Na minha tremenda inutilidade, trevas densas, pavorosas, eu vejo os meus caminhos andados, mas todos selados de sangue; corre por eles como regatozinhos. É este sangue que brilha, é este sangue que me mostra a terra que trilhei, os espinhos que calquei. Dor e sangue foi e é a minha vida, mas a inutilidade nada me deixou para o meu Jesus nem para as almas a quem tanto amo, por amor d’Ele.
Sou pobríssima, sou nada. Sofri tanto, tanto como que saiu no jornal A Voz do Pastor! Tormento nunca dito, só sofrido se saberá compreender.
— Ai, meu Deus, se eu sofresse sozinha, se não sofressem os que estão à minha volta! Quanto Vos devo, meu Jesus. Não me faltastes com o Vosso amparo. Sofri sem um momento de revolta, com os olhos em Vós, sem má vontade contra ninguém. Obrigada, Jesus, obrigada, Jesus. O que eu não queria é que fôsseis Vós ofendido e que não houvesse tanto escândalo. Sou velhinha, mais velhinha que a terra, à terra me uni; o meu rosto nela poisou, tal foi o peso que a isso me obrigou.
O coração sente e vê o meu túmulo, não sai do pé dele, enquanto todo o outro ser em suor banhado segue a sua canseira num abismo tal sob o peso de milhões e milhões de mundos. Quando está nesta profundidade, parece que não pode voltar à superfície da terra. Com a perda de Jesus e da Mãezinha, do Calvário e do Horto, perdi tudo para jamais voltar a possuir.
Que dor, que dor infinita! A passagem pelo horto e pela montanha é como que por terra estranha, terra morta, sem luz, sem amor. Parece que, ainda que quisesse recordar o que tudo isto foi, não podia. Sem mal poder mover os lábios, falando mais com o coração, chamei por Jesus e pela Mãezinha: necessitava do Seu conforto.
Eram já três horas e alguns minutos sem que Ele viesse. Num dado momento, surgiu-me de repente. Com um foco de luz iluminou-me, tomou-me toda inteiramente e meteu-me no seu Divino Coração.
— Vem, minha filha, descansar na morada do meu Divino coração; aqui estás e dele vives. Vive do sacrário, vive da cruz, nela bem cingida, nela bem crucificada. Comunica a vida do Calvário, a vida do sacrário e a deste Coração Divino. Vives para os teus Amores, falas dos teus Amores. Coragem, recebe aqui conforto, recebe aqui fortaleza para tantas forças que a dor consome.

(Sentimentos da alma: 26 de Fevereiro de 1954)

16 de abril de 2017

TU TENS DE VIVER SEM VIDA

NÃO HOUVE PARA MIM RESSURREIÇÃO DO SENHOR



Não chegou a minha aleluia. Não houve para mim a ressurreição de Jesus. Estou em agonia. Estou em grandes sofrimentos da alma. Todo o meu ser é um trapo que a dor desfez, produzido pela lepra do pecado. Os espinhos não cessam de ferir-me. São bem agudos e penetrantes.
Duas coisas tive de motivo de alegria, se Jesus mas deixasse sentir. Aprouve ao Senhor que nada me alegrasse; só com os olhos n’Ele me alegro no cumprimento da Sua divina vontade. Custa-me tanto, tanto, dizerem-me à minha frente que lhes foi dito que quem me visitasse ficaria excomungado.
— Jesus, Jesus, ai quanto custa! Seja tudo por Vosso amor e pela salvação das almas.
Causam-me pavor as visitas. Parece-me ter nojo delas. A todos ao mesmo tempo quero abraçar e possuir no meu coração; mas, meu Deus, essa excomunhão de que me acusam prejudicará essas almas?! Não estou aqui para ruína delas, mas sim por Vosso amor e por elas me imolar. Não posso dizer mais nada. Vou dizer as palavras do colóquio de Jesus. Mas, ah! Se eu pudesse ao menos colocar neste caderno o livro infindo do meu coração para ele dizer tudo, para falar do amor de Jesus, para dizer o que é dor e a minha loucura pelas almas! Se eu pudesse fazer desaparecer o pecado, para o meu Amado não ser ofendido, para nenhuma alma se perder. Que sabedoria tem este livro! Como ele conhece e compreende todas as coisas, e como eu sou ignorante para as saber dizer. Não há ignorância igual à minha.
Depois de eu ter desprezado e esquecido o horto, esqueci e desprezei o calvário. Caminhava na maior angústia, caminhava de tal forma que o chão se abria para me engolir e em corpo e alma ia precipitando-me no inferno.
Meu Deus, que pavor! Já nas garras de Satanás, atormentada por ele, ouvi alguém que fez abrir a terra que me tinha engolido, tirou-me da garra do demónio e das chamas infernais. A alma agonizava e o corpo estava cansado de tanto sofrer. Chamei por Jesus e pela Mãezinha. Uma coisa me dizia: perdi tudo. Não existem para mim, não tenho Jesus, não tenho a Mãezinha. Tive um desfalecimento mortal. No meio dele, principiei a repetir o meu “creio” sem acreditar. Ouvi a voz de Jesus que me chamou:
— Minha filha, minha querida filha, levanta-te! Coragem! Vem a Mim! Tu tens de viver sem vida, tens de viver sem luz, tens de acreditar sem sentimento de que acreditas. Amas-Me sem saberes que Me amas, sem teres esse sentimento. Os pecadores, as almas, o mundo, obrigam-Me a exigir de ti esta reparação. Coragem! Coragem! É para que as almas não caiam no inferno.

(Sentimentos da alma: 23 de Abril de 1954 - Sexta-feira).

FOI BEM SEXTA-FEIRA SANTA !

COMUNHÃO SOBRENATURAL


Sexta-feira santa, foi bem sexta-feira santa! Ah! Se eu soubesse sofrer! Se eu soubesse aproveitar-me de tudo para desagravar o meu Jesus! Pobre de mim! Sou pobre e a todos dou pobreza! Sou miserável e toda a miséria da humanidade a mim pertence e assim vou vivendo a minha eternidade e inutilidade! Eternidade, eternidade! Que grande pavor! Viver-te sempre roubada pela inutilidade! Cresce-me a revolta e o ódio contra Deus. Tenho de odiá-Lo para sempre. Nada quero ter para Lhe oferecer por toda a eternidade. Oh! Que tormento perder a Deus! Perder a Mãezinha! Ai de mim, nunca mais os verei! Tive uma semana de espinhos penetrantes. Tormento indizível! Quanto mais agudos, quanto mais esses espinhos me ferem, mais eu os oferecia ao Senhor, apesar de sentir que nada era meu, que sempre estava roubada.
Passei o aniversário de 29 anos de cama. Não sei dizer as tristes recordações que me trouxe esta data, apesar de com os olhos no Céu tudo aceitar alegremente e só querer a vontade de Jesus. De novo voltei a ter a Santa Missa no quarto. Recorri à Mãezinha para Ela assistir por mim, já que cheguei a este ponto de nada saber. Pedi-lhe os Seus sentimentos junto da cruz. Ela veio colocar Jesus morto no meu coração e fez-me sentir a Sua agonia e chorar as Suas lágrimas. Pelo sacerdote fui encorajada a levar com mais amor a minha cruz num completo abandono. Horas depois, a notícia do sr. Bispo de Aveiro chegou até mim. Meu Deus, quanto sofri!... Se o meu nome não fosse lembrado, nem para bem nem para mal! Se eu ficasse esquecida para o mundo e dele pudesse desaparecer!... Jesus, sou a Vossa vítima. Creio, creio em vós! Na minha velhice eterna e ofício de cavador, fui vivendo os dias, as horas, abandonando-me louca para os braços de Jesus pela Mãezinha, sem o mínimo sentimento de que por Eles era aceite. Esta noite passeia-a mal, nos maiores sofrimentos do corpo. Não pude dormir. Pude acompanhar Jesus da prisão aos tribunais. Como a minha alma agonizava!... Esta manhã voltei a acompanhá-Lo, mas brava: pedia a Sua condenação. Fui eu que Lhe dei a morte. Na mesma manhã, uma visita recomendada veio aumentar o meu calvário, veio rasgar-me o coração, tocando-me num ponto que é o maior tormento da minha vida. Chorei muitas lágrimas, mesmo muitas, mas todas tinham um fim: de ir para Jesus.
Meu Deus, só vós conheceis como foi grande a minha dor. No íntimo do meu coração bradava constantemente: basta, basta, e com os lábios dizia: Jesus, não basta. Tudo o que Vós quiserdes, ó Amor, ó Amor, ó Amor, tudo o que Vós quiserdes; sou a Vossa vítima. Meu Deus, como pode ser, se o que vale é o que vem do íntimo, de dentro do coração para fora e não aquilo que dizem os lábios que vai de fora para dentro!? Eu não queria que o coração falasse assim, bradasse desta maneira. Eu queria que ele dissesse o que diziam os lábios, porque era a minha ansiedade, é só o que eu quero. Não tenho outro querer a não ser o de Jesus. Não era eu que assim falava no coração. Não sei quem era que dizia “basta”. Ai, quanto me custou esta luta! Nesta agonia mortal, veio Jesus ao meu encontro. Chamou-me. Só O ouvi, não O vi, nem O senti.
— Vem, minha filha, de encontro ao teu Jesus. Tem coragem. Não duvides, olha que sou Eu. Fui Eu que te escolhi, fui Eu que te preparei, fui Eu que assim te assemelhei a Mim. Escolhi-te para a mais nobilíssima missão. Preparei-te para ela. Assemelhei-te a Mim em toda a minha vida, na minha santa Paixão. Não te disse Eu: sofre, sofre, deixa que te humilhem e caluniem?! Recorda o que de Mim disseram.
— Ó Jesus, eu não Vos vejo, eu não Vos sinto, mas quero confiar que sois Vós.
— Colóquio de fé, colóquio de dor e de amor, minha filha, foi o que te disse Jesus. Sim, sem o amor, sem a tua loucura de amor não podias ser vítima de reparação, não podias assim sofrer e viver da fé sem a sentires. Confia, confia.
Jesus foi jogar o seu “esconde-esconde”. Desapareceu. Fiquei caída como morta. Não dei um passo, nem chamei por Ele. Pouco depois uma força invisível me levantou e ouvi de novo a voz do meu Senhor:
— Minha filha, vou dar-te o grande privilégio, vou dar-te a prova da minha loucura de amor. Amo-te tanto, tanto, amo-te com o maior amor com que Deus pode amar uma criatura Sua. Vais receber-Me na Eucaristia. O teu anjo da guarda vai ser quem Me vai depositar na tua língua para Eu baixar ao teu coração.
Era uma sala de que não lhe via o fim. Estava toda armada em roxo escuro. Só via bater as asas brancas de alguns anjos que em ala, silenciosos, se curvavam reverentes. Veio o meu anjo e deu-me Jesus. Era uma Hóstia grande. Pronunciou as palavras do Viaticus corpus Jesu Christi custodiat animam tuam in vitam aeternam. Ámen. Em seguida, falou-me assim:
— Vais agora, esposa e vítima do Rei celeste, receber o Sangue do teu Esposo Jesus. Vai-te ser dado pelo Anjo de Portugal.
Aproximou-se esse anjo de mim e do meu anjo da guarda, que foi quem me disse estas palavras. O anjo vestia de branco e capa azul. Trazia nas mãos uma pequenina taça e disse:
— Recebe, que é o Sangue de Jesus. Ele o deitou para aqui do Seu Coração. Vai fazer que ele passe para o teu.
Bebi o bocadinho do Sangue. Os anjos desapareceram. Ficou Jesus. Fez-me sentir o Seu amor e disse-me:
— Fortalece-te, minha filha, fortalece-te para a dor. Não podes deixar de sofrer, porque o mundo não deixa de pecar. Aceita, aceita. Não sentirás a ressurreição. A tua alma não terá Páscoa, para que muitas almas ressuscitem e tenham a Páscoa da graça. Aceita. Coragem.
Fugiu-me para sempre o meu Jesus. Fiquei no meu grande tormento a dizer-Lhe que aceitava, a dizer-Lhe o meu “creio”, sem esquecer os meus pedidos.
— Sede comigo, Jesus. Sede sempre a minha força.

(Sentimentos da alma: 16 de Abril de 1954 - Sexta-feira)