2 de agosto de 2007

QUERO SER VITIMA

“Quero ser vítima !”
Esta página dos “Sentimentos da alma” ditada pela Beata Alexandrina para o seu Diário é deveras interessante, visto que ela aí mostra não só a sua humildade, mas também as suas lutas, as suas dúvidas, dúvidas motivadas pelo tesouro que lhe fora encerrado no coração por Jesus e Maria : a humanidade.
Ela vive sentimentos que são dela sem verdadeiramente o serem, visto que as dúvidas de que vai falar-nos, não são propriamente as suas mas as da humanidade. Esta “incorporação” da humanidade que ela vive desde há muito e já em si um grande sofrimento, visto que a Beata Alexandrina vivia então tudo quanto vivia a própria humanidade, com todos os bens e males que nela existiam então e existem ainda.
Conhecendo esta situação particular da sua alma, pode-se assim compreender melhor quando ela escreve : “E eu, pobre de mim, apavorada pelos sofrimentos, parece-me que vou tantas vezes a cair no desespero !” ou ainda quando ela diz, mais adiante : “Era melhor gozar tudo neste mundo, porque depois desta vida nada mais há.” Se assim não fosse, estas palavras saídas da sua boca seriam inaceitáveis. Mas logo a seguir, ela diz também : “Ó Jesus, ó Mãezinha, não consintais que eu deixe de confiar e esperar em Vós. Valei-me, eu não quero ofender-vos.” Estas, ao contrário, são palavras suas e não aquelas da humanidade pecadora que dentro do coração da Alexandrina se agita e se rebela.
A Alexandrina só tem um único desejo : “Quero ser vítima e só quero o que quer o meu Senhor.” E, para que assim seja, ela conhece o melhor refúgio, o único asilo onde as portas estão sempre abertas : o Coração de Jesus [1].
Um longo colóquio se trava entre Jesus e a sua querida esposa. Jesus queixa-se da dureza do coração dos homens, dos desvaires criminosos da humanidade pecadora e propõe soluções para conter esta terrível calamidade e, para tranquilizar a sua vítima, diz-lhe também que ela o não ofende com as suas dúvidas, porque fazem parte do plano divino.
No fim do colóquio Jesus, para a confortar e alimentar, propõe-lhe uma gota do seu santíssimo Sangue [2]. É assim “mais uma renovação das maravilhas de Jesus, mais uma gota de Sangue divino a correr nas veias da vítima deste Calvário”, acrescenta Jesus.

* * * * *

« Ainda não posso falar. Só dito umas palavrinhas como prova de que quero obedecer até à morte. Não sei o que me espera. Não sei se o meu coração adivinha alguma coisa. É tal a dor e a agonia que por vezes parece tirara-me esta vida morta que eu vivo. Não tenho para onde virar-me, não tenho quem em socorra. Digo com toda a verdade : no sentir da minha alma, não tenho uma única pessoa que seja por mim, em quem possa confiar. Parece-me que ninguém me acredita, todos duvidam de mim, todos me escarnecem e desaparecem. E eu, pobre de mim, apavorada pelos sofrimentos, parece-me que vou tantas vezes a cair no desespero ! E daqui nasce a revolta contra Deus, se é que Ele existe ; sem eu querer, é claro, mas tenho momentos de duvidar da existência de Deus. Caso Ele existisse, seria para mim pior que um tirano. Vem-me esta tentação : como pode consentir Deus que eu sofra tanto no corpo e na alma por tão longos anos ! Depois a dúvida da eternidade ! Era melhor gozar tudo neste mundo, porque depois desta vida nada mais há. Ai, meu Deus, meu Deus, quando assim luto, atiro-me para Jesus e para a Mãezinha, chamo-os e abandono-me só a Eles. Digo-lhes : Ó Jesus, ó Mãezinha, não consintais que eu deixe de confiar e esperar em Vós. Valei-me, eu não quero ofender-vos. Sinta o que sentir, passe pelo meu espírito o que passar, eu abandonada a Vós vou para onde Vós fordes, fico onde me colocardes e convosco serei salva. Parece-me que não acredito na Santíssima Trindade nem em Jesus sacramentado, nem nosso Santos, nem no Céu. Tudo é morte depois desta vida, assim como é morte tudo em mim já nesta.
Continuo a sofrer muito com aqueles instrumentos que passaram do Coração da Mãezinha para o meu. Mas, ai o sangue dela junto ao de Jesus é o que mais me causa mais dor. Como pode juntar-se o sangue divino ao meu ? Parece-me que foi um enxerto no meu coração. E em mim tem que haver raízes bem fortes, bem presas para o fundo, para não deixarem o vendaval atirar o tronco a terra, para que os rebentos possam florir e dar bons frutos. Queria dizer muito deste sentimento, mas a ignorância não me deixa. Sofro, sofro infinitamente, mas não deixo de ansiar os sofrimentos, a perfeição, o amor a Jesus e às suas coisas. Quero ser vítima e só quero o que quer o meu Senhor. Em toda esta angústia passei o meu dia de ontem bradando, bradando uma e outra vez ao Céu. Vi-me no Calvário e este cheio de caminhos e todos tinham que ser regados com o meu sangue. Esta visão transportou-me ao Horto. Cheia de agonia e pavor, suei sangue. Fui presa e transportada para a prisão. Suportei todos os tormentos daquela vil canalha. E hoje, sob a fúria dos mesmos, segui para o Calvário e ainda crucificada na cruz com todo o corpo retalhado a sua raiva e ódio saíam sobre mim. Eu senti que os malvados queriam ver-me desaparecer para sempre. Que ódio, que crueldade ! E o Coração divino de Jesus não deixava em mim de amar. Era dentro do meu coração que Ele amava a Humanidade inteira. E eu não podia deixar de amar a cruz; via e sentia que só ela era a vida. O sangue regou todo o Calvário e era como se regasse o mundo inteiro, todo ali presente, todo cruel a dar a morte a Jesus. Fiquei sem vida, foi como se entregasse o espírito ao Céu, a Deus. Não levou muito tempo que eu voltasse à vida; foi Jesus que ma deu e falou no meu coração.
— Quantos avisos, quantos pedidos do Mendigo Divino, e Jesus vai imolando a sua vítima, Jesus vai-a crucificando contidamente. E o mundo, o cruel mundo continua com os seus desvarios. Continua na opulência, na vaidade, na devassidão.
Minha filha, Minha querida filha, os pedidos de Jesus não são uma coisa vã. É grande, é grande, é urgente a imolação mais dolorosa e permanente. Ai de Portugal sem a vítima deste Calvário ! Pobre Portugal, se não correspondes ! Ai do mundo sem a Santa Missa, sem a Eucaristia, sem as minhas vítimas. Ai do mundo sem a vítima pequenina nos seus olhos, mas grande, muito grande, com toda a grandeza aos olhos de Deus !
Pede, pede, Minha filha, levanta ao Céu as tuas mãos, fixa nele os teus olhares, não duvides da tua prece, não duvides do teu poder com o Todo-Poderoso. Tudo pedes com Jesus, tudo pedes com Maria. Eu quero, Eu quero, sim, Minha filha, que o teu brado seja constante. Tem coragem, tem coragem; os teus sentimentos não são a realidade. Os teus sofrimentos, os teus sofrimentos nascem cada vez mais dolorosos nesses sentimentos aflitivos. A hora é grave, a hora é grave ! O teu esposo Jesus lançou mão a tudo. Quer salvar o mundo, quer salvar sobretudo Portugal. Pede, pede, Minha filha, a misericórdia, a compaixão da santíssima Trindade.
— Ó meu Jesus, ó minha Trindade Divina, como hei-de eu pedir-vos se duvido de Vós ! Como hei-de eu pedir-vos se é tão grande a minha dúvida ? Bem sabeis, Senhor, que em nada acredito, mas não deixo de combater. Mas já que agora não duvido, já que agora acredito que existe uma eternidade, peço-vos com toda a lama e com todo o coração : Jesus Sacramentado, Coração Divino de Jesus, Santíssima Trindade, Eterno Pai, quero aplacar a Vossa justiça, quero implorar a Vossa misericórdia. Apiedai-vos, apiedai-vos, compadecei-vos de Portugal, compadecei-vos do mundo inteiro ; todo o mundo é filho do Coração Divino de Jesus.
— Ó Minha filha, ó Minha filha, todos os teus sofrimentos são obra da sabedoria divina. Tu não desgostas nem ao de leve o teu Jesus com as tuas dúvidas. Tudo quanto de ti exijo são meios de salvação. Não percas o teu heroísmo, a tua generosidade. O Senhor conta contigo. Da dor do teu coração hão-de rebentar rebentos novos, como rebentarem da árvore da cruz. Não te tenho dito Eu que em tudo te assemelhei a Mim ? Que alegria para o Meu Divino Coração se os homens compreendessem bem isto ! Tu toda Cristo, toda Jesus. Jesus em toda a vida da Sua vítima.
Vem receber a gota do Meu divino sangue.
Mais uma renovação das maravilhas de Jesus, mais uma gota de sangue divino a correr nas veias da vítima deste Calvário.
Fica, Minha filha, na tua cruz. Fica nesta dor que só Jesus conhece e compreende. Fica nesta vida que Ele te escolheu. Fica com coragem, fica com alegria. Bendiz e sorri sempre à tua cruz que te dá o Senhor.
Coragem, coragem, o Céu é contigo. Pede oração, pede penitência.
— Obrigada, obrigada, meu Jesus. »[3]
_____
[1] Ler a este respeito : “Junto do altar do Sagrado Coração de Jesus”, um longo trabalho sobre a relação estreita e amorosa entre o Coração de Jesus e a Beata Alexandrina.
[2] Ler sobre esta “transfusão” de Sangue divino, o trabalho intitulado “O Sangue do Cordeiro”.
[3] Sentimentos da alma : 10 de Janeiro de 1952 – Sexta-feira.

3 comentários:

Nova Evangelização disse...

* * *
Caro Amigo Afonso Rocha

Desta vez, pelo menos, serei breve.
Como passou as sua férias, com a sua família?
Deus queira que da melhor maneira possível, ao seu gosto, mas sobretudo segundo a Vontade de Deus.

Eu já há cerca de dez anos que não gozo férias, pois não tenho bastantes condições nem diponibilidade para isso.
Nem sequer me procupo com 'férias', pois tenho sempre terefas, mormente de ordem espiritual, que considero bem mais importantes e prioritárias.

Mudando de assunto:

O site "Pai de Amor" publicou há pouco tempo, sob proposta minha, um daqueles capítulos sobre sobre o Inferno, da série "Absoluta e tremenda realidade do Inferno" - “ISTO É TUDO MEU!”, da Beata Alexandrina...
Pode conferir em:
http://www.paideamor.com.br/colaboradores/artigo84.htm

Também publicou mais recentemente, desta feita por iniciativa deles, o seguinte tema sobre a Alexandrian de Balasar:
«Loucura do Amor
MENSAGEIRA DA EUCARISTIA
Beata Alexandrina Maria da Costa», do sítio:
www.geocities.com/jcbcarneiro
Pode verificar no seguinte endereço:
http://www.paideamor.com.br/diversos/eucaristia/eucaristia18.htm

Como vê, parece que, embora aparentemente com alguma lentidão, estamos a espalhar cada vez mais e melhor a Vida e a Obra da Beata Alexandrina, directa ou indirectamente...
E sobretudo, creio eu, através do Sítio oficial, assim como dos seus (do Afonso Rocha) diversos sites e blogues sobre a nossa querida Alexandrian Maria da Costa, graças a Deus.

Quem semeia com amor, mais tarde ou mais cedo colherá os respectivos frutos.
Parabéns, bom Amigo, e cada vez, se possível, com mais força e persistência!

Reze por mim, por favor, que tanto peciso, que eu também rezarei por si, e quando puder e quiser venha fazer-me uma nova visita, ainda que breve e rápida, o que para mim é sempre honra e prazer.

Brevemente publicarei novo artigo da B. Alexandrina, de preferência daquela série que teve a gentileza de enviar-me com tal finalidade.

Aceite os meus melhores, amistosos e respeitosos cumprimentos.
Em Jesus e Maria,
José Mariano
*

Maria João disse...

Concentração pela Paz no Darfur vai unir vários países, este domingo, dia 16.

Aparece, às 18h, no Largo Camões, Lisboa.

Traz uma fita ou pano preto. Mais informações em www.pordarfur.org.

Ecclesiae Dei disse...

Maravilhoso poder conhecer mais sobre a vida da Beata Alexandrina. Ótimo trabalho!
Paz e Bem!