quarta-feira, outubro 09, 2019

A MORTE DA BEATA ALEXANDRINA


Domingo, dia 13 de Outubro de 2019, Balasar vai estar em festa… Celebra os 64 anos da morte da Beata Alexandrina.

Alexandrina Maria da Costa faleceu na paróquia de Balasar, no dia 13 de Outubro de 1955. Foi numa quinta-feira, dia da Eucaristia e aniversário da última aparição de Nossa Senhora em Fátima.


Ela tinha pedido a Jesus para morrer num dia consagrado à Eucaristia e à Mãezinha do Céu e, Jesus fez-lhe a vontade!

Vamos viver os últimos dois dias da sua vida na terra, contados pela Sãozinha, a professora da escola de Balasar e íntima amiga da Alexandrina.

«Durante a manhã de 12 de Outubro — conta ela —, dizia repetidas vezes:

“Eu queria o Céu! Eu não tenho peninha nenhuma de deixar a terra! Acabaram todas as trevas da alma! Acabaram todos os sofrimentos da alma! É sol, é vida, é tudo, é tudo, é Deus!”
A irmã perguntou-lhe: — Tu que querias?

“O Céu, porque na terra não se pode estar. Eu queria receber a Extrema-Unção, enquanto estou viva (lúcida). Vai ser muito bonito aqui. Ó Jesus, seja feita a vossa vontade e não a minha!

Neste dia, 12 de Outubro, pelas 15 horas, tendo sido autorizado, fez o seu acto de resignação à vinda do Paizinho — o Padre Mariano Pinho —. Todos de joelhos, a Alexandrina acompanhada pelo Sr. P. Alberto Gomes, recitou o seguinte acto:

“Ó Jesus Amor, ó Divino Esposo da minha alma, eu, que na vida sempre procurei dar-Vos a maior glória, quero na hora da minha morte fazer-vos um acto de resignação à vinda do meu Paizinho Espiritual; e assim, meu amado Jesus, se neste acto der maior glória à Trindade Santíssima, eu jubilosamente me submeto aos vossos eternos desígnios, renunciando à felicidade que a presença do meu Paizinho me daria, para só querer e implorar da vossa misericórdia o vosso reinado de amor, a conversão dos pecadores, a salvação dos moribundos e o alívio das almas do Purgatório”.

Imediatamente seguiu-se o acto da resignação da sua morte, assim:

“Meu Deus, como sempre vos consagrei a minha vida, vos ofereço agora o fim dela, aceitando resignada a morte, acompanhada das circunstâncias que vos derem maior glória”.

No fim destes dois actos, foi-lhe ministrada a Extrema-Unção pelo reverendo Pároco da freguesia, Padre Leopoldino Mateus. Antes de receber este Sacramento, pediu singularmente perdão à mãe, à irmã, ao confessor Sr. P. Alberto, ao Sr. Abade, ao Sr. Doutor, às primas, às pessoas amigas e à criada. Enquanto pedia perdão, disse estas frases:

“Minha mãe, perdoe-me as minhas impertinências e agradeço todos os cuidados que teve comigo”.

“Deolinda, perdoa-me. Foste uma sacrificada por mim. Agradeço tudo o que fizeste por mim”.

Ao Sr. Dr. Azevedo: “Agradeço-lhe tudo e peço-lhe perdão. Eu não o esquecerei no Céu”.

Ao Sr. Abade: “Peço-lhe perdão. A minha eterna gratidão por me trazer Nosso Senhor todos os dias. Peço que em meu nome peça perdão ao povo todo”.

“Para ti, Sãozinha, a minha gratidão eterna, que bem o mereces”.

Às pessoas que lhe tinham feito bem: Agradeço a todas as pessoas que nos fizeram bem e peço por elas no Céu.

Depois de pedir perdão, falou assim: “Já estarei com a minha alma pura para receber a Extrema-Unção?”. Foi ministrado este sacramento. Depois, foi dizendo: “Ai, Jesus, não posso mais na terra! Ai, Jesus! Ai, Jesus! A vida, o Céu custa, custa. Sofri tudo nesta vida pelas almas. Esmirrei-me, pilei-me nesta cama, até dar o meu sangue pelas almas. Perdoo a todos. Foram tormentos para meu bem. Perdoo, perdoo. Ai, Jesus, perdoai ao mundo inteiro. Ai, estou tão contente, tão contente por ir para o Céu! (Sorriu-se com os olhos no Céu). Ai, que claridade! Ai, Sr. Dr. Azevedo, que luz! É tudo luz! (Sorriu-se). As trevas, as trevas, tudo desapareceu. Bem dizia o Sr. Doutor!...”


Às 6 horas da manhã do dia 13:

Pequenos testemunhos:

“Meu Deus, meu Deus, eu amo-vos! Sou toda vossa! Tenho necessidade de partir! Não gostava de morrer de noite! Morrerei hoje?! Gostava”. (Sorria-se de um sorriso angelical).

Pediu à irmã que lhe desse a beijar o crucifixo e a Mãezinha. A irmã perguntou-lhe: Para quem te sorrias? “Para o Céu”.

Durante a manhã foi visitada por várias pessoas. Quando entrou um grupo, exclamou, assim, com voz mais forte: “Adeus, até ao Céu!”. Não pequem! O mundo não vale nada! Isto já diz tudo! Comunguem muitas vezes! Rezem o terço todos os dias!”.

Às 11 horas, disse ao Sr. Dr. Azevedo: “Está para breve”. Ele perguntou-lhe se os breves dela eram iguais aos de Nosso Senhor. E continuou: Certamente amanhã, às 3 horas, Nosso Senhor ainda lhe quer falar.

Ela sorriu-se levemente.

Às 11h25: “Eu sou muito feliz porque vou para o Céu!”

O Sr. Dr. Azevedo disse: No Céu peça muito por nós. Ela acenou que sim.

Às 11h35 pediu que lhe rezassem o ofício da agonia.

Às 17 horas, disse para um homem: “Adeus, até ao Céu!”

Às 19 horas, disse: “Vou para o Céu!”

Às 19h30, exclamou: “Vou para o Céu! A irmã retorquiu: Mas não é já. A Alexandrina respondeu: “É, é”.

Às 20h29 expirou. Conservou-se perfeitamente lúcida até ao último momento da sua existência. Assistiram à morte Mons. Mendes do Carmo, a família e pessoas amigas.»

Alguns testemunhos

— Mons. Mendes do Carmo, que assistiu à morte da Alexandrina, falou assim: Até aos 71 anos nunca beijei a mão de uma mulher, mas beijei a mão da Alexandrina.
— Um sacerdote religioso ao vê-la no caixão disse: Toda ela é um lírio branco entre os lírios.

— Passaram pela casa da Alexandrina desde que ela foi para o caixão mais de 5000 pessoas a beijar-lhe a cara, as mãos e os pés. Passavam pelo seu cadáver vários objectos religiosos, como terços, medalhas, etc.

Ao enterro assistiram alguns milhares de pessoas. No dia da sua morte, já se obtiveram graças por seu intermédio.

Maria da Conseição Leite Proença (Sãozinha)

segunda-feira, outubro 07, 2019

“GRAVA-ME COMO UM SELO NO TEU CORAÇÃO”


“GRAVA-ME COMO UM SELO NO TEU CORAÇÃO”

Esta frase que se pode ler no Cântico dos Cânticos aplica-se maravilhosamente bem à Beata Alexandrina que, bem nova ainda se consagrou a Deus e a Ele se ofereceu para ser vítima pelos pecadores, porque o seu amor era “forte como a morte”. Por isso mesmo, também ela poderia dizer desse amor, que “os seus ardores são setas de fogo, chamas do Senhor”.


Na sua autobiografia, podemos ler o que ela escreveu sobre esta acto heróico:

“Sem saber como, ofereci-me a Nosso Senhor como vítima, e vinha, desde há muito tempo, a pedir o amor ao sofrimento. Nosso Senhor concedeu-me tanto, tanto esta graça que hoje não trocaria a dor por tudo quanto há no mundo. Com este amor à dor, toda me consolava em oferecer a Jesus todos os meus sofrimentos. A consolação de Jesus e a salvação das almas era o que mais me preocupava”.

Mais adiante, na mesma Autobiografia, a Beata escreveu ainda:

“Meu Jesus, quero amar-Vos, quero abrasar-me toda nas chamas do Vosso amor e pedir-Vos pelos pecadores e pelas almas do Purgatório”.

Antes mesmo de ouvir aquelas três palavras que foram o lema de toda a sua vida – amar, sofrer, reparar –, já ela toda se entregava, já ela toda era oferta, já toda ela era amor e, “amor forte como a morte”! Eis porque razão ela “não trocaria a dor por tudo quanto há no mundo”, porque este sofrer era amor, “amor que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente”, amor que nem “as águas torrenciais podem apagar”, amor que “nem os rios o podem submergir”.

Este amor brotava do coração da Beata Alexandrina e transformava-se em cântico mavioso, o cântico da esposa ao Amado, que num crescendo subtil e poético transbordava de alegria:
“Ó Jesus, eu Vos ofereço o dia e a noite, o calor e o frio, o vento, a neve, a lua, o luar, o sol, a escuridão, as estrelas do firmamento, o meu dormir, o meu sonhar, como actos de amor para os vossos Sacrários”.

“Sentada aos pés de Jesus, [ela] ouvia a sua palavra”, diz-nos o Evangelho de hoje referindo-se a Maria Madalena.

O mesmo se poderia dizer da Alexandrina, cujo único prazer era ouvir a voz do Senhor, a voz do Esposo celeste que tantas e tantas vezes a visitou, por isso mesmo se pode pensar e deduzir que a Beata Alexandrina “escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada”, porque ela sabia que “uma só coisa é necessária”: amar e que este amor se declinava para ela em amar, sofre, reparar.

Afonso Rocha

sexta-feira, outubro 04, 2019

OS SANTOS PERSEGUIDOS


Quando lemos as vidas dos Santos e Santas de Deus constatamos, quase sempre, que foram mal percebidos e sobretudo que foram perseguidos.
Isto não nos deve causar admiração porque Cristo também perseguido e mesmo condenado à morte e morte na cruz.

O Cónego Molho de Faria

Todavia os Santos tiveram opositores muito particulares: o próprio clero e a Igreja nossa Mãe.
Poderia citar uma ladainha dos Santos e Santas que foram perseguidos pelo clero, antes de serem colocados nos altares pelo mesmo clero e, algumas vezes pelo mesmo clero que alguns anos antes os tinham perseguido ferozmente. Apenas citarei dois deles:
S. João da Cruz, perseguido e molestado pelos próprios Carmelitas;
S. Pio de Pietrelcina, capuchino italiano que sofreu durante muitos anos a perseguição, não só dos seus próprios colegas, mas também por parte de Bispos, para quem ela era um quebra-cabeças.

Mais perto de nós temos o caso da Beata Alexandrina.

Primeiramente, por causa de ditos e mexericos orquestrados pelo Jesuíta Padre Agostinho Veloso, perdeu o seu primeiro director espiritual, o Padre Mariano Pinho.
Mais tarde perdeu também o seu segundo director espiritual, o Padre Humberto Pasquale, por este ter tomado posição contra a comissão de inquérito, mandatada pelo Arcebispo de Braga e que emitira um juízo desfavorável, dizendo que nada havia de sobrenatural na vida da “Doentinha de Balasar”.
Esta comissão nomeada pelo Arcebispo de Braga tinha à sua frente o Cónego Molho de Faria, que nunca interrogou a Alexandrina.
Sim, veio uma vez visitá-la mas unicamente para a ameaçar:

— “Lembra-te, Alexandrina, que o teu caso está nas minhas mãos.”

— “O meu caso, Sr. Cónego, está nas mãos de Deus”, respondeu ela gentilmente.»

Na declaração final da dita Comissão, escrita pelo Arcebispo, podemos ler na alínea A o seguinte:

a) que se faça silêncio sobre os pretensos factos extraordinários atribuídos à referida doente ou de que ela se afirma protagonista, os quais não devem ser expostos nem apreciados em público, mas confinar-se quando muito ao âmbito restritamente privado.

Surrealista!

O Sr. Arcebispo de Braga — Dom António Bento Martins Júnior — tinha assinado pouco antes o pedido de Consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria, sabendo pertinazmente que este pedido tinha origem em Balasar, portanto na Alexandrina.
Esta posição do Arcebispo Primaz teve outras consequências: influenciou outros Bispos que também tomaram posição contra a Alexandrina, como por exemplo o Bispo de Aveiro que publicou uma nota pastoral, para ser lida em todas as igrejas da sua diocese, proibindo quaisquer visitas à “Doentinha de Balasar”, o que causou a esta uma grande pena.
Convém dizer e até mesmo afirmar que a Igreja deve mostrar-se prudente nestes casos, porque, como disse Jesus, no meio do trigo também se encontra o joio, no entanto há posições tomadas que mais parecem vindas da antiga inquisição e que pouco têm de caridade cristã.
Estas informações nada têm de azedume contra a Igreja da qual me sinto plenamente filho e o serei até à morte, mas era necessário dizê-lo, que mais não seja para que se conheça esta faceta da vida da Beata Alexandrina.
O mesmo Arcebispo de Braga, pouco após a morte de Alexandrina, veio celebrar uma missa a Balasar e falou dela em termos que mostravam a sua retractação quanto ao conteúdo da declaração publicada alguns anos antes.
Quanto ao Cónego Molho de Faria, ele foi uma das testemunhas no processo informativo diocesano para a beatificação e canonização de Alexandrina e nessa ocasião mostrou o seu arrependimento e o seu desejo — que pareceu sincero — de a ver sobre os altares de Portugal e do mundo.
Mais vale tarde do que nunca!

Afonso Rocha

quinta-feira, outubro 03, 2019

A MÃE DA BEATA ALEXANDRINA


Maria Ana, filha mais velha de José António da Costa e de Ana Joaquina Leitãoera uma bela moça alegre e trabalhadeira. Nasceu a 22 de Janeiro de 1877, em Grezufes, um dos muitos lugares de que se compõe a aldeia de Balasar. Teve 4 irmãos e 5 irmãs.


Para memória, aqui fica o seu “assento” de baptismo:

«Aos 24 dias do mês de Janeiro do ano de 1877, nesta Igreja Paroquial de Santa Eulália de Balasar, concelho da Póvoa de Varzim, Diocese de Braga, baptizei solenemente um indivíduo do sexo feminino, a quem dei o nome de Maria e que nasceu nesta freguesia às cinco horas da manhã do dia 22 do mesmo mês e ano, filha legítima de José António da Costa, lavrador, natural desta mesma freguesia, e de Ana Joaquina Leitão, lavradora, natural da freguesia de Minhotães, concelho de Barcelos, desta mesma diocese, e na mesma recebidos, e paroquianos e moradores no lugar de Gresufes desta freguesia de Balasar, neta paterna de Manuel António da Costa e de Joaquina Maria de Freitas e materna de Francisco Manuel de Araújo e de Maria Joaquina Leitão. Foi padrinho Manuel António da Costa e madrinha Maria Joaquina Leitão, lavradores, os quais todos sei serem os próprios.
E para constar lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, comigo o assinou o padrinho, não assinando a madrinha por não saber escrever.
Era ut supra.
O Padrinho – Manuel António da Costa
O Reitor – António Martins de Faria»

Na sua juventude apaixonou-se por António Gonçalves Xavier, de Vila Pouca, lugar da freguesia, vizinho de Gresufes.
O Professor José Ferreira explica:

«Maria Ana da Costa conhecia com certeza António Xavier desde a infância, pois Vila Pouca e Gresufes são pegados e as casas dos pais dos dois não distavam mais de 300 metros. O que fizeram nas termas foi sem dúvida estreitar uma relação que antes era só de vizinhança.»

Desta paixão — que era, sem qualquer dúvida, sincera por parte de Maria Ana — nasceu uma primeira filha, a Deolinda, em 21 de Outubro de 1901. Maria Ana tinha então 24 anos.
Naqueles tempos, por razões diversas que não cabe aqui explicar, eram numerosas as mães solteiras, por isso mesmo não deu grande alarido na freguesia que isso tivesse acontecido com aquela jovem camponesa.
Passou-se algum tempo sem que o prometido casamento se realizasse. António Xavier tinha outras ideias: ir para o Brasil ganhar o dinheiro necessário para sustentar a futura esposa e a filha. E assim o fez.
No seu depoimento, a quando do processo diocesano para a beatificação e canonização da Alexandrina, a Deolinda explicou:

«Da minha mãe tive as informações sobre o meu pai que agora exponho.
Era um aventureiro: foi várias vezes ao Brasil. A minha mãe tinha ido para as Termas do Gerês, para cura, e foi lá que o conheceu.»

E mais adiante, diz ainda:

«Voltou do Brasil quando eu já tinha os meus dois anos e começou a andar de novo atrás da minha mãe. Mas como a família (dela) se opunha, ela disse-lhe claramente que naquelas condições não podia casar… Então ele apresentou-se à minha avó e ao meu tio Joaquim e combinou o matrimónio: estavam já a procurar casa quando ele teve de ir para a Póvoa para se curar duma doença contraída no Brasil…
Um dia que a minha mãe tinha ido a Vila do Conde vender hortaliça, no regresso passou pela Póvoa onde tinha marcado um encontro com ele para o informar de que estava novamente grávida (nascerá a Alexandrina). Mas da casa donde tinha saído o meu pai saiu também uma mulher que lhe disse: – Xavier, as minhas tesouras não estarão no teu quarto?
A minha mãe teve assim a confirmação das vozes que já corriam. Xavier protestou que eram tagarelices. Mas na verdade em pouco tempo casou com aquela mulher da Póvoa.
A minha mãe chorou lágrimas amargas e desde então, por toda a vida, vestiu-se quase sempre como uma viúva e dedicou-se exclusivamente à educação das duas filhas…»

Aquela que mais tarde será muitas vezes a “secretária” da Alexandrina, deixou-nos de Maria Ana este testemunho:

«A mãe da Alexandrina reparou de modo edificante os erros da sua juventude. Ou melhor, com a caridade para com todas as pessoas, que a conheciam como mulher de grande coração; depois com uma vida de intensa piedade. Levantava-se cedíssimo. Todos os dias pelas 5 da manhã entrava na igreja, de que tinha a chave. Quando começava a Santa Missa, ela já há duas horas estava de joelhos frente ao Santíssimo. Assim fez enquanto as forças lho consentiram.»

Depois daqueles desaires e respectivas consequências, Maria Ana, sinceramente arrependida da sua conduta, mudou completamente, tornando-se mesmo um exemplo para todos, porque a partir daí manteve “uma conduta irrepreensível”.
Deolinda, falando de sua mãe, presta-lhe esta simples e sincera homenagem:

«A minha mãe ensinou-nos a trabalhar desde pequenas. A sua caridade era conhecida de todos, tanto que o pároco de então disse: – Quando esta senhora morrer, senti-lo-á toda a paróquia. – De facto não havia doente que ela não socorresse. Vinham chamá-la até de noite e ela acorria porque sentia pena. Assistia os moribundos; recitava as orações da agonia; vestia os mortos. Mais, sendo uma boa cozinheira, era chamada per os jantares nos baptizados e nas bodas, como também na residência por ocasião de pregações.»

Na sua autobiografia a Alexandrina fala-nos da sua primeira “teimosia”, que teve resultados pouco lisonjeiros:

«Como era desinquieta e, enquanto minha mãe descansava um pouco, tendo-me deitado junto dela, eu não quis dormir e, levantando-me, subi à parte de cima da cama para chegar a uma malga que continha gordura de aplicar no cabelo – conforme era uso da terra – e, por ter visto alguém fazê-lo, principiei também a aplicá-la nos meus cabelos. Minha mãe deu por isso, falou-me e eu assustei-me. Com o susto, deitei a malga ao chão, caí em cima dela e feri-me muito no rosto. Foi preciso recorrer imediatamente ao médico que, vendo o meu estado, recusou-se a tratar-me, julgando-se incapaz. Minha mãe levou-me a Viatodos, a um farmacêutico de grande fama, que me tratou, embora com muito custo, porque foi preciso coser a cara por três vezes e levou bastante tempo a cicatrizar a ferida.»

No mesmo documento, e com muita ternura a Alexandrina conta a oferta que a mãe lhe fizera: os primeiros soquinhos:

«Uma vez minha mãe deu-me uns soquinhos. Eu fiquei tão contente com eles, porque eram lindos!... Para ver a figura que fazia com eles, preparei-me como se fosse à Missa, calcei-os e depois ajoelhei-me, pondo-os à minha frente, fingindo que estava na igreja. Como era vaidosa!»

Com o mesmo carinho, Alexandrina lembra-se do que lhe dizia a mãe, quando na sua meninice se mostrava irrequieta e tumultuosa:

«Minha mãe dizia: “Os fidalgos têm um bobo para os fazer rir e eu não sou fidalga, mas também tenho quem me esteja a fazer festa”».

Mas Maria Ana tinha punho de ferro e era exigente para com as filhas: deu-lhes uma boa educação religiosa e inculcou-lhes duas grandes virtudes que tanto a uma como a outra, ficaram bem registadas nos seus corações juvenis: a caridade e o amor ao trabalho.
No que toca aos carismas de sua filha, ela sempre se mostrou recatada, quase alheia a eles, ou porque não os compreendesse bem, não os avaliando ao seu justo valor, ou então para deixar que livremente Deus actuasse na Alexandrina, segundo a Sua santíssima Vontade.
Maria Ana faleceu pouco mais de 5 anos após a Alexandrina, em 24 de Janeiro de 1961, e foi sepultada na campa da família, no Cemitério de Balasar, junto de seu irmão Joaquim Costa, que a precedeu na Mansão celeste.

Afonso Rocha

VIDA MONÓTOMA ? NÃO !

Os dias e com eles as semanas, os meses, os anos passam, mas a Alexandrina permanece fiel ao lema de vida que Jesus lhe fixara em 1931: AMAR, SOFRER, REPARAR.


Poder-se-ia pensar que a sua vida era monótona, onde só a oração e o sofrimento tinham lugar.
Isso seria esquecer que a Alexandrina, desde nova, sempre foi muito alegre e que a sua alegria era comunicativa.
Mas como podia ela ser alegre e sorridente, quando todos os seus dias eram cheios de sofrimento e, muitas vezes de desgostos e decepções?
Não devemos esquecer que o seu sorriso era natural mesmo quando “enganador”!
Quantas vezes ela sorria às pessoas, quando o seu coração estava triste e que ela tinha mais vontade de chorar do que de rir.
Mas mesmo este sorriso “enganador”, como ela dizia, fora ela mesma que o pedira a Jesus, para que as pessoas que vinham a sua casa, não se dessem conta do sofrimento que lhe ia na alma…

«Dai-me para os meus lábios um sorriso enganador no qual eu possa esconder todo o martírio da minha alma.» escreveu ela no seu diário de 6 de Março de 1942.

“Esconder o martírio da minha alma”, disse ela. E na verdade muito sofria, não só às sextas-feiras quando vivia a Paixão de Cristo, mas mesmo noutros dias particulares, durante os quais Jesus lhe pedia grandes sofrimentos para reparar os pecados que nesses dias se cometiam, como por exemplo em dias de carnaval ou outras festas profanas onde não havia — nem há— freio para nada.
Nestes casos, como noutros, diante do sofrimento, sempre dizia com humildade: “Aceito por vosso amor, aceito pelas almas”. Mas não esquecia a sua pequenez, a sua fraqueza e logo dizia também:

“Não me falteis, meu Jesus, dai-me graça, força e amor”.

Não, a vida da Alexandrina tinha nada de monótono, bem pelo contrário: era uma vida activa, uma vida sempre voltada para Deus e para os homens, seus irmãos.
Quando recebia visitas, não só aquele sorriso “enganador” estava sempre presente nos seus lábios, mas destes saiam para todos boas palavras, bons conselhos para os ajudar a levar uma vida melhor e mais digna aos olhos de Deus.
Quantos ali vieram por curiosidade e voltaram convertidos, virados como uma tripa quando lavada… perfumados pelas virtudes daquela simples mulher que ali estava no leito de dor, vivendo apenas da Eucaristia.
Também vem dos seus escritos esta frase que sendo uma verdade, parece revestida de certo modo de algum humor, o que era próprio da Alexandrina:

«Os medos que sentia à crucifixão transformaram-se em saudades. Quanto não havia de custar a Nosso Senhor estar com o seu santíssimo Corpo na Cruz se a mim me custa tanto ter o meu pousado na cama!»

A um grupo de pessoas que a visitaram, ela fez um “sermão” que muitos sacerdotes gostariam de fazer e, começou assim:

— «Que esses olhares curiosos, fixando todos um só olhar, que todas as pessoas que me escutam, tirem algum proveito do meu martírio para as suas almas. É a razão que me leva a imolar-me; é a razão que me leva a sacrificar-me; é a razão que me leva a aceitar de Jesus tudo o que ele me quer dar — todo o sofrimento que Nosso Senhor me quer enviar — eu sempre aceito tudo.»

E logo a seguir, em forma de promessa que ainda hoje é válida, ela afirmou com toda a força da sua alma:

«Estou absolutamente certa, de que eu, que nesta terra nunca recusei nada a Nosso Senhor, que Ele também nada me recusará no céu.»

Esta certeza da Alexandrina está no entanto submetida a uma obrigação, como o são todas as promessas:

«Mas é absolutamente necessário que o aproveiteis; que a vossa vinda aqui não seja apenas por curiosidade, mas por necessidade de saber o que Nosso Senhor espera de cada um de nós.»

Terminarei como muitas vezes a Beata Alexandrina terminava uma página dos seus escritos:

Perdoai-me, Jesus; dai-me a Vossa bênção.
Afonso Rocha

AS PROMESSAS DE JESUS À BEATA ALEXANDRINA


Como a muitas Santas e Santos, Bem-Aventuradas e Bem-Aventurados que a Igreja venera, também à Beata Alexandrina, Jesus fez promessas, uma das quais com pedido de devoção para toda a Igreja católica.


De facto, no dia 28 de Janeiro de 1949, Jesus transmitiu à Beata Alexandrina esta mensagem importante:

«Minha filha, minha esposa querida, faz com que Eu seja amado, consolado e reparado na minha Eucaristia. Diz em Meu Nome que todos aqueles que comungarem bem, com sincera humildade, fervor e amor em seis primeiras quintas-feiras seguidas e junto do Meu Sacrário passarem uma hora de adoração, e íntima união comigo lhes prometo o Céu. É para honrarem pela Eucaristia as Minhas santas Chagas, honrando primeiro a do Meu sagrado Ombro tão pouco lembrada. Quem isto fizer, quem às Santas Chagas juntar as dores da minha Bendita Mãe, e em nome delas nos pedirem graças, quer espirituais, quer corporais, Eu lhas prometo; a não ser que sejam de prejuízo à sua alma. No momento da morte trarei comigo Minha Mãe Santíssima para as defender.»

Podemos ver aqui um lembrete duma muito antiga devoção à Chaga do ombro, já pedido há séculos a santa Gertrudes e a S. Bernardo de Claraval.

Passar uma hora diante do sacrário para obter o Céu, é na verdade uma grande, grande promessa que merece toda a nossa atenção.

Mas as promessas de Jesus não se ficam por aqui e devo dizer que o médico da Alexandrina, o Dr. Augusto de Azevedo tem nelas uma parte muito importante, como vamos ver a seguir:
No dia 4 de Novembro de 1944 — 3 anos após ter conhecido a Doentinha de Balasar — Jesus afirma:

«Diz o teu médico, que como prova do seu trabalho incansável lhe prometo o meu amor e a salvação a todos os que são dele. Maior prémio ainda: prometo-lhe à hora da morte o arrependimento das suas faltas, ficará puro, não irá sofrer ao purgatório, passará a gozar o Céu.»

Jesus diz «a todos que são dele», referindo-se à esposa e aos 14 filhos do casal.

Três anos mais tarde, em 6 de Setembro de 1947, Jesus volta a prometer ao bom médico por intermédio da Alexandrina:

«Diz ao teu médico que o Meu divino Coração anseia por o cobrir e encher a ele e a todos os seus de novas graças e bênçãos. Diz-lhe que em tudo o prometo amparar e proteger. É sempre o Meu divino amor sobre ele, quando o consolo ou faço sofrer.»

A 6 de Dezembro de 1947, após ter defendido, com unhas e dentes, como se costuma dizer, a reputação da sua doente, Jesus promete-lhe ainda:

«Diz, Minha filha, ao Meu e teu queridíssimo médico que lhe dou o Meu profundo agradecimento pelo seu acto de fortaleza, sem respeito humano para a Minha divina causa. Foi grande a consolação que Me deu pela luz que levou a muitos corações. Como prémio desse acto heróico dou-lhe todas as Minhas bênçãos e graças para ele e para os seus; e prometo-lhe a fidelidade à graça e guiá-lo em todos os seus passos; prometo-lhe a perseverança final e toda a luz do Espírito Santo.»

Mas o director espiritual nunca é esquecido e, para ele, Jesus promete em 3 de Março de 1945:

«Diz, minha filha, ao teu Paizinho que cai sempre sobre ele a abundância do meu amor. Que lhe prometo todas as minhas graças em todas as suas obras. Diz-lhe que são estes os caminhos dos que me são queridos, os caminhos dos meus eleitos.»

Nestes tempos o Padre Mariano Pinho sofria por causa de ditos e mexericos que levaram os seus superiores a proibi-lo de se ocupar da Alexandrina.

Mas à sua própria vítima, Jesus promete em 214 de Setembro de 1945:

«Vou dar-me agora a ti na Eucaristia. Como prova de que és a minha verdadeira crucificada, prometo-te, minha filha, não deixar-te sexta-feira nenhuma sem me dar a ti, sacramentado, ou pelas mãos dos meus discípulos ou pelos meus anjos ou eu mesmo, como agora vou fazer.»

E esta promessa verificou-se numerosíssimas vezes.

Em 31 de Outubro de 1947, nova promessa:

«Ao terminar o teu exílio, a tua dor, principia, Eu to prometo, Eu to prometo, como recompensa, a fazer cair para a terra uma chuva de graças constantes que vão penetrar nas almas.»

E para terminar esta, que a meu ver é de capital importância. Foi no dia 28 de Dezembro de 1945 que Jesus prometeu à Alexandrina, ouçam bem:

«Prometo-te, minha filha, depois da tua morte, a conversão de muitos pecadores junto do teu túmulo.»

E na verdade, a qualquer hora do dia que se vá à igreja de Balasar, sempre vemos numerosas pessoas a rezar diante do túmulo da Beata Alexandrina.

Afonso Rocha

sábado, setembro 28, 2019

A HÓSTIA QUE VOA...


Alegra-me contar-vos um caso muito particular sucedido no quarto da Alexandrina e que mostra os seus dons “de ciência” e de bons “conselhos” extraordinários e a misericórdia de Deus para com aqueles que são humildes, mesmo se grandes aos olhos do mundo.

Como já disse, a Alexandrina só esteve na escola 18 meses, durante os quais aprendeu as bases de sua língua materna, o que permite dizer que ela tinha apenas uma cultura rudimentar. Ela mal sabia ler e escrever!

Apesar dessa desvantagem, ela foi dotada de uma ciência divina que surpreendeu todos os que a questionaram sobre vários pontos difíceis da doutrina católica. Um exemplo esclarecedor é o de um grande teólogo e professor de teologia num importante seminário português.



«Um dia, um sacerdote, teólogo confirmado, visitou a “Doentinha de Balasar”, fez-lhe muitas perguntas, algumas das quais representavam dificuldades teológicas reais, e Alexandrina respondeu-lhe com a simplicidade e humildade a que estava habituada. O sacerdote, que não se considerava alguém tendo a “ciência infusa”, ficou maravilhado com as suas respostas simples e de bom senso. Antes de partir, perguntou à sua hóspede se ela concordaria em rezar com ele. Alexandrina aceitou, e com alegria. O padre ajoelhou-se ao lado da cama e ambos recitaram algumas orações. Ao levantar-se para partir, sua surpresa foi grande, porque já não viu o rosto de Alexandrina, mas o do Cristo sofredor. Ele testemunhou voluntariamente sobre este caso e acrescentou este comentário:

«Eu sou professor de teologia, mas nunca ninguém me explicou com palavras tão simples e tão correctas o mistério da Santíssima Trindade, como fez Alexandrina.»

Jesus tinha anunciado diversas vezes que assim seria:

«Este bálsamo que ponho nos teus lábios é para que sejam fortalecidos e fales às almas do meu amor, para que as aconselhes com a luz do Espírito Santo, a fim de que se reconciliem comigo e sigam a minha lei.» (S. 01-09-1950)

E ainda:

«Felizes aquelas (as almas) que se aproximam de ti e que o teu olhar as atinge! É o meu olhar sobre elas, é o meu olhar terno e compassivo. Criei-te para elas, para esta missão sublime.»
«Eu sou a tua vida; não tens vida humana, tens vida divina. Não tens a vida da terra, Vives a vida do Céu.»

O professor de teologia não sabia isto. Mas, é preciso dizê-lo, ele nos dá uma grande lição de humildade e lealdade: sabia aceitar uma evidência e, talvez por causa dessa humildade e simplicidade, o Senhor lhe concedeu a graça de ver seu santo Rosto. [1]

Noutras circunstâncias, quando algumas pessoas se aproximavam de sua cama para pedir conselhos e até graças por sua intercessão, Alexandrina não tinha necessidade de fazer perguntas: ela sabia para o que vinham e quais eram os problemas de suas vidas: ela lia nos corações daqueles ou daquelas que vinham ao seu encontro, submetendo-lhe muitas vezes casos delicados.

Aconteceu que homens viessem encontrá-la para que ela os ajudasse a abandonar os maus caminhos que enveredavam. Ela aconselhava-os e rezava com eles.

Quando se preparavam para sair do quarto, ela os chamava e a alguns dizia : “Dê-me a chave que tem no seu bolso”. A chave do pecado, para certos homens casados, mas infiéis.

Ainda hoje existe, na casa onde viveu a Alexandrina, uma cestinha que está quase cheia de chaves dessas… as “chaves do pecado”.

Casos como o que contei, aconteceram muitos, com outras pessoas e mesmo com os seus Directores espirituais, os Padres Mariano Pinho e Humberto Pasquale.

O mesmo aconteceu igualmente — e mais do que uma vez — com o Dr. Augusto de Azevedo, seu médico assistente.
***
Vou contar-vos o que aconteceu com o seu primeiro Director a quando do primeiro encontro entre eles:

No primeiro dia em que o Padre Mariano Pinho, foi a Balasar para ali pregar um tríduo, o Pároco confidenciou-lhe que tinha uma doente com uns sinais de algo de sobrenatural na sua vida, mas que a ele lhe custava acreditar. O Padre Pinho logo se ofereceu para a visitar e para fazer o que estiver ao seu alcance no discernimento dos sinais. Foi prontamente convidado a levar-lhe a Sagrada Comunhão logo no fim da Santa Missa. De bom grado aceitou.

Recolhido, levando o Santíssimo Sacramento, lembrando o que o Pároco lhe havia confidenciado, humildemente segredou ao Senhor:

— Se estais presente e actuando as maravilhas da Vossa graça nessa alma, dignai-Vos fazer-me um pequeno sinal.

Este curto pedido faz-nos pensar em S. Tomé! E como S. Tomé, o Padre Mariano Pinho vai ter uma resposta luminosa, como sempre são as respostas de Jesus aos homens de coração puro… e não só!

Caminho feito, sobe as escadas, vê a Alexandrina de olhar vivo como quem espera Nosso Senhor. Feitas as orações rituais, chegou o momento de mostrar a Hóstia Santa, dizendo “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!”, e, sem saber como, a Sagrada Hóstia desaparece de suas mãos para a ver logo na boca da Alexandrina, que fica envolvida pela graça da Comunhão, o momento maior e mais marcante de cada um dos seus dias.

Evidentemente, o Padre Mariano Pinho ficou estupefacto, mas com a certeza que “o dedo de Deus” estava ali, o que facilitou grandemente a longa conversa que ambos iam ter pouco depois.

O Padre Manuel de Araújo, homem de certa cultura e bom pregador, deve ter recebido a opinião do Jesuíta com um certo alívio, ficando provavelmente menos céptico quanto ao caso da sua paroquiana.

Pouco depois ele deixará Balasar por motivos de saúde.

Na sua autobiografia a Alexandrina recorda algumas vezes o Padre Manuel de Araújo.


[1] Afonso Rocha : “O Sangue do Cordeiro”. Edição do autor.