sábado, setembro 28, 2019

A HÓSTIA QUE VOA...


Alegra-me contar-vos um caso muito particular sucedido no quarto da Alexandrina e que mostra os seus dons “de ciência” e de bons “conselhos” extraordinários e a misericórdia de Deus para com aqueles que são humildes, mesmo se grandes aos olhos do mundo.

Como já disse, a Alexandrina só esteve na escola 18 meses, durante os quais aprendeu as bases de sua língua materna, o que permite dizer que ela tinha apenas uma cultura rudimentar. Ela mal sabia ler e escrever!

Apesar dessa desvantagem, ela foi dotada de uma ciência divina que surpreendeu todos os que a questionaram sobre vários pontos difíceis da doutrina católica. Um exemplo esclarecedor é o de um grande teólogo e professor de teologia num importante seminário português.



«Um dia, um sacerdote, teólogo confirmado, visitou a “Doentinha de Balasar”, fez-lhe muitas perguntas, algumas das quais representavam dificuldades teológicas reais, e Alexandrina respondeu-lhe com a simplicidade e humildade a que estava habituada. O sacerdote, que não se considerava alguém tendo a “ciência infusa”, ficou maravilhado com as suas respostas simples e de bom senso. Antes de partir, perguntou à sua hóspede se ela concordaria em rezar com ele. Alexandrina aceitou, e com alegria. O padre ajoelhou-se ao lado da cama e ambos recitaram algumas orações. Ao levantar-se para partir, sua surpresa foi grande, porque já não viu o rosto de Alexandrina, mas o do Cristo sofredor. Ele testemunhou voluntariamente sobre este caso e acrescentou este comentário:

«Eu sou professor de teologia, mas nunca ninguém me explicou com palavras tão simples e tão correctas o mistério da Santíssima Trindade, como fez Alexandrina.»

Jesus tinha anunciado diversas vezes que assim seria:

«Este bálsamo que ponho nos teus lábios é para que sejam fortalecidos e fales às almas do meu amor, para que as aconselhes com a luz do Espírito Santo, a fim de que se reconciliem comigo e sigam a minha lei.» (S. 01-09-1950)

E ainda:

«Felizes aquelas (as almas) que se aproximam de ti e que o teu olhar as atinge! É o meu olhar sobre elas, é o meu olhar terno e compassivo. Criei-te para elas, para esta missão sublime.»
«Eu sou a tua vida; não tens vida humana, tens vida divina. Não tens a vida da terra, Vives a vida do Céu.»

O professor de teologia não sabia isto. Mas, é preciso dizê-lo, ele nos dá uma grande lição de humildade e lealdade: sabia aceitar uma evidência e, talvez por causa dessa humildade e simplicidade, o Senhor lhe concedeu a graça de ver seu santo Rosto. [1]

Noutras circunstâncias, quando algumas pessoas se aproximavam de sua cama para pedir conselhos e até graças por sua intercessão, Alexandrina não tinha necessidade de fazer perguntas: ela sabia para o que vinham e quais eram os problemas de suas vidas: ela lia nos corações daqueles ou daquelas que vinham ao seu encontro, submetendo-lhe muitas vezes casos delicados.

Aconteceu que homens viessem encontrá-la para que ela os ajudasse a abandonar os maus caminhos que enveredavam. Ela aconselhava-os e rezava com eles.

Quando se preparavam para sair do quarto, ela os chamava e a alguns dizia : “Dê-me a chave que tem no seu bolso”. A chave do pecado, para certos homens casados, mas infiéis.

Ainda hoje existe, na casa onde viveu a Alexandrina, uma cestinha que está quase cheia de chaves dessas… as “chaves do pecado”.

Casos como o que contei, aconteceram muitos, com outras pessoas e mesmo com os seus Directores espirituais, os Padres Mariano Pinho e Humberto Pasquale.

O mesmo aconteceu igualmente — e mais do que uma vez — com o Dr. Augusto de Azevedo, seu médico assistente.
***
Vou contar-vos o que aconteceu com o seu primeiro Director a quando do primeiro encontro entre eles:

No primeiro dia em que o Padre Mariano Pinho, foi a Balasar para ali pregar um tríduo, o Pároco confidenciou-lhe que tinha uma doente com uns sinais de algo de sobrenatural na sua vida, mas que a ele lhe custava acreditar. O Padre Pinho logo se ofereceu para a visitar e para fazer o que estiver ao seu alcance no discernimento dos sinais. Foi prontamente convidado a levar-lhe a Sagrada Comunhão logo no fim da Santa Missa. De bom grado aceitou.

Recolhido, levando o Santíssimo Sacramento, lembrando o que o Pároco lhe havia confidenciado, humildemente segredou ao Senhor:

— Se estais presente e actuando as maravilhas da Vossa graça nessa alma, dignai-Vos fazer-me um pequeno sinal.

Este curto pedido faz-nos pensar em S. Tomé! E como S. Tomé, o Padre Mariano Pinho vai ter uma resposta luminosa, como sempre são as respostas de Jesus aos homens de coração puro… e não só!

Caminho feito, sobe as escadas, vê a Alexandrina de olhar vivo como quem espera Nosso Senhor. Feitas as orações rituais, chegou o momento de mostrar a Hóstia Santa, dizendo “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!”, e, sem saber como, a Sagrada Hóstia desaparece de suas mãos para a ver logo na boca da Alexandrina, que fica envolvida pela graça da Comunhão, o momento maior e mais marcante de cada um dos seus dias.

Evidentemente, o Padre Mariano Pinho ficou estupefacto, mas com a certeza que “o dedo de Deus” estava ali, o que facilitou grandemente a longa conversa que ambos iam ter pouco depois.

O Padre Manuel de Araújo, homem de certa cultura e bom pregador, deve ter recebido a opinião do Jesuíta com um certo alívio, ficando provavelmente menos céptico quanto ao caso da sua paroquiana.

Pouco depois ele deixará Balasar por motivos de saúde.

Na sua autobiografia a Alexandrina recorda algumas vezes o Padre Manuel de Araújo.


[1] Afonso Rocha : “O Sangue do Cordeiro”. Edição do autor.

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