26 de setembro de 2008

UN ANJO PASSA - I

Alexandrina Maria da Costa
– Esboço biográfico –
I

Tal como a aurora

« Eu chamo-me Alexandrina Maria da Costa »
« Depois de uns momentos de oração, a implorar auxílios do Céu e a luz do Divino Espírito Santo para poder fazer o que o meu Padre espiritual me determinou, principio a descrever a minha vida, tal qual como Nosso Senhor ma for recordando, embora com grande sacrifício » (A) [1].
Assim começa a Autobiografia da Alexandrina, escrita a partir de 20 de Outubro de 1940.
Vamos utilizar grande parte deste importante documento para o trabalho que nos propomos levar a cabo, “tal como Nosso Senhor nos for recordando, embora com grande sacrifício”, mas com um prazer não dissimulado, visto que falar da “Doentinha de Balasar” é para nós um prazer, além dum dever de gratidão.
A Alexandrina escreveu igualmente um importante Diário ― “Sentimentos da alma” ―, assim como um impressionante número de cartas ao seu primeiro Director espiritual o Jesuíta Padre Mariano Pinho.
« Eu chamo-me Alexandrina Maria da Costa, nasci na freguesia de Balasar, concelho da Póvoa de Varzim, distrito do Porto, a 30 de Março de 1904, numa quarta-feira de trevas, e fui baptizada a 2 de Abril do mesmo ano, era então sábado de Aleluia.
Serviram de padrinhos um tio de nome Joaquim da Costa e uma senhora de Gondifelos, Famalicão, de nome Alexandrina » (A).
Assim começa ela a contar a história da sua vida. Depois, confessa humildemente :
« Até aos três anos de idade não me recordo de nada, a não ser de algum carinho que dos meus recebia » (A).
Pensa todavia que não foi exemplar e que nela os defeitos abundam :
« Encontro em mim, desde a mais tenra idade, tantos, tantos defeitos, tantas, tantas maldades que, como as de hoje, me fazem tremer. Era meu desejo ver a minha vida, logo desde o princípio, cheia de encantos e de amor para com Nosso Senhor ».
Depois disso, lembra-se que foi traquina, nem sempre obediente, e de certo modo bastante teimosa.
Dos seus quatro ou cinco anos, ou por volta destes, já tem melhor recordação das coisas que a rodeavam e das aspirações que então começaram a nascer no seu infantil coração.
Conta ela deste período da sua infância :
« Pelos quatro anos e meio de idade, punha-me a contemplar o céu (abóbada celeste) e perguntava aos meus se poderia chegar-lhe se pudesse colocar umas sobre as outras todas as árvores, casas, linhas dos carrinhos, cordas, etc., etc. Como me dissessem que nem assim chegaria, ficava descontente e saudosa, porque não sei o que me atraía para lá » (A).
“Não sei o que me atraía para lá?”
Alexandrina não sabia o que a atraía para o Céu, mas Aquele que tudo rege, porque tudo criou, sabia o porquê dessa atracção ; aliás, mais tarde Jesus lhe dirá que a amou e escolheu desde que nascera nas águas do baptismo.
Mas, antes de ir mais longe, plantemos o cenário, se assim nos podemos exprimir, para uma melhor compreensão do que seguirá.

*****

[1] (A) = “Autobiografia”.

24 de setembro de 2008

SENTIMENTOS DA ALMA

26 de Setembro de 1947
(sexta-feira)

Passo o dia, vem a noite, e eu vazia, sem nada ter dado a Jesus e sem nada ter para Lhe oferecer. Não posso examinar a minha consciência. Um dia, um mês, um ano e outro ano, sempre a sofrer, e sem ter que dar e sem amar o meu querido Jesus. Que pobreza, que miséria! De cada vez mais vazia, de cada vez mais defeitos. Ó meu Deus, poderei eu dar-Vos menos do que Vos tenho dado? Oh! Não; sei que não, e não tenho mais, não sei mais nem melhor. Ai, pobre de mim, a minha cegueira só me mostra miséria e maldade; e para melhor eu ver esta maldade, sinto-me, por vezes, tão sábia, capaz de enganar toda a gente com a minha sabedoria. Sinto-me até vaidosa por saber e poder enganar toda a gente. Que horror, ó meu Jesus, que horror! Se eu quiser enganar! Se eu pensasse em enganar! Mas nem ao menos isso. É pela graça de Deus que não o penso nem faço. Mas oh! que doloroso martírio, ver e sentir tudo isto em minha alma! Poderei vencer? Poderei passar assim os meus dias, ó meu Jesus? O que seria ou será de mim sem a graça e a protecção do Céu! Sou tão miserável e cheia de defeitos, sou um nada capaz de todas as maldades, sou um nada incapaz de fazer algum bem.
A minha alma chora e o coração anseia, quer só pertencer a Jesus, quer dar-se a Ele, perder-se Nele.
Passei quatro dias sem O receber. Que fome indizível! Que ânsias insuportáveis! Quantas vezes voava em espírito para junto da Eucaristia e Lhe dizia: Jesus, meu Amor, vinde a mim, estou a morrer de fome, desfalece-me a alma e o corpo; vinde, vinde, enchei-me e operai em mim tantas graças como se Vos recebesse Sacramentado. Nestes momentos, ficava a nadar num mar de paz, mas sempre com as mesmas ânsias e fome devoradora. Não sei; sinto que só no Céu posso ser saciada de Jesus; aqui, na terra, por mais que corra e voe para Ele, mais vazia me sinto e mais Ele me foge. Eu já não vivo, de mim ficou a dor, essa é a que eu sinto, mas nem essa agora me pertence. Ah! Se eu amasse ao menos O meu Jesus, e se nunca O ofendesse! Eu não sei, mas sinto que Jesus deve estar muito desgostoso comigo; não Lhe dei, com certeza provas de toda a minha confiança Nele.
No dia 21, passou o aniversário do meu médico. Veio visitar-me com a esposa e 7 filhinhos entre os quais vinham todos os meus afilhados. Não digo que senti alegria, porque essa Jesus não me permite senti-la, mas, sim, uma grande estima junto com um grande conforto. Retiraram-se ao ser noite. Passados uns momentos, principiei a sentir em mim uma grande preocupação; cheguei a perguntar se o carro teria luz. Não pude orar, para que tivesse boa viagem, porque estava acompanhada, mas nem por isso o meu coração deixava de Lha desejar. Passava já de uma hora solar, quando nos parou à porta um carro; bateram; minha irmã, sobressaltada, foi ver o que se passava. Era o filho mais velho do meu querido médico, que vinha à procura do Pai, da Mãe e dos irmãos. Não sei dizer o que senti, pareceu-me que fiquei louca; não pude conter as lágrimas, chorava em grande aflição; vi tudo pelo pior. Ao ver esse querido filhinho com sinais de profunda dor, sem pensar o que dizia, exclamei: eu sou uma desgraçada e a desgraça de toda a gente. Ao acabar de pronunciar a última palavra e a reflectir no que dizia, veio-me logo o arrependimento, e, ao mesmo tempo, o remorso pelo mau exemplo que acabava de dar. Meu Jesus, perdoai-me, já não tem cura; é desta forma que eu Vos amo, tende compaixão de mim.
Travou-se um combate, dos mais aterradores da minha vida. Estava Jesus, o demónio e eu. Eu vi-os todos em estilhaços e em sangue, sem vida, onde só depois de dia se podiam encontrar. Nove pessoas! Ai tanta criancinha, exclamava eu, e por minha causa; se não fosse eu, eles não vinham aqui. Nesta dor indizível, Jesus, no íntimo do coração, dizia-me:
― Sossega, Minha filha; não houve desastre, não há o mais pequenino ferimento. Eu não permitia isso àquele a quem tanto amo e tão firme e fielmente tem cuidado e velado pela Minha divina causa. Sossega, confia em Mim. Estou para ver a tua coragem. Permiti isto para grande reparação; repara. Sou, nesta noite, tão ofendido.
Jesus segredava-me isto docemente, e o demónio, forte e bruscamente, dizia-me:
― Só assim a tua vida será descoberta. Que grande castigo! Já todos estão no inferno, até mesmo dois dos teus afilhados. Olha que horror; foram as tuas maldades! Eles eram inocentes, mas foi por ti que foram condenados. Este já não chega a casa.
Referia-se ao tinha vindo procurá-los.
― À procura deste vêm os que estão em casa; acabam, nesta noite, todos os descendentes daquele a quem tanto odeio. Só assim me satisfaço do mal que ele me tem feito e podia vir a fazer. Que castigo, que vergonha!
Jesus, no íntimo, repetia-me sempre o mesmo, e o maldito, muito satisfeito, maltratava-me de insultos. Eu orava, orava, e chorava, não podia estancar as lágrimas. Ardiam duas velas a Jesus e à Mãezinha; pedia-Lhes sossego, pedia-Lhes conforto. Oferecia a Jesus todo o sofrimento para reparar o Seu divino Coração e O da Mãezinha e por várias intenções. Mas eu não podia mais, o meu espírito já não resistia. O demónio tentava vencer-me e calar a Jesus. Eu temia vacilar. Senti que Jesus veio expulsar, para longe, o demónio. Fiquei mais calma por um pouco; deixei de chorar e continuei a orar. Oferecia a Jesus o cântico dos galos, que duma e doutra parte, se ouviam e as festas de um gatinho que junto de mim estava. Aceitai todo este louvor, já que eu não vo-lo sei dar. Queria pedir para me porem no chão duro, para fazer penitência, com uma firme confiança de que, ainda que todos estivessem mortos, Jesus a todos podia ressuscitar. Porque, nesta altura, já o demónio tinha voltado com as suas falsas manhas e mentiras. Eu então vi-os a todos conduzidos ao hospital, em mísero estado. E um caderno e uma carta que o senhor doutor levava, visto e lido por quem queria; já tudo se sabia. Jesus ia bradando:
― Confia no teu Jesus, não há ferimento nenhum. Prova-Me a tua confiança em Mim. Foi o meu divino amor, que assim vos quis associar.
Chegou a hora em que eu tinha dito ao filhinho do senhor doutor, se não aparecesse ninguém que ficava sossegada, que tudo estava bem; mas não foi para mim, não consegui sossegar. Era já dia; eu não pedia para mandarem saber o que se tinha passado, para mostrar a Jesus que confiava Nele e não dar alegria ao demónio. Depois de insistirem, aceitei. Ao ser informada pelo senhor doutor do que se tinha passado e de que, na verdade, não havia ferimento algum, chorava, agradecia e louvava ao Senhor; oferecia-Lhe os meus suspiros e continuei a oferecê-los, por espaço de alguns dias, porque, sem querer, tinha que suspirar e respirar fundo. Não sei dizer o mal que esta aflição deixou em mim. Por tudo bendigo Nosso senhor, mas a dor das palavras que, sem querer, pronunciei, continua ainda. Tenho confiança que Jesus me perdoou.
Ontem, logo de manhã senti, além dos espinhos, que diariamente me cingem a cabeça, nova coroa deles por cima; parecia-me que eles me chegavam ao coração. Sentia os meus vestidos ensopados em sangue, colados ao corpo. Sentia isto em mim, e via ao mesmo tempo, em mim Jesus, com esses espinhos, com esses vestidos em sangue no Seu Santíssimo Corpo. Isto repetiu-se, durante o dia. Ao cair da tarde, quando se repetiu este sentimento e visão senti uns arrepios de frio, que me fizeram tremer; e vi Jesus muito triste a tremer também.
Não vi Jesus, ao sair da sala da ceia, despedir-se da Mãezinha, mas via a Ela, no cimo das escadas, a seguir os passos de Jesus para o Horto. Por Jesus vi os Seus olhares dolorosos, já sem O ver, e quanto ao Seu Santíssimo Coração O seguia e adivinhava o que Ele ia padecer. Que união de dor e amor era o daqueles dois Corações! Jesus caminhava, à frente dos Apóstolos não se preocupavam nem sofriam pelo que iria acontecer; iam cheios de cansaço, e, já no Horto, adormeceram. Jesus orou, suou sangue, viu-se desfalecido a caminho com a cruz, prestes a dar a vida; bebeu o cálice até à última gota. Que amargura que produzia trevas e fazia tremer a terra!
De madrugada, fui encontrá-Lo na prisão. Tremia de frio. Tinha perdido tanto sangue! Ó que desfalecimento era o Seu! Associei-me à Sua dor e tristeza, e como Ele fiquei desfalecida. Saí da prisão, nesta santa união; acompanhei-O, segui os mesmos passos. Depois, de açoitada e ferida com os mesmos espinhos de ontem, tomei a cruz, segui o Calvário, com a lança atravessada no coração. Sentia nos meus joelhos e no meu rosto as feridas, e parecia que em mim batiam as duas lajes: ou antes que eu com Jesus batia nelas. Como eu sentia todo o meu corpo ficar sem vida e sem sangue! Junto a Jesus, caminhavam os dois ladrões com as suas cruzes; ao lado de Jesus, foram crucificados. Eu sentia que os sofrimentos, as cruzes deles sobrecarregavam sobre mim, sobre a cruz de Jesus, que em mim estava. Sentia sair do Coração divino de Jesus o mesmo amor; as mesmas graças. Eu aceitava-as, o outro repelia-as. Jesus sofria, agonizava.
Hoje, no Calvário, e, ontem, no Horto, eu sentia que quanto maior era o sofrimento, a agonia de Jesus, mais o peito arquejava e coração batia! Sentia no meu as palpitações do Dele! Quando Jesus fazia romper o Seu brado ao Eterno Pai, eu sentia, como se o mundo viesse abafar-lho, ao sair dos Seus divinos lábios; ficava como se não subisse ao Céu; sumia-o a maldade do mundo. Neste abafamento angustioso Jesus expirou. Senti-me também morrer e a minha alma deixar. Passou-se algum tempo em silêncio e noite morta. Veio Jesus, e disse-me:
― Minha filha, tabernáculo de delícias, coração de fogo, coração de amor. Aqui, como em nenhum outro coração, Eu Me delicio e sou amado; aqui, como em nenhuma outra vítima, Eu recebo reparação. Repara, repara; a dor é cruz, a cruz é amor. A dor e o amor dá aos ingratos, dá aos pecadores o Céu. Se não fosse a dor e o amor abrir-lhes as portas, não havia Céu para eles apesar de existir. Continua comigo a obra da redenção; acode ao mundo, acode ao mundo. Tu és alma pura, trigo loiro joeirado, seara florescente das almas. Coragem, Minha filha! Salva-Me os pecadores. O número dos criminosos aumenta e o das almas vítimas diminui; atemorizam-se ao sentirem os sofrimentos; ao verem a cruz fogem, fogem, fogem; tornam-se tíbias e ingratas para o Meu divino Coração.
― Ó meu Jesus, ao número desses infelizes pertenço eu também. Eu fui ingrata para Vós, não soube sofrer, não aceitei também a cruz que de novo me enviastes. Que confusão a minha, ao ouvir-Vos dizer que Vos deliciais em mim, depois de eu ter sido tão má! Perdoai-me, meu Jesus, perdoai-me; dei mau exemplo, tende misericórdia de mim.
Jesus sorriu, cheio de bondade, e disse:
― Não Me ofendeste, não, Minha filha. Eu sorri, ao ouvir-te falar assim em tão grande aflição. Permiti que assim falasses, para tirar da tua dor a reparação, que desejava. Não Me ofendeste, não; confia em Mim. É no meio da luta, no combate mais renhido que a alma fiel, a alma forte mostra o seu amor a Jesus. Se o combate só fosse um não custava nada vencer. Consola-Me tanto ver-te na Minha divina presença humilhada! Tem coragem! Sê forte na cruz. Sê forte na dor. É com essa fortaleza, é com esse conjunto de dor e amor que acodes às almas, que acodes ao mundo, que te confiei, e que é tão ingrato para Comigo. Vê no estado em que Me põem os pecadores. Sou por eles ferido com as suas horrendas maldades, como o caminhante que é assaltado por ladrões, que procuram todos os meios para lhe tirarem a vida. Não morro, porque não posso morrer, mas repara bem no estado em que Me puseram.
Vi Jesus, caído à borda de uma estrada; era um mendigo chagado, esfarrapado, a tiritar de frio; parecia estar nos últimos momentos de vida. Acudi logo:
― Meu Jesus, quero levantar-Vos e não posso, quero curar-Vos as Vossas chagas e não sei quero consolar-Vos e não tenho com quê. Sou a Vossa vítima. Quero perder eu a vida, e assim chagada como Vós estais a tiritar, não de frio, mas de dor. Alegrai-Vos, Jesus, com a alegria, consolai-Vos com a Vossa divina consolação; aceitai-a, como se fosse minha, tomai a Vossa formosura e deixai-me sofrer a mim.
Jesus ficou formoso, ficou o mesmo Jesus, e disse-me:
― Ó Minha esposa querida, ó grande heroína do Calvário, em ti encontrei tudo, a ti tudo entreguei: o mundo e todos os Meus divinos tesouros; utiliza-te deles e brada incessantemente a toda a humanidade: convertei-vos, vinde a Jesus, orai e fazei penitência, se quereis salvar-vos. Deixa agora, Minha filha, que te dê o Meu divino Sangue; sem ele não tens vida, sem ele não podes dar a vida às almas.
Foi um momento para Jesus introduzir o tubo doirado no meu coração e deixar cair no meu a gotinha do Seu Sangue. Senti-me grande, tão grande, sem poder com tanta grandeza. Jesus colocou sobre o meu peito Sua divina mão, como para cicatrizar a abertura que o tubo fez. Deixei de sentir aquela grandeza; pude resistir.
― Vai, luz brilhante; vai, relâmpago faiscante; vai, farol, que guias os errantes para o Meu divino Coração, para o Meu Coração de Pai. Leva o Meu amor, leva a Minha paz, braça a cruz que te espera e vem já ao teu encontro.
― Obrigada, meu Jesus. Vou para a cruz, vou contente; vinde comigo, sem a vossa graça não tento abraçá-la.

Alexandrina

23 de setembro de 2008

APELO AOS LEITORES

Caros amigos, leitores deste Blog,

Nós sabemos que vós sois numerosos a visitar este Blog e a ler os artigos que aqui publicamos, como sabemos que sois também numerosos a amar e a venerar a Beata Alexandrina de Balasar.
O destino e o próprio de um Blog é de proporcionar aos leitores deste, curtos artigos tendo como “guia” o fim para o qual o Blog foi criado; neste caso, fazer conhecer e amar a Beata Alexandrina.
Sabemos igualmente que os nossos amigos brasileiros visitam numerosos o site oficial da Beata, do qual temos a honra de ser Webmaster...
O nosso desejo sincero é de encontrar aqui as vossas reacções, as vossas apreciações e as vossas sugestões, não só sobre os artigos publicados no Site oficial da Beata, mas também e, mais particularmente os que neste Blog publicamos.
Ainda que os comentários que os visitantes deixam nos blogues não sejam o mais importante para o bom funcionamento destes, eles ajudam de um certo modo a corrigir certas tendências ou caminhos enveredados que possam não ser do gosto de todos.
Aqui fica pois este apelo feito a todos vós, esperando que ele seja ouvido e posto em prática por todos aqueles que nos visitam e que são cada vez mais numerosos.
Façam comentários! Ajudem-nos na nossa tarefa de divulgação expressando as vossas sugestões.
Agradeço a vossa atenção e peço à Beata Alexandrina de obter de Deus, para todos vós, as maiores bênçãos celestes.


O Webmaster
Afonso Rocha

14 de setembro de 2008

“Ó SE EU PUDESSE FUGIR-VOS...”

Extrato dos “Sentimentos da alma”

Alexandrina acabara de “viver” a paixão, como todas as sextas-feiras. O seu coração está triste por ver e sentir que Jesus sofre por causa dos pecados do mundo... Ele fala e desabafa com a sua vítima; explica-lhe que o mundo e os homens pecadores “dormem no sono dos vícios e das paixões” e, que se assim continuam, terão de sofrer as consequências dos seus pecados, da falta de amor que lastimosamente demonstram perante a Bondade e Misericórdia divinas...
Os homens devem arrepiar caminho, voltar à penitência e à oração... Mas os seus corações endureceram e poucos são aqueles que imploram o perdão pelas faltas cometidas... o homem quer ser deus e revoltar-se contra o seu Criador...

« Toda a terra escureceu, fez-se noite. Jesus expirou e por uns momentos pareceu-me também passar pela morte. Jesus, a verdadeira vida, deu entrada no meu coração. Pareceu que abriu portas e janelas, iluminou-o todo e falou-me assim :
— “O mundo dorme num sono profundo, mas pavoroso sono. Os pecadores dormem no sono dos vícios e das paixões. Os pecadores dormem no sono da perdição, o sono que os leva ao inferno. Minha filha, minha filha, estou no teu coração. Estou em ti para desabafar, estou em ti para conformar-te. Tem coragem, tem coragem, é indispensável a tua dor. Acorda, acorda, desperta os pecadores deste sono de perdição. Ai deles, ai deles, minha filha. Sofre, sofre, alegra o meu Divino Coração. Repara o Meu Divino Coração. Eu quero oferecer ao meu Eterno Pai uma reparação que aplaque a Sua divina justiça. Minha filha, minha filha, se os pecadores não exigissem tal sofrimento, Eu não consentia, Eu não dava tanta larga aos homens que se opõem contra a minha divina vontade”.
— Ó meu Jesus, ó meu Jesus, eu sinto que Vós estais no meu coração, mas não me pareceis aquele Jesus cheio de ternura, de bondade e amor. Sinto que a minha alma Vos vê como juiz, mas um juiz severo e justiceiro. Ó Jesus, ó Jesus, parece-me, sinto que tenho medo de Vós. Não recebo nenhum conforto… oh ! se eu pudesse fugir-Vos ! »

Alexandrina: “Sentimentos da Alma”, 19 de Setembro de 1952.

11 de setembro de 2008

SENTIMENTOS DA ALMA - 1954


1º de Janeiro de 1954 – Primeira Sexta-feira


Perdi o meu maior tesouro. Perdi a Jesus, perdi a Mãezinha. Parece, sinto como se Eles morressem para mim. Não posso pensar na triste, na dolorosíssima separação de sexta-feira. Triste mortório, mas é tal a diferença como da terra ao Céu. Custou mais, infinitamente mais, a separação de Jesus e da Mãezinha, este sentimento como se Eles morressem para mim, do que quando perdemos e nos separamos dos nossos entes queridos.
Ai, meu Deus, ai, meu Deus, só ao Céu é dado compreender esta dor e àqueles que a sentem. Apenas levanto um bocadinho do véu e não consigo mais nada. Foi tal a dor que me pareceu ficar sem coração, não sei se desfeito pela dor, se Jesus e a Mãezinha mo levaram. O que sei é que ficou em mim um vazio tão grande que só o Céu mo podia encher. E depois o sofrimento de cada dia e cada noite resultado de tudo isto. Chorei muitas vezes e muitas lágrimas. A dor levava-me a levantar a voz, mas logo me vencia e chorava em silêncio. Que as minhas lágrimas sejam actos de amor para Vós, Jesus e Mãezinha! Ai de mim! Perdi os meus Amores! Mas logo a confiança obrigava o coração a falar. Creio, creio que não os perdi. Todo o meu martírio reverta em favor das almas. Sou a Vossa vítima. Creio, creio, confio que não estou só. Ai quanto custa dizer: Creio! Sem crer; confio! Sem confiar.
Neste momento, a minha alma sangra de dor por não ser capaz de dizer como foi a minha separação e a ter necessidade de o dizer. Perder a Jesus e a Mãezinha foi perder o Céu. Todo o meu ser se retalha e, no meio dela, vou dizendo sempre: creio, creio, meu Deus, eu creio! Nestes dias tão dolorosos, de tão grande martírio para o corpo e de tanta angústia para a alma, ainda veio mais um tormento para o meu pobre coração. Várias cartas me chegaram às mãos a dizerem-me que o senhor Bispo de Aveiro tinha proibido a vinda aqui dos sacerdotes. Punhais tão dolorosos! A minha alma tinha a visão da consequência desta ordem. Tanta humilhação! Se eu pudesse reparar tanto escândalo que se dá! Tantas más interpretações por causa disto! A minha oferta de vítima não cessa diante do Senhor. Por Vosso amor, tudo! Faça-se a Vossa vontade! O meu túmulo, o meu túmulo, a minha arte de cavador vai continuando. Cobri-me eu mesma com a terra do meu sepulcro. Fui eu que me cobri, fui eu que desapareci, que me enterrei. Estou tão funda, tão funda!... Parece que toda a terra da humanidade me cobre e os suores da alma vão continuando assim como a eternidade e a inutilidade. Não conta, não anda a eternidade. Que pavorosa ela é! Se Jesus não velasse, só ela me tirava a vida. Tanto sofrer para tanta inutilidade! Uma vida de tanta dor para nada ter que oferecer a Jesus. Estou de mãos vazias. As minhas ânsias tão infinitas, tão infinitas não as posso fazer compreender. Quero o mundo, quero o mundo dentro do meu coração. Quero todos os corações, quero todas as almas, quero levá-las com o meu sangue. Quero amar a Jesus pelo mundo inteiro. Queria morrer, a cada momento, até ao fim dos séculos e a cada momento dar o sangue até à última gota, para que nenhuma alma se perdesse, nem nenhum coração deixasse de amar a Jesus. Queria, sim, dar todo o meu sangue e a vida, a cada momento, até ao fim dos séculos para evitar um só pecado.
Ai, ai, não posso consentir que Jesus seja ofendido! Eu não tive horto. Vou dizer o melhor que puder o que senti.
Sobre o solo do horto esvoaçava uma pomba. Tinha sempre no seu biquito uma gota que deixava cair sobre a terra e se transformava em orvalho fecundador. Uma gota caía, logo outra aparecia. Este orvalho era celeste. Era o maná que alimentava, que dava a vida, dava luz e sabedoria. Uma vida no ar, outra vida na terra. A minha alma tornava-se sábia, compreendia tudo isto, tudo o que era do Céu. A minha dor, a minha dor humana vivia-a, sentia-a o mais dolorosa que se pode imaginar.
No calvário de hoje, a mesma pomba continuava a voar, a deixar cair as mesmas gotas que se transformavam em orvalho, orvalho celeste e a dar a mesma luz e vida de sabedoria. Eu cá em baixo levava a cruz da minha vida dum martírio indizível. Não vi Jesus, não o senti. Não soube que Ele expirasse. Veio alguém que juntou ao meu coração, à minha vida terrestre a vida divina. Essa mesma vida comunicava-se a mim como quem injecta. Desapareceu a minha vida terrena para viver a outra. O coração e a alma fortaleceram-se mais. A casa do meu interior tinha mais luz. Diz-me Jesus nesta altura:
— “Sou o Senhor do mundo, o Senhor da paz, o Senhor da fé e da confiança. Crê, crê, vive da fé. É colóquio de fé.”
Creio, creio, Jesus. A gota de sangue Jesus não disse que ma ia dar; senti o choque e o meu coração ficou unido ao outro Coração, a chupar dele como a criancinha no seio de sua mãe. Novas palavras de Jesus.
— “Coragem! Vive para as almas. Recebe as carícias de minha Bendita Mãe. Sou Eu o portador delas, já que amanhã Ela não te vem falar.”
— Obrigada, Jesus. Dizei à Mãezinha o meu muito obrigada.
Não disse tudo da minha separação. Que saudade das carícias da Mãezinha e saudade da Santíssima Trindade. Toda Ela me abraçava com a Mãezinha, e o Divino Espírito Santo em forma de pomba irradiou-me toda com a Sua luz, que iluminou todo o meu ser; prendia-me a Ele com fitas de várias cores que d’Ele pendiam. O que foi! Quanto custou! Não digo nada. Fico na minha dor e na minha eterna saudade.

Beata Alexandrina

9 de setembro de 2008

HOMILIA DE D. POLICARPO

“Evangelizar é anunciar o amor”


Homilia de D. José Policarpo,
no Encerramento do Congresso Missionário Nacional
(7 de setembro de 2008)


1. Com esta celebração, encerra-se o Congresso Missionário Nacional. E fazemo-lo aos pés de Maria, Mãe da Igreja, que acompanha com ternura maternal todos aqueles e aquelas que anunciam o Seu Filho Jesus Cristo. Mais do que qualquer outra criatura, Maria ensina-nos que só se pode anunciar Jesus Cristo com amor, a Ele e aos homens que hão-de sentir-se amados por Ele, que encontrarão nesse amor a sua redenção. Maria ensina-nos que evangelizar é anunciar o amor, com amor.São Paulo, na Carta aos Romanos, fala-nos da redenção como libertação. O cristão que mergulhou no amor de Jesus Cristo e d’Ele recebeu o Espírito de amor, é um homem livre; só uma realidade o obriga e o dinamiza: amar. A exigência do amor situa o cristão para além da Lei, porque o amor é a plenitude da Lei. É certo que o Senhor Jesus, continuado na Igreja, nos apresenta mandamentos que nos indicam o caminho da vida. Mas eles cumprem-se todos no amor do próximo e nenhum deles é válido se não indica o caminho do amor.Toda a missão, na Igreja, se resume a isso: anunciar o amor infinito com que Deus ama todos os homens e que exprime, de forma total e radical, no Seu Filho Jesus Cristo e no amor com que nos amou, ao dar a vida por nós. A missão é o anúncio desse amor, procura levar todos os homens a sentirem-se amados: amados porque perdoados; amados porque convidados para novos horizontes de liberdade; amados porque sentiram um sentido novo na vida, um novo horizonte de esperança. Ao sentirem-se amados, os seus corações abrem-se para o amor a Deus e aos irmãos.Mas a Igreja só pode anunciar o amor, amando e deixando-se amar. Ela é o fruto fecundo do infinito amor de Deus que a ama em Jesus Cristo. E ao mergulhar nesse amor, ela abraça o mundo com o amor de Jesus Cristo, porque ela é o sacramento da salvação, realizada pelo amor de Cristo. Evangelizar é levar os homens a sentirem a força transformadora do amor de Cristo na Cruz; os homens sentirão a força desse abraço se se sentirem amados pela Igreja.Evangelizar não é um programa, uma atitude de estratégia proselitista, é uma loucura de amor. Só o amor fará a Igreja não desistir de anunciar Jesus Cristo, em todos os tempos e circunstâncias e a abrirá às surpreendentes maravilhas que só o amor de Deus pode realizar.2. Anunciar o amor a homens concretos, em situações concretas é também ter consciência das prisões que tolhem os corações impedidos de se abrirem ao amor. Como os Profetas do Antigo Testamento, os evangelizadores são sentinelas, atentos ao que se passa, conscientes dos perigos e das ameaças, prontos a indicar o recto caminho da liberdade. É que a evangelização é anúncio, não de um amor qualquer, mas do amor redentor, daquele que liberta e introduz no autêntico caminho da vida. Ajudar as pessoas a libertarem-se daquilo que as mantém prisioneiras, é a primeira expressão do amor. Não como quem julga ou condena, mas também sem aquela compreensão enganadora de quem tudo explica e tolera. Não esquecer a máxima de Paulo: “A caridade não faz mal ao próximo”.Isto exige dos cristãos, na complexidade da sociedade contemporânea, a coerência com o Evangelho do amor. Por vezes o seu testemunho coerente, porventura silencioso, é essa denúncia do que aprisiona o homem, e a afirmação da verdadeira liberdade do coração. Não são só as pessoas individualmente, mas as sociedades, os grupos, as estruturas, que precisam de ser ajudadas a superar tudo o que aprisiona o homem e impede a harmonia e a felicidade. E essas sentinelas sempre alerta, sempre com amor e por amor, são tanto a Igreja no seu todo, como cada cristão, inserido na realidade concreta do mundo, mas coerente com a liberdade dos filhos de Deus. No Evangelho de São Mateus, Jesus recomenda aos discípulos que quando a sentinela que cada um deve ser não conseguir mudar o rumo daqueles que quer ajudar, que entreguem o caso à Igreja, a grande sentinela vigilante, não para que os julgue ou condene, mas para que os envolva no seu amor, porque com ela está sempre o Senhor: “Digo-vos: se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhe-á concedida por Meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde dois ou três estão reunidos em Meu nome, Eu estou no meio deles”. A Igreja missionária reza continuamente por aqueles a quem anuncia o amor, a quem quer ensinar os caminhos da liberdade.3. O ardor missionário é a página mais gloriosa do Povo Português. Parece que cerca de 500 Dioceses actuais receberam a fé dos missionários portugueses. Entreguemos a Maria, a primeira mensageira do amor redentor, todos aqueles e aquelas que ainda hoje gastam as suas vidas ao serviço do Evangelho do amor. Que eles aprendam com Maria, a inquietação que não lhes permite parar, a alegria de quem anuncia boas-novas, a coragem para não desistir, a confiança para acreditar que cada pessoa humana pode ser um santo, se se abrir ao amor.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca de Lisboa