terça-feira, junho 18, 2013

FAZER A VONTADE DE NOSSO SENHOR...

UM DIA DO DIÁRIO DA BEATA ALEXANDRINA...


19 de Junho de 1953 – Sexta-feira

A minha natureza, o meu pobre corpo vai falhando, falhando, vai desfalecendo. Sinto até que nem corpo tenho. Sou um sopro, que tem vida e nada mais. Reina a dor, a dor aguda que me mói todo o ser. Mas este sopro tem uma vida, tem um eco que parece ecoar no mundo, penetrar nele todo até nos rochedos, até ecoar no Céu e morrer no Céu. Eu não vivo. Nada disto é meu. Dizer o que sofro, exprimir o que sofro é impossível. Tenho a necessidade de expandir-me, de saber exprimir-me e gravar bem aos olhares de todos o que é a dor e quanto custa a dor. Não posso. Não sei. Foi tal a ignorância, foi tal a cegueira que me envolveu que até parece que nunca vi e que nada soube compreender e raciocinar. São tão grandes os segredos da minha dor, são incompreensíveis. Meu Deus! Meu Deus, que tormento o da minha vida. Duvido de tudo. Eu nada me acredito. Como hei-de acreditar os outros? Eu não quero enganar-me, nem enganar ninguém. Esta é a pura verdade apesar de sentir que até nisto minto. As minhas ânsias são tão grandes, tão grandes, são infinitas!... São tão grandes como Deus. Digo minhas, mas são d’Ele, pois só Ele é infinito. Esta grandiosidade não é da terra. São ânsias de me dar, dar e consumir em amor. São ânsias de pegar no mundo numa mão fechada e introduzi-lo todo no Coração do meu Jesus. por maior que seja o meu desfalecimento, a minha prostração, o motor que tenho dentro do peito não deixa de trabalhar. É motor a vapor. Não há nada que o possa matar. É grande, muito grande, é indizível a minha humilhação. Com a aproximação do povo, sem fugir à cruz, sem deixar de fazer a vontade de Nosso Senhor, eu gostava de me encobrir debaixo da terra sem ver ninguém, até mesmo a luz do dia. Como não quero outra coisa, a não ser a vontade santíssima de Jesus, submeto-me a tudo, tudo sofro pelas almas.

Duas noites seguidas, inesperadamente, sentia e ouvia choros e gemidos na minha alma. Tormentosa agonia! É impossível dizer quanto me custou este tormento. O que será, meu Jesus? Sou a Vossa vítima, seja o que for. O dia de ontem foi muito tormentoso. Duro horto! Foi horto de lágrimas e de profunda dor. Não foi mais que o rochedo sobre a terra. Não quis saber, não quis compreender o que era o horto, não quis viver dele, nem aproveitar-me dele. A agonia foi para Jesus. Hoje a viagem do calvário assemelhou-se ao horto. Sabia que alguma coisa de misterioso havia, mas fugi sempre à luz, sempre à verdade. Fechei os olhos a tudo, enquanto o coração e a alma morriam de dor. No tempo da agonia da cruz foi tal a aflição que senti no corpo que me parecia, ou melhor, sentia que o coração vinha a todas as veias do corpo apanhar todo o sangue que elas continham, para o derramar e regar a cruz. Uma agonia indizível da alma e um tormento indizível do corpo me levavam a dar a vida. Expirei no maior abandono. Não tive a companhia de Jesus. bem depressa Ele veio a dar-me a Sua vida para eu viver e falou-me assim:

— “Desceu do Céu, veio nas nuvens Jesus para o coração da Sua esposa. Veio Jesus. O que veio Ele fazer? Estai atentos, estai atentos. Vem chamar-vos, vem convidar-vos a entrar no Seu Divino Coração. Desceu do Céu, veio nas nuvens Jesus e fala-vos do coração da vítima deste Calvário. Que vos há-de dizer Jesus? Diz que vos ama, ama, ama e quer o vosso amor, todo o vosso amor. Escutai, escutai. Aceitai o meu convite. Vinde ao meu Divino Coração. Sois meus filhos. Sois meus filhos. Atendei, atendei ao Pai que vos convida. Deixai a terra, deixai o mundo. Pensai no Céu, vivei para o Céu. Estou triste, muito triste. Há tantas almas, tantas almas que deviam ser mais minhas, unirem-se só a Mim, pensarem só em Mim. Prenderam-se a tudo, ambicionam tudo, menos o que é meu, menos a Mim mesmo. Chama-vos o Senhor, filhos meus, filhos meus. É grave a hora, é grave a hora! Avante, avante, minha filhinha, esposa minha. Falo em ti e não para ti. Não tenho mais a pedir-te nem tu mais para me dar. Peço-te a mesma imolação. As almas, as almas!... Continua, continua a tua missão encantadora. Continua, continua a tua missão de salvação.”

— Ó Jesus, ó Jesus, ai o que eu sou! Continuo com as minhas maldades, continuo a ofender-Vos. Quero a perfeição e não a tenho. Quero amor e não o tenho, e a Vossa graça, a Vossa graça, meu Jesus, parece que a perdi. Não sei como, Senhor, continuar a minha missão! Levai-me para onde quiserdes. Eu não posso caminhar. Eu estou pronta, Senhor, pronta a seguir-Vos, pronta a sofrer, pronta a fazer a Vossa divina vontade.

— “Fala, minha filha, fala às almas. Estou sempre no teu coração a falar pelos teus lábios. Se não fossem as tuas faltas, viam-me a Mim e não a ti. Viam a minha grandeza e não a tua pequenez. Quero a conversão do mundo. Quero as almas para Mim. Calvário glorioso! Portugal, ditoso Portugal! É o Portugal das predilecções de Jesus e de Maria. É o Portugal dos encantos do Céu, dos encantos da Trindade Divina.”

— Ó Jesus, já há duas noites, tantas vezes a minha alma chora. Sinto em mim tantos suspiros e não sei o que é.

— “São suspiros, são suspiros meus, florinha eucarística, esposa amada. Choro com os pecados do mundo. Choro com as ofensas daquelas almas, daquelas almas que tu bem sabes. Se tu visses quanto eu choro!... Os crimes com que sou ofendido!... Se tu visses quanto eu suspiro, as maldades daquelas almas que Eu escolhi para Mim, morrias de dor, morrias de dor, e hás-de morrer de amor.”

— Sou a Vossa vítima, Jesus. Sempre a Vossa vítima. Não as condeneis ao inferno. Esperai, esperai até que se convertam. Perdoai-lhes, perdoai-lhes. Imolai-me a mim, sempre.

— “Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Os nossos corações uniram-se. A gotinha do Sangue passou com efusões e efusões de amor. Maravilha! Maravilha! Vives a vida do Sangue de Cristo. Vives a vida de Cristo. És a vítima de Cristo. Dá às almas este amor, dá às almas esta vida. És das almas. Dá-te às almas. És de Jesus. Vais para Jesus. Ditosas, ditosas todas as minhas ovelhinhas que se abeiram de ti. O Céu é para elas.”

Jesus, não Vos separeis de mim. Ficai sempre a ser a minha força. Lembro-Vos os que me são queridos. À frente, Jesus, sempre a minha primeira intenção, as minhas intenções. Lembro-Vos a todos os que me pedem orações. Lembro-Vos essa qualidade de almas de que me falais. Lembro-Vos o mundo inteiro, meu Jesus.

— “Pede tudo, pede sempre, filha querida. O Céu atende, o Céu cede às tuas preces. Fica na tua cruz. Ficai na vossa cruz. Fica no teu calvário. Ficai no vosso calvário. Ditosos, ditosos aqueles que vos auxiliam, suavizam a vossa dor. Alegra-te, alegra-te. Coragem, coragem! Jesus está contigo. Jesus está convosco.”


— Obrigada, Jesus. Obrigada, Jesus. O meu eterno obrigada. Confio em Vós.

sábado, maio 11, 2013

A IMPUREZA É VENENO...


― Meu Jesus, ó meu amor, aceitai o meu sofrimento



Entreguei-te o mundo, para o salvares, mas não é tua a maldade dele. Acode-lhe, acode-lhe.

― Ó meu Deus, eu não posso acudir-lhe; não sei o que hei-de fazer, não tenho que Vos dar para o salvar. Salvai-o Vós, Jesus, acudi-lhe, são Vossos filhos e Vós sois todo-poderoso e todo amor. Eu sinto que o meu sofrimento nenhum valor tem.

― Minha filha, minha filha, és poderosa, tens comigo todo o poder. Tudo o que faço, tudo o que peço, o Meu apelo urgente é para lhe acudir. Se te for dado ver como Eu sou ofendido, é necessário um milagre para conservar-te a vida. A maldade atingiu o seu auge, não pode aumentar mais, mas pode e aumenta o número dos que Me ofendem. A impureza é veneno, que se alastra. Dá-Me dor, esposa das dores. Repara como sou ferido.

Neste momento vi cair sobre Jesus um nunca acabar de maus-tratos. Jesus era espancado, esbofeteado, escarrado, açoitado, arrastado; era o mundo sobre Ele. Levantei as mãos e gritei:

― Jesus, sou a Vossa vítima.

E, como se fosse possível abrir o peito e dar-lhe entrada em meu coração, disse-Lhe:

― Fugi, Jesus, entrai no meu coração; caia sobre mim essa chuva de sofrimentos, mas livrai-Vos Vós de serdes ferido.

Eu senti com que um impulso de amor me obrigasse eu mesma a rasgar o peito, para dar entrada a Jesus. Ele entrou e escondeu-se, mas, antes de entrar, levantou-me, porque estava caída; desfaleci com a visão dos Seus sofrimentos. Ele deu-me vida ao coração, que de dor me parecia morrer.

― Minha filha, dá-me então tudo, tudo o que te pedir, todo o sofrimento, alegre, para consolares o Meu Divino Coração, para Me desagravares, para Eu não ser ferido; dá-Me tudo, para Eu poder tudo apresentar ao Meu Eterno Pai, para abrandar a Sua justiça. Acode, acode, às almas.

― Meu Jesus, ó meu amor, aceitai o meu sofrimento e o do mundo inteiro, como se eu dele pudesse dispor; uni-os aos sofrimentos e méritos da Vossa santa paixão, uni mais ainda todo o amor do Céu ao Vosso amor e ao da querida Mãezinha; formai de tudo uma escora que sustente toda a justiça divina, para a não deixar cair. Quero acudir às almas, a todas as almas e também ao martírio dos corpos, se puder ser, Meu Jesus. Misericórdia, misericórdia, meu Amor.
― Pede sempre, sofre sempre; a salvação das almas é tudo; és comigo poderosa. Recebe agora a gota do Meu Sangue Divino, que brota do Coração, a arder de amor. Sem ele não podes viver, sem esta vida divina não podes resistir à dor.

A gota do preciosíssimo Sangue de Jesus caiu por entre labaredas de fogo no meu coração, que logo se dilatou; mas Jesus não o deixou dilatar-se por muito tempo; veio logo como médico, cicatrizou a abertura, e disse:

― Vai, esposa, amada; vai sofrer, vai para a cruz, vai para a dor. Sofre mergulhada nestas chamas, sofre abrasada neste amor; vai espalhá-lo, vai atá-lo na humanidade. Vai confiada; não te enganas, Jesus não te deixa enganar. És de Jesus, vais para Jesus; és das almas, vítima das almas. Coragem, coragem!

― Obrigada, meu Jesus. Sofro tudo sem condição, a não ser a do Vosso amor, a da Vossa graça e força; não posso sozinha, tenho medo, meu Jesus.

Que horror eu tenho a ter que ditar tudo o que me diz Jesus! Se não me vem uma graça do Céu, desisto, não o posso fazer. Se me davam uma ordem para não escrever mais nada, que alívio tão grande para a minha alma atribulada; que consolação a minha; até me parece que deixava de sofrer. Mas isso não quero; sou a vítima de Jesus.

Sentimentos da alma, 9 de Maio de 1947 - Sexta-feira.

A ALMA VÍTIMA...


A alma vítima vê-se coberta e responsável de todos os crimes



Ontem, não sei dizer como foi dolorosa a minha viagem para o Horto. A noite era escuríssima, e eu fui tão ligada aos sofrimentos; não digo a este nem àqueles; foi a todos; era um mundo deles, sentir mesmo que arrastava o mundo, que ele me esmagava. Era tal a minha união à dor, eram tão inquebráveis as prisões que a ele me prendiam, que nem um só momento dela me podia libertar, nem um só membro, nem um mínimo bocadinho de carne podia ser da dor, dos espinhos libertada. Que dureza tinha para mim a humanidade! Senti e vi Jesus a tremer, a chorar e a suar sangue, e até pelos ouvidos o derramava. Senti-O a estender os braços, e a oferecer ao Pai o cálice, amargurado. E dali fui com Ele, de mãos atadas, para a prisão; e, de novo, levei comigo o mesmo mundo e arrastava-me, a esmagar-me.

Esta manhã, não podia respirar; não podia viver estava tomada de pavor; sentia os olhos colados pelo sangue, que brotava do grande capacete de penetrantes espinhos, que me cingiam à cabeça. Assim segui às escuras e estreitas ruas do Calvário, e sempre a cair sobre mim uma chuva de maus-tratos e de ferros cortantes, que me dilaceravam as arnês. Vi tantos pedacinhos com grandes rastos de sangue perdidos por entre as lajes. Oh! como foi dolorosa a viagem! Quanto me custou chegar ao Calvário! E quanto me custou ver feras, medonhas feras, em tão grande número, a beberem o sangue, que de Jesus corria; eram com certeza feras só na aparência, porque Jesus murmurou e deixou gravado na minha alma: melhor era para Mim, não sofria tanto, se o Seu divino sangue fosse, na realidade, bebido pelas feras; são piores do que elas. Senti que em muitos corações aumentava o ódio, o aborrecimento contra Jesus, um desejo de O ver desaparecer dos seus olhares venenosos, fosse como fosse, custasse o que custasse. Jesus, que via e penetrava no íntimo de todos mais sofria, e mais aumentava a Sua agonia; e num brado fortíssimo chamou pelo Pai. Ao ver-se por Ele abandonado, aumentou a amargura e o Seu desfalecimento. Como homem, já não podia viver, era mortal, eu sentia-O em mim, a dar os Seus últimos arrancos. Mas como era suave e doce a agonia do Seu espírito, os últimos momentos de Jesus na terra. Expirei com Ele. Ah! Se com a mesma doçura, a mesma semelhança, eu expirasse na morte verdadeira, na morte que será a vida, que se dará a vida Eterna! Veio Jesus, deu luz a toda a minha alma e disse:

― Minha filha, Minha filha, Minha Alexandrina, Alexandrina das dores, deixa-Me que te dê mais este título de Minha esposa, Alexandrina das dores. Tem coragem! A alma pura posso compará-la à água pura, à água cristalina, em vidro de cristal fino, posta aos raios de sol a ser observada. Quantas coisas aparecem; o que descobrem esses raios de sol! A alma és tu; o sol, observador sou Eu que tudo em ti descubro, e a Meus divinos olhos, tudo aparece. Esse tudo que Eu vejo e faço que tu vejas é o meio de que Me sirvo para purificar a tua alma para poderes passar deste Calvário, deste leito de dores ao Céu. Faço que vejas em ti todas as manchas, para delas te purificares, para te ver tão pura, tão pura, Minha pomba querida, para que esta pureza em ti transpareça e a possas comunicar às almas. São tuas as manchas que ao sol da Minha pureza e grandeza aparecem mas não são tuas, filha querida, atende bem ao que te digo, as maldades, os crimes, esse mundo de horrores, que em ti sentes e descobres. Ó maravilhas, ó maravilhas, tão pouco conhecidas e compreendidas! A alma vítima vê-se coberta e responsável de todos os crimes, e, ao mesmo tempo, possuidora do Seu Deus com todas as Suas grandezas. Quanto ela sofre ter que aguentar e enfrentar o imundo com o que há de mais puro e santo! Confia, filha querida; és vítima, mas não são teus esses crimes. Entreguei-te o mundo, para o salvares, mas não é tua a maldade dele. Acode-lhe, acode-lhe.

Sentimentos da alma, 9 de Maio de 1947 - Sexta-feira.

terça-feira, maio 07, 2013

MORRER PARA O MUNDO...


Que as minha loucuras sejam só para Jesus


Não quero o mundo; quero desaparecer dele, morrer para ele; não quero o mundo, nem nada que lhe pertença. Quero as almas, quero as almas todas que nele habitam, porque essas sim, essas só a Jesus pertencem. Deixo-me crucificar e morrer por elas. Não posso pensar na perda das almas; não posso pensar que Jesus é ofendido. Eu não quero o amor das criaturas; quero o amor do meu Jesus Eu não quero ofendê-Lo nem sabê-Lo ofendido. Que sede de me dar a Ele, de Lhe pertencer, de morrer por Ele! Que sede de ver o mundo, ou melhor, as almas nas mesmas ânsias, nas mesmas pretensões. Queria tudo numa só alma, num só coração, num só amor. O meu coração está cansado de tanta ansiedade, de tanta sede de amor. Eu não sei quem continuamente bebe em mim e bebe sofregamente; a minha alma sente, os meus ouvidos ouvem o saborear, o beber ofegante desta bebida. Continuo a ser o poço inesgotável, apesar de, noite e dia, sem parar, dar água com toda a abundância a quem quer beber. Depois disto não sou nada, não dou nada, em mim nada há. Eu não vivo mas há em mim outra vida que vive e ama, que vive e possui tudo. Queria viver esta vida, amá-la, perder-me nela, enlouquecer por ela.

– Ó meu Deus, ó meu Deus, eu quero que as minha loucuras sejam só para Jesus e para as almas. Sinto que esta vida é ferida, ultrajada, calcada aos pés de ingratos. Eu não posso consentir em tal, quero remediar este mal e não posso. Sinto o meu corpo ralado, moído, desfeito pela dor. Por vezes digo: meu Deus, como se vive, como se pode resistir a tanto. Meu Jesus, sou a Vossa vítima, aceitai o incenso do meu sofrimento, que ele suba ao Céu constantemente, dia e noite, sem parar, para ser a reparação da bondade de Deus ultrajado. Fito os olhos em Jesus crucificado, compadeço-me dos Seus sofrimentos, quero evitá-los e não posso; sofro amarguradamente com Jesus. Fito novamente a imagem do Seu divino Coração e peço-Lhe: deixai-me entrar, Jesus, no Vosso divino Coração, para me esconder e incendiar. E fazei que eu vá como um sopro, como uma aragem suave, levar a todos os corações a Vossa graça, o fogo do Vosso amor. Digo e não sou eu, falo e não sei falar. Ó meu Deus, e assim me vou mergulhando nesta abismo medonho de cegueira, abismo, cegueira, que não mais terá fim. Sinto-me nela como peixe na água; quanto mais me mergulho em cegueira, mais obrigada me sinto a, profundamente, me mergulhar. E sempre sobre esta cegueira um mar tempestuoso, com fúrias desastrosas. E o coração a sangrar, sempre a sangrar; com que crueldade eu o sinto ser apunhalado! Que finos e dolorosos são os fios que o cortam! Ó minha cruz, eu te amo! Ó Mãezinha, eu sou Vossa; dai-me força e amai por mim a Jesus, amai-O em nome de todas as almas.

sexta-feira, abril 19, 2013

CAMINHEI SEM LUZ...


... mas cheguei ao Calvário !



Tenho ânsias, tenho ânsias de me purificar, cada vez mais, e nada consigo! Que hei-de eu fazer, meu Jesus? Causa-me horror ver a minha miséria, porque é só o que eu vejo. Avanço, avanço, e, momento a momento, mais me enrolo, mais me mergulho na cegueira, que me aterra, na cegueira que nunca foi luz nem nunca a luz conheceu. Assusto-me, vejo, sinto que esta cegueira é morte e que nunca poderá ver. Neste temor, feito o Coração divino de Jesus, invoco o Seu Santo Nome, e, por vezes sinto-me como se fosse transportada às nuvens; deixo a terra, mas não chego ao Céu. Nesta viagem às alturas, respiro, sinto-me confortada, fortalecida com uns ares mais puros, com aquela vida que não é o Céu, mas também não é a terra; não é gozo, mas é força, não é a verdadeira vida, mas também não é morte. Baixo novamente à mesma cegueira, só à vista da minha miséria, mas então com mais coragem para abraçar a minha cruz, a pisar os espinhos que tão agudamente me ferem, ansiosa e como que enlouquecida para consolar Jesus, dar-lhe as almas, purificar-me de todos os meus defeitos, ser pura para só viver a vida de Jesus, ser pura e Nele me esconder para sempre, sofrer escondida Nele, amá-Lo sempre Nele escondida, fugir ao mundo, desaparecer dele, desaparecer por completo. Não consigo os meus desejos, não sou pura, nada sofro, nada faço de bom, tudo se apaga sem aparecer. Ai, meu Jesus, vinde em meu auxílio; estou sozinha sem ninguém, meu Jesus, sem ninguém. Foge-me o Céu, estou como se me fugissem todos os amigos da terra.

E o demónio a atormentar-me tão fortemente.

Tenho estado sobre o inferno, não sei o que me livrou de cair nele, nada vi que me segurasse, só me faltou mergulhar-me nos seus horrores, nas suas penas. Esta visão foi essa luta com o maldito. Tive mais três ataques. Nos dois primeiros, senti passar sobre mim as labaredas do inferno, ouvia uivos, ranger de dentes e um demónio muito feio de boca aberta com um grande pedaço da língua de fora, língua em brasa, e estendia ao longe grandes chamas; causava pavor. Já lá vão alguns dias e por vezes sinto no coração como se de novo voltasse a ver toda aquela cena. Convidava-me ao mal e fiquei com grande temor de ter pecado. Nem posso lembrar-me das suas malícias. Que horror! Como se ofende Nosso Senhor! Posso tão pouco invocar o nome de Jesus e da Mãezinha! Penso que é o maldito que não me deixa. Não posso sem me oferecer como vítima e é só para reparar que tais sofrimentos aceito. No último ataque, ele principiou, de longe, a preparar-me para o mal com coisas pequenas, mas cheias de maldades. Foi indo, foi indo, incendiou-se o fogo, envolveu-se a terra com o inferno; eu era o mundo, era o inferno. Ó meu Deus, que pavor! Voltei a repetir a Jesus: se hei-de ofender-Vos, prefiro o inferno; não quero pecar, não quero pecar, sou a Vossa vítima. Jesus, Mãezinha, ai, quanto me custa isto!

Ao cair da tarde de ontem, senti como se no meu coração estivesse gravado Jesus e a Mãezinha, numa tristeza e amargura tão profunda, que causava dó. Jesus beijou e aquele beijo foi de despedida; e deixou no Coração da Mãezinha raios de fogo; foram fios, foram prisões de amor que os deixaram para sempre unidos. Jesus foi para o Horto e ficou com a Mãezinha. A Mãezinha ficou e foi com Jesus. Eu no Horto senti como se em meu corpo nem uma só veia ficasse por abrir. Os Apóstolos dormiam; Judas aproximava-se. À voz de Jesus vieram sobressaltados. Judas deu o seu beijo traidor e todos caíram por terra; a terra foi o meu coração. Feriram-me as armas e os paus. Vi Jesus que em Suas Santíssimas mãos tomou. Ao ver isto, fugiu S. Pedro por entre a multidão; foi à frente de Jesus; não viu os maus-tratos que Lhe deram. Mas via a Mãezinha; velava ao longe. Eu sentia que o Seu Santíssimo Coração adivinhava tudo. Quanto Ela sofria e quanto sofria eu também com os sofrimentos de Jesus e os dela! Na manhã de hoje, caminhei oprimida pela violência da dor; ia como que encerrada num mundo do sofrimentos. Caminhei sem luz, mas cheguei ao Calvário e lá com mais sensibilidade fui cravada na cruz; e então em todo o meu corpo estava Jesus; eu era apenas uma casca frágil que O encobria. Sentia todas as Suas chagas e feridas, os espinhos da Sua Sacrossanta Cabeça, o palpitar do Coração, lágrimas e gotas de sangue, tudo em mim era Jesus. Quando estava a ser cravada na cruz, ainda senti o meu rosto a ser nojosamente escarrado. A frágil casca do meu corpo não impedia os sofrimentos e maus-tratos de Jesus. Fiquei no mesmo brado e agonia com Ele. Quando Jesus expirou, eu senti que o espírito divino voou de verdade ao Pai, e eu fiquei morta. Pouco depois Ele voltou e disse-me:

― Minha filha, o Jardineiro da tua alma está em teu coração; cuido, cultivo as flores que adornam a minha alma. Como são belas! A água que as rega é a água da pureza, água de graça e amor. Confia; o teu Jardineiro é Jesus; habito em teu coração; repara como eu cuido delas. Tu és a pastorinha de Jesus, a pastorinha das almas; apascenta-las no jardim formoso da tua alma. Vi então Jesus feito Jardineiro, no seio de belas flores, de regador na mão a regá-las cuidadosamente; via cair a água com abundância.

― Cuidai, cuidai, meu Jesus, cuidai delas e cuidai de mim; eu sou miséria e nada posso sem vós. Permiti que com a Vossa graça, no jardim do Vosso divino amor, eu posso mergulhar em almas; sustentai-as com o que é Vosso.

― Coragem, coragem, Minha filha; sem dor não há vítima, sem dor não há amor, sem dor não há vida. Tu és a vida de Jesus, és a vida das almas. Se todas as vítimas sofrem, como não hás-de sofrer tu, Minha filha, que és a maior vítima da humanidade. Dá-Me dor, acode ao mundo, vem sobre ele a justiça de Meu Pai e vem depressa. Não há justos na terra, não há almas que Me amem, a ponto de repararem todas e tão graves ofensas. Pobre mundo, vai ser carbonizado; ficará mirrado com o fogo da justiça divina.

Levantei as mãos, cheia de terror, e disse:

― Perdoai, meu Jesus, perdoai, perdoai já, perdoai sempre! Como hei-de acudir ao mundo? Bem me parecem a mim que de nada valem os meus sofrimentos.

― Coragem, Minha filha, coragem, amada Minha; sofre com alegria. A tua imolação continua se o mundo não quiser que seja de remédio para os seus corpos é-o sempre para as suas almas. Pede-lhe, pede-lhe que se converta, que venha a Mim. Dás-me mais lutas, mais ataques com o demónio?

― Dou, meu Jesus, mas sabeis bem que é o que mais me custa. Que medo de Vos ofender!

― É por te custar que, Minha filha, que mais reparação Me dás. Não temas, confia em Mim; não deixo que Me ofendas. Os dois primeiros combates que te pedi foram pelos esposos pais de família. Com que gravidade Me ofendem; o último foi por toda a humanidade. Foi por isso que te envolveste com o inferno. O mundo! o pecado! Vítima a lutar com o inferno. Eras tu, Minha pomba amada, a livrares de lá as almas. Coragem! Vem receber vida para combateres. Recebe uma gota do Meu Divino Sangue; é a tua vida, é a força do teu sofrer.

Jesus com o Seu Divino Coração a arder em labaredas uniu-O ao meu, deixou cair a gota do Seu Sangue divino. O fogo ateou-se; o meu principiou a dilatar-se. Jesus passou logo as Suas Santíssimas mãos sobre o meu peito, acariciou-me e disse:

― Toma, Minha filha, a tua cruz; vai convidar as almas a virem a Mim, vai levar-lhes esta vida. E como prova do valor dos teus sofrimentos e de que és a salvação delas, a cada acto de amor, a cada vez que Me disseres: Jesus, eu amo-Vos, serei amado por mais uma alma. E sempre que abraçada ao crucifixo disseres: Jesus, sou a Vossa vítima mais um pecador será salvo, esquecerei as suas ofensas. Prometo-te, confia, sou O teu Jesus. Diz-Me isto muitas vezes. Vai com coragem! No Céu continuas a mesma missão; ele está perto. Vai com alegria; vai, filha do amor, vai, louquinha do amor, vai chamar a Mim as almas.

― Obrigada, meu Jesus; obrigada, meu Amor, eu vou; vinde Vós comigo. Ao o Céu, meu Jesus, que nunca chega. Faça-se a Vossa vontade divina. Sou a Vossa vítima, vítima até dos meus desejos. Farei, Jesus, que eu morra para mim e para todos, viva só para Voa e para as almas.

Sentimentos da alma, 18 de Abril de 1947 - Sexta-feira.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

SEIS PRIMEIRAS QUINTAS-FEIRAS


Alexandrina explica:


Ontem de manhã [24 de Janeiro], senti como se assumisse a mim toda a maldade humana. Tudo entrou para mim, e eu era o mundo. Causou-me tal tormento que não sabia como resistir. Lembrei-me que neste dia a ordem de alívio dada pelo meu Paizinho não teria lugar. Enganei-me: sentia e via com os olhos da alma dentro em meu peito uma ovelha poisada sobre a terra, presa por grandes sebes de espinhos. Eu ia caminhando para o Horto, e ela sempre dentro de mim. Durante a tarde, desapareceu tudo isto, foi muito mais suave a dor. À noite voltei ao mesmo sofrimento pavoroso. Sobre o solo do Horto levantou-se um altar, altar de dor assediado por todos os martírios. Sobre ele estava não uma ovelha com sebes de espinhos, mas sim um cordeiro mansíssimo que tudo recebia sem dar sinal de vida, possuindo toda a vida. Daquele cordeiro saía tudo de bondade, e todo ele ardia em chamas que abrasavam o altar e todo o solo do Horto. Era Jesus, era Jesus, senti que era. Oh! Como Ele amava, quando recebia toda a maldade e ingratidão! Nesta ocasião coisas houve que agravaram muito o meu sofrimento. O demónio tentador aproveitou a ocasião para me atormentar. Sem eu querer via tudo pelo pior; foi grande a minha agonia. Meu Deus, se é possível, afastai de mim este sofrimento. Assim me uni à agonia de Jesus. Mas logo acrescentei: não se faça a minha vontade, mas a Vossa divina vontade. Não desvieis de mim a Vossa Face, ó meu Jesus, não me deixeis sozinha um só momento, só esse basta para eu desesperar! Num mar de dores passei toda a noite. Logo de manhã, no meu mundo, se levantou o mesmo altar de dor rodeado de martírios com o mesmo cordeirinho em cima. E assim segui para o Calvário. A toda a dor este cordeiro mansinho pagava com doçura e amor. Ele ardia em chamas e por entre elas, por entre a alvura da sua graça, caía o Seu sangue em abundância a regar a terra. Aproximava-se o fim da montanha, e o inocente Cordeiro sempre sobre o altar do patíbulo; sabia que ia morrer e ansiava por dar a vida. Que amor, que amor! Só podia ser o amor de um Deus, o amor de Jesus! No alto do Calvário, em vez da cruz, continuou a ser o mesmo altar e o mesmo Cordeiro a arder em chamas e a derramar sangue. Quanto mais se aproximava a hora de Jesus expirar, mais a crueldade de debatia contra o Cordeiro inocente e mais as chamas do Seu amor se estendiam sobre tanta maldade e ingratidão. O Cordeiro ia morrer e nesse momento passou da noite para o dia, da morte para a vida no abraço mais íntimo ao Seu Coração toda a humanidade. Desapareceu de mim o altar, o Cordeiro, e eu fiquei como se não vivesse. Dentro em pouco veio Jesus, falou-me em meu coração; falava-me nele como d’uma janela.
— Minha filha, minha filha, vítima de Jesus, vítima da humanidade, vítima da tua Pátria, do teu Portugal. Minha filha, minha filha, louquinha da Eucaristia, ama-Me, ama-Me e faz-Me amado; é por ti que Eu quero ser amado, é por ti que Eu quero muitas orações a amarem-Me, é por ti que Eu quero ser reparado, é por ti que Eu exijo grande reparação; repara-Me de tantos sacrilégios, de tantos crimes e iniquidades. A tua dor atingiu o auge. Podia dizer que o Meu divino amor atingiu para contigo também o seu auge; não porque o Meu amor tenha limites, mas porque te amo com o amor com que pode ser amada uma criatura humana; amo-te com amor louco.
Minha filha, minha esposa querida, faz com que Eu seja amado, consolado e reparado na minha Eucaristia. Diz em Meu Nome que todos aqueles que comungarem bem, com sincera humildade, fervor e amor em seis primeiras quintas-feiras seguidas e junto do Meu Sacrário passarem uma hora de adoração, e íntima união comigo lhes prometo o Céu. É para honrarem pela Eucaristia as Minhas santas Chagas, honrando primeiro a do Meu sagrado Ombro tão pouco lembrada. Quem isto fizer, quem às Santas Chagas juntar as dores da minha Bendita Mãe, e em nome delas nos pedirem graças, quer espirituais, quer corporais, Eu lhas prometo; a não ser que sejam de prejuízo à sua alma. No momento da morte trarei comigo Minha Mãe Santíssima para as defender.
— Ó meu Deus, como Vós sois bom, como é infinita e sem limites a Vossa misericórdia. Permiti que todos comunguem bem, com as devidas disposições, para se tornarem dignos das Vossas divinas promessas. Alcançai-me, meu Jesus, para mim a mesma graça.
— Dá-Me dor, dá-Me dor, ó minha filha, repara tanta maldade, dá-Me a tua cruz. Confia em Mim, não temas as trevas, o abandono e a ignorância. Todo o teu viver mostra a vida de Deus em ti; a tua vida é um livro de sabedoria, é a ciência divina a falar por ti. É vida de heroísmo, é vida de amor. Rebe a gota do Meu divino Sangue, maravilha encantadora do Paraíso. Se os Anjos e os Santos que estão na glória pudessem amar-Me mais, mais Me amariam ao ver tão grande prodígio. Como são lindos os hinos que Me entoam! Que prova de amor! O Sangue de Cristo, o Sangue das virgens, o Sangue que as gera. Tem coragem, vai para a cruz, vai para o teu martírio, leva a Minha graça, leva e Minha paz, vai distribuir e irradiar este amor.
— Obrigada, obrigada, meu Jesus. Quisera bem que todos o experimentassem e que todos Vos amassem.
Jesus fez passar a gota do Seu Sangue, e, no mesmo tempo, fez-me nadar num mar de suavidade e doçura, num mar de amor. Sentia-me arder, mas era fogo que confortava e dava vida à alma. Fiquei mais forte, com mais coragem para a cruz. Quanto devo ao meu Jesus.

Sentimentos da alma, 25 de Fevereiro de 1949.

TUDO MORREU, TUDO SE APAGOU...


Não digo nada do que me vai na alma…


Cá estou na renúncia de mim mesma, sujeita à obediência, a contrariar a minha vontade, a querer só o que Jesus quer, nada mais queria dizer, abafar por completo tudo o que em mim se passa. Se assim fizesse, entrava a minha vontade, não me renunciava, não obedecia, Jesus ficaria triste. Nisso não posso consentir. Obedeço às cegas, obedeço por amor. Estou a sucumbir sob o peso da minha cruz. Que dor, que amargura, meu Deus! Esta dor, esta amargura estende-se ao mundo inteiro. É uma angústia constante para o meu coração tão aberto pela lança e a cada momento avivada a ferida, tão cingido de espinhos e avivado pelas setas. Meu Deus, meu Pai, ouvi o meu brado incessante. Estou na cruz crucificada. Repete-se o número de vezes que os cravos são apertados. Toda a cabeça está trespassada pelo capacete de agudíssimos espinhos. A agonia da minha alma e o brado do meu coração não cessa. A alma chora, chora de tristeza e angústia e o coração brada, brada sempre: Meu Deus, meu Jesus, meu Senhor, valei-me pelo Vosso amor, valei-me pela Vossa sagrada Paixão e Morte. Eu quero, ó Jesus, e não posso mais. Não me abandoneis, vinde depressa socorrer-me. Com a Vossa graça, com a Vossa ajuda eu sou e serei sempre a Vossa vítima. Aí, quanto custa sofrer para consolar o meu Senhor e valer às almas, e sentir que não posso mais, que não sou capaz de aguentar com o aumento do mínimo sofrimento. Perdi tudo, tudo, tudo morreu e tudo o mais morrerá. Estou sempre no meu sepulcro de morte; ele nada deixa em mim viver. As trevas são pavorosas; a noite tristíssima e escura não deixa cintilar uma estrela. Tudo morreu, tudo se apagou. A minha ignorância invadiu todo o meu ser; é uma inundação total. Não sei falar de Jesus, não sei falar do sofrimento, não digo nada do que me vai na alma.
*****
Sentimentos da alma, 23 de Fevereiro de 1951.

quinta-feira, dezembro 27, 2012

NOVIDADE PARA JANEIRO DE 2013



Boletim de informações sobre a Beata Alexandrina

Porquê este “Jornal de informações” se já existem na Internet numerosas páginas sobre a Beata Alexandrina?

Esta pergunta parece justa, mas para nós não chega, porque pensamos que nunca é demais falar de tão grande vulto da Igreja de Portugal, porque pensamos que nunca é demais falar de uma das maiores personalidades da História da Igreja universal. A Beata Alexandrina é mais do que “uma Santa para Portugal”, a Beata Alexandrina é a maior mística do século XX e certamente uma das maiores que a Igreja viu surgir das suas alas milenárias. A Beata Alexandrina iguala na ascética e na mística Santa Teresa de Ávila e S. João da Cruz, os grandes mestres nesta difícil e tão nobre “matéria”.

Jesus disse um dia que “ninguém é profeta no seu país” e, este ensinamento conjuga-se perfeitamente com a Beata Alexandrina, que é mais conhecida em certos países – Brasil, Itália, Inglaterra, Irlanda, França – do que propriamente em Portugal que a viu nascer, crescer e morrer.

O nosso intento é remediar essas falhas, essas faltas de conhecimento sobre aquela que poderá vir a ser na verdade “uma Santa para Portugal”, como muito bem o disse o Eminentíssimo Arcebispo de Braga, Dom Jorge Ortiga.

Nunca será demais falar da Beata Alexandrina, visto que essa foi a vontade expressada por Jesus, quando lhe disse que queria que ela “fosse conhecida no mundo inteiro”. Este desejo do Senhor, nós fizemo-lo nosso e tudo faremos – na humildade dos nossos meios – para que a Beata Alexandrina Maria da Costa seja conhecida no “mundo inteiro”, mas estando cientes que desse “mundo inteiro”, Portugal também faz parte.

Que publicaremos aqui?

Os escritos da Alexandrina já são conhecidos de muitos leitores que frequentam a Internet, que eles sejam de língua portuguesa, francesa, espanhola, italiana e de algumas mais.

Como o fez Jesus na sua predicação, repetindo várias vezes os seus ensinamentos, para que fossem melhor compreendidos e assimilados, nós também assim procederemos, visto que a repetição pode tornar-se de grande utilidade para aqueles que hoje leram e que o lendo amanhã ali encontram novas explicações, novas interpretações que os ajudarão a melhor compreenderem o que Jesus espera deles, visto que os escritos da Beata Alexandrina, nada mais são – e aqui está o mais importante! – do que a repetição das palavras evangélicas, dos ensinamentos de Jesus, adaptados para os nossos tempos e compreensíveis para todos aqueles que possuem dentro deles um coração de criança: “Deixai vir a mim os pequeninos!”.
Iremos ler textos da Autobiografia, das Cartas dirigidas ao Padre Mariano Pinho, seu primeiro Director espiritual, dos Sentimentos da alma, o seu “Diário espiritual”.

Iremos ler também os testemunhos de pessoas que obtiveram de Deus graças – extraordinárias ou não – pela intercessão da nossa querida Beata.

Diversas pessoas, na Internet, demonstraram o seu amor para com a Beata Alexandrina e mesmo o que a descoberta desta alma extraordinária causou nas suas vidas: esses testemunhos serão aqui publicados, para que cada um possa meditar no poder de intercessão desta alma junto do divino Esposa da sua alma que sempre foi pura do nascimento até à morte.

Esperamos igualmente poder dar algumas notícias “frescas” sobre a causa de canonização que continua a decorrer, assim como sobre as diversas manifestações em Balasar, paróquia natal da nossa amada Alexandrina, ou peregrinações que para lá rumam, graças aos contactos que guardamos com alguns amigos de lá e dos arredores e aos quais agradecemos sinceramente.

NOTA: Haverá uma versão francesa deste boletim.

A equipa

segunda-feira, dezembro 17, 2012

É FOGO ! É FOGO ! É AMOR ! É AMOR DIVINO!


Jesus tomou nas mãos o Seu divino Coração


Jesus com um sorriso na Sua infinita bondade disse:

― Não pode ser, filha querida; assim como para serem perdoados os pecados são necessárias as disposições da alma, igualmente as exijo para a promessa que te faço, para a graça dispensada. É por isso que o Meu divino desejo é que venham junto de ti muitas almas, todas as almas, se isso fosse possível. De ti Eu deixo transparecer a Minha doçura, o Meu sorriso, tudo o que é Meu. Por ti e junto de ti, receberão o toque da Minha divina graça; por ti Eu serei por muitos amado, muito amado. Fiz e vou fazer de ti uma vida maravilhosa, uma vida de prodígios. Coragem, muita coragem! És mãe da humanidade; a mãe dá vida e dá à luz os seus filhos. Recebe agora a gota do Meu Sangue divino; sem ela não vives, sem ela não resistes ao teu sofrer.

Jesus tomou nas mãos o Seu divino Coração, uniu o centro do Dele ao centro do meu, e pelo pequenino tubo passou Dele para mim, muito lentamente o Seu Sangue divino. Foi como que um fogo que me abrasou toda; senti-me queimada, até o rosto me ardia. Jesus levantou o Seu divino Coração e com o centro para cima deixou-o por algum tempo, ligado ao meu. Nesta estreita união, depois de um pouco de silêncio, enquanto que as labaredas continuavam a abrasarem-me, Ele disse-me:

― É fogo, é fogo, é amor, é amor divino, Minha filha. Dois Corações num só Coração, duas vidas numa só vida. É Jesus pela Sua crucificada a salvar o mundo. Acode-lhe, acode-lhe, esposa querida; acode-lhe que é teu, entreguei-to, salva-o, ou salva as almas, que aos corpos já não acodes, têm que ser castigados. Já não demora sobre ele a justiça de Meu Pai. O mundo, o mundo, o pobre mundo, que não atendeu à voz de Jesus, ao convite de oração, penitência, emenda de vida! Coragem, coragem, Minha filha! Brada-lhe bem alto, convida-o para Mim. Dá-me dor, vai para a tua cruz, acode às almas, é essas que Eu quero ver salvas. Vai alegre para a cruz, vai espalhar o bem, vai infundir amor. Não temas as trevas, não temas a tua ignorância. Sentes nada saberes dizer? É quando mais dizes, mais luz dás aos que te estudam, já disso te preveni. Tem coragem! O tempo é breve; bem depressa cantarás as glórias do teu Senhor. O Meu divino Coração anseia por dar-te a tua Pátria, ver-te junto de Mim! Vai alegre, vai em paz, vai cheia de amor, da vida divina.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus. Aceitai-me o meu sacrifício e todo o meu sofrer, e poupai o mundo ao castigo.

Tenho tanta pena de Jesus e tanta da pobre humanidade. Tanto a queria salvar! Custou-me tanto ditar tudo isto. Sinto como se tudo fosse escrito com o sangue do meu coração. Que Nosso Senhor me aceite as faltas das minhas forças, para que as almas tenham força para não pecarem.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 12 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira).

APARTA-TE MALDITO !



Confesso que não podia mais...



Como o meu coração sangra: ó meu Deus, como eu o sinto ferido; já não parece coração, mas sim uma massa de sangue toda desfeita! E se a alma tivesse algum bocado de carne, eu podia dela dizer o mesmo. Parece que a sinto toda golpeada. Que dor quase insuportável! Vivo porque Jesus o quer; resisto, porque Ele resiste em mim. Ai de mim, se assim não fosse; o que teria sido e seria o meu viver. Tudo é dor, tudo são espinhos e espadas a cortarem-me, tudo é abandono, trevas e morte.

Vou saindo, de vez em quando, fora do meu sepulcro; respiro, vejo todo o sofrimento que me rodeia e sem ter nada que dar a Jesus, sem nada fazer em benefício das almas, logo caio na mesma sepultura. Fica-me a dor e as ânsias de fazer bem e imitar Jesus, de valer a todos e a todos socorrer. Que novo martírio Jesus inventou para mim com estes sentimentos de praticar o bem, de não viver nem pensar em mim, mas sim viver e pensar em toda a humanidade. Só por amor a Nosso senhor e às almas eu recebo as visitas. Que podridão elas vêm ver e observar! Meu Deus, que vergonha a minha, que doloroso tormento!

Tive três combates com o demónio. Como ele vinha desesperado! Eu sentia tal raiva contra mim, que a mim mesma me parecia morder toda. Ouvia uivos e ranger de dentes. Que inferno desesperador e malicioso! Eu era toda demónio. Não queria ter ouvidos para ouvir as suas malditas e feias coisas; mas tinha que ouvi-las e tive que lutar. Sentia o meu coração preso ao demónio por fortes cadeias e parecia-me que não podia deixar o pecado, queria até viver nele, sentia gosto em praticá-lo. Queria tomar para os meus braços o crucifixo e A Mãezinha, mas não podia; era eu mesma que O queria escarrar, escarnecer e calcar aos pés. Não deixei contudo de dizer a Jesus que era a Sua vítima e do íntimo do coração Lhe dizia que não queria pecar e só queria a Sua divina vontade. Confesso que não podia mais. Eram tão fortes as palpitações do meu coração; parecia-me que ele rebentava. Nesta altura, ouvi a voz de Jesus que disse:

― Aparta-te, maldito, tenho domínio sobre ti, deixa a Minha vítima.

Os demónios fugiram espavoridos, uivando e rangendo os dentes. E um Anjo formoso, em tamanho natural, de asas brancas, no meio de uma luz luminosa, parou por uns momentos à minha frente, a apontar-me para o Céu. Desapareceu a visão. Fiquei dorida com o receio de ter pecado, mas com a alma forte, depressa fiquei em paz.

Não tenho a certeza, mas parece-me que, ao menos três vezes, vi passar Jesus, no meio de uma grande multidão de vultos pretos, com a cruz aos ombros a ser maltratado. Ele fitava-me e caminhava sempre, mas oh! como Ele ia desfigurado e triste! Triste e em grande dor me deixava a mim também. Eu podia poder consolá-Lo, tirar dos Seus Santíssimos ombros a cruz e passá-la para os meus. Lá O via caminhar e desaparecer sem o poder conseguir. Queria desviar Dele a multidão que O seguia para O maltratar, e não foi para mim, não tive força para me aproximar de Jesus, para O libertar e suavizar a Sua dor.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 19 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira).

domingo, dezembro 16, 2012

NATAL DE DOR


“Quero regar os Vossos pezinhos...”


Depois da noite vem o dia. Depois de muito sofrer, veio novamente Jesus compor tudo.

Já tive outra vez Missa no meu quarto. Foi no dia 22 que recebi esse mimo do Céu. Os homens só vêem, enquanto que Jesus os deixa. Devia ser um dia de consolações e alegria, mas não o permitiu o meu Amado. Bendizia-O e louvava-O por tudo. Ele ama quando consola e ama quando fere; é sempre amor, amor sem igual.

Como não sabia assistir à Santa Missa, como de costume ocupei o Céu, pedi à Mãezinha que assistisse Ela por mim, com os sentimentos d’Ela e não os meus, que acompanhasse a Jesus, que merecesse Ela por mim e fizesse Suas as minhas intenções e que unida a Jesus me oferecesse ao Eterno Pai na mesma imolação e sacrifício. Principiei assim o bercinho para o Menino Jesus para o dia de Natal.

Mas, ai! Pobre de mim, o presépio que Lhe preparei foi muito pior ainda do que o de Belém. Sofri tanto, tanto! Meu Deus, que dor infinita! Não há palavras que a possam exprimir. Foi de tal forma a noite pavorosa, foi tão tremenda a tristeza e agonia que me levou a pensar a sério se seria o último Natal que passava na terra. Seja o que Jesus quiser. Preparei-Lhe o bercinho com espinhos, com as minhas infidelidades e imperfeições. Tudo isto me fazia sofrer mais e mais.

À meia-noite, na hora do nascimento de Jesus, abraçada a uma imagem d’Ele, humilhada por causa dos meus pecados, pedi-Lhe muito perdão e, debulhada em lágrimas, dizia-Lhe: quero regar os Vossos pezinhos. Aceitai-mas como se fossem lágrimas de perfume, o incenso, o ouro e a mirra dos Reis Magos. Renovei-Lhe o meu completo abandono e pedi-Lhe que fosse perfeito o mais que fosse possível. No meio de tudo isto, no meio de toda a morte, quando tudo era vida e alegria para os outros, uma coisa tive a meu favor: a paz do Senhor reinava na minha alma. Não me desesperei. Que graça tão grande do Senhor!

Os dias vão passando e eu vou vivendo naquele abandono a que me entreguei, sofrendo, sofrendo, sofrendo sempre. Quanto mais sofro e me parece que nada mais posso sofrer, maiores são as ânsias de mais sofrimentos. São tão grandes como o Céu, são tão grandes como Deus. Quero consolá-Lo, quero amá-Lo, quero dar-Lhe almas. E para isso repito-Lhe: quero dor, meu Jesus, sempre mais dor. Sede a minha força, meu Jesus.

*****
Sentimentos da alma, 26 de Dezembro de 1952.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

ACODE ÀS ALMAS ! ACODE ÀS ALMAS !


O fontanário que não se esgota.


Ó Jesus, faça-se a Vossa divina vontade! Seja tudo pelo Vosso divino amor e pelas almas.

Posso afirmar com toda a verdade: outra coisa não quero na vida, a não ser amar e fazer Jesus amado, dar-lhe almas, muitas almas, todas as almas. Ai, que loucura! Não posso consentir na sua perda! Elas custaram o Sangue de Jesus; mas para isso preciso de guia e amparo. Preciso de todo o Céu.

Oh! Meu Deus, como é tormentoso o meu viver nesta masmorra escura que tantas lembranças me traz! Tudo é inútil em mim, mas, apesar disso, logo de madrugada, tudo ofereço ao Céu. A minha alma tinha tanto para dizer, mas eu não posso dizer nada. Quando, nesta madrugada, fazia a oferta ao Senhor, atormentei-me tanto que torcia e destorcia como vergasta verde que o vento torce e destorce, mas não destrói. Durante o dia fui repetindo o meu creio sem crer, actos de amor sem esses sentimentos mais e mais até que chegou a hora de Jesus:
— “Minha filha, minha filha, estou aqui, acredita, confia; estou aqui no teu coração. Deixa-Me, deixa-Me; quero deliciar-me nele, quero descansar e contemplar os seus adornos para esquecer os crimes hediondos de tantas, tantas iniquidades. Quero descansar e fortificar-te ao mesmo tempo. Para tal reparação e toda a espécie de reparação, só uma vítima assim generosa e cheia de heroísmo. Coragem, coragem! Não pode haver mais maldade, e tu não podes dar-Me mais reparação. O mundo! O mundo! Ai dele, se não se converte! O que o espera! O que o espera! Acode às almas, acode às almas! Deixa-as vir sequiosas a este fontanário por Mim enriquecido, que não se esgota”.

(Sentimentos da alma, 28 de Janeiro de 1955)

terça-feira, novembro 06, 2012

A FERIDA DO AMOR


Eu tenho sede dos corações

Os estados percorridos pela alma da Alexandrina foram numerosos, porque também numerosas foram as suas ofertas ao Senhor como vítima: vítima da Eucaristia, vítima dos pecadores, vítima pelos sacerdotes, vítima pelo mundo e pela humanidade, vítima pela consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria.
A partir do dia 31 de Outubro e, durante quase dois anos, viveu as penas do Purgatório, estado místico dolorosíssimo que a obrigou a viver no seu corpo e  na sua alma a purificação que o Senhor exige das almas santas que ainda não tenha atingido o grau de santidade necessário para poderem entrar na Casa do Pai.
Entre esses momentos de trevas e de aridez espiritual, Jesus oferecia-lhe momentos de autêntica felicidade, felicidade celeste, como ela o explica:

“Passou-se algum tempo, desapareceu toda a treva, o sol dissipou para longe as nuvens, iluminou-se brilhante e claramente a minha alma, um fogo abrasador me incendiou o coração, fazendo passar o calor das labaredas a todo o corpo; gozava duma grande paz, mas sem ouvir ainda Jesus”.

Habituada aos grandes sofrimentos, estes estados de felicidade espiritual, quase a surpreendiam e Jesus, sempre atento à mínima solicitação da sua esposa de Balasar, vinha explicar-lhe o porquê desses momentos de plena felicidade:
“Minha filha, até aqui bateram sobre ti as ondas do mundo, as ondas horrorosas do pecado, de grandes maldades e crimes e cobriam-te as suas trevas, porque és vítima. Agora veio a ti a paz e o amor do Meu divino Coração e toda a luz do divino Espírito Santo”.

Mas estes momentos eram passageiros, e de novo era necessário que ela voltasse à treva, à aridez espiritual, aos combates com Satanás…

“Coragem! Eu quero ser amado; faz que as almas me amem. Eu tenho sede dos corações; repara-Me, conduze-os a Mim. Coragem, minha filha, nada temas. A dor e o amor são as moedas mais caras, são os selos com as quais selo as almas roubadas a Satanás”.

Jesus não cessa de pedir, mas também não cessa de oferecer. A sua conversa com a Alexandrina, parece uma conversa de amantes, como aquelas que podemos ler no Cântico dos Cânticos. Jesus ama-a e oferece-lhe o Seu Coração, faz-lhe promessas, mas exige dela amor, amor sem retorno, amor fiel, tanto nos bons como nos maus momentos. Jesus encoraja-a e previne-a. Ouçamos Jesus:

“Coragem, filha querida! Tu és o prado mimoso, onde produzem as virtudes e desabrocham as flores plantadas por Mim. Levanta-te, anima-te, não temas a cruz. No alto da montanha, no cimo dela, Eu farei cair pelo teu coração todas as bênçãos e graças de salvação para as almas. A tua vida será para elas o perfume das flores, o gorjeio das avezinhas duma manhã primaveril. Custa-te subir? Custa-te chegar ao cimo do teu Calvário? Não estranhes. O remate das obras, o seu enfeite são sempre o mais difícil”.
E para que Alexandrina não possa ter qualquer dúvida, Jesus afirma:
“Mas, ó minha filha, a obra não cai, confia em Mim. Principiei com alicerces tão firmes, que nada há que a faça estremecer, a pontos de vir a terra. É a obra das obras, é a obra mais sublime, é a missão das almas”.

A resposta da Alexandrina, é como sempre: suplicante e enternecida; humilde, mas firme. Ouçamo-la:

“Meu Jesus, ó amor meu, quero e não posso, desfaleço e caio; amparai-me Vós. Não me importo de caminhar de rastos e sempre de rastos ser humilhada, o que eu quero é estar na verdade e em tudo fazer a Vossa divina vontade. Dai-me graça, dai-me graça, meu Jesus, e fazei-me confiar cegamente. Quero sofrer tudo pelo Vosso divino amor, mas custa-me, a mais não poder, ser causa de grande sofrimento, de grande dor para os outros”.

Esta abnegação constante da Alexandrina, este amor sincero e humilde que ela sempre demonstra, enternece o Coração amante de Jesus, que com palavras cheias de amor, com ela se congratula e lhe incute coragem, sempre coragem, mais coragem, para tudo suportar por amor.

“Confia em Mim, alegra-te, Minha louquinha; estás na verdade, és minha, vives de Mim. Que felizes e ditosos são aqueles que Eu escolhi e associei ao teu martírio, ao teu grande, mas vitorioso Calvário. Coragem, coragem!”

O sofrimento da Alexandrina, livremente aceito, não é um sofrimento estéril, é um sofrimento que alimenta outras almas, que contribui à vida espiritual de outras almas, muitas vezes em dificuldades sem nome, por isso Jesus lhe afirma:

“A tua dor dá vidas, as tuas trevas são luz, que alumia as almas e vão brilhar aos confins do mundo.”

Como é sabido de todos, a Alexandrina viveu treze anos sem comer nem beber, o que obrigatoriamente a enfraquecia. Mas Jesus velava por ela e, para que ela permaneça com vida todo o tempo que Jesus quisesse “precisar” dela, Ele alimentava-a com o seu próprio Sangue. Este alimento divino destina-se não só ao sustento da sua alma, mas também do seu corpo. Algumas vezes este Sangue divino chega ao coração da Alexandrina com uma tal força que ela morreria, se o Senhor não estivesse atento ao derrame salutar. A Alexandrina várias vezes o explica nos seus escritos. O “Sangue do Cordeiro” é alimento que dá vida da alma, é alimento que mantém a vida do corpo.
Jesus explica:

“Recebe agora a gota do Meu divino Sangue. Hoje não cairá duma só vez; vais recebê-la, saboreá-la, como a abelhinha que sofregamente saboreia nas florzinhas o néctar”.

Vejamos agora, contado pela própria Alexandrina o que aconteceu:

“Jesus tomou em Suas mãos o Seu divino Coração; pelo centro saíam labaredas que formavam uma só labareda; uniu ao meu coração e fez que nele se introduzisse o pequenino tubo; senti-me como que adormecer docemente. Assim demoramos, por um pouco. Depois, Jesus retirou o Seu Coração divino, bafejou-me o peito e passou-me sobre ele a Sua bendita mão como quem acaricia.”

Solicitude divina do Senhor! Senhor, quão grande é o teu amor para com aqueles que escolheste para participarem, de maneira mais íntima, de maneira mais realista, ao pleno de Salvação previsto desde a eternidade!
A missão da Alexandrina deve continuar, não só naquele momento preciso, mas pelos tempos fora, não só “até aos confins do mundo”, mais até ao fim do mundo. Uma vez mais Jesus explica à sua vítima de Balasar esta missão sublime:

“Vai, Minha filha, a ferida que te fez o amor já está cicatrizada. Vai, leva para as almas estas chamas, abrasa os corações que têm fome de Mim; por ti Me dou a eles. Leva estas chamas, arrasta com elas a Mim as almas presas pelos laços infernais. Vai para a tua cruz, para a tua dor, não deixes correr mais pelos rastilhos o fogo, que faz rebentar a bomba divina, a justiça do Meu Pai. Coragem, coragem; nada temas, sorri a tudo!”

Alexandrina não discute, não faz mais perguntas: ela compreendeu perfeitamente a vontade divina. Ela sabe-se frágil, por isso ela diz apenas:

“Obrigada, meu Jesus. Sede comigo; tudo espero do Vosso divino coração.”

Que força, que carinho, que coragem!
Terminando a página do seu diário espiritual (Sentimentos da alma, Alexandrina explica o resultado desta visita de Jesus e o que se passou nela, pouco depois. É quase sobrerrealista:

“Passaram-se umas horas, o fogo de Jesus ainda me queima o coração; custa-me, por vezes, a aguentá-lo sem saber ele deitar panos frescos. Sinto-me mais forte; estou no fogo, mas em trevas, e o corpo num mar de dores. Ó minha cruz, ó meu Amor, ó meu Jesus!”

Palavras enternecedoras que fazem bater fortemente os nossos corações, que trazem aos nossos olhos lágrimas de regozijo que fazem bem, que procuram paz e avivam o nosso amor por Jesus e pela nossa querida Alexandrina, porque o que nela se passa, “é a obra das obras, é a obra mais sublime, é a missão das almas”.

Afonso Rocha
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 7 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)