segunda-feira, abril 03, 2017

UM DIA DA PAIXÃO DA ALEXANDRINA

Fiquei como caída na valeta...


O dia 31 de Janeiro de 1947 foi uma sexta-feira.
Como todas as sextas-feiras, a Alexandrina viveu a Paixão de Jesus e, viveu-a tanto ao vivo que ao lermos o seu Diário desse mesmo dia, temos a impressão nítida de ver nós mesmos o que ela descreve com tanta simplicidade.
No texto que vamos ler, as situações não se encontram na ordem exacta do que se passou em Jerusalém e no Gólgota, mas esta maneira de descreve uma situação tão dolorosa, não nos impede de compreender e de “ver” o que então se passa.
Ela começa por dizer: Fiquei como caída na valeta da estrada, não podia levantar-me nem tão pouco levantar os olhos ao Céu para os fitar em Jesus.” Isto supõe que ela estava a caminho do Calvário, visto ela dizer ainda: “Não sei por quem fui levantada, mas sentia a minha alma chorar com profunda dor.” Jesus caíra uma vez mais e a Alexandrina com ele, o que a leva a exclamar: “Que indizível vergonha!” A esta exclamação segue-se uma pergunta aflitiva: “Tem ferido o meu Jesus?”
Algumas linhas depois ela volta ao Jardim das Oliveiras, onde na realidade começou a Paixão de Cristo e começa o seu texto com uma frase que só depois do Horto será realizada: “Os meus espinhos do Horto deram princípio às ruas estreitas e tristes do Calvário.”
Serão estes espinhos que a acompanharão durante o doloroso caminho que ela vai percorrer até ao Gólgota: “Segui por entre eles, abismada na noite mais negra; neles perdi a carne e o sangue. Subi ao cimo da montanha e a mesma noite se espalhou nela. No alto da cruz que era eu e nela estava pregada.”
No alto da montanha a Alexandrina era a cruz e ao mesmo tempo estava nela pregada. Esta assemelhação utilizada por ela é frequente nos seus escritos, visto que muitas vezes ela é a Alexandrina mas também Cristo, numa estreita união mística. O mesmo se passa quando ela descreve a última Ceia, onde ela é o pão e o vinho, mas também o cálice.
Assim pregada no madeiro, ela “sentia o levantar do peito de Jesus, o seu ofegar, palpitar do coração. Sentia o brado triste, o eco agonizante dos Seus gemidos; sentia o Seu sangue divino que caía ao pé da cruz.”
Nesses momentos de agonia de morte, a Alexandrina descreve ainda: “Sentia uma dor de alma que a obrigava a chorar e a dar a vida despedaçada de dor. Eu não podia aguentar aquela dor que era de Jesus. O que Ele sofreu! Ai a dor do Calvário, a dor, a visão da maldade humana. Eu não resisti; por alguns momentos pareceu-me mesmo a minha morte ser real.”
E depois esta exclamação que exprime bem os seus sentimentos nesse momento: “Não quero pensar, porque não posso recordar o sofrimento do meu Jesus.”
Depois de viver a Paixão, como se o sofrimento não fosse suficiente, o Senhor permitiu que ela fosse tentada pelo demónio, antes de se dar a ela na Eucaristia, como ela o explica a seguir:
“Com a vinda d’Ele ao meu coração esqueci mais as maldades do demónio; pude unir-me mais a Jesus e desabafar com Ele.”
Alguns dias antes, a Alexandrina tinha-se queixado a Jesus, mas uma queixa toda ela cheia de amor e de humildade. Ouçamo-la:
Quero amar e falar do amor de Jesus e não amo, nem tão pouco sei falar do Seu divino amor. Que ânsias insuportáveis de O amar e insuportáveis desejos de uma vida mais pura e perfeita! Que grande dor não poder nem saber amar Aquele, que tanto me ama e morreu por mim, e não ter nem saber viver aquela vida de perfeição, de que Jesus é digno que eu viva. Que horror!
Constantemente cai sobre mim como que uma chuva de maldades e de crimes. Sinto-me queimada e carbonizada dum fogo indizível de paixões. Eu sofro, ó meu Deus, e sofro tanto, sei que sofro e em quase nada se resumem os meus sofrimentos. Não sei exprimir-me, não sei falar, não sei dizer nada desta dor, que me consome; tudo se apaga, tudo morre. Ai meu Deus, que trevas tão doridas!” (S. 26-12-1947)

Afonso Rocha

sábado, abril 01, 2017

NÃO SOU DAQUI...

Curvo-me, inclino-me de boa vontade


Que horrível, que extrema é a agonia da minha alma. Eu queria esconder a minha dor, não queria falar mais dela, queria abafá-la por completo. Parece-me que o coração chora de amargura. De longe a longe as mágoas que ele sente fazem-me bailar nos olhos as lágrimas. Quero encobrir tudo, bastava que Jesus soubesse; mas não posso, manda-me a obediência. E, embora como que arrastada, vou descobrindo, vou arrancando de dentro para fora alguma coisa do que sofro, do que sinto.
Não sei se pelo estado grave do sofrimento em que me encontro, ou se é a realidade, sinto-me no pôr-do-sol da vida; parece-me que a morte se avizinha de mim. Curvo-me, inclino-me de boa vontade a receber o golpe que Jesus lhe aprouver dar-me. Sinto no meu coração a separação dos que me são queridos. Vou para a minha Pátria, mas alguma coisa quero deixar entre eles para os animar e consolar na sua dor.
Não sou daqui, vou para o meu lugar, depressa nos veremos nessa glória sem fim.

— Meu Deus, meu Jesus, o que será isto? (S. 20-02-1945)

sexta-feira, março 31, 2017

A CHAGA DO OMBRO DE JESUS

ORIGEM


Esta devoção tira a sua origem dum colóquio entre Jesus e S. Bernardo de Claraval.
Estando ele certo dia em oração, sentiu-se inspirado a perguntar a Jesus qual tinha sido, durante a Paixão, a chaga que O fizera sofrer mais e que era mais ignorada dos homens.
Jesus respondeu-lhe:

“Eu tinha uma chaga profundíssima no ombro no qual carreguei a minha pesada Cruz. Essa chaga era mais dolorosa que as outras. Os homens não fazem dela menção porque não a conhecem. Honrai essa chaga e farei tudo o que por ela me pedirdes.”

EM BALASAR

Alguns séculos mais tarde, no Calvário de Balasar, sem que a Alexandrina lhe fizesse a pergunta, Jesus fala dessa dolorosa chaga, uma primeira vez, quando lhe pede que aceite os ataques do demónio, para reparar por um sacerdote que se encontrava em risco de se perder eternamente.

«Oferece-me cinco por cada um deles em honra das minhas divinas chagas. Desejava tanto que elas fossem mais amadas e mais amado fosse o meu divino Coração. Espalha, espalha, incendeia no mundo o meu divino amor. Aceita e oferece-me mais um combate em honra da chaga do meu sagrado ombro; oferece-ma pelo sacerdote. Concorreu tanto para ma aprofundar! Oh! quanto eu sofri com ela!» (Sentimentos da alma, 9 de Fevereiro de 1945)

Alguns dias mais tarde, a Alexandrina confirma o ataque diabólico e a oferta que faz deste ao Senhor, para a conversão do sacerdote em causa:

«O primeiro ataque ofereci-o a Jesus em honra da chaga do Seu santíssimo ombro e para reparar pelo sacerdote, como Jesus me pediu.» (Sentimentos da alma, 13 de Fevereiro de 1945)

Mas a Alexandrina vai sentir ela mesma, nas suas carnes a veemência daquela dor que causara tanto sofrimento a Jesus:

«A dor da chaga do ombro tirava toda a vida ao coração.» (Sentimentos da alma, 26 de Outubro de 1945)

Em 10 de Janeiro de 1947, ela volta a falar da chaga do ombro, quando presa na cruz a sente ao vivo:

«No alto da cruz sentia todas as chagas, mas mais vivamente a do ombro.»

Dois anos mais tarde, o Senhor volta a falar desta dolorosíssima chaga, quando lhe que propague a devoção das seis primeiras quintas-feiras de cada mês.

«Minha filha, minha esposa querida, faz que Eu seja amado, consolado e reparado na minha Eucaristia.
Diz em meu nome que todos aqueles que comungarem bem, com sinceridade e humildade, fervor e amor em seis primeiras quintas-feiras seguidas e junto do meu sacrário passarem uma hora de adoração e íntima união comigo, lhes prometo o Céu.
É para honrarem pela Eucaristia as minhas santas Chagas, honrando primeiro a do meu sagrado ombro tão pouco lembrada.
Quem isto fizer, quem às santas Chagas juntar as dores da minha Bendita Mãe e em nome delas nos pedir graças, quer espirituais, quer corporais, eu lhas prometo, a não ser que sejam de prejuízo à sua alma.
No momento da morte trarei comigo minha Mãe Santíssima para defendê-lo.» (Sentimentos da alma de 25 de Fevereiro de 1949)

ORAÇÃO:

Ó Amantíssimo Jesus, manso Cordeiro de Deus, apesar de eu ser uma criatura miserável e pecadora, Vos adoro e venero a Chaga causada pelo peso da Vossa Cruz que, dilacerando Vossas carnes, desnudou os ossos do Vosso Ombro sagrado e da qual a Vossa Mãe Dolorosa tanto se compadeceu.
Também eu ó aflitíssimo Jesus me compadeço de Vós e do fundo do coração Vos louvo, Vos glorifico, Vos agradeço por propor esta chaga dolorosa de Vosso ombro em que quiseste carregar a Vossa Cruz, pela minha salvação e pelo sofrimento que padecestes, Vos rogo com muita humildade, tende piedade de mim, pobre criatura pecadora, perdoai os meus pecados, conduzindo-me ao céu, pelo caminho da Vossa Santa Cruz. Assim seja.

Rezam-se 7 Ave Marias
E acrescenta-se:

«Minha Mãe Santíssima, imprimi no meu coração as chagas de Jesus crucificado.»
"Ó dulcíssimo Jesus, não sejais meu Juiz, mas meu salvador"


Afonso Rocha

segunda-feira, agosto 01, 2016

DOIS CORAÇÕES UNIDOS

Fala da Eucaristia e do Rosário


Era o Coração Divino de Jesus.
Enquanto Ele assim me falou, estava ao Seu lado e ao meu lado o Coração Imaculado da Mãezinha, que me cobria de carícias. Dos Seus Corações terníssimos, mas cercados de espinhos, saíam raios luminosos que iam ao encontro uns dos outros, faiscando como nuvens que se chocam. Pelo meio saía o rosário e parecia passar pelo centro dos corações. O meu coração compartilhou de tudo isto.
— Ó Mãezinha, que quer dizer o rosário nos Vossos Corações?
Falou-me a Mãezinha, beijando-me e pegando-me pela mão.
— Fala dele, minha filha. Jesus te pediu e eu te peço também. Pedimos-te o rosário, pedimos-te a Eucaristia, amores dos Nossos Corações. A Eucaristia e o Rosário, os teus sofrimentos com os das outras vítimas, eis os meios por Nós indicados para a salvação da humanidade perdida. Tu és o porta-voz, tu levas ao mundo inteiro os desejos de Jesus e de Maria, o que Eles pedem para o salvar. Sacrário, o rosário, dor sem igual da grande vítima deste calvário, vida nova, vida pura, vida santa.
Coragem, coragem, grande heroína! Bem depressa te conduzo pela mão ao Paraíso.

Coloca no lugar destes espinhos que temos nos Corações a tua dor, o teu sangue, as flores das tuas virtudes, do teu martírio. (S. 24-12-1944)

ENCAMINHA-OS AO MEU DIVINO CORAÇÃO

Jardim de flores divinas


― Minha filha, une a tua dor à minha, suaviza-a no amor do meu divino: Eu suavizo a minha no teu. Ama-me, és por mim amada, és cofre de riqueza, depositária dos dons divinos. Minha filha, anjo querido, a tua dor foi adornar o manto e a coroa que a tua Mãezinha te entregou.
Que brilho, que brilho com ela foi dado! É dor de glória, é dor de salvação. É mar de martírio, é mar de imolação!
Minha filha, jardim celeste de flores divinas, prado mimoso que apascentas os pecadores. Apascenta-los de graça, pureza e amor; guarda-os, guia-os, pastorinha divina, pastorinha escolhida por Jesus. Purifica-os, purifica-os para mim; guia-os, encaminha-os ao meu divino Coração.

Minha filha, mestra das ciências divinas, guarda o que há oito dias em teu coração foi depositado por mim e minha bendita Mãe: é o mundo, são os pecadores. É valor infinito, é o meu divino Sangue. São almas salvas pela tua dor. (S. 15-12-1944)

NÃO VIVES A VIDA DO MUNDO

A mais rica das missões


— Ó Jesus, tudo por vosso amor; nem força tenho para respirar.
A pouco e pouco, perdi todo o sangue: parecia-me estar moribunda. Principiei a sentir na minha alma uma paz suave e doce; era paz celeste. Parecia-me deixar o mundo, ir gozar o Céu.
Fiquei por muito tempo como que a dormir um sono terno, aquecida por um calor que me queimava o coração e irradiava todo o peito. Principiou Jesus a falar-me:

— Minha filha, não vives a vida do mundo, desprendeste-te de tudo o que é dele. Vives no Céu, vives do que é divino. Os teus caminhos são caminhos de Cristo; é por isto que não és compreendida. Olha, meu anjo, é sublime a tua missão: é a mais rica das missões. Eis a razão por que és odiada e perseguida; odiada por Satanás, pelas almas que lhe roubas. Perseguida pelo mundo, porque não compreende a vida que vives, o que é a minha vida nas almas. Não temas, filhinha, não te é roubado o tesouro imenso que com minha Mãe te entreguei. É só para teu maior martírio, proveito para as almas e grande glória para Mim. Fechei-o com Minha bendita Mãe com chaves de oiro; selámos-te o coração com selos divinos. Que dor para o Meu divino Coração ao ver a tua dor! (S. 22-12-1944)

CONSAGRAÇÃO A MARIA

Mãezinha, fazei-me humilde…


Mãezinha, fechai-me para sempre no Seu Divino Coração e dizei-lhe que O ajudais a crucificar-me, para que não fique no meu corpo nem na minha alma nada por crucificar.
Ó Mãezinha, fazei-me humilde, obediente, pura, casta na alma e no corpo. Fazei-me pura, fazei-me um anjo. Transformai-me toda em amor, consumi-me toda nas chamas do amor de Jesus.
Ó Mãezinha, pedi perdão a Jesus por mim! Dizei-Lhe que é o filho pródigo que volta a casa do seu bom Pai, disposto a segui-Lo, a amá-Lo, a adorá-Lo, a obedecer-Lhe e a imitáLo. Dizei-Lhe que não quero mais ofendê-Lo.

Ó Mãezinha, obtende-me uma dor tão grande dos meus pecados, que seja tal o meu arrependimento que eu fique pura, que eu fique um anjo! Pura como fiquei depois do meu Baptismo, para que pela minha pureza mereça a compaixão de Jesus de O receber sacramentalmente todos os dias e de possuí-Lo para sempre em mim até dar o último suspiro. (Autobiografia)

domingo, julho 31, 2016

COMO O SOL BRILHANTE

Fica na Cruz...


– Minha filha, minha filha, vítima querida do meu Eterno Pai, escora firme do Seu braço, da Sua justiça divina. Se não fosse a tua oferta, se não fossem as almas, já cantavas no Céu, há muito tempo, as glórias do Senhor.
O mundo, as almas são ingratas, são cruéis. Tu foste generosa, tu foste louca por elas, por meu amor, bem Eu sei, mas foi aceite a tua oferta, foi aceite a tua oferta, a tua prece.
Pede, pede, minha filha, pede pelo amor do meu Divino Coração, para que os corações se abrasem no meu amor. Pede que desapareçam da face da terra tantos e tantos crimes, crimes hediondos, que desafiam a justiça do Senhor. Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Foram os Anjos, foram os Anjos que ligaram o tubo doirado ao teu o meu Divino Coração. A gotinha do sangue passou, passou o sangue de Jesus, aquele sangue que veio do seio de Maria, minha e tua Mãe também. Passou a vida de que tu vives e a vida que Eu quero que tu dês às almas. Ela transparece em ti e por ti atravessa os corações, como sol fortíssimo, como sol brilhante pela vidraça. Pede oração, pede penitência e a morte para o pecado.
Vai em paz. Vai em paz. Fica na cruz. Sorri, abraça-a, beija-a por meu amor.

– Ó Jesus, fico na cruz, sim, fico na cruz, e é da cruz que eu Vos peço. Sede no meu coração. Atendei ao que nele está escrito. Confio, Jesus, confio. (S. 03-12-1952)

CORRO ATRÁS DELE

A minha dor é infinita


O meu coração cuida dela (da seara), rega-a toda com o seu sangue, para mais fundo penetrarem as suas raízes.
Continuo a dar ao Senhor a reparação que penso ser Ele que ma pede. Custa-me tanto! É pavorosa a luta. Todo o meu ser é vício e é maldade. Todos os meus olhares têm o veneno dos mais horrorosos crimes. Gasto quase todos os momentos da vida a pensar a forma mais horrorosa e maldosa de satisfazer os meus criminosos desejos e a calcar aos pés a Lei do Senhor. A minha dor é infinita, e só com a graça d’Ele eu posso vencer tal sofrimento!

Ver o meu querido Jesus a fugir de mim, depois de eu O ter expulsado, e corro, corro atrás d’Ele, com a maior crueldade, a açoitá-Lo, a coroá-Lo de espinhos, a arrastá-Lo pelas cordas! Sou a carrasco mais bárbara. Calco-O com os meus pés, e parece que tento tirar-Lhe a vida. Jesus grita tanto com tal afronta! Eu nada digo de quanto O faço sofrer, de quanto O vejo sofrer! Mas, se eu soubesse exprimir aqui a dor que sinto que Ele tem e o quanto me custa descrever isto, que nada significa e nada mostra do que Jesus sofre, quanto bem podia fazer às almas. (S. 22-03-1952)

QUERIA IR A ROMA

Não é para ver Sua Santidade...


Morro à sede, sem sair da água, sem deixar de beber.
Queria dar-me a Jesus, queria dar-Lhe a as almas, todas, todas as almas. Quando falo de Jesus, do Seu divino amor e das Suas almas, não sei que sinto, sinto-me a desaparecer. Que loucura o amor de Jesus! Que valor têm as nossas almas!
Não posso pensar que alguma se perca, que para alguma fosse inútil o Sangue de Jesus derramado. Não tenho coração nem espírito que aguente com estes pensamentos. O amor de Jesus, o amor de Jesus por nós!
Sinto um não sei quê, dentro de mim, que me obriga a querer ir a Roma. Não é para ver sua Santidade; não é para ver os lugares santos nem para contemplar tantas maravilhas, se bem que tudo isso seria para mim motivo de grande alegria. A minha necessidade não é essa. Eu queria de sua Santidade um não sei quê, que mais ninguém me pode dar. Eu queria lançar-me a seus pés, beijá-los, regá-los com as minhas lágrimas.
Estou convencida que isto o fazia compadecer de mim; estou certa que assim a minha alma recebia o que ela anseia e eu desconheço.

Ó meu Jesus, Vós sabeis bem que isto eu não posso fazer; supri Vós, por misericórdia, doutra forma, a minha falta. (S. 23-05-1947)

DOU-LHE O LUGAR, MAS FICO SEMPRE...

A chegada do Padre Humberto Pasquale...


— Sossega, tudo permito para tua humilhação. Consolo-me tanto, ao ver-te humilhada! Há quatro anos que te preveni para a luta, para lutares aparentemente sozinha. Foi aparente porque eu nunca te abandonei.
Hoje não te previno para maiores lutas, porque as maiores estão passadas. Previno-te, sim, para seres forte em aguentares a tua cegueira e o sentir da minha separação de ti. Quero dar lugar àquele que virá dar-te um pouco de conforto [o Padre Humberto Pasquale]. Dou-lhe lugar, mas fico sempre. Confia, que a Minha ausência será só aparente e não a realidade. Coragem! Depressa voarás para o Céu. Preveni-te há um ano para as amarguras. Sim, e elas continuam, porque as próprias alegrias para ti serão amargas. Sentes-te vazia, despida de tudo, até dos próprios sofrimentos ? Não estranhes, que tudo do nada vem. Tudo Me deste, de tudo Me utilizei para as almas.
Escuta, minha filha, é Jesus que te agradece as que, pela tua dor, no ano findo, foram salvas. Quantas já estão no Céu, quantas no purgatório, quantas ainda no mundo, mas que pelo seu arrependimento tem carta à salvação.

Obrigada, minha filha, pela tua dor, pelo teu amor, pela grande mediação às almas. (S. 04-01-1946)

OFERECI-ME A JESUS COMO VÍTIMA

A consolação de Jesus...


– Sem saber como, ofereci-me a Nosso Senhor como vítima, e vinha, desde há muito tempo, a pedir o amor ao sofrimento. Nosso Senhor concedeu-me tanto, tanto esta graça que hoje não trocaria a dor por tudo quanto há no mundo. Com este amor à dor, toda me consolava em oferecer a Jesus todos os meus sofrimentos. A consolação de Jesus e a salvação das almas era o que mais me preocupava.

Com a perda das focas físicas, fui deixando todas as distracções do mundo e, com o amor que tinha à oração – por que só a orar me sentia bem – habituei-me a viver em união íntima com Nosso Senhor. Quando recebia visitas que me distraíam um pouco, ficava toda desgostosa e triste por não me ter lembrado de Jesus durante esse tempo. (Autobiografia)

TU ÉS SAL E SOL DA TERRA

Predilecta do meu divino Coração...


— Minha filha, Jesus sofre, chora, suspira profundamente. Vê o mundo cruel e pecaminoso, vê a justiça do Seu Eterno Pai prestes a puni-lo, a castigá-lo com todo o rigor.
Minha filha, minha filha, vítima amada, vítima querida.
Minha filha, minha filha, esposa querida, esposa fiel e predilecta de Meu divino Coração: tu és sal e sol da terra, tu és pára-raios e salvação da humanidade. Tu és farol, que iluminas com todas as cores do arco-íris. És rica de graça, rica de todas as virtudes. Um ano a mais passou-se para ti.
Mais um ano de favores e prova do Meu divino amor para as almas por te ter escolhido para vítima deste Calvário.

Coragem, coragem e alegra-te porque o Senhor está contigo, em ti Se alegrou e alegrará sempre. Aceita, Minha filha, um muito obrigado do teu Jesus. Sim, um obrigado Meu, um obrigado divino pelo muito que sofreste, pelo muito que amaste. (S. 04-01-1952)

sábado, julho 30, 2016

O PARAISO DE JESUS

Tudo o que é de Jesus não cai...


— Transportes de amor, júbilos de alegria, hinos de louvor. Vem Jesus, vem Maria ao ninho dos seus amores, vêm cumprir a sua promessa e reparar a falta da sábado passado.
Não convinha que Jesus falasse naquela prisão dolorosa (*).Hei-lo contente, hei-lo cheio de alegria, com sua bendita Mãe. Está agora no seu sacrário, na sua vivenda contínua na terra.
Foi duro o teu penar, filhinha, foi duro o penar da tua irmãzinha naquela prisão. Avante! Foi por Jesus, foi pela sua glória, foi pela salvação de milhares e milhares de pecadores. Que triunfo para o Coração do teu Jesus, do teu esposo. Hei-lo a ser exaltado, hei-lo a ser glorificado nos seus queridos humilhados. Jesus agradece tão grande glorificação, tão grande triunfo.
Basta, basta agora, minha filha, não sais mais do teu quartinho, do paraíso de Jesus, dos seus encantos na terra. Hei-lo, hei-lo contente e alegre. É Jesus a provar ao teu Paizinho quanto o ama. É Jesus a mostrar ao mundo quanto ama a sua louquinha, quanto por ela tem sido glorificado.
Diz, filha, diz, amor, diz ao teu Paizinho, diz ao teu médico que todas as suas humilhações vão ser exaltadas. Jesus está-lhes agradecido pelo triunfo, pela conquista da sua causa. Os homens tentaram deitá-la por terra, Jesus velou: eles cooperaram. Tudo o que é de Jesus não cai, no meio de todas as tempestades segura-se, brilha, triunfa. Reina Jesus com a sua louquinha.
Triunfa Jesus com os queridos da sua amada. (S. 07-08-1943)
———

(*) NOTA : Refere-se Nosso Senhor ao tempo que a Alexandrina passou no Refúgio da Paralisia Infantil, na Foz do Douro, e que a própria descreve em capítulo à parte, na sua Autobiografia.

sexta-feira, julho 29, 2016

MALDITO, A VITÓRIA É DELA !

Ó agonia, triste agonia…


Senti Jesus a meu lado, sobre mim espalhou o Seu sopro divino, sopro que de repente me levou às almofadas. Jesus continuou a bafejar-me e a dizer-me:
— Coragem, minha filha, não pecaste. É para livrar as almas de caírem neste abismo e perderem-se eternamente que tu estás sobre eles.
As palavras de Jesus encorajam-me, mas não me tiram da dor em que fico mergulhada.
Na segunda afronta do demónio, causou-me uma amargura como ainda não me tinha causado. Foi muito demorado o combate. Os gestos, as palavras, os nomes, os conselhos eram vergonhosíssimos. Eu estava cansada de tanta luta. E o demónio, furioso por não conseguir de mim o que desejava. Principiei então a sentir desejos de pecar, eram uns desejos de fora para dentro e não de dentro para fora. Algumas vezes, dizia a Jesus: “não, não, eu não quero pecar”. Estas palavras saíam-me do coração, mas a vontade de pecar parecia ser mais forte do que o brado que eu levantava ao céu.
Ó agonia, triste agonia!
Ao parecer-me que estava tudo conseguido, os desejos do demónio realizados, gritei por Jesus e pela Mãezinha:
— Ai de mim, o que é isto? Valei-me, valei-me.
Senti a dor indizível que muitas vezes já tenho sentido.
Meu Deus, com certeza a morte não custa tanto.
Estava banhada em suor, parecia ter saído dum lago. O coração batia alto e apressadamente. Em espírito, oferecia tudo a Jesus e não cessava de chamar por Ele, pois era dolorosa a posição em que estava e a vergonha e dor que sentia com o receio de ter pecado. O demónio não saía de junto de mim, mas à voz de Jesus retirou-se.
— Basta, basta, maldito, deixa a minha vítima, a vitória é dela; a honra, a glória são minhas, a reparação é pelas almas. Sofre por amor, é minha filha querida.
Sem saber como, tomei a minha posição, recebi as carícias de Jesus, enquanto o demónio, voltado para Ele, amaldiçoava-O e raivosamente queria retalhar-me.
Retirou-se Jesus, e eu fiquei absorvida numa noite triste e assustadora e numa dor sem fim.

Sinto na minha alma que se levantam à volta de mim ondas fortíssimas como as ondas do mar. Cercam-me com a mesma fortaleza, mas como as do mar que muita vez se infrangem uma contra a outra; longe da praia, estas também desaparecem sem causarem estragos. Esta visão e o seu ruído, chegando aos meus ouvidos, atormentam-me dolorosamente. Tenho a sensação de que sejam coisas que se levantam contra mim. (S. 20-02-1945)

QUE GRANDE TEMPO DE AGONIA !

É por ti que estou aqui !…


Logo de manhã cedo, senti tão maltratado o meu coração; a dor, as humilhações espremiam-me, já não tinha sangue para dar ao corpo. Senti o caminho do meu calvário, saiu-me ao encontro a Mãezinha; fitou-me, eu fitei-a a Ela. Uniram-se os nossos corações na mesma dor. A troca dos nossos olhares não se demoraram, tive de caminhar à frente, maltratada, empurrada, arrastada. Mas a dor dos nossos corações não se separou. Era como que dois fios eléctricos que dão ligação um para o outro.
Quase logo que cheguei ao calvário, fui cravada na cruz. Que grande tempo de agonia. O sangue corria, as chagas rasgavam-se cada vez mais.
As lágrimas da Mãezinha corriam em meu coração. Ela era um farol para mim e eu outro para Ela, farol que dava luz para descobrir todos os nossos sofrimentos.
Ainda sem ter expirado, senti que me rasgaram o coração. Essa dor antecipou-se, porque, depois de morrer, não a podia sentir.
Quando assim sentia o coração, lancei um olhar ao mundo e disse-lhe:

— É por ti que estou assim. (S. 16-02-1945)

quinta-feira, julho 28, 2016

QUE GRANDE ESCOLA DE PECADO

As manhas diabólicas…


Veio depois o demónio em forma de lobo e de leão para a minha frente fazer cenas horrorosas. Confio que não pequei, porque confio na afirmação de Jesus de não me deixar pecar. Se assim não fosse, ai de mim. Maldito demónio, que grande escola de pecado.
Eu só queria que as almas conhecessem as suas manhas diabólicas, para não se deixarem iludir por ele.
Com a visita de Jesus sacramentado, com o calor do Seu amor divino, que me fez sentir com abundância, revivi um pouco. O conforto que Ele me deu animou-me para poder durante a manhã percorrer o caminho do calvário.
Fui tão maltratada! Caí tantas vezes com o peso da cruz e com cordas fui arrastada para trás a tanta distância! Caía com o rosto em terra, e as minhas carnes

ficavam pelas pedras aos bocadinhos. Todos os sofrimentos à minha frente aniquilavam-me o coração; era um aperto que o sufocava e tirava a vida. Na cruz, de todos abandonada, ao ouvir as maiores injúrias, sentia correr no meu corpo bagadas do suor da morte. Juntavam-se às gotas do sangue que da minha cabeça e das minhas chagas caíam com abundância. Sentia no sofrimento grande doçura por ser a moeda das almas, mas não podia ter um sorriso. (S. 09-02-1945)

O AMOR OBRIGA-ME À DOR

Entrego-me a tudo…


— Mãezinha, sofro com as infelicidades de alguém que me tem ferido tanto. É tão grande a dor que sinto por saber que sofrem, entristeço-me por eles. Lá vem a morte para mim.
O que vejo em mim. O que sinto na minha alma. Que tristes recordações. Sinto e vejo os tormentos que me esperam. Sinto que sou apedrejada, as pedradas batem em meu coração. Sinto que me retiro do convívio das pessoas, fujo para a solidão para em silêncio poder chorar. Oh! quantas lágrimas de perda, oh! quantas lágrimas de vergonha por me ver revestida de todas as maldades e estar assim na presença do Eterno Pai.
O amor obriga-me à dor.
De lábios mudos, olhos cerrados, entrego-me a tudo, lá vou para a morte.
Uma chuva de espinhos cai sobre mim, o meu corpo vai ser um leproso. Mas estou de braços abertos com um terno sorriso e uma mansidão sem igual, escondendo o disfarce de tudo.

— Ai, meu Jesus, eu só queria para maior honra e glória Vossa saber dizer o que vai dentro em mim, o que sofrestes por nós. Ó que ternura, ó que bondade. O inocente, o inocente Jesus. (S. 08-02-1945)

RECEBE GRAÇA, PUREZA E AMOR

As carícias da Mãezinha...


A Mãezinha veio a socorrer-me, tomou-me nos seus santíssimos braços e disse-me:
— Aqui estou, minha filha, a defender-te. Vem para os meus braços, vem descansar. É a Mãe a defender a sua filhinha, é a Mãe a defender e a consolar a esposa mais amada de Jesus. Não pecaste, filhinha. São momentos de tanta reparação, de tanto amor para Jesus! Coragem, sofre contente!
— Ó Mãezinha, que martírio que me custa tanto, tenho receio de pecar. Tenho vergonha de estar na vossa presença e na de Jesus.
— Oferece-nos tudo isto, sossega, não pecas. Recebe graça, pureza e amor.
Estreitou-me ao seu santíssimo coração com tanto carinho, cobriu-me de beijos e mimos e retirou-se.
Apesar da vida e conforto que recebi, fiquei por muito tempo a sentir a dor de que acima falei. Custou-me a resistir. Contudo, confiei na Mãezinha, Ela não vinha enganar-me. O que teria sido de mim e o que será ainda sem este conforto do céu.
Ó vida triste e amargurada. Sofro com tudo. Continuo a sofrer os remorsos, essa traça que vai roendo nas almas de alguém.

Quero-lhes tanto em Jesus e receio tanto a presença delas. (S. 08-02-1945)

domingo, julho 24, 2016

VAI DISTRIBUIR O QUE RECEBESTE

Lembro-Vos a humanidade inteira!…



— Com a minha graça ajudo-te a sofrer, ajudo-te a amar, ajudo-te a vencer. Confia, confia e tem coragem!... Recebe as minhas carícias. Estreito-te docemente ao meu santíssimo Coração. Enche-te de mim, enche-te de Jesus. Sofre por mim, sofre por Jesus, sofre por amor das almas. Coragem!
Coragem! Vai distribuir o que recebeste de Jesus, o que recebeste de Maria.
— Ó Mãezinha, ó Jesus, ó Mãezinha, ó Jesus, ó Mãezinha, ó Jesus, sejam sempre benditos e reparados os Vossos Divinos Corações! Obrigada! O meu eterno obrigada pela paz e pelo amor que me destes. Obrigada, o meu eterno obrigada por todas as graças que me concedestes e ides conceder-me. Ó Jesus, ó Mãezinha, lembro-Vos todos, todos quantos me são queridos. Dai-lhes tudo, dai-lhes tudo, concedei-lhes tudo para os seus corpos e sobretudo para as suas almas. Lembro-Vos toda a minha família, lembro-Vos todas, todas as intenções que me têm sido pedidas; lembro-Vos a humanidade inteira. Perdoai-lhes, perdoai-lhes a todos os corações, a todas as almas.
— Vai em paz, minha filha. Tem sempre presente este colóquio do teu Jesus e da tua Mãezinha. Leva-Lhes a todos a paz do Senhor e pede em meu nome e em nome de minha bendita Mãe: penitência, oração, emenda de vida.

— Obrigada, Jesus; obrigada, Mãezinha! (S. 03-01-1953)

O ESPÍRITO SANTO FALA NOS TEUS LÁBIOS

Ilumina o teu espírito


— Minha filha, minha filha, o Senhor é contigo. O Divino Espírito Santo cobre-te com a Sua sombra e enche-te da Sua graça. Instrui-te com a Sua ciência e sabedoria. O Senhor é contigo, sim, minha filha, o Senhor é contigo. O Divino Espírito Santo ilustra-te com a Sua ilustração. Fala nos teus lábios. Ilumina todo o teu espírito. Confia, confia, esposa minha. O Senhor é contigo, sempre contigo. O Senhor está contigo e vem dizer-te mais uma vez um muito obrigado. Sofreste muito, sofreste tudo o que te foi pelo Senhor enviado. Obrigado, muito obrigado. As almas aproveitaram, as almas enriqueceram-se com os teus sofrimentos. O mundo, o mundo foi feliz, feliz, feliz com este calvário.


— Ó meu Jesus, meu Jesus, confunde-se, envergonha-me o Vosso “obrigado”. Sou eu, sou eu que tenho a agradecerVos. Não esqueçais, meu Jesus, que o meu obrigado é eterno. Ai de mim, sem Vós; ai de mim, sem a Vossa graça e força. Apiedai-Vos de mim, Jesus. Fazei que eu saiba sofrer. Pobre de mim! De nada me aproveitei. (S. 03-01-1953)

FAÇA-SE A VOSSA VONTADE !

A vontade está pronta...



A vontade está pronta. A natureza é fraca e apavora-se, mas sempre beija, beija a mão benfazeja do meu Criador. Estou louca, louca de dor. Parece que tenho asas e estão enterradas no lodo e na lama. Quero batê-las, desprendê-las, para voar para Deus e para as Suas coisas e não posso: nada vale o meu esforço. Toda me orgulho no lodaçal do mundo, na sua podridão nojenta. E mais ainda, mesmo assim mergulhada, estou presa, toda presa com fortes cadeias de vícios, sem poder fazer o mínimo esforço para o bem. Faça-se, faça-se, Senhor, a Vossa vontade; o que eu quero é amar-Vos, o que eu quero é o Vosso amor. Porque me amais e eu Vos desejo amar, deixo que o meu coração sangre e a minha alma agonize. Os dias de festa são os dias de maior tormento. Quanto maior alegria no mundo, mais dor e agonia, maior tormento e calvário para mim. Sou feliz, porque sofro; sou feliz, porque o Senhor se inclina para mim. Ontem, passei o dia a sentir sempre no coração com que uma lança atravessada. Causava-me uma dor infinita e sentia uma tristeza profunda. (S. 02-01-1953)

sábado, julho 23, 2016

RECEBI RECONFORTO

A vinda do Padre Humberto Pasquale


Chorei, chorei muitas lágrimas. Recordava então: se não fosse por Vós, ó Jesus, e pelas almas, não me sujeitaria aos juízos dos homens. Preferia antes gozar o mundo. Estes pensamentos infundiam em mim mais desejos ainda de amar a Jesus e de o possuir e de me dar toda a Ele e às almas.
Aproximavam-se os dias em que eu ficaria sem receber a Jesus. Meu Deus, como hei-de passar sem Vós ? Ó Jesus, ó Mãezinha, valei-me, valei-me. Não posso viver sem Jesus.
Jesus velou, a Mãezinha compadeceu-se da minha dor.

Sem me deixar um só dia sem o receber, enviou para junto de mim um Reverendo Padre Salesiano (Dom Humberto Pasquale) que por uns dias se esforçou por iluminar e sossegar a minha alma. Compreendi que era compreendida por ele; isso apesar do meu grande sofrimento dava-me coragem e conforto. Depois de ele me ouvir de confissão, senti uma alegria e suavidade na minha alma e, esforçada não sei porquê, cantei cânticos a Jesus e à Mãezinha, voltando depois às minhas ânsias, às mesmas dores, ao mesmo martírio. Além deste, tive, nestes dias, outros dois breves alívios trazidos em tempos diferentes à minha alma por toques e harmonias do Céu. (S. 08-09-1944)

NÃO OLHAM A MINHA DOR

No teu corpo cresceram açucenas…


— Minha filha, no teu corpo crescem açucenas tenras e viçosas, abrem as suas pétalas e com a aragem que passa estendem ao longe o seu perfume, vicejam em prado mimoso; fazem sombra ao mundo que te confiei. Ditosos todos aqueles que estão à sua sombra, ao teu abrigo se colocaram.

Causa espanto a tua vida, as minhas maravilhas em ti. Não há igual, porque igual não há ao teu sofrimento. Tu partes para o céu. Coragem, ele aproxima-se. Tantos te verão partir com amor e saudade e quantos com remorso e dor por terem sido causa do teu martírio, por terem servido de estorvo à minha divina causa, por tentarem encobrir ao mundo as minhas maravilhas em ti. Rastejam pela terra, não olham ao alto, não compreendem, nem procuram compreender a minha vida divina, apesar de eu em todos os caminhos lhes pôr um guia e uma luz. Fecham os olhos, deixam os guias, seguem caminhos errados. Que mágoa para o meu divino coração e que mal para as almas. Dou todas as graças, dou todo o remédio para as salvar, e tudo é desprezado, não olham à minha dor nem à minha divina vontade. (S. 16-02-1945)

É BEM DOCE, MEU JESUS, MORRER POR VÓS !

Amar-Vos ou morrer !


De repente, senti-me cair de joelhos, de mãos postas, olhos no alto invoquei o nome de Jesus e da Mãezinha. Gritei, gritei do íntimo da minha alma. O meu brado não subia acima, escondia-se por entre os rochedos da montanha, ensopava-se no meu sangue e nas minhas carnes retalhadas pelos espinhos para ali morrer comigo. A agonia da alma aumentou, já não podia bradar. Sem sentir nenhum auxílio, com a aflição o coração bateu com tanta força parecendo-me ir perder a vida. Oh ! É bem doce, meu Jesus, morrer por Vós ! Ou amar-Vos ou morrer. Sofrer, sofre para Vos dar almas ! O divino Espírito Santo, nas horas mais aflitivas bate as suas asas brancas e grandes como as de uma águia fazendo-me sentir uma aragem suavíssima e animadora. Com o bico grande introduze-lo no meu coração como para o retocar e fortificar. Num destes momentos segredou-me Jesus muito do íntimo:

— Estou aqui, minha filha, no paraíso do teu coração, no ninho das minhas delícias. Sofre contente, que é para Mim. (S. 14-11-1944)

sexta-feira, julho 22, 2016

JESUS BASTA AO MEU CORAÇÃO

Como Santa Teresa de Ávila...



Com o aumento da dor e tentar esconder as minhas lágrimas pensava: se não fosse a graça do Sacramento, não queria junto de mim um sacerdote; queria-me abandonada, como de verdade eu me sinto. Queria dizer aos meus amigos que fizessem de conta que não existi no mundo; queria esconder-me de todos os olhares. Jesus basta ao meu coração, mesmo a sentir que nada O possuo (S. 31-01-1947).

OS MEUS LOUCOS DESVARIOS

Quando a Alexandrina representa a humanidade pecadora…


Quando me parecia pecar tão sacrilegamente, via que todo o meu ser era inferno, e que não podia dar nem um único passo à frente, porque logo ficava sepultada em horrorosos tormentos e fogo. Foi quando escorreguei e fui salva só pelos braços e não sei por quem. Fiquei fora, mas tanto à beirinha que ao mais pequenino movimento voltava a cair.
Sem pensar nisso, sem nenhum temor, continuei na mesma vida leviana e criminosa. Se por um lado sentia uma dor infinita, por outro revoltava-me contra essa dor e tentava aumentá-la ainda mais, com os meus loucos desvarios. Jesus fora do meu coração, perseguido por mim, que Lhe renovava toda a Paixão e Morte, chorava, e fitando-me com os Seus olhares terníssimos, mas o mais doloroso que se possa imaginar, bradou-me :

― Ainda não estás satisfeita? Não acabas de Me ofender? Pensa quanto te amei, quanto sofri por ti e para a missão que te escolhi. (S. 04-04-1952)

ALEXANDRINA FICOU VOLTADA P'RA LÁ...

Testemunho de um Bispo

S. Ex.cia R.ma D. António Dias
Bispo de Portalegre-Castelo Branco
Multidões chegam a Balazar, de perto e de longe, com dores no corpo, com feridas na alma. Nesse lugar, a crescer como grande centro da Reconciliação e da Eucaristia, ecoa o mistério de Deus e a grandeza dos simples a incutir esperança, a ensinar a grandeza da vida e o valor da cruz que converte, liberta e salva. Alexandrina de Balazar é “fruto maduro da graça e da liberdade”, é “dom de Cristo à sua Igreja e ao mundo”. É uma página viva do Evangelho que é preciso ler, reler, voltar a ler e ler outra vez. Ela descobriu o amor de Deus por si própria e pelos outros. Soube associar-se à Paixão de Cristo pela salvação do mundo. Presa na sua cama, torturada pelo sofrimento, tornou-se uma missionária apaixonada e eficiente de Cristo. A todos recebia e desafiava à santidade. A todos falava de Deus e apelava à conversão. A todos recomendava um amor concreto à Eucaristia, fonte da sua coragem e alimento da sua fé apostólica. A todos deixou um património imenso de orações a demonstrar o seu grande amor aos Sacrários de todo o mundo, sobretudo aos mais esquecidos e abandonados. Tinha um coração agradecido, cheio de amor simples, comprometido com a sorte dos outros, um amor abrangente e universal.
“Dou-vos graças, Eterno Pai, por haverdes deixado a Jesus no Santíssimo Sacramento”, rezava ela. “A minha loucura é a Eucaristia” e “eu queria que o meu coração fosse uma lâmpada sempre a arder em cada um dos vossos sacrários”. “Quanto mais doloroso é o meu martírio, mais eu Lhe quero e mais reconheço a minha miséria e o meu nada … como poderia resistir a tanto, se não fosse Jesus a sofrer, a lutar e a vencer em mim?”

“Ó meu Jesus, eu quero em cada dor que sentir, cada palpitação do meu coração, cada vez que respirar, cada segundo das horas que passar, sejam actos de amor para os Vossos Sacrários.
Eu quero que cada movimento dos meus pés, das minhas mãos, dos meus lábios, da minha língua, cada vez que abrir os meus olhos ou fechar, cada lágrima, cada sorriso, cada alegria, cada tristeza, cada tribulação, cada distracção, contrariedades ou desgostos, sejam actos de amor para os Vossos Sacrários.
Eu quero que cada letra das orações que reze, ou oiça rezar, cada palavra que pronuncie ou oiça prenunciar, que leia ou oiça ler, que escreva ou veja escrever, que conte ou oiça contar, sejam actos de amor para com os Vossos Sacrários.
Eu quero que cada beijinho que vos der, nas Vossas imagens, nas da Vossa e minha querida Mãezinha, nos Vossos santos e santas, sejam actos de amor para com os Vossos Sacrários.
Ó Jesus, eu quero que cada gotinha de chuva que cai do céu para a terra, toda a água que o mundo encerra, oferecida às gotas, todas as areias do mar e tudo o que o mar contém, sejam actos de amor para os Vossos Sacrários.
Eu Vos ofereço as folhas das árvores, todos os frutos que elas possam ter, as florezinhas oferecidas folhinha a folhinha (pétalas), todos os grãozinhos de sementes e cereais que possa haver no mundo, e tudo o que contém os jardins, campos, prados e montes, ofereço tudo como actos de amor para os Vossos Sacrários.
Ó Jesus, eu Vos ofereço as penas das avezinhas, o gorjeio das mesmas, os pêlos e as vozes de todos os animais, como actos de amor para os Vossos Sacrários.
Ó Jesus, eu Vos ofereço o dia e anoite, o calor e o frio, o vento, a neve, a lua, o luar, o sol, a escuridão, as estrelas do firmamento, o meu dormir, o meu sonhar, como actos de amor para os Vossos Sacrários.
Ó Jesus, eu Vos ofereço tudo o que o mundo encerra, todas as grandezas, riquezas e tesouros do mundo, tudo quanto se passar em mim, tudo quanto tenho o costume de oferecer-vos, tudo quanto se possa imaginar, como actos de amor para os Vossos Sacrários.
Ó Jesus, aceitai o céu, a terra e o mar, tudo, tudo quanto neles se encerra, como se esse “tudo” fosse meu e de tudo pudesse dispor e oferecer-Vos como actos de amor para os Vossos Sacrários”.

Treze anos antes de morrer, escrevia:
“Desejo ser sepultada, se for possível, com o rosto voltado para o sacrário da nossa igreja; pois como em vida sempre desejei unir-me a Jesus sacramentado e olhar para o sagrado Tabernáculo, assim também depois da minha morte desejo continuar a velá-lo, conservando-me voltada para ele. Sei que com os olhos do meu corpo já não verei a Jesus, mas desejo ser colocada naquela posição, para demonstrar o amor que sinto pela sagrada Eucaristia”.

Como seria belo se os Sacrários das nossas igrejas e capelas fossem o centro da vida familiar e das comunidades cristãs, donde tudo partisse, para onde tudo convergisse!

António Dias, Bispo de Portalegre e Castelo Branco.