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terça-feira, junho 08, 2021

JESUS NÃO PODE MAIS

Bendita seja a minha cruz!


Pensava hoje amar tanto, tanto, o meu Jesus! Pedi-Lhe no dia do Seu Divino Coração todo o Seu amor até me perder nele. E não fui capaz de O amar e nada soube dizer-Lhe. Esperava até, ao recebê-Lo, ouvir d’Ele umas palavrinhas, mas nada ouvi. Fiz a preparação friamente, recebi-O como a um estranho, não sei falar-Lhe. Pedi-Lhe amor, mas, não sei como, não tinha nada de meu para receber e depositar esse amor. Sofro por ditar os sentimentos da minha alma e sofro por não os saber ditar. Bendita seja a minha cruz! Hoje sofro como nunca sofri. Logo após a comunhão, levantou-se em mim um mundo de tantas maldades, de tantos crimes. Pareceu-me que me abriram o peito, subiram tão alto, chegaram ao céu, feriram o Coração de Jesus. Estas maldades, que atingiram a maior altura, caem por todos os lados, encobrem o mundo, tiram-lhe a vida. E, assim, tenho passado as horas com o peito aberto, o coração ferido sem nada poder fazer. Jesus não pode mais. (Alexandrina Maria da Costa: 08-06-1945)

quarta-feira, maio 12, 2021

COMO UMA LÂMPADA AMORTECIDA

Tal é hoje o estado do meu coração


Hoje a vida divina do meu coração comparo-a a uma lâmpada amortecida que a cada momento parece apagar-se. Já não nasce o sangue senão de longe a longe uma gota, que já mal se pode beber. Eu hoje dizia a Nosso Senhor assim:

— Meu Jesus, Mãezinha, vede a aridez da minha alma, vede o abandono que ela sente do Céu e da terra. Lançai sobre mim vossos divinos olhares de compaixão. Acudi-me, acudi-me, não me deixeis morrer de susto no meio das trevas. A minha alma está tímida com os assaltos do demónio. Quer acusar-me e lançar-me ao rosto tudo o que há de pior, apresentando-me a minha vida inteira cheia de enganos.

Jesus não me deixa por muito tempo combater as dúvidas, mas ele enraivecido enche-me de pavor. Se eu pudesse ter um sacerdote sempre junto de mim! É o meu Paizinho quem eu quero, pois foi esse que Jesus me prometeu e que os homens me tiraram.

As aves sínto-as já nos pés, mas como que aborrecidas por não encontrarem que comer. Vão mexendo e remexendo as poucas cinzas que me restam. Ai, o dia mais feliz da minha vida é o dia da minha morte! (Alexandrina Maria da Costa: 12 de Maio de 1942)

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

A ESPERANÇA DA ALEXANDRINA


Depois de vos ter falado da fé inquebrantável da Alexandrina, vou hoje falar-vos doutra das suas virtudes: a esperança.
Começarei por afirmar que aquela frase de S. Paulo na sua carta aos romanos lhe assenta perfeitamente bem: «esperar contra toda a esperança» (Rm. 4:18).
A esperança era, na Alexandrina, uma virtude inata, porque a sua confiança em Deus era total.
No documento utilizado para a sua beatificação – Posições e artigos – podemos ler, no artigo 40 o que segue:
«A Alexandrina orientou a sua vida, desde pequena, para Nosso Senhor. Cedo sentiu uma atracção extraordinária para o Céu. As belezas naturais despertavam nela e aumentavam as ânsias do Paraíso. Viveu no desejo de se unir para sempre a Nosso Senhor, mas, conformada com a vontade d’Ele, renunciou a pedir o Céu para que essa vontade divina se cumprisse da maneira mais perfeita.»
No artigo seguinte podemos ainda ler esta afirmação que não sofre qualquer sombra de dúvida:
«Tinha a certeza do Céu, mas agiu no santo temor de Deus, com prudência e generosidade, para corresponder às graças, receosa de não dar tudo a Nosso Senhor. Por isso, pedia auxílio a Nossa Senhora e aos Santos, e recomendava-se às orações de todos.»
“Ter a certeza do Céu” é algo de muito bom para qualquer alma, mas para ter essa certeza é necessária uma outra virtude que também era natural na Alexandrina: a humildade, como é demonstrado no artigo 43 do mesmo documento:
«Tinha consciência da sua miséria e pobreza espiritual, mas mais ainda da misericórdia de Deus. Mesmo a pessoas manchadas de grandes culpas, falava da bondade e misericórdia do Senhor com tanta eficácia e força persuasiva que dissipava qualquer temor e desalento. A muitos deixou a impressão de que incarnava a misericórdia de Deus.»
Era esta humildade que fazia vergar os corações mais duros, mais empedernidos e os levava a Deus, porque sentiam nela a paz e o amor de Deus. Daí esta afirmação importante no artigo 43 do documento citado:
«Abandonava-se completamente à Divina Providência e aconselhava os outros a fazerem o mesmo. Foram inúmeras as pessoas que, por essa confiança que sabia infundir, lhe abriram os segredos mais íntimos da sua alma, como se fora a um sacerdote.»
E ainda:
«A confiança ilimitada que tinha em Deus manteve-a sempre em paz; mesmo no meio das mais tremendas provações soube calar-se sem nunca se queixar com as criaturas. Foi esta confiança que a inspirou e ajudou a dar força e resignação aos seus [entes] queridos.»
No que a Igreja chama de “Comunhão dos Santos”, a Alexandrina sempre teve uma acção importante, como podemos ver:
«Tinha a máxima confiança na oração a que unia sempre sofrimentos e esmolas para obter graças. Nunca fez presentes a Deus os seus merecimentos, mas confiava na bondade, providência e misericórdia do Senhor, como também nas orações dos outros. A Ele oferecia os merecimentos da Paixão de Jesus, da Mãe do Céu e dos Santos, juntamente com o fruto das Missas que se celebravam no mundo.»
Como é sabido de todos, ela sofreu muito e tudo ofereceu para o bem das almas, mesmo quando atravessou momentos de grandes dificuldades materiais e espirituais, mas a sua esperança nunca se alterou, como fica dito a seguir:
«Viveu vários anos — porventura os mais difíceis — sem um guia espiritual, e teve que exercitar-se de uma maneira heróica na virtude da esperança. De igual heroísmo deu mostras por causa do abandono e incompreensão das criaturas, não se deixando cair no desconforto.»
Como ela, permaneçamos sempre confiantes na misericórdia e no amor de Deus: fixemos n’Ele a nossa esperança, porque Deus é “rico em misericórdia” e fiel no seu amor por nós.
Afonso Rocha

quarta-feira, novembro 27, 2019

ALEXANDRINA EXPLICA...


Meu Paizinho,
Então, quer Vossa Reverência que eu lhe diga quando foi que senti mais vivamente Nosso Senhor? Estou pronta a fazê-lo o melhor que souber. Esta união íntima com Nosso Senhor comecei-a a sentir poucos dias depois da estadia de Vossa Reverência aqui, por ocasião do tríduo em Rates. Foi pouco mais ou menos a 5 de Setembro do corrente ano. Desse tempo até agora tenho tido dias de O sentir mais vivamente do que na ocasião em que o senti pela primeira vez. As carícias que Nosso Senhor me faz são assim: para falar a verdade, eu mal sei explicar o que sinto, quando Nosso Senhor me fala. Parece-me que sinto qualquer coisa que me passa pela cara, mas não são mãos. Além disto, parece que me abraçam, falando-me docemente. Como Vossa Reverência já sabe, pelo que lhe tenho dito, já, durante o inverno do ano passado, eu senti Nosso Senhor, embora não desse nenhuma importância porque ignorava tudo isto. Foi por isso que, na ocasião do nosso tríduo, não falei nisso a Vossa Reverência. Se o apanhava cá hoje, muito teria que lhe dizer! Assim, vou dizendo o que puder, por escrito.
Já fez quinze dias, na quinta-feira passada, que não tornei a ouvir a voz de Nosso Senhor. Penso que não seria por coisa muito grave que eu fizesse a Nosso Senhor. Mas, bem sabe que eu não sou mais que miséria; tenho-me resignado o mais que tenho podido; não digo que não tenho momentos de desânimo, mas confio em Nosso Senhor, que há-de tornar a falar a esta miserável pecadora, porque Ele não pode faltar àquilo que promete. Senti-Lo, parece-me que já algumas vezes o tenho sentido, mas falar não; espero até quando for da Sua S.S. Vontade. Nessa mesma quinta-feira, dia 8, das quatro às cinco horas da tarde, mesmo sem estar a rezar, senti um calor enorme, parecia-me que me abraçavam e depois ouvi dizer assim:
— Minha filha, és um trono adornado com o teu Jesus, com o teu esposo, com a S.S. Trindade, sim como o Padre, o Filho e o Espírito Santo. Que beleza a da tua alma! Escolhi-te para tão alto cargo.
Assim como Ele me adornava a minha alma, queria que eu adornasse os sacrários com o meu amor, com as minhas orações e com a minha presença de espírito.
— Pede-me pelos pecadores: Eu preso e tão desprezado. Eu preso e tão ofendido e tão horrorosamente escarnecido. Sabes o que tem valido a esses infelizes, são as almas que eu escolhi para reparar. Se não fosse isso, onde estavam esses desgraçados. Desgraçados, sim, pois se não se convertem são condenados eternamente.
Prometeu-me Nosso Senhor que me voltaria a falar naquela noite, e assim foi: das 10 às 11 horas da noite. Parecia-me sentir os efeitos de Nosso Senhor em minha alma mas não ouvia a Sua Divina Voz. Pensava que ficaria só assim e que eu nem tanto merecia, mas sempre me lembrava que se fizesse a Vontade de Nosso Senhor. Mas principiei por ouvir que me falavam, mas parecia-me que era uma coisa diferente, mais forte do que o costume, e dizia-me:
— Nem te fala, nem te tem falado, nem te falará; andas a enganar o teu director.
Tomei água benta e disse como costumo fazer em casos semelhantes: Ó meu Jesus eu não vos quero ofender e formo minha intenção de ser por não duvidar nem por dizer coisas que assim não sejam. E então falou-me Nosso Senhor:
— E queres consolar-me? E queres consolar o Santificador da tua alma? Sabes quem é? É o teu Jesus, anda para os meus sacrários. Anda passar algumas horas da noite à sombra dos meus sacrários. Passarão como a voar, anda praticar uma obra de misericórdia. Anda consolar os tristes. Estou tão triste! Sou tão ofendido. Anda para o teu cargo, sofrer, amar e reparar!
Depois um forte calor me abrasava e dizia-me Nosso Senhor:
— Estou contigo, sou o teu Jesus, o tudo da tua alma.
E disse-me que o demónio estava raivoso mas que o não deixaria vencer-me.
Tenho dias em que o demónio me consome muito, trazendo-me à cabeça coisas tão fracas e tantas e tantas dúvidas, que, se não fosse a muita bondade de Nosso Senhor, e quem sabe, as orações de Vossa Reverência já ele me teria vencido.
Cá tenho pedido muito pelos pecadores que Vossa Reverência me tinha recomendado e, agora mais particularmente, por esse que me disse que vive em muito perigo de pecar. Por ele, tenho oferecido muitos dos meus sofrimentos, apesar de ser muito indigna de receber favores de Nosso Senhor.
Adeus, por hoje. Por caridade, não me esqueça junto de Nosso Senhor, que eu, também, todos os dias me ofereço a Nosso Senhor para que Vossa Reverência participe em todos os meus sofrimentos e orações. Muitos cumprimentos da minha mãe, da Deolinda e da Dª Conceiçãozinha.
Alexandrina Maria da Costa.

terça-feira, novembro 19, 2019

PADRE MARIANO PINHO


Na última emissão falei-vos do primeiro encontro da Alexandrina com o seu primeiro director espiritual, o Padre Mariano Pinho, jesuíta.
Por ter sido na vida dela uma personagem importante e marcante, penso ser útil falar-vos um pouco dele.
A curta biografia que vou ler é da autoria do Padre Fernando Leite, meu amigo, agora falecido e que a meu pedido a escreveu par o Site da Beata Alexandrina Maria da Costa, do qual sou Webmaster há mais de 20 anos.
***
Padre Mariano Pinho nasceu no Porto a 16 de Janeiro de 1894. Entrou na Companhia de Jesus a 7 de Dezembro de 1910. Não sendo ainda sacerdote, os superiores destinaram-no ao Brasil onde, no Colégio António Vieira, Baía, leccionou e fundou a revista Legionário das Missões.
Regressado a Portugal, em 1923, partiu para Innsbruck, na Áustria, onde estudou Teologia e graduando-se depois na Universidade de Comillas, Espanha.
Na sua Pátria foi notável conferencista, pregador e Promotor incansável das Congregações Marianas e Cruzada Eucarística, exercendo ao mesmo tempo o cargo de Director dos seus órgãos de comunicação.
Em 1933 teve o seu primeiro encontro com a Alexandrina Maria da Costa, a carismática de Balasar. No ano seguinte começou a direcção espiritual, tendo-lhe o Senhor dito: «Obedece em tudo ao teu pai espiritual. Não foste tu que o escolheste; fui eu que to mandei». Exerceu este cargo até 1942.
Tendo recebido a Alexandrina o encargo de pedir ao Papa a Consagração do mundo ao Coração de Maria, o Padre Pinho prestou-lhe a melhor colaboração.
Em 1938 pregou o Retiro ao Episcopado Português. Por sua sugestão os nossos Bispos dirigiram uma súplica colectiva ao Papa Pio XI, em ordem à consagração.
Endereçou mais duas missivas do mesmo teor ao Secretário de Estado do Papa, o Cardeal Eugénio Paccelli. A 2 de Março de 1939, foi eleito Papa, assumindo o nome de Pio XII. Dezoito dias depois a 20 de Março de 1939, o Senhor comunica à sua confidente: «Será este o Papa que fará a Consagração. O Papa de coração de oiro, está resolvido a consagrar o mundo ao Coração de Maria… Todo o mundo pertence ao Coração Divino de Jesus; todo o mundo vai pertencer ao Coração Imaculado de Maria».
Efectivamente, a 31 de Outubro de 1942, Pio XII, dirigindo-se a Portugal e falando em português, fez esta consagração, que renovou a 8 de Dezembro seguinte, na Basílica de São Pedro.
Devido a uma série de calúnias e informações maldosas, a 1 de Outubro de 1942, o Padre Mariano Pinho recebe uma ordem terminante do seu Superior de cortar toda a relação com a Alexandrina «directa ou indirecta, pessoal ou escrita». Com um intuito punitivo, foi mandado para um Seminário menor da Companhia de Jesus. O seu Superior assim escreveu à Santa Sé: «Sofreu, como os santos, as piores calúnias e tribulações, sem um lamento e sem quebra da sua alegria espiritual». E o Cardeal Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, assim o qualificou: «Era um santo!».
Para poder exercer doravante o apostolado, em Fevereiro de 1946, voltou para o Brasil, onde continuou a sua actividade espiritual.
Faleceu no Recife a 11 de Julho de 1963.
Afonso Rocha

terça-feira, novembro 12, 2019

PRESENTES E PROMESSAS À ESPOSA FIEL


Os caminhos de Deus são para nós imensos, ocultos no mistério. É talvez a prova mais dolorosa da vida: caminhar para o ignoto. É por isso que a Providência pôs em nós a esperança como sustentáculo da nossa vida; por isso é que Jesus nos fez as suas promessas e com elas não se cansa de nos mostrar o Céu, objecto da virtude da esperança.
Quanto mais a alma lhe é fiel, tanto mais cativantes e frequentes são as suas promessas de prémios e de privilégios e tanto mais próximo lhe mostra o Céu, ainda que, para exercitá-la e aperfeiçoá-la na fé ― fundamento da salvação ― lhe reserve aquelas dolorosíssimas provas divinas, cheias de trevas e dúvidas, que os místicos nos descrevem. Deste modo, aumenta-lhes o mérito e torna fecunda a sua missão.
Das maravilhosas graças pessoais com que o Senhor a enriqueceu, a Alexandrina fala ao Director nos seguintes termos: “Jesus disse-me que a minha peregrinação na terra, não seria longa, mas que grandes coisas me esperam” (27-9-1934), “... que me está modelando e preparando para coisas mais sublimes” (11-10-1934), “... que quer continuar em mim a Sua obra, que não quer parar aqui, que quer o acabamento” (1-11-1934).
Com simplicidade trepidante, pergunta a quem guia a sua alma: “Que acabamento será ainda? Pergunto a si, porque Jesus me disse que lhe dissesse tudo” (1-11-1934).
E em outro lugar, a Alexandrina revela as tarefas que o seu Esposo lhe confia: “Que sublime missão escolhi para ti!” (21-11-1938).
“Escolhi-te também para a felicidade de muitas almas” (4-10-1934). “Escreve que Eu quero que se pregue a devoção ao sacrários; quero que se acenda nas almas a devoção  para com estas prisões de amor; não fiquei aqui somente por amor daqueles que Me aman, mas por todos; em todo o trabalho Me podem consolar; que seja bem pregada e bem propagada a devoção aos sacrários porque são tantos aqueles que, embora entrando nas igrejas, nem sequer me sáudam e não paaram um momento a adorar-Me” (1-11-1934).
Eu quereria muitos guardas fiéis, prostrados diante dos sacrários, para impedirem tantos e tantos crimes” (1-11-1934).
Que abundância de messes para as alas que ajudan o Senhor na salvação da humanidade! Jesus promete-o à Alexandrina: “Por meio de ti, muitos serão salvos, muitos, muitos pecadores; não pelos teus méritos, mas por Mim, que procuro todos os meios para salvá-los” (20-12-1934).
Promessas reais sustentarão sempre, na dura cruz, a alma generosa que tudo deu a Jesus.
A Alexandrina, por obediência e com uma certa admiração do seu espírito, escreve ao Director: “Jesus disse-me que os meus sofrimentos e a minha reparação eram pérolas preciosas que iam concluir a minha coroa no Céu, mas que só seria terminada quando terminasse a minha vida na terra. Disse-me também que me queria no Céu, mas que precisava de mim na terra” (3-1-1935). Cada vez que me oferecia aos sacrários, me eram aumentados muitos graus de glória no Céu; e, quando eu Lhe pedia o aumento do Seu divino amor, me era embelezada, de dia para dia, a minha coroa no Céu, e que era Ele mesmo quem ma preparava” (14-9-1934), “... que se eu soubesse a glória que me foi preparada no Céu, morreria de admiração”.
“A tua coroa é mais rica que todas as pérolas preciosas do mundo. Está adornada com os teus sofrimentos e com as almas dos pecadores que salvaste. Está preparado um lugar muito alto para ti” (20-12-1934).
Mas o Céu mais belo, a promessa mais querida, a missão mais ambicionada por estas almas sedentas de amor, de sofrimentos, de almas, é a certeza que o Senhor lhes dá, depois de Lha pedirem com ânsias indizíveis: de poderem continuar também lá em cima o seu trabalho de salvação e de bem.
É impossível dizer quanto a Alexandrina tenha alcançado do Coração do seu Amado, com o seu heroísmo de imolação.
Recolhamos uma parte mínima destes poderes que Jesus lhe transmitiu: “Sobre aqueles que te são queridos e sobre quantos invocarem o teu auxílio, deixarei que tu mandes uma chuva de pedras preciosas. Dar-te-ei tudo aquilo que me pedires... Aquilo que serás no Céu, perto de Mim, Eu o sei, e a seu tempo, também tu o verás” (21-11-1938).
“Minha filha, anjo belo, pérola esplendorosa, estrela fulgurante que fazes brilhar toda a coroa do teu Esposo, dize ao teu Director que Eu quero que ele conheça bem o amor com que tu Me amas, para fazê-lo conhecer ao mundo, porque é de muita glória para Mim e proveito para as almas” (14-3-1938).
“Ele (Jesus) disse-me que sou um canal por onde hão-de passar as graças que eu hei-de distribuir às almas, e pelo qual hão-de ir as almas a Ele” (4-10-1934).
(Padre Humberto Maria Pasquale:
“Alexandrina”; cap. 4)

A SANTA MISSA NO HUMILDE QUARTINHO


Havia já algum tempo que a Alexandrina sonhava, com os olhos abertos, ter a Santa Missa no seu humilde quartinho. Parecia-lhe uma coisa tão grande e tão difícil de obter, que nunca ousou falar nela a ninguém. Mas, em 1933, ainda antes de conhecer pessoalmente o seu Director, sabendo que ele iria lá para uma pregação, manifestou à Deolinda este vivo desejo.
Combinaram fazer essa pergunta ao bom Religioso mas, no momento próprio, por timidez e para evitar que ele pregasse em jejum, não lhe falaram no assunto.
Foi o Padre que, numa carta, em Outubro, perguntou à Alexandrina se gostaria de assistir à Santa Missa. A resposta não tardou, mas de uma forma muito delicada: “Se é coisa que se possa alcançar, seria para mim uma alegria que nem posso exprimir, embora me custe muito o grande sacrifício que V. Rev.a teria de fazer para vir em jejum, com madrugadas tão rigorosas...”
A 2 de Novembro, teve a grande graça da Santa Missa no seu quarto pobrezinho. Este bem não durou sempre, muito pelo contrário... e foi precisamente uma das privações com que a Providência quis prová-la, e que muito fez sofrer. Quando muito mais tarde a obteve novamente, embora com intervalos, não lhe deu mais aquela alegria sensível dos primeiros tempos: desejada em ânsias torturantes, assistirá a ela nas mais espessas e profundas trevas do espírito.
Já aquela primeira Missa assinalara um ponto doloroso da sua ascensão espiritual. Sem saber o futuro que a aguarda, e ao qual se entrega generosamente, assim comenta aquele grande privilégio: “O Senhor começou desde aquele dia a aumentar as suas ternuras, para aumentar ao mesmo tempo o peso da minha cruz. Seja bendita a Graça que, por sua bondade, nunca me faltou”.
De facto, foi desde então que o Senhor a provou com a perda dos bens materiais e com novas dores do espírito.
Que teria ela feito sem a lição da Missa?
Mas, foi precisamente sobre o altar da Vítima augusta que se enxertou e floresceu esta nova imolação do Calvário de Balasar.
Padre Humberto Pasquale: “Alexandrina”; cap. 4.

quarta-feira, outubro 30, 2019

OFERECI-ME A NOSSO SENHOR


Terminei a última emissão afirmando que “uma nova Alexandrina vai nascer (…), uma Alexandrina que em breve se vai oferecer ao Senhor e tornar-se uma alma-vítima, uma santa de Deus”.
Será pois desse oferecimento a Deus que hoje irei falar, por ser um acto também heróico que vai transformar toda a vida dela e torná-la simplesmente uma vida de oração e de doação contínua.
Alguns anos depois do salto pela janela, a Alexandrina em 24 de Abril de 1924, acamou para sempre. Tinha então 20 anos.
Nos primeiros tempos jogava às cartas com as amigas e assim ocupava os seus longos momentos do dia. Chegou também a fazer novenas, com sua mãe e com a irmã, para obter a sua cura, mas estas preces, à primeira vista, de nada serviram e ela continuou sofrendo no seu leito.
Mas esta situação vai mudar: Deus vai tocar mais fortemente o seu coração juvenil e inspirar-lhe o que deve fazer.
Na sua autobiografia ela explica:
– Sem saber como, ofereci-me a Nosso Senhor como vítima.
Esta confissão que parece ingénua é na verdade um acto heróico, maior do que se atirar pela janela, maior do que qualquer outra promessa em caso de cura.
A Alexandrina diz que “vinha, desde há muito tempo, a pedir o amor ao sofrimento”, constata que “Nosso Senhor concedeu-lhe tanto, tanto esta graça que hoje não trocaria a dor por tudo quanto há no mundo.”
Mais ainda, ela confessa que “com este amor à dor, toda me consolava em oferecer a Jesus todos os meus sofrimentos” porque “a consolação de Jesus e a salvação das almas era o que mais me preocupava.”
Amar o sofrimento pelo que ele é, chama-se a isso masoquismo, mas amar o sofrimento para o oferecer pela salvação das almas é heroísmo, é amar o próximo e desejar ardentemente a sua salvação eterna.
“Com a perda das forças físicas, fui deixando todas as distracções do mundo e, com o amor que tinha à oração – porque só a orar me sentia bem – habituei-me a viver em união íntima com Nosso Senhor.
Que transformação!
A partir de então, tudo muda para ela, como ela mesma o explica:
“Quando recebia visitas que me distraíam um pouco, ficava toda desgostosa e triste por não me ter lembrado de Jesus durante esse tempo.”
Neste enleio com Jesus e Maria, o tempo vai passando.
Alguns anos mais tarde, em 1928, a paróquia de Balar organiza uma peregrinação a Fátima. A Alexandrina tem de novo o desejo de cura e pede para ir a Fátima, mas o Pároco e o médico não autorizam a viagem, dado o estado dela.
A consequência desta recusa, é para ela um motivo mais da aceitação da vontade de Deus. Então um pensamento muito particular vem ocupar a sua mente:
“Jesus está prisioneiro no Tabernáculo; também eu sou prisioneira”.
E esta curta oração vinha naturalmente aos seus lábios, ditada pelo seu nobre coração:
«Amo-Vos, Jesus, de todo o meu coração. Compadecei-Vos desta pobre doentinha e levai-a para Vós quando for da Vossa vontade. Sim, amado Jesus? Nunca Vos esqueçais de mim, que sou uma grande pecadora.»
Na próxima emissão falarei do seu amor aos sacários e da oração que ela compôs para eles…
Afonso Rocha

sexta-feira, outubro 25, 2019

UM MAU PATRÃO


O mal vem algumas vezes de onde menos se espera!


Como anteriormente disse, a Alexandrina começou a trabalhar muito cedo nos campos, para ganhar o pão de cada dia.

Eis como ela o conta:
Minha mãe pôs-me a servir em casa de um vizinho, mas, ao ajustar-me, tirou certas condições, como: confessar-me todos os meses, passar as tardes dos domingos em casa, para ir à igreja e estar sob o domínio dela, não andar de noite, etc. A combinação foi de cinco anos, mas não estive até ao fim.
Este patrão era um verdadeiro carrasco… pior do que isso era um homem porco e nojento que nada respeitava. Era um homem no género daqueles que no Norte dizem só gostar de “prostitutas e vinho verde”.
A sua malvadez levava-o a fazer trabalhar a jovem mais do que permitiam as suas forças e não hesitava em chamar-lhe nomes feios, a humilha-lha publicamente. A Alexandrina escreveu na sua Autobiografia que “tinha mau génio e pouca paciência e que mesmo os animais tinham medo dele porque lhes batia e era quase impossível juntar o gado quando ele estava presente”.
Alexandrina não se sentia bem com este ambiente difícil e sentia-se triste naquele trabalho, como ela mesma o escreveu.
Um dia fui à azenha levar a fornada, mas era já noitinha quando lá cheguei e, portanto, muito tarde quando regressei a casa, pois gastava no caminho uma hora. Depois que cheguei a casa, ralhou-me muito, insultou-me e até me chamou ladra. O pai dele, homem velhinho, revoltou-se contra ele, defendeu-me, dizendo que eu não tinha tido tempo para mais.
Mas o pior estava para acontecer. A Alexandrina descreve assim este caso particular e quase incrível:
Uma vez estive das dez horas da noite às quatro da manhã na Póvoa de Varzim a tomar conta de quatro juntas de bois, porque o patrão e um seu amigo ausentaram-se de mim; e eu, cheia de medo, lá passei aquelas horas tristíssimas da noite. Enquanto vigiava o gado, ia contemplando as estrelas que brilhavam muito e serviam de minhas companheiras.
Aqueles dois homens, deixando a pobre moça, alta noite já, foram para as casas de vício que nesse tempo existiam, satisfazer os seus baixos instintos, preocupando-se pouco com o poderia ter acontecido aquela jovem.
Esta foi portanto a gota que fez transbordar o vaso.
A Alexandrina queixou-se à mãe que, depois de se ter informado da realidade dos factos retirou a filha daquela triste casa e daquele trabalho de escravagem.
Minha mãe — conta a Alexandrina —, vendo que ele não cumpria o contrato, tirou-me de servir.
Este homem e dois outros vão voltar à vida da Alexandrina, alguns anos mais tarde e serão os causadores da sua enfermidade na coluna vertebral. Mais tarde ainda, ele voltará ao ataque, mas desta vez será Nossa Senhora que protegerá a Alexandrina duma maneira quase visível, o que vos contarei numa das próximas emissões.
Afonso Rocha

segunda-feira, outubro 21, 2019

PRIMEIRA COMUNHÃO E CRISMA


A beata Alexandrina na Rádio “Voz dos Açores”

Amigos auditores bom dia, boa tarde ou boa noite conforme a hora em que sintonizam esta emissão.
Na última falei-vos da meninice da Alexandrina, das suas marotices…
Mas algo mais – e de grande importância – se passou em 1911, durante a sua estadia na Póvoa de Varzim: a sua Primeira Comunhão e a Confirmação, das quais ela nos fala nestes termos:

PRIMEIRA COMUNHÃO

Padre Alvaro de Matos que deu a Primeira Comunhão à Alexandria
– Foi na Póvoa de Varzim que fiz a minha Primeira Comunhão, com sete anos de idade. Foi o Senhor P.e Álvaro Matos quem me perguntou a doutrina, me confessou e me deu pela primeira vez a Sagrada Comunhão. Quando comunguei, estava de joelhos, apesar de pequenina, e fitei a Sagrada Hóstia que ia receber de tal maneira que me ficou tão gravada na alma, parecendo-me unir a Jesus para nunca mais me separar d’Ele. Parece que me prendeu o coração.
***

CONFIRMAÇÃO

O Sacramento da confirmação ela o recebeu na então pequena cidade de Vila do Conde, distante de 3 km da Póvoa. Ela conta: 
– Foi em Vila do Conde onde recebi o Sacramento da Confirmação, ministrado pelo Senhor Bispo do Porto – Dom António Barbosa Leão.
Lembro-me muito bem desta cerimónia e recebi-a com toda a consolação. No momento em que fui crismada, não sei o que senti em mim; pareceu-me ser uma graça sobrenatural que me transformou e me uniu cada vez mais a Nosso Senhor.
Pouco depois, como já dito, as duas irmãs voltaram para Balasar.
A Deolinda começou a tirar o curso de costureira e a Alexandrina começou a trabalhar nos campos.
Mas a religião e a caridade continuavam a ocupar naquela família um lugar de honra, orquestradas pela Maria Ana, mãe daquelas meninas.
Por volta dos nove anos, já a Alexandrina sabia meditar ao observar as obras do Criador. Ouçamo-la:
– Pelos nove anos, quando me levantava cedo para ir trabalhar nos campos e quando me encontrava sozinha, punha-me a contemplar a natureza. O romper da aurora, o nascer do sol, o gorjeio das avezinhas, o murmúrio das águas entravam em mim numa contemplação profunda que quase me esquecia de que vivia no mundo. Chegava a deter os passos e ficava embebida neste pensamento, o poder de Deus!
Mais adiante, na sua Autobiografia diz ainda:
— Quando me encontrava à beira-mar, oh, como me perdia diante daquele grandeza infinita! À noite, ao contemplar o céu e as estrelas, parecia esconder-me mais ainda para admirar as belezas do Criador! Quantas vezes no meu jardinzinho, onde hoje é o meu quarto, fitava o céu, escutando o murmúrio das águas e ia contemplando cada vez mais este abismo das grandezas divinas! Tenho pena de não saber aproveitar tudo para começar nesta idade as minhas meditações.
Mas, já meditava e já guardava no seu coração puro e inocente todos estes olhares profundos sobre a grandeza de Deus e das suas obras.
E assim, entre o trabalho e a oração foi crescendo e aperfeiçoando-se, dia a dia, na espiritualidade que a levará aos cumes da mística e da união a Deus.
Na próxima emissão vos falarei da sua primeira confissão geral: é simplesmente sobrerrealista!
Afonso Rocha

terça-feira, abril 04, 2017

NÃO HÁ UM SOPRO DE VIDA PARA ESTA VIDA

Para mim só a morte existe



Na cruz, sempre na cruz tem sido o meu viver. A cabeça sempre coroada de espinhos, com o sangue das feridas a correr-me pelas faces, deixava-me quase como cega e sufocada, sem poder respirar. O sangue da cabeça banhava-me o corpo e o do coração parecia-me chegar à terra. Ai, quanta dor, tristeza e amargura eu senti no coração e na alma. Custam mais, muito mais estas do que as do corpo. Este sentia o tormento da doença e muitas vezes o apertar dos cravos, o avivar das chagas e feridas. Mas este sofrimento fica muito aquém da dor do coração e agonias da alma. Só a sabedoria do Senhor compreende e pode fazer compreender o que é este martírio. Para o coração, a dor foi infinita e insuportável para as minhas forças. Mas Jesus venceu sempre em mim, embora à custa do meu esforço e luta constante. Não foi a lança, os espinhos e as setas que mais custaram ao meu coração. Foi essa dor que eu chamo infinita, que atinge a terra e o Céu. É como um sopro de ar que penetra todo o ser, atinge tudo, nada há que ela não trespasse. A minha alma tem chorado constantemente; chorou rios, mares infinitos de lágrimas. Ó meu Deus, que ansiedade também infinita eu tenho de fazer compreender a grandiosidade desta dor, os motivos e causas destas lágrimas. Ó Céu, ó Céu, falai vós por mim; a minha ignorância não me deixa. Eu sou um corpo morto sepultado na humanidade morta. Morri na podridão, nas trevas negras da morte e nesta podridão fui sepultada. Fui veneno, sou veneno e veneno continuarei a ser. A minha dor vive, o seu martírio existe, mas só para eu sofrer, mas nada a mim pertence. Rompe a dor por entre esta morte e não sei para onde caminha. Para mim só a morte existe. Sou sempre morte e sempre dou a morte. E todo o bem que eu faço o enveneno e mato e dou chorado ao Senhor. Não digo nada, não me faço compreender porque não sei, meu Jesus. Não tenho forças para sofrer, sinto que as não tenho, mas confio e espero em Jesus e na Mãezinha querida. Meu Deus, não me deixeis morrer esta luz apagada da minha confiança. O fogo do coração continua a ser para mim penoso e doloroso martírio. Ele queima-me, mas é um queimar sem conforto. Mas faz-me ter umas ânsias tão grandes, tão infinitas de amar a Jesus, a Sua lei e tudo o que é d`Ele: de amar a Mãezinha e toda a Santíssima Trindade. Quero só pertencer-Lhe inteiramente, consumir-me desaparecer nesta Divindade! E não tenho nada para Lhe dar, não há um sopro de vida para esta vida. (Sentimentos da alma: 23 de Março de 1951)

sábado, julho 30, 2016

O PARAISO DE JESUS

Tudo o que é de Jesus não cai...


— Transportes de amor, júbilos de alegria, hinos de louvor. Vem Jesus, vem Maria ao ninho dos seus amores, vêm cumprir a sua promessa e reparar a falta da sábado passado.
Não convinha que Jesus falasse naquela prisão dolorosa (*).Hei-lo contente, hei-lo cheio de alegria, com sua bendita Mãe. Está agora no seu sacrário, na sua vivenda contínua na terra.
Foi duro o teu penar, filhinha, foi duro o penar da tua irmãzinha naquela prisão. Avante! Foi por Jesus, foi pela sua glória, foi pela salvação de milhares e milhares de pecadores. Que triunfo para o Coração do teu Jesus, do teu esposo. Hei-lo a ser exaltado, hei-lo a ser glorificado nos seus queridos humilhados. Jesus agradece tão grande glorificação, tão grande triunfo.
Basta, basta agora, minha filha, não sais mais do teu quartinho, do paraíso de Jesus, dos seus encantos na terra. Hei-lo, hei-lo contente e alegre. É Jesus a provar ao teu Paizinho quanto o ama. É Jesus a mostrar ao mundo quanto ama a sua louquinha, quanto por ela tem sido glorificado.
Diz, filha, diz, amor, diz ao teu Paizinho, diz ao teu médico que todas as suas humilhações vão ser exaltadas. Jesus está-lhes agradecido pelo triunfo, pela conquista da sua causa. Os homens tentaram deitá-la por terra, Jesus velou: eles cooperaram. Tudo o que é de Jesus não cai, no meio de todas as tempestades segura-se, brilha, triunfa. Reina Jesus com a sua louquinha.
Triunfa Jesus com os queridos da sua amada. (S. 07-08-1943)
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(*) NOTA : Refere-se Nosso Senhor ao tempo que a Alexandrina passou no Refúgio da Paralisia Infantil, na Foz do Douro, e que a própria descreve em capítulo à parte, na sua Autobiografia.

quinta-feira, outubro 27, 2011

PASSEI QUATRO DIAS SEM O RECEBER...

A minha alma chora e o coração anseia


Passo o dia, vem a noite, e eu vazia, sem nada ter dado a Jesus e sem nada ter para Lhe oferecer. Não posso examinar a minha consciência. Um dia, um mês, um ano e outro ano, sempre a sofrer, e sem ter que dar e sem amar o meu querido Jesus. Que pobreza, que miséria! De cada vez mais vazia, de cada vez mais defeitos. Ó meu Deus, poderei eu dar-Vos menos do que Vos tenho dado? Oh! Não; sei que não, e não tenho mais, não sei mais nem melhor. Ai, pobre de mim, a minha cegueira só me mostra miséria e maldade; e para melhor eu ver esta maldade, sinto-me, por vezes, tão sábia, capaz de enganar toda a gente com a minha sabedoria. Sinto-me até vaidosa por saber e poder enganar toda a gente. Que horror, ó meu Jesus, que horror! Se eu quiser enganar! Se eu pensasse em enganar! Mas nem ao menos isso. É pela graça de Deus que não o penso nem faço. Mas oh! que doloroso martírio, ver e sentir tudo isto em minha alma! Poderei vencer? Poderei passar assim os meus dias, ó meu Jesus? O que seria ou será de mim sem a graça e a protecção do Céu! Sou tão miserável e cheia de defeitos, sou um nada capaz de todas as maldades, sou um nada incapaz de fazer algum bem.
A minha alma chora e o coração anseia, quer só pertencer a Jesus, quer dar-se a Ele, perder-se Nele.
Passei quatro dias sem O receber. Que fome indizível! Que ânsias insuportáveis! Quantas vezes voava em espírito para junto da Eucaristia e Lhe dizia: Jesus, meu Amor, vinde a mim, estou a morrer de fome, desfalece-me a alma e o corpo; vinde, vinde, enchei-me e operai em mim tantas graças como se Vos recebesse Sacramentado. Nestes momentos, ficava a nadar num mar de paz, mas sempre com as mesmas ânsias e fome devoradora. Não sei; sinto que só no Céu posso ser saciada de Jesus; aqui, na terra, por mais que corra e voe para Ele, mais vazia me sinto e mais Ele me foge. Eu já não vivo, de mim ficou a dor, essa é a que eu sinto, mas nem essa agora me pertence. Ah! Se eu amasse ao menos O meu Jesus, e se nunca O ofendesse! Eu não sei, mas sinto que Jesus deve estar muito desgostoso comigo; não Lhe dei, com certeza provas de toda a minha confiança Nele.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 26 de Setembro de 1947 - Sexta-feira)