sábado, setembro 28, 2019

A FAMÍLIA DE COIMBRA


Já aqui vos contei alguns casos que se passaram com a Alexandrina enquanto viva e mesmo um outro acontecido depois da sua morte.
O caso que hoje vos vou contar, o melhor que vos vai contar o Sr. José Ferreira da Silva e Sá, aconteceu enquanto ela vivia.


Este senhor que esteve presente no quarto da Alexandrina a quando do encontro que um cavalheiro de Coimbra, seu amigo, teve com a “Doentinha de Balasar”
Por razes que facilmente, ele não citará nenhum nome, para evitar que alguém descobrisse a identidade do seu amigo a quem ele chamará “cavalheiro”. Eis o testemunho do Sr. José Ferreira sobre esta caso:
— «Um cavalheiro de Coimbra tinha a mãe doente. O pai era negociante, um irmão médico e outro advogado. Quem mo apresentou foi um representante do Banco Pinto & Sotto Mayor, dizendo-me que ele desejava falar com a Alexandrina para obter a cura da mãe.
Como nesse dia tivesse uma reunião com os presidentes das Juntas de Macieira e Gueiral, disse-lhe que esperasse. Mas ele resolveu levar-me de carro a essa reunião, e chegamos a casa da Alexandrina ao anoitecer. Pedi para ser recebido e entrei.
O cavalheiro ficou de pé, comovido até às lágrimas, e não se atreveu a dizer palavra. Eu animei-o, dizendo-lhe:
— A Alexandrina é muito nossa amiga e pedirá a cura da mãe.
Mas a Alexandrina disse:
— Eu nada faço, eu nada valho, eu nada posso!
E, olhando para o cavalheiro e erguendo a voz:
— Quem pode é você. Arrepie caminho. Confesse-se condignamente! E depois comungue, comungue muitas vezes. Consiga que o seu pai, a sua mãe, o seu irmão médico e o outro, advogado, arrepiem caminho. Que se confessem e comunguem!
— Note-se que a Alexandrina não conhecia nem o cavalheiro nem a família!
Quando estiverem em estado de graça, então peçam a Deus e Ele os atenderá. Porque, se o senhor estivesse zangado aqui com o Sr. Sá e lhe quisesse pedir uma dúzia de contos, primeiro fazia as pazes com ele e depois apresentava-lhe o seu pedido.
Não sei dizer a emoção do cavalheiro. Fomos embora. Entrando no carro, ele disse-me:
— Sinto-me outro daquilo que eu era.
Mais tarde, um ano depois, veio cá visitá-la acompanhado pelos dois irmãos. Estiveram em minha casa para me cumprimentarem. Quando os dois irmãos entraram no carro, ele disse-me:
— Eu, em facto de religião, era assim, assim. Mas os meus irmãos eram ateus, e hoje são religiosos quase fanáticos. Também a mãe já cá veio agradecer a cura».
Aqui termina este testemunho que prova, se necessário fosse, o poder de intercessão da Beata Alexandrina junto do Coração de Deus, que ela tanto amou e ama ainda mais, como se pode imaginar.
Casos como este aconteceram muitos e, ela mesma conta um deles na sua autobiografia e em cartas escritas ao seu primeiro director espiritual, o Padre Mariano Pinho.
Era assim que, junto do leito da Alexandrina, por tantos anos vítima dos pecadores, se cumpriam as palavras que Jesus lhe disse em 30 de Abril de 1954: «Nenhuma alma sai daqui como entrou. Quantas ressurreições!»
Já em 15 de Junho de 1945, Jesus tinha dito à Alexandrina:
— «Minha filha, quando me pedires para as almas a graça da conversão ou do meu divino amor, vencerás o meu Coração. Tomarei o teu pedido, como se fosse uma ordem dada. Vês como te faço rica? Vês a loucura do meu amor por ti?»
E ainda esta outra promessa feita por Jesus em 28 de Dezembro de 1945, que nos deixa de boca aberta:
— «Minha filha, prometo-te, depois da tua morte, a conversão de muitos pecadores junto do teu túmulo. Virão visitar-te e sairão outros de junto de ti».
Não esqueçamos estas promessas de Jesus e peçamos as graças e dons para o bem das nossas almas por intermédio da Beata Alexandrina, que sempre nos escuta e nos ajuda. Disso posso eu mesmo testemunhar.
Afonso Rocha

ALEXANDRINA E ERMESINDE


Falar da Beata Alexandrina e da pequena cidade de Ermesinde pode parecer estranho para alguns, sobretudo sabendo que a “Doentinha de Balasar” nunca visitou Ermesinde, nem mesmo quando foi internada no antigo Hospital da Foz do Douro, dirigido pelo Dr. Gomes de Araújo.

Para aqueles que não conhecem, Ermesinde é uma pequena cidade situada a menos de 10 quilómetros da cidade do Porto e faz parte do conselho de Valongo.

Antiga igreja Martiz de Ermesinde

A Matriz, situada quase no centro do burgo é de construção recente e tomou o lugar de uma velha igreja que viu passar na sua estreiteza algumas celebridades do tempo, entre as quais o Padre Avelino de Assunção — pároco de Ermesinde de 1914 a 1956 —, sacerdote muito activo e empreendedor que mereceu da municipalidade que o nome de uma das ruas da cidade lhe perpetue a memória bem merecida.

Mas então, se a beata Alexandrina nunca veio a Ermesinde, porque falar dela e desta cidade?
Porque dois dos mais importantes personagens que marcaram a vida da Beata aqui estiveram e marcaram indelevelmente as suas passagens por aqui.


O Dr. Augusto de Azevedo
O Padre Mariano Pinho

O primeiro deles foi o Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo que depois de ter abandonado o Seminário de Braga, veio, nos anos 30, leccionar no Colégio de Ermesinde, colégio situado junto à bem conhecida igreja de santa Rita.

Ele não se limitou ao ensino das Letras aos jovens que frequentavam o Colégio, mas dedicou-se igualmente à catequese, não só na igreja vizinha, mas também na velha Matriz e noutras paróquias que solicitavam a sua ajuda.

Foi durante a sua estadia em Ermesinde que ele decidiu começar os estudos de medicina.
Tendo obtido com êxito os devidos diplomas, voltou para Ribeirão, sua terra natal — freguesia situada perto de Famalicão e de Balasar — onde foi exercer a sua actividade médica.

Foi nesse tempo que conheceu a Alexandrina, tornando-se seu médico assistente em 14 de Fevereiro de 1941, assistência que durou até à morte dela em 1955.

O Dr. Azevedo não somente foi médico assistente da Beata, mas também seu conselheiro, em determinados momentos, quando por duas vezes, por exemplo, perdeu os seus directores espirituais.

Diplomado em teologia, a quando do seu tempo de seminarista em Braga, o médico dos corpos sabia também curar, ou ajudar a curar as almas.

O segundo personagem que passou por Ermesinde e que também interveio na vida da Beata de Balasar, foi o Padre Mariano Pinho — natural do Porto —, primeiro director espiritual da Alexandrina.

Este sacerdote Jesuíta disfrutava de grande fama de pregador — foi ele que pregou os exercícios espirituais aos Bispos portugueses reunidos em Fátima — e percorria Portugal de norte a sul para pregar tríduos… e também foi chamado a Ermesinde pelo Padre Avelino de Assunção para aqui pregar um tríduo, como prova uma carta escrita nesta paróquia à Alexandrina de Balasar.

A carta começa assim:

«Ermesinde, 9 de Agosto de 1937
Alexandrina:
Cá estou outra vez a importuná-la. Como tenho uma hora de espera pelo comboio, chega-me o tempo para lhe escrever.»

E como sempre, nas suas cartas à sua dirigida, a dita carta termina com a bênção:

«Abençoa-a em nome de Nosso Senhor,
Padre Mariano Pinho.»

Isto prova que ele aqui pregou provavelmente nos dias 6, 7 e 8 de Agosto de 1937, voltando depois para Braga, como ele explica na carta acima citada.

Eis porque se pode dizer que a Beata Alexandrina, sem nunca ter vindo a Ermesinde, tem com esta cidade um traço de união que, não sendo importante, merecia ser explorado e sublinhado.
Afonso Rocha

sexta-feira, setembro 27, 2019

A VIDA PÚBLICA DA ALEXANDRINA


A Beata Alexandrina, nos primeiros anos da sua vida mística, viveu no seu quartinho quase sozinha: apenas a família e alguns amigos estavam ao corrente do seu estado de vítima voluntária para a salvação dos pecadores.
Mas, pouco a pouco, a sua fama de santidade foi-se espelhando pelas freguesias vizinhas e depois ao Norte de Portugal e finalmente a Portugal de Norte a Sul e mesmo no estrangeiro.
No princípio a que mais de perto lidou com ela foi sua irmã Deolinda que se ocupava carinhosamente da sua toilette e depois, quando as locuções interiores começaram, de escrever o que Alexandrina lhe ditava.


De facto, derivado à doença, a Doentinha de Balasar tinha dificuldades em segurar a caneta em suas mãos o que levou a Deolinda a tornar-se a sua “secretária”, a mais da sua primeira confidente.
Esta irmã, cuja caridade foi, exemplar, recusou casar-se para poder ocupar-se da irmã, o que constitui sem qualquer dúvida um acto corajoso e louvável.
Depois, quando a fama da Alexandrina passou além fronteiras da freguesia, era também a Deolinda que se ocupava das visitas. Se elas eram poucas no princípio, não se pode dizer o mesmo mais tarde, porque chegaram a passar no quarto da Beata mais de 6000 pessoas, em grupos, num só dia.
A todos estes visitantes ela dirigia palavras carinhosas e ensinamentos que a muitas e muitos fizeram mudar de vida.
A um grupo numeroso, antes que todos voltassem a casa, ela dirigiu estas palavras cheias de ensinamentos:
«Antes que todos se retirem, quero dizer-vos algumas palavras:
— Que esses olhares curiosos, fixando todos um só olhar, que todas as pessoas que me escutam, tirem algum proveito do meu martírio para as suas almas. É a razão que me leva a imolar-me; é a razão que me leva a sacrificar-me; é a razão que me leva a aceitar de Jesus tudo o que ele me quer dar — todo o sofrimento que Nosso Senhor me quer enviar — eu sempre aceito tudo.»
Depois, estas palavras onde ela lembra o que se dizia dela em algumas regiões. Ela não se queixa, mas serve-se delas como um exemplo, como um meio de sofrimento que ela oferece:
«Quereis afastar a justiça de Nosso Senhor?
Oh! então despachai-vos, arrepiai caminho, fazei penitência pelos vossos pecados e mudai de vida. Infelizmente, não sou uma santa, mas tenho a obrigação de ser. Vós também tendes essa obrigação, porque Nosso Senhor nos convida à santidade. Pouco me importa que me chamem bruxa — e é verdade que alguém me chama assim — pouco me importa que me considerem uma hipócrita. Isso também não me importa.
Quanto sofreu Nosso Senhor? O que não foi dito sobre Ele? E, apesar disso, calou-se; cristãos, calou-se! Infelizmente, eu não me calo como Nosso Senhor se calou, eu me insurjo sempre, me levanto, o meu ego rebela-se, de vez em quando, mostrando o que eu realmente sou. Mas, eu gostaria de ser uma bruxa, uma bruxa para Jesus. Isso é o que gostaria de ser.»
E prossegue com a mesma fuga:
«Para quê? Para quê?
Mas para vos enfeitiçar a todos, para vos dar a Jesus, porque é a Jesus que eu quero procurar toda a alegria; é por Jesus que eu amo todas as vossas almas. Muitos dos que estão aqui, eu não os conhecia, mas já os amava, já estava sofrendo e rezando por eles.»
E, quase ao terminar o seu longo “sermão” — que muitos sacerdotes gostariam de ter feito — ela diz ainda:
«Eu tinha dito a todos: “Aproveitai do que ouvistes, que as minhas palavras — ditas com tanto sacrifício — caiam sobre os vossos corações e fiquem impressas em letras de fogo; que elas jamais se apaguem...
Amai Jesus e a Mãezinha! Amai Jesus e a Mãezinha! Amai Jesus e a Mãezinha!
O meu coração está cheio dele e os meus lábios só falam do que o meu coração está cheio! Amai Jesus! Aquele que ama não ofende a Deus, e aquele que não ofende a Deus também não ofende ao seu próximo.
Jesus tinha dita à Alexandrina que ela viveria a sua vida pública e, de facto, quando o Arcebispo de Braga levantou a proibição de a visitarem, começou então esta “vida pública” com milhares e milhares de visitantes, sendo muitas vezes necessária a presença da polícia para canalizar o povo e evitar desordens.
Este “sermão” da beata Alexandrina de que falei encontra-se transcrito num dos livros que escrevi sobre ela e que se intitula “Flor eucarística”.
Afonso Rocha

ALEXANDRINA E INTERNET


Pensei que seria bom dar-vos algumas informações sobre o que se passa na Internet a respeito da Beata Alexandrina e o que eu mesmo fiz nesse sentido.


Em 1995, mandei instalar a Internet em minha casa (em França não como nos Estados Unidos) e o meu fornecedor de acesso proponha paginas pessoais gratuitas, o que me permitiu, ajudado por alguns amigos — porque eu não percebia nada daquilo — a ter a ideia de um Site consagrado à então Serva de Deus, Alexandrina Maria da Costa.
Comecei a preparar algum material que traduzi em francês — porque à partida o Site era destinado aos visitantes de língua francesa — e guardei para o momento oportuno.
O dia chegou em que criei o Site «http://alexandrina.balasar.free.fr» e lá coloquei o pouco que tinha guardado.
O fornecedor de acesso permitia verificar as estatísticas do Site e no fim do mês fui verificar as visitas. Tinham sido 23 pessoas a visitar o meu humilde trabalho. Fiquei contente, quase como uma criança que recebe dos pais o seu primeiro brinquedo, vejam lá!
Continuei pacientemente a «alimentar» o dito Site e muito rapidamente o número de visitantes aumentou, passando para mais de 500, o que me alegrou, como podem imaginar.
Por E-Mail comecei a receber mensagens de encorajamento de pessoas que não conhecia mas que pareciam interessadas pelo meu trabalho, algumas delas portuguesas, pedindo que integrasse a língua de Camões no meu Site e, assim fiz.
Depois do francês e do português, vieram outras: italiano, espanhol, inglês, polaco e o que mais me admirou foi que alguém me enviou uma Via-Sacra traduzida dos textos da Alexandrina, em japonês, que com grandes dificuldades, por não conhecer a língua coloquei no Site.
Apareceram depois várias pessoas de várias nacionalidades que me propunham ajuda, o que muito facilitou o meu trabalho e a divulgação do Site que se tornara poliglota.
Uma das primeiras pessoas a querer participar nesta aventura, foi o Prof. José Ferreira, com quem me tornei amigo e ainda hoje o somos, vindo logo a seguir o antigo Pároco de Balasar que se propôs a compor os comentários para a liturgia dos domingos e festas…
Tudo este movimento deu asas ao Site que agora acolhia mais de 5.000 visitantes por mês, vindo mesmo, alguns anos depois a acolher mais de 10.000 mensalmente… E mais ainda, actualmente, pois é sem qualquer dúvida o maior do mundo sobre a Beata Alexandrina.
Sentia-me feliz por poder assim fazer conhecer e amar a Alexandrina Mari da Costa que tanto amava, considerando-a mesmo como a minha «irmã mais velha».
Este êxito inesperado para mim, levou o Padre José Granja, então pároco de Balasar a pedir-me que criasse um Site «oficial», o que fiz com ele, em Balasar mesmo, no dia 22 de Agosto de 2002.
Este novo Site foi “oficial” durante 6 anos, até à chegada do novo pároco que não quis continuar a colaboração e desde logo o Site que fora oficial se tornou o «Site dos amigos da Beata Alexandrina» e que tem tido um feliz sucesso junto dos visitantes.
Entretanto tinha criado também alguns Blogs sobre a Alexandrina que continuam a ser visitados regularmente.
Com a chegada do Facebook, criei uma página cujo sucesso foi fulgurante ao ponto de me obrigar a abrir uma segunda página, visto o número de “amigos” ser limitado a 5000.
A estas páginas vêm muitos portugueses e milhares de brasileiros, assim como os portugueses da diáspora que ali vem numerosos, quer do Canada como dos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Suíça e outros países da Europa, mas também da América do Sul, tais como argentinos, venezuelanos, chilenos e uruguaios.
Não tiro destes modestos sucessos qualquer vaidade, porque não o faço para mim mas para aquela a quem tanto devo sobre o ponto de vista espiritual e que é, devo dizê-lo, minha “Comadre”, por ser a madrinha de baptismo da minha filha mais nova que também se chama Alexandrina.
Feliz por ter conversado convosco e até à próxima, se Deus quiser.

terça-feira, setembro 17, 2019

AS GRANDES DÚVIDAS


Não sei como, não sei se aguentarei a minha vida tão dolorosa e triste. Eu não quero duvidar da protecção do Céu, porque nunca, nunca, nas horas mais amargas e difíceis me faltou o conforto, mas agora, meu Deus, perdoai-me, agora, que tenho a tentação tão viva, tão viva de a eternidade não existir, receio vacilar. É uma luta eu repetir o meu “creio”, é uma luta o pensar que o Céu me espera, é uma luta recordar todas as verdades, porque no meu sentir tudo é uma mentira. Minto-me a mim e aos outros, é falso, falso todo o meu viver. Como triunfar, Senhor? Mesmo no sentimento da mentira hei-de acreditar e confiar. Espero, espero em Vós! Parece-me que, de cada vez, o meu coração se torna mais sensível à dor e a todas as coisas que surgem. Eu não devia sofrer pelas calúnias que de mim dizem, como podem acreditar os outros quando eu em nada acredito. Não devia sofrer com as dúvidas que têm de mim, pois se eu mesma as tenho todas, todas!


— Ó Jesus, ó Mãezinha, só Vós me podeis valer. No meio dos meus desânimos, como são profundos os espinhos que me ferem! Todas as coisas me ficam presentes, como se eu as quisesse ver e recordar. Ó Jesus, só Vós sabeis compreender. Perdoai-me todos os meus desfalecimentos; mesmo sem eu querer, recordo-os.
Nasci para a dor; não nasci para mais nada. Quantos segredinhos ocultos, quantas coisas eu não esclareço. O Céu, o Céu tem a visão de tudo. Na minha grande inutilidade, não deixo de oferecer aos meus queridos Amores, causa da minha loucura e para a salvação das almas.
— Oh, se o meu coração falasse, se o meu livro estivesse aberto, nunca, nunca na terra seria terminada a leitura. Que virá mais, Jesus? E quando chegará o meu Céu tão imerecido?
Parece que não posso esperar, não posso esperar mais, não posso sofrer mais. Está pronta a vontade, sempre pronta a dar-se ao Senhor, mas a natureza apavorada não pode, não pode mais. Todos, todos os sofrimentos se vão repetindo em mim. A visão do mundo, a visão das almas causam-me dor infinita. Meu Deus, sou a Vossa vítima.
Por não poder, resumo assim o que se passou em minha alma dou já entrada ao Horto e ao Calvário que eu vivi numa amargura indizível. Sempre a ser a mesma massa da terra, sempre a sentir os meus nervos a desconjuntarem-se e mais ainda uma coisa semelhante, que sofria há anos, a ser comida, lentamente, com a diferença: há anos era o corpo a ser devorado por todos os bichos e aves, e agora é a alma. Custa mais, ainda mais. Meu Deus, meu Deus! Neste sofrimento, nunca fui capaz de repetir o meu “creio”, nem de me recordar de o repetir, tal era o meu martírio.
Por o senhor Abade não estar, estava há quatro dias sem receber Jesus. Perdi tudo e não aguentava a fome de Jesus. Depois de três horas, não sei quantos minutos, Ele veio, deu um pouco de luz à sala do meu peito, levantou-me e docemente me chamou:
— Vem, minha filha, vem, minha filha. Coragem, tem coragem. É o auge da tua dor, para o auge dos vícios. Jesus espreme-te em toda a variedade de prensas para toda a variedade de pecados. Coragem, coragem. Vais-Me agora receber. Tenho tirado mais proveito para as almas das tuas ânsias, da tua pena por não Me receberes, das tuas comunhões espirituais do que se me recebesses sacramentalmente. Confia! Jesus não mente.”
— Ó Jesus, não tive a pena verdadeira. Parece que as minhas lágrimas de saudade não foram verdadeiras. Não sei como vivi. Perdoai-me, perdoai-me.
— Tu és louca, tu és louca, a louca da Eucaristia, a louca das almas. Oh, como és louca! Como a tua loucura alegra o meu Divino coração e o de minha Bendita Mãe, e vai reparando a justiça de meu Pai.
Nesta ocasião, Jesus desapareceu. Abriu-se uma ala de anjos do Céu para o meu quarto. Eles eram tantos que estavam dispostos em duas alas. Do Céu uniam-se e vinham-se separando, formando cá em baixo a largura duma estrada. Batiam todos as suas asinhas brancas e alguns tocavam instrumentos harmoniosos. Por essa estrada entraram três anjos em tamanho natural. O do meio trazia a píxide com Jesus. Os dos lados traziam nas mãos de fora uma vela e as mãos do lado de dentro apanhavam o manto do que conduzia Jesus. Com as palavras que o sacerdote costuma pronunciar ele deu-me a Sagrada Hóstia, e foram recuando até que desapareceram. Os que estavam nas alas tocavam e cantavam:
Glória a Deus na terra e no Céu! Glória a Deus, nosso Rei e Senhor! Glória, glória, glória a Deus, amor, amor, todo o amor! Calvário de prodígios, calvário de dor, calvário de glória e reparação ao Senhor! Glória, glória, glória a Deus, amor, amor, todo o amor.
Todos desapareceram, deixando de se ouvir ao longe as vozes e sons celestes. Abeirou-se Jesus novamente de mim, introduziu-me no coração o tubo e fez passar a gota do Seu Sangue, lentamente:
— Recebe vida, mais vida, minha filha. Recebe conforto para todo o estrago da dor. Vives a minha vida, vives só de mim. Tem coragem. Não te ofereceste tu a Mim por tudo e por todos? És a vítima reparadora de todos os crimes e de toda a variedade de coisas. Fala às almas, porque para elas pelo Céu foste escolhida. É a mais difícil, mas a mais sublime missão. Eu estou contigo. Falo pelos teus lábios. O Divino Espírito Santo em tudo te instrui e ilumina. És amparada por minha Bendita Mãe.
Fala ao mundo. Pede-lhe a sua conversão. Sofre, sustenta o braço de meu Pai. Avisa o mundo do que o espera. Coragem, coragem!”
Desapareceu rapidamente. Fiz-Lhe os meus pedidos, repeti-Lhe muitas vezes o meu “creio” e com a alma mais forte não podia queixar-me de que O não tinha recebido. Voltei à dor, a muita dor, mas mais confortada para a suportar. (Sentimentos da alma: 17 de setembro de 1954)

quarta-feira, maio 23, 2018


PERÍODO EM QUE O DEMÓNIO MAIS ME APOQUENTOU


– Se a vida material melhorou nesta altura, redobraram os assaltos do demónio que há meses me vinha ameaçando. Foi em Julho de 1937 que o «manquinho», não satisfeito de me atormentar a consciência e de me dizer coisas demasiadamente feias, principiou a atirar-me abaixo da cama e de noite e a qualquer hora do dia.


A princípio, até para as pessoas da casa fui encobrindo, menos para a minha irmã, passando por ser aflições do coração. A pouco e pouco, o mal foi aumentando e teve que o saber minha mãe e uma pessoa que vivia connosco. Quem observava os tombos que eu dava abaixo da cama mostravam-se muito pesarosos, não supondo nada do que se tratava. Passavam-se os dias e o mal aumentava sempre. Uma noite atirou-me para o chão, passando por cima da cama de minha irmã, que ficava junto de mim. Ela levantou-se, pegando em mim ao colo, e dizia: «Anda para a tua caminha.» Mal ela me deitou, levantei-me rapidamente e dei uns assobios. Reconhecendo imediatamente o mal que tinha feito, principiei a chorar e disse para minha irmã: «Ai, o que eu fiz!» Ela sossegou-me, dizendo: «Não te aflijas, que não foste tu.» Na noite seguinte, voltou a acontecer o mesmo, e disse-lhe em voz alta: «Não me deito» – afastando-a de mim. Quando reconhecia que fazia mal, chorava.
Uma noite em que passei com o mafarrico as coisas piores que se podiam imaginar, o que tudo desconhecia e ignorava, chorava amargamente e pensava não receber o meu Jesus sem me confessar. Nesse dia, o Sr. Abade não estava na freguesia para vir trazer Nosso Senhor, mas pensava quanto me custaria ter de dizer que não comungava sem me reconciliar, com receio que o Sr. Abade me perguntasse a causa, e ter de lhe dizer tudo, tudo, e não querer abrir-me com ele. Minha irmã, ao ver as minhas lágrimas, procurava consolar-me por todas as formas. Como não conseguisse, disse-me que à tarde iria falar com o meu Director espiritual que se encontrava a fazer uma pregação numa freguesia vizinha da nossa. Disse-lhe que nada adiantava, pois não lhe diria a ele o que se tinha passado. Pedi-lhe um postal de Nossa Senhora e, com grande sacrifício, descrevi por maior o sucedido, guardando-o debaixo do travesseiro até que chegasse a hora de o ir entregar. De repente, entrou no meu quarto o meu Director, acompanhado por um seminarista, trazendo-me Jesus-Hóstia para eu receber. Como soubesse que estava para banhos o nosso pároco, teve a boa lembrança de me vir trazer Jesus. Quando Sua Reverência me disse que trazia Nosso Senhor para receber, respondi-lhe: «Não posso comungar sem me confessar.»
As lágrimas e a vergonha não me deixavam falar. Com muito custo disse que tinha escrito um postal e que o guardava sob o travesseiro. O meu Director tomou-o, leu-o e tudo compreendeu, sossegando-me e dizendo-me que tudo previa em face de tudo quanto se tinha passado, mas não me tinha prevenido de nada.
Foi tremenda esta tribulação, que se repetiu por várias vezes. Tinha ataques muito furiosos duas vezes por dia, pelas nove ou dez horas da noite e depois do meio-dia, durante cerca de uma hora ou mais. Durante os ataques, sentia em mim toda a raiva e furor do inferno. Não podia consentir que me falassem de Nosso Senhor e na Mãezinha, nem podia ver as Suas imagens, cuspindo-as e calcando-as aos pés. Também não podia consentir junto de mim o meu Director; chamava-lhe nomes, queria espancá-lo e tinha-lhe uma raiva de morte, assim como a algumas pessoas da casa. Ficava com o meu corpo denegrecido com as pancadas e a escorrer sangue com as mordeduras. Também dizia palavras muito feias para quem estava junto de mim. Hoje gostava que muita gente presenciasse só para temerem o inferno e não ofenderem a Jesus.
Depois que passava a influência do demónio e recordava o que tinha feito e dito, sentia horrorosos escrúpulos; parecia-me ser a maior criminosa. Foram meses de doloroso martírio. Muito mais tinha que dizer sobre este assunto, mas não posso. A minha alma não resiste ao relembrar tais sofrimentos. (Autobiografia)


PRIMEIRO EXAME DA SANTA SÉ


– Em 1 de Maio de 1937, recebi a vista de Rev.mo o Padre Durão. Vinha mandado da Santa Sé para examinar o caso da consagração do Mundo a Nossa Senhora. O meu desejo era viver ocultamente, sem que ninguém soubesse o que se passou. Sua Reverência entregou à minha irmã um cartão do meu Director espiritual e disse-lhe que mo lesse. Ao ouvir as palavras do cartão que eram assim «Vai aí o Sr. Padre Durão; fale-lhe à vontade e responda-lhe a tudo o que lhe perguntar», fiquei admirada e disse para a minha irmã: «Que hei-de eu dizer-lhe?» Não sabia que era preciso estes exames para casos destes. Minha irmã animou-me e disse-me: «Dirás o que Nosso Senhor te inspirar.»


Fiquei surpreendida quando me fez perguntas das coisas de Nosso Senhor, mas, sem a mais pequena hesitação, comecei a responder às suas perguntas. Sua Reverência disse-me que só queria que lhe dissesse o principal, pois não me queria cansar, visto ser grave o meu estado. Respondi-lhe que não sabia que era o principal. Sua Reverência disse-me: «Gosto disso, gosto disso.» E foi quando me falou da consagração do mundo a Nossa Senhora. Depois de me fazer várias perguntas, com muito bom modo, disse-me: «Não se enganará?» Ao ouvir estas palavras, passou-me pela mente o engano da minha morte e pensei assim: «Isto é contra mim, vou já dizê-lo.» Então respondi: «Enganei…» E contei-lhe o que se tinha passado na Festa da Santíssima Trindade de 1936. Sua Reverência não mais me disse se estaria enganada, e falou assim: «Estas coisas custam muito, não custam?» Respondi: «Custam e fico triste.» E comecei a chorar. Sua Reverência pediu-me para o não esquecer nas minhas orações e prometeu-me nunca me esquecer no Santo Sacrifício da Missa.
Ajoelhou-se, rezou três Ave-Marias a Nossa Senhora e algumas jaculatórias. Despediu-se de mim e retirou-se. Chorei muito e fiquei muito atribulada e triste por se saber o que há tanto tempo de passava ocultamente. Escrevi logo ao meu Director espiritual, contando-lhe tudo. Sua Reverência respondeu-me imediatamente sossegando-me e dizendo que era tudo para glória de Nosso Senhor.

Nota do Padre Mariano Pinho: «Esqueceu a narração de como, em Setembro de 1936, se escreveu para a Santa Sé sobre a Consagração.


MORTE APARENTE OU MORTE MÍSTICA


– Em 1935, Nosso Senhor preveniu-me de que iria morrer antes da festa da Santíssima Trindade de 1936. Como não conhecia outra morte, pensava que era deixar este mundo e partir para a eternidade. Nesse tempo, tudo eram mimos, consolações e alegrias espirituais. À medida que se ia aproximando o dia da Santíssima Trindade, aumentava a minha alegria e contentamento. Ia passar no Céu a festa dos meus tão queridos Amores, como lhes chamava: Pai, Filho e Espírito Santo.


Os males do corpo iam aumentando e tudo dava sinal da minha partida. Dois dias antes, Nosso Senhor disse-me que morreria das 3h às 3,5 da manhã e que mandasse vir o meu Pai espiritual. Assim o fiz. Ele chegou ao cair da tarde e passou a noite junto de mim. Preparei-me para morrer. Sua Reverência fez comigo um acto de inteira resignação e conformidade com a vontade de Deus. Pedi perdão à minha família, a cantar de alegria, assim:

Feliz, oh, feliz
Se eu tal conseguia,
Morrer a cantar
O nome de Maria!
Feliz quem mil vezes,
Na longa agonia,
Com amor repete
O nome de Maria.

A aflição ia aumentando, à hora marcada por Nosso Senhor, não sei o que senti, deixando de ouvir o que se passava à volta de mim. O meu Pai espiritual e a minha família rezaram o ofício da agonia, acenderam uma vela benzida, meteram-ma nas mãos, mas eu já não dei por isso, e assim estive algum tempo.
Julgavam-me já quase morta e choravam por mim. Nessa altura, já ouvi os choros dos meus; principiei a respirar e, pouco a pouco, reanimei-me, mas, ainda debaixo do mesmo estado, pensei: Estais a chorar e eu sempre morro. Estava sempre a ver quando aparecia na presença de Nosso Senhor. Não tinha pena por deixar o mundo e os meus queridos. Quando via que ia melhorar e que não se cumpriam as palavras de Jesus, caiu sobe mim uma tristeza que não se pode calcular e um peso esmagador.
Eram horas do meu Director espiritual se retirar, não tendo tempo para me dizer umas palavrinhas de conforto. Passei a festa da Santíssima Trindade como uma moribunda e dentro de mim tudo era morte. As lágrimas corriam-me, as dúvidas eram quase insuportáveis, porque não só me tinha enganado no que dizia respeito a este dia, isto é, à morte, como também em tudo quanto Nosso Senhor me tinha dito antes deste dia. Nos dois primeiros dias a seguir, parecia-me que todo o mundo estava morto. Não havia sol, nem lua, nem dia para mim. Era quase insuportável o meu viver. Aproximavam-se de mim a Deolinda e a Çãozinha, únicas pessoas que sabiam do caso, e diziam: «Não falas para nós? Não te ris?» Eu respondia-lhes: «Retirai-vos de mim!” Já não sou a mesma! Jamais me vereis rir; não haverá sol que me alumie!» – e chorava. Debaixo da maior dor e amargura, falava-lhes de tal forma que elas não tinham mais que me dizer.
Estavam as duas a combinar em ir uma delas ter com o meu Director espiritual, quando de repente apareceu o Sr. Dr. Oliveira Dias, que vinha em nome do meu Pai espiritual confortar a minha alma. Sua Reverência tinha-lhe contado tudo e, como não pudesse vir pessoalmente, pois estava em pregação, compreendendo bem o meu sofrimento, tratou de nos aliviar.
Sua Reverência, o Sr. Dr. Oliveira Dias, esclareceu-me o caso, contando-nos várias passagens que se tinham dado com alguns santos e desde então fiquei a saber que se tratava da morte mística, da qual nunca tinha ouvido falar. O Sr. Dr. Oliveira Dias pareceu-me um anjo que veio do Céu serenar a tempestade da minha alma. Continuei a viver muito atribulada, pois Jesus pareceu morrer também, ficando alguns meses sem ouvir a Sua divina voz. Quando aumentava a agonia da alma, recordava os casos que me tinham sido contados e animava-me com o que dizia o meu Pai espiritual. (Autobiografia)

sábado, maio 19, 2018

TENHO FOME, TENHO SEDE DE POSSUIR JESUS



Tenho fome, tenho sede de possuir Jesus; não cessa, é devoradora. Quanto mais corro ao Seu encontro, mais sinto Ele fugir. Perdi-O, perdi-O, não O encontro no meio de tantas trevas. Infundo-me nelas cada vez mais, de olhos vendados e louca por tão grande dor ato na cabeça as minhas mãos. Não digo bem: sinto que o faço e que estou perdida no mar tempestuoso e encapelado, na noite mais negra e aterradora, mergulhada em mundos de escuridão. Sinto e ouço o zunir dos ventos, as ondas levantam-se à maior altura e baixam de novo serenamente. E eu sozinha, tão sozinha, sem ninguém! Ao sentir tempestade tão desastrosa, fito-a, escuto-a, mas com serenidade. Se morrer nela, morro por Jesus, morro pelas almas. Confio, espero, o meu corpo pode sofrer tudo, pode desaparecer destruído com o furor da tempestade, mas a alma tem o seu fim, há-de ir ao encontro de Jesus, Ele há-de recebê-la, há-de ampará-la e levá-la para Ele.
— Ó mundo, que tão ingrato tens sido para mim! E eu amo-te tanto; amo-te não pelos teus falsos encantos, mas sim porque és de Jesus. A minha dor por vezes é quase desesperadora. Oh! se não fosse Jesus e a Mãezinha! A Eles devo a minha resistência a tudo.
Jesus prometeu e não faltou: veio ontem e veio hoje, confortou a minha alma. Parece descer do ar como a avezinha que baixa ao seu ninho. Ontem falou-me depois de por um bom espaço de tempo me ter feito sentir o Seu divino amor e acalentar o meu coração com o Seu bafo divino. Disse-me:
— Minha filha, venho a ti com o meu amor que é a vida do teu corpo, que é a vida da tua alma. Sou teu, estou aqui, confia, sou o teu Jesus.
Hoje fez-me sentir a Sua divina presença em mim, fez dilatar fortemente o meu coração e cobriu-o das Suas ternuras e carícias. Depois disto despertei como dum sono e disse-Lhe:
— Muito obrigada.
Só no dia vinte, dia do Divino Espírito Santo, não veio, deixou-me todo o dia num prolongado martírio. Escondi o mais que pude, com o sorriso, a dor que sentia. Mas então nesse dia é que redobrou a ternura dos meus olhares, então é que eu via as almas, escolhi-as, ia ao seu encontro, atraía-as, prendia-as com as doces prisões que tinha em meu coração. E desde então vou-as enleando cada vez mais. Sofro por possuir tudo isto no meio da minha miséria.
— Meu Deus, guardar esta riqueza, que me não pertence, no meio da minha podridão! O que eu  sou, o que eu sou! Jesus, que horror!
De longe a longe, sinto os abalos na minha alma e junto com eles um desassossego, com que um desespero, mas que não é meu. Abro os meus braços, estendo-os na cruz, ofereço a Jesus o meu coração e deixo-me imolar, deixo-me sacrificar. Tenho sede do amor de Jesus e não O amo. Tenho sede das almas e não as salvo. Renovo a minha oferta de vítima e aceito o que Jesus quiser. (Sentimentos da alma: 22-05-1945)


sexta-feira, maio 18, 2018

UM DIA NA VIDA DA BEATA ALEXANDRINA




18 de Maio de 1945 – Sexta-feira

Bendirei ao Senhor. Recebi de Jesus, neste mês bendito da querida Mãezinha, mais um miminho, que veio abrir-me a sepultura, e mais miminhos que vieram cravar-me na chaga do meu coração sempre a sangrar, não a deixando assim cicatrizar. De vez em quando é avivada fortemente. Bendirei sempre a Jesus e à Mãezinha, mas confesso: se não fossem as forças do céu, teria desesperado e morrido. Que grande amor o de Jesus!
— Quanto Vos devo, meu Amor. Convosco venci e vencerei sempre.
Não pude ter uma palavra de queixume; ainda mais mereço pela minha miséria. Estou como a pombinha de bico aberto a bater as asas prestes a perder-se sem ter onde pousar. Tenho sede de luz, tenho sede de conforto.
— Já que na terra me tapam todos os caminhos, deixai-me, Jesus, deixai-me, Mãezinha, entrar nos Vossos Corações amantíssimos. Ainda que nada sinta, deixai-me ao menos a certeza que vivo n’Eles. Lá estou livre de ódios e perseguições, lá estou certa de que Vos amo e não Vos ofendo.
Se o meu corpo pudesse encobrir-se nas trevas para não ser mais visto nem lembrado, como nas trevas foi encoberta a minha alma, assim morreria, não seria mais falada como são os desejos do meu Prelado. É com todo o amor que aceito e obedeço às suas ordens. Não nasceu dentro em mim a mais pequenina sombra de ódio contra ele e contra os seus companheiros. Antes pelo contrário, dizia:
— Meu Jesus, compadecei-Vos deles, não compreendem mais, não conhecem os sofrimentos duma alma. Meu Jesus, se pudesse prostrar-me diante de Vós e de mãos levantadas soubesse agradecer-Vos os miminhos que me dais!
Com o coração a sangrar de dor, não pude com os lábios rezar a Magnificat, mas rezei-a com o pensamento.
— Dai-me força, Jesus, para sofrer e não me condeneis Vós, porque a sentença dos homens nada vale a não ser para meu maior martírio.
Foram os homens que me prepararam o sofrimento de hoje, para mais me assemelhar a Jesus e acompanhá-Lo no caminho do calvário. E lá vou eu, presa com cordas, mas com amor abraçada à cruz. Sou vítima das opiniões dos homens, sou vítima das lágrimas dos meus. Se eu pudesse sofrer sozinha… Bendirei ao Senhor, não quero perder um momento. Os meus olhares continuam a não serem meus. Fitam-se cheios de ternura num e noutro coração que mais se deixa compenetrar destes olhares tão cheios de doçura e amor. Os olhares não vão para todos por igual; os corações, a sua correspondência, é que fazem merecer tudo quanto estes olhares encerram. Tinha tanto que dizer neste ponto! São tantos os que queria atrair e abraçar a mim!
— O que é isto, meu Jesus?
É sempre a minha cruz. Neste conjunto de sofrimentos, o meu calvário com o de Jesus, o coração oprimido com o peso esmagador da dor abafava, não resistia.
— Poderei vencer, Jesus? Resistirei a tanto? Só convosco. Valei-me, tenho medo.
Sentia tanto o meu abandono e o de Jesus! O meu corpo sangrava, dava as últimas gotas de sangue. Ele veio.
— Amo-te tanto, minha filha! Assemelhei-te a mim e o teu calvário ao meu. Tem coragem. Os espinhos que te ferem foram os meus. As varas que te açoitam e despedaçam foram as minhas. Os maus-tratos e as cordas que te prendem eram minhas, e a cruz minha foi também. Foi o amor a causa dos espinhos, dos açoites, da cruz, do calvário e da morte. Prendeu-me o amor à cruz, prendeu-me ainda nos sacrários até ao fim dos séculos. E tu, minha pomba bela, à minha semelhança presa foste também; prendeu-te o amor ao meu Divino Coração, prendeu-te o amor às almas. Deixa-te ferir, minha amada; cada espinho que te fere sai um dia da minha sagrada cabeça e do meu Divino Coração. Vês como tenho tantos!
Jesus apresentou-me a Sua sagrada cabeça e o Seu Coração Divino. Que grande sebe agudíssima o feria! Enterneci-me tanto por Jesus e disse-Lhe:
— Aceito tudo o que seja dor, mas quero tirar de Vós todos esses espinhos e não deixar sinal algum de ferimento.
Principiei a tirar espinhos de Jesus que tinha ao meu dispor. Em poucos instantes desapareceram todos, e nem a sagrada cabeça nem o Coração Divino ficaram chagados, nem com sinal de sangue. Tudo desapareceu.
— Vês, minha esposa querida, como o teu novo sofrimento cicatrizou todas as feridas que eu tinha? Coragem! Anima-te, eu não te falto. Duvidar de mim é ofender-me. Ainda que te dissesse que o que te prometi vinha, não te enganava, ainda que levasse anos, pois os anos em comparação da eternidade representam um já. Mas não demoro, confia. Vou deixar-te, minha filha, um pouco mais libertada do demónio, para poderes resistir. Preciso de operar milagre. Se soubesses com os combates do demónio as almas que arrancaste dos abismos e conduziste a mim! Estão firmes, não voltam a ofender-me gravemente, salvam-se. Para resistires ao teu penoso calvário vou vir a ti frequentes vezes, as mais delas silencioso. São êxtases de amor, mas deles receberás sempre, sempre, toda a abundância das minhas graças, ternuras e amor. És rica de mim, és rica de virtudes. É por isso que os teus olhares atraem, têm carinhos, têm doçuras, têm prisões, têm amor. É por isso que o teu sorriso tem meiguices, tem tudo o que é do céu. Não vives, vivo eu, são meios de salvação e de chamamento às almas. Não é verdade, minha filha, que eu na minha vida, no meu calvário, possuía duas vidas, humana e divina? Até nisso te pareces comigo. No teu calvário tens também a vida divina, é Cristo que está em ti. Nada temas. Vem o jardineiro divino ao Seu jardim ver as maravilhas que nele operou e o fruto de tantas canseiras. Vem o Rei ao palácio da Sua esposa, o Redentor divino à Sua redentora, à nova salvadora da humanidade. As minhas maravilhas em ti não ficam ocultas, não consinto no seu escondimento, hão-de brilhar, são a minha glória, são a salvação das almas. Tudo será escrito, minha doutora das ciências divinas, tudo será conhecido no livro da tua vida. És a heroína do amor, a heroína da dor, a heroína da reparação, a heroína dos combates, a rainha dos heroísmos. Recebe conforto, filhinha, recebe o meu amor divino. Quando vier a ti nos meus colóquios, uno-me a ti com este amor. Venho dar vida e conforto ao teu coração, ajudar-te nas tuas trevas. Conta sempre comigo mesmo no meu exílio, no meu escondimento em ti. És minha sempre, e eu sempre em ti habito.
— Aceitai, meu Jesus, o meu coração agradecido e entregai-o por mim à Mãezinha. Muito obrigada pelo fogo divino que me fazeis sentir. Se todas as almas o sentissem! Parece-me que tenho uma enorme fornalha no peito e no coração. Como sois poderoso e bom para comigo! Aceitai o meu sofrimento como prova do meu amor e dai-me por ele as almas. Lembro-Vos, meu Jesus, neste momento, todos os que me são queridos. Lembro-Vos os sacerdotes e os pobres pecadores. Lembro-Vos o Santo Padre e as suas intenções. Lembro-Vos toda a minha família e todos os que se me recomendam. Lembro-Vos os que me ferem e lembro-Vos o mundo inteiro.
— Aceito, filhinha, toda a prece saída dos teus lábios. Pede, pede tudo, pede, confia sempre.
Voltei às trevas e à minha dor, mas a arder em sede de consolar o meu Jesus e salvar o mundo. Não há na terra maior alegria do que sofrer por Ele. (Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma)

sábado, junho 03, 2017

UMA LONGA CARTA

Maior deve ser o perdão...


Balasar, 6 de Junho de 1935

Viva Jesus!,
Meu P.
Estou deveras admirada com o silêncio de Vª Revª. Por acaso ter-lhe-ia dado causa para assim proceder? Estou sossegada na minha consciência; se em alguma coisa o ofendi foi por ignorância, por isso maior deve ser o perdão.
Eu continuo muito doentinha; mas tenho tido a consolação de receber Nosso Senhor todos os dias. Isto só por um milagre do Céu, pois o Senhor Abade nunca me fez tal. Algumas vezes recebo o meu Jesus e fico muito desconsolada. Bendito Ele seja! Tudo é permitido por Ele, seja em tudo feita a Sua Santíssima Vontade.
No dia dois, depois das nove horas da noite, estava eu a fazer a oferta de tudo o que se passasse em mim durante a noite como actos de amor a Nosso Senhor Sacramentado. Fazia-o mais com o pensamento do que com os lábios porque não podia. Eu disse ao meu Jesus se fosse da Vossa Vontade eu ficar convosco nos vossos sacrários durante esta noite! Sim antes queria fazer companhia a Nosso Senhor do que dormir. E dizia também:
― Vinde meu bom Jesus e vivei em mim como eu desejo viver convosco; operai em mim tantas graças como se eu vos recebesse sacramentalmente.
Principiei a sentir a presença de Nosso Senhor em mim e logo ouvi que me chamava:
— Filha, filha, ó minha querida filha anda passar a noite comigo nos meus sacrários: anda consolar o teu Jesus. Anda com a tua reparação curar as minhas chagas que estão tão vivas! Fui hoje tão ofendido! Caíram tantas almas no inferno! Cortei-lhe o fio da vida antes do tempo marcado por não as poder sofrer mais.
Eu ofereci a Nosso Senhor todo o meu corpo para Ele crucificar pelo seu divino amor para a salvação das almas; e dava-lho de tão boa vontade como Ele se deixou crucificar por meu amor. E dizia-me Nosso Senhor:
— Como me consolas! É o bálsamo com que curas as minhas chagas. Atenção, minha filha, para mandares dizer ao teu pai espiritual. Esta noite vão cair no inferno mil almas e o pecado que me leva a condená-las é o pecado da impureza, a maldita carne. Já lá estão a cair fartas de me ofenderem e Eu abundado de as suportar. São de todas as classes: jovens e donzelas, casados e viúvos, velhos e novos. Que horror! Como Eu sou ofendido! Estão mais para lá cair; se me dás o teu corpo para sofrer por eles ainda lhes acudirás. Pede-me por elas, dá-mas são minhas. Custaram-me o meu sangue. Eu não exijo de ti a noite inteira porque não podes. Mas só no Céu verás como lhes acudistes nestas horas. Eu preciso de destruir o mundo, poucas famílias deixar, mas não o faço, enquanto tiver almas que como tu sustentem o braço da minha justiça.
Parecia-me que era tão beijada e abraçada! E dizia-me Nosso Senhor:
— Amo-te tanto, minha filha! Amo-te tanto! Tenho mais cuidado pela tua alma do que um da terra teria se possuísse todos os tesouros do mundo. Ama muito a minha Mãe Santíssima que Ela também te ama muito. Como me consolas quando me pedes o aumento do amor dela e da SS. Trindade.
No dia três, no fim da Sagrada Comunhão, falava-me Nosso Senhor:
— Minha filha, lá caíram no inferno as almas. Como Eu fui ofendido! Como me renovaram a minha paixão! Muitas também que mereciam lá estar, mas poupei-as pela tu reparação. Não posso exigir mais de ti, dando-me o teu corpo e dizendo tudo ao pai espiritual para ser comunicado às almas. Queres ver os anjos?
E eu disse a Nosso Senhor:
— Mostrai-mos, Jesus, Mostrai-mos Jesus.
Principiei, então, a ver uma coisa alta do feitio do Céu com uma cor tão linda! Via nela não sabia o quê. Não sei como fiquei. Como havia de mandar eu dizer a Vª Revª que eram os anjos se eu não divisava o que era?
Dizia-me Nosso Senhor:
— Faço isto para te obrigar a obedeceres e a escreveres e a confiares nisto.
Do meio saiam à moda de uns raios dourados e dizia-me Nosso Senhor que era o amor com que eles O amavam, via também à moda de um altar em ponto grande e no meio parecia-me uma pombinha branca. Por cima tinha muitos, muitos anjinhos; estavam em torno sobre a SS. Trindade. Passados alguns momentos voltei a vê-los; já os divisava melhor. Eram mais vastos do que moinhos. Parecia que estavam aos montes. Via mais outras coisas, eram os querubins e os serafins. Disse-me Nosso Senhor:
— Vê-los? Há-de ir a tua alma para o Céu cercada deles.
Sentia todo aquele calor e força de que tenho falado a Vª Revª e uma união tão grande com Nosso Senhor que não podia deixar. E disse-me o meu Jesus:
— Manda dizer ao teu pai espiritual que Eu quero que sejam realizados os teus desejos: quero que sejas visitada por ele. Foi a ele que confiei a tua alma e teus segredos. O tempo passa. Não queiras nada do mundo: vive como se estivesses comigo em corpo nos meus sacrários que Eu vivo em ti como lá. É a paga do amor que me tens e de quereres viver lá unida a mim.
No dia seis, pouco depois da Sagrada Comunhão, falava-me Nosso Senhor:
— Ó filha, tu não te cansas de me dizer que habite em ti, e Eu não me canso de em ti viver. E como me hei-de cansar se tu és o meu anjo, a companheira fiel dos meus sacrários! Continua a tua missão que dentro de pouco acabará. Deixa-me que te diga que o teu fim está próximo. Vive nos meus sacrários; pede-me pelos pecadores. O meu coração está angustiado nos sacrários. Eu chamo-os por todos os modos: infelizes. Estão surdos à minha voz divina, estão cegos à luz do seu Deus. Sofre, minha filha, que os teus sofrimentos e aflições transformar-se-ão, dentro em pouco, em rosas cobertas de pérolas preciosas. Minha filha, à volta de ti é o paraíso. Os anjos, os querubins, e os serafins e a minha Mãe Santíssima. Como Eu sou bem louvado por eles! Queres voltar a vê-los?
Eu disse que sim ao meu Jesus. Principiei, então, a ver tantas coisas! Um movimento tão grande! Pelo meio tinha tantos, tantos parecia fios dourados entrelaçados uns nos outros! E dizia-me Nosso Senhor:
— É o amor em que eles ardem por mim.
Sentia um calor tão forte e uma força a abraçar-me! E dizia-me Nosso Senhor:
— Amo-te tanto! Faz que eu seja amado que, dentro em pouco, amar-me-ás e contemplar-me-ás para sempre no Céu.
Por hoje mais nada. Muitas lembranças da minha mãe, da Deolinda. da Senhora Dª Sãozinha, destes dias não sei nada, pois está para Braga.
Por caridade, não esqueça de pedir por mim que preciso muito para eu fazer em tudo a vontade de Nosso Senhor, que eu também tenho pedido muito a Jesus por Vª Revª e prometo continuar. Fico ansiosa por receber uma cartinha de Vª Revª.
Abençoe, por caridade, a pobre

Alexandrina Maria da Costa.

terça-feira, maio 09, 2017

UMA VISÃO

UM CAMPO DE AÇUCENAS


Alexandrina já tinha completado os seus 32 anos, quando aconteceu o que ela a seguir nos conta.
Nesta ocasião já ela se tinha oferecido como vítima, assim como já tinha recebido vários convites do Senhor visando a crucifixão e a sua missão de visitar os sacrários abandonados. Não se pode pois dizer que se trate de qualquer ilusão ou invento dela. Também não foi esta a sua primeira visão. Mas vejamos o que ela tem para nos dizer:

*****

– Pelos fins do ano de 1936, numa noite, apresentou-se diante de mim, a pequena distância, um prado muito viçoso e florido. As flores eram açucenas. E tantas que eram!... E tão perfeitas!... Por entre ela pastava um grande rebanho de ovelhinhas, sendo impossível contá-las. O pastor era Jesus, em tamanho natural, muito belo e com um cajado na mão. Aproximei-me desse prado e, quando ia entrar nele, tudo se transformou num caminho árido e seco. Caminhei por uma encosta difícil de subir. Ao cimo do monte, havia um caminho bastante assustador, porque tudo eram silvas e espinhos. Ao meu lado esquerdo, ouvia gemidos de ovelhinhas. Queria aproximar-me delas para ver a causa dos seus gemidos, mas uma enorme ribanceira, escura, profunda, impedia-me de ver as ovelhinhas e a causa dos seus sofrimentos. Sentia que sofriam muito.
Continuei a caminhar por aquele caminho e, mais acima, ao lado direito, ouvia a mesma coisa. Nessa altura, vi a causa de tão grande sofrimento: estava uma ovelhinha, de lã branca, mas muito suja e presa pela lã a enormes espinhos, caída sobre eles. À primeira impressão, entendi que aqueles gemidos não podiam ser de saudades pela sua mãe, porque a ovelhinha já era grandinha. Ao ver o estado dela, tive tanta pena que me aproximei e, com todo o amor e carinho, fui vagarosamente depreendendo-a dos espinhos. Depois de a soltar, desapareceu da visão.

Isto nunca mais me esqueceu e conto-o com a maior facilidade, porque ficou-me bem gravado na minha memória e na minha alma. (Autobiografia)