19 de julho de 2007

“ISTO É TUDO MEU!”

Tivemos já ocasião de falarmos das visitas não desejadas do “manquinho” à Beata Alexandrina, quando lemos uma das páginas da sua Autobiografia.
O inimigo de Deus e das almas, dá aqui novas provas das suas manhas e dos seus artifícios quando quer seduzir uma alma.
O caso da Alexandrina é “bicudo” para ele, visto que, acorrentado pelo Senhor, não pode, por enquanto, aproximar-se muito dela nem lhe tocar, mas mesmo assim e, de longe, tenta quanto pode, ou quanto lhe é permitido, levá-la ao desânimo, às dúvidas sobre a fé e, porque não ao desespero.
Todos os meios são bons para ele, como abaixo veremos. Empregará até uma frase idêntica àquela antes dissera a Jesus, quando transportando-o sobre uma alta montanha e mostrando-lhe o mundo, lhe disse descaradamente : “Isto é tudo meu !”
Situa-se aqui a visão ― a primeira ― que a Beata Alexandrina teve do inferno.
A semelhança desta visão com aquela que teve do inferno Santa Francisca omana, é muito grande !


Talvez para contrabalançar esta terrível visão infernal, Jesus oferece-lhe uma visão mais agradável, mais linda, mais feliz e beatífica : Maria.

* * * * *

« Balasar, 7 de Fevereiro de 1935
Viva Jesus !
Meu P.
Já vai sendo tempo de eu dizer a Vossa Reverência como tenho passado tristes estes dias da minha vida.
Desde o dia 16 de Janeiro que Nosso Senhor não me tinha voltado a falar. Oh, como eu estava triste ! Parecia-me estar abandonada de todo. Passaram-se vinte dias sem eu receber o meu querido Jesus, tendo eu tão fortes desejos de estar sempre unidinha a Ele.
Chegaram, por fim, a primeira sexta-feira e o primeiro sábado e nesses dias dignou-se Nosso Senhor vir repousar na minha pobre alma. Empreguei todos os esforços para me preparar para bem o receber e lhe dar graças, mas foram inúteis todos os meus esforços porque só sentia frieza e nenhum fervor.
Vossa Reverência quer saber quem mais se me fazia sentir ? Era o demónio. Esse todo se consumia para me fazer companhia. É um tal enredo que não era muito para contar por escrito, mas assim fico mais sossegada da minha consciência : Na noite de 7 para 8 de Janeiro, estando eu a dormir, acordei sobressaltada, mais que uma vez, porque me parecia que à beira da minha cabeça, na travesseira se esgatanhava. Depois, de madrugada, vi atravessar umas sombras altas e pretas da porta de meu quarto para a janela. Na noite de 17 para 18, quando todos dormiam, estava eu a contas com minhas orações, figurou-se-me quase um caminho e por um lado uma barreira feia. A muita distância vi como que um portal. À entrada um vulto preto de cada lado, e ouvi dizer assim :
— Isto é tudo meu.
Passados momentos, vi, a par da minha cama, um abismo tão fundo e tamanho. Ai, o que eu vi lá dentro ! Coisas tão feias ! Não era gente o que eu via, não sei explicar o que era. O que sei dizer é que era uma multidão tamanha, tamanha e tão unida, muito mais unida do que a gente na missa campal no Congresso Nacional em Braga. Para os lados tinha umas covas tão feias ! E Oh ! que movimento eu lá vi. Do meio daquilo saíam labaredas, mas não eram como as do nosso lume. Lá, num sítio, via um montinho duns vultos pretos com umas coisas ao alto, não sei se eram paus se eram forcados. Para o outro lado, via outras sombras que me deram a impressão do quadro da morte do pecador: um a puxar para diante e outro a puxar para trás e saía do meio um rabo tão grande que formava um grande arco. E afiguarava-se-me que atravessavam por cima da minha cama as mesmas sombras pretas. Não podia rezar e não sabia as horas, mas bem as ouvia bater.
Na noite de 29 para 30 formou-se uma enorme escuridão dentro de meu quarto. Parecia-me ser uma casa muito feia onde me aparecia a um postigo uma cara muito feia também. Ouvia dizer assim :
— São os telhados da minha casa (mas eu não via telhas nenhumas). Cá por fora é feia mas lá por dentro é chique. Anda para mim, que outros que assim têm feito acham-se bem. Ama-me e deixa esse impostor a quem amas. Ele não quer que tu me ames porque chegas a ser tanto como Ele : tanto como eu, não. Eu estive hoje a ver que tinha mais almas do que Ele. Porque seria isso ? É porque valia recompensa.
Eu beijava e apertava na mão o meu crucifixo e ouvia dizer assim :
— Se não fosse esse impostor que tens na mão, punha-te um pé ao pescoço ; punha-te o corpo em mostarda. Mas isto há-de fazer Ele a ti e tu depois hás-de querer vir para mim, mas eu não te aceitarei. O que te vale é essa benzelhice. Não é porque eu tenha medo, mas odeio-o. Tenho nojo. Cospe-lhe !
Nesta ocasião aproximavam-se de mim uns grupos de vultos de cor avermelhada e ouvia dizer :
— Se eu quiser, não te deixo dormir.
Eu, no meio de tudo isto, sem ter um ministro de Nosso Senhor a quem pudesse abrir a minha consciência! Com quem eu pudesse desabafar ! E sem ter uma cartinha de Vossa Reverência par me consolar ! Como é que eu não havia de estar triste ? Chorei, mas graças ao meu querido Jesus, eram tristezas e lágrimas de grande resignação com a sua Santíssima Vontade.
Ontem tive a consolação de receber o meu querido Jesus. Eu tinha o costume de pedir a Nosso Senhor, para mandar uma multidão de anjos, querubins e serafins acompanhar o meu Jesus do sacrário até junto de mim e vir Ela com outra multidão para preparar o trono da minha alma para eu receber a Jesus e no fim dar-lhe graças por mim. Desta vez assim foi.
Depois de ter recebido Nosso Senhor, que paz eu sentia ! Estava de olhos postos e principiei a ver diante de mim tantas, tantas cabecinhas. Umas mais acima, outras mais abaixo, formando um grande arco. E mais a um lado umas coisas maiores e não sei com que estavam. Via no meio uma coisa maior mas não a divisava tão bem. À frente apresentava-se-me a figura dum trono com umas cores tão lindas e, do meio disto que eu via, saíam uns raios dourados.
Ao ver isto eu pensava que era Nossa Senhora acompanhada com os seus anjos como eu lhe tinha pedido. Pensava também se sim ou não havia de mandar dizer isto a Vossa Reverência. E disse assim : Oh ! meu Jesus, dizei-me se lhe hei-de mandar dizer ; e então disse-me Nosso Senhor :
— Diz tudo, tudo. Apresentei-te isto para veres que os teus pedidos são ouvidos no Céu. O que viste foi Nossa Senhora com os seus anjos, querubins e serafins com os seus instrumentos. Vieram preparar a tua alma e depois deram-me graças, amaram-me e louvaram-me como no Céu. Estão à roda de ti. Vieram em revoada. Eu não te abandonarei. É bem que te quero. É amor que tenho à tua alma. Tenho muito com que te beneficiar. Não te esqueças do que te tenho recomendado: os meus sacrários e os pecadores. A batalha é difícil de vencer.
E tornou-me Nosso Senhor a dizer :
— Olha!
Repetiu-se então o que já tinha visto mas já não se divisava também : sentia então todo aquele calor e aquela força que já muitas vezes tenho dito a Vossa Reverência. Mais tarde diziam-me assim :
— Não mandes dizer isto ! Condenas-te, Cais no inferno, o que vale é que ele não acredita em ti; bem sabe que o andas a enganar.
Adeus, até quinta-feira; veja, por caridade, quanto necessito das orações de Vossa Reverência e não me esqueça que eu farei o mesmo. Muitas lembranças da minha mãe, da Deolinda, e da Dª Sãozinha. Por caridade, peço que abençoe a pobre

Alexandrina M. C. »

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