20 de outubro de 2008

SENTIMENTOS DA ALMA - 1954


Continuo a sentir a perda de Jesus e da Mãezinha. Eles morreram para mim. Triste, tremenda separação. Não tenho palavras, a minha ignorância não deixa exprimir a dor desta separação. Perder a Deus, perder a Mãezinha, é perder tudo, é perder tudo. O meu coração e a minha alma estão numa angústia, estão como se estivessem sozinhos num universo de trevas, num mundo de perda eterna. Nem na terra, nem no Céu há conforto para eles, ou antes, nem existe a terra, nem existe o Céu.
Meu Deus, eu creio, creio, meu Deus. Assim o vou repetindo muitas vezes, sem ter apoio, luz e conforto de ninguém. A minha eternidade existe atrás de mim, em mim e à frente de mim. Tudo é eternidade desesperadora, revoltosa, odiosa contra tudo, contra Deus. Ai, a eternidade, ai, o que é a eternidade!... E a inutilidade que tudo me rouba?! A minha vida de tantos espinhos, de tantos punhais, de tanta contradição e humilhação é toda para ela.
Oh! Como me vejo de mãos vazias! Nenhum do meu sofrimento, nenhum do meu martírio aparece à luz do dia. Mas ele existe dia?! Há sol e estrelas no firmamento?! O que é isto, meu Deus, se sinto que não há Céu nem terra! Mas existe a eternidade? Eu vivo a eternidade. Vivo-a por Vosso amor e por amor às almas.
Não pode ser vista a profundeza do meu túmulo. Em que abismo estou! Ficam na superfície apenas a parede do meu sepulcro, mas eu desapareci, escondi-me. Fui cavando, cavando. Estou tão funda! Parece que tenho mundos, mundos sobre mim. Despi-me por mim de todas as coisas, por mim me enterrei, por mim mesma me fiz desaparecer. Os suores da alma não cessam com a canseira da escavação. É como se cavasse incessantemente sem tirar do meu punho o instrumento da escavação, mas a cavadela leva mais de um século. Por tudo seja bendito o Senhor!
No primeiro sábado não tive a visita da Mãezinha. Senti por Ela saudades de morte saudades de morte. Apesar da sagrada Comunhão desse dia ser mais íntima, mais confortante, ai de mim, se Jesus não velasse!
O meu horto não é aquele horto de outrora. A minha vida humana a em baixo sempre fugitiva sem pisar terra alguma dele. Lá em cima, a grande altura, sempre a mesma pomba a deixar cair do seu biquito muitas gotinhas que se espalham em orvalho, mas ela não se satisfaz só com isso; vai levar aos corações essa gota e com o mesmo biquito retoca-os, faz neles o ninho. Vai também às inteligências focá-las, enchê-las de luz. Como é grande a vida e o trabalho dessa pomba!... Assim esvoaçou sobre o Horto e assim hoje esvoaçou sobre o Calvário.
Eu tive o Santo Sacrifício da Missa; com a minha fé abandonada à Mãezinha pedi-Lhe que me levasse e me fosse imolar com Jesus e me desse todos os seus sentimentos. Senti em mim como que um desespero na fugida do Calvário. A minha vida morta era a vida humana, mas aquela pomba era e dava a vida do Céu. Sem sentir que Jesus morreu, senti que Ele chegou junto de mim, sentou-se e como o bom Pastor chamou a si a Sua ovelhinha:
— “Vem, minha filha, sou o teu Jesus. Descansa aqui.”
Sentei-me junto d’Ele; nos Seus joelhos coloquei a minha cabeça, sobre a minha e o meu ombro deixou Ele cair o Seu divino braço. A minha alma foi recebendo conforto.
— “Sou o teu Jesus, sou o teu amor. Confia, confia! Este colóquio doloroso, mas de fé, continua a salvar almas aos milhões, aos milhões.”
— Creio, creio, Jesus, mas custa tanto, tanto a crer! Custa tanto, tanto, a confiar! Valei-me! Sem Vós não posso! Tudo por Vosso amor e pelas almas!
Jesus tomou-me para o Seu regaço, uniu os nossos corações, fez passar a gota do Seu Divino Sangue.
— “Dou-te, esposa querida, com toda a fortaleza, a gota do meu Sangue. Nova vida para tu dares vida. Coragem! Coragem! Crê! Nova vida de fé! Confia! O Céu não te abandona! Jesus está contigo. Vai salvar almas, vai para a tua cruz!”
Obrigada, obrigada, Jesus.

14 de outubro de 2008

A BEATA ALEXANDRINA

A Beata Alexandrina de Balasar

Aí pelos anos trinta, do passado século, a freguesia de Balasar, da Póvoa de Varzim, começou a correr mundo. Divulgava-se o denominado caso da “Santinha de Balasar”.
Alexandrina Maria da Costa nasceu em 30 de Março de 1904 no lugar de Gresufes, Balasar, onde passou a infância na casa dos avós, depois mudou-se com a mãe e a irmã até ao resto da vida, para uma casa situada no lugar do Calvário.
Filha de gente humilde, andou por algum tempo a servir, durante a adolescência, mas a sua débil constituição física aconselhava a mãe a retê-la em casa ocupando-se na costura e nos trabalhos domésticos. Tinha 14 anos, precisamente no sábado Santo de 1918, quando inquietada por alguns rapazes da aldeia, cujas intenções julgou serem maldosas, se lançou de uma janela ao quintal ficando prostrada e com violentas dores no ventre. Daí resultou um mal estar que os tempos agravaram e a levou, aos 21 anos de idade, a acamar definitivamente.
A Alexandrina revelou ter, desde criança, um coração terno e amorável, fazendo com que algumas pessoas gostassem de a ter na sua companhia. Educada cristãmente, esmerava-se nas práticas religiosas, sendo sempre a primeira no serviço da Igreja.
Quando se viu irremediavelmente perdida para o mundo e depois de ter pedido, em vão, a sua cura, compreendeu que a vontade de Deus era outra e abraçou-se a ela com todo o amor e generosidade oferecendo-se para vítima, dando início a um itinerário espiritual onde tomam expressão as grandes penitências e sublimes arroubos místicos.
De 1938 a 1944 teve como director espiritual o Padre Mariano Pinho, jesuíta, e daí em diante o Padre Humberto Maria Pasquale, salesiano.
A partir de 27 de Março de 1942 até à sua morte passou a alimentar-se exclusivamente da Eucarística e, caso curioso, ao mesmo tempo que não suportava os alimentos no seu organismo, sentia grandes saudades da alimentação.
Por um período de 17 anos (1938-1955) sofreu as dores da Paixão de Jesus. Numa primeira fase (todas as sextas-feiras, desde 3 de Outubro de 1938 até 20 de Março de 1942) sofreu sobretudo as dores físicas; na segunda (desde 27 de Março de 1942 até à morte) sofreu principalmente as dores íntimas de Jesus.
Devido aos fenómenos místicos foi submetida a repetidos exames de sacerdotes e de médicos. Por três vezes foi internada em hospitais especializados, sendo o último internamento de quarenta dias no Refúgio de Paralisia Infantil da Foz.
Morreu no quartinho onde passou a sua vida de martírio, no dia 13 de Outubro de 1955, com 51 anos de idade. O seu funeral foi uma verdadeira apoteose em que se incorporaram milhares de pessoas vindas de todo o país. O seu cadáver foi vestido, como era de sua vontade, com o uniforme de Filha de Maria. Esteve exposto, em câmara ardente, numa sala contígua ao quartinho da morte, durante vinte e quatro horas e, depois dos ofícios religiosos na Igreja Paroquial, foi a enterrar em campa rasa no cemitério da freguesia, sendo depois mudada para uma capela-jazigo e por fim trasladado o seu corpo para a Igreja Paroquial em Julho de 1978.
A fama de santidade fez de Balasar um centro de peregrinação, particularmente concorrido nos dias 13 de cada mês. Os devotos visitam a sepultura, na Igreja, e a casa onde viveu e morreu.
A autoridade eclesiástica, nove meses após o falecimento, aprovou uma oração para uso particular com o fim de pedir a Deus a beatificação da Alexandrina. Também chegavam, sobretudo do estrangeiro, listas de assinaturas pedindo a introdução da causa pelo que foi dado início ao processo, sendo nomeado para Postulador da causa o Padre Hector Calovi, salesiano, que em 1966 apresentou os Artigos introdutórios para o Processo Informático Diocesano que decorreu até 2 de Abril de 1973. De Braga passou a Roma que a declarou Venerável, reconhecendo a heroicidade com que a Alexandrina praticou as Virtudes Cristãs, em 12 de Janeiro de 1996, e a beatificou a 25 de Abril de 2004.
Escreveu o seu diário místico e deixou milhares de páginas manuscritas recolhidas em doze volumes.

Mons. Manuel Amorim

13 de outubro de 2008

QUERES VER OS ANJOS ?

Carta a ler atentamente e a meditar frequentemente !...

Esta pergunta de Jesus à Beata Alexandrina ― que vai evidentemente aceitar a proposta ! ― vem a seguir a algumas informações tristes e a alguns pedidos urgentes; ela é como uma “recompensa” e um estímulo não só quanto ao prosseguimento da missão que lhe é pedida : reparar pelos pecados da impureza, mas também para que não receie em tudo escrever, tudo contar ao seu Paizinho espiritual.
De facto, Jesus o afirma : — “Faço isto para te obrigar a obedeceres e a escreveres e a confiares nisto”.
Desde há algum tempo que o demónio lhe dizia que nada mandasse dizer ao Padre Mariano Pinho, porque este em nada disso acreditava. Não porque se tenha deixado convencer pelo diabo, mas sobretudo porque lhe custava escrever e contar certas coisas ― sobretudo os elogios que Jesus lhe fazia de vez em quando ! ― Alexandrina procurava não escrever, mas Jesus desejava que tudo fosse comunicado, que o Paizinho espiritual da sua querida esposa estivesse sempre informado de tudo quanto se passava na alma dela, de maneira a poder dirigi-la convenientemente.
Esta vontade de Jesus de que tudo fosse comunicado, tinha também um outro fim : instruir, demonstrar de que maneira Ele se comunica às almas. Diversas vezes Jesus dirá que o caso da Alexandrina devia ser estudado, muito bem estudado ; disse-lhe também diversas vezes que ela era mestra em ciências divinas.
Passados anos desde que nasceu para o Céu, damo-nos conta, uns após outros, que o caso da Alexandrina é na verdade um “caso muito sério” e que o estudo dos seus escritos espirituais são da maior utilidade para uma maior compreensão da acção divina nas almas.
Nesta carta que vamos ler, Jesus fala uma vez mais do pecado da impureza e dos trágicos resultados para as almas que se deixam por ele surpreender ou que nele encontram motivo para mais e mais ofenderem o Senhor.
Carta a ler atentamente e a meditar frequentemente !...

* * * * *

« Balasar, 6 de Junho de 1935
Viva Jesus !
Meu P.
Estou deveras admirada com o silêncio de Vossa Reverência. Por acaso ter-lhe-ia dado causa para assim proceder ? Estou sossegada na minha consciência ; se em alguma coisa o ofendi foi por ignorância, por isso maior deve ser o perdão.
Eu continuo muito doentinha ; mas tenho tido a consolação de receber Nosso Senhor todos os dias. Isto só por um milagre do Céu, pois o Senhor Abade nunca me fez tal. Algumas vezes recebo o meu Jesus e fico muito desconsolada. Bendito Ele seja ! Tudo é permitido por Ele, seja em tudo feita a Sua Santíssima Vontade.
No dia dois, depois das nove horas da noite, estava eu a fazer a oferta de tudo o que se passasse em mim durante a noite como actos de amor a Nosso Senhor Sacramentado. Fazia-o mais com o pensamento do que com os lábios porque não podia. Eu disse ao meu Jesus se fosse da Vossa Vontade eu ficar convosco nos vossos sacrários durante esta noite ! Sim antes queria fazer companhia a Nosso Senhor do que dormir. E dizia também :
― Vinde meu bom Jesus e vivei em mim como eu desejo viver convosco ; operai em mim tantas graças como se eu vos recebesse sacramentalmente.
Principiei a sentir a presença de Nosso Senhor em mim e logo ouvi que me chamava :
— Filha, filha, ó minha querida filha anda passar a noite comigo nos meus sacrários : anda consolar o teu Jesus. Anda com a tua reparação curar as minhas chagas que estão tão vivas ! Fui hoje tão ofendido ! Caíram tantas almas no inferno ! Cortei-lhe o fio da vida antes do tempo marcado por não as poder sofrer mais.
Eu ofereci a Nosso Senhor todo o meu corpo para Ele crucificar pelo seu divino amor para a salvação das almas; e dava-lho de tão boa vontade como Ele se deixou crucificar por meu amor. E dizia-me Nosso Senhor :
— Como me consolas ! É o bálsamo com que curas as minhas chagas. Atenção, minha filha, para mandares dizer ao teu pai espiritual. Esta noite vão cair no inferno mil almas e o pecado que me leva a condená-las é o pecado da impureza, a maldita carne. Já lá estão a cair fartas de me ofenderem e Eu abundado de as suportar. São de todas as classes : jovens e donzelas, casados e viúvos, velhos e novos. Que horror ! Como Eu sou ofendido ! Estão mais para lá cair ; se me dás o teu corpo para sofrer por eles ainda lhes acudirás. Pede-me por elas, dá-mas são minhas. Custaram-me o meu sangue. Eu não exijo de ti a noite inteira porque não podes. Mas só no Céu verás como lhes acudistes nestas horas. Eu preciso de destruir o mundo, poucas famílias deixar, mas não o faço, enquanto tiver almas que como tu sustentem o braço da minha justiça.
Parecia-me que era tão beijada e abraçada ! E dizia-me Nosso Senhor :
— Amo-te tanto, minha filha ! Amo-te tanto ! Tenho mais cuidado pela tua alma do que um da terra teria se possuísse todos os tesouros do mundo. Ama muito a minha Mãe Santíssima que Ela também te ama muito. Como me consolas quando me pedes o aumento do amor dela e da Santíssima Trindade.
No dia três, no fim da Sagrada Comunhão, falava-me Nosso Senhor :
— Minha filha, lá caíram no inferno as almas. Como Eu fui ofendido ! Como me renovaram a minha paixão ! Muitas também que mereciam lá estar, mas poupei-as pela tu reparação. Não posso exigir mais de ti, dando-me o teu corpo e dizendo tudo ao pai espiritual para ser comunicado às almas. Queres ver os anjos ?
E eu disse a Nosso Senhor :
— Mostrai-mos, Jesus, Mostrai-mos Jesus.
Principiei, então, a ver uma coisa alta do feitio do Céu com uma cor tão linda ! Via nela não sabia o quê. Não sei como fiquei. Como havia de mandar eu dizer a Vossa Reverência que eram os anjos se eu não divisava o que era ?
Dizia-me Nosso Senhor :
— Faço isto para te obrigar a obedeceres e a escreveres e a confiares nisto.
Do meio saiam à moda de uns raios dourados e dizia-me Nosso Senhor que era o amor com que eles O amavam, via também à moda de um altar em ponto grande e no meio parecia-me uma pombinha branca. Por cima tinha muitos, muitos anjinhos; estavam em torno sobre a Santíssima Trindade. Passados alguns momentos voltei a vê-los; já os divisava melhor. Eram mais bastos do que moinhos. Parecia que estavam aos montes. Via mais outras coisas, eram os querubins e os serafins. Disse-me Nosso Senhor :
— Vê-los? Há-de ir a tua alma para o Céu cercada deles.
Sentia todo aquele calor e força de que tenho falado a Vossa Reverência e uma união tão grande com Nosso Senhor que não podia deixar. E disse-me o meu Jesus :
— Manda dizer ao teu pai espiritual que Eu quero que sejam realizados os teus desejos : quero que sejas visitada por ele. Foi a ele que confiei a tua alma e teus segredos. O tempo passa. Não queiras nada do mundo : vive como se estivesses comigo em corpo nos meus sacrários que Eu vivo em ti como lá. É a paga do amor que me tens e de quereres viver lá unida a mim.
No dia seis, pouco depois da Sagrada Comunhão, falava-me Nosso Senhor:
— Ó filha, tu não te cansas de me dizer que habite em ti, e Eu não me canso de em ti viver. E como me hei-de cansar se tu és o meu anjo, a companheira fiel dos meus sacrários ! Continua a tua missão que dentro de pouco acabará. Deixa-me que te diga que o teu fim está próximo. Vive nos meus sacrários; pede-me pelos pecadores. O meu coração está angustiado nos sacrários. Eu chamo-os por todos os modos : infelizes. Estão surdos à minha voz divina, estão cegos à luz do seu Deus. Sofre, minha filha, que os teus sofrimentos e aflições transformar-se-ão, dentro em pouco, em rosas cobertas de pérolas preciosas. Minha filha, à volta de ti é o paraíso. Os anjos, os querubins, e os serafins e a minha Mãe Santíssima. Como Eu sou bem louvado por eles ! Queres voltar a vê-los ?
Eu disse que sim ao meu Jesus. Principiei, então, a ver tantas coisas ! Um movimento tão grande ! Pelo meio tinha tantos, tantos parecia fios dourados entrelaçados uns nos outros! E dizia-me Nosso Senhor :
— É o amor em que eles ardem por mim.
Sentia um calor tão forte e uma força a abraçar-me! E dizia-me Nosso Senhor :
— Amo-te tanto ! Faz que eu seja amado que, dentro em pouco, amar-me-ás e contemplar-me-ás para sempre no Céu.
Por hoje mais nada. Muitas lembranças da minha mãe, da Deolinda. da Senhora Dª Sãozinha, destes dias não sei nada, pois está para Braga.
Por caridade, não esqueça de pedir por mim que preciso muito para eu fazer em tudo a vontade de Nosso Senhor, que eu também tenho pedido muito a Jesus por Vossa Reverência e prometo continuar. Fico ansiosa por receber uma cartinha de Vossa Reverência.
Abençoe, por caridade, a pobre
Alexandrina Maria da Costa. »[1]


[1] Carta ao Padre Mariano Pinho : 6 de Junho de 1935.

11 de outubro de 2008

FESTA LITÚRGICA

BEATA ALEXANDRINA

HORARIOS

13 de Outubro de 2008

12/10 — 20h30 – Procissão de Velas

13/10 — 06h30 – Oração do Rosário
— 07h00 – Eucaristia em honra da Beata Alexandrina
— 07h30 – Exposição do Santíssimo
— 10h30 – Eucaristia para doentes com Bênção do Santíssimo
— 12h00 – Exposição do Santíssimo
— 18h30 – Encerramento do Lausperene e Bênção do Santíssimo
— 19h00 – Eucaristia Solene cantada em honra da Beata Alexandrina

Durante todo o dia haverá sacerdotes disponíveis para atender de Confissão.

9 de outubro de 2008

SENTIMENTOS DA ALMA


Perdi o meu maior tesouro. Perdi a Jesus, perdi a Mãezinha. Parece, sinto como se Eles morressem para mim. Não posso pensar na triste, na dolorosíssima separação de sexta-feira. Triste mortório, mas é tal a diferença como da terra ao Céu. Custou mais, infinitamente mais, a separação de Jesus e da Mãezinha, este sentimento como se Eles morressem para mim, do que quando perdemos e nos separamos dos nossos entes queridos.
Ai, meu Deus, ai, meu Deus, só ao Céu é dado compreender esta dor e àqueles que a sentem. Apenas levanto um bocadinho do véu e não consigo mais nada. Foi tal a dor que me pareceu ficar sem coração, não sei se desfeito pela dor, se Jesus e a Mãezinha mo levaram. O que sei é que ficou em mim um vazio tão grande que só o Céu mo podia encher. E depois o sofrimento de cada dia e cada noite resultado de tudo isto. Chorei muitas vezes e muitas lágrimas. A dor levava-me a levantar a voz, mas logo me vencia e chorava em silêncio. Que as minhas lágrimas sejam actos de amor para Vós, Jesus e Mãezinha! Ai de mim! Perdi os meus Amores! Mas logo a confiança obrigava o coração a falar. Creio, creio que não os perdi. Todo o meu martírio reverta em favor das almas. Sou a Vossa vítima. Creio, creio, confio que não estou só. Ai quanto custa dizer: Creio! Sem crer; confio! Sem confiar.
Neste momento, a minha alma sangra de dor por não ser capaz de dizer como foi a minha separação e a ter necessidade de o dizer. Perder a Jesus e a Mãezinha foi perder o Céu. Todo o meu ser se retalha e, no meio dela, vou dizendo sempre: creio, creio, meu Deus, eu creio! Nestes dias tão dolorosos, de tão grande martírio para o corpo e de tanta angústia para a alma, ainda veio mais um tormento para o meu pobre coração. Várias cartas me chegaram às mãos a dizerem-me que o senhor Bispo de Aveiro tinha proibido a vinda aqui dos sacerdotes. Punhais tão dolorosos! A minha alma tinha a visão da consequência desta ordem. Tanta humilhação! Se eu pudesse reparar tanto escândalo que se dá! Tantas más interpretações por causa disto! A minha oferta de vítima não cessa diante do Senhor. Por Vosso amor, tudo! Faça-se a Vossa vontade! O meu túmulo, o meu túmulo, a minha arte de cavador vai continuando. Cobri-me eu mesma com a terra do meu sepulcro. Fui eu que me cobri, fui eu que desapareci, que me enterrei. Estou tão funda, tão funda!... Parece que toda a terra da humanidade me cobre e os suores da alma vão continuando assim como a eternidade e a inutilidade. Não conta, não anda a eternidade. Que pavorosa ela é! Se Jesus não velasse, só ela me tirava a vida. Tanto sofrer para tanta inutilidade! Uma vida de tanta dor para nada ter que oferecer a Jesus. Estou de mãos vazias. As minhas ânsias tão infinitas, tão infinitas não as posso fazer compreender. Quero o mundo, quero o mundo dentro do meu coração. Quero todos os corações, quero todas as almas, quero levá-las com o meu sangue. Quero amar a Jesus pelo mundo inteiro. Queria morrer, a cada momento, até ao fim dos séculos e a cada momento dar o sangue até à última gota, para que nenhuma alma se perdesse, nem nenhum coração deixasse de amar a Jesus. Queria, sim, dar todo o meu sangue e a vida, a cada momento, até ao fim dos séculos para evitar um só pecado.
Ai, ai, não posso consentir que Jesus seja ofendido! Eu não tive horto. Vou dizer o melhor que puder o que senti.
Sobre o solo do horto esvoaçava uma pomba. Tinha sempre no seu biquito uma gota que deixava cair sobre a terra e se transformava em orvalho fecundador. Uma gota caía, logo outra aparecia. Este orvalho era celeste. Era o maná que alimentava, que dava a vida, dava luz e sabedoria. Uma vida no ar, outra vida na terra. A minha alma tornava-se sábia, compreendia tudo isto, tudo o que era do Céu. A minha dor, a minha dor humana vivia-a, sentia-a o mais dolorosa que se pode imaginar.
No calvário de hoje, a mesma pomba continuava a voar, a deixar cair as mesmas gotas que se transformavam em orvalho, orvalho celeste e a dar a mesma luz e vida de sabedoria. Eu cá em baixo levava a cruz da minha vida dum martírio indizível. Não vi Jesus, não o senti. Não soube que Ele expirasse. Veio alguém que juntou ao meu coração, à minha vida terrestre a vida divina. Essa mesma vida comunicava-se a mim como quem injecta. Desapareceu a minha vida terrena para viver a outra. O coração e a alma fortaleceram-se mais. A casa do meu interior tinha mais luz. Diz-me Jesus nesta altura:
— “Sou o Senhor do mundo, o Senhor da paz, o Senhor da fé e da confiança. Crê, crê, vive da fé. É colóquio de fé.”
Creio, creio, Jesus. A gota de sangue Jesus não disse que ma ia dar; senti o choque e o meu coração ficou unido ao outro Coração, a chupar dele como a criancinha no seio de sua mãe. Novas palavras de Jesus.
— “Coragem! Vive para as almas. Recebe as carícias de minha Bendita Mãe. Sou Eu o portador delas, já que amanhã Ela não te vem falar.”
— Obrigada, Jesus. Dizei à Mãezinha o meu muito obrigada.
Não disse tudo da minha separação. Que saudade das carícias da Mãezinha e saudade da Santíssima Trindade. Toda Ela me abraçava com a Mãezinha, e o Divino Espírito Santo em forma de pomba irradiou-me toda com a Sua luz, que iluminou todo o meu ser; prendia-me a Ele com fitas de várias cores que d’Ele pendiam. O que foi! Quanto custou! Não digo nada. Fico na minha dor e na minha eterna saudade.

1 de outubro de 2008

SENTIMENTOS DA ALMA


Não sei como dizer algumas palavras, mostrando um nadinha o muito que me vai na alma. Não sei como obedecer.
― Meu Deus, meu Deus, quanto se sofre! Seja tudo por Vosso amor! Ó dor, ó dor, tu só és doce, levada por amor de Jesus. Mas custas tanto! Há tão pouco quem te compreenda e se compadeça dos que sofrem! Sede louvado e bendito em todas as coisas; seja feita, Senhor, a tua vontade. É tal o sofrimento que tenho no corpo e na alma que me faz sentir imensa necessidade de pedir a Jesus para me levar para o Céu. Só com a força de um Deus se pode sofrer assim. Não posso pensar na perda de Jesus e da Mãezinha; a minha alma não suporta tal dor. Não me aproveitaria eu das graças que pelo Céu me foram dadas?
Meu Deus, meu Deus, compadecei-Vos de mim, compadecei-Vos desta pobre alma nas maiores trevas, no maior abandono e sem um guia! Ai, Jesus, ai, Jesus, ai, Mãezinha! Junto ao meu sepulcro, mas na maior profundidade, que nunca olhares humanos podem penetrar, estou eu nos meus suores, na minha cavação incessante. Não sei o que faço nem sei onde vou parar. Ai de mim, para onde vou! Que pavor! Na superfície da terra estou como sozinha no mundo; é um mundo sem luz, um mundo sem fôlego vivo.
Sinto uma velhice, como não houve nem haverá jamais. Esta velhice é no corpo e na alma. É uma velhice; quase junto a cabeça aos pés e varro a terra com o rosto. Foi o corpo que envelheceu a alma e a afeiou.
Só deixei o mundo, quando ele me deixou, quando me escarneceu e no rosto escarrou, quando com vozearias e maus-tratos tentava tirar-me a vida. Tudo passou, só eu fiquei nessa velhice morta e apodrecida. Quase nada tenho rezado com os meus sofrimentos, com tão doloroso martírio. Fiquei quase por completo esquecida das coisas do Céu. Tenho dito a Jesus e à Mãezinha que isto não representa a diminuição do meu amor, mas sim do meu muito sofrer. Faço repetidos actos de fé: creio, Jesus, eu creio. Perder a Jesus, perder a Mãezinha, foi perder o Horto, perder o Calvário, foi perder tudo. Caminho por aqui e além, fito um e outro lugar sem proveito algum e a ninguém encontrar.
Foi neste estado de alma que se aproximaram as três horas de hoje. De repente, fiquei num mar imenso de naufrágio; a todo o custo lutei com as ondas, entrando sempre pelo mar imenso a apanhar e a trazer comigo os náufragos. Precisava de conforto, estava perdida, desfalecida de tanto lutar. Veio Jesus e disse-me no meio do naufrágio:
― “Minha filha, minha filha, mar de dor, mar de sangue, mas mar de salvação das almas sem número, aos milhões, aos milhões, aos milhões. Muita dor exijo de ti, porque muita reparação exigem os crimes da humanidade. Como o mundo peca, como o mundo peca! E há tão pouco quem sofre e repare!”
Dito isto, Jesus desapareceu e eu fiquei no mesmo mar e em trevas apavoradoras.
― Sois Vós, Jesus, sois Vós ou estou enganada? Onde é que estais? Valei-me, valei-me.
Ele não se apressou, deixou que a luta e as trevas continuassem, até que depois veio e disse-me:
― “Colóquio de fé, colóquio de fé, minha filha, colóquio de amor. Muito sofres, porque muito amas e és amada. Eu tenho que fazer milagres, para que possas resistir à dor que te causam as ofensas feitas ao meu Divino coração.”
Fiquei no Seu regaço, entre os Seus braços, muito estreitada ao Seu Coração divino. Jesus acariciava-me e fitava-me com doçura e amor. Já se passaram umas poucas de horas e eu ainda sinto no coração aqueles olhares tão ternos e penetrantes. Com a máquina do Seu Coração parece que sulfatava o meu. Aquele fogo ateou-me no meu peito.
― “Qual queres, minha filha, ver-me a sofrer ou ver-me na alegria?”
― Ó Jesus, a dor para mim e a alegria e consolação para Vós.
Ele chegou a suspirar, mas eu bradei-Lhe:
― Sofrer não, sofrer não, meu Jesus.
― “Coragem, filha, e confiança: está perto, está perto o teu Céu. Recebe a gota do meu Divino sangue. É o Sangue de Cristo, é a mesma vida de Cristo a viver em ti. Comunica ao mundo, comunica às almas esta vida; deixa-as servir e aproveitar-se dela, conforme as suas ânsias de união comigo. Sofre pelo mundo, salva o mundo; sofre, sê vítima no mais alto grau pelos sacerdotes. Como eles pecam, como eles pecam em tão grande número!”
― Sou a Vossa vítima, Jesus. Lembrai-Vos de todas as minhas intenções. Creio que estivestes em mim, creio que viveis em mim.
Alexandrina Maria da Costa