quinta-feira, fevereiro 19, 2015

COMO CUSTA O MEU VIVER

Balasar, 24 de Janeiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Primeiro que tudo quero agradecer ao meu Paizinho a boa cartinha que teve a caridade de me escrever. Veio dar-me uns momentozinhos de alegria e de alívio. Foram mesmo poucos. Passados uns momentos eu voltei ao mesmo estado. É assim que o meu Jesus quer; que se faça a Sua Santíssima Vontade. Eu estou sempre pronta para o que Ele quiser. Confio que não me faltarão as forças precisas. Ai, meu Paizinho como custa o meu viver: ai a minha vida. Como eu queria poder fugir, desaparecer da vista de todos. Sinto que sou indigna de ser visitada e conhecida. Que miséria a minha, que nada eu sou.


Vai para às 9 da noite: que escuridão lá fora: mas maior noite é a escuridão que sinto na minha alma. Meu Paizinho, meu Paizinho, como hei-de viver assim? O meu peito parece que se abre com a aflição que sinto dentro. Se eu digo amo-Vos meu Jesus, Jesus eu Vos amo, parece que a minha prece se abafa, se enterra debaixo de peso que me sobrecarrega.
Os desejos de consolar a Jesus, as ânsias de O amar continuam e muito fortemente. Eu digo: ó meu Jesus, eu queria amar-Vos com o amor de todo o Céu e de todas as almas; assim parece que não caibo em mim, não me satisfaz. Ainda que eu possuísse todo esse amor, não me bastavam para os desejos que tenho de amar Jesus. Paizinho, será falta minha? Desgostarei o meu Jesus! Quem O ama como a Mãezinha querida, e toda a corte celeste? E a mim não me bastava este amor? Meu Deus, meu Deus, como pode ser isto, eu quero amor, amor, amor. Não sou capaz de exprimir melhor os desejos que tenho de amor. Tenha a caridade de me dizer se é falta minha. Mas ai, como eu queria gritar alto, bem alto a pedir amor. Ai, como eu tenho saudades do Céu. Passo momentos com tantas saudades que me parece não poder viver mais assim. Quando chegará o Céu? Quando acabarão as minhas dúvidas? Por um lado meu Paizinho a infundir-me coragem: por outro lado o meu Jesus e eu sempre caída, cheiinha de medo de enganar. Meu Deus, meu Deus, mas eu não tento enganar ninguém. Como posso eu dizer e fazer tanta coisa por mim? Ai meu Paizinho, como é estreitinho o caminho do Céu.
Agora pertinho da noite, veio cá o Senhor Abade ler-me uma carta que lhe escreveu o Senhor Cónego Vilar em que dizia que o Senhor Arcebispo queria que ele voltasse aqui na próxima sexta-feira. Dizia-lhe também que avisasse a doentinha que não achava nisso inconveniente nenhum. O Senhor Arcebispo vai para uma reunião de padres para a Póvoa e que o vinha trazer de automóvel a casa do Senhor Abade e buscá-lo. Mais um sacrifício que tenho de fazer. Só por amor de Jesus e das almas eu sofro isto. Pobre de mim, não roubei nada a ninguém, mas ando a ser interrogada. Se ao menos valer a pena o meu sofrimento! Que Nosso Senhor mo aceite, só Ele sabe quanto me custa. O Senhor Abade disse-me que na sexta-feira quando eu estivesse só com o Senhor Dr. Vilar que lhe pedisse para ver se ele arranjava licença para eu ter o Santíssimo Sacramento em casa. Eu não quero desobedecer ao Senhor Abade, mas não tenho licença do meu Paizinho para o fazer. Peço, por caridade, se não achar bem que eu lhe diga, para me avisar por telegrama que não o faça. E eu então nada digo. Posso estar sossegada? Avisa-me se não achar bem? O demónio diz-me que eu queria grandezas, mas eles tanto hão-de andar que hão-de descobrir que é mentira. Chama-me nomes feios e faz muita festa para me arreliar e parece que me quer atirar pelos ares. Como já é um pouco tarde vão só umas palavrinhas do que Nosso Senhor me disse hoje.
Digo ao meu Paizinho se o não amásseis como o amais, não lhe entregavas a minha alma, não me confiavas a ele? Entregaste-lhe o penhor mais querido, o objecto de todas as Vossas atenções? Portanto, paz, amor e confiança?
Adeus meu Paizinho. Ainda falta tanto tempo para vir cá! Nosso Senhor me dê forças até lá. Não se esqueça de mim na sexta-feira. Já que não pode assistir-me aqui, ao menos acompanhe com orações. Tenho tanto medo de estar sozinha! Quando acabarão estes exames? Parece que fico sempre com raposa, nunca chego a ficar bem.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.
Fará o favor de me recomendar aos Senhores Padres.

A bênção e perdão para a pobre Alexandrina.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

ANDA, MEU ENCANTO, OUVIR UMAS PALAVRINHAS DO TEU JESUS

Balasar, 20 de Janeiro de 1939

Viva Jesus!

Meu Paizinho,

Há pouco mais duma hora que acabou a paixão: que foi bem dolorosa. Estive a descansar e agora com muito custo vou-lhe dizer umas palavrinhas.


Antes de principiar, chamou-me Nosso Senhor:
— Anda, meu encanto, ouvir umas palavrinhas do teu Jesus. De novo te venho pedir uma esmolinha como o pobrezinho à porta do benfeitor. Não pede ele vezes sem conta?
— Ó meu Jesus eu aceito tudo, sofro tudo pelo Vosso divino Amor e para fins que tendes em vista: contanto que me deis força.
— Dou, estou contigo, acompanho-te sempre com o teu Cireneu.
O meu Jesus cumpriu a promessa. Acompanhou-me. No caminho do Calvário, quando eu sentia que estava tonta, tonta a desfalecer, disse-me Jesus:
— Vem agora o teu Cireneu para te dar força e coragem.
Sinto então que os auxílios do meu Paizinho me ajudavam a caminhar.
Já estou com tremendas dúvidas. Principiaram quase logo. Ai, meu Jesus: Ó meu Paizinho, custa tanto, tanto, parecer que sou eu quem faço tudo. Faça-se em tudo a vontade do meu Jesus. Não sei o que sinto, certamente é o demónio que não quer que eu dite esta carta. É uma força que parece que me arrasta para trás. Mas se é ele, não venceu.
Agora vai o que Nosso Senhor me disse no fim da paixão.
Queríeis mais almas para as crucificar como este amor, como esta louquinha e não as tendes? Querem amor, mas não querem sofrimentos? Querem-se assemelhar a Vós, mas não querem ser crucificadas? O mundo está preso num fiinho tão quebradiço? Dum instante para o outro ou o Santo Padre se move a consagrá-lo ou o castigo vem ao mundo? A vossa Imaculada Mãe tem o remédio para tudo? Mas até lá crucificais a Vossa louquinha? A consagração do mundo tem tantas vantagens? Faz que desça o perdão e a paz do Céu à terra? Faz que vão a Vós os corações, e afervora as almas no amor à Vossa Mãe Santíssima? Vós quereis que Ela seja amada? Ela está entre o pecador e a mão da Justiça Divina? É a salvação da humanidade? Que remédio tão salutar! Depressa, depressa a aplicá-lo! Ai, que maldade vai pelo mundo? Sofrestes tanto? É assim que sois recompensado? Pobre Jesus! Quero amar-Vos e reparar esses crimes. Aqui me tendes pronta para tudo Jesus. Se mil corpos tivesse, mil Vos dava par serem crucificados. Eu agradeço-te, meu encanto, e aceito-te os teus desejos. Não tendes que agradecer-me, meu Jesus, estes desejos são Vossos: Vós mos destes, eu vo-los entrego.
Agora mando isto para o meu Paizinho. Fará ele como bem entender?
Será bom mandar esta notícia ao Santo Padre? Digo, tudo, tudo ao meu Paizinho. Digo-lhe que o amais muito, muito, muito? Que estais sempre contente com o que ele faz. Sim Jesus. muito obrigada: Eu Vos agradeço por ele.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e Çãozinha.

A bênção e perdão para a pobre, a mais pobre de todas as criaturas. Alexandrina.

terça-feira, fevereiro 17, 2015

NÃO MEREÇO SER FALADA

Balasar, 7 de Janeiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,

Já ontem era para lhe ditar umas palavrinhas, porque sentia necessidade de o fazer. Mas custava-me tanto a falar, estava tão mal disposta! Mas não esperei por melhor dia. Ai, meu Paizinho, quanto esta pobrezinha sofre. Eu queria esconder-me por completo e não queria que o meu nome fosse falado nem enquanto viva, nem depois de morta. Queria que se procedesse como se eu não tivesse vindo ao mundo. Claro está, não sou eu que quero, é a tribulação que me consome.


Não mereço ser falada, sou digna de desprezo. Vivo numa tristeza e noite contínuas. Trevas, trevas, ó que trevas. Vejo isto a grande distância. É escuro, é medonho, o caminho que tenho que seguir. Nem ao menos uma pequena luz para me guiar. Por vezes parece que rebento com o peso que vem sobre mim. Oh! como me faz sofrer!

Faz-me sofrer também, não caibo em mim, parece que me faz rebentar, as ânsias do meu Jesus. Ai, meu Paizinho, como eu queria amar o meu Jesus. Ele é digno de todo o amor.

Eu sofro, e sofro tanto, por me parecer que O não amo e que não tenho que Lhe oferecer. Ai meu Jesus que há-de ser de mim. Como eu me vejo longe de Vós. Meu Paizinho, neste mesmo instante me brada Jesus:
— Coragem, coragem, para o sacrifício. Não negues nada ao teu Jesus.
Momentos antes de principiar esta carta chamava-me Ele:
— Alexandrina, meu querido amor, já que não chamas por Mim, chamo Eu por ti. Dás-me todos os sacrifícios que te peço?

— Tudo, tudo, meu Jesus: o que eu quero é ter que Vos dar!

— É esta vida triste e dolorosa, mas Eu quero que vivas assim. Se soubesses em que fim aplico os teus sofrimentos! O proveito que tiro! Mas confia que te dou força e te darei sempre que precises, o teu Paizinho para te confortar e te guiar.

Eu lembro-me sempre do meu Jesus, mas confesso a minha falta, não chamo por Ele com o fim de Ele me falar. Desgostarei o meu Jesus? Ficará triste com o meu proceder? Por caridade, diga-me alguma coisa. Eu não quero desgostá-Lo. O sofrimento da minha alma, o meu desânimo, é que me obriga a fazer assim.

Hoje não lhe mando dizer mais nada do que o meu Jesus me tem dito.

Tem-me falado todos os dias. E nesses momentos sinto muita paz e não tenho dúvidas nenhumas. Mas sempre debaixo duma enorme tristeza.

O demónio diz-me:

— Juro-te, juro-te que és tu que fazes tudo. Andas a enganar aquele impostor, aquele f. etc... Não o enganas, sabe muito bem a malícia que tens, os crimes que praticas. Mas convém-lhe assim.

Ai, meu Paizinho, como as dúvidas me afligem. Como eu tenho medo de enganar e eu não queria enganar ninguém.

Amanhã é sexta-feira, já sinto medo. Por caridade, não me esqueça junto do meu Jesus.

Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.

E para esta pobrezinha, a bênção e perdão, Alexandrina.


P. S. Peço o favor de me recomendar muito aos Senhores Padres que aqui têm vindo.

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

EU SEREI A TUA FORÇA

Balasar, 6 de Janeiro de 1939

Viva Jesus!

Meu Paizinho,

Vou ver se consigo ditar algumas palavras depois da minha paixão. Hoje foi muito dolorosa. Por várias vezes Nosso Senhor me disse que era a minha força porque, eu, me sentia desfalecida.

Antes de principiar a paixão, Nosso senhor disse-me:


— Tens coragem, meu encanto? Eu serei a tua força, o teu Cireneu ajudar-te-á de longe como se estivesse perto. Faz, meu amor, o que o teu Jesus agora não pode fazer, mas é o que os pecadores renovam com os seus pecados.

A minha alma está muito atribulada. Tenho tantos momentos que me parece não poder mais: tremendas dúvidas me afligem. Eu tenho nojo de mim. Sinto-me abandonada de todos, mas conheço bem que todos me deviam deixar e fugir espavoridos de mim.

Anseio por o dia que o meu Paizinho me possa dar um pouco de conforto.

O que será de mim daqui até lá! Nosso Senhor continua a enviar-me miminhos. São para Lhe tornar a oferecer, mas custam-me tanto!

Ontem tive aqui o Senhor Cónego Vilar, vinha do mando da Santa Sé.

O meu Paizinho já sabe? Mesmo sem ele me dizer nada, pensei e não me enganei, ao que ele vinha. Falou muito bem. Gostei muito dele. Parecia-me um santinho. Não deixou, com tudo isto, de me custar imenso. Fez-me várias perguntas que a tudo respondi, como sabia. Como ele não trazia cartão nenhum do meu Paizinho, já tinha dúvidas se procederia mal. Se fiz mal, peço desde já que me perdoe. Bem sabe que em nada lhe quero desobedecer. Se fosse outro Senhor Padre qualquer, que não viesse mandado como ele veio, claro está, que lhe não dizia nada.

Ele disse-me que talvez cá voltasse e hoje, o nosso senhor Abade, quando me veio trazer Nosso Senhor, disse-me que o Senhor Cónego Vilar talvez cá viesse na próxima sexta-feira, se pudesse. Ainda bem que o meu Paizinho está aqui na freguesia.

Não lhe mando nada do que Nosso Senhor me tem dito. Quando o meu Paizinho vier, cá encontrará tudo.

Só na passada terça-feira é que me não falou. Tenho-me sentido abatida, que faria se Nosso Senhor me não falasse, como me tem falado. Ele conhece tudo, sabe tudo, e se me não deitasse a mão, estava sempre caída. Pobre Jesus que é por mim tão mal servido! Preocupa-me tanto isto!

Lembranças aos Senhores Padres que aqui vierem.

Por Caridade, peça muito, muito por mim. Lembranças da minha mãe, da Deolinda e da Çãozinha.


Abençoe, por caridade, a pobre Alexandrina.

domingo, fevereiro 15, 2015

PELO VOSSO AMOR

Balasar, 2 de Janeiro de 1939


Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Como, já desde o ano passado que não tem notícias minhas, resolvi hoje ditar-lhe umas palavrinhas.
Agradeço muito a boa cartinha que também, no ano passado recebi. Foi mesmo na sexta-feira que ela me chegou às mãos, e bem que eu precisava dumas palavrinhas de conforto. Mas Nosso Senhor tira-me tudo, não me deixa saborear nada.
Na sexta-feira passada não teve paixão. Não sei o que é: recordo este dia com saudades de não ter tido. Logo de manhãzinha eu tinha a minha alma triste como uma noite escura. Estava tão tímida! Que revolta, que tempestade, eu sentia nela. Comunguei e parecia-me que Nosso Senhor deitava as mãos ao meu coração para mo arrancar. Figurava-se-me que Ele encostava a cabeça e as mãos junto ao meu coração e O ouvia soluçar. Durante o dia tive várias coisas que também me fizeram sofrer. A Deolinda as dirá.
Agora o demónio é que me consome. Diz-me que eu faço a paixão quando eu quero. Que sou eu, que sou eu quem a faço. Aos médicos não enganas: diz-me ele. Não te creditam. Mas aqueles f. etc... e mais alguém bastam para espalhar. E nestes momentos, quando me diz estas coisas, que raiva ele tem contra mim. Uiva, parece que lhe oiço ranger os dentes, e figura-se me que me dá pontapés e escarra na cara. Eu, quando me parece que sinto os escarros, digo só com o pensamento: também a Nosso Senhor o escarraram. Então é que ele fica furioso. Diz-me tantas coisas feias de mim e do meu Paizinho! Que combate ainda hoje tive. Chamei pelo meu Jesus, pela Mãezinha do Céu e por muitos santos e santas para me ajudarem a vencer tão grande combate sem desgostar ao meu Jesus. Diz-me, também, que eu tremo porque quero. Foi por eu não tremer diante do Senhor Abade e do Senhor Cónego ao eles pronunciarem palavras das que costumam fazer-me tremer. Diz-me não tremeste, porque eles não te agradaram.
A bênção e perdão para a pobre Alexandrina

Adição da Deolinda

(O que disse Nosso Senhor à Alexandrina no sábado depois da Comunhão).


Anda para mim que sou o teu Jesus? Ou para o bercinho que são os Vossos Braços, o travesseiro, o Vosso Divino Coração? Que riqueza? Quem me embala são os anjos? A Vossa Louquinha, a Vossa esposazinha preocupa-se muito, coitadinha com as dúvidas? Mas olha: Disse-te que não tinhas paixão e não tiveste? Se sou eu, porque a não fiz? Confia, minha beleza, que é só, só obra divina? Não me assusto? Deixa que se saiba? Não foi por mim? Bem sabeis que quero viver escondido? Isso basta para que diante de Vós eu viva como que ninguém me veja? Isto não podia ser só para mim? Sofria, reparava, mas não fazia bem às almas? Sois Pai compassivo? Chamai-los assim? Uns vendo outros constando quanto sofrestes pelas suas almas? Consolo-Vos muito com a minha obediência em não consentir que venha ninguém sem licença de meu Paizinho? Vós ajudais da Vossa parte? Se preciso for fazeis que se não dê? É preciso mostrar que é obra divina? Que não fazem todos como querem? Mas quem tem poder sobre mim? Que tudo pode? Eu a tudo obedeço de boa vontade, meu Jesus. O que eu quero é saber que é da Vossa Vontade meu Jesus, que é do Vosso agrado. Na obra divina nem todos mandam como nas coisas do mundo? O que tem maior poder sobre mim é aquele a quem me confiaste, a quem entregaste a minha alma? Para isso também tem que sofrer? Não me engano eu, ele que sofra? Jesus, quereis que muita gente veja? Só aqueles a quem o meu Paizinho der licença? Mas hão-de ser muitos a quem ele a vai dar? Eu estou sempre contente? Ofereço pelo vosso amor? Sim, sim meu Jesus. Eu por Vós, pela Vossa Causa sofro tudo.

ESTUDE-ME, ESTUDE-ME !

As dúvidas da Alexandrina

As cartas da Beata Alexandrina ao seu Director espiritual, o Padre Mariano Pinho, sj, são uma fonte de ensinamentos espirituais e também, por vezes históricos, se bem que elas não tenham sida escritas com esse fim.



O ano 1939 – ano em que ela mais vezes escreveu ao seu “Paizinho” espiritual – é muito importante em ensinamentos espirituais, mas também históricos: foi o ano em que – oficialmente – começou a segunda guerra mundial.

A natureza de certas revelações recebidas de Jesus pela “Doentinha de Balasar”, são de índole a perturbá-la e mesmo a fazê-la duvidar dela mesma: Terá ela bem interpretado as palavras divinas? Terá compreendido bem o que Jesus lhe disse?

Daí as perguntas angustiadas, como esta, ao seu “Paizinho” espiritual:

“O meu Paizinho conhece bem quem eu sou?” ou ainda: “Afigura-se-me que tenho uma responsabilidade tão grande por andar tudo enganado comigo”.

Ela tem medo de enganar e este medo vai durar muito tempo e por muito tempo ainda ela vai fazer perguntas, cada vez mais angustiadas, ao seu Director espiritual. Várias vezes ela lhe pedirá, com a maior sinceridade de a estudar, de saber se tudo o que nela se passa vem de Deus ou dela. Um desses “gritos” e talvez o mais pungente, ela escreve-o em 8 de Abril desse ano 1939:

– Ai meu Jesus, que horror tenho de mim mesma. Que vergonha meu Paizinho, que vergonha da minha maldade, da minha miséria. Se o mundo pudesse ver o que sou no meu íntimo. Eu não queria que ninguém se escandalizasse comigo mas se eu pudesse conseguir mostrar o que sou para ninguém se enganar comigo. Meu Paizinho, por amor de Jesus e Maria, estude-me estude-me.

No dia seguinte ela volta a escrever ao Director: o seu estado espiritual não melhora: continua com os mesmos “sintomas”. Ouçamo-la:

“Numa tristeza profunda fui passando o dia com o tormento das dúvidas, ora duma coisa, ora doutra”.

Mas Jesus que nunca abandona as almas que Ele escolhe para grandes causas, veio animá-la, incutir-lhe coragem, mas prevenindo-a que ira continuar naquele mesmo sofrimento. Então, a Alexandrina, como sempre, entrega-se ao bom querer divino:


– Eu aceito tudo Jesus, mas dai-me coragem, dai-me força, dai-me confiança. Dai-me amor para morrer de amor.

DURO TEXTO, POUCO CONHECIDO

PROFECIA ?…

Texto longo, a ler com a devida atenção, e o pensamento que a Misericórdia divina é infinita. É útil dizer que o mesmo texto não podia ser para os tempos da Beata Alexandrina – mesmo se a segunda guerra mundial começara no dia 1 do mesmo mês de Setembro –, visto que a par ela, sua irmã e o Padre Mariano Pinho, ninguém mais tinha conhecimento dos escritos dela. A pequena frase “então principiará um mundo novo”, prova o que acabo de dizer acima.



Nosso Senhor dizia-me:

— A minha divina Voz irada é o canhão que aterra as vítimas. Os males do mundo, os horrores, o castigo do pecado, é a minha vingança é a minha divina Justiça desarmada sobre a terra. Mas não temas, não é contigo, és inocente. Olha, quando a dor e a amargura vem pungir o coração humano procuram desabafar com aqueles a quem mais amam mesmo que não sejam culpados. O mesmo me acontece a Mim: sou o teu Jesus, venho desabafar contigo. Olha, escreve já ao teu Paizinho, quero que ele pregue mas que diga que sabe a certeza que foi Jesus quem o disse como se ele o tivesse ouvido dos meus divinos Lábios. Se não se fizer penitência, se não houver renovação no mundo, corações contritos e arrependidos, corações puros a principiar pelos meus discípulos de quem tudo esperava e são os que mais mal me servem, que vai ser tão grande o castigo, guerra, peste e fome que hão-de chegar os cristãos a comerem-se uns aos outros. Não pouparei aldeias, vilas nem cidades: todo o mundo será vítima do meu castigo. Tremenda vingança, que horas de angústia o esperam. Será quase como no tempo de Noé, e então principiará um mundo novo. Mas se fizer penitência e todo o mundo se renovar e se cumprir os meus divinos Desejos virá a paz. Não te assustes, não te aflijas. Condói-te da dor e amargura do meu divino Coração. Tem confiança: digo as coisas mais íntimas à minha crucificada mais predilecta.

Dada a importância do “aviso”, Alexandrina parece – não duvidar – mas ter um certo receio, por isso se interroga e interroga o seu Director espiritual, o Padre Mariano Pinho.


Peço e volto a pedir luz ao divino Espírito Santo para mim e para o meu Paizinho. Meu Deus, minha querida Mãezinha, eu não me quero enganar nem enganar ninguém. Permita-me, meu Paizinho, este desabafo; será verdade isto que eu digo? Não será ilusão minha? Ai, meu Jesus, meu Jesus, que medo eu tenho. Eu não Vos quero desgostar, compadecei-Vos de mim: bem vedes quanto isto faz sofrer. (Carta ao Padre Mariano Pinho, sj, de 6 de Setembro de 1939)

quarta-feira, maio 07, 2014

NOVO LIVRO


LANÇAMENTO DO LIVRO DA BEATA ALEXANDRINA DE Balasar - OBRA Inedita NO BRASIL - "O SANGUE DO CORDEIRO" - A Vida de Alexandrina Maria Costa



É com grande alegria Qué o Apostolat nos Passos de Maria ea Editora Petrus publicam, no Brasil, o livro "O Sangue faire Cordeiro" sobre Alexandrina Maria da Costa, MAIS conhecida Côme un Beata Alexandrina de Balasar, de Autoria faire amigo e grande divulgador das obras da Beata de Balasar, o Sr. Afonso Rocha.

SINOPSE DO LIVRO: O Sangue faire Cordei ro - A Vida de Alexandrina Maria Costa 

Alexandrina Maria Costa, MAIS conhecida Côme Beata Alexandina de Balasar, é uma mística portuguesa Que Jésus escolheu Côme sua Vitima, para o Perdão ea conversão da Humanidade. Declarada Beata pelo Papa João Paulo II, Lui 25 de Abril de 2004, ela tem uma dimensão universel, por isso é de suma importancia divulgar seu culto e sua Devoção. 

"Vem Entao receber non gota faire meu Sangue Divino, Qué vai dar força e vida ao teu sangue. É Sangue novo e vida nova nas Qué vai correr Tuas de veias, Qué vai viver em ti" 
O Leitor soi encantará com a vida mística da Beata, Agraciada por Jésus com o Fenomeno da transfusão de sangue Que Jésus LHE oferecia todas as Sextas-feiras. . Cabe ressaltar, Qué esse PRODIGIO foi o único e exclusivo na vida dos Santos 

Autor: Afonso Rocha 
Prólogo: Rita de Sá Freire 
Tamanho: 14 x 21cm 
Paginas: 180 
Editora Petrus - 1 ª Edição 
O LIVRO ESTÁ DISPONÍVEL PARA COMPRA NO SITE DA LIVRARIA PETRUS, Aucun privilège abaixo: 

quinta-feira, dezembro 26, 2013

RARAMENTE CHOREI, MAS HOJE CHOREI !...

NATAL DE 1953
25 de Dezembro de 1953 – Sexta-feira


Como se sofre! Poderei ainda sofrer mais? Perdoai-me, Jesus. É um desabafo atrevido. Não sou eu quem sofre, sois Vós o sofrente, sois Vós a vencer em mim. Ajudai-me, Jesus, ajudai-me, não posso levantar-me, estou caída, só Vós podeis deitar-me a mão. Ai de mim, tantas maldades que eu tenho! É um mundo delas, um mundo dos maiores vícios e crimes. Todo o meu ser se desfaz com a lepra do pecado. Ventania destruidora leva as cinzas de todo o ser. Só o pecado fica, só este aparece. São sem número os espinhos a ferirem-me, são indizíveis os meus sofrimentos. Mas a inutilidade, a tremenda inutilidade, tudo me vem roubar, toma conta do fruto de tanto sofrer. Eu, pobre de mim, nem ao menos vejo nascer aquilo com que podia pagar as minhas dívidas ao Céu e consolar o meu Jesus. Cruel, cruel inutilidade, pavorosa, pavorosíssima eternidade. Só a força de Deus pode sofrer nela, só Jesus nela pode viver. Não posso, não posso sozinha resistir nem um momento. Já estou mais que sepultada, mas continua o meu ofício de cavador. Os suores da alma a banharem-na constantemente e a cavação mais parecem cavadelas eternas do que outra coisa. Mas sinto que esta minha cavação tem de continuar, o meu sepulcro tem de abrir-se no maior abismo, terra sobre terra ma vai cobrindo, eu mesma me enterro. É com o meu esforço que hei-de desaparecer. Como, meu Senhor, enterrar-se, desaparecer aquilo que já não existe? Bendito sejais, bendito sejais! Sou a Vossa vítima. Nuns momentos, sofro infinitamente ânsias verdadeiramente infinitas de amar a Jesus e de possuir o mundo. Nesses momentos, é infinita a fome que tenho no coração. Só a humanidade com todos os corações e almas me podiam satisfazer. Noutros momentos, nem fome, nem ânsias de amar nem de ser amada, mas uma tristeza, um gelo tal que gela o mundo e me leva à indiferença, ao completo esquecimento das coisas de Deus. Daqui nasce uma dor tão profunda e tão dolorosa que não é minha. Jesus faz-me sentir bem ao vivo que é a dor do Seu Divino Coração. Não disse nada, nada posso dizer. Sofro tanto, tanto! Passei pelo horto só como se voasse nele sem poisar na terra. Eu não pertencia à terra, a minha vida não era da terra.
Preparei-me para o nascimento de Jesus por um acto de contrição; não pude confessar-me. À meia-noite pedi-Lhe que Ele nascesse no meu coração e em todos os corações. Fiz-Lhe muitos pedidos, mas tudo feito na inutilidade e na eternidade. Fiz-Lhe companhia no presépio, no calvário e no horto, mas tudo inútil, numa agonia e tristeza mortal. Hoje, segui para o calvário, mas esvoaçando apenas sobre os caminhos do calvário e no calvário sobre os braços da cruz. Era do Céu a minha vida, mas penetrava em todo o ser humano, em todos o ser miserável. Enquanto Jesus agonizava, esvoaçava sempre essa vida nos braços da cruz. Fitava Jesus crucificado e formava voo para o Seu Divino Coração. Outra vida, a vida da terra atirava-se para Jesus a escarnecê-Lo, a escarrá-Lo. Ele deu a vida, entregou-se nas mãos do Pai, e eu fiquei sem nenhuma vida, nem de revolta, nem de amor. Jesus não teve pressa em vir ao meu coração e fazer-me ressuscitar. Quando veio com a Sua luz, iluminou-me e falou-me assim:
― “Desci do Céu e aqui estou pela última vez no coração da minha esposa para pelos seus lábios falar. Desci do Céu e vim a este c oração deixá-lo em dor, dor, mais dor pelos pecadores. Grande sábio, a maior ciência tem aquela alma que por Jesus sabe sofrer. Grande ciência, a maior ciência é amar muito e muito sofrer. É a ciência que Eu busco, é a ciência que Eu anseio. É rara, tão rara, quase nunca a encontro. Colóquio das almas, colóquio dos pecadores, o último colóquio das almas, o último dos pecadores. Coragem, minha filha, coragem! Venho dar-te o meu Sangue divino. Venho dar-te o alimento que te faz viver. Vive da fé, só da fé. Eu não deixo de confortar-te, quando preciso for. De longe a longe ouvirás, esposa minha, as palavras do teu Jesus. é dor, é dor, inigualável dor, mas o triunfo, o número das almas a salvar-se é maior ainda, maior ainda, maior ainda, florinha eucarística. Sofre, sofre, esposa querida, atrai a Mim os pecadores. Atrai a Mim os pecadores; tu que és o íman atraente atrai-os a Mim, atrai-os a Mim”.
(Cantou):

Vem, filho meu, vem, filho meu, vem, filho meu, vem ao meu Coração de Pai;
Vem, filho meu, vem, filho meu, ao meu Coração de Pai!
Escuta bem, ouve o convite, ó filho meu;
Ouve o convite do teu Jesus, do teu Jesus e Pai, e Pai!
Vem, filho meu, vem, filho meu, não tardes mais;
Vem, filho meu, vem, filho meu, vem, filho meu, não tardes mais, não tardes mais!
Escuta a minha voz, voz dorida, voz dorida, voz sentida de profunda dor, profunda dor, profunda dor;
Filho meu, não peques mais; dor profunda, filho meu, não peques mais, não peques mais.

― Aqui estou, ó Jesus, aqui estou, meu Amor, arrependida, aqui estou, meu Amor, arrependida! Dá-me o teu amor, ó Jesus! Dá-me o teu amor, ó Jesus, e a cruz, e a cruz! Nunca quero deixar o teu coração! Quero amar-te, ó Jesus! Quero amar-te e pedir-te perdão, perdão. Perdão, Jesus, perdão, meu Pai. Perdão, Jesus, perdão, Senhor! Perdão, Jesus, perdão, Amor! Dá-me a tua cruz, ó Jesus. Dá-me a tua cruz, ó Amor. Dá-me o teu perdão, dá-me o teu perdão, dá-me o teu perdão, dá-me o teu perdão.
― “Minha filha, minha filha, esposa querida, minha filha, grande vítima deste calvário, deste glorioso calvário. Minha filha, filhos meus, filhos meus, desce aqui a Santíssima Trindade. À direita do Filho vem a Mãe Santíssima. A primeira bênção da Santíssima Trindade é dada para o Santo Padre, para o representante do meu Filho bem amado. A segunda é dirigida ao meu querido Cardeal, ao meu querido Cardeal. Vai a terceira ao teu Prelado. Vai para ele, minha filha; todos se encham da Trindade divina, que todos se encham mais e mais da luz do Espírito Santo”.
― Ó Pai, ó Pai, ó Filho, ó Espírito Santo, ó Mãezinha querida. Ó Pai, ó Espírito Santo, ó Mãezinha querida, ó Mãezinha querida. Ó Pai, ó Filho, ó Espírito Santo, ó Mãezinha querida, não posso com tanta fortaleza.
― “Vai por ti, minha filha, uma nova bênção da Trindade Divina para aquele que Eu trouxe ao teu encontro, luz e guia da tua alma, para na mesma vida mística de sofrimento sangrarem os vossos corações, as vossas almas. Abençoo com o Pai, o Espírito Santo aqueles que têm amparado a tua alma, aqueles que têm cuidado do teu corpo, aqueles que têm defendido a minha divina causa como ninguém, como ninguém. A nossa bênção de Trindade Augusta para todos os que te são queridos”.
― Ó Jesus, ó Jesus, um bocadinho de espera. Os que me são queridos já sabeis quem entra. Começai outra vez, começai com o Pai, o Filho, o Espírito Santo. A bênção e o sorriso terno e meigo da Mãezinha querida para todos os que eu amo, para todos os que me são caros, para todos quantos me rodeiam. Ó minha Trindade Augusta, ó minha Trindade Augusta, para todos quantos me pedem orações, para todos os que necessitam delas. O mundo inteiro precisa da Vossa bênção. Ai, como hei-de ficar sem Jesus na minha cruz! Ai, como hei-de ficar sem Vós, Mãezinha!
― “Coragem, minha filha, coragem! Não ficas sem o teu Jesus, não ficas sem o teu Jesus. Não ficas sem a tua Mãezinha querida, a tua Mãezinha querida. Não podemos deixar-te, não podemos deixar-te. Repito, digo o mesmo que disse aos seus Apóstolos: “Vou para o Pai, mas fico convosco”. Finjo deixar-te para maior sofrimento, mas não te deixo, não, minha filha, não. Depois de me amares, depois de me dares almas aos milhões, aos milhões, depois de te abandonares inteiramente a Mim, como deixar-te?! Confia, confia que não!”
― Adeus, ó Pai, adeus, ó Filho, adeus, ó Espírito Santo, adeus, ó Espírito Santo. Adeus, ó Mãe querida, até ao Céu, até ao Céu, até ao Céu, ó Mãe querida, até ao Céu, até ao Céu, ó Mãe querida, até ao Céu, ó Mãe querida. Adeus, Jesus, adeus, meu Pai, adeus, adeus, Jesus. Adeus, Amor, sede comigo, sede comigo na minha dor, na minha dor. Não posso mais, ai, não posso mais, ó Mãezinha, ó Jesus. Um terno, um terno adeus de saudade, um terno, um terno, um terno adeus de saudade te dou hoje, ó Jesus, te dou hoje, ó Mãezinha da filha Vossa. Um terno, um terno adeus, adeus de saudade te dá hoje, ó Jesus, te dá hoje, a vítima tua. Um terno adeus, um terno adeus, ó Jesus, adeus, adeus, adeus, adeus, adeus até ao Céu, até ao Céu, até ao Céu, ó Amor meu, ó Amores meus, ó Amores meus!
― “Coragem, coragem! Confia, confia! Não é até ao Céu, não é até ao Céu, flor eucarística, flor mimosa, pupila dos meus olhos, lírio puro, branca açucena, não é até ao Céu, não é, minha esposa e virgem, ó minha vítima. Não é até ao Céu, não, ó minha esposa amada, digna dos títulos mais honrosos que Jesus pode dar a uma esposa e vítima imolada. Sou Eu, sou Eu a dar-te todos esses títulos. Preparei-te também, minha filha, com a minha sabedoria divina. Estás livre de toda a sombra de vaidade. Velarei por ti, velarei sempre. Velarei sempre até ao fim da vida como até aqui tenho velado. Coragem, minha filha. Fala às almas para quem foste criada. Fala às almas para quem foste escolhida. Tu és o porta-voz de Jesus, tu és o farol de luz, tu és o farol do mundo, que dás ao mundo luz divina, vida divina. Tu és minha, toda minha, ó esposa bela. Eu sou teu, teu, todo teu, sempre teu.
Recebe a gota do meu Divino Sangue. Fundidos os nossos corações num só coração. Espalhou-se o sangue. Já passou para as tuas veias. Corre com a maior abundância. Foi maior a dor, foi maior o alimento. Fica na tua cruz. Eu quero, eu quero que sejas amparada na tua cruz. Haja luz, faça-se luz, a última vez. Depressa, depressa, que já não é depressa a fazer-se a vontade do meu Divino Coração. Recebe mais uma efusão do meu amor, o amor de toda a Santíssima Trindade, o amor da tua Mãezinha querida. Fortalece-te, enche-te, enche-te. Mais amor, mais amor, mais amor para mais dor, para mais dor. Coragem, minha filha, coragem, minha filha, coragem”.
― Adeus, meus queridos amores, adeus, adeus, adeus. Vou deixar-Vos, vou deixar-Vos. Adeus, adeus, sede a minha força, sede a minha força, sede a minha força.
(Ouviu-se ruído de beijos)
Foi para mim a última bênção da Santíssima Trindade e da Mãezinha querida. Obrigada, obrigada, o meu eterno obrigada. Permiti-me, não me leveis a mal que eu a distribua toda, toda, toda por todos. Já sabeis por onde principio e onde eu acabo. Não me leveis a mal. Perdoai, perdoai.
― “Minha filha, minha filha, por despedida deste-Nos a maior consolação, a maior prova de amor, de amor, de amor às almas por amor de Nós. Oh! Como consolaste, como consolaste, oh! Como consolaste a Trindade Augusta e a tua Mãe celeste, a tua Mãezinha celeste!
Vai em paz. Fica na cruz. Fica na cruz! Coragem, coragem!”
― Adeus! Adeus! Obrigada! Obrigada!


Nota: este êxtase foi gravado e assistiram mais de 50 pessoas. Quase todas se comoveram e choraram. Um sacerdote presente disse: “Poucas vezes tenho chorado na minha vida, mas hoje chorei”.

terça-feira, dezembro 24, 2013

ENTREVISTA VIRTUAL

Entrevista de Natal
O segundo aniversário da consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria em 1942 tinha sido comemorado ; pouco tempo se passara depois da festa da Imaculada Conceição...
Alexandrina — o “instrumento” de que se servira o Senhor para essa consagração — estava ali, deitada no seu leito de dor, quando a visitei...

Foi no dia 25 de Dezembro de 1944, no fim da tarde... quase à noite...



Parecia dormitar, visto que as suas pálpebras cobriam quase por completo os seus olhos negros. Aproximei-me, pé ante pé, para a não acordar — pensava eu que dormia — mas logo abriu os olhos, olhou e sorrio, um sorriso que põe o coração em festa, sorriso maviosa e cheio de ternura e carinho...

Quis desculpar-me por incomodá-la, mas fez-me sinal que me sentasse ali, à beira da cama, ao mesmo tempo que o seu dedo indicador direito se posava sobre os seus lábios. Compreendi que rezava e, sem precipitação sentei-me na cadeira que a Deolinda amavelmente me proponha.

Olhei-a demoradamente e, quanto mais a olhava, mais o meu coração parecia galopar, como se quisesse ultrapassar aquela alma simples e pura que falava com Deus; ultrapassá-la, não para chegar primeiro, mas para lhe ir na frente e poder assim melhor admirar aquele rosto que as cores do Paraíso adornavam, aqueles olhos que reflectiam a luz divina, aqueles lábios estáticos que não precisavam de mover-se para falar com o Senhor... Como era bela naquela postura de oração, naquele colóquio com Jesus ou Maria, não sei!...
Depois, como se acordasse dum sonho que a arrebatara, olhou com ternura, sorrio e, com um aceno da cabeça, fez-me sinal que poderia começar a interrogá-la, visto que sabia para o que eu vinha...
— Alexandrina, obrigado por ter aceitado de me receber neste dia de Natal, dia de festa...
— « Os dias de festa são sempre para mim de profunda tristeza! »
Como notasse que fiquei surpreendido, acrescentou:
— « Esforço-me sempre para consolação dos que me rodeiam mostrando-me alegre : a minha alegria é fingida.

Ia fazer um comentário, mas os seus olhos rasos de lágrimas, impediram que lhe dissesse qualquer palavra. Ela, com carinho e doçura, explicou:

— « Fito Jesus, a Mãezinha, elevo o meu pensamento ao Céu e por amor aceito a dor. É por amor que a tristeza para mim é alegria. Não olhando a terra, firmo no Céu, só no Céu, os espinhos são rosas, a dor é doçura. »
Surpreendido ao ouvir tais paradoxos, não resisti e perguntei:

— Mas, na noite de Natal, a noite passada, foi certamente para si uma noite de alegria, uma noite em que Jesus Menino desceu ao seu coração...

— « À meia noite do dia de natal, não falando da noite que me ia na alma, dores agudíssimas pareciam retalhar-me todo o corpo. Não chorava, mas gemia ; só Jesus sabe quanto eu sofria. Principiei a ouvir fogo e repique de sinos. Pedi que me trouxessem umas imagensinhas do Menino Jesus. Colocadas sobre o meu peito queria aquecê-las. O calor que lhe dei não era o que eu queria dar-lhes ; queria queimá-las com fogo de amor. Queria dizer-lhes muitas coisas e não sabia. Estreitei-as ao meu peito docemente e continuei os meus gemidos. — Estou certa que Jesus os aceitou e não ficou triste. Ninguém como Ele via quanto eu sofria ; ninguém como Ele sabe que mesmo gemendo é por amor que gemo e quando mais não posso. »

— E esse seu estado durou toda a noite? Perguntei eu admirado e surpreendido.

— « Não sei os minutos que se passaram, o que sei é que passei a outra vida e ouvi Jesus no meu coração. »

— Viva! Ao menos uma boa notícia: Jesus veio visitá-la... E que lhe disse Ele? Perguntei, cheio de curiosidade.

— “Nasci no presépio do teu coração, minha filha. É o Esposo que vem à sua esposa, é o Rei que vem à sua rainha. Sou Rei do Céu e da terra. Como estou bem aqui, ó rainha do amor. O presépio que Me dás não é áspero como o de Belém, é fofo com as tuas virtudes. No te presépio não sinto os rigores do frio ; sou aquecido com o amor mais puro e abrasado. Tu és a minha estrela, estrela que guias o mundo como outrora guiou os Reims Magos no caminho de Belém. Diz, minha filha a todos os que cuidam de ti, aos que te são queridos, amam e rodeiam que lhes dou abundância das minhas graças, um enchente do meu divino Amor, um lugar reservado em meu divino Coração com a promessa do Céu”.

— E viu mesmo o Menino Jesus, viu o presépio, Nossa Senhora e São José?

A minha curiosidade tinha ares infantis... Eu sentia-me extasiado diante de tanta simplicidade, da tanta humildade e tanta fé...

Alexandrina respondeu:

— « Não vi o Menino Jesus, mas enquanto que Ele me falou estava junto a mim uma grande palmeira de Anjos, centos ou milhares de Anjos, muitos deles com seus instrumentos desciam do alto e rodeavam-me. Tinha graça a pressa com que desciam. No meio deles estava uma grande escada ; de todos os degraus desciam para mim numerosos raios dourados. Eram como setas a penetrarem no meu peito... »

E os olhos negros da Alexandrina pareciam iluminados ainda por aqueles raios de que falava: eles brilhavam como se milhares de estrelas neles se espelhassem.

— E, durante esse tempo, Jesus falava-lhe, perguntei eu, cada vez mais atiçado pela curiosidade.

Ela olhou-me, compreendeu que eu “bebia” as suas palavras, e disse:

— « Jesus dizia-me :

— “São as tuas virtudes, são raios de amor divino. Recebe, é a tua vida”. »

Ao explicar-me o que vira e sentira, Alexandrina parecia sentir-se feliz, pois o seu sorriso era mavioso. Quanto aos seus olhos, fixos em mim, pareciam ler o meu pensamento, descobrir na minha alma os mais profundos recônditos — o que me atemorizava um pouco! —, descortinar a minha curiosidade crescente e, sem que precisasse que algo mais lhe perguntasse, ela continuou:

— « Aqueles raios fortaleceram-me, davam mais luz do que o sol mais brilhante. Vi tudo claramente. Não sei o tempo, mas foi demorada esta visão. Desprendi-me a custo, ia como os que caminham e olham para traz, dando a conhecer que querem alguma coisa. Eu desejava voltar ao mesmo. Não voltei à visão, mas voltei à dor. »

Ao terminar o que acabava de me dizer, pareceu-me aperceber-lhe uma lágrima, como se a recordação desta visão da noite de Natal a tivesse deixado numa grande nostalgia, numa tremenda saudade.

— Mas, depois da noite vem o dia, disse eu, como se quisesse consolá-la do inconsolável. Como foi então a sua aurora, como foi para si o despertar deste dia de hoje, dia de Natal?

— « Veio o dia ; dia sem luz e vida sem vida. Sempre a querer guardar com toda a segurança o mundo dentro em mim continuei a minha alegria fingida. Todos os mimos que recebi e carinhos de pessoas de tanta estima passavam como se não fossem para mim. »

— Alexandrina, não vou abusar da sua extrema bondade, visto serem já passadas as oito horas da noite... No entanto, se me permite uma última pergunta, qual o balanço, se assim posso dizer, deste dia de Natal, como foi ele para si?

— « Ao terminar o dia digo para mim : “Onde passei este dia ? Parece-me que estive morta para Jesus e para todos quantos me rodeiam. Vivi mas não senti a vida. Sofri, mas não foi minha a dor. Não vivi para Jesus, não senti que O amava.”

Não sei dizer melhor e nada digo do que me vai na alma. Ó minha triste vida tão mal compreendida ! »

Assim foi, para a Alexandrina o dia de Natal de 1944.

*****
Escusado é dizer, claro está, e cada um compreenderá, esta entrevista é virtual, visto nunca ter visitado a Alexandrina. Quando ela faleceu, tinha eu apenas 9 ans.

Todavia, as respostas da Beata Alexandrina não o são: foram tiradas dos “Sentimentos da Alma” do dia e ano referidos, ou seja 25 de dezembro de 1944.

Afonso Rocha

sexta-feira, dezembro 06, 2013

NÃO É SÓ A MINHA IGNORÂNCIA...

Não sei se isto é queixar-me demasiado…



Pouco vou dizer, porque nada posso dizer. Não é só a minha ignorância, que não sabe falar, mas sim as minhas forças que nada me permitem. Estou a braços com uma nova crise. Ai quanto sofre este pobre corpo que nem farrapo é! Não sei e não posso falar para o meu bom Jesus e para a querida Mãezinha. Olho para Eles com o fim do meu olhar Lhes dar e pedir tudo. Ai, pobre de mim! Que penoso viver para o corpo e para a alma. Esta agoniza a cada momento, vê tudo perdido, vê-se sem asas para voar, está mais do que desfeito pela dor. De vez em quando, rompe em suspiros o meu coração. Ele sabe o que quer e não pode chegar onde quer. O meu fim é Deus, o meu amor é só para Deus. Parece que não existe e não chega lá. O amor, o amor foi sepultado na mortandade imensa que tenho em mim e vejo fora de mim. Estou na cruz: nada há no meu corpo que não esteja bem cingido a ela. Os cravos são-me apertados muitas vezes. A coroa da cabeça mais cingida e os espinhos batidos para penetrarem mais fundo. São tais as dores que muitas vezes me parece não resistir. O coração feito em massa de sangue tem a lança, espinhos e setas; está todo cheio de instrumentos que ferem. Estas feridas não podem cicatrizar: são-me avivadas de vez em quando. Nada digo, meu Jesus, e quem sabe se direi de mais e se isto não é queixar-me demasiado. Ó meu Rei de amor, Vós bem sabeis que o meu fim não é queixar-me, mas sim obedecer. Não posso falar de outra coisa, porque outra coisa não tenho a não ser a dor e esta só para eu sofrer e não com vida para Vo-la poder dar. Jesus deu-me um mimo que devia consolar-me; mas, como todos os mimos que eu recebo, morreu, deixando-me apenas um pouco de conforto. Fiquei no mesmo abandono sem estar no abandono, graças a deus. Só o Céu me pode alegrar. Só o amor de Jesus e a Sua companhia para sempre me pode satisfazer. Espero confiada, abandonada nos braços da Providência.

Ontem, quinta-feira, a minha alma bateu-se e debateu-se no solo duro do Horto. Enquanto que o corpo sofria as dores horríveis, ela transportou-se para lá. Não era mais que uma bola formada e esmigalhada pela violência do martírio. Tinha nojo de me ver, tinha nojo de ver o mundo. Sem entrar no Calvário, todo o sofrimento dele me feria e fazia agonizar. Nesta manhã fui desencarcerada. Segui para os tribunais: recebi os açoites, a sentença de morte e a cruz. Tive muitas quedas; fui arrastada. E a alma no percurso da viagem quase não deixou de bradar. Bradava ao Céu, bradava ao Eterno Pai, bradava na dor mais pungente. O coração amava, ansiava chegar ao fim; o corpo cobria-se de suores, os olhos choravam lágrimas de sangue. No alto do Calvário senti no meu corpo a renovação da crucifixão. Puxaram-me tanto os braços, parece que todos os ossos se me desconjuntaram. No cimo da cruz não fiz outra coisa a não ser oferecer ao Calvário, oferecer ao mundo o meu coração aberto para a todos receber. Meu Deus, que ânsias infindas! Amava e perdoava. Agonizei: separei-me de Jesus, separei-me da dor. Pouco depois, Jesus voltou, renovou-me a minha alma. Do seu divino Coração saía uma forte chama que veio penetrar no meu. Esta chama durou até ao fim do colóquio com Jesus. Iluminou-me a alma e todo o ser.


Sentimentos da alma, 6 de Abril de 1951.