2 de maio de 2007

TRISTE MÊS DE MAIO


O mês de Maio de 1942 foi para a Beata Alexandrina um mês triste e cheio de grandes sofrimentos: ela vive então as penas do Purgatório. É também o período em que sofre da ausência do seu Paizinho espiritual, objecto de restrições e de vexações da parte de seus superiores e colegas da Companhia de Jesus.
Alexandrina, também atacada e caluniada, sofre e oferece...
A 3 de Maio de 1942 ela escreve para o seu Diário, mais conhecido sob o título de “Sentimentos da Alma”:
« Meu Deus! Meu Deus! O brado agonizante da minha alma perde-se na montanha e não é ouvido na terra, nem no Céu; digo isto repetidas vezes com o pensamento, enquanto vou sentindo as aves devorarem-me as coxas e a agonia na alma que se não pode explicar e aumenta ao saber de tantas mentiras que de mim dizem e ao sentir que ainda depois da minha morte tudo isto continuará, sendo motivo de grande sofrimento para os meus. Eraa meu desejo que todas as mentiras morressem comigo.
De 4 para 5 de Maio; durante a noite, veio repetidas vezes a Mãezinha, muito bela, apresentar-se à minha frente junto da minha cabeceira, suavizando a minha dor.
Na mesma noite, o Anjinho da Guarda com as suas asinhas inclina-se sobre mim fazendo por aliviar o meu corpo. »
Jesus tinha confiado então à Alexandrina toda a humanidade, aquela humanidade repleta de crimes e de grandes pecados; aquela humanidade que estava então em guerra, guerra que no seu final cifraria milhões de mortos, mortos inocentes, mortos cristãos ou ateus, mortos em estado de graça e mortos cobertos de lama e de grandes pecados... Alexandrina sofria por todos, esperando que os seus sofrimentos fossem úteis à salvação da maior parte. Mas este sofrimento que ela aceitava com uma heroicidade extraordinária não era suficiente, mesmo se inexplicável pela sua dureza e pelos efeitos que provocava na alma e no coração da vítima de Balasar... Ele sente-se cada vez mais reduzida em cinzas, prestes a desaparecer por completo...
Ouçamos o que ela diz no seu “Diário” a 6 de maio desse mesmo ano de 1942:
« Ó trevas, ó trevas, ó negras e assustadoras trevas! Ó Céu, ó Céu, dá-me a tua luz! Recebi tamanhos golpes no meu coração e sinto que ficou tão aberto e tão retalhado que me parece não ter forma de coração humano; contudo é um fontanário de sangue que brota com toda a abundância. É a vida divina que o faz brotar e sinto toda a Humanidade a beber dele com toda a força, com receio que ele se esgote. O meu estado de alma agravou-se assim depois de saber o muito que fazem sofrer o meu Paizinho, contudo não perco a minha confiança de que Jesus há-de justificar a sua inocência.
Agora sinto que as aves nocturnas já vão a chegar aos joelhos. Todo o corpo está quase en cinza. E não vira Nosso Senhor buscar-me? »
Os sofrimentos eram tantos e tão grandes que ela pensava estarem a chegar os seus últimos dias de vida:
É isso mesmo que ele escreve no dia 7 de maio de 1942:
« Com a aflição da minha alma eu dizia assim: Que tristes e amarguríssimas são as últimos dias da minha vida. Tirai, meu Jesus, da minha amargura toda a doçura e alegria para vós e proveito para as almas. »
Este belo mês de Maria que começa apenas, anuncia-se para a Beata Alexandrina como um mês de grandes sofrimentos, sofrimentos que não irão nunca diminuir, mas pelo contrário aumentar... Ela continua a viver as penas do Purgatório e sente-se picotada por aquelas aves cujo intento é reduzir seu corpo em cinzas... Este “Purgatório” é tão doloroso que ela chega mesmo a preferir a vivência da paixão a este novo estado doloroso. E, como se estes sofrimentos não fossem suficientes, o “mafarrico” — compreenda-se: o diabo — vem “consumir a imaginação” da pobre doentinha de Balasar.
Diz-nos ela a 8 do mês de Maria:
« Já não podendo mais com o peso das humilhações, com a agonia e negras trevas que sentia na minha alma, porque tudo me abafava a confiança que tenho em Jesus, eu dizia: Se aqueles que me tiraram o meu Paizinho experimentassem o que era sofrer, davam-mo para meu conforto. E segredava para Jesus: Juro-vos que confio em vós! Recordando que já não tinha crucifixão, senti tão grande dor no meu coração que me parecia chorar lágrimas de sangue e lembrava-me que se eu fosse de novo crucificada era bastante para aliviar o sofrimento da minha alma! Que saudades, que saudades, meu Jesus, não ter agora a crucifixão!
Agora as aves andam abaixo dos joelhos e sinto o coração a perder a vida divina. Vou caindo lentamente. Tudo desaparece em mim.
Também sinto que a humanidade já não bebe com aquela força que bebia, porque o sangue se vai acabando.
O mafarrico tem-me consumido a imaginação, pretendendo prender-me às coisas da terra; mas quanto mais ele tenta fazê-lo, mais Nosso Senhor me eleva para Ele. »

Na véspera do aniversário da primeira aparição da Virgem em Fátima, Alexandrina escreve ainda:
« Hoje a vida divina do meu coração comparo-a a uma lâmpada amortecida que a cada momento parece apagar-se. Já não nasce o sangue senão de longe a longe uma gota, que já mal se pode beber. Eu hoje dizia a Nosso Senhor assim: Meu Jesus, Mãezinha, vede a aridez da minha alma, vede o abandono que ela sente do Céu e da terra. Lançai sobre mim vossos divinos olhares de compaixão. Acudi-me, acudi-me, não me deixeis morrer de susto no meio das trevas. A minha alma está tímida com os assaltos do demónio. Quer acusar-me e lançar-me ao rosto tudo o que há de pior, apresentando-me a minha vida inteira cheia de enganos. Jesus não me deixa por muito tempo combater as dúvidas, mas ele enraivecido enche-me de pavor. Se eu pudesse ter um sacerdote sempre junto de mim! É o meu Paizinho quem eu quero, pois foi esse que Jesus me prometeu e que os homens me tiraram.
As aves sínto-as já nos pés, mas como que aborrecidas por não encontrarem que comer. Vão mexendo e remexendo as poucas cinzas que me restam. Ai, o dia mais feliz da minha vida é o dia da minha morte! »
O dia 14 de Maio desse ano de 1942 é dia da Ascensão do Senhor. Alexandrina desejaria de certo viver esse dia de festa de maneira jubilosa, mas o seu “coração continua como uma lâmpada amortecida”, mas ela não perde a esperança, porque ela sente e está segura que “quem lhe sustenta a vida do coração é Jesus”...
« Eu quisera dizer — escreve ela nesse dia 14 de Maio — quanto a minha alma tem sofrido, mas apenas tenho experimentado, e não sei explicar. Horrorosos sofrimentos passaram por mim! Nunca pensei poder sofrer tanto. Hoje sinto-me mais aliviada um bocadinho, mais redobrada a minha confiança em Jesus e na Mãezinha, com mais forças para combater o inferno que se tem revoltado contra mim.
O meu coração continua como a lâmpada amortecida. De longe a longe vai deitando uma gotazinhas de sangue que a Humanidade ainda vem aproveitá-las. Cada uma delas parece ser a última. Sinto que ele ainda está preso à vida divina por um fiozinho comparado a um arame fininho que à mais pequenina cloisa pode partir.
No meu corpo já não sinto as aves; parece-me já não existir dele nem sequer o mais pequenino bocado de cinza.
Sinto que quem me sustenta a vida do meu coração é Jesus, só Jesus, parecendo-me estar ligada à Pátria celeste por aquele fiozinho.
Viva Jesus! Viva Maria! Viva a Santíssima Trindade a quem amo tanto! »

A paixão visível tendo terminado, ela sente, de vez em quando, sobretudo nos momentos em que mais “padece” outros penas e outros sofrimentos que ela própria não sabe explicar, ela tem “saudades da paixão”, porque sem ela o “tempo não passa” e mesmo as horas parecem-lhe séculos. Ela “brada” então aos Céus, chama por Jesus, por Maria, pela Santíssima Trindade, que parecem não ouvir as súplicas da vítima...
É isto mesmo que podemos ler no seu “Diário” de 24 de Maio:
« Jesus suspendeu-me a crucifixão: parece-me que me suspendeu a vida. Só Ele pode avaliar a minha tristeza e saudade. Não tenho o sofrimento da cruz; já não me sinto nela, escondeu-se-me por completo, mas tenho maior cruz ainda, são maiores os meus sofrimentos. Não posso viver no mundo. O tempo não passa, as horas parecem-me séculos, os dias e as noites eternidades. Quantas vezes levanto os meus olhos ao Céu para exclamar: Jesus, ó meu querido e saudoso Jesus! Mãezinha, ó minha querida e saudosa Mãezinha! Santíssima Trindade, ó minha querida e saudosa Trindade, para quem só quero viver, a quem me entrego, a quem só quero amar. Pobre de mim! Digo que amo e não tenho coração para amar, não tenho corpo senão para a dor, sou como uma bola de espuma que depressa se desfaz. Que trevas, meu Jesus, que securas, que amarguras, que agonias as da minha alma.
O fiozinho da vida divina que estava ligado ao meu coração, apesar de sentir que o não tenho, ainda está ligado ao lugar onde ele habitava. Sinto que ele está a cada momento a querer quebrar. A fúria da horrenda tempestade dá-lhe todos os abalos. Do pequenino lugar que ocupava o meu pobre coração sai, de longe a muito longe, umas escassas gotas de sangue. Agora é que eu sinto quanto a pobre Humanidade necessita dele; toda ela sequiosamente o que sugar. Ó meu Jesus, não abandoneis a pobrezinha que sempre em vós confiou e confia. Apesar de tudo sentir perdido por entre as trevas, é de vós que tudo espero. »
E, como se esta “ausência” dos seus “Amores” não fosse suficiente, um outro sofrimento vem juntar-se ao primeiro, mas desta vez não se trata de uma “ausência” cujo retorno é vivamente desejado, mais duma “presença”, presença esta que Alexandrina não deseja, mas que aceita por amor de Jesus e para Lhe salvar almas: a presença de Satanás.
Nesse mesmo dia 24 de Maio, ela escreve para o seu “Diário”:
« O demónio quebrou todas as cadeias que o prendiam, caiu sobre mim. Luto sozinha, combato a sua raiva. Ó minha querida Mãezinha, tiram-me o meu Paizinho nestes tristes dias em que eu mais precisava dele. »
Corajosamente ela luta e vence; corajosamente ela tudo oferece e pede perdão “para todos os que a ferem”, pedindo mesmo ao seu Senhor e Esposo que a leve “sem demora” para junto dele.
Mas o seu desejo de salvar as almas e de fazer a santíssima vontade de Jesus é sempre mais forte, sempre constante, o que a levará a confessar humildemente: “Só tenho corpo para a dor!”
« Sinto-me abandonada de todos — escre ela no dia 24 do mesmo mês — a não ser quando mo dais milagrosamente para conforto da minha alma; o que tão raras vezes acontece. Perdoai a todos os que me ferem, perdoai tanta cegueira; eles de mim estão perdoados. No lugar do meu coração já não cabem mais espadas; tenho sofrido por todos os lados, tenho recebido sofrimentos de quem menos esperava. Ó meu Jesus, para todos o vosso perdão, o vosso amor e a vossa compaixão. Purificai, santificai, abrasai no vosso divino amor e levai para junto de vós sem demora a vossa filhinha agonizante.
Desde o dia 24 de Maio, dia do divino Espírito Santo, em que eu pedia toda a luz e todo o fogo do seu divino Amor, do seu Amor santificador, o estado da minha alma modificou-se, mas nesse dia de tarde eu ainda dizia: Eu já não tenho vida da terra,
só tenho corpo para a dor. A partir deste dia, deixei de sentir o que até ali sentia quase continuamente, que eram nojentas serpentes cheias de toda a imundice, que entravam pela boca e saíam arrancadas não sei por quem, fazendo lembrar os condenados do inferno atormentados pelos demónios. Não podia ouvir o chilrear dos passarinhos ao alvorecer e ao anoitecer do dia, apesar de me lembrar que estavam a louvar o seu Criador. Os seus gorjeios feriam muito a minha alma. Nada podia ouvir de alegria. A minha sede era abrasadora, as saudades de me alimentar não as sei exprimir e tudo isto me parecia levar ao desespero por sentir que era impossível saciar os meus desejos. Logo dizia ao meu Jesus: É por vós que sofro, e saciai vós a vossa sede de amor, a sede que tendes das almas. »
Este estado particular e de particulares sofrimentos transformam-na fisicamente, segundo diziam as testemunhas oculares e mais particularmente no dia 25 de Maio de 1942.
Alexandrina admira-se disso, mas não contesta... Ela só deseja então o Céu, ir para junto do Esposo amado, ver a Deus para sempre:
« No dia 25 notaram diferença em mim, eu não tinha outra a não ser a transformação da minha alma. Deixei de sentir as grandes amarguras, trevas, securas e agonias a não ser de longe a longe e passageiras, para sentir grandes desejos de voar para o Céu, chegando a sentir impulsos que me faziam levantar, figurando-se-me que tinha asas e formava voo para o Céu. Tendo inteira confiança em Jesus e na Mãezinha e sempre conforme com a sua vontade. No meio de tudo isto a minha alma sente-se em festa, que por vezes chego a cantar com júbilo e alegria:
“Ver a Deus, ver sempre,sempre Deus: eis o Céu!Quem me dera lá ir, etc.”
Parece-me ir para a Pátria celeste, para o meu Jesus, de pé, de braços abertos, a descansar em seu divino regaço.
Já que não posso saciar-me dos desejos e saudades que tenho dos manjares da terra, suspiro, morro e anseio por ior saciar-me dos manjares celeste e só esses valem para a eternidade. O fio divino que liga ao lugar onde habitava o meu coração está quase a quebrar, parece-me que foi limado. O que lhe tem valido é a tempestade só de longe a longe lhe dar uns pequeninos abalos. Agora sim, agora posso dizer: O Céu está perto, vou ver o meu Jesus, vou ver a minha querida Mãezinha, vou gozar do Paraíso, vou amar os meus Amores eternamente. Deixo o mundo sem saudade, não lhe pertenço, não sou dele.
» (1)
O mês de Maio de 1942 ia terminar...
Como para recompensar tanta dor e tantos sofrimentos livremente aceites, o Senhor vai “gratificar” a sua vítima com uma espécie de visão, provavelmente premonitória, durante a noite de 31 de Maio para o 1º de Junho. Ouçamo-la explicar, tendo em conta que o dia 31 de Maio era o dia da festa da Santíssima Trindade:
« Ao cair da tarde, sentia o fiozinho divino a quebrar de todo. Naquele meu estado de alma estava a ver o que Jesus inventaria para mim da sua Ciência divina, a não ser que tudo acabasse com a minha morte. Na segunda-feira seguinte, dia 1 de Junho, de manhãzinha, senti que tinha falhado por completo o fiozinho que para o lugar do meu coração se prendia, mas a ciência de Jesus ainda tinha mais que dar; pouco tempo depois vi e senti descer do Céu à terra para o lugar do meu coração raios de luz mais brilhante que o sol, pareciam vindos do Coração do meu Jesus, ligando-se e reflectindo-se para sempre no lugar do meu coração. Tinha que me embeber toda naqueles raios de amor, o que dia a dia me vão embebendo cada vez mais, deixando-me transformada neles. Esses raios vão-me levantando da terra para o Céu. São um canal no qual eu me tenho de transformar e por dentro dele passar. É por ele que eu vou para Jesus.
Já me sinto elevada a uma certa altura da terra. Momentos há em que não posso resistir a tantas saudades do Céu. Espero ver o meu Jesus dentro em pouco com a minha querida Mãezinha e todos os meus amores por quem aspiro; porém quero que se cumpram todas as promessas de Jesus, quero que me dêem o meu Paizinho que sem eu dar motivos para isso e em momentos tão amargos mo retiraram. Parece que só isso e a determinação da consagração do mundo pelo Santo Padre me obrigam a ainda viver na terra, triste exílio que não posso suportar. »
Ao lermos estas páginas do “Diário da Beata Alexandrina, páginas do mês de Maio de 1942, podemos por elas verificar que, apesar da sua grande devoção à Virgem Maria, todos os meses de Maio, não foram “rosas” para a doentinha de Balasar, ou se o foram, essas rosas eram na verdade demasiado espinhosas!...
Mas, ela própria muitas vezes repetia: “Seja feita a vontade do Senhor!”
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(1) Ignoramos a fonte desta adição. Provavelmente Alexandrina que neste período vive a segunda morte mística. Dom Humberto.
“Estou fina, fina das ideias! Em 27 de Maio, quando assistia ao mês da Mãezinha, eu tive este pressentimento que me deixava em paz: Morro em Maio, vem a paz em Junho. O meu Paizinho espiritual vai ser libertado e vem-me assistir à morte. Morrerei no sábado à tardinha, o meu enterro na segunda-feira, no primeiro dia do mês de Jesus”.

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