15 de janeiro de 2011

EU ESTOU BOA PARA CASAR!

O humor da Beata Alexandrina

A vida da Beata Alexandrina é já bem conhecida dos portugueses e brasileiros, como é sabido, graças ao Sítio oficial onde estão publicadas não só biografias da “Doentinha de Balasar”, mas também grande quantidade dos seus escritos e particularmente, nestes últimos tempos, muitas páginas do seu Diário, “Senti-mentos da alma”.

Lá se encontra igualmente a sua Autobiografia já traduzida em diversas lín-guas. É deste documento importante, escrito pela Beata em 1940 por ordem expressa do seu Director espiritual de então, o Padre Mariano Pinho, que vamos tirar a “matéria” para este curto trabalho que de antemão lhe oferecemos, pedindo-lhe igualmente que interceda o divino Espírito Santo de nos iluminar com a sua luz penetrante, de maneira que prestando homenagem à esposa, possamos pela mesma ocasião prestar ao Esposo celeste uma vibrante e fervorosa prece de acção de graças.

Estamos no período mais critico, da vida da Alexandrina, quanto à sua saúde e cura eventual.
Na verdade, depois do salto que dera da janela da sala para o quintal, nunca mais tivera saúde, mesmo depois de ter consultado numerosos médicos e até ter mesmo feito diversas promessas: o Senhor queria-a para Ele.

Na Autobiografia ela escreve:

« Nosso Senhor aliviou-me de um, mas deu-me outro sofrimento maior ain-da. Só dele teve conhecimento Jesus e, alguns anos mais tarde, o meu Pai es-piritual. »

Do sofrimento “maior ainda” de que aqui fala, não falaremos nós, por que não está no âmbito deste humilde trabalho, por isso mesmo recomendamos aos leitores de consultarem a dita Autobiografia.

« Passaram-se seis anos de doença ― continua ela de explicar no referido do-cumento ―, um pouco a pé, outro pouco na cama. Durante este período che-guei a estar cinco meses sem me levantar, continuando no mesmo sofrimento moral por espaço de doze anos sem nunca, nunca dizer nada a ninguém. Quando me encontrava sozinha e presa no meu leito, voltava-me para o qua-dro da entronização do Sagrado Coração de Jesus, pedia-lhe que me libertas-se de tal sofrimento, que me desse luz para conhecer o que havia de fazer, en-quanto ia chorando muitas lágrimas.

Não deixei de pedir muito à Mãezinha para que intercedesse por mim nas mesmas intenções. »

Como é hábito dizer-se: “Só Deus sabe escrever direito por linhas tortas”. Ale-xandrina devia conforma-se e aceitar humildemente este estado de debilidade para melhor enfrentar o que Jesus tinha para ela preparado.
Como os ares de Balasar não pareciam trazer-lhe qualquer alívio, ela foi envia-da para a Póvoa de Varzim onde anos antes tinha sido escolarizada durante dezoito meses.

« Com os meus dezasseis anos ― conta ela ―, pouco mais ou menos, fui conti-nuar o meu tratamento para a Póvoa de Varzim. »

Os ares marítimos da vila balneária parecem ter tido qualquer efeito “curativo” visto que desse tempo Alexandrina nos conta a sua primeira “aventura” amo-rosa, assunto que é na verdade aquele que escolhemos para uma vez mais ter-mos ocasião de louvar a sua pureza e o seu desapego às coisas do mundo.
O rosto simpaticamente encantador da Alexandrina, os seus olhos negros como amoras, o seu sorriso permanente e a sua natural jovialidade, não podiam dei-xar de atirar sobre ela os olhares dos rapazes da sua idade, o que nos parece cisa normal.
Como a esposa do Cântico dos Cânticos, também Alexandrina poderia dizer: « Eu sou morena, porém formosa! » (Cant. 1, 5).

Mas deixemos que ela mesma nos conte como isso se passou:

« Numa manhã, quando me dirigia para a igreja, percebi que alguém apres-sadamente se aproximava de mim. Era um militar que se dirigia a mim a pe-dir-me namoro. Recusei imediatamente, mas como ele insistisse e não deixas-se de me acompanhar, disse-lhe que se retirasse, que ia para a igreja. Pediu-me licença para estar comigo quando voltasse da igreja. Prometi-lhe que es-taria, só para me livrar dele, com a ideia de trocar o caminho. Ao voltar, pus-me a ver se o via e, como nada enxergasse, vim pela mesma rua. A certa altu-ra surgiu-me ele, não sei de onde, e disse-me:

― “Ó menina, você que me prometeu?”, e tratava de me acompanhar a casa.

Parei e falei-lhe, dizendo que era doente e que minha mãe não consentia que eu namorasse. Custou-me muito a convencê-lo. De repente, apareceu a minha irmã e ralhou-me, pensando que eu estava a namorar. Não voltei mais por aquele caminho, com receio de me encontrar com ele. Com isto, tudo termi-nou.

Várias vezes me vi apoquentada por rapazes a pedirem-me namoro, mas nunca aceitei. Cheguei a dizer a um que me falava em casamento:

― “Não deixo a minha família por causa de um homem.” »

Que simplicidade, mas ao mesmo tempo que têmpera forte e resposta que não permite insistência, mesmo se legítima.
Esta situação e, porque a saúde da Alexandrina parecia, aos olhos de muitos que a conheciam, normalizar-se, até mesmo o Sr Abade se meteu no assunto, parecendo querer tirar o lugar a S. Gonçalo de Amarante...

« Sendo do conhecimento do Senhor Abade que um outro me pretendia, Sua Reverência falou-me assim:

― “Se queres o rapaz, isso é tudo comigo.”

Eu respondi-lhe:

― “Eu estou boa para casar!”, pois já me sentia bastante doente e, além disso, não tinha inclinação nenhuma para o casamento.

Às vezes pensava, se um dia fosse casada, como educaria os filhinhos para serem todos de Nosso Senhor. »

Alexandrina não melhorará jamais e, quando isso compreendeu, uma só solu-ção se apresentou a ela: acomodar-se à vontade de Deus sobre ela.
Eis o que escreveu na sua Autobiografia:

« Como não consegui nada, morreram os meus desejos de ser curada e para sempre, sentindo cada vez mais ânsias de amor ao sofrimento e de só pensar em Jesus.

Um dia em que estava sozinha e, lembrando-me de que Jesus estava no sa-crário, disse:

“Meu bom Jesus, Vós preso e eu também. Estamos presos os dois: Vós preso para meu bem e eu presa das Vossas mãos. Sois Rei e Senhor de tudo e eu um verme da terra. Deixei-Vos ao abandono, só pensando neste mundo, que é das almas a perdição. Agora, ar-rependida de todo o coração, quero o que Vós quiserdes e sofrer com resignação. Não me falteis, bom Jesus, com a Vossa protec-ção.” »

Mais adiante, no mesmo documento, ela afirma ainda:

« Sem saber como, ofereci-me a Nosso Senhor como vítima, e vinha, desde há muito tempo, a pedir o amor ao sofrimento. Nosso Senhor concedeu-me tanto, tanto esta graça que hoje não trocaria a dor por tudo quanto há no mundo. Com este amor à dor, toda me consolava em oferecer a Jesus todos os meus sofrimentos. A consolação de Jesus e a salvação das almas era o que mais me preocupava.

Com a perda das focas físicas, fui deixando todas as distracções do mundo e, com o amor que tinha à oração – porque só a orar me sentia bem – habituei-me a viver em união íntima com Nosso Senhor. Quando recebia visitas que me distraíam um pouco, ficava toda desgostosa e triste por não me ter lembrado de Jesus durante esse tempo. »

Assim era bem verdade, o que ela dissera ao Sr Abade de Balasar:

“Eu estou boa para casar!”

Salvo que o Namorado não era aquele que esperavam, mas Jesus, o Esposo das almas virgens, o Eterno Amoroso que melhor do que ninguém sabe falar às almas que por ele aspiram.

« Eis que és formosa, ó meu amor, eis que és formosa; os teus olhos são como os das pombas » (Cant. 1, 15)

« Pomba minha, que andas pelas fendas das penhas, no oculto das ladeiras, mostra-me a tua face, faz-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa » (Cant. 2, 14).

« Os teus lábios são como um fio de escarlate, e o teu falar é agradável; a tua fronte é qual um pedaço de romã entre os teus cabelos » (Cant. 4, 3).

Assim fala o Senhor às almas suas amadas, particularmente aquelas que intei-ramente se ofereceram a Ele como vítimas, como consoladoras et participantes no mistério da Redenção.
Cada uma delas e também a Alexandrina de Balasar, que o Senhor amou dum amor exclusivo, pode dizer, dirigindo-se ao Esposo celeste:

« Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu » (Cant. 6, 3) ; “eu estou boa para casar!”

O desposório espiritual acontecerá alguns anos mais tarde e a Beata Alexan-drina receberá de Jesus o anel destinado às esposas mais queridas!
Afonso Rocha

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