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quinta-feira, junho 10, 2021

CREIO ÀS CEGAS

Que tremenda confusão!


Não poderei viver assim! Quem me acode? Quem me acode? Estou sozinha, num abandono completo! Não tenho quem me ilumine, não tenho quem me conforte! Quem poderá valer-me? O meu brado é morto; toda a minha vida é morta. Esta morte traz em mim e à volta de mim, que confusão, que tremenda confusão! Quem me deita a mão, quem acode à minha alma? Ó Céu, ó Céu, vinde em meu auxílio! Mas eu tenho alma?!... Existe Deus com a eternidade?!... Perdão, Jesus, perdão, Senhor!... Parece que nada existiu nem existe. Mas eu creio às cegas. (Alexandrina Maria da Costa: 10-06-1955)

segunda-feira, maio 24, 2021

Ó MEU JESUS NÃO ME ABANDONEIS

Sinto-me abandonada de todos


O fiozinho da vida divina que estava ligado ao meu coração, apesar de sentir que o não tenho, ainda está ligado ao lugar onde ele habitava. Sinto que ele está a cada momento a querer quebrar. A fúria da horrenda tempestade dá-lhe todos os abalos. Do pequenino lugar que ocupava o meu pobre coração sai, de longe a muito longe, umas escassas gotas de sangue. Agora é que eu sinto quanto a pobre Humanidade necessita dele; toda ela sequiosamente o quer sugar. Ó meu Jesus, não abandoneis a pobrezinha que sempre em vós confiou e confia. Apesar de tudo sentir perdido por entre as trevas, é de vós que tudo espero.

O demónio quebrou todas as cadeias que o prendiam, caiu sobre mim. Luto sozinha, combato a sua raiva. Ó minha querida Mãezinha, tiram-me o meu Paizinho nestes tristes dias em que eu mais precisava dele.

Sinto-me abandonada de todos a não ser quando mo dais milagrosamente para conforto da minha alma; o que tão raras vezes acontece. Perdoai a todos os que me ferem, perdoai tanta cegueira; eles de mim estão perdoados. No lugar do meu coração já não cabem mais espadas; tenho sofrido por todos os lados, tenho recebido sofrimentos de quem menos esperava. Ó meu Jesus, para todos o vosso perdão, o vosso amor e a vossa compaixão. Purificai, santificai, abrasai no vosso divino amor e levai para junto de vós sem demora a vossa filhinha agonizante. (Alexandrina Maria da Costa: S. 24-05-1942).

O TEMPO NÃO PASSA

As horas parecem séculos


Jesus suspendeu-me a crucifixão: parece-me que me suspendeu a vida. Só Ele pode avaliar a minha tristeza e saudade. Não tenho o sofrimento da cruz; já não me sinto nela, escondeu-se-me por completo, mas tenho maior cruz ainda, são maiores os meus sofrimentos. Não posso viver no mundo. O tempo não passa, as horas parecem-me séculos, os dias e as noites eternidades. Quantas vezes levanto os meus olhos ao Céu para exclamar: Jesus, ó meu querido e saudoso Jesus! Mãezinha, ó minha querida e saudosa Mãezinha! Santíssima Trindade, ó minha querida e saudosa Trindade, para quem só quero viver, a quem me entrego, a quem só quero amar. Pobre de mim! Digo que amo e não tenho coração para amar, não tenho corpo senão para a dor, sou como uma bola de espuma que depressa se desfaz. Que trevas, meu Jesus, que securas, que amarguras, que agonias as da minha alma. (Alexandrina Maria da Costa: S. 24 de Maio de 1942)

UM MAR DE AMOR

Um mar que nunca terá fim


Esse mar infinito para onde corre a minha dor, a dor que vai ferir o meu amantíssimo Jesus vem também de encontro ao meu peito, para o meu coração: um mar infinito, um mar que nunca terá fim, nem poderá esgotar-se o seu amor. É esse amor que me atrai, é esse amor que não posso deixar de anunciar. Trabalha em mim como que um motor; este motor tem voz que se espalha, voz que ecoa no mundo inteiro, voz que junta o humano com o divino, voz que levanta a terra para o Céu. Quantas coisas sabe sentir o meu coração e a minha alma e não as sabe dizer! Que pavoroso martírio para mim! Quero abraçar o mundo, quero abraçar as almas, quero num abraço divino estreitá-las, metê-las todas no peito, no Coração de Jesus; é uma ânsia tormentosa, é uma ânsia sem limites, sem fim. (Alexandrina Maria da Costa: S. 22 de Maio de 1953)

quinta-feira, maio 20, 2021

A CURA DA SÃOZINHA…

“Aí vai o meu amor”


Disse-me Nosso Senhor: ― “Aí vai o meu amor”.

E então, aquela força inexplicável e aquele calor que tanto me abrasava ! Oh ! como eu me sentia bem ! E dizia-me Nosso Senhor :

― És a minha vítima, a vítima dos meus desígnios !

E tornou-me a dizer que me queria no Céu mas que precisava de mim na terra. Nesta ocasião eu pedi ao meu Jesus a cura da minha querida Sãozinha. E Nosso Senhor prometeu-me curá-la breve, mas que lhe pedisse muito, e que lhe pedisse o que quisesse. O que Ele me não alcançasse que é porque não era bem para as almas. (Carta ao Pe. Mariano Pinho:  15-03-1935)

(Nota do Padre Mariano Pinho: De facto curou, quando já se principiava a desanimar da sua cura.)

segunda-feira, maio 10, 2021

VI JESUS MUITO BRILHANTE

Parecia-me não ser sonho


Quantas vezes a este fogo vem juntar-se a grande confusão, o grande martírio de não resistir aos ardores de tal fogo sem panos de água fria. Sofro ao ver-me rodeada das pessoas e ter de manifestar e dar a conhecer este fogo que me abrasa. Confio, se o meu Jesus me der força, a tudo resisto e com a Sua graça escondo. Muitas vezes, durante as noites, tenho visto Jesus, a Mãezinha e S. José. Jesus não aparece sempre duma forma. Raras vezes o tenho dito, porque só o fazia quando tinha a certeza de que não era sonho; de contrário, calava-me e nada dizia, com receio de não dizer a verdade. Nesta noite, vi Jesus muito brilhante, cheio de luz, mas com a Sua santíssima cabeça cercada com uma coroa de agudíssimos espinhos. Parecia-me não ser sonho e, na dúvida de ser ou não, pensava não dizer nada, deixar oculto. No decorrer da manhã, estava sozinha, unida a Jesus a fazer as minhas orações. Veio o demónio, raivoso, malicioso, com ameaças apavoradoras. Enquanto podia, ofereci-me logo a Jesus e à Mãezinha em favor das almas. Que receio tão grande de pecar, estava cheia de medo. Ele dizia-me coisas feias e que desconheço. Parecia-me estar entregue aos maiores prazeres, aos maiores crimes. (Alexandrina Maria da Costa: 3 de Abril de 1945).

sexta-feira, maio 07, 2021

TRÊS CORAÇÕES NUM SÓ

 No Céu vais continuar com a tua obra salvadora


Agarrei-me a Jesus e disse-Lhe:

— Se eu Vos pudesse prender para sempre!... Eu não vivo, nem sei se sofro, pois não sou eu que sofro. Sois Vós, Jesus, sois Vós.

— Ó esposa querida, esposa amada, o Céu assiste-te e em breve é teu. É Jesus a dizer-te. Coragem! Coragem! Anima-te! Criei-te para o que há de mais alto, para a missão mais sublime. Que Glória te espera tão depressa!

— Ó Jesus, ó Jesus, eu só quero amar-Vos e a glória é toda para Vós; quero salvar-Vos as almas a todo o custo, sem a ansiedade da mais pequena recompensa.

— Minha filha, tem-las salvas aos milhões, e do Céu virão muitas graças para confusão e remorso de muitos cegos que não quiseram ver. Vais continuar com a tua obra salvadora. Eu to prometo e afirmo. Irão para ti os pecadores, atraídos por atracção celeste como avezinhas em bando e as formigas para o celeiro. Dize, minha filha, Jesus te manda dizer. Nunca a humanidade viu, nunca o Céu contemplou tal incêndio de vícios, maldades e crimes. Nunca se pecou assim. Toda a reparação é pouca. Avante! Avante sempre, a fazer oração e penitência! É preciso sustentar a justiça de meu Pai. O Seu braço cai, o Seu braço cai. Aqui tens, minha filha, a Minha Mãe, a tua Mãe. Escuta as Suas palavras, aceita as Suas breves carícias.

Era o Coração Imaculado de Maria. Mostrou-me o Seu Coração rasgado e, unido ao d’Ela, rasgado estava o de Jesus. Depois de me acariciar, disse-me:

— Minha filha, minha filha, Jesus pede e Eu peço com Ele oração e reparação. São os crimes que assim nos ferem. Coragem, coragem no teu inigualável sofrimento. Eu venho buscar-te [em] breve, levar-te comigo para o Paraíso. Uno o teu coração aos nossos para viveres a nossa dor.

Jesus aproximou-se; fez dos três corações um só e fez-me passar a gota do Seu Sangue Divino.

— Recebe esta vida: é vida divina, é vida de graça, fortaleza e amor. Comunica-a, dá-a às almas na abundância que elas quiserem. És de Jesus e por ti elas recebem Jesus. Não deixes de repetir o teu “creio”; não é mentiroso, é verdadeiro. Sofre, sofre assim. O mundo exige, o mundo exige!

— Ó Jesus, ó Mãezinha, muito obrigada, muito obrigada. Não me deixeis cair no desalento. Vede que estou sozinha. Compadecei-Vos de mim! Perdoai ao mundo, perdoai, perdoai. Dai à minha alma aquele por quem ela já não pode esperar mais! (Sentimentos da alma: 06-05-1955)

quarta-feira, maio 05, 2021

AO DIRECTOR E AO MÉDICO

 — Anima-te, meu anjo, e confia sempre


— Anima-te, meu anjo, e confia sempre. Dá ao teu paizinho, minha filha, o meu Divino Coração com toda a doçura, ternura e amor. Dá-lho cheio dos meus agradecimentos pela sua dor e exemplo na sua cruz; é exemplo dos santos. Diz-lhe que me servi de tão grande martírio para reparação de tantos e tão maus sacerdotes. Tudo está a terminar, ele será exaltado, e os exaltados humilhados, e a sua missão continua sempre junto de ti e junto às outras almas. Dá também ao teu médico o meu Divino Coração como nome dele, da esposa e de todos os filhinhos, gravados a oiro. São meus, pertencem-me; são salvos, é de todos o céu. Dá-lhe também os meus agradecimentos, diz-lhe que sou eu que o nomeio combatente livre e vencedor da minha divina causa, causa mais brilhante e prodigiosa. Diz-lhe que redobre os seus cuidados e canseiras junto de ti. É preciso milagre, grande milagre para a tua vida e existência aqui. Dá à Sãozinha a promessa do céu sem purgatório pelo que trabalho pela minha causa divina. Faz-me uma lista das pessoas a quem queres que lhes dê o céu sem irem ao purgatório. Sei muito bem quais elas são e quero condescender com os teus desejos. Vem, minha Mãe, toma o teu lugar de Mãe carinhosa e extremosíssima, dá a vida e suaviza a dor desta nossa filhinha.

Tomou-me a Mãezinha em seus braços, senti-me logo cheia de doçura e amor. Dum lado o seu santíssimo rosto e do outro a sua bendita mão me acariciava. Estava o meu rosto no meio daquela prensa santíssima. Cobriu-me de beijos, senti-me viver.

— Minha filha – dizia-me ela – venho em breve buscar-te para o céu. Antes de expirares, levo-te à presença de Jesus pela minha bendita mão; entre mim e Ele serás conduzida ao paraíso. À tua chegada terás coros de virgens, coros angélicos, toda a corte celeste em hinos, todo o céu em festa.

— Obrigada, Mãezinha. espero-Vos depressa, a não ser que os Vossos breves sejam como os de Jesus. Seja como for, não tenho vontade nem querer próprio. O que quero é a Vossa força santíssima para levar a minha cruz, a pureza do meu corpo e da minha alma, o amor ao Vosso Coração e ao de Jesus, a graça de não O desgostar nunca, nunca. Dizei-me, Mãezinha, estais triste comigo ou está Jesus?

— Não, esposa do meu filho querido. A minha alegria e consolação estão em ti, nada fizeste para me entristecer; tudo fazes para honra e consolação minha e do teu Jesus. Sossega, sossega, meu Filho, sossega a tua filhinha.

— Coragem, sossega, amada do meu Divino Coração. O que te digo é para te firmar e fortalecer no teu martírio. Não me desgostaste, sossega, não o permito. De ti recebo a alegria e amor que o meu Divino Coração deseja. És a loucura do céu, a vida das almas, o encanto da terra, a glória do meu Pai.

Por algum tempo fiquei fortalecida, mas, à medida que as horas foram passando, corri apressadamente a mergulhar-me nas trevas para nelas poder esconder-me de todos e para sempre. Abismada nelas, parecia-me não caberem em mim as ânsias, ânsias doridas, ânsias capazes de dar a morte, ânsias não sei de quê. Que peso o da minha cruz! Mas quero-a, amo-a para sempre. (Sentimentos da alma: 05-05-1945)

quinta-feira, julho 19, 2007

“ISTO É TUDO MEU!”

Tivemos já ocasião de falarmos das visitas não desejadas do “manquinho” à Beata Alexandrina, quando lemos uma das páginas da sua Autobiografia.
O inimigo de Deus e das almas, dá aqui novas provas das suas manhas e dos seus artifícios quando quer seduzir uma alma.
O caso da Alexandrina é “bicudo” para ele, visto que, acorrentado pelo Senhor, não pode, por enquanto, aproximar-se muito dela nem lhe tocar, mas mesmo assim e, de longe, tenta quanto pode, ou quanto lhe é permitido, levá-la ao desânimo, às dúvidas sobre a fé e, porque não ao desespero.
Todos os meios são bons para ele, como abaixo veremos. Empregará até uma frase idêntica àquela antes dissera a Jesus, quando transportando-o sobre uma alta montanha e mostrando-lhe o mundo, lhe disse descaradamente : “Isto é tudo meu !”
Situa-se aqui a visão ― a primeira ― que a Beata Alexandrina teve do inferno.
A semelhança desta visão com aquela que teve do inferno Santa Francisca omana, é muito grande !


Talvez para contrabalançar esta terrível visão infernal, Jesus oferece-lhe uma visão mais agradável, mais linda, mais feliz e beatífica : Maria.

* * * * *

« Balasar, 7 de Fevereiro de 1935
Viva Jesus !
Meu P.
Já vai sendo tempo de eu dizer a Vossa Reverência como tenho passado tristes estes dias da minha vida.
Desde o dia 16 de Janeiro que Nosso Senhor não me tinha voltado a falar. Oh, como eu estava triste ! Parecia-me estar abandonada de todo. Passaram-se vinte dias sem eu receber o meu querido Jesus, tendo eu tão fortes desejos de estar sempre unidinha a Ele.
Chegaram, por fim, a primeira sexta-feira e o primeiro sábado e nesses dias dignou-se Nosso Senhor vir repousar na minha pobre alma. Empreguei todos os esforços para me preparar para bem o receber e lhe dar graças, mas foram inúteis todos os meus esforços porque só sentia frieza e nenhum fervor.
Vossa Reverência quer saber quem mais se me fazia sentir ? Era o demónio. Esse todo se consumia para me fazer companhia. É um tal enredo que não era muito para contar por escrito, mas assim fico mais sossegada da minha consciência : Na noite de 7 para 8 de Janeiro, estando eu a dormir, acordei sobressaltada, mais que uma vez, porque me parecia que à beira da minha cabeça, na travesseira se esgatanhava. Depois, de madrugada, vi atravessar umas sombras altas e pretas da porta de meu quarto para a janela. Na noite de 17 para 18, quando todos dormiam, estava eu a contas com minhas orações, figurou-se-me quase um caminho e por um lado uma barreira feia. A muita distância vi como que um portal. À entrada um vulto preto de cada lado, e ouvi dizer assim :
— Isto é tudo meu.
Passados momentos, vi, a par da minha cama, um abismo tão fundo e tamanho. Ai, o que eu vi lá dentro ! Coisas tão feias ! Não era gente o que eu via, não sei explicar o que era. O que sei dizer é que era uma multidão tamanha, tamanha e tão unida, muito mais unida do que a gente na missa campal no Congresso Nacional em Braga. Para os lados tinha umas covas tão feias ! E Oh ! que movimento eu lá vi. Do meio daquilo saíam labaredas, mas não eram como as do nosso lume. Lá, num sítio, via um montinho duns vultos pretos com umas coisas ao alto, não sei se eram paus se eram forcados. Para o outro lado, via outras sombras que me deram a impressão do quadro da morte do pecador: um a puxar para diante e outro a puxar para trás e saía do meio um rabo tão grande que formava um grande arco. E afiguarava-se-me que atravessavam por cima da minha cama as mesmas sombras pretas. Não podia rezar e não sabia as horas, mas bem as ouvia bater.
Na noite de 29 para 30 formou-se uma enorme escuridão dentro de meu quarto. Parecia-me ser uma casa muito feia onde me aparecia a um postigo uma cara muito feia também. Ouvia dizer assim :
— São os telhados da minha casa (mas eu não via telhas nenhumas). Cá por fora é feia mas lá por dentro é chique. Anda para mim, que outros que assim têm feito acham-se bem. Ama-me e deixa esse impostor a quem amas. Ele não quer que tu me ames porque chegas a ser tanto como Ele : tanto como eu, não. Eu estive hoje a ver que tinha mais almas do que Ele. Porque seria isso ? É porque valia recompensa.
Eu beijava e apertava na mão o meu crucifixo e ouvia dizer assim :
— Se não fosse esse impostor que tens na mão, punha-te um pé ao pescoço ; punha-te o corpo em mostarda. Mas isto há-de fazer Ele a ti e tu depois hás-de querer vir para mim, mas eu não te aceitarei. O que te vale é essa benzelhice. Não é porque eu tenha medo, mas odeio-o. Tenho nojo. Cospe-lhe !
Nesta ocasião aproximavam-se de mim uns grupos de vultos de cor avermelhada e ouvia dizer :
— Se eu quiser, não te deixo dormir.
Eu, no meio de tudo isto, sem ter um ministro de Nosso Senhor a quem pudesse abrir a minha consciência! Com quem eu pudesse desabafar ! E sem ter uma cartinha de Vossa Reverência par me consolar ! Como é que eu não havia de estar triste ? Chorei, mas graças ao meu querido Jesus, eram tristezas e lágrimas de grande resignação com a sua Santíssima Vontade.
Ontem tive a consolação de receber o meu querido Jesus. Eu tinha o costume de pedir a Nosso Senhor, para mandar uma multidão de anjos, querubins e serafins acompanhar o meu Jesus do sacrário até junto de mim e vir Ela com outra multidão para preparar o trono da minha alma para eu receber a Jesus e no fim dar-lhe graças por mim. Desta vez assim foi.
Depois de ter recebido Nosso Senhor, que paz eu sentia ! Estava de olhos postos e principiei a ver diante de mim tantas, tantas cabecinhas. Umas mais acima, outras mais abaixo, formando um grande arco. E mais a um lado umas coisas maiores e não sei com que estavam. Via no meio uma coisa maior mas não a divisava tão bem. À frente apresentava-se-me a figura dum trono com umas cores tão lindas e, do meio disto que eu via, saíam uns raios dourados.
Ao ver isto eu pensava que era Nossa Senhora acompanhada com os seus anjos como eu lhe tinha pedido. Pensava também se sim ou não havia de mandar dizer isto a Vossa Reverência. E disse assim : Oh ! meu Jesus, dizei-me se lhe hei-de mandar dizer ; e então disse-me Nosso Senhor :
— Diz tudo, tudo. Apresentei-te isto para veres que os teus pedidos são ouvidos no Céu. O que viste foi Nossa Senhora com os seus anjos, querubins e serafins com os seus instrumentos. Vieram preparar a tua alma e depois deram-me graças, amaram-me e louvaram-me como no Céu. Estão à roda de ti. Vieram em revoada. Eu não te abandonarei. É bem que te quero. É amor que tenho à tua alma. Tenho muito com que te beneficiar. Não te esqueças do que te tenho recomendado: os meus sacrários e os pecadores. A batalha é difícil de vencer.
E tornou-me Nosso Senhor a dizer :
— Olha!
Repetiu-se então o que já tinha visto mas já não se divisava também : sentia então todo aquele calor e aquela força que já muitas vezes tenho dito a Vossa Reverência. Mais tarde diziam-me assim :
— Não mandes dizer isto ! Condenas-te, Cais no inferno, o que vale é que ele não acredita em ti; bem sabe que o andas a enganar.
Adeus, até quinta-feira; veja, por caridade, quanto necessito das orações de Vossa Reverência e não me esqueça que eu farei o mesmo. Muitas lembranças da minha mãe, da Deolinda, e da Dª Sãozinha. Por caridade, peço que abençoe a pobre

Alexandrina M. C. »