5 de dezembro de 2011

AS VISITAS EM CAUSA

Não sei como poder resistir ao horror, ao nojo que me causam as visitas

Dia de muitas visitas à Beata Alexandrina
Parece-me sentir e ouvir que uma voz me chama para a eternidade; sinto que é o fim que se aproxima e que essa voz é a voz de Jesus. Eu não O vejo, mas sinto que Ele me espera, de braços abertos, para me receber e pedir contas. Eu não sei como Lhas hei-de dar. Eu anseio por esse momento de ir para Ele, e sinto que não posso demorar-me mais tempo aqui, mas tenho medo de comparecer na presença de Deus, de mãos vazias, só cheia de misérias; é só o que tenho, é só o que vejo. É tremendo o meu sofrimento, é horrorosa a minha dor.
No dia 8, no dia da querida Mãezinha, apesar de me lembrar muito Dela, de querer amá-La, honrá-La, dar-Lhe todo o louvor, passei todo o dia morta, sepultada numa sepultura, na maior profundidade das minhas trevas. Só à noite ressuscitei, e saí dessa sepultura, para ver que nada tinha feito e só a minha miséria e nojenta podridão me apareceram. Depois de contemplar bem o meu horroroso estado, voltei a morrer e a sepultar-me na mesma sepultura. E, todos os dias, mais de uma vez, ressuscito e saio dela só para ver e contemplar o que me causa horror. Não passo daqui, da morte à vida horrorosa e da vida horrorosa à morte. Vejo-me sozinha, inútil para mim, inútil para todos, sem o mais pequenino amor a Jesus e o menor bem para as almas e para a humanidade.
Não sei como poder resistir ao horror, ao nojo que me causam as visitas, quero fazer-me compreender; este horror, este nojo não são as visitas que mo causam, sou eu que sinto nojo de mim mesma e causa-me horror ver a podridão vergonhosa e nojenta que as visitas vêm contemplar. Não sei dizer o que sou e o que sofro com o que sou. Meu bom Jesus, minha querida Mãezinha, amparai-me, tende dó de mim, sou a Vossa vítima. Eu aceito e quero todo este sofrimento, mas quero amar-Vos e ver salvas as almas. O meu viver é entre espinhos, é um martírio contínuo de alma e corpo, os espinhos atravessam-me a alma e não deixam o mais pequeno bocado do meu corpo sem ser ferido; sinto-me sempre a derramar o meu sangue.
No meio de tudo isto, sem querer nem querer libertar-me do sofrimento, nada faço daquilo que o meu pobre coração anseia; fazer o bem; praticar só o bem, acudir a todos, remediar todos os males, assemelhar-me a Cristo, seguir em tudo os passos de Jesus. Nada sinto que se realiza e é de utilidade para a humanidade porque apesar de tanto sofrer, nada é meu, nenhum bem eu faço. Sou tão nada, como hei-de levar a minha cruz! Neste mar de sofrimento, envolvida nas ondas mais furiosas, vi por vezes o Menino Jesus caminhar à minha frente com um grande madeiro aos ombros. Ele era tão pequenino, não sei como o podia levar; só a força de um Deus. Causava-me dó e grande impressão vê-Lo tão pequenino com tão grande cruz. Ele olhava para mim, fitava-me docemente e caminhava sorridente, como se nada levasse. A vista de Jesus dava conforto à minha alma, dava-me amor à cruz.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 12 de Dezembro de 1947 - Sexta-feira).

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