21 de abril de 2015

JESUS, AGORA NÃO QUERIA DEIXAR-VOS

24 de Abril de 1953 – Sexta-feira


Sinto-me ora de joelhos implorando, ora correndo, louca pela humanidade, de mãos postas, no mesmo brado a implorar sempre, a querer não sei quê, mas sinto que quem implora não sou eu, e este querer meu não é também; parece-me que é o querer de Jesus, que é Ele que me leva, que me dá impulsos fortíssimos, até impulsos infinitos de pedir a todas as almas para virem ao Seu divino Coração. Jesus quer, e a Sua ansiedade divina não me deixa sossegar. Ai de mim! Jesus quer, e eu também quero dar-Lhe as almas, dar-Lhe o mundo inteiro. Mas não passo além dos desejos, além desta ansiedade. Que tormento, que angústia para a minha alma. Não sou nada e nada dou. Sofro tanto, tanto, e a inutilidade tudo me rouba. Jesus e as almas nada recebem de mim. Sinto a fadiga, o cansaço, como se pudesse correr o mundo inteiro a cada momento. Tudo isto à conquista das almas. Parece que nada adianta este meu tormento. É tal a minha pobreza, que empobreço a todos, rouba-me a mim mesma. Não digo o que se passa em mim, porque não sei. É indizível tal ignorância, são indizíveis tais sofrimentos. Queria abraçar o mundo, trazer num molho todas as almas para Jesus e ao mesmo tempo quero fugir delas; queria esconder-me num ermo, num lugar solitário onde não pudesse ser vista nem falar a ninguém. Ai o meu calvário, ai o meu calvário! Que pavor ver-me assim visitada! Jesus me perdoe o grande número das minhas faltas. Nem sempre tenho paciência nem caridade. A vontade está pronta para abraçar a cruz do Senhor, mas a natureza é tão fraca! Eu sem a dor não saberia viver, sou louca por ela. Ou sofrer, ou morrer, meu Jesus! Bem sabeis que não sei sofrer, mas que anseio toda a perfeição para Vos consolar. Não sei que sinto que não me deixa sossegar. Parece que tudo vem contra mim. Que revolta, meu Deus, que revolta, que humilhações que me esmagam. Será algum sofrimento de novo que vai surgir, ou é mais uma parcela da Vossa cruz? Seja feita a Vossa divina vontade. Jesus, sou a Vossa vítima.
Ontem a visão do Calvário levou-me ao Horto. Eu era uma bola a ser esmagada por um e outro. Ali agonizava e dava a vida. Ali tinha a vida da terra, de todo o pecado, de toda a podridão. E, como por um canal, estava ligada ao Céu e tinha a mesma vida do Pai. Passei a noite unida a Jesus nos sacrários, unida a Jesus na prisão. Sofri em silêncio com Ele. Segui hoje para o Calvário, triste, mais triste que a noite e a morte. Eu caminhei porque alguém caminhava em mim. Fui arrastada e barbaramente chicoteada, porque Jesus todos estes sofrimentos sofria. Ele, em tamanho natural, com a cruz aos ombros, cabia e caminhava dentro do meu peito. Como sangrava a Sua sacrossanta cabeça! Meu Deus, como caíam a meus pés as Suas carnes santíssimas retalhadas! E eu, em impulsos raivosos, cega e louca, esmagava-as aos pés sem dó nem piedade. Jesus ia expirando alagado em suores frios, ao terminar da montanha. Ai quanto sofreu Jesus com os meus pecados! Quanto Ele sofreu por nosso amor. Se eu pudesse e soubesse fazer compreender isto! No alto do Calvário continuo o meu sofrimento, a minha agonia indizível, acompanhada duma esmagadora humilhação. Acompanhavam-me numerosas pessoas que sem querer aumentavam o martírio do meu calvário. Se não fosse Jesus, se não fossem as almas, recusava-me a tudo. Sentia como se o meu coração estivesse preso por fortes argolas e cadeias a um mundo de rochedo. Estas argolas e cadeias não eram de ferro, mas sim de amor. Vinham do Coração divino de Jesus. Ele não podia desligar-se de nós. Que amor, que loucura de amor, que amor infinito! Ele expirou e eu com Ele. Prolongou-se por bastante tempo este silêncio mortal. Jesus demorou-se a dar-me novamente a vida. Quando me fez ressuscitar, falou-me assim:
— Ouvi a voz de Jesus sumida e quebrantada com o peso dos crimes da pobre humanidade! Jesus sofre através das suas vítimas. Jesus imola, noite e dia, a vítima deste calvário. É o amor, só o amor que leva Jesus a esta imolação. Quero salvar o mundo, quero salvar os filhos meus. Vê, minha filha, repara bem: um mar imenso de sangue que sai do meu divino Coração!...
— Ó Jesus, ó Jesus, parece que me afogo. Queria aparar o Vosso Sangue divino. Eu não queria que ele caísse e não o posso nem sei aparar. Que fazer, meu Jesus? Eu nada posso! Aceitai o meu pobre coração, pobrezinho como é. Vós tudo podeis. Nada Vos é impossível. Fazei que este mar de sangue possa ser encerrado todo dentro do meu. Se assim for, Jesus, e eu for calcada por toda a humanidade, é o meu coração que sofre e não é pisado o Vosso Sangue divino. Sofrer, Jesus, eu sempre, eu, mas que o Vosso Sangue divino esteja resguardado, Jesus, para não ser calcado por pés imundos, por pés criminosos, meu Amor.
— Desapareceu o Sangue, minha filha; foram os teus desejos, foram as tuas ânsias. Não é calcado o Sangue que o meu divino Coração derramou. Tudo em ti me consola. Toda a tua vida me desagrava. Sabes bem, minha filha, já te tenho dito, mostro-me sofredor para ser por ti consolado. Mostro-me sofredor para ser por ti reparado. Mostro-me sofredor para te levar mais e mais à compaixão por Mim. Sofre, sofre! Dá-me a tua dor. É Jesus, é o Mendigo do amor e da dor a pedir-te, a pedir-te sempre. Sofre, sofre, para aplacar a justiça do meu Pai. Ama-me, ama-me e faz que eu seja amado. Não duvides, minha filha, não duvides. A tua vida, toda a tua vida é a cópia mais fiel, mais exacta de Jesus crucificado. A tua missão é árdua, a mais árdua, mas a mais sublime. As almas, as almas custaram e custam dor e sangue. Os pecadores não querem converter-se. O mundo corre para um abismo de perdição. Eu, que tudo vi e vejo, lancei e lanço mãos à obra. Coragem, coragem! Continua a mesma obra de salvação. Que mar de crimes, que mar de crimes!... As ondas dos vícios tocam no Céu a desafiar a justiça do meu Pai. Coragem, escora firme, coragem, farol de luz luminosa. Coragem, florinha eucarística, coragem na tua missão. Fala de Mim às almas. Diz-lhes as minhas queixas. Fala de Mim ao mundo, diz-lhe que o quero salvar.
— Ó Jesus, Jesus, eu não sei dizer nada e nada sei sofrer. Queria ir para o Céu. Jesus, parece-me que não posso mais. Só a vontade está louca por mais e mais sofrer, mas a minha pobre natureza sente-se sucumbida. As humilhações esmagam-me. Só vejo em mim miséria e sou a causa de tantas misérias. Se Vós ao menos, meu Jesus, me repreendêsseis na Vossa sabedoria, esclarecêsseis as minhas faltas, não sentia tanto a humilhação.
— Confia, minha filha, tudo é por Mim, é para Mim. Jesus não mente, Jesus não mente. Não posso dizer aquilo que tu não fazes. As tuas faltas são próprias dos justos, dos meus eleitos. O teu céu está perto. Conservo-te neste calvário só por amor à humanidade. Anseias por Mim: Eu anseio por ti. O Céu está perto. Vem receber a gota do meu divino Sangue. Uniram-se os nossos corações e a gotinha do Sangue passou. Levou a vida necessária ao teu corpo e à tua alma. Nova vida para mais e mais sofreres, para mais e mais amares. Vai em paz! Fica na cruz! Dá a minha paz! Distribui o meu amor, distribui as minhas graças. Felizes, ditosos os que as recebem!
— Jesus, agora não queria deixar-Vos. Tenho mais força e tenho mais luz. Obedeço, mas antes disso lembro-Vos como sempre todos os que me são queridos, com as minhas primeiras intenções, todas as minhas intenções, com a humanidade inteira. Salvai a todos, meu Jesus! Perdoai a todos!
— Vai em paz! Vai em paz! Vai em paz e confia!

— Obrigada, Jesus, obrigada, Jesus. O meu eterno obrigada!

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