3 de abril de 2015

SEXTA-FEIRA SANTA COM A BEATA ALEXANDRINA

30 de Março de 1945 – Sexta-feira Santa


Envolta na mesma nuvem que ontem sobre mim desceu, principiei o dia de hoje, dia que só era noite e vida que só era morte. Faltavam-me as saudades por não receber o meu Jesus. Sofri mais nos dias passados com a lembrança de hoje não O receber do que hoje por não comungar. Sofria por sentir pouca pena. Indiferente a tudo, a minha alma sentiu, e o meu corpo também, que me levaram presa, e alguns por escárnio a ouvirem a opinião duma multidão de grande ralé e vil canalha que me condenavam à morte. Os meus ouvidos ouviam, a uma voz só, a palavra de “morra, condene-se”. Oh, que gritos os da multidão. Tomei a cruz, caí repetidas vezes; ia a cada passo a expirar. Caía e sobre mim ficava a cruz. Não por dó mas por receio, queriam alguém que a levasse. Houve quem caminhasse com ela, não por amor mas por ser mandado; mas mesmo assim quanto amor senti o meu coração dispensar-lhe. Que grande paga! O meu corpo ia entregue aos malfeitores, o meu espírito ia só em Deus. No calvário, o sangue corria por todas as feridas do meu corpo. Que horas tão agonizantes! Sentia na minha alma todos os suspiros que dava Jesus; todos os olhares, que Ele levantava ao céu, na minha alma foram gravados. Momentos antes de Jesus expirar, só de longe a longe dava um suspiro. E nesse intervalo de tempo estava como se não tivesse vida. E a minha alma a sentir tudo isto. Oh! como era lindo! Que lições tão belas nos dá Jesus. Tão maltratado e tão cheio de ternura e amor. Ainda o Seu santíssimo corpo a sofrer na terra e a Sua alma santíssima a voar ao céu; voava e deixava cair para a terra bênçãos e chuvas de amor. Veio o meu Jesus, fez-me por algum tempo esquecer a dor. Começou o meu coração a dilatar-se e a arder em chamas.
— Venho, minha filha, felicitar-te, saudar-te, louvar-te pelo teu aniversário, pela tua vida tão cheia de maravilhas, tão rica de virtudes, tão rica de amor. A tua vida é de rios de ouro e minas de pedras preciosas. Nunca o mundo viu nem voltará a ver; és a vida das almas. É com esta riqueza que elas são resgatadas, que elas dão salvas.
— Falai, falai, meu Jesus, são para Vós as felicitações, as saudações e os louvores. O que faço eu sem Vós, meu Jesus? O que sou eu sem Vós? Podeis dizer, podeis falar, a grandeza é Vossa, a miséria é minha.
— Louvo-te pela tua fidelidade e correspondência às minhas graças divinas. Louvo-te pela tua reparação. Quantas vítimas escolhi e recebi uma recusa. Quantas chamei e não me escutaram. A quantas convidei a uma alta elevação para mim e nada consegui. Em ti consolei-me, de ti tudo recebi. Tu és o instrumento das almas, és a conquistadora de Cristo. Toda a tua vida é uma vida de maravilhas. Se pudesses ver as almas que por ti foram salvas! E ultimamente, nestes três anos do teu jejum! Que grande meio para acudir aos pecadores. Mostro aqui o meu poder, as minhas ânsias e o meu amor para com eles. Nada te disse no aniversário do teu jejum, para tirar da tua amargura toda a doçura para mim e todo o proveito para as almas. E vou já assim preparando-te par a tua última fase. Martírio acompanhado com o jejum será o maior meio, o último meio de salvação. Não será só riqueza de rios de ouro e minas preciosas, mas será um mundo de ouro, um mundo das mesmas pedras. O martírio subirá ao auge e o amor atingirá toda a altura. O amor a Jesus, a dor pelas almas, reparação sem igual. Recebe agora, minha filha, o sangue do meu Divino Coração; é a vida que necessitas, é a vida que dás às almas.
Vi o Coração Divino de Jesus a arder em chamas, a transbordar de amor. Unido aos meus lábios, sentia o sangue correr e o meu coração por muito tempo a dilatar-se.
— Minha filha, o céu louva-me por te ter criado, louva-me pela honra que me dás e louvor que já da terra recebo. O céu louva-me e sempre me louvará. Da terra já recebo louvores e dentro em breve todo o mundo me dará louvor pela minha vítima, pela nova redentora. Prepara-te, filhinha, vou-me dar a ti. É um sinal que mesmo escondido sempre em ti habito. Repara, desce o céu sobre ti. Dou-me a ti numa comunhão real, numa comunhão eucarística.
Desceu sobre mim a abóbada do céu.
— Que lindo, que lindo! – exclamei eu. Vale a pena, meu Jesus, sofrer e sofrer tudo para possuir o céu.
Eram tantos, tantos os anjos que batiam as asas e prestavam homenagens a Jesus. Desta vez não cantavam. Adoravam e inclinavam-se em sinal de reverência na presença de Jesus. Ele disse as palavras Ecce Agnus Dei e depois as de Corpus Domini Jesu Christi.

Nota - No dia 11 de Abril, pergunta-me: “o que querem dizer estas palavras? E as outras: Corpus Domini Jesu Christi?” Notei também que normalmente ela não sabe estas frases e, referindo-se a elas, diz: “aquelas palavras que Jesus disse na comunhão”.

Parece-me bem que estendi a língua para receber Jesus. Ficamos por uns momentos num silêncio profundo, numa união tão grande. Depois Jesus chamou pela Mãezinha.
— Mãe Bendita, vem saudar e acariciar a nossa filhinha, a nossa vítima.
Ela veio, tomou-me para o Seu regaço, cobriu-me de mimos e entrelaçou os seus santíssimos braços nos de Jesus, e estreitavam-me os dois ao mesmo tempo.
— Minha filha, flor mimosa do meu Jesus, amo-te, amo-te com Ele. Recebe todo o nosso amor. Saúdo-te pelo louvor, honra e almas que nos dás. Sofre, sofre contente. É a mãe que pede para os seus filhos, é a mãe que pede para os irmãos teus.
Beijava-me dum lado Jesus e do outro a Mãezinha. Jesus acrescentou:
— Vai, filhinha, vai escrever tudo. Para tudo o que disseres, tudo o que fizeres, terás sempre a luz do Divino Espírito Santo; é Ele que fala em ti.
— Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha.

Fiquei logo duvidosa de tudo e mergulhada em tanta dor! De nada me valiam as pessoas queridas que me rodeavam. Vieram ainda espinhos tão agudos a ferirem-me. Por tudo bendisse ao Senhor e, como remate, rezei o Magnificat.

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