1 de abril de 2015

EIS AQUI A ESCRAVA DO SENHOR

Vejo cada vez mais profundo o abismo da minha dor. Meu Deus, que universo sem fim de martírio! Perdi o meu Jesus. São estes os sentimentos da minha alma. Já não O vejo diante de mim de mão no Seu santíssimo rosto, como há dias O via e sentia. Agora apenas sinto a perda d’Ele e o Seu poder e a Sua justiça sobre mim. Perder a Deus, perder a Deus, oh! que desgraça, oh! que martírio! Sinto a perda de Jesus e de todas as criaturas; sou sozinha, sem ninguém, ninguém por mim. A luz, que sobre mim sentia, foi subindo no cimo da torre que em mim se levantou. A torre subiu, subiu, chegou ao céu. A luz, que era do céu, para dentro do céu entrou, deixando ficar seus raios luminosos sempre no cimo da torre. Esses raios fazem que eu lá do alto continue a ver a humanidade desgraçada, a humanidade perdida. Pobre do meu coração estala de dor continuamente. Ai o mundo que eu tanto queria salvar.
— Ó meu Jesus, dizei-me o que posso fazer em favor dele.



Não posso lembrar-me que Jesus vai deixar de me falar. Não posso resistir! Atormenta-me ter de escrever o que se passa na minha alma, atormentam-me os colóquios que tenho com o meu Jesus, com o receio de mim mesma, de entrar alguma coisa minha. Mas oh! o que será de mim, quando Jesus se esconder deveras! Ah! se me dessem a escolher, se eu tivesse o meu querer, escolheria, quereria a primeira parte: os colóquios e escrever tudo, até dia e noite sem parar, se fosse possível. Sofro por vir Jesus falar-me e sofro horrivelmente por ir deixar-me.
— E quando será, meu Jesus? Eis aqui a escrava do Senhor. Meu Deus, quando e como quiseres. Sede comigo.
Em horas de grande amargura, quando sofria com essa perda de Jesus, uma voz me segredava:
— Mas já não tens de escrever, já não recebes as visitas do teu Jesus.
— Ó meu Deus, parece que preferia todos os sofrimentos e não ser privada do meu Jesus, do meu Amor, que é tão meu. É necessário que eu sofra? Estou pronta, meu Jesus. Consolai-Vos, salvem-se as almas. Quando me será dado o meu paizinho? Já é tarde para consolação da minha alma. Que ele venha, meu Jesus, para a realização das Vossas divinas promessas, para honra e glória Vossa e Maior consolação.
Lá vou para a morte, ela vai-se avizinhando.
— Oh! quando chegará o meu grande dia, o maior dia da minha vida?
A minha alma sente que o meu nome é tão falado. Pobre de mim, que tanto tenho procurado viver escondida e nada consigo. Sinto que sou falada e por tantos com desdém e até com rancor. Sinto que os nomes de pessoas, que me são tão queridas, sofrem por minha causa, são até enxovalhadas.
— Meu Jesus, tudo por Vosso amor. Que eu seja calcada, extremamente desprezada, para serdes Vós glorificado, amado e louvado.
O dia de hoje foi dia de grandes saudades, de tristes aniversários para mim. Três anos sem me alimentar e sem a minha querida crucifixão. Chorei com saudades dela e com saudades da alimentação. Não pude conter as lágrimas. A minha alma estava em paz, contente com os destinos e miminhos de Jesus. Com o todo o amor estreitei tudo ao meu coração, mas a minha pobre natureza não pôde resistir a tanta dor; as lágrimas deslizaram-se pela face, as quais aumentaram ainda mais a minha dor, por me lembrar que o meu Jesus se entristeceu com elas.
— Meu Deus, meu Deus, meu Jesus, as minhas lágrimas não são de desespero, são de amor, são lágrimas de resignação. Conformo-me com a Vossa vontade divina. Posso com esta dor e saudades pensar e sentir mais ao vivo o que são as Vossas saudades, as ânsias e fome das almas, a dor que elas Vos causam com a sua perda. Quero, Jesus, e amo tudo quanto Vos aprouver enviar-me.
O demónio veio, nesta manhã, tão malicioso e raivoso! Dizia ele que nada satisfazia as minhas paixões; para as satisfazer, chamou por mais demónios, para pecarem comigo em diversos pontos. Ó meu Deus, que grande horror! Obrigava-me a eu dizer: não quero orar, não quero o céu, quero pecar, quero gozar. Gritei com toda a força da minha alma, no momento do grande perigo, da grande dor, a dizer a Jesus: pecar não, não quero pecar. Neste transe, veio o meu Jesus:
— Sossega, filhinha, coragem, não pecaste. A cadeia mais forte e que mais almas prende a Satanás é a carne, é a impureza. Só a cadeia do maior amor e da maior pureza pode quebrá-la e arrancá-las das suas garras. É por isso que de ti exijo esta grande imolação e sacrifício. Lancei as minhas mãos divinas ao teu amor, à tua pureza. Repara, repara, consola-me, salva-me as almas. Confia, confia, não pecaste, não te deixo pecar.
No remate de todo o sofrimento deste dia, rezei o Magnificat como sinal do meu grande agradecimento a todos os miminhos de Jesus.
(Sentimentos da alma, 27 de Março de 1945)

Sem comentários: