22 de fevereiro de 2015

A CRUZ ERA TÃO GRANDE !

Balasar, 16 de Fevereiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Cá está a pobre Alexandrina a buscar um pouco de alívio para tantas aflições. Sempre ficarei melhor desabafando um pouco. Que dia de tanta aflição. Já hoje tenho levantado as mãos ao Céu e pedido: meu Deus, compadecei-Vos de mim, meu Deus, compadecei-Vos de mim. Que tempestade medonha. A minha alma está numa noite escura. Afigura-se-me que cá muito no íntimo sou rasgada aos pedacinhos e maltratada. Como eu estou sozinha num abandono total: não há quem se compadeça de mim. As dúvidas são tremendas. Que susto ao afigurar-se-me que faço tudo de minha cabeça. Que luta para não me deixar convencer disso porque não quero, nem por sombras, desgostar ao meu Jesus. O receio de mim mesma: a minha miséria, o meu nada, o nojo que tenho de mim. Ai meu Paizinho, poderei vencer? Receio, mas ao mesmo tempo confio. Mas ai, como estou neste momento. Que aflição tão grande! Ai, meu Jesus, sede a minha força. Ó minha Mãezinha querida, compadecei-Vos da vossa filhinha. As lágrimas são o meu desabafo, agora mesmo.
O meu Paizinho fica triste com isto? Perdoe-me, sim? O meu Jesus com certeza também me perdoa. Eu não é por não querer sofrer. Oh, quero sofrer a mais não poder. Já por mais que uma vez, hoje, o pedi ao meu Jesus. Mas sou tão fraca, não posso com uma aresta; quando o peso cai mais sobre mim fico quase desfalecida.


O meu Jesus hoje, não me falou: tem-me entregue aos sofrimentos. No fim da Sagrada Comunhão, fiquei com um peso esmagador. E já mais vezes o tenho sentido. Não é tão forte como no dia em que o meu Paizinho aqui esteve: mas parece que me arranca o coração e me enterra pelo chão dentro. De terça para quarta-feira, de noite, vi Nosso Senhor atravessar diante de mim com uma cruz aos ombros. Era tão grande! Ele ia tão aninhado debaixo dela, parecia que ia de joelhos. O manto era vermelho ou cor semelhante. Eu penso que não foi ilusão minha. Eu não dormia, nem estava a pensar em nada disto. Mas fosse como fosse eu só tenho que dizer tudo ao meu Paizinho, não é verdade? Eu não posso pensar no Céu. Não sei o que me vem do alto ter ao coração e mesmo mo arranca para lá. Parece que não caibo em mim. Juntam-se as ânsias de amor, parece que uma força que eu não conheço me levanta, Não é força minha, do meu corpo que eu não tenho nenhuma. Como devo proceder? Teimar a pensar na minha pátria ou recordar-me só por breves momentos?
Eu anseio tanto pelo Céu, mas parece que a força que se me faz sentir é forte de mais para quando estou sozinha, Por isso é que só com muita rapidez me lembro dele.
Ó meu Jesus faz-me sofrer muito, muito, muito, ora com o Céu ora com os meus males e com os do mundo. Que horror! Bendito Ele seja. Eu só quero forças para sofrer quanto Ele me enviar.
Cá tive o Santo Sacrifício celebrado pelo Senhor Padre de Fonte Arcada no dia 15. Depois contarei ao meu Paizinho tudo como foi. O Senhor Abade fez-nos sofrer um pouquinho: mas as humilhações são muito boas e muito precisas. Eu agradeci-as ao meu Jesus.
Eu estou muito doente com a gripe. A tosse consome-me de noite e de dia. Faz-me vomitar. Quando me dá mais forte, é preciso erguer-me um pouquinho senão abafa-me. Estou com tanto receio da sexta-feira! Estou cheiinha de medo.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.
Peço o favor de me recomendar aos Senhores Padres.

Abençoe e perdoe a pobre, Alexandrina.

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