quinta-feira, abril 29, 2021

PARA ONDE CAMINHO, SENHOR?

 Neste caminho vem ao meu encontro a mulher querida

– Para onde caminho, Senhor? Que será de mim, meu Jesus?


Tudo é medo, tudo é pavor. Caminho apressadamente por entre ruas escuras e estreitas. Caio desfalecida, esmaga-me o peso das humilhações. Sou arrastada por duas cordas. Sinto o meu rosto por terra, as faces muito feridas. A dor dos agudos espinhos vem penetrar-me até ao coração; dor que parece dar-me a morte. Sinto os joelhos, os ombros e mais partes do corpo em dolorosas chagas. Envergonhada de tanta curiosidade, na tristeza mais profunda que se pode imaginar, a custo vou caminhando, caindo repetidas vezes. Neste caminho vem ao meu encontro a mulher, a mulher querida, compadecida da minha dor. Com que ternura e amor limpa do meu rosto o suor, o sangue e o pó. Os laços da mais estreita amizade prendem os nossos corações. É indizível o que queria dizer dela, os louvores que queria dar-lhe. Oh! como queria que ela fosse falada por este acto tão heróico. No alto da montanha, que desespero sinto em mim, é desespero de amor. Tudo me causa horror: a morte, a morte, o abandono, ó meu Deus. De joelhos, levanto os olhos para o Eterno Pai, dou-Lhe o meu sinal de aceitação a tudo. Baixo os olhos, entro em mim e num abraço mais íntimo estreito tudo ao meu coração. Entrego-me à morte. Os algozes continuam o seu bárbaro papel. Quadro horroroso! Que nojo e vergonha de mim mesma. O meu corpo e a minha alma a desfazerem-se em lepra. Espero a minha hora.

Passei da dor ao amor, do calvário, da cruz ao Tabor. Principiei a sentir o amor de Jesus fortemente no meu peito e no coração e a Sua divina presença em mim; e logo ouvi a Sua voz, doce e suave:

– Vem o céu a prestar homenagens ao Rei do céu, à rainha da terra no seu encontro demorado. Era meu desejo, minha amada, minha pomba querida, que o mundo conhecesse a forma como me dou à minha esposa, à alma virgem. Queria que o mundo conhecesse e compreendesse este amor: o amor com que te amo, o amor com que me amas a mim, o amor às almas, o amor à cruz. Era meu desejo, grande desejo que o mundo conhecesse a tua vida, vida do amor mais puro, vida de heroicidade, vida de heroísmos com toda a abundância. A tua vida é um painel riquíssimo onde está retratada a vida divina, a vida mais completa de Cristo crucificado. Os homens, os homens, minha filha, opõem barreiras escandalosas a esta vida que eu desejava fosse conhecida para glória minha e bem das almas.

– Ó meu Jesus, por eu não ter querer quero o que Vós quereis; se assim não fora, queria viver escondida, viver como se não vivesse, viver como se nunca tivesse existido, contanto que Vos amasse e as almas fossem salvas. Mas, se assim o quereis, o remédio está nas Vossas divinas mãos; fazei que os homens procedam doutra maneira.

– Não, não, minha amada querida, não é assim.

– Perdoai-me então, meu Jesus, perdoai-me, se Vos ofendi.

– Sossega, não me desgostaste. Onde estão as graças que lhes dei? Não se utilizaram delas, desprezaram-nas, calcaram-nas a seus pés. Utilizaram-se da sua vontade própria, do seu orgulho, dos seus juízos, das falsas luzes. Que mágoa para o meu divino coração. Coragem, filhinha, vence a minha divina causa e com ela vencem os que por ela lutam. Tu és o verdadeiro caminho, estrada de oiro, estrada real, cercado de um lado e do outro das pedras mais preciosas, das maravilhas do Senhor. Felizes almas, felizes pecadores que nela entrarem que vão a porto de salvação. Os teus olhares, os teus carinhos, as tuas ternuras, tudo leva ao céu. São olhares, ternuras e carinhos atraentes que atraem a ti as almas. Por ti vêm a mim. Vais agora, minha filha, receber a vida divina, a vida que te alimenta e dá vida, a vida que dás às almas. Vais receber o meu divino sangue.

Jesus uniu o Seu divino Coração ao meu assim como o Seu santíssimo rosto e lábios se uniram aos meus. O meu coração parecia-me estar colado ao de Jesus e do Seu Coração divino passava para o meu sangue. Sentia o meu a dilatar-se, a dilatar-se, era grande, muito grande. Sentia também receber vida dos lábios de Jesus para os meus. Ele cobria-me de carícias e dizia-me:

– Dou-te o meu sangue, a minha vida por onde eu quero e como quero.

Esta união foi demorada. Depois de algum tempo, Jesus chamou:

– Vem, minha Mãe, minha bendita Mãe, dá a tua vida celeste, dá as tuas graças e riquezas a esta minha filha e esposa e também tua filhinha querida.

Jesus desuniu de mim o Seu santíssimo rosto e lábios, mas deixou sempre ligado o Seu divino Coração. Tomou a Mãezinha o lugar de Jesus; uniu o seu santíssimo rosto ao meu, estreitava-me, cobria-me das suas carícias e bafejava-me com tanta doçura. Senti que d’Ela recebi muita vida, e dizia-me:

– Minha filha, esposa do meu Jesus, tabernáculo do meu Jesus, sacrário do meu Jesus, onde Ele habita sempre, sempre.

E Jesus dizia-lhe:

– Dá-lhe, minha Mãe, as riquezas do céu, dá-lhe todo o teu amor. Ao menos tu e eu a darmos-lhe a sentir o nosso amor e consolação, já que das criaturas, a quem ela ama e que estão a seu lado, não recebe consolação, não sente que elas a amam e até delas tem medo. Tirei-lhe tudo, tudo, tirei-lhe para minha glória, tirei-lhe para a salvação das almas, tirei-lhe para abrilhantar a escora que sustenta o braço do meu Eterno Pai, para ela, ao ver tal brilho, tais encantos, se esqueça do seu poder e use de misericórdia, só de misericórdia para o mundo. Tirei-lhe tudo, espremi-a, espremi-a, dela consegui os licores deliciosos.

– Desprende-te de nós, minha filha, vai para a tua cruz, para a tua vida de amor.

O meu coração estava cheio, cheio; Jesus fechou-o para não sair dele o sangue, e disse:

– Este é o sangue que germina, gera e dá a vida às virgens como tu.

– Obrigada, meu Jesus, obrigada, Mãezinha. Custa-me tanto desprender-me de Vós, sair deste amor! Sim, por Vosso amor desprendo-me, mas antes dai-me este amor para dar às almas que eu amo e me são tão queridas; dai-mo para eu dar a todos os meus, dai-mo para eu dar àquela alma que está em perigo e por quem Vos ofereci hoje os meus sofrimentos. Quero que ela se salve e como sinal disso não quero que morra sem todos os sacramentos. Dai-mo para eu dar às almas que tanto me fazem sofrer, para que Vos conheçam melhor e Vos amem cada vez mais. Dai-mo para dar ao mundo inteiro, para que ele seja salvo.

– Vai, ó nova redentora, salvadora dos pecadores, vai, obedece, escreve tudo, faz esse sacrifício, dá o nosso amor como desejas, com toda a abundância.

– Obrigada, Jesus e Mãezinha, obrigada sempre na terra e no céu.

Voltei à minha cruz, ao mar imenso das minhas dores. Já lá vão algumas horas e o meu coração ainda arde como uma grande fornalha.

– Bendito seja Jesus e o Seu amor. (Sentimentos da alma: 19 de Janeiro de 1945 – Sexta-feira)

quarta-feira, abril 28, 2021

JESUS, ONDE ESTAIS?

 JESUS, VENHO AO VOSSO ENCONTRO

Jesus, venho ao vosso encontro. Onde estais vós? Não poderei encontrar-vos? Ouvi ao menos as minhas mágoas. Se vós me faltais, não tenho ninguém. Vistes-me na manhã de hoje orava na cruz convosco em tão grande agonia, com os olhos levantados para o Céu que senti e vi desaparecer sem a mais pequenina esperança de voltar a vê-lo e de nele poder entrar? Que tristeza a minha de ver tudo perdido e sem remédio! Uma vez descida da cruz, principiei a subir o calvário. Ia tão fraca! Caminhava quase com o rosto em terra; aqui e além caía, feria-me dolorosamente: ficava em sangue. Que medo, que pavor até, ao recordar-me que em pouco ia ser crucificada sem auxílio nenhum da terra. Valeu-me o vosso divino amor; viestes vós ao meu encontro.


— Minha filha, faltam-te as forças humanas; tem coragem, nunca te faltarão as forças divinas. O calvário é o caminho dos meus eleitos, o calvário é o caminho das minhas esposas, o calvário é o caminho das minhas crucificadas. É pelo calvário que eu dou o perdão aos pecadores, é pelo calvário que eu dou amor aos corações. Ânimo, ânimo, minha louquinha, a tua Mãezinha e o teu Paizinho acompanham-te, auxiliam-te numa união íntima.

― Obrigada, meu Jesus.

Animada com as vossas doces palavras fui para o Horto. Nunca vos encontrei, mas a vossa força divina venceu em mim. Senti ; logo no princípio o descaramento com que os soldados se apresentariam no Horto para a prisão. Senti que à frente viria Judas com todo o veneno em seus lábios. Senti no meu corpo os pontapés que um pouco mais tarde, quando me arrastassem pelas cordas, me haviam de dar. Tive no meu coração os Vossos sentimentos, quando víeis à vossa frente todos os pecados e crimes do mundo. Se com todos estes sofrimentos todas as almas se salvassem! Mas ai, quantos ainda se perdem não se aproveitando do meu sofrer. O Jesus, senti o meu corpo banhar-se em sangue, ficando os vestidos pegados a ele e pegados à terra. Mas mais, muito mais ainda sofreu o vosso corpo delicado e divino. Na flagelação e coroação de espinhos velastes sempre por mim. Ao abrigo e amparo de um amor santo e puro, senti inebriar-se-me a alma e numa suavidade e paz descansei por algum tempo.

Veio depois a Mãezinha tomar-me em seu regaço, apertou-me em seus braços, acariciou-me. Com tudo isto, tive muitas vezes que chamar por Vós e por Ela. Assustada com a tristeza e abandono, desfalecida a mais não poder, não tinha forças para caminhar. Sempre em vão invocava o Céu; o abandono era total, tinha que ser sozinha que eu agonizava na cruz. Nessa dolorosa agonia cravou-se-me no coração uma lança; tinha que sentir toda aquela dor ainda antes de expirar. Pobre de mim, pobre da Humanidade que não conhece quanto sofrestes, ó Jesus!

Terminada a crucifixão continuei a viver aparentemente sozinha. Ia recordando a retirada que me fizeram do meu Paizinho espiritual. Mais uma prova do vosso infinito amor, meu Jesus. Fizestes que o Sr. Doutor não só cuidasse de suavizar as dores do meu corpo, mas também que suavizasse a dor dolorosa e profunda da minha alma. Vós que tudo conheceis, serviste-vos dele para preparardes o meu coração para receber a último golpe. Obrigada, meu Jesus; outra coisa não sei dizer. Deixai-me repetir convosco: A minha alma está triste até à morte. Perdi a luz, perdi tudo. A tua bênção e o teu perdão, meu Amor. (Sentimentos da alma: 20 de Fevereiro de 1942).

EXISTIRÁ ALEGRIA NO MUNDO?

Tenho medo de mim mesma!

Existirá alegria no mundo? Em algum dia da minha vida, por acaso conheceria eu o que era alegria? Se alguma vez a experimentei, morreu para mim de tal forma como se nunca a conhecesse. O pensamento de aceitar e cumprir do coração e da alma a vontade de Jesus dá-me um pouco de alento. Mas logo este pensamento me aflige: estou eu a cumprir a vontade do Senhor? E daqui grandes agonias e tristezas para a minha alma. Estou esmagada entre o céu e a terra, toda transformada e embebida em trevas. Tremendo horror, meu Jesus! Tenho medo de mim mesma.


Quem poderá aguentar tanta aflição a não ser Jesus? Quem poderá viver e caminhar por tão negra escuridão a não ser com os olhares de Jesus? Morro, morro, meu Deus, morro despedaçada, esmigalhada na tremenda noite. O meu coração, tão oprimido pela dor, faísca raios de lume. Esses pedacinhos de raios, que eu sinto e vejo sair dele, espalham-se pelo mundo; todo ele é fogo. Queria ver estes raios irem ferir todos os corações, e este fogo, que do meu sai, incendiar a todos, para que só no mundo existisse o fogo do amor de Jesus. Quero gritar e gritar sempre, enquanto viver neste exílio. Custe o que custar, esteja nas trevas que estiver, abandonada em tudo e de todos, gritarei sem cessar: quero amar Jesus, quero consolá-Lo, salvar-Lhe as almas, dar-Lhe o mundo inteiro. Não sei dizer a Jesus, não sei pedir-Lhe meios para O alegrar, meios para melhor salvar as almas.

— Jesus, bem vedes o que o meu coração quer. Só por Vós e aceito a cruz.

Que alívio para a minha alma, que conforto para o meu coração, se eu pudesse dizer a minha dor, não para que saibam quanto sofro e vejam as ânsias do meu coração, mas para glória do meu Deus e bem de toda a humanidade. Não sou eu quem sofre, não sou eu quem resiste à dor, mas sim Jesus, só Jesus, que sofre pelos filhos Seus. Para mim era impossível suportar tão grande martírio. E o demónio aumenta-mo. Que fúria a sua, que maldade sem igual! Que tristeza não poder fazer que todas as almas a conheçam, para não se deixarem guiar por ele. Dizia-me hoje num penoso combate, quando eu clamava pelo meu Jesus.

— Não pronuncies esse nome, somos inimigos odiosos. Ele odeia-me a mim e eu a Ele. Diz comigo que O odeias e que O não queres. Comigo tens o gozo e o prazer nesta vida e uma eternidade feliz. Com Ele sofres aqui e lá. Estou a pecar contigo, levo-te ao prazer para O ofenderes gravemente. Diz comigo que queres pecar, que queres ofendê-Lo.

Como eu, sempre que podia, chamava por Jesus e Lhe renovava a oferta de vítima e Lhe dizia não querer pecar, ele, enraivecido, insultava-me, tentava escarrar-me até dentro da boca e procurava novos meios maliciosos. Que tristeza, meu Deus, que aflição a minha! Ao terminar da luta, o meu coração parecia rebentar, o meu corpo estava banhado em suor, e os meus olhos tentavam desfazer-se em copiosas lágrimas. Triste e mais do que envergonhada, fitei Jesus na cruz sem poder dizer palavra. Ele veio a confortar a minha alma.

— Não pecaste, não, minha filha, pomba branca, arminho puro. A tua pureza não se manchou nem manchará. A tua alma é bela, é encantadora. Criei-te para mim com encantos atraentes. Dá-me toda esta reparação. Não chores com o receio de me teres ofendido, porque não pecaste. Oferece-me as tuas lágrimas por aqueles que me ofendem. Os desejos de pecar, as ânsias insaciáveis do prazer não são teus, é a reparação daqueles que, depois do gozo, do gozo passageiro, enganador e traiçoeiro, querem novo gozo, nova satisfação, atraiçoando assim o meu Coração divino. Coragem! Estou satisfeito com o teu amor e com tudo o que me dás.

— Ai, meu Jesus, se eu pudesse convencer-me sempre que não Vos tinha ofendido! Mas depressa caio nas minhas dúvidas. Tende dó de mim.

— Vive em paz, filhinha amada, pois estou contigo mesmo nas tuas trevas.

— Obrigada, meu Jesus.

Ai de mim! Perdi amigos, perdi Jesus, não posso mais encontrá-Lo nesta escuridão. Perdi a vida, perdi tudo, tudo. A morte rodeia-me, avizinha-se de mim; traz consigo os maiores horrores, a maior escuridão. E eu sem conforto do céu e da terra. Os que me são queridos, por mais que se esforcem, não me dão um momento de alegria. As mais pequeninas coisas abismam-se cada vez mais na profundeza da minha dor. Perdi o meu Jesus, ou sinto que O perdi e não O queria perder. Queria possuí-Lo, mas sem colóquios com Ele. Triste noite da quinta-feira! Oh! como Jesus me associa às Suas dores, à Sua paixão divina! Sinto ânsias de atravessar por cima de todos os espinhos, de ir ao encontro da cruz, abraçá-la e com ela seguir para a morte. Sobre o meu peito sinto o discípulo querido, sinto o seu sono de paz, a tranquilidade do seu coração e da sua alma, e sobre ele o amor terno de Jesus. Sinto em mim a braseira e os que a ela se aqueciam. Sinto, retirado um pouco, que está alguém aterrado e tímido, mas vai-se aproximando e vai negar Jesus. Sinto as suas lágrimas de arrependimento. Sinto o cantar do galo e o abrir do bico em meu coração. Sinto sobretudo a dor infinita de Jesus e o Seu amor e mansidão para com todos. Quanta amargura, quantas mágoas em Seu Coração, naquele Cordeirinho inocente! Não posso ir ao fim da dor de Jesus, não resisto a mais. Sentimentos da alma: 26 de Abril de 1945).

terça-feira, abril 27, 2021

O CORO ANGÉLICO

Uma grande multidão de anjos batia as suas asinhas brancas e entoava um cântico harmoniosíssimo, só cântico do céu. Pronunciavam estas palavras:


Nós Te adoramos, nós Te adoramos,
ó grande Deus e Senhor,
e entoamos hinos de glória,
agradecimento e amor.

Deus nosso e Criador,
nós Te adoramos
por tão grande prodígio
e prova de amor.

Era arrebatadora a harmonia dos anjos. Retiraram-se eles, e ficou Jesus a continuar o Seu terno colóquio.

— Corre em tuas veias, minha filha, o sangue de Cristo: como não hás-de ser tu redentora! Corre em tuas veias o sangue virginal de Cristo: como não hás-de ser tu virgem pura, angelical e vítima sem igual! Corre em tuas veias o sangue do Todo-Poderoso: como podes deixar tu de ser poderosa! És poderosa para tudo. Perdes o teu sangue por meu amor, e eu por teu amor passo para ti o meu. Perdes o teu sangue para dares vidas, e eu, para te dar a vida, te dou o meu. Pede-me o que quiseres. Cada prece que elevares ao céu em favor dum pecador logo será escrito no livro da ciência divina o nome de salvação. Quando estiveres no céu, e o teu nome for invocado em favor deles, no mesmo momento em que prostrares diante de mim a pedires para eles perdão, todos os eleitos ao mesmo tempo te acompanham na mesma prece, e serás atendida. Coragem, esposa amada, está próxima a vitória. A tua cruz, o teu martírio é de redenção. Triunfa a minha divina causa, aproxima –se o céu para te conduzir a ele. Tu és, minha filha, rosa que brota de espinhos, rosa de amor, nascida da dor. Nada temas, filhinha amada. O terreno está preparado, pertence-me, foi cultivado por mim. É terreno das almas, o seu produto é para as almas. São frutos de amor, são para o teu Jesus e teu redentor.

— Obrigada, meu Jesus, nada mais sei dizer-Vos. Sede sempre a minha força e deixai-me entrar no Vosso divino Coração com todos os que me são queridos, para que os recompenseis por mim, dando-lhes todas as Vossa graças e todo o Vosso amor. Deixai-me entrar com todos os sacerdotes, para que aprendam do Vosso divino Coração e se assemelhem a Vós. Deixai-me entrar com todos os pecadores, para que se convertam e não Vos ofendam mais. Deixai-me entrar com todos os que me têm ofendido, para lhes perdoardes e dardes por mim também o perdão. Deixai-me entrar com o mundo inteiro, para que todo ele seja salvo, pois dentro em Vosso divino Coração não corre mais perigo. Vou separar-me de Vós, meu Jesus. Quanto me custa esta separação! E quanto me custa ter de escrever tudo isto!

— Vai, flor pura, flor mimosa do jardim divino. Tem coragem! Vai dar ao mundo o perfume das tuas virtudes, enquanto o céu não chega.

Fiquei com mais vida, mas por tão pouco tempo! Depressa vieram as trevas esconder tudo.

— Meu Deus, parece-me que nem os meus olhos vêem. Ó cruz do meu Jesus, abraço-te por amor na terra, abraço-te para não mais te deixar no tempo e na eternidade. Aceitai, Jesus, a minha tristeza e desconsolação por ter ditado tudo isto. (Sentimentos da alma: 27 de Abril de 1945).

CHAMEI POR JESUS

Ataque furioso do demónio

Quando esta manhãzinha despertava dum sono leve e passageiro, eram de tal forma as trevas que eu sentia na minha alma que me parecia ver com os olhos do meu rosto, à minha frente, uma grande muralha negra; assustei-me, o meu corpo estremeceu. Não era nada, os olhos do rosto nada viam, os da alma, esses viam e aterravam-se. A pouco e pouco, fui-me envolvendo mais e mais nessas trevas assustadoras. Preparei-me para receber Jesus em meu coração. Entrou para a escuridão e na escuridão ficou. Pobre Jesus, onde baixou Ele! Sem luz, mas muito unidinha a Ele, fui percorrendo o caminho do meu calvário. Caía e sobre mim caía a cruz. Era arrastada e arrastada comigo era ela também. Ao cair sobre a terra, os espinhos cravavam-se, penetravam cada vez mais fundo. Que dores horríveis! Ainda as sinto. Da minha boca sentia como se saíssem golfadas de sangue, vindas do coração, resultado das grandes quedas, de bater com o peito em pedras. E tudo isto se passou sem luz, sempre a cada passo a ser envolvida num rolo de trevas. Eu pensava que não podiam ser mais aterradoras, mas vejo que dia a dia mais me assustam. Ó meu Deus, tudo por Vós! Veio o maldito com as suas artes. Empregou todos os meios maliciosos para me obrigar a pecar. Chamei por Jesus.


— Não chamas por Ele, é por mim que tu chamas, é a mim que tu queres. Da terra és por todos abandonada, nenhuns querem pecar contigo, têm nojo de ti. Olha em que estado tu estás! Eu peco, mas peco com nojo para tu ofenderes o inimigo que eu odeio.

Que grande luta! Estava sem vida, banhada em suor. Fiquei a dizer muitas vezes:

— Que grande martírio, meu Jesus, que grande martírio! Eu não quero pecar, sou a Vossa vítima.

Disse-me o meu Jesus:

— É grande o martírio, ó minha filha, eu bem o sei, é martírio de amor, é martírio de reparação. Só podia receber da tua alma bela e pura, só podia do teu corpo virginal receber esta consolação, esta reparação. Custa-te muito? Só assim é que me dás tudo. Coragem! Tu não me ofendes.

— Lanço-me nos Vossos divino braços, ó Jesus, neles quero estar sempre, mesmo nas lutas com Satanás. Sozinha tenho medo, aí estou livre de Vos ofender.

Fiquei desfalecida e continuei nos sofrimentos do calvário. Todo o corpo era sangue. Sentia uma sede abrasadora e o maior dos abandonos. Ouvi do meu coração sair este brado: “tenho sede, tenho sede”. Compreendi que era Jesus e lembrei-me que Ele tinha sede das almas. No mesmo instante, senti passar nos meus lábios uma esponja, uma e outra vez. A sede dos lábios ficou na mesma e a do coração aumentou. O brado continuava:

— Não é a sede dos lábios que quero saciada, mas sim a sede do coração, a sede das almas.

Nesta sede e neste abandono fiquei por muito tempo como se estivesse com os olhos fitos no céu e o corpo esmagado com o peso de toda a humanidade. E Jesus não vinha, demorou tanto! Esperei, esperei. Veio então e disse-me:

— O rei habita no seu palácio com a sua grandeza, poder e amor, mesmo que a rainha não o veja, não o sinta. Custa muito, minha filha, o esposo separar-se da sua esposa. Mas a minha separação não é real, fico escondido em ti. Fico a governar a nação da tua alma pelos lábios de quem escolhi para te amparar e dirigir. Todos os que te amparam, todos os que te guiam, fui eu que os trouxe a teu lado. Coragem, filhinha. Vem cá, vem ao meu coração, vem receber vida; estás desfalecida, necessitas dela para ires à conquista das almas. Vem, vem, ó conquistadora da humanidade, vem receber o sangue do meu divino Coração; necessitas da vida divina, porque momento a momento perdes a vida humana. Vives milagrosamente, vives do meu divino sangue; é ele o meu alimento.

Jesus uniu o Seu divino Coração ao meu; sentia-o e via-o cheio de raios de amor e ao lado uma grande chaga. Principiou a deitar do d‘Ele para o meu o Seu divino sangue e o meu, tão pequenino, principiou a dilatar-se, parecia não me caber no peito. Jesus uniu os Seus divino lábios aos meus para me acariciar e continuou:

— Estão os anjos, minha filha, a verem este grande milagre, as minhas maravilhas em ti.

(Sentimentos da alma: 27 de Abril de 1945 – Sexta-feira)

domingo, abril 25, 2021

UM DIA NA VIDA DA BEATA ALEXANDRINA

 25 de Abril de 1947 - Sexta-feira
(Domingo 25 de Abril de 2021, 17° aniversário da beatificação)

O meu sofrimento aumenta, a minha cruz pesa-me mais de momento para momento. Sinto-me como se estivessem a terminar os meus dias aqui na terra. O meu pobre corpo é uma massa em sangue, desfeito pela dor. Vivo como se não vivesse. O que será de mim, meu Jesus! Amo a cruz e não tenho forças para a abraçar. Sinto-me arrefecer, estou gelada. Quanto mais sofro, menos sinto amar a Jesus. Quanto mais Lhe ofereço os meus sofrimentos, nas minhas negras e dolorosas trevas, menos sinto que Lhe dou. Não tenho para Ele um sorriso, um acto de amor ou reparação. Sou pobre, mísera pobre; o que Lhe dou, nada me pertence. Sinto-me, por vezes, na divina presença de Jesus, de mãos vazias, olhos baixos, cabeça inclinada, envergonhada de mim mesma. Que contas Vos hei-de dar, meu Deus, a Vós, de quem tudo recebi a quem nada dei e nada tenho para dar. Triste confusão a minha! Poderei viver sem sofrer e sem amar O meu Jesus? Oh! não, não posso sem isso a vida seria para mim já um inferno. Ó Jesus aceitai para Vós o meu sofrimento e mesmo sem sentir amor fazei que Vos ame, deixai-me enlouquecer por Vós. Os espinhos nascem para mim, noite e dia, como noite e dia nascem e crescem as flores dos campos e jardins. Por todos os lados os sinto e vejo a ferirem-me. Eu quero-os e amo-os, mas desfaleço em recebê-los; recebe-os como mimos do Céu, como carícias de Jesus. Pressinto que novos e agudos espinhos alguém prepara para me cravar; parece-me ouvir o rumor de nova tempestade. Levantam-se contra mim novas ondas furiosas. De novo me estendo na cruz; deixo-me crucificar à semelhança do meu Senhor.


Na noite de 14 para 15, veio de encontro ao meu martírio, suavizar a minha dor, uma linda visão da SS. Trindade; era um trono riquíssimo: no cimo o divino Espírito Santo em forma de pomba deixava cair sobre O Pai e sobre O Filho que mais abaixo, ao lado um do outro, estavam sentados, uma chuva de raios doirados. Pouco depois, diante do Eterno Pai, uma alma ficou ajoelhada em sinal de reverência; uniu-se a uma mão dela uma mão de Jesus que o Padre Eterno ligou. Tudo estava iluminado, parecia o Céu, era luz celeste. Desapareceram as três divinas pessoas e a alma ficou por algum tempo na mesma posição, mergulhada no mesmo amor. Confortou-me também a visão, duma vez de S. José, e, doutra, de Nossa Senhora; um e outro com o Menino Jesus ao colo. São eles que me levantam, são eles a força e a coragem do meu tanto sofrer. Não sou eu que sofro, mas sim Jesus, só Jesus que sofre por mim.

O demónio atormenta-me com dúvidas que sem a força do Céu seriam um desespero. Aparece-me em formas feiíssimas e, por vezes, abre-se todo o inferno com todos os seus sofrimentos para me receber. Numerosas feras infernais correm para mim com todo o seu furor. Ó meu Deus, parece-me que todo o mundo é inferno, que todo o mundo é pecado, que todo o mundo tem a malícia e a maldade do demónio. O maldito instrui as almas em grandes crimes.

Na tardinha de ontem, avivou os sofrimentos do meu corpo, que eram enormes, a visão, a visão do Calvário. Dentro de mim, vi Jesus, depois de morto, ser descido da cruz e ser posto nos braços da Mãezinha; vi os Seus olhos agoniosos, senti o Seu coração trespassado; senti e vi o caminho com que Ele O estreitava e limpava o sangue e o pó das Suas feridas. Todo o Calvário se mexia, as pedras estalavam e faziam grandes fendas. Esta agonia e sofrimentos tão dolorosos preparam-me o Horto; e lá fui para ele; lá se me rasgaram as veias, suei sangue e vi o cálice. Jesus foi que o levantou e ofereceu ao Pai, cheio de amargura. O solo estremeceu e com todos os ramos das oliveiras. Debaixo de cruéis maus-tratos, deixei-o para ir para a prisão. E hoje, num canal de sofrimento, como se fosse uma prensa fui subindo as ladeiras do Calvário. Senti as cordas na cintura e no pescoço; cortavam-me, feriam-me. Vi Jesus a ser despido e, neste momento, o Seu rosto divino ficou como que incendiado; levantou ao Céu os Seus olhares e baixou-os, depois, em profunda tristeza e grande vergonha. Vi, junto à cruz, a escada, pela qual Jesus havia de ser descido; vi o lençol onde Ele havia de ser embrulhado. Jesus, antes de expirar, viu a cena comovedora, ao ser depositado nos braços da Mãezinha; viu os Seus carinhos e lágrimas, viu as espadas que A feriam, viu-A em igual dor e agonia. Quando expirou, o Seu espírito voou como pomba de todas as Suas chagas saíram raios de luz como sol por frestas. Quando o Seu espírito divino voou foi-Lhe aberto o coração. Senti a Sua grande prova de amor e que Ele nada mais podia fazer por nós. Pouco depois, de novo vivi com Ele.

― Minha filha, Minha filha, um coração puro, um coração abrasado, com a mistura da dor alcança do Meu divino Coração tudo quanto Lhe pedir em benefício das almas, isto não falando em outras graças. Assim és tu, vítima poderosa, sem seres igualada. Não és igualada na dor e também o não és no poder. Eu tenho em Minhas divinas mãos o teu martírio com todo o teu amor; sou Eu mesmo a colocá-lo como escora firme a sustentar o braço do Meu Eterno Pai, para não cair sobre o mundo culpado a castigá-lo. Podia dizer-te, esposa querida, que ele cai e cai sem remédio, por não virem a mim, seguindo a Minha divina voz. Não quero fazer-te tal afirmação, para não entristecer-te.

― Meu Jesus, meu doce Amor falardes-me assim é dardes-me a certeza do que nos espera; bem sinto eu que nada Vos dou e de nada valem os meus sofrimentos.

― Coragem, coragem, Minha filha, parece que nada Me dás, porque já tudo tenho em Meu poder. Sentes que nada valem os teus sofrimentos, porque, sofrendo Eu, em ti tomo-os como meus; e, para maior sofrimento teu, nada em ti deixo aparecer. Confia em Mim. Todo o teu martírio, em união comigo, forma os selos com os quais selo as almas e as deixo com o sinal da salvação. Confia, vítima amada, se não acudires aos corpos, as almas são sempre de salvação. O que vale a tua dor e o teu amor com o Meu! Coragem, vítima generosa, vítima de dor e amor. Vê, Minha querida, o Mendigo divino a estender para ti o braço, a pedir-te a esmola. A taça, em que a vais deitar, foi feita do ouro do teu martírio. Os espinhos, que a rodeiam, foram feitos das pedras preciosas das tuas virtudes; é a taça das almas, é a taça da salvação. Dá-Me a esmola, dá-Me a esmola. Só uma alma e um coração puro podem combater com Satanás e reparar-Me das maldades e crimes a que ele leva as almas. Como prova do teu amor, da tua generosidade, vou dar-te, em breves dias duas felizes novas que vão ser de alegria para o teu coração e para mais alguns dos que te rodeiam. Se o mundo bem compreendesse as Minhas maravilhas em ti e o valor do teu sofrimento, ter-te-iam suavizado o teu calvário e o daqueles que escolhi para te ajudarem a subi-lo.

― Meu Jesus, meu Jesus, peço-Vos força e amor. Sobre essa taça me coloco, sacrificai-me Jesus, imolai-me como Vos aprouver. Jesus retirou a taça doirada, cercada e adornada de belos espinhos.

― Vou dar-te ainda, Minha filha, a gota do Meu sangue divino; recebe que é vida, a vida do Céu, a vida de que vives. Recebe ara sofreres, recebe que é para viveres e para dares a vida às almas. É o Meu sangue com a tua dor e amor que lhes dás a vida e mais ainda faz com que Eu por muitos seja amado, o que não seria sem ti, Minha esposa querida.

Jesus uniu logo os nossos corações, e, logo que caiu a gota do Seu precioso sangue, desuniu-os e deixou por algum vir do Seu lado aberto para o meu peito fortes chamas de fogo. Com as Suas divinas mãos cerrou a abertura do Seu peito e disse:

― Trabalho em ti como quero, faço do Meu divino coração e do teu o que Me apraz. Vai levar a vida às almas, esta vida que é a verdadeira vida. Vai levar a todos o Meu divino amor, mas mais, muito mais aos que mais te amam, aos que mais de perto te rodeiam. Amar a Minha vítima é amar a Mim; cuidar dela é cuidar de Mim. Coragem! Vai em paz, vai em paz.

― Obrigada, meu Jesus; um eterno obrigado, meu amor! São tantos e tão grandes os meus sofrimentos que mesmo no meio das minhas negras trevas obriga-me a dizer: para ditar tudo o que fica dito, vi aqui só a mão e a força de Jesus com a luz do divino Espírito Santo; sem isto nada teria dito. Ó meu Jesus, ó meu Deus, quanto sofre a mais indigna das Vossas filhas; e só vê nela miséria e nada mais! Dai-me graça, dai-me perdão para as minhas culpas e para as do mundo inteiro.

sexta-feira, abril 23, 2021

CRAVADA NA CRUZ CONVOSCO

Balasar, 19 de Fevereiro de 1942

Meu bom Jesus :

Sinto o meu coração retalhado pela dor. Terei ainda mais golpes para ferir-me? Faça-se a vossa vontade. Cravada na cruz convosco, escorrendo sangue e na maior agonia, vejo-me e sinto-me de todos abandonada. Não posso viver no mundo, tenho medo. Jesus vinde depressa, vinde, levai-me para o Céu. Os homens tentam desviar de mim, arrancaram-me para sempre aquilo que me servia de alívio, que podia dar-me conforto. Tiraram-me o meu pai espiritual, proíbem-no de me escrever a mim e de eu lhe escrever a ele. Permiti-me Vós, ao menos, meu Amado, desabafar convosco. Estou sozinha no meio da tempestade e ela não serena. Abro-vos o meu pobre coração, só vós sabeis ler o que nele está escrito com dor e sangue, só vós compreendeis e podeis avaliar o meu sofrer. O mundo desconhece-o, os homens nada compreendem. Deixai-me dizer a Vós o que Vós dissestes ao vosso Eterno Pai: Perdoai-lhes, meu Jesus, porque eles não sabem o que fazem, estão ceguinhos, falta-lhes a vossa luz divina: iluminai-os a todos e a todos dai o vosso amor. O Jesus, todos os meus pressentimentos me tem saído certos. Poderão eles ainda proibirem que vos receba sacramentalmente? Ai de mim, seria como o golpe que me tiraria a vida se vós com o vosso divino poder me não conservásseis. Digam o que disserem, façam eles o que fizerem, o que nunca conseguirão é tirar-me desta união íntima com vós. Roubarem-me Jesus Sacramentado, sim, não duvido que o façam; tirarem-me do meu coração o tesouro riquíssimo que eu adoro, que eu amo acima de todas as coisas, o Pai, o Filho, o Espírito Santo, nunca, nunca os homens o conseguirão: teriam para isso fazer-me viver sem coração e sem alma. Impossível! Venha a força do mundo inteiro, seja ela toda contra mim: separar-me desta grandeza infinita, deste amor infindo, nunca, só o pecado, só esse me pode separar. Mas eu confio plenamente em vós, é de vós, meu Jesus, que eu tudo espero, embora que o sentir da minha alma me chegue quase a persuadir que me engano a mim mesma. Sinto que não vos amo, sinto que nada de vós posso esperar por tão grande ser a minha miséria. Que confusão a minha! Que grande é o meu desfalecimento! Levantai-me, meu Jesus, ajudai-me, assim pregada na cruz, a subir todo o caminho doloroso do calvário. Em cada degrau que passo quero deixar escrito com o sangue que das minhas feridas corre: Jesus, Jesus, não vejo o Céu, retirou-se de mim todo aquele azul do firmamento, perdi, roubaram-me tudo o que era vida. Só sinto dor, só sinto e vejo a morte. Não tenho a quem recorrer: só por vós e pela Mãezinha posso chamar. Pobre de mim! Quantas vezes com a minha dor não me atrevo a olhar-vos! Ouvi-me sempre, mesmo que eu não vos chame; dizei à Mãezinha que me ampare, dai-me toda a força do Céu. Todos os ruídos que oiço recordo o meu Paizinho espiritual. Será ele que vem? Que vida de ilusão. Cada pensamento que me vem à ideia deste tão duro penar são setas que se espetam no meu coração, são açoites que me despedaçam o corpo e a alma. Que mal fiz eu, que crime pratiquei? Ó meu Jesus, se não fosse por vosso amor, se não fosse o desejo ardentíssimo de vos dar as almas, recusava-me a tudo. Queria amar-vos muito, nunca ofender-vos para ganhar o Céu, mas não queria a crucifixão, não queria ouvir na terra a vossa doce e meiga voz, não queria ver a vossa Divina Imagem nem dolorosa nem gloriosa; tinha uma eternidade inteira para contemplar-vos e para ouvir-vos falar. Perdoai-me os meus desabafos, Jesus, bem vêdes que só convosco posso desabafar. Já que me escolhestes para a dor, ja que me destinastes para tão grandes martírios, eis a tua vítima, eis a tua escrava, Jesus; fazei de mim o que quiserdes, a tua benção, meu Amado. Diz à Mãezinha que me abençoe e proteja. Sou tua mais indigna filhinha, pobre Alexandrina.

sexta-feira, janeiro 15, 2021

CANTO DE AMOR A JESUS

Ó amor, como tu és grande e forte!

Fala, fala, meu coração,
diz ao menos nestas linhas quanto desejas amar o teu Jesus!

Fala, fala, coração meu,
diz ao teu Jesus que só a Ele queres
e que só nele queres descansar!


Não canses, não deixes de falar do amor!
O amor que é amor, verdadeiro e puro amor,
não pode calar-se,
não pode deixar de manifestar-se,
tem que falar e provar que ama sempre:
ama de dia e de noite, ama na dor e na alegria,
ama na exaltação
e, se é amor verdadeiramente puro,
ama mais ainda quando é humilhado.

Ó amor, como tu és grande e forte!

Ó Jesus, onde poderei encontrar a escola do vosso amor?

É com certeza no vosso Divino Coração,
é aí que eu posso aprender a amar-Vos
e com aquele amor por o qual o meu coração suspira.

Ó Jesus, ó Jesus, dai-me lugar,
deixai-me entrar para lá viver, Vos amar, para de amor morrer.

Onde estará, meu Jesus, o segredo de amar?
Onde poderei encontrar tão precioso tesouro?
Eu não quero mais nada na terra a não ser amar-Vos e salvar-Vos as almas.
Tudo o mais é mesquinho e nada; tudo o mais é ilusão e mentira.

Mas o vosso amor, ó Jesus,
é tudo e sem ele não posso viver:
tenho uma fome que me mata o coração.
 

Jesus, eu quero assemelhar-me à criancinha
que nos braços de sua mãe
não sabe dizer outra coisa a não ser: mãe, pai.

Eu quero dizer sempre, sempre: Jesus, Jesus, amor, amor.
É vosso o meu coração, sou vossa inteiramente.
 

Estou a mais nada poder fazer; mas enquanto me for possível, ainda que seja de cinco em cinco minutos, uma letra hei-de dizer sempre:
Ó Mãezinha, amo-Te e amo a Jesus! Sou tua e sou dele!
 

Eu queria que o meu coração fosse uma fonte da qual nunca deixasse de correr água de doçura e fogo de amor para o Coração Divino do meu Jesus.

Que grande dita se eu O amasse com o amor de todos os corações! 

Jesus, o que Te posso eu dar? O que tenho eu que não seja teu?
Tenho o pecado, tenho a miséria, e é essa mesma que Te dou.
Será desvergonha da minha parte?
Ó Jesus, mas eu nada mais tenho e quero dar-Vos alguma coisa.
Compadecei-Vos dela e da do mundo inteiro.
 

A minha fome de Jesus nunca mais terá fim.
Nada me enche, nada me satisfaz.

Os meus caminhos não acabam:
quanto mais ando, mais fome eu sinto
e mais longe estou do Suspirado da minha alma.

Ó Céu, ó Céu, quando chegarás tu, para me satisfazeres?
Ó Jesus, vinde depressa!
 

Nada mais sei dizer, meu Jesus,
a não ser meu eterno obrigada de alma e coração,
e de alma e coração dizer-Vos que Vos amo.

Mas o meu amor não tem limites,
quer subir tanto, quer ir tão longe, quer chegar até Vós.
Jesus, fazei que Vos ame, não posso sozinha.
 

Com o coração a sangrar, mas sempre em Vós,
meu Jesus, confiada, bradarei noite e dia:

– Amo-Vos e é vosso o meu coração!

Ai, minha querida Mãezinha,
amai com o vosso Coração o meu querido Jesus.
Só assim Ele pode ser amado como merece.

Ó Mãezinha, queria dizer-Vos tantas coisas!
Deixai-me, Jesus, deixai-me gritar sempre,
com toda a alma, com todo o coração:

– Jesus é o meu amor,
o único a quem quero pertencer e para quem quero viver.
Só Ele tem para mim encantos, só a Ele se prende todo o meu ser.
Morra tudo em mim para em mim só Jesus viver!
 

Quando penso em Jesus na Eucaristia,
fico deveras confundida com tanta loucura de amor.
O que digo? É mais que loucura de amor.
Não sei como Jesus, o nosso bom Jesus,
nos pode amar tanto.

O que vistes em nós, meu Jesus,
que tanto Vos encantasse?
O que foi que Vos obrigou
a fazer-Vos prisioneiro de tantos séculos?
Oh, que amor!

Ó Jesus, dai-me um coração que Vos ame
e saiba corresponder às doçuras e loucuras do vosso infinito amor.
Quero viver presa por Vós, como Vós o viveis por mim.
 

Ó Jesus, meu querido amor:
eu queria ter a pureza dos Anjos,
o ardor dos Querubins e dos Serafins
para amar-Vos e cantar os vossos eternos louvores.

Eu queria, ó Jesus,
eu queria a sabedoria infinita
para saber cantar as glórias
e os louvores do Senhor.

Eu quero prestar ao Altíssimo
a honra devida de Pai Omnipotente,
de Criador e Senhor de todo o meu ser e do mundo inteiro.

Ó Jesus, só Tu és santo, só Tu és digno de todo o amor.
Aceita, ó Jesus, aceita os ardores do meu coração.
Aceita as minhas ânsias de bem Te servir, de mais e melhor Te amar.

Ó Jesus bom, ó Jesus santo, ó Jesus amor, amor, amor… 

Jesus, em que mísero estado Te encontro!
Quem foi que Te feriu assim?
Ah, sei bem! Foram os meus pecados.
Quero chorá-los, quero detestá-los
e em troca de tanto amor recebe o meu coração, que é teu:
quero amar-Te eternamente!...
 

Meu doce Jesus, tão tarde Vos conheci
e tarde, ainda muito mais tarde Vos amei!
Fazei que agora viva só para Vós e para o vosso amor!
 

É vosso o meu coração, sou vossa inteiramente.

DOLOROSOS ESTADOS DA ALMA

 Sem luz e sem director...

A vontade está pronta para mais e mais me dar ao Senhor, para mais e mais me imolar e Lhe dar almas. À pobre natureza tudo lhe repugna; até agora o não poder ver a luz e ter de fazer do meu quarto uma masmorra escura. Parece que quase me leva ao desespero ao precisar de ar e não poder ver a luz. É tal a aflição que me parece que todo o meu ser se estrancinha. Então chamo por Jesus, por aquele Jesus que sinto ter perdido com a Mãezinha, por aquele Jesus em que sinto não acreditar, pois quantas vezes, meu Deus, me parece ter perdido a fé e não acreditar nas verdades da Santa Igreja, nem na vida eterna! Mesmo com o sentimento de nada acreditar, invoco o Céu em meu poder. Vou repetindo o «creio na vida eterna».


Amo-Vos, meu Jesus, amo-Vos! Sou a vossa vítima. Só quero que em mim se faça sempre a vossa vontade.

Oh, vida sem vida! Oh, vida sem fé!

Meu Deus, meu Deus, como é custoso passar os meus dias assim!

Não sei descrever quanto me custou não ter, no primeiro sábado deste ano, a visita, o colóquio com a Mãezinha! Tremo e temo os últimos dias do meu exílio.

Ai de mim, se deixo de confiar. Ai de mim, se nesta luta da alma, nestes sofrimentos indizíveis o combatente não for Jesus! Que trevas, que abandono! Não sou da terra nem do Céu, não sou de Deus nem de ninguém!

Foi esta a minha subida para o calvário. Eu não deixava de dizer:

Fazei, Jesus que as minhas trevas façam luz e que o meu fechar de olhos abra os olhos a todas as almas que os têm fechados para Vós, para os vossos caminhos.

Creio, creio sempre!

Não há calvário nem Céu para mim: que o haja para todas as almas, filhas do vosso Sangue, que eu entre no número delas também.

Creio, creio, creio assim.

Nesta luta bradou-me Jesus:

— Ó minha filha, ó minha esposa querida, Eu estou aqui no tabernáculo do teu coração. Repete o teu «creio». Estou aqui. Tu és o sacrário onde Eu habito dia e noite sem Me ausentar. Tu és a hóstia que comigo se imola. Tu és a hóstia que as almas comigo comungam.

Vives comigo na Eucaristia, vives a minha vida.

Nesta imolação contínua, nesta união inseparável, nesta vida tão mística e divina as almas por ti Me recebem.

A tua dor, o teu sangue, oh, moeda incomparável!

A tua vida misteriosa, a tua vida onde está toda a ciência de Deus, a sabedoria omnipotente, a vítima que em tudo se assemelha ao Altíssimo!

Imola-te, deixa-te imolar!

São as almas que comigo e minha Bendita Mãe vamos salvar.

Ó mundo criminoso e nojento, ó mundo ameaçador da justiça de Deus, converte-te, converte-te!...

Minha filha, minha querida filha, vamos a salvar as almas. As almas, as almas!...

Não penses em evitar o castigo que ao mundo espera, mas sim em poupá-las às penas eternas.

Coragem, minha filha, coragem nas tuas dúvidas, nas tuas trevas!

Avisei-te de tudo isto. Tem coragem. Os teus colóquios vão ser ainda mais dolorosos. Eu virei apenas confortar-te, dar-te o meu Sangue, dar-te coragem para tudo suportares e repetir-te:

Estou aqui; sou Jesus; estou contigo!

Tu, esposa, vítima amada, não terás o sentimento real da minha presença em ti. Tens que acreditar sem amor, sem luz e sem fé.

Coragem! Coragem! Crê! Crê! O mundo exige”.

Enquanto Jesus falava, fez-me sentir e ver que realmente o meu coração era um sacrário da sua habitação, que o seu sacrário era também a minha morada, o mesmo cibório com Ele, a mesma hóstia era oferecida ao Pai.

A minha imolação com Ele era contínua. Tive luz e visão clara, compreensão completa de tudo isto.

— Ó Jesus, eu aceito tudo. Em tudo Vos quero amar. Só quero as almas e a vossa divina vontade.

Não me deixeis desesperar, não me deixeis desesperar! Confio em Vós.

Eu a acabar de falar, todas as trevas me submergiram e Jesus desapareceu.

Jesus, eu creio, Jesus, eu amo-Vos. Conto com Vós! Espero em Vós até ao último suspiro.

Ele depressa veio. Não O vi, só O senti. Uniu o seu coração ao meu e disse:

— Minha filha, minha filha, aqui estou a dar-te vida nas trevas, para que das trevas saia luz. Tu és farol, tu és vida, tu és a ressurreição e a vida das almas. Dor e sangue, dor e sangue, ó escudo sagrado pelo Divino! Coragem, filha, coragem! Acode às almas que, depois de MIM, são tudo. Oh, sabedoria, ó ciência de Deus! Oh, meios escolhidos para a nova redenção das almas!

Desapareceu Jesus e eu fiquei tão só e em tanta dor que nem me lembrei de Lhe fazer os meus pedidos. Só depois Lhos fiz, como se Ele ainda estivesse presente.

— Ó meu Deus, ó meu Deus, como hei-de viver?!... Compadecei-Vos de mim!...

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma de 14 de Janeiro de 1955, ano da sua morte)

segunda-feira, janeiro 11, 2021

ENVERGONHA-ME A MINHA VIDA

Sente-se como se não amasse Jesus

Sinto na minha alma como se me estivessem a preparar alguma traição. Estou cheia de medo e em tantas trevas que me parece que até o sol foi encerrado numa nuvem negra para nunca mais aparecer, para nunca mais brilhar.


– E o dia, meu Jesus, o dia nunca mais raia para mim. Ah! E se mesmo assim eu Vos amasse! Se eu fosse Vossa e vivesse só para Vós! Vede, meu Jesus, o meu coração sequioso de Vós. Eu quero dizer ao céu que caia sobre mim e me esconda e guarde e comigo esconda e guarde toda a humanidade. Ai o mundo, meu Jesus, o mundo que tanto me preocupa. Queria mares, universos de sangue para derramar por ele. Queria mundos e céus de amor para Vos amar por ele. Não cesseis, meu Jesus, a minha imolação, para que não cesse para ele a Vossa graça e o Vosso perdão. Se me permitissem, meu Jesus, queria penitenciar o meu corpo, queria fazer dele o mais doloroso escravo para toda a humanidade salvar. Pobre de mim, temo fazê-lo sem licença e não tenho um guia. Jesus, espero em Vós, em Vós confio, faça-se a Vossa vontade; sede a minha luz, o meu caminho.

Que tremendas são as manhas do demónio. Como posso eu dar honra e glória ao meu Deus! Parece-me mentira, mas não quero duvidar das divinas palavras do meu Jesus. Sofro tanto com estes ataques! Se o mundo soubesse o que é o inferno e a maldade e a fúria do demónio, com certeza não pecaria tanto. Veio esta noite numa fúria desastrosa contra mim. Maldades, mais maldades, palavras e lições feias. O meu corpo parecia já estar desfeito de tanto cansaço. Ele queria que eu dissesse:

– Busco, quero e amo os prazeres; troco tudo por um só prazer, até o próprio Deus. Não quero o céu, quero o mundo, quero pecar.

– Pecar nunca – disse eu.

– Quero o inferno, meu Jesus, prefiro uma eternidade de inferno e não quero gozar um só momento, não quero o prazer, não quero o mundo. O que eu quero é não perder um momento de consolação e reparação para Vós e de salvação para as almas. Valei-me, Jesus, dai-me o inferno, mas não me deixeis pecar. Amar-Vos, sim, só, só amar-Vos.

Tudo isto disse a Jesus só com o pensamento, porque não podia mais. Foi o bastante para a fúria do demónio aumentar. Lutei, murmurando sempre, dizendo a Jesus que não queria pecar. A minha luta era sobre um grande abismo, nem podia respirar. O meu coração tinha a aflição da morte. O demónio fugiu à voz de Jesus, que disse:

– Desempenha, anjo meu, a quem sempre obedeceste, desempenha a missão que eu dei sobre a minha Alexandrina, o meu anjo em carne; leva-a ao seu lugar.

Senti-me levada como por uma aragem suave para a minha posição. E Jesus continuou:

– Se pudesses ver, minha filha, como sou ofendido nesta hora contra a virtude da santa pureza, morrias de pasmo ou antes de dor. Mas a tua reparação consolou-me, fez-me esquecer o muito que me ofendem. Esta consolação só podia ser tirada duma de pureza angélica.

Dito isto, Jesus estreitou-me com muito amor ao seu Divino Coração e repetiu por três vezes:

– Amo-te, amo-te, amo-te, meu amor; não pecaste, não me ofendeste.

Fiquei confiada nas palavras de Jesus, mas triste, tão triste, o coração em tanta dor, mais, muito mais do que uma ferida dolorosa depois do tratamento.

– Jesus, já que assim o quereis, seja a minha vida como Vos consolar e agradar mais. Aqui me tendes pronta para tudo, meu Senhor.

Mal posso confiar. Envergonha-me a minha vida. A virtude que eu mais amo e na que mais sofro. Só por muita graça e misericórdia de Jesus não O tenho ofendido gravemente.

– Ó meu Deus, tenho vergonha de mim mesma, como a não hei-de ter de Vós? Perdão, meu Jesus, perdão, meu Amor.

sexta-feira, janeiro 08, 2021

JESUS, QUAIS SÃO OS MIMINHOS QUE DE VÓS VOU RECEBER ESTE ANO?

 

Primeira mensagem de 1945

 


– Jesus, quais são os miminhos que de Vós vou receber neste novo ano? Estou cheia de medo, ou mais ainda, cheia de pavor. Venha o que vier, pelo muito que eu seja ferida, humilhada e abatida, com a Vossa graça divina a tudo direi: “Seja bem-vindo, faça-se a vontade de Jesus; sou vítima do meu Amor, vítima das almas”. Confesso, meu Jesus, que o meu maior receio é a minha fraqueza, temo ofender-Vos. Confio em Vós; seja firme o meu amor e subirei alegre o meu calvário. Reparai e vede, Jesus, as ânsias que tenho; se não fôsseis Vós, tiravam-me a vida. Queria nascer agora, mas já Vos conhecer para nunca manchar o meu corpo. Queria que comigo nascesse o mundo inteiro e que todo ele já Vos conhecesse também para não se deixar manchar. Queria um coração novo, mas que sempre Vos tivesse amado para nunca deixar de Vos amar. O mesmo querer tenho para todas as criaturas, para assim Vos amarem com o mesmo amor que para mim desejo. Onde hei-de esconder-me e comigo esconder o mundo? Onde hei-de purificar-me e purificar o mundo a não ser em Vós? Escondei-me, purificai-me. Fazei-me nascer agora para a graça e para o amor e comigo nascer o mundo, mas de tal forma como se eu nem ele Vos tivesse ofendido. Não sei onde estou; não vivo neste exílio nem vivo no Céu. Parece-me viver entre ele e a terra. Fui para esta morada, comigo levei o mundo, morada sem luz, sem vida e sem nada. A minha alma rasga-se de dor, é indizível o que sinto em mim. Meu Deus, que derrota! Não tenho luz, e roubaram-me os guias de tão tremendos caminhos. Morro na escuridão, Jesus, morro desfalecida. Vinde, vinde com a Mãezinha, dai-me força, dai-me vida.

Não posso pensar nos combates do demónio, tremo de horror. Ele arma tantas ciladas para prender-me! Forma tantos assaltos à minha alma! Parece-me morrer de dor. Ouço a sua voz maldita desafiadora. E quando fica só assim! O que mais me aflige é quando ele faz o que há de pior. Na manhãzinha de ontem, preparava-me para comungar e logo a alma principiou a sentir os seus assaltos. A minha preparação foi um terrível combate. Que vergonha a minha à chegada de Jesus ao meu coração! À voz de chamada do demónio vieram muitos demónios. E o maldito dizia-me:

– Tu és o manjar mais delicioso para todos os demónios do inferno. Olha como te preparas para comungar. É assim que és uma esposa de Jesus! Não és, não és, Ele não te quer, és minha, dá-me o teu coração. Se mo deres por vontade, dou-te o mundo com todos os encantos, grandezas e prazeres.

Nesta altura, consegui renovar a Jesus a minha oferta de vítima e escrava.

– Não quero o mundo nem nada que lhe pertença, meu Jesus, o que eu quero é não pecar. Amar-Vos só e não magoar o Vosso Coração divino.

O demónio redobrou de raiva. Sentia que o que ele queria era que eu lhe desse de boa vontade o meu coração e com ele o mundo. O meu corpo estava desfeito com o cansaço. O momento era grave. Ao parecer-me estar tudo perdido, não haver remédio para mim, bradei ao céu de alma e coração:

– Pecar não! Valei-me, Jesus!

Cessou a luta, mas ficaram-se na alma uns tristes efeitos. Uma tristeza tão grande por não ter pecado, parecia-me que gostava ter ofendido a Jesus. Que aflição a minha! O demónio, mais retirado, continuava raivoso; queria voltar a arrancar-me a alma e a despedaçar-me o corpo. A pouco e pouco, uma suavidade e paz apoderaram-se de mim, invadiram-me toda. Jesus fez-me sentir que tudo o que se passava na minha alma eram efeitos do demónio. Era ele que tinha pena de eu não ter pecado e estava raivoso por não o ter conseguido. Chegou logo Jesus para eu O receber; gozava uma grande paz, mas muito triste, tímida e envergonhada. Logo que O recebi, esqueci por algum tempo tão tremenda e feia luta.

Hoje, voltou o maldito com outro ataque infernal. Só Jesus vê a dor que me vai na alma. Disse-me que eram as pessoas cúmplices do meu crime, ensinou-me a pecar.

– Meu Deus, como sair disto sem Vos ofender? Só com a Vossa graça. Por misericórdia Vossa, só nos momentos da luta eu sei e compreendo as lições do mafarrico. É mais uma prova do Vosso infinito amor. Só Vós sabeis quanto eu quero amar-Vos e reparar as ofensas feitas contra o Vosso divino Coração e nunca manchar o meu corpo nem a minha alma. Triste quinta-feira que me dás a sexta!

A minha alma está cansada de tantos sofrimentos, de tanta dor que a espera. Temo as horas que se aproximam, temo a morte. O céu está revoltado com tanta ingratidão da terra. Temo tudo, mas por tudo quero passar; quero morrer para dar a vida!

(Sentimentos da alma: 4 de Janeiro de 1945

domingo, novembro 29, 2020

À SOMBRA DA EUCARISTIA

 Sentimentos da alma: 29 de Novembro de 1945

Tenho que desistir, não tenho forças, não posso falar para dizer os sentimentos da minha alma. E, agora que o não posso fazer, apetece-me chorar.

— Meu Deus, que cegueira a do meu corpo e a da minha alma!


E, no meio desta noite tormentosa, sinto dores horrorosas. Sinto na alma e no corpo um tormento inexplicável. Por maior que seja o meu esforço, nada digo, porque não sei. Não posso pensar que o meu corpo há-de ser tocado ou poisar na minha cama ou por ele passar qualquer aragenzinha. Queria poder sustentar-me no ar, onde nada pudesse tocar-me. Que tremendo horror! Ai, como tenho o corpo e a alma feridos! Tenho nojo e medo da minha cama. Quantas vezes, de repente me apetece chamar-lhe maldita e excomungada. Queria abandoná-la, não posso estar nela. Tenho medo, tenho medo!

— Sim, meu Jesus, quem há-de resistir a isto? Só Vós, só Vós. Oh! Se eu neste ponto soubesse dizer o que sinto!

Tive um novo ataque do demónio, violento, mas pouco demorado. O coração estava aflitíssimo e o peito ofegante. Ao ouvir as suas feias palavras, mais em espírito do que com os lábios, oferecia-me a Jesus e à Mãezinha e pedia-Lhes para não pecar. Ao terminar da luta, fiquei aterrada na minha escuridão e no receio de ter ofendido a Jesus. Não resistia, se Jesus não viesse. Ele apressou-Se a vir e disse-me:

— Não pecaste, não, amada filha. É à sombra da Eucaristia que a alma, louca de amor por mim, se consola e delicia. É à sombra da tua pureza que o mundo se purificará. É da tua pureza que eu recebo a reparação das suas maldades e crimes. Dá-me tudo, dá-me tudo o que te peço, para que as almas tudo possam receber. Coragem, estou contigo.

Desisti, não posso. Vou a caminho do horto. Vejo todos os sofrimentos que lá me esperam. Tenho de sofrer em silêncio sem um desabafo. No meio deste sofrimento não peço a Jesus o céu, mas lembro-Lho. Fico em espírito por muito tempo a repetir:

— Jesus, o céu, o céu, o céu…