sábado, maio 08, 2021

SAUDADES DA CRUCIFIXÃO

Tudo desaparece em mim


Já não podendo mais com o peso das humilhações, com a agonia e negras trevas que sentia na minha alma, porque tudo me abafava a confiança que tenho em Jesus, eu dizia: Se aqueles que me tiraram o meu Paizinho experimentassem o que era sofrer, davam-mo para meu conforto. E segredava para Jesus: Juro-vos que confio em vós! Recordando que já não tinha crucifixão, senti tão grande dor no meu coração que me parecia chorar lágrimas de sangue e lembrava-me que se eu fosse de novo crucificada era bastante para aliviar o sofrimento da minha alma! Que saudades, que saudades, meu Jesus, não ter agora a crucifixão!

Agora as aves andam abaixo dos joelhos e sinto o coração a perder a vida divina. Vou caindo lentamente. Tudo desaparece em mim.

Também sinto que a humanidade já não bebe com aquela força que bebia, porque o sangue se vai acabando.

O mafarrico tem-me consumido a imaginação, pretendendo prender-me às coisas da terra; mas quanto mais ele tenta fazê-lo, mais Nosso Senhor me eleva para Ele. (Alexandrina Maria da Costa: S. 8 de Maio de 1942)

sexta-feira, maio 07, 2021

O SOFREDOR SOIS VÓS

 Quanto sofri, meu Deus!


Meu Deus, como se pode sofrer assim?! Eu quero abafar, quero esconder a dor, mas não posso mais. Meu Deus, como se sofre, como se pode sofrer desta forma? Humildemente, Senhor, diante de Vós quero-Vos pedir perdão. O sofredor sois Vós. Perdoai-me o meu queixume, o meu desabafo. Vós sois o portador da minha cruz, o Senhor das minhas amarguras; sois Vós, só Vós a beber o amargo do meu fel. Como me atrevo, Senhor, a queixar-me? Depois de reconhecer a minha miséria, vi que não sou capaz de suportar uma pequenina parcela da minha cruz sem o Vosso auxílio, Senhor.

Dias amargos, dias dolorosos de profundas e sentidas lágrimas foram os que se passaram. A minha pobre natureza não pode ser mais fraca. A vontade está pronta, sempre pronta para tudo o que Vos aprouver, meu Amor. Escondo, escondo muito os sofrimentos para não ser causa de os meus sofrerem. Bem sabeis, Jesus, que é assim, é só por Vós e pelas almas. Eu aceito esta vida de tão doloroso martírio. Sem ver a Jesus, sentia que da Sua sacrossanta cabeça se desprendiam espinhos, como pétalas de flores que os ventos desfolham e se vinham espetar na minha cabeça. Sentia que mãos cruéis de lança em punho me alanceavam o coração e me cravavam muitos punhais. Que dor, que dor! Quanto sofri, meu Deus! Da mesma forma, sem ver a Mãezinha, vinham as setas do Seu Santíssimo Coração. Os olhos da alma viam tudo que pareciam vir dos ares. O coração adivinhava donde vinham os espinhos e tudo o mais. (Alexandrina Maria da Costa: 7 de Maio de 1954 – Sexta-feira)

TRÊS CORAÇÕES NUM SÓ

 No Céu vais continuar com a tua obra salvadora


Agarrei-me a Jesus e disse-Lhe:

— Se eu Vos pudesse prender para sempre!... Eu não vivo, nem sei se sofro, pois não sou eu que sofro. Sois Vós, Jesus, sois Vós.

— Ó esposa querida, esposa amada, o Céu assiste-te e em breve é teu. É Jesus a dizer-te. Coragem! Coragem! Anima-te! Criei-te para o que há de mais alto, para a missão mais sublime. Que Glória te espera tão depressa!

— Ó Jesus, ó Jesus, eu só quero amar-Vos e a glória é toda para Vós; quero salvar-Vos as almas a todo o custo, sem a ansiedade da mais pequena recompensa.

— Minha filha, tem-las salvas aos milhões, e do Céu virão muitas graças para confusão e remorso de muitos cegos que não quiseram ver. Vais continuar com a tua obra salvadora. Eu to prometo e afirmo. Irão para ti os pecadores, atraídos por atracção celeste como avezinhas em bando e as formigas para o celeiro. Dize, minha filha, Jesus te manda dizer. Nunca a humanidade viu, nunca o Céu contemplou tal incêndio de vícios, maldades e crimes. Nunca se pecou assim. Toda a reparação é pouca. Avante! Avante sempre, a fazer oração e penitência! É preciso sustentar a justiça de meu Pai. O Seu braço cai, o Seu braço cai. Aqui tens, minha filha, a Minha Mãe, a tua Mãe. Escuta as Suas palavras, aceita as Suas breves carícias.

Era o Coração Imaculado de Maria. Mostrou-me o Seu Coração rasgado e, unido ao d’Ela, rasgado estava o de Jesus. Depois de me acariciar, disse-me:

— Minha filha, minha filha, Jesus pede e Eu peço com Ele oração e reparação. São os crimes que assim nos ferem. Coragem, coragem no teu inigualável sofrimento. Eu venho buscar-te [em] breve, levar-te comigo para o Paraíso. Uno o teu coração aos nossos para viveres a nossa dor.

Jesus aproximou-se; fez dos três corações um só e fez-me passar a gota do Seu Sangue Divino.

— Recebe esta vida: é vida divina, é vida de graça, fortaleza e amor. Comunica-a, dá-a às almas na abundância que elas quiserem. És de Jesus e por ti elas recebem Jesus. Não deixes de repetir o teu “creio”; não é mentiroso, é verdadeiro. Sofre, sofre assim. O mundo exige, o mundo exige!

— Ó Jesus, ó Mãezinha, muito obrigada, muito obrigada. Não me deixeis cair no desalento. Vede que estou sozinha. Compadecei-Vos de mim! Perdoai ao mundo, perdoai, perdoai. Dai à minha alma aquele por quem ela já não pode esperar mais! (Sentimentos da alma: 06-05-1955)

quarta-feira, maio 05, 2021

AO DIRECTOR E AO MÉDICO

 — Anima-te, meu anjo, e confia sempre


— Anima-te, meu anjo, e confia sempre. Dá ao teu paizinho, minha filha, o meu Divino Coração com toda a doçura, ternura e amor. Dá-lho cheio dos meus agradecimentos pela sua dor e exemplo na sua cruz; é exemplo dos santos. Diz-lhe que me servi de tão grande martírio para reparação de tantos e tão maus sacerdotes. Tudo está a terminar, ele será exaltado, e os exaltados humilhados, e a sua missão continua sempre junto de ti e junto às outras almas. Dá também ao teu médico o meu Divino Coração como nome dele, da esposa e de todos os filhinhos, gravados a oiro. São meus, pertencem-me; são salvos, é de todos o céu. Dá-lhe também os meus agradecimentos, diz-lhe que sou eu que o nomeio combatente livre e vencedor da minha divina causa, causa mais brilhante e prodigiosa. Diz-lhe que redobre os seus cuidados e canseiras junto de ti. É preciso milagre, grande milagre para a tua vida e existência aqui. Dá à Sãozinha a promessa do céu sem purgatório pelo que trabalho pela minha causa divina. Faz-me uma lista das pessoas a quem queres que lhes dê o céu sem irem ao purgatório. Sei muito bem quais elas são e quero condescender com os teus desejos. Vem, minha Mãe, toma o teu lugar de Mãe carinhosa e extremosíssima, dá a vida e suaviza a dor desta nossa filhinha.

Tomou-me a Mãezinha em seus braços, senti-me logo cheia de doçura e amor. Dum lado o seu santíssimo rosto e do outro a sua bendita mão me acariciava. Estava o meu rosto no meio daquela prensa santíssima. Cobriu-me de beijos, senti-me viver.

— Minha filha – dizia-me ela – venho em breve buscar-te para o céu. Antes de expirares, levo-te à presença de Jesus pela minha bendita mão; entre mim e Ele serás conduzida ao paraíso. À tua chegada terás coros de virgens, coros angélicos, toda a corte celeste em hinos, todo o céu em festa.

— Obrigada, Mãezinha. espero-Vos depressa, a não ser que os Vossos breves sejam como os de Jesus. Seja como for, não tenho vontade nem querer próprio. O que quero é a Vossa força santíssima para levar a minha cruz, a pureza do meu corpo e da minha alma, o amor ao Vosso Coração e ao de Jesus, a graça de não O desgostar nunca, nunca. Dizei-me, Mãezinha, estais triste comigo ou está Jesus?

— Não, esposa do meu filho querido. A minha alegria e consolação estão em ti, nada fizeste para me entristecer; tudo fazes para honra e consolação minha e do teu Jesus. Sossega, sossega, meu Filho, sossega a tua filhinha.

— Coragem, sossega, amada do meu Divino Coração. O que te digo é para te firmar e fortalecer no teu martírio. Não me desgostaste, sossega, não o permito. De ti recebo a alegria e amor que o meu Divino Coração deseja. És a loucura do céu, a vida das almas, o encanto da terra, a glória do meu Pai.

Por algum tempo fiquei fortalecida, mas, à medida que as horas foram passando, corri apressadamente a mergulhar-me nas trevas para nelas poder esconder-me de todos e para sempre. Abismada nelas, parecia-me não caberem em mim as ânsias, ânsias doridas, ânsias capazes de dar a morte, ânsias não sei de quê. Que peso o da minha cruz! Mas quero-a, amo-a para sempre. (Sentimentos da alma: 05-05-1945)

QUE TREMENDA CONFUSÃO

As almas possuem-me na medida que desejam possuir-me


Se não fosse Jesus conservar-me a vida, com o sofrimento que tenho tido teria morrido mil vezes, se mil vidas possuísse. Ontem, ao cair da tarde, já depois de ter escrito os sentimentos da alma, estava com a minha mãe e prima a fazer o mês da Mãezinha; principiaram os estremeções na minha cama, e eu estremecia com ela também. Causou-me grande aflição. Convencidas que era o demónio, deitaram água benta e em nome da Mãezinha mandaram-no retirar. Era por obediência que se fazia isto. Cessou por um pouco para depois se repetir novamente a mesma cena. Durante a noite, foi uma luta tremenda. O maldito chegou quase a persuadir-me que era falso ter morrido o Presidente da América; que estavam desfeitos todos os enganos, conhecidas todas as mentiras. Juntou a isto uma série de coisas que não sei como resisti. Dizer a Jesus que confiava n’Ele era o mesmo que não dizer nada.

— Confio, Jesus, confio.

Mas parecia-me não confiar.

— Valei-me, Jesus! Ó meu Deus, que será de mim!

Que tremenda confusão! Perdi todo o conforto do céu e da terra. O demónio bailava de contentamento. Parecia-me que ele tinha em suas mãos o meu coração, que ele esmagava e feria continuamente. Principiei a minha preparação para a vinda de Jesus esta manhã, mas sentia-me em tanta dor e o coração tanto em sangue, que se fossem a satisfazer os meus desejos; desfazia-me em lágrimas. Pedi a Jesus:

— Pela Vossa misericórdia, infinita misericórdia, compadecei-Vos de mim. Tende dó, Jesus, tende dó, Mãezinha, mandai-me hoje quem possa dar um pouco de alívio à minha alma. Morro de dor, esmagada entre trevas: trevas do céu, trevas da terra.

Chegou Jesus, e eu em agonia; sem luz, sem amor, baixou Ele ao meu coração. Quase logo, principiou a dizer-me:

— Minha filha, estrela de oiro. O teu brilho vai estender-se por toda a humanidade. Tu és o sol que estende os seus raios doirados para darem vida à terra. O teu sol, os raios do teu amor são mais do que oiro, são raios divinos, porque passam de mim para ti; vão criar, vão germinar, florescer frutos divinos nas almas, fogo divino nos corações. Tu és a flor pura que plantei no meio do mundo para as almas. Cultivei o terreno, plantei-a, para elas vives. Sobre todo o mundo vais espalhar a fragrância e o aroma mais delicioso. Não vai essa fragrância e esse aroma tão longe como o meu divino Coração deseja, porque os homens tentaram amarfanhar as suas pétalas. Em vão. A flor é a minha divina causa, a fragrância, o aroma, são as tuas virtudes, as minhas maravilhas em ti. Não há tempestade que a derrote nem que a faça desaparecer. As pétalas dessa flor vão voar ao longe, vão correr o mundo com o sopro da graça divina. Coragem, minha esposa amada. Confia que não te enganas nem serás por Satanás enganada! Velo por ti. Dou-me a ti quanto o desejas, sou todo teu. As almas possuem-me na medida que desejam possuir-me. Coragem, coragem. Para quê tanto desfalecimento? Não amas a tua cruz? Não sabes que estou contigo? És vítima de tudo. Eu aceito tudo, tudo quanto me ofereças, e faço que o Espírito Santo te inspire com as Suas santas inspirações e ilumine com a Sua luz, para encontrares sempre, sempre que me ofereceres. E tudo isto por amor a quem? Por amor às almas, para as poder salvar. És vítima, és vítima em tudo. Coragem sempre, querida filhinha.

— Perdoai-me, meu Jesus, o meu desfalecimento, perdoai-me tantas dúvidas. Bem sabeis que só a mim temo, que é de mim que eu duvido. A minha miséria é sem igual. (Sentimentos da alma: 5 de Maio de 1945 – Primeiro sábado).

terça-feira, maio 04, 2021

O COMBATE SERÁ RENHIDO

Levanta os olhos ao Céu, tem coragem


— Minha filha, levanta os olhos ao Céu, tem coragem, Jesus te amparará. O fim aproxima-se. O combate será renhido. Minha filha, minha filha, se fosses amada por todo o mundo não te assemelhavas a Jesus. Restam-te alguns amigos firmes e fortes à semelhança do teu esposo Jesus. Alegra-te, amada! Que grande dita assemelhares-te a mim! Filhinha, filhinha, alegra-te, quantos e quantos depois da tua morte chorarão as suas culpas, as suas faltas. Quantos e quantos depois da tua morte desejariam falar-te, pedir-te perdão por te terem perseguido e combatido. Filhinha, filhinha, diz ao teu Paizinho que ainda na terra muitos lhe hão-de pedir perdão. Que a sua humildade há-de ser exaltada. Diz-lhe que todo este sofrimento lhe tem purificado o seu coração e a sua alma, que está mais pura do que o oiro. Diz-lhe que tinha que passar por todos estes vexames para que a causa de Jesus brilhe como eu quero que ela brilhe. Diz-lhe que eu o amo apaixonadamente e que o tenho coberto com o meu divino Amor. Ó minha amada querida, diz ao teu Paizinho que o lugar dele no Céu está reservado ao lado da Santíssima Trindade. Diz-lhe que toda esta luta na terra está a terminar. Confias, confias, minha filha?”

— Ó meu Jesus, como não hei-de confiar em vós? Vós não enganais! Quem confiou em Vós e ficou confundido? Sede a nossa força, Jesus, e terminai então tanto sofrimento.

— Inclina-te, inclina-te, minha bendita Mãe, beija e abraça a tua filhinha, minha esposa e minha crucificada.

— Mãezinha, vela por mim, vela pelo meu Paizinho, vela pelos que me são queridos. Entre Jesus e a Mãezinha estou bem, não corro perigo. (Sentimentos da alma: 3 de Abril de 1943 – Primeiro sábado).

LIVRAI-ME DE VOS OFENDER

Fazei em mim e de mim quanto Vos aprouver


Durante a noite fiz companhia a Jesus no Sacrário e na prisão. Hoje de manhã, ouvi a sentença de morte. Segui para o Calvário, o coração fez-se outra vez pomba. Foi ela quem levou a cruz, foi ela que levou as setas do coração da Mãezinha, que A acompanhava. Viagem dolorosa, sempre as setas a ferirem-me, eu não podia consentir que a Mãezinha sofresse tanto! O coração d’Ela, os sues lábios, a sua dor, todo o seu ser era o meu. No alto do Calvário, foi essa pombinha na cruz crucificada. Com o peito aberto e o coração a sangrar, era-lhe por toda a humanidade avivada a chaga, dolorosa profunda, do coração. Sabia bem que sempre assim seria, até ao fim dos séculos. Aquela dor, unida sempre à dor da Mãezinha, que, lacrimosa, e atravessada por cruéis setas, se mantinha junto à cruz, levou a pombinha a bradar tanto que fez estremecer todo o solo. Fez-se noite, e a pombinha, como que se batesse as asas, deu-se toda ao eterno Pai expirou. A morte reinou em mim.

Veio Jesus com a sua vida encheu-me dela e falou-me assim:

– Nova vida, novo triunfo de Jesus na tua alma. Eu triunfo e reino no teu coração, como outrora triunfei e reinei no Calvário. Triunfei e reinei sobre a morte. Triunfo e reino nos teus sofrimentos, na tua cruz. Coragem, coragem, minha filha. Jesus escolheu a tua vida, os anjos escreveram-na. Toda a tua missão está escrita no livro divino. Eu quero, Eu quero trabalhar sempre na tua alma. Eu quero operar nela um conjunto de todas as maravilhas divinas. A nobreza da tua missão condiz com os prodígios maravilhosos que Jesus em ti operou. Eu quero reinar e triunfar em ti. Sabes para quê, esposa minha, vítima predilecta do Meu Divino Coração? Para que, por ti, reinem e triunfem milhões e milhões de almas. Triunfem do pecado, reinem sobre Satanás. As almas, as almas, se te conhecessem, tal qual és, tal qual Eu te enriqueci! Devoravam-te de amor, como se fossem feras.

– Ó Jesus, ó Jesus, não sabem elas quem Vós sois? Não conhecem elas tudo quanto sofrestes por elas? Ai, pobrezinhas, nem por isso Vos devoram com amor puro e louco. Eu não queria, não, meu Jesus, que elas me amassem e se enlouquecessem por mim, mas queria, sim, oh! Se queria, meu Jesus, que Vos amassem com a maior pureza e loucura de amor; que cessassem de Vos ofender. E, por isso, é com esse fim que eu sofro, que aceito a cruz que me dais. Mas não quero, Jesus, não quero deixar de Vos confessar que tenho estes desejos, mas sou a maior de todas as pecadoras. Só tenho a vontade de Vos não ofender, Jesus, e nada mais. Perdoai-me, Jesus, perdoai-me.

– Minha filha, minha louquinha de amor, a tua humildade alegra o Céu, os anjos e os santos estão jubilosos. A humildade é própria das almas grandes aos olhos do Meu Eterno Pai. Tu és a Sua vítima mais querida e amada. Tens as tuas faltas; também elas são necessárias e proveitosas à tua alma. Com elas humilhas-te diante do Senhor. Com elas escondes toda a grandeza de Deus. Não duvides, não duvides, não duvides das Minhas Divinas palavras. Não duvides que foste criada para desempenhar a missão mais alta e sublime. Não duvides, tem sempre presente que foi Jesus a escolher-te para tudo isto. O teu coração, vítima eucarística, é um abismo de amor, no qual Eu habito, no qual Eu me delicio e com o qual se incendeiam os corações e as almas. Dá-Me, dá-Me a reparação. Não te importes, minha filha, da forma como ela te é pedida. Eu vejo, na minha sabedoria infinita, que só desta forma o Meu Eterno Pai pode ser reparado. Só, só com esta reparação, evitas de caírem no inferno tantas almas, tantas, tantas, minha filha, loucas pelos prazeres, esquecidas dos seus deveres para comigo. Tu não caíste no inferno, não, mas evitaste, naqueles momentos, que lá caíssem certas almas que, pelo seu pecado, haviam de ser condenadas eternamente.

– Senhor, Senhor, fazei em mim e de mim quanto Vos aprouver. Livrai-me de Vos ofender.

– Vem, minha filha, recebe a gota do Meu Divino Sangue. É a gota infinita dum Deus infinitamente amável e misericordioso. É sangue que te dá a vida, para tu dares vidas. Tu és canal de vida eterna, canal de salvação. É por ti que Eu me dou, é por ti que as almas recebem toda a graça e vida divina. Ai das que as rejeitam, ai das que as desperdiçam! O mundo, o pobre mundo, o Portugal, o ingrato Portugal! Diz-lhe, diz-lhe que Jesus o chama e o quer. Diz-lhe que calque aos pés todas as maldades e vícios. Que faça oração, que faça penitência. Fica, fica na tua cruz, para salvares as almas. Conta com a graça divina, a graça do teu Senhor”.

– Obrigada, obrigada, meu Jesus. (Sentimentos da alma: 04-05-1952)

COMUNHÃO SOBRENATURAL

 4 de Abril de 1947

― Minha filha, Minha filha, eu não morri; vem a Mim, vem para o Meu amor, vem para o Meu fogo divino; ele é para ti a vida, é o cadinho, o fogo que te purifica, que dá a pureza, a graça, todo o brilho à tua alma. Mergulha-te nele, namora-te de Mim, enche-te, para poderes encher as almas. Descansa neste fogo, suaviza nele a tua dor, retoma as forças perdidas em tão doloroso martírio.


Jesus calou-se e eu fiquei por um espaço de tempo a arder naquelas chamas; senti-as, vi-as; eu era a caldeira, Jesus o fogo. Conservei-me em silêncio também; não sabia falar a Jesus. Não sentia as dores do corpo e a alma naquelas chamas tornou-se mais forte. Continuou Jesus:

― Minha filha, Minha esposa querida, vais agora receber-Me pelas mãos do Anjo da tua guarda. Vem, ao Seu lado, S. Miguel Arcanjo e o Anjo S. Gabriel; atrás deles seguem-nos uma multidão deles. Prepara-te; descem do Céu.

Só disse: Senhor, eu não sou digna, etc. Vinham os três Anjos, como me disse Jesus, e pararam à minha frente. O do meio com a Sagrada Hóstia nas mãos; os dos lados alumiavam e cobriam o do meio, o que trazia Jesus, com uma umbela rica. A multidão deles não cantavam, mas de mãos levantadas, cabeças inclinadas, num profundo recolhimento, dizia: glória, glória ao nosso Deus, ao nosso Rei, ao nosso Amor. A Ti glória, a Ti glória, ó Jesus, nosso Deus e Senhor. Isto era em tom de quem reza e não de quem canta. Inclinou-se para mim o Anjo; eu estendi-lhe a língua e Ele ao dar-me Jesus não principiou pelas palavras do costume, mas sim: “Viaticum Corpus Domini nostri Jesu Christi custodiat animam tuam in vitam aeternam”.

Desapareceram com a mesma reverência, no mesmo silêncio com que tinham aparecido em volta de mim. E toda a multidão de Anjos batia as suas asinhas brancas e pronunciavam as mesmas palavras. Vi-os seguir, tudo era luz.

Fiquei mergulhada em amor, numa intimidade com Jesus; parecia-me inseparável d’Ele.

― Minha filha, dei-Me a ti em alimento, sou a tua vida. Dei-Me desta forma, para mais e melhor mostrar as minhas maravilhas e para mostrar que estou contente com os Meus representantes na terra, com a doutrina da Minha Igreja. Não podia deixar-te sem o Meu alimento, depois de tantas forças consumidas, de tanto sofreres! Prometi não deixar-te sem a Minha Eucaristia, às sextas-feiras, e não faltei. Recebeste-Me como viático e é verdade que és enferma e sem um milagre divino não terias resistido à dor, eras moribunda. Coragem, Minha filha, Eu continuo a pedir-te sofrimento porque O Meu Eterno Pai continua a exigir grande reparação das Minhas vítimas para a salvação do mundo, para que os pecadores se convertam e venham a Mim. O Meu Divino Coração suspira, anseia por eles; vejo-os a fugirem-Me, a perderem-se, acode-lhes, são meus e teus. És a minha esposa mais querida, a maior vítima que tenho na terra, és a continuadora da Minha paixão, da obra da redenção. É revestida de Mim que continuas a salvar almas, a resgatá-las do pecado e a arrancá-las das garras de Satanás. Vai com o Meu divino amor, com a Minha graça salvá-las. Vai dizer tudo; leva a luz do Divino Espírito Santo. Coragem, coragem, e amor; vai para a cruz, que só deixarás, no momento da morte, quando voares ao Céu.

― Muito obrigada, meu Jesus! Permiti que eu vá firme no Vosso amor divino; conto com a Vossa graça. Aceitai desde já, o meu sacrifício. A minha alma já está a cair em grande amargura. Venha o que vier, eu amo-Vos; sou a Vossa vítima. São passadas três horas em que fui mergulhada no amor de Jesus; o coração ainda me queima, o peito está em brasas. A alma está triturada de dor; tudo em mim é cegueira, tudo são trevas na terra e no Céu. Seja sempre bendito o Senhor. (Sentimentos da Alma de 4 de Abril de 1947)

segunda-feira, maio 03, 2021

UM GRANDE AMIGO DA BEATA ALEXANDRINA

MONSENHOR MANUEL VILAR
REITOR DO PONTIFÍCIO COLÉGIO PORTUGUÊS
DE ROMA

“Um abismo de santidade e sabedoria”

O Mons. Vilar (Terroso, Póvoa de Varzim, 14/9/1903 – Porto, Hospital de S. Francisco, 7/3/1941) foi no seu tempo um sacerdote muito prestigiado, “um dos membros mais ilustres do Clero português”, como se escreveu à sua morte. Tendo ido muito cedo para o seminário diocesano bracarense, seguiu em 1922 para Roma, para a Universidade Gregoriana, onde se doutorou em Filosofia e Teologia. Lá se ordenou em 29/7/1928, celebrando a sua primeira missa no Santuário do Loreto, em 5 de Agosto.

Em 1929, veio para professor do Seminário Conciliar e foi elevado à dignidade de cónego em 25/5/1931. No ano seguinte foi nomeado vice-reitor da instituição e, em 1936, reitor. Coube-lhe a tarefa meritória de reorganizar os estudos do seminário em moldes modernos e de reconhecida qualidade científica, após as dificuldades advindas da Primeira República.

Em 1939 é nomeado reitor do Pontifício Colégio Português de Roma e ascende à dignidade de monsenhor.

Da despedida do seminário e da intervenção de várias entidades, mesmo poveiras, aquando da partida para Roma, foi elaborado um livro, intitulado O Senhor Cónego Vilar, que, embora se apresente anónimo, é devido aos cuidados do terrosense António Sousa Carvalho (depois Fr. António do Rosário, O.P.)

Em Roma, Mons. Vilar proferiu palestras semanais na emissão portuguesa da Rádio Vaticano, que eram depois retransmitidas pela Rádio Renascença (fundada por Mons. Lopes da Cruz, natural também de Terroso).

Atacado por uma doença pulmonar em 1940, vem primeiro para Lisboa e depois para o Hospital de S. Francisco, no Porto, onde falece, com 39 anos.

Sabendo-se que foi este jovem sacerdote quem diligenciou junto de Pio XII com vista a transmitir-lhe a vontade de Jesus manifestada à nossa Beata de que o mundo fosse consagrado ao Imaculado Coração de Maria, já se vê quanto ele nos interessa. Quando vai para Roma, em Março de 1939, já desde Janeiro visitava oficialmente Balasar.

Da longa carta do cónego Dr. Molho de Faria que vem no livro O Senhor Cónego Vilar vamos transcrever alguns parágrafos:

O Cónego Vilar propôs-se um grande ideal que jamais perdeu de vista. Sabia muito bem que era necessário ao homem, que aspira singrar na vida e fazer alguma coisa acima da vulgaridade no apostolado das almas, fixar-se em altos ideais. Sabia, pois, que era necessário procurá-los, concebê-los e encarná-los, para ir até às últimas consequências na sua realização. Sabia que sem eles o homem nada fa­ria ou rastejaria mísera e mesquinhamente.

O Mons. Vilar era apenas um ano mais velho que a Alexandrina e morreu logo adiante, de cancro, oferecendo a sua vida pela santificação dos sacerdotes, sem conseguir concluir a missão junto da Santa Sé.

Nas suas visitas a Balasar, usou de grande delicadeza. Em certo sentido, ele parecia irmão da Alexandrina, apesar da sua formação universitária e méritos intelectuais.

O seu reconhecimento da autenticidade das vivências místicas da Doente de Balasar bem como algumas notáveis cartas que lhe enviou foram argumentos com que se escudavam os defensores da Alexandrina ao tempo em que Braga quis que se fizesse silêncio sobre ela.

O Mons. Vilar associou a Alexandrina à sua tarefa de direcção do Colégio Português de Roma, chamando-lhe sua “colaboradora providencial”. O que estava certo, pois Jesus virá a chamar-lhe “doutora das ciências divinas” e a afiançar que nela deverão aprender “os pequenos, os grandes, os ignorantes e os sábios”...

Esta, por sua vez, deixou sobre ele as palavras mais elogiosas; referiu-se-lhe como “um abismo de santidade e sabedoria”. Ninguém fora tão longe. Veja-se o contexto da expressão:

Como me sentia muito bem a conversar com ele (o Mons. Vilar) e como tinha toda a licença do meu Director espiritual, falámos muito, mesmo muito de Jesus, porque sentia-me como que mergulhada num abismo de santidade e sabedoria, o que raras vezes me acontece, mesmo com sacerdotes. Disse-lhe que não falava assim com outros senhores Padres, porque não era feitio meu, mas sim pela confiança que nele sentia. Sua Reverência respondeu-me:

— Faz muito bem, Alexandrina, em nada dizer porque, se lhes dissesse, eles não a compreenderiam.

Chorei quando Sua Reverência se despediu de mim na partida para Roma. Prometeu escrever-me de lá, dizendo-me que ficaria a ser a sua intercessora na terra.

O Rev. Cónego Costa Lopes, num opúsculo que escreveu para recordar o centenário de Mons. Vilar, colocou uma muito bela consagração a Nossa Senhora feita pelo Mons. Vilar no dia da sua ordenação sacerdotal, que aqui se copia.

 

“Ó minha Senhora e Mãe, Maria Imaculada, o mínimo e o maior pobrezinho dos vossos filhos e servos, neste dia da minha ordenação sacerdotal, o dia mais solene e mais belo da minha vida, faço-Vos a entrega livre solene da minha alma, do meu coração, de toda a minha vida, de todo o meu ser. Vós que me conduziste até ao altar, sede agora no sacerdócio o meu guia, o meu conselheiro, a minha protecção, o meu refúgio.

Como a criancinha que com amor e confiança ilimitada se lança nos braços de sua mãe, assim eu me lanço nos Vossos braços, me escondo em Vosso manto, Não, não me deixeis. E quando à hora da minha morte eu lançar um olhar sobre a minha vida passada no sacerdócio, tenha a consolação de ver que toda foi dirigida por ti, abençoada por ti r que nem um só passo dei fora das tuas vistas. Tornai-me sempre cada vez mais viva e penetrante a grandeza e a sublimidade no sacerdócio, e tornai-me sempre cada vez mais digno de o exercer.

Ó minha Mãe, é todo Vosso e todo Vos pertence o Vosso pobrezinho filho, Manuel.”

Fonte: http://sacerpov.blogspot.com/2012/04/

O ALIMENTO DA ALEXANDRINA

A Eucaristia


Na história já se tinham verificado casos de místicas e místicos que tinham vivido, mesmo durante anos, só com o alimento da Eucaristia. Por exemplo, Santa Ângela de Foligno, durante 12 anos, S. Catarina de Sena, durante anos, o Beato Nicolau de Flue, durante 20 anos (vd. C G, p. 137).

Também na Alexandrina Jesus quer pôr em evidência o valor da Eucaristia.

Em 1946 está muito consumida com os sofrimentos e com o jejum, que dura desde 42. Alguns sugerem ajudá-la com injecções nutritivas.

O Dr. Azevedo não quer fazer nada contra a vontade divina. Então a Alexandrina pergunta a Jesus:

— Ó meu Jesus, eu quero sofrer, mas saber que em tudo faço a vossa divina vontade. Se quiserem que eu me alimente, se quiserem aplicar-me injecções, que devo eu fazer?

— (...) Não quero que tu uses medicina, a não ser aquela a que não possam atribuir alimentação.

Esta ordem é para o teu médico: será ele que toma a tua defesa.

Quero que ele continue com toda a sua vigilância a amparar-te: é grande o milagre da tua vida. Que ele me ajude, que te ampare! S (7-12-46)

No desígnio de Jesus o jejum da Alexandrina é um martírio mais que deve levar os homens a meditarem sobre a Eucaristia.

Em Abril de 54 isto será claramente expresso:

— Faço que tu vivas só de Mim para mostrar ao mundo o valor da Eucaristia e o que é a minha vida nas almas.

És luz e salvação para a humanidade. Ditosos aqueles que se deixam iluminar! S (9-4-54)

O valor nutritivo da Eucaristia está bem provado com o facto de que a Alexandrina, durante o jejum total, não poderia sobreviver. De facto Jesus promete-lhe que não a deixará sem a Eucaristia em nenhuma sexta-feira, dia em que se esgota muito ao reviver a Paixão, mesmo sem movimentos.

Em certos períodos o pároco (único que lhe pode levar Jesus) está ausente; há depois as sextas-feiras santas, em que a liturgia consente receber a Eucaristia só como Viático (quando vivia a Alexandrina).

Mas Jesus supre quando falham os homens, mostrando mais uma vez o seu poder no Caso da Alexandrina, que receberá misticamente, mas realmente, da mão dum anjo ou do próprio Jesus, a Hóstia consagrada!

Transcrevamos de algum diário:

— Prepara-te, filhinha: ou dar-Me a ti. (...) Repara: desce o Céu sobre ti.

Dou-Me a ti numa Comunhão real, numa Comunhão Eucarística.

Desceu sobre mim a abóbada do céu:

— Que lindo, que lindo! — exclamei eu — Vale a pena, meu Jesus, sofrer e sofrer tudo para possuir o Céu. (...)

Parece-me bem que estendi a língua para receber Jesus.

Ficámos por alguns momentos num silêncio profundo, numa união tão grande. S (30-3-45)

Jesus insiste em afirmar que se trata duma real Comunhão eucarística.

Em 13 de Maio de 49 dirá:

— Vais receber-me em Corpo, Sangue, Divindade, como estou no Céu.

Em 4 de Abril de 47 é Sexta-Feira Santa: Jesus dá-Se-lhe como Viático:

— Minha filha, minha esposa querida, vais agora (apenas terminado o êxtase da Paixão) receber-Me pelas mãos do teu Anjo da Guarda. Vêm ao seu lado S. Miguel Arcanjo e o Anjo S. Gabriel. Atrás deles seguem-nos uma grande multidão deles. Prepara-te: descem do Céu (...)

Inclinou-se para mim o Anjo. Eu estendi-lhe a língua e ele, ao dar-me Jesus, não principiou pelas palavras do costume, mas sim: “Viaticum Corpus Domini nostri Jesu Christi custodiat animam tuam in vidam aeternam” [1]. (...)

Fiquei mergulhada em amor, numa intimidade com Jesus: parecia-me inseparável dele.

— Minha filha, dei-Me a ti em alimento: sou a tua vida. Dei-Me desta forma para mais e melhor mostrar as minhas maravilhas e para mostrar que estou contente com os meus representantes na terra, com a doutrina da minha Igreja. (...) Recebeste-Me como Viático; e é verdade que és enferma e sem um milagre divino não terias resistido à dor: estavas moribunda. S (4-4-47)

Transfusão de sangue, efusão de amor

O fenómeno da Eucaristia real dada misticamente já se tinha verificado com algumas grandes almas muito elevadas na espiritualidade, dotadas duma especial sensibilidade para as realidades celeste. Por exemplo, S. Verónica Giuliani, S. Gema Galgani; e em 1916 Jesus escolheu a pequena Lúcia de Fátima para dar-Se a ela mediante o anjo da guarda.

Mas a Beata Alexandrina recebe ainda um outro alimento para o corpo e para a alma: um conjunto de sangue, vida, amor, sob forma de verdadeira transfusão para o sangue e de efusão para o amor. É a primeira alma mística para quem se efectua tal fenómeno. O próprio Jesus o afirma:

— Vou dar-te a gota do meu divino Sangue, a maior prova do meu infinito amor, a maior de todas as maravilhas, a maravilha única, que tinha destinado de dar à maior vítima da humanidade, a quem confiei a missão mais sublime”. S (13-2-48)

— Que grande graça, que grande prodígio o sangue do Crucificado do Gólgota correr nas veias da maior crucificada da humanidade!

Jesus ia falando — ajunta a Alexandrina — e a gota do seu precioso Sangue passava lentamente.

Que união intima: o seu divino Coração unido ao meu! S (11-6-48)

É importante notar que tal transfusão de sangue não é um facto puramente espiritual, como a efusão de amor. Não, não! É sangue verdadeiro, concreto, que lhe faz dilatar o coração de modo sensível e que deve compensar o sangue que a Alexandrina perde frequentemente, e mesmo durante longos períodos diariamente!

Jesus diz-lhe:

— Dar-te-ei o meu Sangue gota a gota, assim como gota por gota o dás por Mim e pelas almas. S (29-6-45)

 

— Recebe-o antes que percas todo o sangue que tens em tuas veias.

Quero sempre esta mistura: o sangue da vítima deste Calvário (o lugar de Balasar onde vive Alexandrina), da maior vítima da humanidade, com o sangue da Vítima do Gólgota, de Cristo redentor. Assim tens todo o poder e tudo vencerás. S (19-10-45)

No fim do diário de 9 de Novembro de 45 o Dr. Azevedo colocou a seguinte nota:

Há três meses que a doentinha tem diariamente perda de sangue.

— Se o mundo soubesse que é a tua vida! Se ele soubesse o sangue que corre em tuas veias, quereriam tocar teu corpo como foi tocado o meu (...) S (27-12-46)

 

— Recebe a gota do meu divino Sangue: é o remate, é a coroa das minhas maravilhas em ti. É o sangue de Cristo, é o sangue que trouxe do ventre puríssimo de minha Mãe bendita, a girar, a correr em ti, nas tuas veias! S (11-11-49)

O sangue que Jesus lhe transmite tem indubitavelmente o objectivo de sustentá-la, de ajudá-la a não ceder sob o peso dos enormes sofrimentos que deve suportar enquanto alma-vítima:

— Deixa que corra em tuas veias o sangue que te dá a vida; é a vida que te dá força na tua dor, no teu calvário. S (30-4-48)

Mas para o espírito é preciso o amor:

— O sangue dá-te a vida ao corpo, o amor dá-te a vida à alma.

Prodígio maravilhoso! Recebe, enche-te. S (29-4-49)

A efusão de amor é frequentemente evidenciada por luz, ardor, raios luminosos:

Apareceu-me Jesus em direcção a mim. Do seu divino Coração vieram para o meu uns raios luminosos que mo atravessavam como uns punhais. Jesus parecia estar numa nuvem branca (…)

O meu coração satisfazia-se naqueles raios: eram o seu alimento e o bálsamo de toda a dor.

O tempo foi passando e eu mergulhada naquele doce Paraíso. S (23-7-48)

Eram tais e em tão grande número os sofrimentos que eu não podia, sentia-me desfalecer. No meu caminho apareceu-me Jesus (...) Da chaga do seu Sagrado Coração saíam raios brilhantes de fogo que vinham todos para mim.

Levantou a mão, com um dedo apontou para o Céu e disse-me:

— Caminha, que Eu te ajudarei! (...)

Esta chuva acendeu em mim um fogo ardente. A dor e a tristeza desapareceram. Fiquei em luz clara.

— Agora sim, meu Jesus, conheço que sois Vós! (tem sempre temor de que os fenómenos místicos que acontecem nela sejam fruto da sua fantasia: é um dos maiores sofrimentos). S (8-7-49)

Apareceu Jesus e vi que (aqueles raios) saíam do seu divino Coração.

Ele chamou-me e disse-me:

— Minha filha, minha filha, minha amada filha, os raios de fogo que atravessavam o teu coração são raios de amor do teu Jesus. Estes raios levam-te vida, levam-te conforto, paz e luz.

É com esta luz que podes ver quanto necessitas de dar ao teu Esposo Jesus dor, muita dor, com grande reparação.

Os crimes não diminuem, os crimes não deixam de aumentar.

Oh, filha, tantos sacrilégios, tantas iniquidades! S (19-8-49)

— Minha filha, minha filha, venho com o fogo do meu amor aquecer-te o coração, dar-te vida, venho provar-te que estou contigo. S (4-3-50)

É preciso ter presente, todavia, uma coisa essencial: todas as graças que Alexandrina recebe não a têm por fim, mas à missão à que é chamada. Alexandrina deve transmitir à humanidade o amor, a vida de Jesus:

— Leva o meu amor, leva a minha paz. Vai dá-la às almas: criei-te para elas e para elas te fiz poderosa. S (23-4-48)

— Leva o meu divino amor, vai irradiá-lo. Infunde-o nas almas, fá-lo passar nos corações como setas. S (25-3-49)

Vi pelo centro do Coração de Jesus saírem umas chamas de fogo que o irradiavam todo. Perguntei-Lhe:

— Que fogo é esse, Jesus?

— É o fogo do meu divino amor. É o fogo, minha filha, é o amor que Eu, por ti, dou ao mundo, dou às almas.

Espalha-o, espalha-o! S (21-7-50)

Via o seu lado aberto e aberto o seu divino Coração. Dele saía uma chuva de ouro e, em vez de cair para baixo, vinha de encontro ao meu coração. Quanto mais chuva do de Jesus saía, mais o meu se enchia, mais luz possuía, maior fogo me queimava.

— Estou a arder, meu Jesus: bendito sejais por tanto me dardes!

Fazei que eu saiba distribuir como Vos apraz! S (16-6-50)

— Eu sou a ressurreição e a vida (acabara de reviver a Paixão). E tu, à semelhança de Jesus, teu Esposo, és ressurreição e vida de muitas almas, de milhares, milhões e milhões e milhões de almas.

Quando Jesus falava de milhões, parecia que a sua divina voz se espalhava ao longe e que era um nunca acabar, nunca acabar.

E, tomando nas suas mãos sacrossantas o seu divino Coração como se fosse uma custódia cheia de raios dourados, começou a abençoar-me de cima a baixo.

Os raios que dele pendiam atravessaram e penetraram todo o meu ser. Parecia ver-me a mim mesma toda luz, dum lado ao outro. Fiquei como que a arder em fogo.

— Enche-te, minha filha, do que é divino, enche-te do meu amor!

A minha graça e tudo o que é meu há-de transparecer de ti e ver-se em ti como em espelho cristalino. S (23-2-51)

Jesus exprime numa incisiva síntese a missão da Alexandrina:

— Enche-te para encheres,
abrasa-te para abrasares!
S (10-9-48)

A entrega da humanidade

A Alexandrina, na sua tarefa de transmitir às almas o que recebe da Jesus, é apresentada como “mãe da humanidade”, porque a alimenta e a salva.

No êxtase do dia da Imaculada de 1944 está presente também a Mãe, embora seja sexta-feira. Jesus diz:

— Filhinha, amada querida, está comigo a minha bendita Mãe; escuta o que Ela te diz. (…)

— Minha filha, venho com o meu divino Filho fazer-te a entrega da humanidade e fechá-la em teu coração. Ficam as chaves na posse do teu Jesus e da tua querida Mãezinha.

(…) És rainha dos pecadores, és rainha do mundo, escolhida por Jesus e por Maria.

Hoje, dia da minha Imaculada Conceição, fazemos-te a entrega do teu reinado. Principia desde hoje, é teu: guia-o, governa-o e guarda-o. Guarda-o na terra assim como o guardarás e governarás depois nos céus.

Escolhi este dia que em minha honra é guardado, para que em união comigo seja festejado o dia em que te entreguei o reinado da humanidade.

E a Mãezinha continuou:

— Filhinha amada, querida do meu Jesus, recebe a vida de que vives, recebe a vida do Céu, recebe-a e dá-a às almas.  (...)

Recebi novas carícias de Jesus e da Mãezinha, fiz-Lhe a entrega de mim mesma e de todos os que me são queridos e por fim do mundo inteiro, incluindo também os que me fazem sofrer.

Mãezinha, faço-Vos a entrega da humanidade, guardai-a, que é Vossa, salvai-a! Só Vós podeis. S (8-12-44)

Esta maternidade fá-la sofrer muito. Refere-o em várias ocasiões. Por exemplo, cerca de dois meses depois dita no diário:

Tenho que transformar este rochedo: da pedra dura transformá-lo em pedras preciosas, em ouro fino. (...) tenho que o mover, que o desfazer, tenho que fazer dele um mundo belo, agradável para Jesus, de encantos para todo o Céu.

Ó Jesus, vede esta louquinha, vede o martírio que a consome!

Que hei-de fazer pelo mundo? Como hei-de transformá-lo? De que forma hei-de consolar e alegrar o vosso divino Coração? S (15-2-45)

Cerca de um mês depois desafoga a sua dor.

Tenho fome, muita fome das almas. Queria engolir o mundo. Sinto-me cada vez mais mãe dele.

Que loucura a minha por aquilo que é engano, lodo e imundície! (…)

Sou mãe que chora a perda de seus filhos; sou mãe que os não pode ver em tanta desordem, em tanta miséria e crimes.

Ai meu Jesus, o que hei-de fazer? O que posso eu fazer?

Sou mãe que chora lágrimas de sangue que banham toda a humanidade. Não posso resistir a tanta dor, não posso conceder-me trégua: quero salvar o mundo, quero sofrer tudo, quero-lhe dar a vida. (...) S (8-3-45)

(Tirado do livro do casal Signorile, intitulado: “Só por amor!”; cap. 9)



[1] Corpo Viático de Nosso Senhor Jesus Cristo guarde a tua alma para a vida eterna.