19 de fevereiro de 2015

COMO CUSTA O MEU VIVER

Balasar, 24 de Janeiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,
Primeiro que tudo quero agradecer ao meu Paizinho a boa cartinha que teve a caridade de me escrever. Veio dar-me uns momentozinhos de alegria e de alívio. Foram mesmo poucos. Passados uns momentos eu voltei ao mesmo estado. É assim que o meu Jesus quer; que se faça a Sua Santíssima Vontade. Eu estou sempre pronta para o que Ele quiser. Confio que não me faltarão as forças precisas. Ai, meu Paizinho como custa o meu viver: ai a minha vida. Como eu queria poder fugir, desaparecer da vista de todos. Sinto que sou indigna de ser visitada e conhecida. Que miséria a minha, que nada eu sou.


Vai para às 9 da noite: que escuridão lá fora: mas maior noite é a escuridão que sinto na minha alma. Meu Paizinho, meu Paizinho, como hei-de viver assim? O meu peito parece que se abre com a aflição que sinto dentro. Se eu digo amo-Vos meu Jesus, Jesus eu Vos amo, parece que a minha prece se abafa, se enterra debaixo de peso que me sobrecarrega.
Os desejos de consolar a Jesus, as ânsias de O amar continuam e muito fortemente. Eu digo: ó meu Jesus, eu queria amar-Vos com o amor de todo o Céu e de todas as almas; assim parece que não caibo em mim, não me satisfaz. Ainda que eu possuísse todo esse amor, não me bastavam para os desejos que tenho de amar Jesus. Paizinho, será falta minha? Desgostarei o meu Jesus! Quem O ama como a Mãezinha querida, e toda a corte celeste? E a mim não me bastava este amor? Meu Deus, meu Deus, como pode ser isto, eu quero amor, amor, amor. Não sou capaz de exprimir melhor os desejos que tenho de amor. Tenha a caridade de me dizer se é falta minha. Mas ai, como eu queria gritar alto, bem alto a pedir amor. Ai, como eu tenho saudades do Céu. Passo momentos com tantas saudades que me parece não poder viver mais assim. Quando chegará o Céu? Quando acabarão as minhas dúvidas? Por um lado meu Paizinho a infundir-me coragem: por outro lado o meu Jesus e eu sempre caída, cheiinha de medo de enganar. Meu Deus, meu Deus, mas eu não tento enganar ninguém. Como posso eu dizer e fazer tanta coisa por mim? Ai meu Paizinho, como é estreitinho o caminho do Céu.
Agora pertinho da noite, veio cá o Senhor Abade ler-me uma carta que lhe escreveu o Senhor Cónego Vilar em que dizia que o Senhor Arcebispo queria que ele voltasse aqui na próxima sexta-feira. Dizia-lhe também que avisasse a doentinha que não achava nisso inconveniente nenhum. O Senhor Arcebispo vai para uma reunião de padres para a Póvoa e que o vinha trazer de automóvel a casa do Senhor Abade e buscá-lo. Mais um sacrifício que tenho de fazer. Só por amor de Jesus e das almas eu sofro isto. Pobre de mim, não roubei nada a ninguém, mas ando a ser interrogada. Se ao menos valer a pena o meu sofrimento! Que Nosso Senhor mo aceite, só Ele sabe quanto me custa. O Senhor Abade disse-me que na sexta-feira quando eu estivesse só com o Senhor Dr. Vilar que lhe pedisse para ver se ele arranjava licença para eu ter o Santíssimo Sacramento em casa. Eu não quero desobedecer ao Senhor Abade, mas não tenho licença do meu Paizinho para o fazer. Peço, por caridade, se não achar bem que eu lhe diga, para me avisar por telegrama que não o faça. E eu então nada digo. Posso estar sossegada? Avisa-me se não achar bem? O demónio diz-me que eu queria grandezas, mas eles tanto hão-de andar que hão-de descobrir que é mentira. Chama-me nomes feios e faz muita festa para me arreliar e parece que me quer atirar pelos ares. Como já é um pouco tarde vão só umas palavrinhas do que Nosso Senhor me disse hoje.
Digo ao meu Paizinho se o não amásseis como o amais, não lhe entregavas a minha alma, não me confiavas a ele? Entregaste-lhe o penhor mais querido, o objecto de todas as Vossas atenções? Portanto, paz, amor e confiança?
Adeus meu Paizinho. Ainda falta tanto tempo para vir cá! Nosso Senhor me dê forças até lá. Não se esqueça de mim na sexta-feira. Já que não pode assistir-me aqui, ao menos acompanhe com orações. Tenho tanto medo de estar sozinha! Quando acabarão estes exames? Parece que fico sempre com raposa, nunca chego a ficar bem.
Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.
Fará o favor de me recomendar aos Senhores Padres.

A bênção e perdão para a pobre Alexandrina.

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