17 de fevereiro de 2015

NÃO MEREÇO SER FALADA

Balasar, 7 de Janeiro de 1939

Viva Jesus!
Meu Paizinho,

Já ontem era para lhe ditar umas palavrinhas, porque sentia necessidade de o fazer. Mas custava-me tanto a falar, estava tão mal disposta! Mas não esperei por melhor dia. Ai, meu Paizinho, quanto esta pobrezinha sofre. Eu queria esconder-me por completo e não queria que o meu nome fosse falado nem enquanto viva, nem depois de morta. Queria que se procedesse como se eu não tivesse vindo ao mundo. Claro está, não sou eu que quero, é a tribulação que me consome.


Não mereço ser falada, sou digna de desprezo. Vivo numa tristeza e noite contínuas. Trevas, trevas, ó que trevas. Vejo isto a grande distância. É escuro, é medonho, o caminho que tenho que seguir. Nem ao menos uma pequena luz para me guiar. Por vezes parece que rebento com o peso que vem sobre mim. Oh! como me faz sofrer!

Faz-me sofrer também, não caibo em mim, parece que me faz rebentar, as ânsias do meu Jesus. Ai, meu Paizinho, como eu queria amar o meu Jesus. Ele é digno de todo o amor.

Eu sofro, e sofro tanto, por me parecer que O não amo e que não tenho que Lhe oferecer. Ai meu Jesus que há-de ser de mim. Como eu me vejo longe de Vós. Meu Paizinho, neste mesmo instante me brada Jesus:
— Coragem, coragem, para o sacrifício. Não negues nada ao teu Jesus.
Momentos antes de principiar esta carta chamava-me Ele:
— Alexandrina, meu querido amor, já que não chamas por Mim, chamo Eu por ti. Dás-me todos os sacrifícios que te peço?

— Tudo, tudo, meu Jesus: o que eu quero é ter que Vos dar!

— É esta vida triste e dolorosa, mas Eu quero que vivas assim. Se soubesses em que fim aplico os teus sofrimentos! O proveito que tiro! Mas confia que te dou força e te darei sempre que precises, o teu Paizinho para te confortar e te guiar.

Eu lembro-me sempre do meu Jesus, mas confesso a minha falta, não chamo por Ele com o fim de Ele me falar. Desgostarei o meu Jesus? Ficará triste com o meu proceder? Por caridade, diga-me alguma coisa. Eu não quero desgostá-Lo. O sofrimento da minha alma, o meu desânimo, é que me obriga a fazer assim.

Hoje não lhe mando dizer mais nada do que o meu Jesus me tem dito.

Tem-me falado todos os dias. E nesses momentos sinto muita paz e não tenho dúvidas nenhumas. Mas sempre debaixo duma enorme tristeza.

O demónio diz-me:

— Juro-te, juro-te que és tu que fazes tudo. Andas a enganar aquele impostor, aquele f. etc... Não o enganas, sabe muito bem a malícia que tens, os crimes que praticas. Mas convém-lhe assim.

Ai, meu Paizinho, como as dúvidas me afligem. Como eu tenho medo de enganar e eu não queria enganar ninguém.

Amanhã é sexta-feira, já sinto medo. Por caridade, não me esqueça junto do meu Jesus.

Lembranças da minha mãe, de Deolinda e da Çãozinha.

E para esta pobrezinha, a bênção e perdão, Alexandrina.


P. S. Peço o favor de me recomendar muito aos Senhores Padres que aqui têm vindo.

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