quinta-feira, junho 23, 2011

A SANTA CRUZ DE BALASAR

Aparecida no dia de “Corpus Christi” de 1832

A igreja paroquial, dedicada a S. Eulália, domina duma pequena elevação e faz parte da antiquíssima Diocese de Braga, dita a «Roma de Portugal». Tal igreja foi inaugurada em 1907, em substituição da precedente, tornada muito pequena para a população de cerca de 1000 habitantes. De 1832 em diante, por vários anos, Balasar foi meta de peregrinação em honra de uma cruz aparecida misteriosamente no terreno, a poucos metros da igreja. Para defesa desta cruz foi construída uma Capela, ainda existente, que traz no frontal a data de 1832, esculpida na pedra. Por vários anos houve também uma Confraria, com o fim de promover a festa da Santa Cruz de Balasar. Pouco mais de um século depois, Balasar torna a ser meta de numerosas peregrinações: a gente é atraída pela fama da Serva de Deus Alexandrina Maria da Costa, que lá viveu muitos anos «crucificada». Não é arbitrário a aproximação aqui feita entre a cruz no terreno e Alexandrina crucificada. De facto, em dois êxtases, respectivamente do Dezembro 1947 e do Janeiro 1955, Alexandrina ouve Jesus acenar àquela cruz no terreno, enviada como “sinal” da vítima, Alexandrina mesma, que nasceria em Balasar para ser crucificada. Eis, daqueles êxtases, os dois excertos que se referem à cruz de Balasar. (Alexandrina acabou de reviver a paixão; o êxtase continua com o colóquio com Jesus):

— És a Minha vítima, a quem confiei a mais alta missão. E como prova disso atende bem ao que te digo para bem o saberes dizer. Quase um século era passado que Eu mandei a esta privilegiada Freguesia a cruz para sinal da tua crucifixão. Não a mandei de rosas, porque as não tinha, eram só espinhos; nem de oiro, porque esse com pedras preciosas serias tu com as tuas virtudes, com o teu heroísmo a adorná-la. A cruz foi de terra, porque a mesma terra a preparou. Estava preparada a cruz; faltava a vítima, mas já nos planos divinos estava escolhida; foste tu. O mal aumentou, a onda dos crimes atingiu o seu auge, tinha que ser a vítima imolada; vieste, foi o mundo a crucificar-te. Agora partes para o Céu e a cruz fica até ao fim do mundo como ficou também a Minha. Foi a maldade humana a preparar-Me a Minha, e a mesma maldade preparou a tua. Oh! como são grandes os desígnios do Senhor! Como são grandes e admiráveis, que encantos eles têm! Poderia Eu na Minha sabedoria infinita assemelhar-te mais a Mim? Desta cruz, desta imolação tirei dois proveitos: o amor à cruz, o amor à minha imagem crucificada e a grande reparação. Não é só a Minha Alexandrina a ser na cruz crucificada, mas Cristo nela e com ela. É necessário maior prova? Estudem os sábios, estudem aqueles, não a quem dei a luz, mas a quem a vou dar. Alguns a quem a dei e a não aceitaram, não voltam a recebê-la. Partes para o Céu, Minha filha, mas por ti continua a obra da salvação. Acode às almas, acode às almas. Fica por um pouco a gozar a Minha paz para dela tomares conforto para a luta. No meio das tuas trevas, recorda estes momentos, lembra-te que sou Eu, confia em Mim.

Desde 1965, na Capela de dita Cruz, em dois cartões impressos podem ler-se os dois excertos transcritos.

Do livro : FILHA DA DOR, MÃE DE AMOR, Alexandrina Maria da Costa, de Eugénia Siognorile.

FONTANÁRIO DE AMOR

Meu Jesus, usai de compaixão

Tomou em Suas divinas mãos o meu coração e fez dele uma grande bola que momentos depois colocou no lugar do coração. E disse-me:

– Minha filha, o teu coração é uma bola de amor. Ama-me, ama-me, ama-me pelo mundo que não me ama. Ama-me, ama-me, ama-me por aquelas almas que deviam amar, e de quem eu esperava amor. Tu és louca de amor por mim, és louca de amor às almas. E sabes, minha pomba bela, por que as amas? Ama-las, porque são minhas e amas aquilo que é meu. Queria-te no céu, minha louquinha, mas necessito tanto de ti aqui.

– Se me quereis lá, Jesus, juntai aos meus desejos os Vossos. Não Vos digo mais nada, porque Vos prometi não Vos pedir o céu.

– Ó coração de oiro, fontanário de amor, aceitei o teu sacrifício. Tem coragem! Eu dou-te o céu em breve mesmo sem mo pedires. Estou à espera da vontade dos homens. Mas sabes por que necessito de ti aqui? Para consolares o meu Divino Coração, para curares as minhas chagas. Vês como estou tão ferido, tão cercado de espinhos? São os pecados, são os crimes do mundo.
Jesus mostrou-me as chagas dos Seus santíssimos pés e mãos e a sacrossanta cabeça e Coração cercado de espinhos, todo Ele eram feridas e sangue.

– A tua dor, minha filha, é o bálsamo das minhas feridas. Repara, sofre contente. Para a tua missão, missão dos pecadores, missão de amor, não precisava na terra; desempenha-la no céu. Tudo vais receber do trono divino, tudo passará para ti das mãos da minha bendita Mãe, para espalhares pela terra, para fazeres chover sobre as almas as riquezas, fruto da tua dor. É por ti que o mundo receberá as bênçãos e graças do Senhor. Eu precisava de usar do azorrague como usei no Templo e já usei com o azorrague da minha justiça divina e ainda usarei mais, castigarei severamente aqueles que se opõem à minha causa divina.

– Meu Jesus, usai de compaixão, não os castigueis; antes movei-lhes o coração.

(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 22 de junho de 1945).

SEI SENTIR, NÃO SEI DIZER...

Não me chega a língua...

Jesus continua na cruz e dentro de mim, de mim que não vivo nem existo. Ai, o doce Jesus de braços e Coração abertos! Queria dizer quanto Ele sofre e ama; sei sentir, não sei dizer, não me chega a língua, não sou capaz. Sofro e morro de dor. O que daria eu para poder fazer compreender a todos uma ofensa feita ao Coração Divino de Jesus, e quanto Ele nos ama apesar de tudo! Assim caminhei para o calvário com esta sede de me dar a conhecer às almas, de me dar a elas, de morrer por elas. Nunca caí tantas vezes como hoje. Que repetidas quedas! Que desfalecimento tão grande! O meu corpo gelava-se sem sangue; o coração não palpitava, os lábios não tinham vida. O amor venceu, foram as cordas que me arrastaram. Os meus lábios moribundos tinham sede ardente, mas o coração mais sequioso estava; quer beber a amargura até à última gota, tudo quer sofrer, porque a todos ama. Tudo quer dar para tudo receber. No alto da cruz sentia no meu corpo os maus tratos do mundo, era como se fosse por todo ele apedrejado; sentia mesmo como se as pedras me ferissem.
No Coração Santíssimo de Jesus, que estava em mim crucificado, vi sair uns raios de fogo, pareciam raios de sangue. Aqueles raios vinham estender-se sobre todos aqueles de quem o meu corpo sentia os maus tratos, as pedradas. Que ternura e compaixão saía daquele Coração tão amante! Dos meus olhos moribundos, já sem vista para o mundo, saíam para ele os olhares mais doces, mais ternos e amantes; eram olhares que penetravam tudo e a todos; viam toda a maldade e ingratidão. Foi assim que veio Jesus. Veio, prendeu-me e demorou-se bastante tempo sem me falar. Tomou em Suas divinas mãos o meu coração e fez dele uma grande bola que momentos depois colocou no lugar do coração.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 22 de Junho de 1945).

MINHA FILHA, MEU PARAISO NA TERRA

Jesus uniu novamente os nossos corações

— “Minha filha — disse-me Ele — tem dó de Mim, esconde-me, esconde-me no teu coração. Ofendido, sou ferido, consola-me, repara-me, dá-me, dá-me em ti abrigo. Oferece-me tudo”.

Por amor de Jesus, para O consolar principiei a oferecer os meus sofrimentos e vários sacrifícios. E eram tão grandes os desejos que tinha de O esconder que queria possuir todos os corações do mundo, infundi-los todos uns nos outros e colocar Jesus no mais interior. Queria vê-lo resguardado nas mais íntimas chamas de amor. Eu, tão desconsolada, esforcei-me tanto para O consolar. Pela manhã veio Jesus adolescente buscar-me à prisão, tomou-me pela mão, foi o meu companheiro, o meu Cireneu em todo o caminho do Calvário. Eu ia desfalecida, coberta de suor e sangue, mas sabia que Jesus me acompanhava ; e quando eu caía Ele deitava-me as suas duas mãos santíssimas para levantar-me. Eu recebia aquele benefício como se não fosse feito a mim. A sua divina presença não me aliviava, via só dor, oprimia-me o seu peso e arrastava-me o amor. Cheguei ao Calvário e o mesmo Jesus adolescente infundiu-se em mim, retratou-Se no meu corpo e foi comigo crucificado. Oh ! como Jesus sofreu logo desde tão tenra idade. No meio da agonia da morte bradava ao Eterno Pai, sem me lembrar que o Seu divino Filho estava comigo crucificado. E foi assim que agonizei e Ele novamente me falou :

— “Minha filha, minha filha, meu paraíso, meu Céu aqui na terra, tabernáculo da minha habitação. Estou mais consolado, cicatrizaste com o teu amor e a tua reparação as feridas dos espinhos que cercam a meu divino Coração. Aceita que é a tua vida, aceita é a vida das almas”.

Jesus uniu novamente os nossos corações, estavam como que colados um ao outro. Eu via da chaga do Coração de Jesus passar para o meu o seu divino Sangue e raios fortíssimos do seu Amor. Só isto foi o bastante para eu me perder e enlouquecer por Ele.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 29 de Junho de 1945 – Sexta-feira).

SOU O SENHOR DO MUNDO, O SENHOR DA PAZ

A casa do meu interior tinha mais luz

Sobre o solo do horto esvoaçava uma pomba. Tinha sempre no seu biquito uma gota que deixava cair sobre a terra e se transformava em orvalho fecundador. Uma gota caía, logo outra aparecia. Este orvalho era celeste. Era o maná que alimentava, que dava a vida, dava luz e sabedoria. Uma vida no ar, outra vida na terra. A minha alma tornava-se sábia, compreendia tudo isto, tudo o que era do Céu. A minha dor, a minha dor humana vivia-a, sentia-a o mais dolorosa que se pode imaginar.

No calvário de hoje, a mesma pomba continuava a voar, a deixar cair as mesmas gotas que se transformavam em orvalho, orvalho celeste e a dar a mesma luz e vida de sabedoria. Eu cá em baixo levava a cruz da minha vida dum martírio indizível. Não vi Jesus, não o senti. Não soube que Ele expirasse. Veio alguém que juntou ao meu coração, à minha vida terrestre a vida divina. Essa mesma vida comunicava-se a mim como quem injecta. Desapareceu a minha vida terrena para viver a outra. O coração e a alma fortaleceram-se mais. A casa do meu interior tinha mais luz. Diz-me Jesus nesta altura:

– Sou o Senhor do mundo, o Senhor da paz, o Senhor da fé e da confiança. Crê, crê, vive da fé. É colóquio de fé.

Creio, creio, Jesus. A gota de sangue Jesus não disse que ma ia dar; senti o choque e o meu coração ficou unido ao outro Coração, a chupar dele como a criancinha no seio de sua mãe. Novas palavras de Jesus.

– Coragem! Vive para as almas. Recebe as carícias de minha Bendita Mãe. Sou Eu o portador delas, já que amanhã Ela não te vem falar.

– Obrigada, Jesus. Dizei à Mãezinha o meu muito obrigada.

Não disse tudo da minha separação. Que saudade das carícias da Mãezinha e saudade da Santíssima Trindade. Toda Ela me abraçava com a Mãezinha, e o Divino Espírito Santo em forma de pomba irradiou-me toda com a Sua luz, que iluminou todo o meu ser; prendia-me a Ele com fitas de várias cores que d’Ele pendiam. O que foi! Quanto custou! Não digo nada. Fico na minha dor e na minha eterna saudade.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 1º de Janeiro de 1954).

quarta-feira, junho 22, 2011

PERDI OS MEUS AMORES

Todo o meu martírio reverta em favor das almas

Perdi o meu maior tesouro. Perdi a Jesus, perdi a Mãezinha. Parece, sinto como se Eles morressem para mim. Não posso pensar na triste, na dolorosíssima separação de sexta-feira. Triste mortório, mas é tal a diferença como da terra ao Céu. Custou mais, infinitamente mais, a separação de Jesus e da Mãezinha, este sentimento como se Eles morressem para mim, do que quando perdemos e nos separamos dos nossos entes queridos.

Ai, meu Deus, ai, meu Deus, só ao Céu é dado compreender esta dor e àqueles que a sentem. Apenas levanto um bocadinho do véu e não consigo mais nada. Foi tal a dor que me pareceu ficar sem coração, não sei se desfeito pela dor, se Jesus e a Mãezinha mo levaram. O que sei é que ficou em mim um vazio tão grande que só o Céu mo podia encher. E depois o sofrimento de cada dia e cada noite resultado de tudo isto. Chorei muitas vezes e muitas lágrimas. A dor levava-me a levantar a voz, mas logo me vencia e chorava em silêncio. Que as minhas lágrimas sejam actos de amor para Vós, Jesus e Mãezinha! Ai de mim! Perdi os meus Amores! Mas logo a confiança obrigava o coração a falar. Creio, creio que não os perdi. Todo o meu martírio reverta em favor das almas. Sou a Vossa vítima. Creio, creio, confio que não estou só. Ai quanto custa dizer: Creio! Sem crer; confio! Sem confiar.

Neste momento, a minha alma sangra de dor por não ser capaz de dizer como foi a minha separação e a ter necessidade de o dizer. Perder a Jesus e a Mãezinha foi perder o Céu. Todo o meu ser se retalha e, no meio dela, vou dizendo sempre: creio, creio, meu Deus, eu creio! Nestes dias tão dolorosos, de tão grande martírio para o corpo e de tanta angústia para a alma, ainda veio mais um tormento para o meu pobre coração. Várias cartas me chegaram às mãos a dizerem-me que o senhor Bispo de Aveiro tinha proibido a vinda aqui dos sacerdotes. Punhais tão dolorosos! A minha alma tinha a visão da consequência desta ordem. Tanta humilhação! Se eu pudesse reparar tanto escândalo que se dá! Tantas más interpretações por causa disto! A minha oferta de vítima não cessa diante do Senhor. Por Vosso amor, tudo! Faça-se a Vossa vontade! O meu túmulo, o meu túmulo, a minha arte de cavador vai continuando. Cobri-me eu mesma com a terra do meu sepulcro. Fui eu que me cobri, fui eu que desapareci, que me enterrei. Estou tão funda, tão funda!... Parece que toda a terra da humanidade me cobre e os suores da alma vão continuando assim como a eternidade e a inutilidade. Não conta, não anda a eternidade. Que pavorosa ela é! Se Jesus não velasse, só ela me tirava a vida. Tanto sofrer para tanta inutilidade! Uma vida de tanta dor para nada ter que oferecer a Jesus. Estou de mãos vazias. As minhas ânsias tão infinitas, tão infinitas não as posso fazer compreender. Quero o mundo, quero o mundo dentro do meu coração. Quero todos os corações, quero todas as almas, quero levá-las com o meu sangue. Quero amar a Jesus pelo mundo inteiro. Queria morrer, a cada momento, até ao fim dos séculos e a cada momento dar o sangue até à última gota, para que nenhuma alma se perdesse, nem nenhum coração deixasse de amar a Jesus. Queria, sim, dar todo o meu sangue e a vida, a cada momento, até ao fim dos séculos para evitar um só pecado.

Ai, ai, não posso consentir que Jesus seja ofendido! Eu não tive horto. Vou dizer o melhor que puder o que senti.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 1º de Janeiro de 1954 – Primeira Sexta-feira)

terça-feira, junho 21, 2011

O AMOR NÃO É AMADO

Ai, se não fosse a minha ignorância!

É tão grande o meu esforço e o meu sacrifício em ditar estas palavrinhas! É indizível o meu sofrimento, se não é triste desgraça de eu não saber sofrer. E sem dúvida quem não sabe sofrer parece-lhe que sofre muito, quando na realidade não sofre nada.

— Meu Jesus, meu Jesus, ensinai-me a sofrer o mais possível em silêncio e a esconder o mais que puder a minha dor. Ai de mim que não oro, ai de mim que não amo o Amor que não é amado. Eu perdi tudo, perdi Jesus e a Mãezinha e parece até ter perdido a fé. Não quero duvidar, a razão obriga-me a crer e a repetir: creio, creio que não perdi uma coisa nem a outra. Estou nos braços de Jesus, dei-me a Ele pela Mãezinha e creio, vivo nesta esperança sem crer, nem ter esperança. Eles hão-de pôr o mérito na minha vida, já que por mim nada tenho, já que fui e sou roubada pela inutilidade, já que passei a viver a minha eternidade sem nada, nada possuir. O meu túmulo, a minha vida lá pelos abismos vai continuando com os suores da alma e do corpo. A minha velhice também. Ai que horror! Sinto-me arrastada por cordas, coroada de espinhos, cuspida, esbofeteada; todo o meu ser é sangue. O coração apunhalado, alanceado, jorra sangue, sofre dor tão grande, tão grande, é infinita. A morte vem para mim a passos gigantescos. Sofrimento pavoroso. Apesar disto, todo o meu ser se consome. São infinitas, tão infinitas as minhas ânsias de amar a Jesus, de dar almas a Jesus, de falar de Jesus e de fazer que o Seu reinado chegue aos confins do mundo. Ai, se não fosse a minha ignorância! Ah! Se eu pudesse falar e soubesse falar, nunca, nunca terminava de dizer, porque tudo isto é infinito, grande como Deus!

Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 19 de Março de 1954)

ELE CHORAVA, E EU CHORAVA

Com o Seu manto limpei-Lhe as lágrimas

O Senhor desapareceu. Uma montanha negra, pavorosa, que chegava ao céu, me separou d’Ele. Apoiada na fé e nas ânsias de amor, fui subindo, fui subindo até que atingi o seu fim, consegui calcá-la e de novo passar o além e de novo encontrar Jesus.
— “Minha filha, vítima da humanidade, esta montanha é montanha de vícios, crimes hediondos. Destrói-a, calca-a, esmaga-a com o teu martírio, à semelhança da minha Bendita Mãe, a calcar, a esmagar a cabeça da serpente. Sofre, sofre, triunfa com Ela. Se não fosse a Sua santíssima mão, neste ano, que Lhe é dado, a sustentar a mão vingadora de meu Pai, já o Céu se tinha aberto em fogo a queimar o mundo, a puni-lo. Faz, faz, minha filha, que Ela seja amada, que todo o culto e louvor Lhe sejam dados. Os meus filhos, os meus filhos a perderem-se; o meu Sangue divino a ser derramado inútil!”
Eu estava inclinada sobre o lado de Jesus, Ele chorava, e eu chorava. Com o Seu manto limpei-Lhe as lágrimas e Ele com o mesmo limpou-me as minhas.
— “Sofre tudo, sofre tudo. O teu Céu está perto. A tua missão, a mais difícil, mais alta e sublime, não é compreendida. Eu triunfo sobre tudo e depressa, muito depressa, no Paraíso tu a vais continuar, dando ao mundo toda a luz e todo o brilho.”
— Sem o fim da recompensa, tudo aceito, tudo sofro. Não choreis, Jesus, sede a minha força.
Jesus meteu-me toda no Seu Divino Coração. Eu para dentro dele comecei a arrastar a humanidade. No mesmo momento, Jesus injectou-me o Seu Sangue.
— “Recebe, minha filha, a gota do meu Divino Sangue, a vida de que tu vives. Recebe amor para dares amor, luz para as tuas trevas, conforto para a tua dor. Acode ao mundo, salva os pecadores.”
Pus-me a fazer os meus pedidos, mas já sem a Sua divina presença. Com actos de fé fui-Lhos fazendo e voltei para a minha cruz.
Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 12 de Março de 1954)

segunda-feira, junho 20, 2011

SENTIMENTOS DA ALMA – 1947

3 de Janeiro de 1947 – (sexta-feira)
Onde estais, meu Jesus? Para onde fugistes de mim? Eu não posso passar sem Vós, meu Jesus. Vede que estou sozinha; vede quanto sofre a minha alma. Ela está cega e muda, não vê nem sabe dizer o que tem. Tremo de pavor e temo vacilar. Não posso dar um passo que não caia num poço sem fundo; este poço dá-me a morte. Mais um ano é passado, meu Jesus, e eu não posso olhar para trás, não vejo outra coisa senão treva atrás e à frente de mim. Como passei o meu tempo? Como o empreguei ao vosso serviço? Que mal, que mal, meu Jesus! Ó vida, ó vida que eu não soube nem sei viver! Que pobre, que miserável, e nada sou! Ah, se eu visse, mesmo muito ao longe, uma luz que me guiasse para vós! Se eu tivesse no meu pobre coração um pouquinho do vosso amor! Nada, nada, meu querido Jesus. São as trevas a luz que eu tenho; é o gelo o meu amor; é a morte que fala, é o silêncio da morte a voz, o brado da minha alma. E o Céu, o Céu, morro de saudades, morro, morro, Jesus. Nada faço para o merecer, nada sofro por vosso amor. A minha oferta, Jesus, a minha entrega a Jesus na noite de Natal foi para mim mais um fogo de vistas e não um amor sincero a Jesus, nem o fim de O consolar. Não sei o que me levou a fazer tal entrega; nem compreendo o que Jesus quer com estes sentimentos da minha alma. Seja o que for, lancei-me nos seus braços divinos como a criancinha sem olhos, sem pernas, sem vontade, sem entendimento. É em espírito, nos seus santíssimos braços que me conservo, com o coração, a cabeça e todo o corpo em sangue, dilacerado pelos espinhos. É nele e com Ele que a alma, momento a momento, vai agonizando. Que me importa não ter luz se a razão e a fé me afirmam que ela existe? Por vosso amor, meu Jesus, deixo passar sobre mim toda a tempestade. Ao terminar os últimos momentos do ano com as luzes acesas rezei o “Te Deum”. Foi o meu acto de acção de graças a Jesus por tudo o que Se dignou enviar-me que me causasse dor ou alegria; por tudo O bendisse pela grande prova do seu amor. Que ignorância a minha! Não soube dizer-Lhe mais nada. Principiei o novo ano tirando à sorte os meus protectores. Calhou-me S. José e Santa Teresinha. Fiquei contente pela sorte que me caiu. Que eles sejam os meus guias por entre as trevas que tanto pavor causam à minha alma. Convidei todo o Céu a interceder por mim e a ensinar-me a amar a Jesus e à Mãezinha. Queria só viver a vida do amor.
Passou no dia 2 o quinto aniversário em que Jesus me disse: «Prepara-te para a luta, que tens que combater aparentemente sozinha». E que luta foi esta, meu Deus! Oh, como esta data me mostrou, por entre as trevas, os caminhos espinhosos que pisei! Ao principiar o ano, principiei a sentir cair sobre mim uma chuva torrencial; esta chuva para desfazer e queimar o meu corpo, sinto-o mesmo como se ele ardesse em chamas, parece que me deixa toda em cinzas de fogo. Estou cansada de tanto sofrer. Mas a alma está como de braços abertos para receber tudo o que Jesus quiser dar-lhe.
Tive um combate tão grande, tão grande com o demónio! O coração, de aflito, bateu tanto e tão fortemente que por último acabou por não viver; fiquei quase morta no pecado. E na morte que me senti não tinha força para sair do pecado nem tinha coração que me levasse ao arrependimento. Mergulhei-me no lodo e nele tinha que morrer. O demónio continuava com as suas feias palavras e indecentes lições. Senti dentro de mim alguém que com todo o rigor lhe fez sinal para se retirar. Retirou-se, ou retiraram-se, porque eram mais que um; fugiram espavoridos. Eu fiquei abismada na minha dor. Não há sofrimento que me lembre tanto de dizer a Jesus que não como os combates do demónio, quando sinto ele a aproximar-se.
Ontem já de noite, quanto mais me esforçava por desviar do Horto o meu pensamento, mais o coração dele se aproximava. O solo do Horto e a justiça de Deus eram para mim as pedras dum moinho. O meu corpo era o grazino de trigo que entre elas era esmagado e moído. O coração, à semelhança duma nuvem que se abre para descarregar a água, abriu-se para descarregar amor e receber toda a dor. Aquela dor fez-me sentir como se o meu corpo suasse água, suasse sangue. Prostrada por terra numa gruta retirada, senti e a minha alma viu um anjo levantar-se. Fiquei mais forte para o que me esperava. Hoje, logo de manhã, estava Jesus no meu coração com a sua santa cabeça cercada de tão agudos espinhos que me feriam também a mim toda quando Jesus Se inclinava sobre mim. E as carnes divinas de Jesus caíam dentro do meu corpo aos pedaços. Ele era açoitado dentro em mim; eu era a coluna, eu fui a cruz. E assim passei o Calvário e cravada nele senti bater brandamente, mesmo a agonizar, o Coração divino de Jesus. E senti que Ele no alto da cruz, no meio da mais dolorosa agonia, nos últimos momentos da sua vida espalhava amor, só amor. o amor estendia-se a todo o mundo como o perfume se espalha. E eu com Ele, por seu amor e pelas almas, agonizava. Fiquei como morta um bom pedaço. Sentia uma vida vinda muito do alto como que a contemplar a morte do meu corpo, mas não era a vida que a ele pertencia. Veio o meu Jesus.
― Minha filha, aos corações que se amam com o amor puro e santo nada há que os separe. Os nossos corações estão unidos: o meu e o teu, no maior amor, no amor divino, no amor de Deus. Não há nada, querida filha, não há nada que nos separe. Mas Eu quero, ao principiar do ano, na primeira sexta-feira, dedicada ao meu divino Coração, uni-los e enleá-los novamente. Quem vem deitar-lhes esses novos enleios é a tua e minha bendita Mãe.
Jesus tomou em suas mãos divinas o seu divino Coração e o meu; uniu-os tanto, tanto! Veio a Mãezinha, enfaixou-os, enleou-os bem com fios finíssimos doirados e conservou-se ao nosso lado. Jesus continuou:
― É um só coração, é um só amor nos nossos corações. É como uma sala com dois compartimentos com a entrada livre. Ambos têm o mesmo poder, o mesmo encanto, o mesmo Céu. Passei para o teu toda a riqueza que o meu contém. Queres saber, filha querida, o significado disto? Entreguei-te o mundo e hoje mesmo renovo a entrega. É por ti, pelo poder e missão que te confiei que este mundo vem a Mim. Passa livre do teu coração para o meu. Tui não podes ver, minha filha, nem sentir com consolação as graças e maravilhas com que te enriqueci; não convém à tua alma e é mais proveitoso para as almas dos pecadores. Enriqueci-te, elevei-te tanto as alturas como é alta a missão que te dei. Enchi-te do eu divino amor e da minha vida divina, para venceres e suportares todos os espinhos que ainda hão-de ferir-te. Não esperes consolações e alegrias: és a minha vítima. Não esperes luz, mas sim conforto e toda a abundância de amor, com a certeza de Eu sempre estar contigo e sempre em ti vencer. Sou o teu Jesus, confia em Mim. Tem coragem, que depressa vai acabar na terra a tua missão. Estou contentíssimo, minha filha, afirmo-te: foi grande a consolação que Me deste, foi grande o número de almas que salvaste com o amor com que suportaste todo o sofrimento que te dei no ano que terminou. Aqui não podes sabê-lo, no Céu o verás.
― Meu Jesus, tudo isso me humilha, mas ainda quero ser por Vós mais humilhada; falai-me dos meus pecados, porque até aqui só falastes do que é vosso. O que tenho eu de bom que não fosse vindo de Vós?
― Eu não quero falar dos teus pecados, porque nas tuas faltas escondo a grandeza e a riqueza que só no Céu será conhecida e verdadeiramente compreendida. E não falta na terra quem te humilhe. Mas coragem, essa humilhação exalta-te e também Eu fui humilhado. Não quero, minha filha, terminar este colóquio sem te prevenir, sem dar ao mundo este aviso: a chuva de fogo que sentes sair sobre ti é por seres a minha vítima; é a chuva que depressa cairá sobre o mundo, se ele não se converter; é o castigo que apenas deixará um pequeno número dos seus habitantes.
― Ó meu Jesus, e não haverá remédio? Que posso eu fazer por ele, para o salvar?
― Sofre, sofre, não é as almas que queres salvar? Os corpos nada vale. Eu te prometo: com os teus sofrimentos e o poder da minha bendita Mãe, as almas serão salvas; os corpos, a sua emenda de vida o fará. Se a vida for pura, se fizerem penitência, são poupados ao castigo. Diz, diz, minha filha, que é Jesus que chama, que é Jesus que pede, que é Jesus que convida: é o Pai que quer salvar os seus filhos. Vem, minha bendita Mãe, cingir os espinhos e a cabeça da vossa vítima.
Vi a Mãezinha com uma coroa de espinhos em suas santíssimas mãos; não sei de onde pegou nela. Em todo o tempo que esteve com Jesus não A vi com ela. Colocou sobre a minha cabeça, senti-me quase morrer.
― Coragem, minha filha, sou Mãe de Jesus, sou tua Mãe também. É com estes espinhos que ainda falta ferir-te que vais acudir às almas. Eu quero estar unida ao Coração do meu Jesus e ao teu, quero comunicar-te o meu amor, a minha ternura e doçura, para melhor poderes atrair as almas a Jesus.
― Vai em paz, disse Jesus. Leva contigo toda a confiança: nada temas: Eu não te falto. Leva a minha riqueza, leva o meu amor, leva as riquezas da tua Mãezinha querida e vai salvar o mundo. Coragem! Avizinha-se o Céu.
― Obrigada, meu Jesus; obrigada, Mãezinha. Vinde comigo, sede a força da minha alma.

Beata Alexandrina Maria da Costa

segunda-feira, abril 25, 2011

SÉTIMO ANIVERSÁRIO DA BEATIFICAÇÃO

Homenagem de Balasar à Beata Alexandrina

O Padre Dário Pedroso durante a homilia
Nesta manhã do dia 25 de Abril de 2011, estive em Balasar para assistir às festividades que comemoravam o sétimo aniversário da beatificação da Alexandrina Maria da Costa, a “doentinha de Balasar” que o Beato João Paulo II elevou às honras dos altares.
A igreja de Balasar estava tão repleta que muitos fieis tiveram que ficar cá fora, ouvindo com muito recolhimento e atenção tudo quanto no templo de dizia, se cantava ou se rezava.
A Eucaristia foi presidida pelo sacerdote Jesuíta, o Padre Dário Pedroso, grande devoto da Beata e actual Director do Apostolado da Oração e da simpática revista para a juventude: Cruzada Eucarística.
A quando da homilia, o Padre Dário traçou, em largas linhas, com muita convicção e de maneira pungente, a vida e a espiritualidade da Beata de Balasar, frisando particularmente os sofrimentos que a Alexandrina livremente aceitou e ofereceu para a conversão dos pecadores.
Lembremo-nos que aquela Eucaristia era oferecida a Deus, de maneira particular, pelos doentes.
Finda a Missa, o mesmo sacerdote procedeu à bênção com Cruzada Eucarística, dos doentes e de todos os assistentes, passando de banco em banco, vagarosamente, num ambiente de grande fervor e ao som dos cânticos que o grupo coral de Balasar cantava sem descontinuar.
Agradeço a Deus por ter podido participar a esta bela cerimónia, que humildemente ofereço a Deus por todos os visitantes dos blogues e sites consagrados à Beata Alexandrina.
Afonso Rocha

quarta-feira, março 30, 2011

TIVE A SANTA MISSA NO DIA 30 DE MARÇO

30 de Março – Aniversário do Nascimento da Beata Alexandrina.

Tive, nestes dias, várias coisas que deviam ser para mim de grande consolação, mas não foram. Tudo recebi indiferente, apenas senti um pouco de conforto na alma. Causa-me horror a minha vida, esta vida que é só morte, escuridão e eternidade. Eu não ando à busca de consolações. Para mim a minha única ansiedade é dá-la a Jesus, é que Ele seja consolado e amado. Eu queria o mundo todo num incêndio de amor. Queria todos os corações a arderem no mesmo amor. Parece que morro por não ver Jesus amado com aquele amor de que Ele é digno.

No dia 27, data do 12º aniversário em que deixei de me alimentar, nunca poderei dizer o que senti em mim. A fome era tão grande, tão grande, era infinita, mas não fome para comer. Estava como que tivesse o peito e o coração abertos, e vinha o mundo como se fossem ondas do mar para junto de mim. Quanto mais tinha, quantas mais ondas vinham, eu mais ia ao encontro delas e maior era a ansiedade de as possuir. A humanidade era o mar e todo esse mar era meu e cabia dentro em meu peito e coração. Sofri amargamente, infinitamente por todo esse mar não entrar em mim. Sofri sozinha, em silêncio. Os meus desabafos foram para Jesus e para a Mãezinha; apesar de sentir a Sua perda, fazia-os com actos de fé. Ao que eu cheguei!... à inutilidade, à eternidade!... Na minha arte de cavadora, os suores regam-me a alma. O corpo num tormento indizível fica banhado nos mesmos suores. À volta do meu sepulcro nascem tantas açucenas, tantos lírios brancos; alguém os rega e cuida deles com canseira e com amor. Não sou eu, não sei quem é. Eu vivo uma vida separada, diferente e indiferente a tudo isto. Tive a Santa Missa no dia 30 de Março. Que confusão e vergonha para mim! Sou acompanhá-la ao Sanctus e elevação do cálix e da hóstia. Que se alegre Jesus na minha tristeza. Não posso dizer mais nada. Vou ver se consigo dizer as palavras de Jesus. Quando hoje se aproximavam as três horas, senti como se alguém me lembrasse o horto e o calvário que em toda a minha vida tinha sido esquecido. Parecia-me bater o pé no chão orgulhosa como se não quisesse um Deus, nem nada superior a mim. Odienta, escarrava o horto e o calvário. Fazia actos de fé para convencer-me que nada era assim. Veio Jesus e disse:

― “O meu Divino Coração é asilo, é refúgio das almas vítimas que se deram inteiramente a mim. Vem, minha filha, vem, esposa querida, toma conforto, recebe vida para tanta vida que a dor consumiu.”

Fui impelida e tão depressa fui ao regaço de Jesus como entrei no Seu Coração divino. Ali repousei mergulhada no Seu amor. Sem saber como, Ele desapareceu-me e em vez do Seu Coração tive por leito o chão duro e por luz as trevas mais densas. Era um bosque, era uma montanha de espinhos, era uma montanha inigualável que me separava de Jesus. Sem poder mover-me, sem poder levantar-me, com o rosto em terra chorava as minhas lágrimas, chamava por Ele e repetia os meus actos de fé. Depois de muito tempo, apareceu Ele junto de mim: tinha rompido a montanha. De todas as Suas chagas, pés, mãos e coração saíam raios como sóis brilhantes. Todos estes raios inclinavam-se para mim. Da superfície das chagas caía sangue com tanta abundância como a água cai no chafariz e transborda. Mexida remexida pelos raios, fiquei de olhos fitos em Jesus.

― Não posso nada, Senhor! Não pude ir ao Vosso encontro!

― “Vim Eu ao teu, minha filha. Estes raios são do meu amor. Este sangue é sangue de dor. Esta montanha é a montanha do vício, montanha do crime. É o mundo, é o mundo que me fere. Sofre, sofre. Se não fossem as tuas lágrimas, a tua dor, o teu amor, o mundo, os pecadores não seriam salvos. Que grande é a tua reparação! Sofre, porque Eu estou contigo. Quanto mais longe Me sentes, mais me possuis. Todo o teu sofrimento são invenções minhas para acudir aos sacerdotes, para salvar os pecadores. Repara-me por eles.

Recebe agora a gota do meu Divino sangue. É a minha vida que te faz viver, é o meu amor, o teu amor às almas, o teu amor à cruz. O que te fiz sofrer no aniversário do teu jejum é nem mais nem menos o meu sofrimento, a minha fome, a minha ansiedade das almas. Fica na tua cruz, fica na tua missão salvadora. Repete os teus actos de fé; em tal sofrimento só com eles te agarras a Mim sem Me veres, sem Me sentires. Coragem! Coragem!”

Fiquei logo nas trevas sem saber de Jesus a fazer-Lhe os meus pedidos.
(Beata Alexandrina: "Sentimentos da alma" 2 de Abril de 1954).

terça-feira, março 29, 2011

A MINHA ALMA TORNAVA-SE SÁBIA...

  • 1º de Janeiro de 1954 – Primeira Sexta-feira
 
Perdi o meu maior tesouro. Perdi a Jesus, perdi a Mãezinha. Parece, sinto como se Eles morressem para mim. Não posso pensar na triste, na dolorosíssima separação de sexta-feira. Triste mortório, mas é tal a diferença como da terra ao Céu. Custou mais, infinitamente mais, a separação de Jesus e da Mãezinha, este sentimento como se Eles morressem para mim, do que quando perdemos e nos separamos dos nossos entes queridos.
Ai, meu Deus, ai, meu Deus, só ao Céu é dado compreender esta dor e àqueles que a sentem. Apenas levanto um bocadinho do véu e não consigo mais nada. Foi tal a dor que me pareceu ficar sem coração, não sei se desfeito pela dor, se Jesus e a Mãezinha mo levaram. O que sei é que ficou em mim um vazio tão grande que só o Céu mo podia encher. E depois o sofrimento de cada dia e cada noite resultado de tudo isto. Chorei muitas vezes e muitas lágrimas. A dor levava-me a levantar a voz, mas logo me vencia e chorava em silêncio. Que as minhas lágrimas sejam actos de amor para Vós, Jesus e Mãezinha! Ai de mim! Perdi os meus Amores! Mas logo a confiança obrigava o coração a falar. Creio, creio que não os perdi. Todo o meu martírio reverta em favor das almas. Sou a Vossa vítima. Creio, creio, confio que não estou só. Ai quanto custa dizer: Creio! Sem crer; confio! Sem confiar.
Neste momento, a minha alma sangra de dor por não ser capaz de dizer como foi a minha separação e a ter necessidade de o dizer. Perder a Jesus e a Mãezinha foi perder o Céu. Todo o meu ser se retalha e, no meio dela, vou dizendo sempre: creio, creio, meu Deus, eu creio! Nestes dias tão dolorosos, de tão grande martírio para o corpo e de tanta angústia para a alma, ainda veio mais um tormento para o meu pobre coração. Várias cartas me chegaram às mãos a dizerem-me que o senhor Bispo de Aveiro tinha proibido a vinda aqui dos sacerdotes. Punhais tão dolorosos! A minha alma tinha a visão da consequência desta ordem. Tanta humilhação! Se eu pudesse reparar tanto escândalo que se dá! Tantas más interpretações por causa disto! A minha oferta de vítima não cessa diante do Senhor. Por Vosso amor, tudo! Faça-se a Vossa vontade! O meu túmulo, o meu túmulo, a minha arte de cavador vai continuando. Cobri-me eu mesma com a terra do meu sepulcro. Fui eu que me cobri, fui eu que desapareci, que me enterrei. Estou tão funda, tão funda!... Parece que toda a terra da humanidade me cobre e os suores da alma vão continuando assim como a eternidade e a inutilidade. Não conta, não anda a eternidade. Que pavorosa ela é! Se Jesus não velasse, só ela me tirava a vida. Tanto sofrer para tanta inutilidade! Uma vida de tanta dor para nada ter que oferecer a Jesus. Estou de mãos vazias. As minhas ânsias tão infinitas, tão infinitas não as posso fazer compreender. Quero o mundo, quero o mundo dentro do meu coração. Quero todos os corações, quero todas as almas, quero levá-las com o meu sangue. Quero amar a Jesus pelo mundo inteiro. Queria morrer, a cada momento, até ao fim dos séculos e a cada momento dar o sangue até à última gota, para que nenhuma alma se perdesse, nem nenhum coração deixasse de amar a Jesus. Queria, sim, dar todo o meu sangue e a vida, a cada momento, até ao fim dos séculos para evitar um só pecado. 
Ai, ai, não posso consentir que Jesus seja ofendido! Eu não tive horto. Vou dizer o melhor que puder o que senti. 
Sobre o solo do horto esvoaçava uma pomba. Tinha sempre no seu biquito uma gota que deixava cair sobre a terra e se transformava em orvalho fecundador. Uma gota caía, logo outra aparecia. Este orvalho era celeste. Era o maná que alimentava, que dava a vida, dava luz e sabedoria. Uma vida no ar, outra vida na terra. A minha alma tornava-se sábia, compreendia tudo isto, tudo o que era do Céu. A minha dor, a minha dor humana vivia-a, sentia-a o mais dolorosa que se pode imaginar. 
No calvário de hoje, a mesma pomba continuava a voar, a deixar cair as mesmas gotas que se transformavam em orvalho, orvalho celeste e a dar a mesma luz e vida de sabedoria. Eu cá em baixo levava a cruz da minha vida dum martírio indizível. Não vi Jesus, não o senti. Não soube que Ele expirasse. Veio alguém que juntou ao meu coração, à minha vida terrestre a vida divina. Essa mesma vida comunicava-se a mim como quem injecta. Desapareceu a minha vida terrena para viver a outra. O coração e a alma fortaleceram-se mais. A casa do meu interior tinha mais luz. Diz-me Jesus nesta altura:
 
– “Sou o Senhor do mundo, o Senhor da paz, o Senhor da fé e da confiança. Crê, crê, vive da fé. É colóquio de fé.”
 
Creio, creio, Jesus. A gota de sangue Jesus não disse que ma ia dar; senti o choque e o meu coração ficou unido ao outro Coração, a chupar dele como a criancinha no seio de sua mãe. Novas palavras de Jesus.
 
– “Coragem! Vive para as almas. Recebe as carícias de minha Bendita Mãe. Sou Eu o portador delas, já que amanhã Ela não te vem falar.”
 
– Obrigada, Jesus. Dizei à Mãezinha o meu muito obrigada.
 
Não disse tudo da minha separação. Que saudade das carícias da Mãezinha e saudade da Santíssima Trindade. Toda Ela me abraçava com a Mãezinha, e o Divino Espírito Santo em forma de pomba irradiou-me toda com a Sua luz, que iluminou todo o meu ser; prendia-me a Ele com fitas de várias cores que d’Ele pendiam. O que foi! Quanto custou! Não digo nada. Fico na minha dor e na minha eterna saudade.
 
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 1954)

sexta-feira, março 25, 2011

SE EU TIVESSE NO MUNDO MAIS DUAS VITIMAS COMO TU!...

26 de Março de 1954 – Sexta-feira

A minha eternidade, a minha eternidade, uma eternidade sem Deus, uma eternidade sem a Mãezinha. Que saudades, que pena desta perda.

– Jesus, não vos perdi! Mãezinha, não Vos perdi! Creio, creio, creio sempre que hei-de ser Vossa no tempo e na eternidade.

Tenho de repetir isto muitas vezes, mas custa-me imenso a repetir. Eu que odeio tanto a mentira parece-me mentir a mim mesma, mentir ao mundo, mentir a Deus constantemente. Sinto que perdi a minha união com Deus. Gostava tanto de viver unida a Ele. Cheguei a ter consolação na minha união constante. Cheguei a ter conforto e hoje não tenho nada. Que Jesus se console e tire para Ele todo o conforto. Os meus males tão agravados continuam a não me deixar ditar. Faltam-me as forças, apesar das minhas trevas, ignorância, inutilidade, morte e eternidade, eu sinto uma necessidade mais que imensa, infinita de abrir à humanidade o meu peito e o coração para que ela leia o que está lá dentro, para que ela veja o amor com que é amada. Não é minha esta leitura, não é meu este amor.

– Ai, meu Deus! Ai, meu Jesus! Como eu queria falar disto, como eu queria falar de Vós!

Parece que estou louca por Jesus e pelas almas. Que tormento para a minha alma não poder rezar por falta de forças e sentir que não vivo unida ao meu Senhor, que tudo perdi para sempre. O meu túmulo existe sempre, os suores do corpo e da alma e aquele ofício que nunca mais poderei deixar, ofício de cavador, no abismo profundo, indizível, vou continuando com a minha velhice, velhice eterna. A morte vai indo, vai-se aproximando. Já sinto bem a lança que me há-de trespassar o coração, e o sangue corre pela montanha do calvário, sem eu querer saber dele, nem do Horto, sem me aproveitar dos seus frutos. Recebo sofrimentos, espinhos de toda a espécie. Só Jesus pode levar a minha cruz. Eu não sou capaz. Chamei por Ele no desprezo do meu calvário, fiz actos de fé, arrastei-me a todo o custo à Sua procura. Ele apareceu-me, veio ao meu encontro. Pegou-me em ambas as mãos, levantou-me do meu desfalecimento; de mãos dadas fiquei de joelhos junto d’Ele ao ouvir a Sua voz divina que assim me falava:

– “Minha filha, e esposa querida, sou teu Pai e Esposo da tua alma. Sou o teu conforto, o teu amparo e a tua vida. Não me perdeste, nem jamais perderás. Repete-me com frequência, mesmo em espírito, muitos actos de fé. Tu não perdeste a união comigo. Tu viés só de mim, em mim, unida a mim. Confia! Confia! Vem descansar nos meus braços.”

– É de joelhos, Jesus, que eu quero estar unida a Vós e chorar as minhas lágrimas. Sou nada, sou pobrezinha, só Vos tenho ofendido. Não sei viver para Vós.

De nada adiantou eu querer ficar de joelhos. Jesus sentou-se. Eu não fui para os seus braços. Fiquei sentada junto d’Ele; tive por travesseira os Seus joelhos, amparada pelas Suas divinas mãos. De pois de um pouco de silêncio, Ele continuou:

– “A tua missão sublime, a mais difícil, a mais árdua, mas a maior de todas as missões da terra. Tem-la desempenhado bem conforme a minha divina vontade. Se Eu tivesse no mundo mais duas vítimas como tu!... Mas não tenho, não tenho!... Sofre, sofre!...”

Falharam-me os joelhos de Jesus, falhou-me a Sua presença. Fiquei caída nas trevas mais pavorosas. Não fui capaz de me levantar mais. Fui-me arrastando, repetindo os meus actos de fé. Depois de muito lutar e caminhar de rasto, encontrei-O novamente:

– “Estou aqui, minha filha. Dor e sangue, dor e sangue! Só assim as almas são salvas. Enriqueci-te, dei-Me todo a ti com todas as minhas graças e tesouros, com toda a minha vida para por ti Me dar a elas. Deixa-as aproveitar. Dá-lhes tudo quanto elas quiserem receber. Pus-te no mundo para as almas. Tu és a sua luz e farol. Todos os meus prodígios em ti são meios de salvação. Pobres daqueles que não querem ver! O teu Céu está próximo! A minha causa há-de triunfar com todo o brilho e pompa. Uno ao teu o meu coração. Vou dar-te a gota do meu Sangue. Vou dar-te nova vida para tudo o que a dor consome. Confia em Mim! Acode ao mundo! Canso-Me de sustentar a justiça do meu Pai.”

– Vós não Vos cansais, Jesus. Perdoai a todos. Lembro-Vos as minhas intenções

Quando assim falava, já Jesus tinha fugido.

– Creio, creio, apesar de sentir que nada passou por mim.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 1954)

terça-feira, março 22, 2011

APARIÇÃO DE S. JOSÉ

  • Meteu-me uma açucena na mão...

Jesus veio como de costume comunicar-me a Sua vida. Vinha acompanhado de S. José. A Sua mão esquerda pegava na mão direita dele. S. José na sua mão esquerda trazia uma grande açucena branca. Ao chegar junto de mim, beijou-me dos dois lados do rosto e disse-me:

– Aceita um ósculo meu, outro da minha Esposa, da tua Mãezinha a quem tanto amas. Faz que ela seja amada, propaga a minha devoção, com isso muito me consolas.

Meteu na minha mão direita o pé da açucena, fez que ela tombasse sobre a mão e braço esquerdo e disse-me:

– Aceita, ofereço-ta, é tua.

Osculou-me novamente, com toda a seriedade e respeito e desapareceu; ficou só Jesus e teve então Ele a palavra e disse-me:

– “Essa oferta, essa açucena, minha filha, é o símbolo da tua vida de pureza. Confia, não duvides, é Jesus que to afirma. O que fizeres à minha Bendita Mãe e a meu Pai adoptivo, a Mim o fazes. Todo o culto e amor a Eles dedicado, aceito-o como para Mim.”

Fiquei sozinha; Jesus também desapareceu. Não podia lutar; não tinha forças, não via, nem actos de fé sabia fazer. Neste abandono demorei-me, mergulhada nas trevas por algum tempo.

Apareceram os dois companheiros novamente. S. José trazia nos braços o manto e a coroa da Mãezinha. Foi ele a colocar-mo aos ombros e a coroa na cabeça.

– Aceita nova oferta da minha Esposa: o Seu manto e coroa de Rainha. O teu reinado é o mundo, são as almas, são os pecadores.

Sem mais nada, escondeu-se. Jesus continuou:

– “O demónio tem sobre ti toda a sua raiva infernal. É grande o estrago que lhe dás. Fazes mais mal à sua obra satânica pelo teu sofrimento do que todo o bem que na humanidade se faz. Está raivoso, raivoso, serve-se de tudo, serve-se dos homens para a minha causa destruir. Nunca, nunca seus infernais intentos se satisfazem. Sofre tudo, minha filha, sofre toda a tua indizível dor e tormento. Repara-Me, repara-Me por todos os sacrilégios e confissões nulas.”

– Jesus, eu amo-Vos, sou a Vossa vítima.

– “Recebe a gota do meu Divino Sangue. Vive, vive a minha vida, acode ao mundo, acode aos pecadores, loucos a correrem para o inferno.”

Sem mais uma palavra, fugiu-me o meu Jesus. Deixou-me tão triste, tão triste, em tanta dor, em tantas trevas que mal pude fazer os meus pedidos. Para fazer actos de fé tinha de mentir-me a mim mesma. Que Ele seja bendito por tudo.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma de 19 de Março de 1954)

domingo, março 06, 2011

MUITO CHEGADINA A JESUS

Como a mãe que se deita ao pé do filhinho para o adormecer

Grande sofrimento, triste e doloroso. Ai, meu Jesus, não sei exprimir quanto sofro, não compreendo tal dor. Choro, choro sempre a perda do meu corpo, a morte da minha alma. A cada passo sinto em mim como que uma bomba que vai explodir tudo. Tremo apavorada. Prenderam-me os voos; estou como a pombinha na escuridão, sem ver caminho, batendo as asas no ar sem poder descer, sem poder subir, de asas presas, temerosa de cair desastradamente.

Ó meu Deus, que será de mim? Vede bem o meu sofrimento, tende compaixão, compadecei-Vos de quem só confia em Vós.

Hoje de manhã cedo era tal a dor que sentia em mim, era tal a repugnância e a vergonha que me causava o ver que todo o povo se preparava e esperava novos acontecimentos. Parecia-me ver grupos aqui e acolá fazendo comentários. Meu Deus, espera-me a sexta-feira! Que medo! Tudo isto que eu sinto e vejo por Vós passou, meu Jesus. São sofrimentos Vossos, que tanto sofrestes por meu amor.

Os meus olhos parecem penetrar no íntimo de toda a multidão que ocupa as ruas. A minha alma sente tudo. Ao lado de uma montanha, perto de entrar numa cidade, a figueira amaldiçoada por Jesus. Mais abaixo alguém traz à cabeça uma bilha de água. Há encontros, falam, preparam-se para novos acontecimentos. Vi tudo, senti tudo. Oh, quanto sofria em silêncio! A figueira de que acima falei, tive o conhecimento que a vi verde, florescida e hoje já seca, como lenha velha para o lume. Eu não pensava em nada disto, antes pelo contrário; quando principiava a sentir estes sentimentos de alma, esforçava-me por me distrair e fazer de conta que nada sentia. O meu esforço era inútil, de cada vez se avivavam mais estes sentimentos de alma. Este meu esforço de nada querer sentir não é para fugir à dor nem à vontade do meu Jesus, mas sim o receio de ser confusão minha ou ilusão. Estou convencida que não é. Nosso Senhor, ao ver tal receio e medo de engano não podia deixar-me enganar. Ninguém como Ele sabe que não quero enganar ninguém.

As manhas do maldito continuam cada vez mais, parece que a sua malícia refina. Diz-me o que há de pior. Ai, meu Deus, que coisas tão feias! Blasfema contra Nosso Senhor, acusa-O como réu de culpa e faz que eu diga tudo, ou parece-me que digo e depois afirma-me que sou eu e deixa-me quase nessa persuasão. Só com Nosso Senhor a alma e o pobre corpo pode resistir a tanto. O coração de aflito faz ruído enorme, com o receio de pecar e dizer tantas coisas contra o meu Jesus. Na última luta fiquei quase sem vida. Murmurava:

Ó meu Jesus, ó minha querida Mãezinha! Meu Deus, que triste vida a minha! Que será de mim?

Não podia mover-me e necessitava de alívio. Veio Jesus com as suas santíssimas mãos, colocou-me na posição que eu desejava, cobriu-me de carícias e como a mãe que se deita ao pé do filhinho para o adormecer, disse-me :

— Descansa comigo. Não é triste a tua vida, filhinha, é vida de reparação e sacrifício. Alegra-te comigo, com a consolação que Me dás. Não pecas, não, minha amada.

Senti logo paz na minha alma. Muito chegadinha a Jesus, depressa pude adormecer, coberta com as suas carícias, abrasada no seu amor. (Beata Alexandrina: Sentimentos da Alma, 7 de Dezembro de 1944).