segunda-feira, maio 03, 2021

MARIA ANA COSTA

 A mãe da beata Alexandrina

Maria Ana, filha mais velha de José António da Costa e de Ana Joaquina Leitão, era uma bela moça alegre e trabalhadeira. Nasceu a 22 de Janeiro de 1877, em Gresufes, um dos muitos lugares de que se compõe a aldeia de Balasar. Teve 4 irmãos e 5 irmãs.

Para memória, aqui fica o seu “assento” de baptismo:

«Aos 24 dias do mês de Janeiro do ano de 1877, nesta Igreja Paroquial de Santa Eulália de Balasar, concelho da Póvoa de Varzim, Diocese de Braga, baptizei solenemente um indivíduo do sexo feminino, a quem dei o nome de Maria e que nasceu nesta freguesia às cinco horas da manhã do dia 22 do mesmo mês e ano, filha legítima de José António da Costa, lavrador, natural desta mesma freguesia, e de Ana Joaquina Leitão, lavradora, natural da freguesia de Minhotães, concelho de Barcelos, desta mesma diocese, e na mesma recebidos, e paroquianos e moradores no lugar de Gresufes desta freguesia de Balasar, neta paterna de Manuel António da Costa e de Joaquina Maria de Freitas e materna de Francisco Manuel de Araújo e de Maria Joaquina Leitão. Foi padrinho Manuel António da Costa e madrinha Maria Joaquina Leitão, lavradores, os quais todos sei serem os próprios.

E para constar lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, comigo o assinou o padrinho, não assinando a madrinha por não saber escrever.

Era ut supra.

O Padrinho – Manuel António da Costa

O Reitor – António Martins de Faria»

Na sua juventude apaixonou-se por António Gonçalves Xavier, de Vila Pouca, lugar da freguesia, vizinho de Gresufes.

«Maria Ana da Costa conhecia com certeza António Xavier desde a infância, pois Vila Pouca e Gresufes são pegados e as casas dos pais dos dois não distavam mais de 300 metros. O que fizeram nas termas foi sem dúvida estreitar uma relação que antes era só de vizinhança.»[1]

Desta paixão — que era, sem qualquer dúvida, sincera por parte de Maria Ana — nasceu uma primeira filha, a Deolinda, em 21 de Outubro de 1901. Maria Ana tinha então 24 anos.

Naqueles tempos, por razões diversas que não cabe aqui explicar, eram numerosas as mães solteiras, por isso mesmo não deu grande alarido na freguesia que isso tivesse acontecido com aquela jovem camponesa.

Passou-se algum tempo sem que o prometido casamento se realizasse. António Xavier tinha outras ideias: ir para o Brasil ganhar o dinheiro necessário para sustentar a futura esposa e a filha. E assim o fez.

No seu depoimento, a quando do processo diocesano para a beatificação e canonização da Alexandrina, a Deolinda explicou:

«Da minha mãe tive as informações sobre o meu pai que agora exponho.

Era um aventureiro: foi várias vezes ao Brasil. A minha mãe tinha ido para as Termas do Gerês, para cura, e foi lá que o conheceu.»

E mais adiante, diz ainda:

«Voltou do Brasil quando eu já tinha os meus dois anos e começou a andar de novo atrás da minha mãe. Mas como a família (dela) se opunha, ela disse-lhe claramente que naquelas condições não podia casar… Então ele apresentou-se à minha avó e ao meu tio Joaquim e combinou o matrimónio: estavam já a procurar casa quando ele teve de ir para a Póvoa para se curar duma doença contraída no Brasil…

Um dia que a minha mãe tinha ido a Vila do Conde vender hortaliça, no regresso passou pela Póvoa onde tinha marcado um encontro com ele para o informar de que estava novamente grávida (nascerá a Alexandrina). Mas da casa donde tinha saído o meu pai saiu também uma mulher que lhe disse: – Xavier, as minhas tesouras não estarão no teu quarto?

A minha mãe teve assim a confirmação das vozes que já corriam. Xavier protestou que eram tagarelices. Mas na verdade em pouco tempo casou com aquela mulher da Póvoa.

A minha mãe chorou lágrimas amargas e desde então, por toda a vida, vestiu-se quase sempre como uma viúva e dedicou-se exclusivamente à educação das duas filhas…»

Aquela que mais tarde será muitas vezes a “secretária” da Alexandrina, deixou-nos de Maria Ana este testemunho:

«A mãe da Alexandrina reparou de modo edificante os erros da sua juventude. Ou melhor, com a caridade para com todas as pessoas, que a conheciam como mulher de grande coração; depois com uma vida de intensa piedade. Levantava-se cedíssimo. Todos os dias pelas 5 da manhã entrava na igreja, de que tinha a chave. Quando começava a Santa Missa, ela já há duas horas estava de joelhos frente ao Santíssimo. Assim fez enquanto as forças lho consentiram.»

Depois daqueles desaires e respectivas consequências, Maria Ana, sinceramente arrependida da sua conduta, mudou completamente, tornando-se mesmo um exemplo para todos, porque a partir daí manteve “uma conduta irrepreensível”.

Deolinda, falando de sua mãe, presta-lhe esta simples e sincera homenagem:

«A minha mãe ensinou-nos a trabalhar desde pequenas. A sua caridade era conhecida de todos, tanto que o pároco de então disse: – Quando esta senhora morrer, senti-lo-á toda a paróquia. – De facto não havia doente que ela não socorresse. Vinham chamá-la até de noite e ela acorria porque sentia pena. Assistia os moribundos; recitava as orações da agonia; vestia os mortos. Mais, sendo uma boa cozinheira, era chamada per os jantares nos baptizados e nas bodas, como também na residência por ocasião de pregações.»

Na sua autobiografia a Alexandrina fala-nos da sua primeira “teimosia”, que teve resultados pouco lisonjeiros:

«Como era desinquieta e, enquanto minha mãe descansava um pouco, tendo-me deitado junto dela, eu não quis dormir e, levantando-me, subi à parte de cima da cama para chegar a uma malga que continha gordura de aplicar no cabelo – conforme era uso da terra – e, por ter visto alguém fazê-lo, principiei também a aplicá-la nos meus cabelos. Minha mãe deu por isso, falou-me e eu assustei-me. Com o susto, deitei a malga ao chão, caí em cima dela e feri-me muito no rosto. Foi preciso recorrer imediatamente ao médico que, vendo o meu estado, recusou-se a tratar-me, julgando-se incapaz. Minha mãe levou-me a Viatodos, a um farmacêutico de grande fama, que me tratou, embora com muito custo, porque foi preciso coser a cara por três vezes e levou bastante tempo a cicatrizar a ferida.»

No mesmo documento, e com muita ternura a Alexandrina conta a oferta que a mãe lhe fizera: os primeiros soquinhos:

«Uma vez minha mãe deu-me uns soquinhos. Eu fiquei tão contente com eles, porque eram lindos!... Para ver a figura que fazia com eles, preparei-me como se fosse à Missa, calcei-os e depois ajoelhei-me, pondo-os à minha frente, fingindo que estava na igreja. Como era vaidosa!»

Com o mesmo carinho, Alexandrina lembra-se do que lhe dizia a mãe, quando na sua meninice se mostrava irrequieta e tumultuosa:

«Minha mãe dizia: “Os fidalgos têm um bobo para os fazer rir e eu não sou fidalga, mas também tenho quem me esteja a fazer festa”».

Mas Maria Ana tinha punho de ferro e era exigente para com as filhas: deu-lhes uma boa educação religiosa e inculcou-lhes duas grandes virtudes que tanto a uma como a outra, ficaram bem registadas nos seus corações juvenis: a caridade e o amor ao trabalho.

No que toca aos carismas de sua filha, ela sempre se mostrou recatada, quase alheia a eles, ou porque não os compreendesse bem, não os avaliando ao seu justo valor, ou então para deixar que livremente Deus actuasse na Alexandrina, segundo a Sua santíssima Vontade.

Maria Ana faleceu pouco mais de 5 anos após a Alexandrina, em 24 de Janeiro de 1961, e foi sepultada na campa familiar, no Cemitério de Balasar, junto de seu irmão Joaquim Costa, que a precedeu na Mansão celeste.

Afonso Rocha



[1] Prof. José Ferreira “A Balasar da Alexandrina”.

TU NÃO PECASTE, TEM CORAGEM!

3 de Maio de 1945


No primeiro dia de Maio quantas coisas pedi à Mãezinha para me alcançar no Seu mês bendito. Consagrei-me a Ela para Ela me consagrar a Jesus. Entre muitas outras coisas pedi-Lhe força para o meu sofrimento. Meu Deus, e quanto necessito eu do auxílio do céu, da força da querida Mãezinha, par aguentar com o peso de tão grande cruz. Logo no segundo dia recebi um miminho do céu, um mimo que feriu bem o meu coração, um espinho que o dilacerou todo. Agradeci-o logo à Mãezinha, aceitei-o e ofereci-Lho como prova do meu amor, e para Ela o oferecer por mim a Jesus. Tudo é dor em mim! Que horror, que horror! O meu coração, a minha alma estão num luto fechado; não sei o que é isto. Que arrancos sinto em mim! Sinto como se pela boca me tirassem tudo o que dentro em meu corpo contém. Ai, meu Jesus, e que desejos tão grandes, que ânsias quase desesperadoras de ouvir dizer que terminou a guerra. Eu nada sei dizer, só Jesus conhece quanto sofro. A Ele vou renovando a oferta de vítima, para que venha a paz. Oh! que compaixão eu tenho pelos governadores que dizem terem partido para a eternidade. Oro por eles, e parece-me que a eles prenderam o meu coração. Todo o meu corpo continua em chamas, e sinto como se o meu pequenino quarto ardesse comigo. E quero acudir ao mundo, apanhá-lo, prendê-lo, colocá-lo todo nestas labaredas, neste fogo que não dá luz. Que medo, ó que medo viver em tantas trevas! O quarto em que vivo é como uma masmorra onde nunca penetrou o sol nem a luz do dia. São trevas na alma, trevas no corpo, trevas no céu e na terra. Parece que nunca mais posso ver Jesus, sinto que não é meu, que O perdi para sempre. Mas mesmo assim quero amá-Lo, sinto ânsias loucas de O amar e, como não me parecem minhas nem meu o amor, digo-Lhe:

— Jesus, este anseio não é meu, é Vosso, e Vosso é o amor; sois Vós que amais com o que é Vosso e sois Vós que sofreis e levais a minha cruz. Vede a pobrezinha que nada faz e nada tem: é só noite, só miséria. Sou Vossa escrava, Jesus, só Vossa e da Mãezinha.

O demónio, ainda esta noite, com tanta malícia e fúria consumiu desesperadamente o meu pobre corpo. Estava banhada em suor e não podia lutar. O coração batia com grande estrondo e numa marcha apressadíssima. Queria sossegar uns momentos, para poder respirar, e não podia.

— Já estás satisfeita? Não queres pecar mais? Hás-de pecar, hás-de pecar. Peca contigo todo o inferno e muitos da terra. E nomeava-os. Como tu estás! Como tu estás! E enchia-me de insultos. Estava cheia de lutar, mas não de ofender a Deus. Sentia que queria mais, muito mais. Não era bastante o gozo que me parecia sentir. Veio uma dor a destruí-lo todo. Fiquei louca, a querer gozar, e a dor insuportável a não me deixar, destruía tudo o que era gozo. Perdida no meio do mar, gritei por Jesus:

— Não quero pecar, não quero pecar.

Fora do meu lugar, não podia tomar a minha posição, nem aguentar por mais tempo a que tinha. Falou Jesus:

— Anjo, bendito anjo criado por mim, leva ao seu lugar a minha querida esposa, leva-a com todo o carinho e amor; é minha, só minha.

Fiquei logo na minha posição e senti-me tão cheia de carinho e amimalhada, e Jesus continuou:

— Oferece-me, filhinha amada, esta reparação, para que os impuros se cansem de me ofenderem, e não se canse o meu divino Coração de lhes perdoar. Dá-me, minha virgem pura, toda esta reparação. Tu não pecaste. É grande, é forte o teu amor. Tem coragem! Cumprem-se as minhas divinas promessas, e chega o céu.

As palavras e ternuras de Jesus suavizaram a minha dor e cansaço. Pude por um pouco adormecer. Ai, a quinta-feira! Estou a braços com ela. O meu coração anda de rasto, sente já toda a dor e ingratidão. Os meus ouvidos ouvem dum e do outro lado insultos e palavras de desprezo. Vejo todos os sofrimentos e anseio por eles; vejo a morte e desejo passar por ela; é morte que vai dar a vida. No Horto, senti o cálice da amargura. Com os olhos fitos no céu, no meio da tremenda agonia, senti como se me rasgassem a fio de espada ou ponta de navalha todas as veias do corpo. O sangue corria, ensopou-me toda e foi juntar-se às lágrimas da maior amargura. Os ouvidos tudo ouvem ao longe, mas sinto em mim coisa mais sublime que vê e adivinha tudo. Não sou eu, é Jesus que tudo conhece e sabe. É chegada a prisão. (Sentimentos da alma: 3 de Maio de 1945)

domingo, maio 02, 2021

A FERIDA DO AMOR

 Eu tenho sede dos corações

Os estados percorridos pela alma da Alexandrina foram numerosos, porque também numerosas foram as suas ofertas ao Senhor como vítima: vítima da Eucaristia, vítima dos pecadores, vítima dos sacerdotes, vítima do mundo e da humanidade, vítima pela consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria.


A partir do dia 31 de Outubro e, durante quase dois anos, viveu as penas do Purgatório, estado místico dolorosíssimo que a obrigou a viver no seu corpo e na sua alma a purificação que o Senhor exige das almas santas que ainda não tenham atingido o grau de santidade necessário para poderem entrar na Casa do Pai e beneficiar da visão beatífica.

Entre esses momentos de trevas e de aridez espiritual, Jesus oferecia-lhe momentos de autêntica felicidade, felicidade celeste, como ela o explica:

“Passou-se algum tempo, desapareceu toda a treva, o sol dissipou para longe as nuvens, iluminou-se brilhante e claramente a minha alma, um fogo abrasador me incendiou o coração, fazendo passar o calor das labaredas a todo o corpo; gozava duma grande paz, mas sem ouvir ainda Jesus”.

Habituada aos grandes sofrimentos, estes estados de felicidade espiritual, quase a surpreendiam e Jesus, sempre atento à mínima solicitação da sua esposa de Balasar, vinha explicar-lhe o porquê desses momentos de plena felicidade:

“Minha filha, até aqui bateram sobre ti as ondas do mundo, as ondas horrorosas do pecado, de grandes maldades e crimes e cobriam-te as suas trevas, porque és vítima. Agora veio a ti a paz e o amor do Meu divino Coração e toda a luz do divino Espírito Santo”.

Mas estes momentos eram passageiros, e de novo era necessário que ela voltasse à treva, à aridez espiritual, aos combates com Satanás…

“Coragem! Eu quero ser amado; faz que as almas me amem. Eu tenho sede dos corações; repara-Me, conduze-os a Mim. Coragem, minha filha, nada temas. A dor e o amor são as moedas mais caras, são os selos com os quais selo as almas roubadas a Satanás”.

Jesus não cessa de pedir, mas também não cessa de oferecer. A sua conversa com a Alexandrina, parece uma conversa de amantes, como aquelas que podemos ler no Cântico dos Cânticos. Jesus ama-a e oferece-lhe o Seu Coração, faz-lhe promessas, mas exige dela amor, amor sem retorno, amor fiel, tanto nos bons como nos maus momentos. Jesus encoraja-a e previne-a. Ouçamos Jesus:

“Coragem, filha querida! Tu és o prado mimoso, onde se produzem as virtudes e desabrocham as flores plantadas por Mim. Levanta-te, anima-te, não temas a cruz. No alto da montanha, no cimo dela, Eu farei cair pelo teu coração todas as bênçãos e graças de salvação para as almas. A tua vida será para elas o perfume das flores, o gorjeio das avezinhas duma manhã primaveril. Custa-te subir? Custa-te chegar ao cimo do teu Calvário? Não estranhes. O remate das obras, o seu enfeite são sempre o mais difícil”.

E para que Alexandrina não possa ter qualquer dúvida, Jesus afirma:

“Mas, ó minha filha, a obra não cai, confia em Mim. Principiei com alicerces tão firmes, que nada há que a faça estremecer, a pontos de vir a terra. É a obra das obras, é a obra mais sublime, é a missão das almas”.

A resposta da Alexandrina, é como sempre: suplicante e enternecida; humilde, mas firme. Ouçamo-la:

“Meu Jesus, ó amor meu, quero e não posso, desfaleço e caio; amparai-me Vós. Não me importo de caminhar de rastos e sempre de rastos ser humilhada, o que eu quero é estar na verdade e em tudo fazer a Vossa divina vontade. Dai-me graça, dai-me graça, meu Jesus, e fazei-me confiar cegamente. Quero sofrer tudo pelo Vosso divino amor, mas custa-me, a mais não poder, ser causa de grande sofrimento, de grande dor para os outros”.

Esta abnegação constante da Alexandrina, este amor sincero e humilde que ela sempre demonstra, enternece o Coração amante de Jesus, que com palavras cheias de amor, com ela se congratula e lhe incute coragem, sempre coragem, mais coragem, para tudo suportar por amor.

“Confia em Mim, alegra-te, Minha louquinha; estás na verdade, és minha, vives de Mim. Que felizes e ditosos são aqueles que Eu escolhi e associei ao teu martírio, ao teu grande, mas vitorioso Calvário. Coragem, coragem!”

O sofrimento da Alexandrina, livremente aceite, não é um sofrimento estéril, é um sofrimento que alimenta outras almas, que contribui à vida espiritual de outras almas, muitas vezes em dificuldades sem nome, por isso Jesus lhe afirma:

“A tua dor dá vidas, as tuas trevas são luz, que alumia as almas e vão brilhar aos confins do mundo.”

Como é sabido de todos, a Alexandrina viveu treze anos sem comer nem beber, o que obrigatoriamente a enfraquecia. Mas Jesus velava sobre ela e, para que ela permaneça com vida todo o tempo que Jesus quisesse “precisar” dela, Ele alimentava-a com o seu próprio Sangue. Este alimento divino destina-se não só ao sustento da sua alma, mas também do seu corpo. Algumas vezes este Sangue divino chega ao coração da Alexandrina com uma tal força que ela morreria, se o Senhor não estivesse atento ao derrame salutar. A Alexandrina várias vezes o explica nos seus escritos. O “Sangue do Cordeiro” é alimento que dá vida da alma, é alimento que mantém a vida do corpo.

Jesus explica:

“Recebe agora a gota do Meu divino Sangue. Hoje não cairá duma só vez; vais recebê-la, saboreá-la, como a abelhinha que sofregamente saboreia nas florzinhas o néctar”.

Vejamos agora, contado pela própria Alexandrina o que aconteceu:

“Jesus tomou em Suas mãos o Seu divino Coração; pelo centro saíam labaredas que formavam uma só labareda; uniu ao meu coração e fez que nele se introduzisse o pequenino tubo; senti-me como que adormecer docemente. Assim demoramos, por um pouco. Depois, Jesus retirou o Seu Coração divino, bafejou-me o peito e passou-me sobre ele a Sua bendita mão como quem acaricia.”

Solicitude divina do Senhor! Senhor, quão grande é o teu amor para com aqueles que escolheste para participarem, de maneira mais íntima, de maneira mais realista, ao plano de Salvação previsto desde a eternidade!

A missão da Alexandrina deve continuar, não só naquele momento preciso, mas pelos tempos fora, não só “até aos confins do mundo”, mais até ao fim do mundo. Uma vez mais Jesus explica à sua vítima de Balasar esta missão sublime:

“Vai, Minha filha, a ferida que te fez o amor já está cicatrizada. Vai, leva para as almas estas chamas, abrasa os corações que têm fome de Mim; por ti Me dou a eles. Leva estas chamas, arrasta com elas a Mim as almas presas pelos laços infernais. Vai para a tua cruz, para a tua dor, não deixes correr mais pelos rastilhos o fogo, que faz rebentar a bomba divina, a justiça do Meu Pai. Coragem, coragem; nada temas, sorri a tudo!”

Alexandrina não discute, não faz mais perguntas: ela compreendeu perfeitamente a vontade divina. Ela sabe-se frágil, por isso ela diz apenas:

“Obrigada, meu Jesus. Sede comigo; tudo espero do Vosso divino coração.”

Que força, que carinho, que coragem!

Terminando a página do seu Diário espiritual, Alexandrina explica o resultado desta visita de Jesus e o que se passou nela, pouco depois. É quase inacreditável:

“Passaram-se umas horas, o fogo de Jesus ainda me queima o coração; custa-me, por vezes, a aguentá-lo sem sobre ele deitar panos frescos. Sinto-me mais forte; estou no fogo, mas em trevas, e o corpo num mar de dores. Ó minha cruz, ó meu Amor, ó meu Jesus!”

Palavras enternecedoras que fazem bater fortemente os nossos corações, que trazem aos nossos olhos lágrimas de regozijo que fazem bem, que procuram paz e avivam o nosso amor por Jesus e pela nossa querida Alexandrina, porque o que nela se passa, “é a obra das obras, é a obra mais sublime, é a missão das almas”.

Afonso Rocha

NOTA: Os textos em itálico são extraídos dos “Sentimentos da alma”, de 7 de Novembro de 1947 - Sexta-feira.

A NOITE DO MAIOR AMOR

Eu era a mesa, eu era o pão e o vinho

A Beata Alexandrina "assiste" à Santa Ceia

Sinto em mim um fogo ardente, queima-me em todos os sentidos; todo o meu corpo está numa fornalha viva. Tenho sede, tenho sede de Jesus. Tenho fome, muita fome das almas. Queria engolir o mundo. Sinto-me cada vez mais mãe dele. Que loucura a minha por aquilo que é engano, lodo e imundície. Sou mãe, mas oh! que louca mãe! Sou mãe que chora a perda de seus filhos, sou mãe que os não pode ver em tanta desordem, em tanta malícia e crimes.

— Ai, meu Jesus, o que hei-de eu fazer, o que posso eu fazer?

Sou mãe que chora tanto, mas lágrimas de sangue que banham toda a humanidade. Não posso resistir a tanta dor, não posso sossegar, quero salvar o mundo, quero sofrer tudo, quero dar por ele a vida. Numa hora em que as ânsias eram insuportáveis, levantei com custo os meus olhos para Jesus e disse-lhe:

— Jesus, Jesus, ai o mundo, ai o mundo, quero salvá-lo. Deixai-me entrar no Vosso Divino Coração com todos os que me são queridos; deixai-me entrar com todos os que me pertencem e às minhas orações se recomendam; deixai-me entrar com todos os sacerdotes e pecadores endurecidos; deixai-me entrar com todos aqueles que me têm ofendido; deixai-me entrar com a humanidade inteira; que ninguém fique fora do Vosso Coração Divino para dele passarmos à nossa Pátria, ao céu que para todos criastes. Quero amar-Vos e louvar-Vos com todos eternamente.

Continuam os meus medos para com as pessoas a quem mais estimo e para com Jesus e a Mãezinha querida. Que horror! Não só tenho medo de Jesus, medo que muitas vezes não me deixa levantar para Ele os meus olhos, mas mais ainda: fujo d’Ele, não quero ouvi-lo, e até me parece que não queria que Ele existisse. Os crimes, o lodo de que estou coberta não podem ser vistos pelos Seus olhos divinos. Estou sempre a ser açoutada com as mesmas varas de espinhos; descarregam-nos sobre mim com toda a crueldade. Nada existe em mim que não seja ferido por eles. E a morte avizinha-se, e os homens não se apressam a dar-me o meu paizinho. Que tristeza! Não sabem o que é a dor. Não sabem quanto valem as luzes e conforto para uma alma.

— Perdoai-lhes, meu Jesus, eu espero em Vós, confio nas Vossas promessas divinas.

Durante esta noite, não sei se ainda era ontem ou se já pertencia a hoje, veio o demónio, veio desesperado, veio com todas as suas maldades, atormentou-me fortemente. Pegou o fogo e deixou em mim as suas manhas e, para disfarçar que não era ele, pôs-se ao largo. Só depois de eu muito lutar e de me parecer que tinha ofendido o meu Jesus tão gravemente é que ele se aproximou novamente a cobrir-me de insultos e a dar-me a afirmação de eu ter pecado. Estava num lago de suores na posição mais violenta que podia estar. Debaixo de mim um medonho abismo e muitos demónios em forma de esqueletos e de animais ferozes a atormentarem uma massa que lá estava. Ó meu Deus, que horror! Não podia falar nem gemer nem dar o mais pequeno movimento ao meu corpo. Pensei:

— Se me não valeis, meu Jesus, morro aqui. Valei-me, valei-me, vinde em meu auxílio.

Serenou tudo. Passados uns momentos, ouvi Jesus a dizer:

— Anjo celeste, anjo bendito, anjo que eu escolhi para guardares, guiares e amparares a minha vítima amada. Levanta-a, leva-a ao seu lugar.

No mesmo instante, sem me causar o mais pequeno incómodo, fiquei na minha posição. Mas logo em dúvidas e grande agonia. Jesus esteve em silêncio uns momentos e depois continuou:

— Não pecaste, minha filha: reparaste, consolaste, honraste o meu divino coração. Para as almas não sofrerem no inferno o que naquele abismo viste é que exijo de ti esta reparação. É fogo de vícios, são paixões, é a carne. Para reparar nesta matéria, só uma virgem inocente, só um enchente de fogo de amor pode apagar o enchente de vícios lodaçais. Tu és o brilho e encanto dos meus olhos. Sossega, sossega, não pecaste. Dá ao meu querido Padre Humberto a abundância do meu amor. Diz-lhe que estou com ele quando ora, quando trabalha, quando guia e encaminha para mim a tua alma. Dá-lhe por mim os meus agradecimentos.

Neste colóquio com Jesus, não tive medo d’Ele, mas logo depois voltei a sentir todo o meu martírio. De manhã cedo, principiei a sentir que Jesus chorava dentro em mim. Eu era a cidade de Jerusalém e era Jesus. Eu era o amor e a ingratidão. Do meu coração saíam para a cidade os mais doces e ternos olhares; eram olhares de chamamento, olhares de compaixão. Mas oh! o que eu via sair dali, que revolta contra mim. Ao cair da tarde, senti-me então reunida com os amigos. Ó meu Deus, o que se passou, que quadros tão diferentes. Eu era Jesus e contra o meu coração sentia inclinar-se alguém e eu era esse alguém. Eu era a mesa, eu era o pão e o vinho; eu era o cálice onde ele era deitado; eu era as taças onde se serviam os alimentos; eu era Judas, era tudo. Eu era a doçura e mansidão de Jesus; era o desespero e traição de Judas. Que noite, que santa noite, a maior de todas as noites, a noite do maior milagre, do maior amor de Jesus. O Seu Divino Coração estava preso àqueles que Lhe eram tão queridos. Para poder partir, tinha de ficar entre eles, para subir ao céu, tinha de ficar na terra; assim o obrigava o Seu amor divino. Sinto necessidade de esclarecer todas estas cenas, mas não posso, não sei. O olhar esgazeado do mau discípulo ficou gravado em meu coração e todo aquele silêncio profundo de saudosas despedidas. A amargura da minha alma não podia subir mais alto. E, para afirmar mais esta amargura, vieram os sofrimentos da terra causados. Juntei a dor ao sacrifício e quantas vezes em espírito, com os olhos fitos no céu, ofereci ao trono divino o cálice da minha amargura. (Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma de 8 de Março de 1945)

COMO A BORBOLETA LOUCA AO REDOR DA CHAMA

 – Querem flores, mas sem espinhos


– O Meu Divino Coração é amor, amor, só amor para com os homens. A retribuição destes é de ingratidão, maldades e crimes. Sou amor e amor venho pedir. Sou amor que consome e na mesma intensidade quero ser consumido. Como a borboleta louca ao redor da chama, anda o Meu coração ao redor, a bater à porta dos corações. A borboleta ama tanto, tanto, chega a consumir-se, a dar a vida. Eu amo mais, muito mais, infinitamente mais. E, por não serem abertas as portas dos corações, por não Me darem lugar em suas moradas, sofro, sofro tanto! Se não fosse Deus, morreria de dor. Uns recusam-Me, porque estão pervertidos; as suas consciências calejadas rejeitam-Me por completo; outros não Me atendem ainda, porque querem continuar nas suas paixões desordenadas. O inferno, o inferno, está aberto para eles. Outros recusam-me, porque não Me conhecem. Ainda mais outros não Me dão entrada, porque não querem sofrer. Querem flores, mas sem espinhos. Querem alegrias sem serem intercaladas pelas tristezas. Eu sou Jesus e como Jesus venho pedir-vos, venho mendigar; escutai e atendei a este mendigo divino. Venho a tiritar de frio, quero aquecer-Me nos vossos corações. Dai-Me amor, fazei com que Eu seja amado. Minha filha, minha filha, Jesus está no teu coração, à sombra de arbustos floridos. Jesus está no teu coração, com o jardineiro cuidadoso, cuidando e deliciando-Se com as flores. Aqui estou bem, aqui estou bem. Eu não Me delicio na tua dor, delicio-Me no fruto do teu sofrimento. Eu não quero fazer-te sofrer, mas quero salvar os filhos Meus. Dá-Me, dá-Me a tua dor. Deixa que eu faça de todo o teu ser uma bolinha dorida, uma bolinha ferida, em cada momento do dia e da noite. Já que te deste a Mim, com toda a generosidade e com todo o heroísmo, deixas de sofrer enquanto estiveres na terra, quando o homem deixar de pecar.

– Está bem, meu Jesus, está bem. Tudo o que fazeis é bem feito e é por amor. Vós sois o Senhor, e eu uma criatura Vossa. Vós sois tudo, e eu sou nada. Mas, ó meu doce Amor, tudo Vos entrego e aceito e estreito ao meu pobre coração. Entrego-Vos todo o meu viver, aceito toda a dor que me dais. Aceito-a, abraço-a só por Vosso Amor. Vede, Jesus, que não tenho nenhuma força para sofrer. Conto convosco, é de Vós que espero toda a graça.

– Vem, vem então receber a gota do Meu Divino Sangue. O Coração Divino de Jesus, unido ao da Sua vítima, formou um só coração. A gotinha do sangue correu. Levou para ti a vida, a ida divina, a graça divina, o amor divino. És forte, nada temas; tens contigo a força divina. Onde está a vida divina, está a verdadeira vida. Onde está o poder supremo, está a vitória e o triunfo de todas as coisas. Fica na cruz, minha filha. O mundo louco, o mundo perverso, desafia, desafia a justiça de Meu pai. Fica na cruz, o mundo louco, o mundo desvairado, não é salvo sem a tua imolação, sem a tua reparação. Não quero queixar-Me mais, por hoje, para não ficares em maior dor. Coragem, coragem. Alegra o teu Jesus.

– Obrigada, obrigada, meu Amor. (Sentimentos da alma: 2 de Maio de 1952 – Sexta-feira

VIA OS CRIMES DE TODA A HUMANIDADE

 Meu Jesus, sou a Vossa vítima


Na quarta e quinta-feira, quase em todo o dia, vi e senti a cabeça Sacrossanta de Jesus cravada de agudos espinhos, tinha-a apoiado sobre a mão, o que sempre impediu de eu Lhe ver os Seus divinos olhos. Só com a diferença: ontem de tarde, já pela noite dentro, aquela posição de Jesus levou-me ao Horto e ao Calvário, levou-me a ver todo o martírio. Vi Jesus no Horto a tremer e a suar sangue; vi os Seus cabelos colados ao rosto; vi Judas beijá-Lo. Até nos cabelos se distinguiam; uns de inocente, outros de maldição. Vi-O no Calvário, já na cruz e o sangue avançar por cima da cintura. Ali fiquei com Ele; e hoje ao mesmo lugar O fui encontrar. Vi-O crucificar, vi a cruz; não tinha lugar para mais espinhos; todo o Seu divino corpo ferido ali neles era desfeito. Custou-me tanto ver assim Jesus! Depois senti-O a Ele em agonia; e, ao pé da cruz, o Coração da Mãezinha a estalar de dor com mais três corações amigos, associados à dor da Mãezinha, que, cheia de agonia, levantava as mãos para Jesus, chorava e quase de dor expirava. Principiei a ver e a sentir a cabeça de Jesus a pender, a inclinar-se sobre o Seu peito e os Seus Santíssimos braços a despregarem-se da cruz. Jesus estava morto. E eu com aquela visão e sentimento pareceu-me morrer também. Já não ouvia o Seu brado e deixei de sentir a dor da Mãezinha. Senti inclinar-se a minha cabeça, desprenderem-se os meus braços, depois do corpo ter gelado. Não sei a quem foi entregue.

Passou-se algum tempo; veio Jesus, cheio de vida; deu-me a vida, e disse-me:

― Minha filha, minha filha, a vítima não pode sair, no momento, da sua imolação e sacrifício! És a Minha maior vítima, a Minha vítima mais amada; não podes ser libertada do teu martírio, porque o mundo não deixa de pecar. Eu não deixei aquela posição, em que Me viste, os espinhos não desapareceram da Minha Sacrossanta Cabeça, não levantei dos Meus divinos olhos as mãos, a Minha visão era outra; via os crimes de toda a humanidade, via a renovação contínua da Minha santa paixão, foi por isso que te fiz ver todo o Horto e Calvário. Tem coragem, porque Eu não sofri a não ser em ti. Tu sim, Minha querida redentora, Minha nova redentora, tu sim, sofreste; tu continuaste e continuas a Minha obra de salvação. Eu revestido de ti, contigo sofri, mas, sozinho, não. Não posso mais, estou cansado de sustentar o braço do Meu Pai! O mundo com os seus crimes está a acender o fogo, que o vai queimar. Não é fogo do Céu, mas sim da terra; por ele preparado, a reduzir a cinzas. Mas pode tomá-lo, deve tomá-lo como punição de Deus, como castigo divino. Esta guerra, esta revolta, Minha filha, não é do Céu mas sim da terra; é a guerra do pecado, é revolta contra Deus.

Senti como se se abrisse o Céu e travasse luta com a terra. Que guerra, que pavor!

― Meu Jesus, que quereis que eu faça; o que posso eu fazer? Não quero a Vossa dor, mas quero a salvação das almas. O que quereis, meu Jesus? O que quereis, meu Amor? Dizei-me o que quereis que eu faça.

― Eu queria, Minha filha, mas não para ficar oculto: depressa, depressa a revelá-lo ao Santo Padre. Eu sei que da primeira parte, que te vou dizer, nada consigo; é só para mostrar os Meus divinos desejos e o Meu amor às almas. Não são tantos os crimes e tanta a malícia do pecado, que só havendo 10 vítimas em cada nação, o mundo pode ser salvo. Mas vítimas puras; cheias de generosidade e amor. Mas não, não as encontro; não há quem aceite os Meus espinhos, não há quem queira as Minhas chagas, a Minha cruz, o Meu Calvário; não há quem se entregue a Mim pelas almas. Há muitas que querem sofrer e serem imoladas, enquanto que não chegam os sofrimentos e a hora da imolação. Mas ah! O que Eu espero é a segunda parte. Pede ao Santo Padre que lho pede Jesus; que apele para os sacerdotes, sobretudo das ordens religiosas, que, apesar de neles haver muita coisa, há muitos, que Me dão; que redobram de pureza, de fervor e de amor ao Santo Sacrifício da Missa.

Com essa pureza, fervor e amor, unido à Minha vítima, a quem fiz a entrega da humanidade, a quem dei a mais sublime missão, ela pode ser salva, salvar as suas almas. E não é essa, esposa querida, a tua ansiedade, o fim de todo o teu sofrimento?

― Sim, meu Jesus, eu quero salvar as almas, e por isso não me poupeis o meu corpo; eu não Vos recuso nenhum sofrimento, mas se pudesse ser tudo! Se eu pudesse consolar-Vos e amar-Vos, evitar todo o pecado, salvar todas as almas e poupar-lhes, aos corpos, os castigos! Perdoai-nos, perdoai-nos, meu Jesus; sou a Vossa vítima, tende de nós todos compaixão. Que dor no meu coração, que desolação a minha! Seja tudo por Vós, meu Jesus.

― Coragem, Minha filha! Essa dor é para nela ficares; não tenho vítimas generosas. Supre tu toda a generosidade. Confia, confia; a tua dor de alma e corpo é bálsamo de salvação. Para resistires à dor, para viveres e sempre em tuas veias correr o Sangue de Cristo, vou dar-te a gota do Meu Sangue divino. É o Coração do Esposo unido ao da esposa, e do Redentor à Sua redentora.

Jesus uniu os nossos Corações, pelo cimo do Dele deixou cair no meu a gotinha do Seu divino Sangue, e espalhou, ao mesmo tempo, sobre o meu peito uma labareda de fogo que dele saía.

― Vai, esposa amada; vai, leva esta vida e este amor. És o cofre das almas, a depositária de todas as maravilhas do Senhor. Vai em paz; quero em teus lábios sempre o sorriso, em todo o teu sofrer a tranquilidade e a alegria. Coragem! Jesus não te falta.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus. Conto Convosco, confio em Vós. Fiquei logo mergulhada em dor; sinto-me num mar de amargura, sinto-me num nunca acabar de trevas. Eu te quero, minha amada cruz. (Sentimentos da alma: 2 de Maio de 1947 - Sexta-feira)

DE MÃOS VAZIAS...

Quero fugir do mundo

Eternidade que tão à pressa passas; eternidade que nunca chegas. Passa, voa e eu voo com ela sem nada, de mãos vazias para dar contas a Jesus. Nunca passa, nunca chega a verdadeira eternidade que me vai dar o Céu.


Quem poderá viver assim, meu Jesus! Dai-me a Vossa graça sem a qual a vida neste exílio é de desespero; é morte. Quero voar para Jesus, quero amá-Lo e não sou capaz de formar para Ele o voo e de O amar com a ansiedade, que exige o Seu coração. Quero fugir do mundo, esconder-me dele e dele desaparecer, e nunca mais consigo. Um momento é uma eternidade; é um momento que nunca passa, que nunca tem fim. Só o momento de ver Jesus a pedir-me contas, a ver-me e a encontrar-me sem nada, só revestida da maior miséria é rápido, não se lhe dá tempo de Lhe dizer: quem sois Vós, Senhor, e quem sou eu; parai um pouco, e deixai-me cobrir ao menos com agasalho alheio; estou nua, Jesus. Meu Deus, que confusão a minha: não tenho tempo para nada! O que fiz eu da minha vida? Como aproveitei o tempo que me destes? Que horror, ó meu Jesus! Mas Vós sois toda a minha loucura; só por Vós quero sofrer, só por Vós quero amar, só de Vós quero falar e pensar; não quero outra vida, que não seja a Vossa. Sinto-me como se fosse um poço no qual nem um só momento cessam de tirar a água. Que movimento! Esta água, que é tirada, vai para cima, nela bebe quem quer; este poço é inesgotável, não seca mais, tem sempre a mesma água. Está em mim e não é meu; está em meu poder e não me pertence. Contudo estou ansiosíssima por repartir, por dar a beber a todos. Sinto que é água de salvação. Oh! como eu a queria dar! Dar do que me não pertence e não tenho escrúpulo; roubo sem medo de ser pelo dono castigada. Ó meu Deus, ó meu Jesus, queria dar tudo, tudo, toda esta água, queria nela mergulhar todo o mundo. Morre, Jesus; morre com ânsias!

(Sentimentos da alma: 2 de Maio de 1947 - Sexta-feira).

O CÉU É DELE, A COROA ESTÁ TECIDA

 Diz ao teu Paizinho

— Bem-aventurados os humildes e perseguidos pelo amor de Jesus. Esses é que são os eleitos do Senhor e os santos do seu divino Coração. Está quase finda a missão da crucificada de Jesus na terra. Jesus vai dar-lhe a morte mais encantadora, mais cheia de amor. Vem Jesus, vem Maria, vem José, toda a Trindade divina. Vêm os Anjos, vêm os Santos conduzirem ao Paraíso aquela que tanto amou Jesus na terra. Desce o Céu ao quartinho da heroína de Jesus. Que glória para Portugal, para o mundo inteiro! Que alegria e triunfo para o Paraíso.


Diz, diz, minha filha, ao teu Paizinho Eu que o amo, que é o filho predilecto da minha Companhia. Quanto mais o fazem sofrer, mais o meu divino amor se irradia nele. Jesus vai conduzir ao seu divino Coração a ovelha perdida; Jesus não demora. O Céu é dele, a coroa está tecida. É de espinhos, abrilhantada com as pedras mais preciosas. Diz, diz, minha filha, ao Sr. Doutor que o prémio que no Céu lhe está preparado é o maior que se pode dar à medicina. O Coração de Jesus está radiante com ele por todo o cuidado e esmero que tem tido com a crucificada de Jesus. Ele sentirá na terra a contínua protecção da salvadora da humanidade. Diz, diz, minha filha, à tua irmãzinha, à tua Çãozinha, que estão ao abrigo de Jesus, guardadas para sempre no seu divino Coração. Jesus será o prémio, a recompensa de todos os que sofrem com a sua benjamina. Jesus é tudo para as almas que a amam e que por ela são amadas.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus. Recompensai a todos por mim, pagai-lhes com o vosso divino Amor e permiti que eu lá do Céu a todos conforte e a todos assista em suas necessidades. Ó meu Jesus, conheço que sois vós; não posso separar-me da vossa divina presença. Quisera ir já convosco para o Céu.

― Mais um pouquinho e o dia chegará.

― Obrigada, meu Jesus.

(Sentimentos da alma: 2 de Maio de 1942 – Primeiro sábado)

sábado, maio 01, 2021

ALEXANDRINA E O MÊS DA MÃEZINHA

 Predilecção pelo mês de Maria


– Todos os anos, no mês de Maio, fazia o mês da Mãezinha. Gostava muito de o fazer sozinha: meditava, cantava, rezava e chorava algumas vezes ao mesmo tempo que pedia à Mãe do Céu que me libertasse da grande tribulação que estava a passar. Cantava o «Tantum ergo» como se estivesse na igreja e fosse receber a bênção de Nosso Senhor. Como não tinha o Santíssimo Sacramento em casa, nem nenhum sacerdote que me viesse dar a bênção, pedia a Nosso Senhor que ma desse do Céu e de todos os sacrários. Oh, que momentos tão felizes!... Sentia cair sobre mim todas as bênçãos e amor de Nosso Senhor! Nestes momentos, pedia a Jesus para abençoar toda a minha família e todas aqueles que me eram queridos.

Como não tinha nenhuma imagem da Mãezinha, nos primeiros anos, vinha uma de casa do Senhor abade – o Coração de Maria. Durante o mês, tudo estava bem, mas ao terminar sentia grandes saudades quando tinha de ficar sem a imagem. Principiei a pensar na maneira de arranjar uma que fosse só minha. Como não tinha dinheiro, várias pessoas ajudaram-me. Uma amiga deu-me umas franguinhas que minha irmã foi criando até porem ovos, para mais tarde nascerem pintainhos. Assim fui arranjando a quantia precisa para a imagem, redoma e altarzinho, etc. Não sei descrever a consolação que senti ao ver que possuía para sempre a imagem da querida Mãezinha e que ficaria a contemplá-la dia e noite. (Aurobiografias)

CHOREM OS MEUS OLHOS...

 Sorriam-se os meus lábios


Jesus, dai-me as vossas forças divinas, quero a minha dor e sem elas nunca o conseguirei. Chore o meu coração noite e dia se assim o quiserdes, mas alegrem-se os meus olhos, sorriam-se os meus lábios. Seja o vosso santo amor e as almas toda a base do meu sofrer. Estou como a pombinha que nos ares dia e noite bate as asas; não tem onde poisar, ampara-a o vosso poder. Faltam-lhe as forças, não pode continuar seu voo, cai por terra, não tem quem se compadeça dela se lhe faltais Vós. Jesus, sou eu que vagueio nos ares, sou eu a ser destruída pela tempestade, sou eu a mais indigna das vossas filhinhas sem luz e sem amparo. O Jesus, não sabia eu que ainda tinha tanto para Vos dar. Que grande é a minha ignorância! Pensava já ter-vos dado tudo; enganei-me, viestes agora fazer a última colheita. Colhei tudo, colhei depressa e colhei-me depois para Vós. Dei-vos definitivamente no dia 20, até quando mo quiseres dar, o meu Paizinho Espiritual. Dei-vos no dia 24 toda a correspondência que dele tinha, a qual me serviu de luz e encaminhou para Vós. Vistes bem quão grande foi o sacrifício, não pelo apego que às cartas tinha, mas sim por me serem pedidas em dias de tanta dor. Quando as tomei nas minhas mãos e para as unir a todas as atava com uma fita branca, ouvistes, meu Amor, o que ia dizendo? Jesus mas deu, Jesus mas tirou. Ao entregá-las para não mais lhe passar a vista dos olhos parece que todo o meu corpo estremeceu. Mas querendo fazer-me forte, murmurei sempre: Não é o meu Jesus digno de muito mais? Tudo é pouco para Ele que tanto me ama e tudo deu por mim; tudo é pouco para lhe salvar as almas. Depois disto, mandei que me tirassem da parede o seu retrato. Isto, meu Jesus, pouco ou nada podeis ter em conta; eu não tinha por ele a mais pequenina estima, de boa vontade o mandaria lançar ao fogo. A dor que me causou foi só por ver que até com isso pegaram, que até isso servia de base para fazerem a quem estava inocente. Meu Jesus, custa-me tanto servir de instrumento de sofrimento para os outros! Contemplai todo o meu sacrifício e lançai os vossos olhares divinos cheios de compaixão.

Está próxima, Jesus, a minha crucifixão. Vêde-me na cruz cravada convosco, de olhos levantados para o Céu, que já não vejo, a bradar sempre: Jesus, Jesus, porque me abandonaste? Estou sozinha, faltam-me todos os auxílios do Céu e da terra. Aceito para consolar-vos, tudo aceito, tudo sofro para que se fechem as portas do inferno.

Depois da crucifixão

Meu bom Jesus, velais sempre sobre mim, estais sempre a fortificar-me com a vossa graça e força divinas. Animastes-me dizendo :

— Minha filha, minha loucura, é na tua crucifixão que está toda a salvação das almas. É no teu duro penar que está a minha consolação e na tua completa imolação que está a minha glória, é no teu calvário que está a minha completa alegria. Coragem, coragem! Não te falta Jesus com a Mãezinha e o teu Paizinho. Tens em ti a graça divina.

Caminhei para o Horto. Não se podem comparar as agonias e tristezas humanas com as Vossas. Quanto sofrestes por meu amor. Terei eu coragem de negar-vos alguma coisa? Oh! não, meu Jesus, não. Dai-me força para que eu não use de tal ingratidão. As trevas do Horto eram aterradoras. Todos os sofrimentos eram pavorosos. Os pecados do mundo eram a prensa mais dura que apertava o meu coração e o Vosso. Era o pecado, só o pecado a causa de todos os sofrimentos; era o pecado que eu sentia a rasgar-me as veias; era o pecado que afastava de mim o Céu, deixando-me no maior abandono, obrigando-me a suar sangue. Foi o pecado, só o pecado o algoz de toda a Vossa Paixão. Quanto Vos devo, meu bom Jesus, por sofrerdes em mim e me associardes a Vós. Já não podia resistir mais e segredou-me a Vossa voz divina:

— Tens, minha filha, sempre à tua frente o amor do teu Jesus.

― Ó meu Amor, sinto desaparecer dia à dia, momento a momento, as forças do meu corpo e da minha alma! Só com Vós crucificado em mim poderei vencer. Eu já não vivo, porque tudo em mim é morte. Fui flagelada, fui coroada de espinhos, descansei no voso divino Coração; apertava-o com amor ao meu: prender-vos para sempre, não me separar mais de Vós eram os meus desejos. Tive uns momentozinhos que deixastes cair sobre mim a vossa divina Graça e uns raiozinhos do vosso Amor aqueceram o meu coração. Quando descansei na Mãezinha Ela unia aos meus os seus lábios santíssimos demorando-se assim todo o tempo do meu descanso. Isto não são consolações, meu Jesus, bem sabeis que tudo isso desapareceu para mim, são os auxílios que me dais, sem os quais era impossível a minha crucifixão. Fui para o calvário, a cada passo sentia-me cair por terra, a perder a vida. Estava pregada na cruz; das chagas escorria o sangue como dumas fontes. Os insultos que ouvia golpeavam-me todo o corpo. A dor do coração fazia-o ansiar com tanta força que parecia levantar-me o peito a pontos de o abrir. Chamar por vós, bradar ao Céu, tudo era inútil. Só trevas e abandono, só agonia mortal.

― Ó meu Jesus, passou a crucifixão, a noite já vai alta e no alto do calvário estou eu de braços abertos, na cruz pregada, na noite mais triste e tenebrosa a bradar sempre: Ó Céu, ó Céu, ó Céu que me abandonaste. Ó terra que me desprezaste e me odeias. O meu brado perde-se num mundo de abandono, o meu eco perde-se num mundo que não tem fim. Estou só, Jesus, a tiritar de frio e de fome. Estou cega, perdi a luz. Já não existirá no mundo, meu Amor? Todo ele é trevas, todo ele é cegueira. Juntai, meu Jesus, a este duro penar, a dor que me causa ao ser notada a falta do meu Paizinho aqui. Jesus, Jesus, permiti tudo, menos o escândalo; eu não quero que sejais ofendido, mas muito menos ainda naquilo que me diz respeito. Perdoai a todos, perdoai a mim e dai-me a vossa bênção, Jesus. (Sentimentos da alma: 27 de Fevereiro de 1942)

sexta-feira, abril 30, 2021

DÁ-ME AS TUAS MÃOS

Vem para a barquinha do Meu Coração Divino

Espinhos, sempre espinhos a penetrarem-me, a ferirem-me: é sempre a mesma vida. O meu calvário é só dor, só dor.


— Meu Deus, chegarei ao fim? Creio, creio e só em Vós confio.

Se esta minha palavra de “creio” fosse sentida, se, quando digo a Jesus que confio, soubesse que confiava, todo o meu calvário era suavizado.

— Oh! Não, meu Deus, não! Nada sinto, e parece que nada acredito! Este tormento de mentir aos outros e mentir a mim mesma e sobretudo a Vós, meu Sumo Bem, quanto me custa, quanto me custa!... Só vós o sabeis! Bendito sejais!

Envergonha-me ao máximo falar da minha cruz, sofrimento e calvário. É o meu pão. Outra massa não tenho; a dor, a dor… A minha loucura por Jesus, de O amar e de O fazer amado, de Lhe dar todas as almas, aumenta de dia para dia. Não tenho a mínima consolação nesta loucura, mas consome-me e nela me perco. É tal o abismo que desapareço. Mas a humilhação por as almas me rodearem envergonha-me de tal forma que também me faz desaparecer. Fica só a existir a minha miséria.

O meu sepulcro cá está na superfície da terra. Verdejam e vicejam flores à sua volta. Sinto e com os olhos da alma vejo que há quem cuide delas, mas não sei quem é. Eu, no meu ofício rude e penoso de cavador, continuo na mesma canseira, parecendo ter mundos e mundos sobre mim, tal é a profundidade em que trabalho. Os suores regam a alma e o corpo. A noite, as trevas aterradoras, a inutilidade e a morte caíram sobre tudo isto. Não vi, não vejo, não sou nada e nada tenho que dar ao meu Jesus. O meu brado não chega até Ele. As minhas lágrimas não O consolam. Ah! Se Jesus saboreasse em mim alguma coisa, não me importava sofrer. Assim também não me importo. Com o sentimento completo pelo abandono da terra a Ele me abandonei pela Mãezinha.

— Sou Vossa, sou Vossa, sempre a Vossa vítima. Ó Jesus, eu creio, eu creio!

Ontem, no meu horto, não tive coragem de Lhe dizer o meu “creio”. Chorei, uni-me aos Seus sofrimentos. Hoje, numa indizível amargura na viagem para o Calvário, amargura tão triste e dolorosa que me obrigava as lágrimas a regarem-me a face. Pelo Céu e terra abandonada não deixei de chamar por Jesus, mas com tal desfalecimento que nunca Lhe repeti a palavra “creio”. Num momento inesperado, senti em mim um amor tão forte, amor que não era meu, mas nele me mergulhei. Não por mim, mas por força estranha que n’Ele me mergulhou. Após uns momentos de experimentar este amor, ouvi Jesus a dizer-me assim:

— Amor, amor, amor, minha filha, sou Eu o amor que te atrai, sou Eu o amor por quem vives, a quem só amas, por quem enlouqueceste. Tem coragem! A tua vida é a vida mais imitadora de Jesus. Por ti Me enlouqueci. A Mim te assemelhei. Não duvides, nada temas. Tu vives a minha vida, a minha vida comunicas. A tua morte ressuscita e dá a vida às almas, depois de iluminadas com a tua cegueira. As tuas densas trevas são a luz do mundo.

Eu não tive a visão de Jesus; nem os olhos da alma, nem os do corpo viram. Quando Ele assim falava, fiquei sem o mínimo bocadinho do Seu amor, envolta no mar mais tempestuoso; as ondas debatiam-se com a maior fúria, enrolando-me, levando-me à profundeza do mar que não tinha fim. Os ventos sopravam, novas ondas debatidas traziam-me à superfície da água. Sem ninguém por mim, julguei-me perdida. Veio Jesus novamente.

— Minha filha, ó minha filha, vem cá. Dá-me as tuas mãos. Vem para a barquinha do Meu Coração Divino. Por Mim és salva como foram os meus apóstolos. Este mar é o mar das paixões, esta fúria tempestuosa é a fúria louca dos vícios. Acode ao mundo! Sustenta o braço da justiça de meu Pai! Tenho tantos espinhos e punhais no meu Coração!... Queres que eles passem para ti, como as setas do Coração Imaculado de minha Mãe?

Ainda não tinha pronunciado a palavra “sim”, mas o meu coração estava ansioso por a pronunciar e já os espinhos da cabeça sacrossanta de Jesus se deslocavam por si para a minha cabeça e os punhais para o coração. Jesus deu-me as setas da querida Mãezinha que tinha em suas mãos e com muito cuidado nas espetou no coração, enquanto eu Lhe dizia:

— Tudo quanto quiserdes. Sou a Vossa vítima!

Tudo isto se passou dentro do Coração Divino de Jesus. A tempestade estava serena. Tudo isto foi visto com os olhos da minha alma e mais ainda a forma como Jesus passou o Sangue para o meu coração. Fez do Seu uma pequenina e bela infusinha que tombou sobre o meu coração, e a gotinha do sangue caiu.

— Recebe a gota do meu Divino Sangue, a vida que vives, a vida que comunicas a milhares e milhares de almas que se abeiram de ti. Tem coragem! Tem coragem! Tende coragem! Nenhuma alma sai daqui (foi esta a minha promessa e Eu não falto) que vá como veio. Quantas ressurreições, quantas ressurreições! Em algumas daquelas mais renitentes, que parece nada aproveitarem, levam o remorso. Elas não querem ceder. O seu orgulho não quer baixar, mas a graça lá fica para mais tarde. Eu não te abandono. Minha Bendita Mãe não te abandona. Confia! Não Nos perdeste. Quanto maior é o sentimento da perda, mais Nos possuis. Como abandonar-te a ti a quem confiei que continues a minha obra de salvação! A tua vida vai ser sempre assim até ao fim. Não quero dizer que ainda não te sejam dados momentos de alegria, mas não para tu os sentires.

Recebe as carícias da minha Bendita Mãe. O teu adeus não foi até ao Céu. Ela virá ainda ver-te na terra. Recebe as carícias de Jesus com as da Mãezinha com os Seus ósculos santíssimos que trazia em Suas santíssimas mãos.

Disse-Lhe o meu “obrigada” para Jesus e para a Mãezinha. Fiz-Lhes os meus pedidos, mas já no mar tempestuoso com a mesma fúria e sem a presença de Jesus. Já lá vão muitas horas, a tempestade continua; os seus espinhos e punhais e setas da Mãezinha continuam a estar presentes no coração e a virem novos espinhos constantemente. O Senhor seja bendito! (Sentimentos da alma: 30 de Abril de 1954 – Sexta-feira).

FILHINHA, ESTOU A DELICIAR-ME NA TUA DOR

— Ó meu Jesus, é bem doce sofrer por Vós


Como hei-de caminhar! Como hei-de vencer tão grande dor! Como hei-de suportar tão aterradoras trevas! Só Jesus poderá valer-me, só Ele pode aguentar o peso da minha cruz. Passo horas e horas num brado de socorro. Apavorada de horrores e trevas e sem conseguir um momento de conforto e a sentir a alma rasgar-se, despedaçar-se em dor. De longe a longe, Jesus vai dando à minha alma um pouquinho de suavidade, dizendo-me do íntimo do coração:

— Coragem, filhinha, cá estou eu a deliciar-me na tua dor. O teu Jesus não te falta com a sua graça e o seu conforto.

— Ó meu Jesus, é bem doce sofrer por Vós; é bem doce o Vosso conforto, mas tudo desaparece nas trevas, tudo passa como se não fosse para mim. Parece-me que Vós existis só para me condenares e não para me salvares. Não há para mim mimos do céu nem da terra; para mim tudo morreu, tudo desapareceu na negra escuridão da noite. É sempre noite, em todo o mundo noite. Sinto todo o mundo a tremer apavorado; lá se vai ele a mergulhar no abismo da perdição. Eu quero acudir-lhe, quero salvá-lo e não posso. Sinto a sua perda, mas não o vejo para o agarrar, não vejo as almas, não vejo as prisões, as trevas não me deixam. Meu Deus, perdi a luz, perdi a vida. Pobre do meu coração em dor e em ânsias: dor por Jesus ser ofendido, dor por as almas se perderem; ânsias de amar a Jesus, ânsias de O ver amado, ânsias de salvar as almas. Que fogo consumidor! Sinto o estalar do rochedo por onde o fogo vai penetrando. Mas ah! é impossível estas chamas incendiarem tudo. E eu só enrolada, mergulhada sempre na negrura mais aterradora. Quando mais não posso, levanto os olhos ao céu e digo:

— Meu Jesus, sei, acredito, confio que estais em mim e sabeis que só a Vós quero amar e não Vos quero ofender.

E, descendo para baixo, imagino ver toda a humanidade e digo-lhe:

— Ó mundo, quero salvar-te, por ti, pela tua entrega a Jesus, quero sofrer tudo.

Dito isto, fico de braços caídos, como se no meu corpo não existisse gota de sangue. Nada feito, do mundo nada consigo. A minha prece não chegou ao céu, Jesus não a ouviu. Mas ah! tenho aqui um coração que palpita por Ele e Ele bem o sabe. Confio, confio; é Jesus e a Mãezinha que vão vencer as minhas trevas. São Eles que vivem, são Eles que sofrem em mim. Os ceguinhos que não têm olhos no corpo também se salvam. Eu perdi a luz da minha alma, maior será a compaixão de Jesus. Hei-de salvar-me e com Jesus hei-de salvar muitas almas. O demónio rodeou-me tanto durante a noite! Não foi um, foram muitos. Assustava-me tanto pelas formas com que se apresentavam! Um deles tinha uma tão grande e tão feia, quase me tocava com ela. O meu corpo ficou como se fosse uma casa com janelas por todos os lados; estas todas fechadas, mas todas rodeadas por eles. São como feras que querem lançar-se à presa, são ladrões que querem assaltar a casa, assassinos que querem matar quem nela habita. Que olhares tão maliciosos! Que gestos de tanta maldade!

— Não pecarei eu, meu Jesus? Tirais disto alguma consolação para Vós, algum proveito para as almas? Sou a Vossa vítima, guardai para Vós o meu coração, o meu corpo e a minha alma. Tende dó de mim, meu Jesus.

Parece-me que em nada falei verdade. (Sentimentos da alma: 30 de Abril de 1945)


quinta-feira, abril 29, 2021

ACEITO TUDO POR JESUS E PELAS ALMAS

 — Ó minha violeta escondida


Não é só a ignorância. As dores do corpo não me deixam falar das dores da alma. Que tormento, que tormento! Vou abafando e guardando para mim tudo aquilo que Jesus conhece e aceito tudo pelo Seu amor e pelas almas. Não tenho fé, não tenho vida de Deus. Se eu tivesse asas para voar ou ao menos para me sustentar… assim, como não tenho, vou caminhando sobre o ar, sem ter a que me agarrar. Lá vou de mundo em mundo, de abismo em abismo nestas trevas mais que pavorosas. Como a minha alma, aqui, exigia expandir-se e dizer muito! Minha alma, minha alma!... parece-me que não tenho alma, sem ter ninguém que me acuda! Vou sofrendo, sofrendo e repetindo o meu “creio”. Não há Horto, não há Calvário para mim. Meu Deus, como eu compartilhei de todos estes sofrimentos, e agora nada compartilho! A perda de Jesus, a perda da Mãezinha!... Meu Deus, eu creio!... e nos mundos, nos abismos das minhas trevas, hei-de chamar-Vos, hei-de bradar e bradar sempre. E assim o fiz, num abismo sem fundo. Chamei, chamei e repeti o meu “creio”. Lá veio Jesus. A Sua voz divina levantou-me do abismo.

— Vem, minha esposa amada. Vem, encanto do Paraíso. O Senhor baixou e penetrou em ti os Seus olhares. O Senhor baixou e escolheu-te, preparou-te para a mais sublime missão. Levanta-te, levanta-te desse teu abismo. Esta tua reparação é para arrancar do abismo do pecado, do abismo da perdição, tantas, tantas almas, o maior número de almas. Coragem, fá-las subir, deixarem a lama para, brancas, brancas como a neve, subirem pelos teus sofrimentos numa ascensão gloriosa para Mim.

— Ó Jesus, eu com certeza ofendo-Vos nesta vida sem fé, sem guia, sem amparo, sem luz. Como hei-de assim reparar? Como hei-de assim dar-Vos as almas?

— Coragem, minha filha, coragem! A tua fé é inabalável. Estás mais firme do que a rocha. É certo que Eu quero que sejas amparada por aqueles que eu coloquei no teu caminho. Eu quero, Eu quero e exijo que te seja dado aquele que Eu escolhi para amparar e guiar para Mim a tua alma. Fui Eu, fui Eu, foi a escolha minha. Ó minha filha, ó minha filha, como Eu sofro!... Oh! Com que dor Eu pedi e continuo a pedir. Principie, principie, principie a Igreja! Oh! O que se passa na Igreja! Avante, avante, Chefes da Igreja! Não descanseis na Vossa luta, na Vossa vigilância! O mundo, ai do mundo, se não arrepia caminho!...

Vi com os olhos da alma os maus-tratos dados a Jesus. Os Seus vestidos rasgados, o peito aberto, o Seu Coração Divino rasgado de cima a baixo, todo em sangue, todo em sangue, em atitude de quem contempla o mundo, derramava lágrimas sobre ele. Numa dor angustiosa quis curar-Lhe o Seu Divino Coração e enxugar-Lhe as Suas lágrimas. O meu pobre coração de gelo incendiou-se e foi com esse fogo que procurei curar tal ferida, enxugar lágrimas tão dolorosas. Ó Jesus, quisera dar-Vos tudo, toda a consolação, todas as almas e não tenho nada e nada posso. Jesus, mais sorridente, depois de receber o fogo do meu coração, continuou:

— Ó minha violeta escondida, o teu amor é puro, o teu amor é santo e santa é a tua reparação. É a afirmação do que não engana, é a afirmação do teu Esposo Jesus. Recebe a gota do meu Divino Sangue. Repara com ela tanta vida consumida pela dor. Coragem! Coragem! Tu és o cofre de Jesus, a depositária de todas as riquezas celestes. Enriquece as almas, enriquece as almas. Salva o mundo que é teu. Repete o teu “creio”. Confia! Confia!

Ficai comigo, Jesus, atendei os meus pedidos. Bem sabeis que em todos eles está a Vossa glória e a salvação das almas. Não tenho outro fim. Sou a Vossa vítima. (Sentimentos da alma: 29 de Abril de 1955 – Sexta-feira).