28 de junho de 2011

ESQUECI-ME DE MIM...

Ó Jesus, ó Mãezinha, só Vós sabeis

Estreito ao meu coração, sinto imensa necessidade de a ele estreitar uma coisa que perdi. Quantos abraços íntimos, o mais profundo que se pode imaginar, eu dou em mim em muitas horas da noite e do dia. Que tristes e saudosos são estes abraços interiores! Abraçar a quem? A alguém que me parece ter perdido. A Jesus e à Mãezinha. Ai, meu Deus, quanto eu sofro! Como aguentar a saudade desta perda, como aguentar a saudade destes tesouros, destas personagens divinas, que não servi como devia servir, que não amei como devia amar, que não me entreguei, não sofri por Eles como devia entregar e sofrer.

— Ó Jesus, ó Mãezinha, só Vós sabeis, só vós podeis avaliar a minha tristeza, a minha saudade, a minha dor. Eu quero-Vos, eu quero-Vos, velai por mim, não me abandoneis, vinde em meu socorro, não posso viver neste exílio sem Vós. Senhor, Senhor, perde-se o meu brado, o Céu tem sobre ele nuvens sobre nuvens, cadeias sobre cadeias, não chega lá o meu brado nem meus suspiros. A morte e a noite da minha alma são para mim horrores e pavores. Interiormente, os meus braços ficam assemelhados à cruz. Deixo-me crucificar, quero sempre a vontade santíssima do Senhor. Sou a Vossa vítima, sou e serei sempre a Vossa vítima. O meu coração anda como louco numa fome infinita, a correr o mundo, a romper montanhas, a atravessar mares, à busca de corações e de almas. Não posso deixar um só tresmalhado, não posso consentir que uma só alma se perca.

Que fadiga, Senhor! Como isto me consome! Seja tudo por Vosso amor. Ah! Se eu soubesse falar deste assunto, nunca mais deixaria de desfolhar as páginas do tal livro. Sinto uma humilhação, por vezes quase mortal, ao ver-me rodeada de tanta gente. Chego a ter medo de mim com a profundeza da minha miséria.

Pobrezinhos, os que vindes ver! Só coração sem vergonha nem temor fura, voa por toda a parte, quer saciar-se de ânsias tão infinitas, quer corações, quer almas, tudo, tudo, sem nada perder.
Que fazer, Senhor? Só o abandono e deixar-me levar por Vós e só em Vós confiar e esperar. O meu sepulcro mantém-se na superfície. Só eu na minha canseira, nos meus suores de alma, desci tanto, tanto, tanto desapareci, não sei onde vou, não sei falar de tal profundeza. Haverá mundo, haverá terra ou Céu? Eternidade a há, vivo-a. A inutilidade sinto-a. São estas duas coisas que me fazem de tudo miserável. Nem dor, nem amor, nem fé, nem confiança. De tudo e sempre sou roubada. Ai, a eternidade, ai, a eternidade desesperadora.
Sobre o meu horto e o meu calvário não faltou a voar a branca pombinha. O orvalho espalhou-o das gotas que produz o seu biquinho. Mais uma vez em mim o ninhinho foi feito. Mas ah! Eu não posso esquecer, nunca mais poderei esquecer os olhares penetrantes, perscrutadores que penetravam e perscrutavam toda a terra, todo o ser. Estes olhares viam a inutilidade do Horto e do Calvário, a perda do Sangue redentor. Eram olhares divinos e tais olhares produziram em indizível tormento, dor verdadeiramente infinita. Não podia mais resistir; pedi conforto ao Céu. Jesus veio, fez luz na sala do meu peito e retirou-se; a Sua vinda foi disfarçada. Animada por aquela luz, fui repetindo: creio, creio, Jesus, diz-me a minha fé que estais comigo. Louca por encontrar o meu Amado perdido, fui caminhando sempre, chamando: Jesus, Jesus, onde estais, Jesus?

Encontrei-me num bosque, entre o qual encontrei aquele que procurava. Tudo eram árvores espinhosas e sabes de espinhos penetradores. Todo o meu ser era sangue e em sangue encontrei todo o ser de Jesus. Ele a caminhar à minha frente dizia-me:

— “Estou aqui, estou aqui, vem cá, minha filha, estou aqui.”

Como num excesso de cansaço, sentou-se; as varas espinhosas atravessavam-no todo, o sangue escorria.

— “O mundo, os pecadores perseguem-Me, não escutam a Minha voz. Olha como Me ferem! Ai deles, se não atendem ao Meu chamamento, ai deles, se não se convertem! Salva-os, são teus; é tua a dor, é meu o amor.”

Esqueci-me de mim, dos espinhos que me feriam; com muito cuidado principiei a tirar todas as varas deles que feriam e atravessavam a Jesus. Quando O vi sem espinhos, vi-me sem Ele, tinha-me fugido. Continuei à sua procura, repetindo: creio, creio, Jesus. Veio então Ele ao meu encontro:
— “Colóquio de fé, colóquio de dor. Coragem, minha filha, o mundo é teu, é para o salvares. Consola-me e recebe a gota do meu Sangue Divino.”

Jesus uniu os nossos corações, tomou uma veiazinha do d’Ele, outra do do meu, fez delas como que um enxerto, a gotinha do Sangue passou. A minha alma teve de sorrir a esta operação.

— “Coragem, minha filha, escora firme da justiça de meu Pai. Afasta-a, afasta-a. Recebe o meu conforto e o da tua Mãezinha celeste. Serei, por mais vezes, o portador dela.”

— Obrigada, Jesus; dizei-lhe por mim o meu eterno obrigada. Lembro-Vos os meus pedidos e fico a repetir: creio, creio, creio!

(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 22/01/1954 – Sexta-feira)

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